“OS PENSADORES |
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TITO LUCRÉCIO CARO
ANTOLOGIA DE TEXTOS DE EPICURO
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DA NATUREZA
MARCO TÚLIO CÍCERO
DA REPÚBLICA
LÚCIO ANEU SÊNECA
CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA
DA TRANQUILIDADE DA ALMA
MEDEIA
APOCOLOQUINTOSE DO DIVINO CLÁUDIO
MARCO AURÉLIO
MEDITAÇÕES
EDITOR: VICTOR CIVITA
Títulos originais:
De Rerum Natura
De Republica
Ad Helviam Matrem de Consolatione
Ad Serenum de Tranquillitate Animi
Medea
Divi Claudi Apokolokintosis
Ta sic favtov (Meditações)
1.º edição — junho 1973
e — Copyright desta edição, 1973, Abril S.A.
Cultural e Industrial, São Paulo. Traduções publicadas sob
licença de: Editora Globo S.A., Porto
Alegre (Da Natureza); Editora Atena, São Paulo (Da República); Tecnoprint
Gráfica S.A. Edições de Ouro, Rio de Janeiro (Consolação a
Minha Mãe Hélvia, Da Tranquilidade da Alma, Medéia, Apocoloquintose do
Divino Cláudio); Editora Cultrix, São Paulo (Meditações).
SUMARIO
ANTOLOGIA DE TEXTOS DE EPICURO
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EPICURO
ANTOLOGIA DE TEXTOS
TITO LUCRÉCIO CARO
DA NATUREZA
Tradução e notas de AGOSTINHO DA SILVA
Estudos introdutórios de E. JOYAU e G. RIBBECK
ANTOLOGIA DE
TEXTOS DE EPICURO
FPICURO
(por E. Joyau)
Epicuro era de Atenas. Sua família pertencia ao demo de Gargetos; era nobre, ao que parece,
mas reduzida a grande pobreza; segundo certas tradições, remontava a Fileu, neto de Ajax. O pai
do nosso filósofo, Néocles, fez parte dos colonos que os atenienses enviaram a Samos em 352 a.C.
e entre os quais se realizou uma partilha de-terras. Foi aí que nasceu Epicuro, no ano terceiro da
109.2 Olimpiada (341 a.C.) no mês de Gamelion. Certos historiadores. entre outros Diógenes
Laércio, dizem que nasceu em Gargetos; parece, porém, que se trata de um erro. Mas se veio à
luz em Samos era incontestavelmente de pais atenienses e não tinham razão nenhuma os seus
adversários quando pretendiam que não era um verdadeiro cidadão. Por outro lado, foi completa-
mente por acaso que Epicuro nasceu em Samos, como Pitágoras, e não há razão alguma para que
se procurem no seu sistema vestígios de influência pitagórica. Néocles exercia o mister de mestre-
escola; sua mulher, Queréstrata, adivinhava o futuro; ia às casas dos pobres conjurar o mau-
olhado e atalhar as doenças; o filho acompanhava-a e recitava as fórmulas propiciatórias. Foi
isso, sem dúvida, o que lhe deu oportunidade de conhecer de perto as superstições populares e os
males que causa a credulidade dos homens.
Manifestou muito cedo a curiosidade do seu espírito. Não tinha mais de catorze anos, alguns
dizem mesmo doze, quando o professor de gramática citou diante dele o verso de Hesíodo No
princípio todas as coisas vieram do caos. “E o caos”, perguntou Epicuro, “donde veio ele?” O
professor ficou atônito; disse que não lhe competia resolver a questão e que erá necessário formu-
lá-la aos filósofos. Os estudos do moço foram, pois, orientados nessa direção; compreendeu a
importância e o interesse dos estudos filosóficos e foi escutar as lições das diferentes escolas. Foi
então que conheceu Nausifanes, discípulo de Demócrito, de quem se devia inspirar em muitos
pontos da doutrina. Ouviu um grande número de outros mestres sem se ligar a nenhum. Conhe-
ceu, pois, as filosofias anteriores, mas não se deu ao trabalho de as estudar, de as discutir a fundo.
Seria, segundo nos parece, perder tempo investigar sobre o que ele deve ou sobre o que ele critica
de cada uma delas. Os dois grandes sistemas de Platão e de Aristóteles teriam exigido, para serem
bem conhecidos e compreendidos, um exame longo e paciente; teriam merecido ser discutidos
ponto por ponto; Epicuro não se demorou nesse trabalho; talvez não fosse muito capaz de O exe-
cutar; em todo caso, não sofreu a influência destas duas doutrinas e não se inspirou nelas.
Aos dezoito anos de idade veio pela primeira vez a Atenas, mas não permaneceu na cidade
durante muito tempo. Foi então que travou relações com Menandro, que era da sua idade. Este úl-
timo, num epigrama que nos chegou em parte, aproxima Epicuro de Temistócles: o pai de um,
exatamente como o do outro, chamava-se Néocles; e, quanto aos dois filhos, “um de vós salvou
a pátria da escravidão, o outro da irreflexão”. Epicuro não pôde nesta época ouvir Aristóteles,
gue já se tinha retirado para Cálcis. Exerceu primeiramente, como seu pai, o ófício de mestre de
letras e de gramática; só mais tarde abriu escola de filosofia, primeiro em Lâmpsaco, depois em
Mitilene e Colofonte, por fm em Atenas; em 306 a.C., com a idade de trinta e seis anos.
Talvez tivesse vindo a esta cidade um pouco mais cedo e tivesse sido forçado a abandoná-la
bruscamente. Depois da tomada de Atenas por Demétrio Poliorceto, Sófocles, filho de Anticlides,
fez votar uma lei pela qual era proibido, sob pena de morte, abrir uma escola sem autorização do
Senado e do povo; todos os filósofos tiveram que abandonar a cidade. A lei foi promulgada logo
depois de derrubado Demétrio de Falero e de ter sido restabelecida a liberdade; da mesma manei-
ra tinha sido Sócrates condenado pélo tribunal dos Heliastas depois da expulsão dos Trinta Tira-
nos. É curioso notar como era fácil aos demagogos excitar a desconfiança do povo ateniense con-
tra os filósofos. Mas logo no ano seguinte, graças à intervenção do peripatético Filon, o decreto
foi revogado e Sófocles, convencido de ter violado as leis, foi condenado a uma penalidade de 5
12 EPICURO
talentos. Os filósofos puderam então reentrar em Atenas e não foram inquietados mais. Não
temos os elementos necessários para saber ao certo se Epicuro se contou entre aqueles a quem se
impôs o êxodo; neste como noutros pontos, a nossa curiosidade fica excitada no mais alto grau
e não encontra com que se satisfazer.
Comprou pelo preço de 80 minas (6 000 ou 7 000 francos) um jardim, isto é, àâma pequena
casa com um jardim, e foi aí que estabeleceu a sua escola. Que idéia deveremos fazer desses jar-
dins de Epicuro de que nos falam todos os escritores antigos e que lhes pareciam constituir notá-
vel inovação? Não era um parque: Cícero emprega muitas vezes, para OS designar, o diminutivo
hortuli: era uma propriedade para renda mais do que uma propriedade de recreio, porque Epicuro
no seu testamento fala dos rendimentos que dela recebia. É provável que as casas com jardim não
fossem raras em Atenas, porque a cidade não era muito povoada e as habitações não estavam
amontoadas umas sobre as outras; mas Epicuro, em lugar de reunir os seus auditores numa sala,
num ginásio ou num pórtico, dava-lhes lições ao ar livre; não fazia os seus cursos a certas horas,
mas passava todo o dia no jardim, falando familiarmente com uns e com outros, de modo que se
não via nele um mestre rodeado de discípulos, mas um grupo de amigos que filosofavam juntos.
A influência extraordinária que exerceu sobre os seus discípulos foi devida ao ascendente da sua
personalidade mais que às suas doutrinas; como o disse Sêneca, Metrodoro, Hermarco, Polieno
devem mais a terem frequentado Epicuro do que a seu ensino. É com efeito um dos caracteres
mais notáveis da escola epicurista esta amizade que não cessou de nela reinar, unindo por um
lado os professores e os alunos, por outro lado os alunos entre si. Todos os escritores da Antigui-
dade estão de acordo sobre este ponto; os adversários mais odientos nunca nos falam de dissen-
sões, de rivalidades que tivessem dividido os epicuristas: “Foi ele próprio um homem bom, e
houve muitos epicuristas. e ainda hoje existem, fiéis na amizade e em toda a sua vida graves e
constantes”.! Era de natureza terna, como o atestam a sua piedade com os pais, a sua bondade,
com os irmãos, a sua delicadeza com os escravos e em geral a sua humanidade com todos. Parece,
por outro lado, ter sido muito amável. Metrodoro de Lâmpsaco, desde o dia em que conheceu Epi-
curo, nunca mais o deixou, exceto para uma viagem que fez à sua pátria. Na carta a Idomeneu,
escrita mesmo no dia da morte, dizia ele: “Em nome da amizade que sempre me testemunhaste,
toma conta dos filhos de Metrodoro”
Segundo certos comentadores, Epicuro, além do seu jardim de Atenas, teria ainda possuído
uma casa de campo em Melite e tê- Ja-i -ia legado também à sua escola. Mas se examinarmos os pla-
nos de Atenas e da Ática que foram reconstituídos pelos arqueólogos, vemos que o nome Melite
designa não uma localidade distinta mas um bairro da cidade perto da porta ocidental. Achamos,
pois, que Epicuro não tinha duas propriedades, uma dentro, outra fora das muralhas, mas uma só,
compreendendo jardim e casa de habitação, situada em Atenas, muito perto da extremidade do
subúrbio.
Apesar das perturbações que afligiram a Grécia, Epicuro passou em Atenas toda a segunda
parte da sua vida, exceto duas ou três viagens que fez aos confins da Jônia, para visitar amigos.
Não se meteu em assuntos públicos, não desempenhou nenhum papel nas sucessivas revoluções
da sua pátria, não atraiu sobre ele próprio nem sobre os seus amigos o ódio de nenhum partido.
A sua carreira não foi, portanto, assinalada por nenhum acontecimento-importante e os historia-
dores antigos não nos contam a seu respeito nenhuma anedota interessante. Durante um cerco da
cidade, quando os habitantes sofriam cruelmente de fome, alimentou os seus discípulos parti-
lhando com eles as provisões de favas que tinha tido a precaução de pôr de reserva e dando aos
outros exatamente o mesmo que guardava para si próprio.
O êxito que obteve não foi efêmero; prolongou-se sem interrupção durante trinta e seis anos;
consolou Epicuro dos cruéis ataques de uma terrível doença, a pedra; suportou-a com uma grande
firmeza e morreu em 270 a.C., no segundo ano da 127.º Olimpíada, corn a idade de setenta e dois
anos. Dava desta firmeza sinais bem engenhosos e bem delicados. “Durante as minhas doenças”, .
escreve ele, “não falava a ninguém do que sofria no meu miserável corpo; não tinha essa espécie
de conversação com aqueles que me vinham visitar: não falava com eles senão daquilo que
desempenha na natureza o primeiro papel. Procurava sobretudo fazer-lhes ver que a nossa alma,
sem ser insensível às perturbações da carne, podia.no entanto manter-se isenta de cuidados e no
gozo pacífico dos bens que lhe são próprios. Ao chamar os médicos, não contribuía com a minha
fraqueza para lhes fazer tomar ares importantes, como se a vida que eles procuravam conservar-
me fosse para mim um grande bem. Mesmo nesse tempo vivia eu trangúilo e feliz.”
* Cícero, De Finibus, II, XXV,80,81.
ANTOLOGIA DE TEXTOS Es
A sua constância não se desmentiu mesmo no momento da morte; eis aqui a sua última carta
a Idomeneu: “Este dia em que te escrevo é o último da minha vida e é também um dia feliz. Sinto
tais dores de bexiga e de entranhas que nem se poderia imaginar dores mais violentas; mas estes
sofrimentos são compensados pela alegria que traz à minha alma a recordação das nossas conver-
sações”. Nos últimos tempos da sua vida, não podia nem sequer suportar os vestuários, nem des-
cer da cama, nem consentir luz, nem ver lume. Conta Hermarco que, depois de ter sido atormen-
tado por dores incessantes durante catorze dias, pediu que o metessem numa bacia de bronze
cheia de água quente para dar alguma trégua ao mal; em seguida bebeu um pouco de vinho, exor-
tou os amigos a lembrarem-se dos seus preceitos e nesta conversação terminou a vida. Guyau
compara a serenidade da morte de Epicuro à de Sócrates. Outros historiadores, pelo contrário,
foram até o ponto de dizerem que estas práticas constituíam um verdadeiro suicídio. Não somos
desta opinião: o recurso a urna morte voluntária em tais circunstâncias não teria estado de acordo
com os ensinamentos de Epicuro e nada na sua atitude, no decurso dos últimos tempos, nos auto-
riza a crer que ele queria ter dado a si próprio um desmentido tão. formal. Se tivesse tomado tal
caminho, ter-se-ia desacretidado aos olhos dos discípulos; a prova de que esta suspeita não pene-
trou nos seus espíritos ou não encontrou aí nenhuma aceitação é a própria persistência da escola
e da veneração pela pessoa do mestre.
Epicuro tinha três irmãos, que morreram antes dele: Néocles, Caridemo, Aristóbulo; Plu-
tarco cita-os como modelo de amizade fraternal.
No seu testamento preocupa-se com assegurar a perpetuidade da sua escola: os seus executo-
res testamentários deverão velar por que Os jardins fiquem propriedade da seita epicurista; serão,
pois, ocupados por Hermarco (Epicuro tinha primeiro designado como sucessor o seu amigo
Metrodoro, mas, como este morrera sete anos antes do mestre, este substituiu-o por Hermarco,
que tinha adotado todas as suas doutrinãs); depois dele, passarão àquele que lhe suceder como
chefe de escola: além disso, todos os epicuristas se reunirão lá periodicamente para tomar parte
em refeições em comum e para celebrar o aniversário da morte do seu chefe, de maneira a alimen-
tarem a amizade que os une. Esta amizade, como o faz notar Dugas,? tem caracteres muito espe-
ciais: “Nesta amizade entra o espírito de seita; os amigos devem ter a mesma fé filosófica... Põe
por condição à sua amizade que lhe abracem a doutrina; cumula de benefícios os filhos de Metro-
doro e de Polieno, mas exige deles que obedeçam ao seu sucessor Hermarco, que vivam e filoso-
fem com ele; quanto à filha de Metrodoro, estará também submetida a Hermarco; aceitará o ma-
rido que ele escolher e esse marido será epicurista”?. Esta cláusula foi observada durante muito
tempo. No entanto, na época de Cicero os jardins, que estavam então em muito mau estado,
tinham-se tornado propriedade de um romano, C. Memmius. Cícero escreveu-lhe para lhe pedir
que os restituísse à seita epicurista; não sabemos qual foi o resultado desta diligência.
Há mais ainda: Epicuro, que durante a sua vida tinha tomado a seu cargo os filhos do seu
amigo Metrodoro, recomenda-os aos seus executores testamentários, a fim de que lhes não falte
nada. Finalmente, dá a liberdade a quatro dos seus escravos, três homens e uma mulher.
Este testamento faz grande honra a Epicuro, porque está de acordo com toda a sua vida; não
podemos ver nele uma peça de efeito destinada a tomar de surpresa a admiração, e a perturbar o
juízo da posteridade. Se Epicuro reuniu à sua volta um grande número de amigos que lhe ficaram
fiéis, é porque de tal foi digno, é porque era na verdade um homem excelente e os seus inimigos
não puderam recusar-lhe este testemunho: “Quem nega que ele foi um homem bom, agradável e -
humano?” *
No princípio da edição das Animadversiones in librum Diogenis Laertii de Gassendi, publi-
cado em Lião, por Guill. Barbier, em 1649, encontramos um retrato de Epicuro segundo um origi-
nal conservado na coleção du Puy. Usener, no frontispício do seu volume, reproduziu, segundo
uma fotografia, um busto em bronze de Herculanum, publicado também por Comparetti e Petra.
Em uma destas imagens o filósofo é representado. de perfil, na outra, de frente. “A cabeça”, diz
Chaignet, “é forte; as feições, sobretudo o nariz, acentuadas; os lábios espessos; a expressão
calma, benevolente mais que severa, sincera e simples, mas sem espírito, sem graça e sem sorriso;
não é de admirar que, quando desejava ser amável e gracejar, os seus cumprimentos, como lho
censuravam, traissem o esforço e fossem um pouco pesados.”
*
? Dugas, L'Amitié Antique, 1.I, ch. WI, p. 33...
Cicero, OC Ji Cs
o ado
14 EPICURO
Epicuro tinha agrupado uma multidão de discípulos e depois da sua morte a prosperidade da
escola manteve-se até os últimos dias do paganismo, embora haja sem dúvida muito exagero nas
frases de Cícero e de Sêneca: “Realmente Epicuro, numa só casa e esta mesmo pequena, reuniu,
pelo consentimento de uma grande conspiração de amor, um elevadíssimo número de amigos; e
é isto o que mesmo agora acontece-com Os epicuristas”. O número de epicuristas despertava
provavelmente a inveja dos estóicos, cujos preceitos austeros não podiam ser Raso em prática
senão por um raro escol.
Segundo parece, Epicuro abriu a sua escola alguns anos depois de Zenão. Em todo caso, era
sensivelmente mais novo do que este último, e morreu muito antes dele, porque não viveu senão
setenta e dois anos, ao passo que Zenão atingiu a idade de oitenta e oito anos. No entanto, o epi-
curismo não foi uma reação contra a severidade dos estóicos e nenhum dos dois sistemas exerceu
qualquer influência sobre a constituição do outro; é provável que mais tarde não tenha acontecido
o mesmo, a luta entre as duas escolas rivais tornou-se cada vez mais áspera e mais encarniçada,
muitos homens, não se sentindo com forças de aderir ao estoicismo, lançaram-se na doutrina
oposta; mas não é a um sentimento desta natureza que se deve atribuir o aparecimento do
epicurismo.
O que nos impressiona primeiro é a docilidade com que os discípulos aceitaram as doutrinas
do mestre e as conservaram sem alteração. O epicurismo não tem história: está todo ele nos ensi-
namentos de Epicuro e o tempo não lhes trouxe nenhuma modificação; nenhum dos epicuristas
foi um filósofo original, nenhum procurou ganhar qualquer nomeada. No entanto, parece-nos
justo mencionar alguns dos discípulos imediatos de Epicuro.
Metrodoro de Lâmpsaco, a quem Cícero chama “quase um outro Epicuro” e a quem o pró-
prio mestre tinha conferido o título de Sábio. São algumas vezes apresentados como sendo dele os
fragmentos de um tratado Acerca das Sensações publicados no tomo sexto dos papiros de Hercu-
lano, mas a atribuição é duvidosa. Metrodoro morreu sete anos antes de Epicuro, que não deixou
de lhe cuidar dos filhos. Existe no Louvre um busto de Epicuro com duplo rosto, representando
de um lado o mestre, do outro o discípulo inseparável.
Polieno, que morreu também antes do seu mestre, era um distinto matemático. Hermarco de
Mitilene é muitas vezes designado pelo nome de Hermarco; mas, segundo Zeller, não devem sub-
sistir dúvidas sobre o seu nome verdadeiro; foi a ele que coube a direção da escola depois da
morte do fundador. Ao mesmo grupo pertencia ainda Colotes, contra quem Plutarco devia escre-
ver um livro quatrocentos anos mais tarde.
A admiração pelo gênio do mestre que Lucrécio exprime em tantos passos, a adesão sem
reservas à sua doutrina, são sentimentos comuns a toda a escola. Ficavam encantados pelos ensi-
namentos de Epicuro como se fosse pelo canto das sereias; recebiam como verdades incontes-
táveis os princípios formulados pelo mestre; a convicção que tinham era profunda, o dogmatismo
intransigente; aprendiam de cor as fórmulas do sistema e tinham um grande cuidado em não dei-
xar perder nada daquilo que o mestre tinha dito ou escrito; tocar num só ponto da doutrina era
a seus olhos um verdadeiro sacrilégio. “Epicuro”, diz Crouslê, “foi o fundador e o deus de uma
espécie de religião nova. .. os discípulos de Epicuro formavam na realidade uma pequena igre-
ja.” Esta docilidade é muito nova entre os gregos, cujo espírito era audacioso e independente. “A
aparição e o êxito do epicurismo atestam”, segundo Croiset, “um enfraquecimento notável do
pensamento especulativo da Grécia.”
A extrema docilidade dos epicuristas deu motivo a uma singular acusação, censuraram-nos
de terem considerado Epicuro como um deus'e de o terem adorado. Sem dúvida praticavam-se
nessa pequena sociedade certos ritos, realizavam-se reuniões para festas, para repastos em
comum, celebravam-se aniversários, rodeava-se de um verdadeiro culto a memória do mestre,
elevavam-se estátuas, os discípulos entusiastas traziam sempre sobre eles a sua imagem, ou então
um anel, como os escravos forros; diziam que era bem digno do seu nome de “auxiliador” (epi-
kourios). Alguns evidentemente não souberam parar a tempo em tal caminho; nos espíritos
medíocres a superstição depressa se vinga da abolição das crenças religiosas. Assim Néocles,
irmão de Epicuro, escreveu, segundo se diz, que a mãe tinha sido bem feliz por ter juntado no seu
seio os átomos que tinham formado um tal sábio. Quanto aos versos de Lucrécio, que iguala Epi-
curo aos deuses e o põe acima de Hércules ou de Ceres, não podemos ver nisso outra coisa que
não seja um brilhante desenvolvimento poético; o que o resto do poema nos faz conhecer do cará-
ter e dos sentimentos do autor não nos permite ter dúvidas sobre o sentido destas expressões.
Mas, segundo se afirma, um dia Colotes lançou-se aos pés do mestre e adorou-o; Epicuro
teve o maior cuidado em não o desenganar. Responderemos primeiro que esta anedota, embora
seja contada por Diógenes Laércio, não é talvez muito autêntica; pode ser que-tenha sido comple-
ANTOLOGIA DE TEXTOS 15
tamente inventada ou que ao menos o aspecto lhe tenha sido singularmente alterado pelos seus
adversários. Em todo caso, é única e é necessário que não tiremos dela conclusões exageradas.
Que Colotes, que era do número dos pequenos espíritos de que falávamos há pouco, se tivesse dei-
-xado levar por um entusiasmo irrefletido, que o próprio Epicuro tenha ficado um momento
embriagado pelo prestígio que lhe reconheciam os seus amigos — eis aí alguma coisa de muito
humano e esta fraqueza passageira não nos parece manchar seriamente o valor do sistema.
Tem havido grande indignação pelo fato de a escola estar aberta às mulheres e por várias
terem nela desempenhado um papel importante. Parece desconhecer-se a liberdade de que goza-
vam as mulheres na sociedade ateniense e o gosto que manifestaram algumas pela cultura intelec-
tual; parece esquecer-se sobretudo que Sócrates tinha prazer em conversar com mulheres, mesmo
com cortesãs, e especialmente com Aspásia. Havia um grande número de mulheres nas escolas de
Pitágoras e de Platão. Os costumes dos epicuristas não parecem ter sido diferentes dos dos seus
compatriotas e dos seus contemporâneos; seria muitíssimo injusto acusá-los de um crime de práti-
cas que a nossa moral condena, mas que não tinham sido eles a introduzir na Grécia. Nada é mais
falso do que o quadro delineado por vários escritores que representam o jardim de Epicuro como
uma espécie de local mal frequentado, como o teatro de encontros obscenos. Comparam-nos às
cavalariças de Augias, a um chiqueiro de porcos; dão pormenores precisos que fazem honra à sua
imaginação, mas não ao seu sentido crítico.
Acusam-se ainda os epicuristas de se terem entregue aos prazeres da mesa, de terem sido
familiares com todos os excessos do comer e do beber. É fácil dizê-lo, mas é difícil apresentar uma
prova. Diz-se que gostavam de se reunir para refeições em comum; mas qual era o cardápio des-
tas refeições? Eram festins, banquetes, cujo calor comunicativo provoca toda espécie de desvarios
de linguagem e de comportamento? Não eram, antes, reuniões cujo principal encanto residia no
prazer de se tornar a encontrar, de estarem juntos pela comunidade das idéias e dos sentimentos?
Da sobriedade do próprio Epicuro temos nós provas irrecusáveis: gastava pouquíssimo na sua
alimentação diária: “Hermarco”, escreveu ele, “gaba-se de gastar só um asse por dia na sua
alimentação; mas eu nem mesmo um asse gasto”. Contentava-se muito bem com pão e água; pede
a um dos seus amigos que lhe envie um queijo para os dias em que se quiser ofertar um mimo
especial. Não é pelo atrativo da boa comida que ele pretendia atrair os seus discípulos; era nestes
termos que ele resumia o programa da sua escola: “Estrangeiro, aqui te encontrarás bem: aqui re-
side o prazer, o bem supremo. Encontrarás nesta casa um mestre hospitaleiro, humano e gracioso,
que te receberá com pão branco e te servirá abundantemente água clara, dizendo-te: Não foste
bem tratado? Estes jardins não foram feitos para irritar a fome, mas para a apaziguar, não foram
feitos para aumentar a sede com a própria bebida, mas para a curar por um remédio natural e que
nada custa. Eis aqui a espécie de prazer em que eu tenho vivido e em que envelheci”
E certo que se não poderia dizer o mesmo de todos os epicuristas; houve muitos cujas desor-
dens explicam e justificam a má reputação da escola. Mas, como Sêneca nota muito judiciosa-
mente, não foi por uma fiel aplicação dos princípios de Epicuro que eles se abandonaram às suas
paixões; procuram, pelo contrário, colorir as suas paixões com o nome de epicurismo que eles
usurparam. Seria injusto tornar o mestre responsável pelo procedimento destes pretensos discípu-
los, tanto mais que os adversários do epicurismo abusaram estranhamente desta palavra: afeta-
ram confundir com os epicuristas personagens cujo procedimento e cujo caráter nada tinham de
filosófico, revestindo com o nome homens que não cuidavam de nenhum sistema nem de nenhuma
doutrina. Não nos venham, portanto, falar mais dos porcos do rebanho de Epicuro: estes porcos,
porque muitos não mereciam outro nome, não eram epicuristas.
Para bem se compreender o caráter do epicurismo, para lhe explicar o êxito maravilhoso Ê
duradouro, é preciso considerar as circunstâncias em que foi concebido e ensinado. Era alguns
anos depois das prodigiosas conquistas e da morte súbita de Alexandre, enquanto os generais
disputavam entre si e partilhavam a sua herança. As repúblicas gregas tinham perecido uma após
outra; já não havia em parte nenhuma nem liberdade nem vida política. A antiga religião já não
tinha crentes e não podia satisfazer aos espíritos. Também tinha passado o tempo das grandes
construções especulativas. Platão tinha morrido em 347 a.C., sete anos antes do nascimento de
Epicuro, Aristóteles em 322 a.C.; nenhum metafísico original lhes tinha sucedido. O pensamento
grego manifestava numerosos sinais de lassidão. Os filósofos que continuavam a ensinar na Aca-
demia e no Liceu não tinham iniciativa e cada vez amesquinhavam mais as doutrinas de seus mes-
tres. Já não havia interesse senão pelas questões que diretamente dizem respeito à vida prática; e,
como há duas espécies de espírito, duas maneiras de encarar a natureza do homem e as suas rela-
ções com o conjunto das coisas, surgiram dois sistemas opostos que foram acolhidos com entu-
siasmo por um grande número de adeptos, o epicurismo e o estoicismo: a origem e o desenvolvi-
16 EPICURO
mento destes dois sistemas são exatamente contemporâneos e paralelos. Ainda mais: o epicurismo
e o estoicismo são de todos os tempos; as duas doutrinas contam ainda nos tempos modernos um
grande número de partidários.
A. Croiset, na sua História da Literatura Grega, diz que o princípio da moral epicurista era
fundamentalmente perigoso e que fez ao mundo antigo muito mal. Pensamos, pelo contrário) que
a voga do epicurismo e, não hesitamos em dizê-lo, a transformação que ele sofreu são o efeito E
não a causa da decadência dos costumes. Eis o que sobre o assunto escreveu Curtius: “Todôs os
nobres sentimentos que tinham florescido na Grécia tinham a sua razão de ser na idéia de Estado.
Por isso, logo que o povo viu que lhe interditavam este terreno, logo que viu que já não tinha pá-
tria e que a própria vida municipal estava decaindo, perdeu todas as virtudes que tinha herdado
do passado. . . O bem-estar material, o conforto da vida de pequena cidade, eis o que a multidão
se pôs a procurar. Todos os nobres instintos se foram enfraquecendo de dia para dia”.
Droysen traça um quadro mais sombrio ainda do estado da Grécia no começo do século IV:
“As massas empobrecidas, imorais; uma juventude asselvajada pelo mister de mercenários, estra-
gada pelas cortesãs, deseguilibrada pelas filosofias em moda; uma dissolução universal, uma rui-
dosa agitação, uma febril exaltação a que sucedem a distensão e uma estúpida inércia, tal é o qua-
dro deplorável da vida grega nessa altura... (Em especial em Aterias) estas duas coisas, a
leviandade mais frívola e de maior abandono, e a cultura delicada, amável e espirituosa que se
designou depois com o nome de aticismo, são os traços característicos da vida de Atenas durante
o domínio de Demétrio de Falero. É uma questão de bom-tom visitar as escolas dos filósofos; o
homem da moda é Teofrasto, o mais hábil dos discípulos de Aristóteles, que sabe tornar popular
a doutrina de seu ilustre mestre, reúne mil ou dois mil alunos à sua volta e que é mais admirado
e mais feliz do que nunca o foi seu mestre. No entanto, este Teofrasto e uma quantidade de outros
professores de filosofia eram eclipsados por Stilpon de Megara. Quando Stilpon vinha a Atenas,
- Os artífices deixavam as suas oficinas para vê-lo e todos os que podiam acorriam para o ouvir; as
heteras afluíam às suas lições para O ver e para serem vistas em sua casa, para exercerem na sua
escola o vivo espírito que fazia o seu encanto na mesma medida dos vestuários sedutores e da arte
de reservar os seus últimos fayores. Estas cortesãs gozavam da companhia habitual dos artistas
da cidade, pintores e escultores, músicos e poetas; os dois autores cômicos mais célebres do
tempo, Filêmon e Menandro, louvavam publicamente nas suas comédias os encantos de Glicera
e disputavam- se publicamente os seus favores, prontos a esquecê-la por outras cortesãs no dia em
que ela encontrava: amigos mais ricos do que eles. Da vida de família, da castidade, do pudor já
se não fala em Atenas; talvez se mencionem; toda a vida se passa em frases e em ditos graciosos,
em ostentação e em agitada atividade. Atenas lança aos pés dos poderosos a homenagem dos seus'
louvores e do seu espirito e aceita como recompensa os seus dons e as suas liberalidades. .. Ape-
nas se temia o tédio ou o ridículo e tinham-se os dois até à saciedade. A religião tinha desapare-
cido e o indiferentismo do livre-pensamento não tinha feito senão desenvolver ainda mais a
superstição, o gosto da magia, das evocações e da astrologia; o fundo sério e moral da vida,
expulso dos hábitos, dos costumes e das leis, pelo raciocínio, era estudado teoricamente nas esco-
las dos filósofos e tornava-se objeto de discussões e de querelas literárias”. * “O epicurismo?, diz
por seu lado Denis. “não corrompeu nada e não matou nada na Grécia porque já não havia mais
nada para corromper € para matar”?
O mérito de Epicuro está em ter compreendido que havia alguma coisa que reclamava um
: grande número de espíritos e em ter-lhes dado satisfação de uma forma admirável. Muitos
homens, com efeito, preocupam-se acima de tudo em ser felizes; a felicidade é o último termo das
suas aspirações; mas, como são inteligentes, não podem recusar o terera em conta as exigências
do seu espírito; não poderiam ser completamente felizes se não dessem uma razão plausível da
sua regra de procedimento; sentem a necessidade de conceber uma explicação do espetáculo que
apresentam os seres e os fenômenos do mundo, mas não apresentam muitas dificuldades, não são
muito exigentes em matéria de explicação; contentam-se de boa vontade com a primeira teoria
que lhes propõem, que julgam compreender e que aceitam com confiança; não se dão ao trabalho
de a complicar, de 'a aprofundar; se as suas doutrinas apresentam algumas contradições, não dão
por isso ou não se inquietam com a sua resolução. O epicurismo trazia-lhes precisamente aquilo
que eles pediam: “Ó aberta e simples e direta via”, diz Cícero. º Na luta contra o estoicismo, os
* Droysen, Histoire de !'Hellénisme. Trad. Bouché-Leclerc, t. II, I. III, ch. UI. '
8 J. Denis, Histoire des Idées Morales dans s'Antiquité, ['Antiquité, Lp. 298.
“8 Cícero, De Finibus, IL XVII, 57.
ANTOLOGIA DE TEXTOS 1
epicuristas conservaram uma atitude mais defensiva que ofensiva; respondiam às acusações dos
seus adversários, mas de modo algum empreendiam a crítica dos dogmas sobre os quais estes fun-
davam o seu sistema. Tais homens, considerando a imensidade do universo e o pequeno lugar que
nós temos dentro dele, a impossibilidade em que nós estamos de triunfar sobre as forças e as leis
da natureza, não empreendem a luta; facilmente se acomodam com a nossa fraqueza, procuram
adaptar-se o melhor possível às condições que nos foram determinadas e fazem o possível por
passar agradavelmente o pouco tempo que nós temos para viver. Alguns dentre eles são homens
de um espírito muito fino e muito delicado; o que lhes falta é a energia da vontade. Muitas vezes
se lhes têm acusado de covardia: é proferir uma palavra bastante violenta que não parece justifi-
cada. O epicurista não é um covarde: primeiro, trabalha por se libertar dos temores que tornam
tão infelizes a maior parte dos homens; depois, se acontece ser atingido por algum infortúnio, pro-
cura consolar-se sem fazer esforços sobre-numanos e sem se enganar a si próprio com frases
ambiciosas. Compreende-se, pois, a aversão que inspira tal sistema aqueles cujo caráter é feito
sobretudo de altivez e coragem, que têm uma idéia mais alta da dignidade do homem, que não se
propõem outro objetivo senão o de ser fortes, e aqueles também que, convencidos de que o único
objeto digno de nós é o conhecimento da verdade, pôem as investigações científicas acima da
busca da felicidade.
Epicuro é um dos escritores mais fecundos da Antiguidade: tinha composto mais de trezen-
tos tratados e estas obras eram realmente dele, não-as aumentava por meio de citações tiradas aos
seus antecessores. Também Crisipo escreveu muito, porque não queria parecer inferior em nada
aos seus adversários; mas seus livros eram antes réplicas, polêmicas, do que exposições sistemá-
ticas; além disso, a sua abundância era mais aparente que real, porque muitas páginas estavam
cheias de citações tomadas aqui ou além.
Diógenes Laércio transmitiu-nos os títulos dum certo número de obras de Epicuro: um Tra-
tado da Natureza, em trinta e sete livros, sobre os átomos e o vácuo, resumo do que se escreveu
contra os físicos; objeções dos megarenses; dos deuses, da santidade, dos fins, das maneiras de
viver (quatro livros), da justiça e das outras virtudes, dos dons do reconhecimento, da-música;
depois, livros intitulados Queredemo, Hegesianax, Néocles, Euríloco, Aristóbulo, Timócrates
(três livros), Metrodoro (cinco livros), Andidoro (dois livros), Anaxímenes: é impossível arriscar
a menor conjetura sobre qual fosse o objeto de cada uma destas obras. Além disso, o mesmo
historiador reproduz textualmente, como já o dissemos, uma carta a Heródoto, uma a Pítocles,
uma a Meneceu, uma coletânea de máximas principais e o testamento do filósofo. Mas, ao passo
que os epicuristas estudavam religiosamente todos os escritos do seu mestre e não liam outros,
todos os outros filósofos professavam o mais profundo desdém pelos livros de Epicuro e de seus
discípulos. Os admiradores fanáticos de Epicuro dizem que ele arruinou a saúde à força de traba-
lhar; é provavelmente um erro; mas não menos falsa é a lenda segundo a qual as suas doenças
tiveram por causa a sua devassidão e o seu amor imoderado pelos prazeres da mesa.
Epicuro não deve ser contado entre os bons autores: desprezava a glória literária e não se
dava ao cuidado de apurar o seu estilo: “Não me dou ao trabalho de escrever”, dizia ele; “não
havia necessidade nenhuma de ter educação literária aquele que pretendia ser filósofo”. ” Improvi-
sava e não fazia correções. Fazia pouco caso das artes, o que se lhe censurou muitas vezes e o que
nos pode admirar da parte de úm grego. Não esqueçamos que, se Epicuro ensinava em Atenas,
não tinha nascido na cidade e não tinha passado nela a sua mocidade; a sua primeira educação
tinha sido muito sumária; é talvez por isso que o seu estilo e o seu gosto deixavam a desejar. Acu-
sam-no de escrever mal, de empregar termos baixos, locuções incorretas; outras vezes censuram-
no por ter introduzido vários neologismos: é esta uma crítica que se não pensaria em dirigir hoje
a um filósofo ou a um sábio. A maior parte dos antigos está de acordo em reconhecer-lhe o mérito
T da clareza; Cícero contesta-lho muitas vezes, mas não sempre: “Exprime nas suas palavras o que
deseja e diz claramente o que hei de entender”.º Parece, com efeito, que, dado o caráter que pro-
curou imprimir ao seu sistema e à espécie de discípulos a que faz apelo, o que ele pretende, acima
de tudo, é a clareza. “Tem nervo e energia”, diz Croiset, “mas, de nenhum modo, emoção ou
imaginação.”
As suas graças são raras e pesadas, e nada há nele que lembre a ironia socrática. Que há na
aparência de mais claro e de mais simples do que o epicurismo? Ao se refletir melhor apresen-
tam-se muitas difituldades e formulam-se perguntas às quais o mestre não dá senão uma resposta
* Cícero, De Finibus, IX, IV, 12.
* Cícero, op. cit. 1, V, 15.
18 EPICURO
evasiva: as explicações parecem-nos muitas vezes insuficientes, mas ele não se detém por tão
pouco. Certos autores, entre outros Plutarco, censuram-no por se não ter dado ao trabalho de
estudar e de refutar as teorias dos seus antecessores, sobretudo de Platão e de Aristóteles; é uma
crítica à qual não teria sido sensível, porque não fazia caso da erudição e declarava inútil a inves-
tigação curiosa da história. Não tinha estudado as matemáticas que são, segundo Platão, o vestí-
bulo da filosofia. Alguns comentadores, interpretando certos textos de Cícero, pensam que Epicu-
ro tinha um ensino exotérico e um ensino esotérico. Clemente de Alexandria diz que os epicuristas
tinham doutrinas secretas que não revelavam ao vulgo e tomavam o maior cuidado em não escre-
ver; não nos parece que isto seja verossímil.
Epicuro não é um filósofo original: nenhuma das suas teorias deixou de ser bem antes dele
ensinada por algum outro; e, no entanto, se não imaginou uma teoria própria sobre os princípios
das coisas, não nos apressemos a concluir que o seu gênio não era bastante poderoso para que o
fizesse; não dava, conforme dissemos, grande importância ao estudo das ciências naturais e não
lhes reconhecia valor senão na medida em que elas trazem à moral um auxílio necessário. Ocu-
pou-se, pois, longamente das questões de física; o seu tratado Da Natureza não tinha menos de
trinta e sete livros. Todos os historiadores estão de acordo sobre um ponto, o de que ele não fez
progredir nem a ciência nem a filosofia; mas também não manifestou nunca tais ambições. Gaba-
va-se, segundo se diz, de não dever nada a ninguém, de ser o único autor do seu sistema e não se
cansava de troçar, mais ou menos espirituosamente, de.todos os filósofos anteriores: não há nisto
uma contradição que não é precisamente em seu abono? Dizia que Nausifanes não era mais do
que um pulmão, sem dúvida por causa da força e da beleza da voz; Platão, um homem de ouro,
amigo do fausto; Aristóteles, um devasso, que tinha devorado todo o seu patrimônio; Protágoras,
um moço de fretes; Heráclito, um trapalhão; os Cínicos, os inimigos da Grécia; os Dialetas, uns
corruptores; Pirro, um ignorante e um homem mal educado; Demócrito, um mestre de primeiras
letras.
Em primeiro lugar, seria necessário saber — o que se não pode conseguir — a que se redu-
zem ao certo estas graças de que tanto se fala. Deveremos ver nelas afirmações que lhe eram habi-
tuais ou ditos lançados no decurso de uma conversação familiar e que foram repetidos por audito-
res divertidos, depois habilmente explorados pela malignidade dos seus adversários? Tomemos
cuidado, não sejamos induzidos em erro pelo aoristo de hábito: pode apresentar-nos como uma
linguagem habitual de Epicuro o que na realidade não disse senão urna vez; e ainda nos seria
necessário saber em que circunstâncias.
Com efeito, numerosos testemunhos nos atestam que Epicuro fazia um grande elogio de
Demócrito e declarava que muitas vezes se tinha inspirado nele; quanto a Nausífanes, tinha talvez
razões pessoais para lhe querer mal. É muito verossimil que perdesse a paciência ante os mesqui-
nhos ataques de seus adversários, que se não cansavam de lhe repetir o nome dos antigos filóso-
fos, pretendendo que os tinha pilhado sem misericórdia e que, passando da defensiva à ofensiva,
troçasse deles para separar a sua causa da dos outros. É provável que os discípulos tenham exage-
rado esta tendência do mestre e que se tenham divertido com pilhérias ainda mais irreverentes
contra homens pelos quais a maior parte dos seus contemporâneos professava um profundo res-
peito; mas trata-se de uma falta de gosto de que não devemos acusar o próprio Epicuro. Pode-se
também tomar num sentido favorável a frase de que nada tinha aprendido com mestre algum:
dizia e acreditava provavelmente que, se sustentava tal ou tal teoria, não era porque Demócrito ou
Aristipo lha tinham ensinado, mas porque ele próprio a tinha reconhecido como verdadeira; mas
nisto se iludia, porque não teria encontrado todas estas idéias se outros antes dele as não tivessem
tido e lhe não tivessem indicado o caminho. Quando sustentamos que Epicuro foi um grande
homem, não deixamos de reconhecer que foi um homem e que, embriagado pelo êxito da sua dou-
trina, pelos aplausos dos seus alunos, fez do seu mérito uma idéia demasiado alta, assim como do
seu papel e do valor do seu sistema. Longe de nós o pensamento de pôr de lado todos os ditos que
lhe atribuem; traem uma vaidade excessiva e sobretudo deslocada; mas parece-nos que esta vaida-
de é, se não desculpável, pelo menos explicável. Na sua' admiração exclusiva por Epicuro, Lucré-
cio exagera ainda esta reivindicação de originalidade e desconhece todos os antigos filósofos.
É esta uma censura que teremos de fazer várias vezes a Epicuro: não se deteve a tempo; tal-
vez julgasse que exagerando-o dava mais força ao seu pensamento. Condenou, assim, em termos
formais o estudo de todas as ciências e foi a instâncias suas que um dos seus amigos, Polieno,
renunciou a cultivar as matemáticas. Na verdade, não fazia mais do que retomar a opinião de Só-
crates; ensinava este que os homens fazem mal em perder tempo com buscas só determinadas pela
curiosidade sobre assuntos que lhes importam pouco ou mesmo nada, quando deveriam concen-
trar todos os seus cuidados sobre as coisas que dizem respeito à sua felicidade.
ANTOLOGIA DE TEXTOS 19
“Os filósofos pós-aristotélicos”, diz Brandis, “fizeram como Sócrates: tornaram a trazer a
filosofia do céu à terra.” É impossível ir mais longe sem se contradizer abertamente; não se pode-
ria formular uma teoria moral. senão apoiando-se numa filosofia e, por seu turno, a filosofia não
sabe senão o que a ciência lhe ensinou. Epicuro reconhece-o, visto que se deu ao trabalho de edifi-
car um sistema completo; vê como é exigente a curiosidade do espírito, mas imagina que se pode
contentar com uma satisfação qualquer e não acredita que a fraqueza da sua física possa compro-
meter a solidez da sua moral. Pensa mesmo que a investigação profunda das dificuldades cienti-
ficas pode prejudicar a retidão natural do espírito e que os que mostram mais bom senso são
aqueles que menos se importam com ciência. O tom de Epicuro é sempre muito afirmativo; tem
horror do ceticismo. Esta teoria, diz ele, é contraditória: como é que um homem pode saber que
não sabe nada? O que ele principalmente censura no ceticismo é o não poder fundamentar uma
regra de procedimento, porque sempre procedemos segundo aquilo que acreditamos; a ética deve,
portanto, ter por base um conjunto de convicções bem firmes. Os seus discípulos são ainda mais
dogmáticos do que ele; Lucrécio cónsidera este sistema como a expressão da verdade absoluta.
Aristóteles tinha proclamado a independência e a legitimidade dos estudos especulativos;
tinha posto a necessidade de saber num lugar principal entre os apetites naturais do homem, e
tinha sustentado que o esforço que despendemos em contentá-lo é o mais nobre emprego que
podemos dar à nossa atividade, que as ciências devem ser mais estimadas quanto mais inúteis são,
e, por fim, que as virtudes teóricas são mais perfeitas do que as virtudes práticas.
A doutrina de Epicuro é muito menos ambiciosa; a vida prática deve ser não somente a
nossa principal mas também a nossa única preocupação. A filosofia não é uma ciência, é uma
regra de procedimento: “Epicuro dizia que a filosofia era uma atividade destinada a estabelecer,
por meio de raciocínios e de discussões, uma vida feliz”.º Devemos filosofar não em palavras mas
em atos; a filosofia não deve ser uma ciência de que se ande fazendo gala. Epicuro escrevia a Pito-
cles: “Meu caro, foge a todo pano da ciência”. Proscrevia também rigorosamente e pelos mesmos
motivos a cultura das artes. Eis o que ele dizia não somente da geometria, da aritmética e da
astronomia, mas também da música e da poesia: “De falsas bases nada pode vir que seja verda-
deiro e, se alguma coisa houvesse de verdadeiro, nada poderia trazer para vivermos com mais pra-
zer, isto é, melhor... Nos poetas não há nenhuma sólida utilidade e todo o seu deleite é
pueril”.'º Professava também um profundo desprezo pela investigação curiosa da história: visto
que o passado é passado, por que motivo nos temos nós de inquietar com ele?
Não estudaremos, portanto, os fenômenos físicos senão porque nos é impossível não darmos
por eles, não lhes procurar explicação, e somente na medida em que deles pudermos tirar qualquer,
indicação útil para o nosso procedimento. Epicuro sentiu, e isto nos mostra que era um espírito
verdadeiramente filosófico, a sede de unidade que atormenta a inteligência humana, a necessidade
de pôr de acordo as nossas crenças teóricas e os nossos princípios práticos, de alicerçar as regras
da nossa moral sobre uma concepção da nossa natureza e do universo em que estamos colocados.
Todo o sistema não é na realidade senão moral, teoria da felicidade; ora, não há felicidade posst-
vel para o homem enquanto está atormentado pelo medo da morte e pelo temor dos deuses; é pre-
ciso, portanto, libertá-lo desse medo, fazendo-lhe conhecer as leis e os princípios da natureza; por
fim, para fazer compreender a solidez das explicações que lhe formecem e para o garantir contra
as seduções do erro, é preciso determinar os meios que temos de conhecer a verdade e de a discer-
nir do que é falso. À canônica e a física são necessárias; mas, ainda mais uma vez, não as deve-
mos estudar senão pelos serviços que prestam à moral, e não devemos de modo algum inquietar-
nos com os problemas que não têm relações com a vida prática. O que faz o valor da canônica
é que ela fundamenta em nós a certeza; ora, a certeza é um dos contrafortes da felicidade, visto
que só ela dá a segurança e a ataraxia. A canônica, na realidade, não é mais do que uma parte da
fisica. A física liberta o homem dos preconceitos e dos terrores que o impedem de ser feliz; a
moral ensina-lhe de forma positiva os meios de chegar à felicidade.
Epicuro determinava assim o objeto das três partes da ciência: a canônica estuda “o juízo,
os fundamentos e os elementos da lógica”; a física, “a gênese, a destruição e a natureza”; a moral,
“o que se tem de adotar e o que se tem de evitar, a maneira de viver e os fins do homem”. Não
atribui às outras partes da filosofia senão uma importância secundária; não temos, pois, que nos
admirar se as suas teorias nos parecem fracas e facilmente criticáveis. Limita-se a afirmar que não
discute; acha que não vale a pena; tem pressa de chegar a questões verdadeiramente. sérias e
* Sexto Empírico, Adv. Math. (Ethicos),XI, 169.
1º Cícero, op. cit. 1, XXI.
20 EPICURO. |
interessantes. Mas achamos muito injusta a condenção que Ritter pronunciou em termos tão cate-
góricos: “Não podemos ver no conjunto das teorias de Epicuro um todo cujas partes estejam bem
ligadas entre si. É evidente que a canônica e a física não são mais do que um apêndice desastrado
da moral. Mas quem poderia fazer o elogio da moral de Epicuro, quer por causa das verdades que
encerra, ou mesmo pela sua originalidade ou até pelo encadeamento lógico que a domina? Pri-
meiro não a vemos original. .. Não se pode dizer que seja uma doutrina bem deduzida. .. Pare-
ce-nos uma doutrina de pouco valor científico”. !!
W Ritter, Histoire de la Philosophie Ancienne, II, 412.
|
ANTOLOGIA
| DE
TEXTOS DE EPICURO
I
A filosofia e o seu objetivo
,
Todo desejo incômodo e inquieto se dissolve no amor da verdadeira filosofia.
x
Nunca se protele o filosofar quando seié jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois
que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E
quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que
ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz.
| *
Deves servir à filosofia para que posse aleanca a verdadeira liberdade.
*
EA | E
Assim como realmente a medicina em nada beneficia, se não liberta dos males do corpo,
assim também sucede com a filosofia, se não: liberta das paixões da alma.
!
i *
Não pode afastar o temor que importáã para aquilo a que damos maior importância quem
não saiba qual é a natureza do universo e tenha a preocupação das fábulas míticas. Por isso não
se podem gozar prazeres puros sem a Eieneia da natureza.
| *
Antes de tudo, considerando a divindáde incorruptível e bem-aventurada, não se lhe deve
atribuir nada de incompatível com a imortalidade ou contrário à bem- -aventurança.
| *
Realmente não concordam com .a; 'bem- peseningança preocupações, cuidados, iras e
benevolências.
*
O ser bem-aventurado e imortal não tem incômodos nem os produz aos outros, nem é pos-
suído de iras ou de benevolências, pois é no fraco que se encontra qualquer coisa de natureza
semelhante.
*
Habitua-te a pensar que a morte nadá é para nós, visto que todo o mal e “todo o bem se.
encontram na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade.
%*
|
i
|
É insensato aquele que diz temer a mois; não porque ela o aflija quando sobrevier, mas por-
ZA EPICURO
que o aflige o prevê-la: o que não nos perturba quando está presente inutilmente nos perturba tam-
bêm enquanto o esperamos.
%
O limite da magnitude dos prazeres é o afastamento de toda a dor. E onde há prazer,
enquanto existe, não há dor de corpo ou de espírito, ou de ambos.
%*
A dor do corpo não é de duração contínua, mas a dor aguda dura pouco tempo, e aquilo que
apenas supera O prazer da carne não permanece nela muitos dias. E as grandes enfermidades têm,
para o corpo, mais abundante o prazer do que a dor.
*
O essencial para a nossa felicidade é a nossa condição íntima: e desta somos nós os amos.
a
Canônica ou teoria do conhecimento
Se recusas todas as sensações, não terás mais possibilidade de recorrer a nenhum critério
“para julgar as que, entre elas, consideras falsas. ;
xe
Da superfície dos corpos se desprende um eflúvio contínuo, que se não manifesta como dimi-
nuição, visto que se encontra compensado pelo afluxo e conserva durante muito tempo a posição
e a ordem dos átomos do corpo sólido.
A estas imagens chamamos simulacros.
*
A semelhança das imagens com as coisas que chamamos reais e verdadeiras não existiria se
não houvesse semelhantes emanações.
*
A falsidade ou o erro está sempre no juntar-se de uma opinião.
*
Não haveria erro se não concebêssemos também outro movimento em nós próprios, unido
com ele, mas distinto: por isto, se não ê confirmado ou desmentido nasce o erro, se é confirmado
ou não desmentido, a verdade.
*
Cingindo-se bem aos fenômenos, podem fazer-se induções a respeito do que nos é invisível.
x
Tem de saber-se extrair pelo raciocínio conclusões concordantes com os fenômenos.
%
A sensação deve servir-nos para proceder, raciocinando, à indução de verdades que não são
acessíveis aos sentidos.
*
É verdadeiro tanto o que vemos com os olhos como aquilo que apresnacmos mediante a
intuição mental.
*
|
|
|
|
E 1——— ss Ame o ni A
ANTOLOGIA DE TEXTOS 23
[Para a explicação dos fenômenos naturais] não se deve recorrer nunca à natureza divina;
antes, deve-se conservá-la livre de toda a tarefa e em sua completa bem-aventurança.
%e
aa recordar-se sempre o método da multiplicidade [de causas possíveis para os fenômenos
naturais).
*
Pelo contrário, quem só admite uma rejeita a evidência dos fenômenos e não cumpre a exi-
gência de examinar tudo o que é possível ao homem.
*
Adquire-se tranquilidade sobre todos os problemas resolvidos com o método da multipli-
cidade de acordo com os fenômenos quando se cumpre com a exigência de deixar subsistir as
explicações convincentes. Pelo contrário, quando se admite uma e se exclui a outra, que se harmo-
niza igualmente com o fenômeno, é evidente que se abandona a investigação naturalista para se
cair no mito.
HI
Física
Antes de mais, nada provém do nada, pois que então tudo nasceria sem necessidade de
sementes. E, se se dissolvesse no nada tudo o que desaparece, todas as coisas seriam destruídas,
anulando-se as partes nas quais se decompunham. E também é certo que o todo foi sempre tal
como é agora e será sempre assim, pois nada existe nele que possa mudar-se. Com efeito, mais
além do todo não existe nada que penetrando nele produza a sua transformação.
*
Também o universo é corpo e espaço: com efeito, a sensação testemunha em todos os casos
que os corpos existem e, conformando-nos com ela, devemos argumentar com o raciocínio sobre
aquilo que não é evidente aos sentidos. E se não existisse o espaço, que é chamado vazio, lugar
e natureza impalpável, os corpos não teriam onde estar nem onde mover-se.
*
Alguns corpos são compostos, e outros elementos dos compostos; e estes últimos são indivi-
síveis e imutáveis, visto que é forçoso que alguma coisa subsista na dissolução dos compostos; se
assim não fosse, tudo deveria dissolver-se em nada. São sólidos por natureza, porque não têm nem
onde nem como dissolver-se. De maneira que é preciso que os princípios sejam substâncias corpó-
reas e indivisíveis.
*
Não é necessário supor que num corpo limitado existam corpúsculos em número infinito
nem de qualquer tamanho. Por conseguinte, não só devemos excluir a divisão ao infinito, em par-
tes cada vez menores para não privarmos o todo da capacidade de resistência e nos vermos
constrangidos, na concepção dos compostos, a reduzir os seres ao nada mediante a compressão,
como também não deve supor-se que nos corpos limitados exista a possibilidade de continuar pas-
sando até o infinito a partes cada vez menores. Porque, se se afirma que num corpo existem
corpúsculos em número infinito e em todos os graus de pequenez, é impossível conceber como ter-
minaria isto, e então como poderia ser limitada a grandeza de cada corpo? Qualquer que fosse a
grandeza dos corpúsculos, também seria infinita a grandeza dos corpos.
f
Os átomos têm uma inconcebível variedade de formas, pois que não poderiam nascer tantas
variedades se as suas formas fossem limitadas. E, para cada forma, são absolutamente infinitos os
semelhantes, ao passo que as variedades não são absolutamente infinitas, mas simplesmente
inconcebíveis.
24 EPICURO
*
E deve supor-se que os átomos não possuem nenhuma das qualidades dos fenômenos, exceto
forma, peso, grandeza e todas as outras que são necessariamente intrínsecas à forma. Porque toda
a qualidade muda, mas os átomos não mudam, visto que é necessário que na dissolução dos com-
postos permaneça alguma coisa de sólido e de indissolúvel que faça realizar as mudanças, não no
nada ou do nada, mas sim por transposição.
*
E o todo é infinito, pois o finito tem um limite extremo e o limite extremo se considera com
referência a outro, visto que não tendo extremo não tem limite e não tendo limite é infinito e não
limitado. Além disso, o universo também é infinito pela multidão dos corpos e pela extensão do.
vazio. Se o vazio fosse infinito e os corpos limitados, estes não permaneceriam em nenhum lugar,
mas seriam levados a dispersar-se no vazio infinito, visto que não teriam nenhum apoio nem se-
riam contidos por choques. E, se o vazio fosse limitado, os corpos infinitos não teriam lugar onde
estar.
%*
Os átomos encontram-se eternamente em movimento contínuo, e uns se afastam entre si uma
grande distância, outros detêm o seu impulso, quando ao se desviarem se entrelaçam com outros
ou se encontram envolvidos por átomos enlaçados ao seu redor. Isto o produz a natureza do
vazio, que separa cada um deles dos outros, por não ter capacidade de nferecer resistência. Então
a solidez própria dos átomos, por causa do choque, lança-os para trás, até que o entrelaçamento
não anule os efeitos do choque. E este processo não tem princípio, pois são eternos os átomos e
o vazio.
*
E, além disso, necessário que os átomos se movam com igual velocidade quando avançam
no vazio sem que se choquem com coisa alguma; com efeito os pesados não se moverão mais
velozmente do que os pequenos e leves.
*
Hã também mundos infinitos, ou semelhantes a este ou diferentes. Com efeito, sendo os áto-
mos infinitos em número, como já se.demonstrou, são levados aos espaços mais distantes. Real-
mente, tais átomos, dos quais pode surgir ou formar-se um mundo, não se esgotam nem em um
nem num número limitado de mundos, quer sejam semelhantes quer sejam diversos destes. Por
isso nada impede a infinidade dos mundos.
*
É necessário crer que os mundos e toda combinação finita nascem do infinito.
%*
Todos se dissolvem de novo, alguns mais lentamente e outros mais rapidamente, sofrendo
um umas ações e outros outras.
*
E semélhante mundo pode nascer num mundo ou num intermundo (assim chamamos a um
intervalo entre os mundos), num espaço que contenha muito vazio — mas não no grande espaço
puro e vazio, como dizem alguns —, afluindo a ele princípios aptos de um mundo ou intermundo,
de um só ou de vários, fazendo, pouco a pouco. acumulações. conexões e transposições a outro
lugar, se assim sucede, e afluência de núcleos aptos até lograr o seu acabamento e a detenção do
seu crescimento.
x
A alma é corpórea, composta de partículas sutis, difusa por toda a estrutura corporal, muito
semelhante a um sopro que contenha uma mistura de calor, semelhante um pouco a um e um
pouco a outro, e também muito diferente deles pela sutileza das partículas, e também por este lado
capaz de sentir-se mais em harmonia com o resto do organismo. Tudo isto manifestam as faculda-
des da alma, os afetos, os movimentos fáceis e os processos mentais, privados dos quais morre-
ANTOLOGIA DE TEXTOS vo
mos. E é necessário admitir que a alma leva em si causa principal das sensações, mas certamente
estas se não produziriam se de algum modo não estivessem contidas no resto do organismo. E o
resto do organismo, tendo preparado esta capacidade causal, participa ele próprio, por meio dela,
de semelhante condição, mas não de todas as condições que ela adquire: por isso, quando a alma
se separa do corpo. este perde a sensibilidade. Efetivamente não tinha em si esta faculdade, mas
preparava-a para a outra, nascida juntamente com ele, a qual, posteriormente, pela faculdade
nela desenvolvida por meio do movimento, desenvolvendo imediatamente para si a condição da
Sensibilidade, dava participação ao corpo, por contato e correspondência, como já disse. É por
isso que a alma, enquanto permanece no corpo, nunca pode perder a sensibilidade, mesmo se
desaparece alguma parte do corpo, enquanto persiste uma excitação à sensação, mesmo se desa-
parece também alguma faculdade da alma em virtude de uma destruição do corpo. quer no seu
todo quer nas suas partes. O corpo, pelo contrário, mesmo que fique intato, quer no seu todo quer
nas suas partes, deixa de possuir sensibilidade quando dele se afastou O princípio que retém unida
a multidão dos átomos que constituem a natureza da alma. É, também. no entanto, verdadeiro
dizer-se que, logo que se dissolve inteiramente o corpo. a alma se dissipa. c disseminada perde a
sua força e os seus movimentos, de tal modo que também ela se torna insensível.
IV
Ética
Chamamos ao prazer princípio e fim da vida feliz. Com efeito, sabemos que é o primeiro
bem, o bem inato, e que dele derivamos toda a escolha ou recusa e chegamos a ele valorizando
todo bem com critério do efeito que nos produz.
|
Nem a posse das riquezas nem a abundância das coisas nem a obtenção de cargos ou o
poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a modera-
ção nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza.
%*
*
A ausência de perturbação e de dor são prazeres estáveis; por seu turno, o gozo e a alegria
são prazeres de movimento, pela sua vivacidade.
x
Quando dizemos, então, que o prazer é fim, não queremos referir-nos aos prazeres dos intem-
perantes ou aos produzidos pela sensualidade, como crêem certos ignorantes, que se encontram
em desacordo conosco ou não nos compreendem, mas ao prazer de nos acharmos livres de sofri-
mentos do corpo e de perturbações da alma.
*
A imediata desaparição de uma grande dor é o que produz insuperável alegria: esta é a
essência do bem, se o entendemos direito, e depois nos mantemos firmes e não giramos em vão
* falando do bem.
*
E como o prazer é o primeiro e inato bem, é igualmente por este motivo que não escolhemos
qualquer prazer; antes, pomos de lado muitos prazeres quando, como resultado deles, sofremos
maiores pesares; e igualmente preferimos muitas dores aos prazeres quando, depois de longa-
mente havermos suportado as dores, gozamos de prazeres maiores. Por conseguinte, cada um dos
prazeres possui por natureza um bem próprio, mas não deve escolher-se cada um deles; do mesmo
modo, cada dor é um mal, mas nem sempre se deve evitá-las. Convém, então, valorizar todas as
coisas de acordo com a medida e o critério dos beneficios e dos prejuízos, pois que, segundo as
ocasiões, o bem nos produz o mal e, em troca, o mal, o bem.
*
26 EPICURO
Formula a Seguinte interrogação a respeito de cada desejo: que me sucederá ge se cumpre O
que quer o meu desejo? Que me acontecerá se não se cumpre?
*
Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros são naturais e não necessários; outros
nem naturais ngm necessários, mas nascidos apenas de uma vã opinião.
*
Aqueles desejos que não trazem dor se não são satisfeitos não são necessários; o seu impulso
pode ser facilmente posto de parte, quando é dificil obter-a sua satisfação ou parecem trazer con-
sigo algum prejuízo.
x
Não deve supor-se antinatural que a alma ressoe com os gritos da carne. À voz da carne diz:
não se deve sofrer a fome, a sede e o frio. E é difícil para a alma opor-se; antes, é perigoso para
ela não escutar a prescrição da natureza, em virtude da sua. exigência inata de bastar-se a si
própria.
Realmente não sei conceber o bem, se suprimo os prazeres que s& apercebem com o gosto,
E suprimo os do amor, os do ouvido e os do canto, e ponhô também de lado as emoções agradá-
veis causadas à vista pelas formas belas, ou os outros prazeres que nasc em de qualquer outro sen-
tido do homem. Não é também verdade que a alegria espiritual seja a única da ordem dos bens,
porque sei também que a inteligência se alegra pelo seguinte: pela esperança de tudo aquilo que
nomeej antes e em cujo gozo a natureza pode permanecer isenta de dor.
*
HRS desei te angustias com as tuas angústias, te esqueces da natyreza: a ti mesmo te impões
infini $ desejos e temores.
*
Então quem obedece à natureza e não às vãs opiniões a si próprio se basta em todos os
casós. Com efeito, para o que é suficiente por natureza, toda a aquisição é riqueza, mas, por
coriparação com o infinito dos desejos, até a maior riqueza é pobreza.
*
E consideramos um grande bem o bastar-se a si próprio, não com o fim de possuir sempre
pouco, mas para nos contentarmos com pouco no caso em que não possuamos muito, legitima-
mente persuadidos de que desfrutam da abundância do modo Mais agradável aqueles que menos
necessidades têm, e que é fácil tudo o que a natureza quer e difícil o que é vaidade.
*
Se queres enriquecer Pítocles, não lhe acrescentes riquezas: diminui-lhe os desejos.
*
Encontro-me cheio de prazer corpóreo quando vivo a pão e água e cuspo sobre os prazeres
da luxúria, não por si próprios, mas pelos inconvenientes que os acompanham.
*
A quem não basta pouco, nada basta.
*
Não deves corromper o bem presente com o desejo daquilo que não tens: antes. deves consi-
gerar também que aquilo que agora possuis. se encontrava no número dos teus desejos.
*
Quem menos sente a necessidade do amanhã mais alegremente se prepara para o amanhã.
a
A vida do insensato é ingrata, encontra-se em constante agitação e está sempre dirigida para
o futuro.
ANTOLOGIA DE TEXTOS 2
%*
Recordemos que o futuro não é nosso nem de todo não nossó, para não termos de esperá-lo
como se estivesse para chegar, nem nos desesperarmos como se em absoluto não estivesse para
vir.
%*
“Cura as desgraças com a agradecida memória do bem perdido e com a convicção de que é
impossível fazer que não exista aquilo que já aconteceu.
%
Não são os convites e as festas contínuas, nem a posse de meninos ou de mulheres, nem de
peixes, nem de todas as outras coisas que pode oferecer uma suntuosa mesa, que tornam agradável
a vida, mas sim o sóbrio raciocínio que procura as causas de toda a escolha e de toda a repulsa
e põe de lado as opiniões que motivam que a maior perturbação se apodere dos espíritos. De todas
estas coisas, O princípio e o maior bem é a prudência, da qual nascem todas as outras virtudes; ela
nos ensina que não é possível viver agradavelmente sem sabedoria, beleza e justiça, nem possuir
sabedoria, beleza e justiça sem doçura. As virtudes encontram-se por sua natureza ligâdas à vida
feliz, e a vida feliz é inseparável delas.
*
A justiça não tem existência por si própria, mas sempre se encontra nas relações recíprocas,
em qualquer tempo e lugar em que exista um pacto de não produzir nem sofrer dano.
*
Entre os animais que não puderam fazer pactos para não provocar nem sofrer danos, não
existe justo nem injusto; e o mesmo sucede entre povos que não puderam ou não quiseram con-
cluir pactos para não prejudicar nem ser prejudicados.
*
Das normas prescritas como justas, o que é considerado útil nas necessidades da convivência
recíproca tem o caráter do justo, embora no fim não seja igual para todos os casos. Se, pelo contrá-
rio, se estabelece uma lei que depois não se revela conforme a utilidade da convivência recíproca,
então já não conserva o caráter do justo.
%
O sábio não participará da vida pública se não sobrevier causa para tal.
*
Vive ignorado.
*
Da segurança, obtida até certo limite pelos homens, deriva, cheia de força e de puríssima
facilidade de vida, a segurança da existência tranquila e afastada da turba.
*
Não realizes na tua vida nada que, se for conhecido por teu próximo, te possa acarretar
temor.
xe
A serenidade espiritual é o fruto máximo da justiça.
*
O justo é sumamente sereno, o injusto cheio da maior perturbação.
%
Realizará o sábio coisas que a lei proíbe, sabendo que permanecerão ocultas? Não é fácil
encontrar uma resposta absoluta.
28 EPICURO
*
O homem que tenha alcançado o fim da espécie humana será honesto mesmo que ninguém
se encontre presente.
*
As leis existem para os sábios, não para impedir que cometam, mas para impedir que rece-
bam injustiça.
x
De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a
aquisição da amizade.
x
Toda amizade é desejável por si própria, mas inicia-se pela necessidade do que é útil.
E
Não temos tanta necessidade da ajuda dos amigos como de confiança na sua ajuda.
x
Não é amigo quem sempre busca a utilidade, nem quem jamais a relaciona com a amizade,
porque um trafica para conseguir a recompensa pelo benefício e o outro destrói a confiada espe-
rança para o futuro.
*
No que se refere à amizade, não há que apreciar nem os que estão sempre dispostos nem os
que recuam, pois que por ela se devem afrontar os perigos.
*
A natureza, única para todos os seres, não fez os homens nobres ou ignóbeis, mas sim as
suas ações e as disposições de espírito.
%
Devemos escolher um homem bom e tê-lo sempre diante dos olhos, para vivermos como se
ele nos observasse e para fazermos tudo como se ele nos visse.
*
Não é ao jovem que se deve considerar feliz e invejável, mas ao ancião que viveu uma bela
vida. O jovem na flor da juventude é instável e é arrastado em todas as direções pela fortuna; pelo
contrário, o velho ancorou na velhice como em um porto seguro e os bens qué antes esperou cheio
de ansiedade e de dúvida os possui agora cingidos com firme e agradecida lembrança.
*
Recorda-te de que, ainda que sejas de natureza mortal e com um limite finito de vida, te
debruçaste, mediante a investigação da natureza, no que é infinito e eterno, e contemplaste o que
é agora, será e sempre foi no tempo transcorrido.
*
O sábio que se pôs à prova nas necessidades da vida, melhor sabe dar generosamente que
receber: tão grande é o tesouro de íntima segurança e independência dos desejos que em si possui.
*
Ele prefere a sabedoria desafortunada à insensatez com fortuna, ainda que pense que o me-
lhor de tudo é que nas ações o juízo sábio seja acompanhado da fortuna próspera.
*
Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou
quer € pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer,
é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impo-
tente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, O que é a única coisa compatível com Deus,
donde provém então a existência dos males? Por que razão é que não os impede?
DE o no PP E A pes cs
DA NATUREZA |
LUCRÉCIO
(por G. Ribbeck)
T. Lucrécio Caro, segundo o que parece mais provável, viveu entre 96 e 55 a.C. Por desgra-
ça, não conhecemos nem as circunstâncias da vida nem as etapas do desenvolvimento deste pode-
roso espírito. Alma naturalmente apaixonada, não deve ter entrado senão depois de lutas penosas
e de duras experiências no porto da verdadeira filosofia, em que vê a única salvação da humani-
dade oprimida e aterrorizada.
Lucrécio nasceu provavelmente em Roma, e é fora de dúvida que aí foi educado. Aí também
recebeu a sua alma sensível impressões feitas para abalar a crença num governo divino do mundo:
viu sucederem-se as guerras sangrentas contra os aliados, contra os escravos, contra os piratas,
contra os gladiadores, contra Sertório, a luta contra Mitridates, que sempre se renovava, mistu-
rada de reveses e de êxitos, as ruidosas agitações dos cidadãos no interior, as violentas batalhas
de partidos provocadas pela ambição desenfreada dos chefes, as terríveis chacinas de que Sila foi
o principal autor; em resumo, foi testemunha de todos os sintomas que anunciavam o próximo
desabar da ordem estabelecida. No meio destas procelas, o vazio formalismo da religião etrusca,
cuja doutrina pueril, toda feita de milagres e de presságios, servia apenas para aterrorizar e depri-
mir as almas fracas, devia excitar o desprezo e o desgosto no espírito de todo homem inteligente.
Depois da ruína da sua independência, as almas fatigadas dos gregos abraçaram com alegria
a resignação calma e a vida contemplativa que recomendava a filosofia de Epicuro. Os deuses,
cuja intervenção se tinha feito sentir tão pouco, não eram realmente destronados por esta doutri-
na: eram postos de parte. À criação não era sua obra; o Céu, a Terra, as plantas, os animais, O
próprio homem, tudo saiu do jogo etemo dos móveis átomos; tudo o que aparece, tudo o que su-
cede cada dia, tanto na natureza como na vida dos indivíduos e dos povos, é a consegtiência das
combinações incessantes e imperceptíveis de parcelas infinitamente pequenas que se encontram
no espaço.
Quanto aos deuses, cabe-lhes a humilde parte da felicidade contemplativa e, segundo o seu
exemplo, não há para os mortais felicidade maior do que a pacífica satisfação do homem livre,
que de si próprio goza, e que se entrega a uma serena contemplação, precavido contra os desva-
rios da imaginação e da paixão. Lucrécio estava bem longe de conceber o prazer no seu aspecto
carnal, como o faziam certos contemporâneos de espírito menos nobre que o seu, e entre outros
Pisão, o adversário de Cícero. A sua idéia era profunda e grandiosa. Ligou-se com fé robusta a
uma doutrina que afinal só oferecia à miséria humana a consolação de pregar que nenhuma
potência oculta nem malévola exerce a sua influência sobre a nossa vida e que a morte põe fim a
tudo. Acreditou fazer obra de redentor negando a existência de um reino desolado das sombras e
abalando os fundamentos da temerosa crença que ameaçava o defunto com todos os terrores de
uma noite eterna acompanhada de impiedosas torturas.
Sem dúvida já se tinha começado, no mundo culto, a fazer luz sobre este ponto; mas a vitória
só foi firmemente assegurada à razão pela prova científica do absurdo destas histórias de velha
ama. Quantos não havia que hesitavam entre o temor e a dúvida, e que no infortúnio ou nas
angústias da hora derradeira se deixavam cair de novo nas superstições da infância e do vulgo!
A estes fantasmas, a que escapou para sempre, Lucrécio os segue com um olhar cheio de ódio,
como a perseguidores de que se livrou, e combate pela sua fé com a paixão de um neófito.
As doutrinas de seu mestre, “honra da raça grega”, parecem-lhe mais certas que os oráculos
da Pítia. Segue-lhe os passos com entusiasmo respeitoso; vê nele o filósofo que descobriu o segre-
do da criação; graças às suas revelações desvanecem-se os terrores do espírito, entreabrem-se as
muralhas do mundo, aparece à luz a serena moradia dos deuses e nada mais vem perturbar a paz
da alma. Seguindo-o e esforçando-se por o imitar, quer por seu tumo empreender e elevar o facho
ERA LUCRÉCIO
da verdade para livrar os seus romanos do temor dos deuses, dessa gravis religio, dessa pesada
religião, que os oprime e que pesa sobre eles com muito mais força do que outrora sobre Os gre-
gos. Quer tornar a levá-los até a natureza, de que eles se afastaram; quer livrá-los dos seus piores
inimigos, o temor e a inveja, e acima de tudo do terror da morte.
Mas não encontra a paz da alma (pietas) nem na prece nem nos sacrifícios. Não há piedade
alguma em se mostrar frequentemente de cabeça velada, em se voltar para uma pedra, em se apro-
ximar de todos os altares, em ficar prostrado no chão, em estender as mãos diante dos santuários
dos deuses, em derramar sobre os altares o sangue de numerosas vítimas, em acumular votos
sobre votos; é preciso, pelo contrário, olhar tudo com absoluta calma (V, 1196 e segs.). O bem-es-
tar físico e a tranquilidade da alma, eis o que reclama a natureza humana, e o destino mais agra-
dável é habitar o templo da ciência e contemplar dessas alturas os desvarios da vida.
Lucrécio dedicou o seu poema a Mêmio, um jovem nobre que se consagrava aos assuntos
públicos. Era o futuro pretor da Bitínia, que iremos conhecer no círculo de Catulo? Não há possi-
bilidade de afirmá-lo. Lucrécio trata-o como a um discípulo que se procura ganhar para a filoso-
fia epicurista; mas a amizade que os unia não parece ter sido muito intima, porque, se exce-
tuarmos a introdução solene do poema, os passos em que o interpela, algumas vezes pelo nome,
não são destinados senão a reanimar a atenção do leitor.
Para o poeta a influência a exercer sobre a nação é muito mais importante, o que se com-
preende sem dificuldade. No princípio, é certo, permite-se, para agradar ao seu amigo, uma licen-
ça poética pela qual parece confessar ingenuamente que nele o poeta ainda não desapareceu por
detrás do filósofo: Lucrécio, que pretende curar os seus leitores da crença no poderio dos deuses,
na ação destes sobre o mundo e os homens, celebra numa esplêndida invocação à benéfica Vênus,
protetora da gens Memmia, a deusa cuja cabeça se encontra cunhada nas moedas desta família.
Louva-a como mãe dos romanos, filhos de Enéias, como prazer dos homens e dos deuses; é ela
quem povoa o mar € as terras que produzem as searas; é por ela que foi criado tudo o que vive.
Num quadro impressionante, descreve os ventos e as nuvens que fogem à sua aproximação, a
terra variegada que se cobre de flores, o mar e o céu que se riem, as aves que saúdam a primavera,
os animais que saltam alegres pelos pastos, todo o mundo, enfim, penetrado pelo seu poder. E
Vênus que deve ajudar o poeta na sua obra, porque sem ela não poderiam nascer nem as alegrias
nem as graças; a ela também compete exercer a sua força experimentada'sobre Marte, que muitas
vezes lhe repousa nos braços, dar a paz aos romanos nesses tempos funestos, a fim de que o poeta
possa trabalhar na sua obra e que o seu amigo tenha tempo livre para escutá-lo. É, numa só pes-
soa, a natureza criadora e a mãe do seu povo bem-amado, a quem o poeta, levado pelo entu-
siasmo do assunto e pelos seus cuidados de patriota, apresenta do fundo do coração a sua home-
nagem, sem que a razão reclame.
Como Lucrécio não tem por objetivo expor todo o sistema de Epicuro de uma forma rigo-
rosa e científica, mas sim dar paz aos espíritos pregando-lhes a sua doutrina, escolheu, “como a
abelha nas clareiras floridas” (III, 11), na vasta obra sobre a natureza, as “palavras de ouro”, e
deu-lhes uma ordenação apropriada ao seu fim. Em especial da física, cujas proposições basilares
repousam sobre a profunda doutrina atomística de Demócrito, decorrem para ele importantes
“conclusões práticas a respeito da indiferença dos deuses e da imortalidade da alma.
Só de passagem e episodicamente tratou de alguns pontos de ética; não foi até o fundo da
doutrina, que é a teoria do prazer. À teoria do conhecimento (canônica), de que Epicuro fez prece-
der as duas outras partes da sua obra, foi ele buscar o indispensável princípio da infalibilidade dos
sentidos para o expor onde era necessário, mas sem se demorar muito a desenvolver nos seus por-
menores e a provar esta verdade, que lhe parecia incontestável.
O seu verdadeiro fim, revela- -o Lucrécio, sem tardar, com o elogio de Epicuro: quando a vida
humana jazia por terra, oprimida pelo temor dos deuses, Epicuro fez tanto com a força do seu
espírito, que a religião foi por seu turno calcada aos pés, que nem o raio nem o trovão conseguem
já assustar o homem; pela força do seu espírito, Epicuro de tudo triunfou e a tudo penetrou; reco-
nheceu o que pode e o que não pode nascer, determinou exatamente o poder de cada ser e o limite
que lhe está fixado. Depois Lucrécio refuta a objeção de que é criminoso pensar segundo a razão
só pelo exemplo de Ifigênia (ou Ifianassa, segundo o nome que ele lhe dá), que é sacrificada só por
uma palavra dita por um padre; nesse ponto, pintou Lucrécio um quadro de beleza comovente e
verdadeiramente grega, cujos traços mais importantes se deviam encontrar nas estrofes do
Agamêmnon, de Esquilo, e na pintura de Timanto; mas o poeta romano, seguindo a sua própria
inspiração, fez dele uma criação nova.
Não podia escolher exemplo mais impressionante para mostrar a que atrocidades contra a
natureza o temor dos deuses tem conduzido os homens. Não havia ainda muito tempo que vítimas
DA NATUREZA ae
humanas tinham sido imoladas em honra dos deuses. E Lucrécio imediatamete trata, como de
uma segunda questão capital e decisiva para a felicidade da vida, do esclarecimento da natureza
da alma e de seu destino após a morte. “Porque, se os homens vissem diante de si fim certo de
seus males, teriam a força de resistir às superstições e às ameaças dos padres; sentem-se impoten-
tes porque julgam que têm de sofrer depois da morte castigos eternos.” Só então Lucrécio coloca
a pedra angular do seu edifício filosófico, ao enunciar a proposição “Nada pode nascer de nada”.
Hã corpos infinitamente pequenos e há o vazio que lhes permite moverem-se; cada um deles
é necessário ao outro e o completa. Estas moléculas primordiais são indestrutíveis e simples, sem
forma, a fim de se poderem transformar em todas as coisas. Nem a matéria nem o espaço têm
limites além daqueles que recebem um do outro; é sobre isso que repousa a eternidade da nature-
za. O segundo livro é consagrado a explicar o movimento e a combinação dos átomos para for-
mar Os corpos compostos. Movem-se os átomos, uns em virtude do seu próprio peso, os outros
pelo choque de outros átomos, não segundo a perpendicular, mas desviando-se muito ligeiramente
da direção normal. É daí que provém a diversidade das coisas, daquélas mesmo que se asseme-
lham, a sensação do que é agradável ou desagradável, a liberdade da vontade (251 e segs.). Mas
a variedade das formas é limitada, ao passo que a matéria é infinita para o desenvolvimento de
cada espécie. Ainda que cada coisa seja composta de elementos diferentes, não é certo que todos
os elementos possam entrar em todas as combinações. Os átomos são por si mesmos desprovidos
de cor, de temperatura, de sonoridade, de sabor e de cheiro. O sensível é, assim, composto do
insensível; mas nem todos os encontros de átomos produzem este resultado, que depende da
forma, do movimento, da posição dos átomos.
A morte é a dissolução dos átomos no ser vivo. Para dissipar o temor da morte, o terceiro
livro examina a natureza da alma e do espírito. Ambos são unidos por um laço indissolúvel, mas
é o espírito que domina; reside no peito, ao passo que as moléculas da alma se encontram espalha-
das por todo o corpo. O espírito não, pode ser senão material, mas é constituído de corpúsculos
de uma extrema finura e de espécies diferentes, e ora é um desses corpúsculos ora outro que pre-
domina; daí vem a diversidade dos temperamentos. Nascido com o corpo, o espírito cresce, enve-
lhece e morre com ele. Mas da sua mortalidade resulta que a morte não nos toca, o que não é uma
infelicidade.
O quarto livro trata das percepções. Da superfície das coisas desprendem-se simulacros
semelhantes a finas parúculas muito móveis. Os sentidos que os percebem são infalíveis e todas
as suas percepções são seguras, embora não seja fácil em todos os casos explicá-las racional-
mente. Depois de sucessivamente haver passado em revista as percepções dos sentidos da vista,
do ouvido, do gosto, do cheiro, o poeta explica os simulacros do pensamento, que são os mais
finos de todos. Movendo-se na presença da alma, produzem a vontade; dançam à volta da alma
no sonho (vem o sono quando a alma fatigada se retira sobre si própria).
O quinto livro tem por objeto as leis da criação. O mundo está destinado a perecer assim
como tudo o que é feito de partes e membros perecíveis. A natureza não é mais do que uma perpé-
tua agitação, um nascer e um morrer perpétuos. É por uma coincidência fortuita dos átomos que
a criação apresenta a sua forma atual, O autor descreve como a Terra, o éter, o mar, o Sol, a Lua
e as estrelas saíram do movimento dos átomos; explica a mudança das estações e demonstra que
tudo na natureza acontece na sua época fixa, segundo uma lei constante. Mas a Terra já fez mui-
tos ensaios infrutíferos, e muitos dos seus esboços não alcançaram nenhum resultado antes de ter
chegado ao seu estado atual. Coloca-se aqui a história da civilização, de que o poeta trata de leve
e os problemas de maior importância. O abrandamento e em seguida a efeminação dos costumes
são o resultado da vida doméstica e familiar. A natureza e a necessidade fizeram nascer, inventa-
ram as línguas. Chegou-se à crença nos deuses (e quanto mal não fez ela ao mundo !) pela imagi-
nação e pelos sonhos, e depois ao considerar-se a constância das leis da natureza; com efeito, não
se poderia negar que nos sentimos levados a acreditar num poder divino quando se contempla o
céu estrelado, ou quando se é testemunha de tempestades ou de tremores de terra. O trabalho dos.
metais (o poeta distingue as idades da pedra, do bronze e do ferro), as armas e a guerra, a fiação
e a tecelagem, as sementeiras e as plantas, tudo o que desenvolve e embeleza a vida, tudo foi a
pouco e pouco ensinado aos homens pela experiência e pela necessidade.
Finalmente, no sexto livro, Lucrécio, sem plano bem claro, explica diversos fenômenos natu-
rais: o relâmpago e o trovão, a formação das nuvens, a chuva e a neve, os tremores de terra, as
erupções do Etna, as cheias do Nilo, as emanações do lago Averno, as propriedades de certas fon-
tes, a força do ímã, enfim a origem das epidemias, como por exemplo a peste de Atenas. O poema
termina, sem verdadeira conclusão, pela descrição completa deste flagelo, segundo os dados de
Tucídides. Era a primeira vez que um romano empreendia explicar cientificamente fenômenos fi-
34 LUCRÉCIO
sicos, sem se afastar realmente um só instante de um mestre grego: esta obra de imitação e de
adaptação de idéias estrangeiras não deixa de ser, no entanto, um enorrne trabalho intelectual.
Não se trata de apreciar aqui, mesmo de passagem, o valor da doutrina filosófica exposta
por Lucrécio. Embora o conjunto não possa apresentar mais do que um interesse histórico, há nos
pormenores muitas idéias e observações justas a respeito dos fenômenos naturais. O poema, tal
como existe, não pode ser considerado uma perfeita obra-prima. Mas sabemos que o poeta mor-
reu antes de o ter completado, que a sua obra, que ficou assim no estado de esboço, não foi prepa-
rada senão depois da morte do autor, por Marco ou Quinto Cícero, « vemos claramente que foi
publicada sem grandes cuidados, depois de uma revisão muito rápida.
Encontram-se com efeito muitos passos em que faltou o trabalho final; notam-se omissões,
acréscimos, trechos empregados duas vezes, erros de composição, lacunas no pensamento e negli-
gência nos pormenores da forma; tudo prova que o trabalho, bem adiantado em certos pontos,
ainda não tinha, no seu conjunto, chegado à maturidade. A própria introdução, apesar do seu
exórdio brilhante, está mal ordenada.
Possuímos trechos que estão admiravelmente realizados, mas que se não encontram reunidos
num todo. O primeiro livro é relativamente mais perfeito que os outros e sobretudo que o sexto,
o que é natural tendo-se em vista as circunstâncias. O que assegura valor imorredouro à obra que
Lucrécio deixou em estado tão imperfeito é, além do entusiasmo do autor pela sua nobre empresa
e da sua fé ardente, o tom e o estilo elevados em que a sua doutrina de salvação foi concebida e
exposta, a elevação dos seus sentimentos, que se mantêm bem acima das paixões e das ambições
mesquinhas, o generoso ardor com que se compadece da vida e do destino da humanidade, a
imaginação e a emoção com que contempla na natureza os pormenores das menores coisas, por
fim, o dom de exprimir como um artista, com força e verdade impressionantes, as suas impressões
e as suas idéias.
No decurso do seu trabalho teve à vista os poemas filosóficos de um Xenófanes, de um
Parmênides, de um Empédocles; e não lhes eram desconhecidos os recursos artísticos por meio
dos quais os alexandrinos tinham dado à poesia didática um novo atrativo e um novo impulso.
Este gênero, hoje tão pouco apreciado, gozava na Antiguidade de urn prestígio por assim dizer
religioso. Apresentar-se como educador da nação, expor como uma revelação as idéias mais altas
do espírito humano sobre a vida e o destino, era a mais santa das missões; o tom profético e subli-
me do poeta parecia necessário para dar uma forma verdadeiramente digna e eficaz às obras deste
gênero, e isto mesmo no tempo em que a prosa já sabia servir-se da expressão científica.
A exemplo de Ênio, que fora o primeiro a, inspirado pelas musas e rivalizando com os gre-
gos, eternizar os altos feitos do povo romano, sentiu-se Lucrécio transportado pelo pensamento de
ser O primeiro a explicar aos romanos os segredos da criação. Animado pela esperança de imortal
renome, percorre, no domínio das Piérides, uma região que nenhum pé havia pisado antes dele;
alegra-se por ir tirar a sua água de uma fonte virgem, por colher flores desconhecidas e por tecer
com elas para si próprio uma coroa que nunca teve semelhante na fronte de um mortal (1, 922 e
segs.).
Salta aos olhos que, para expor com clareza e graça um assunto tão dificil, era necessária
uma arte sem igual. Tinha o poeta consciência das dificuldades que o seu tema apresentava. É por
isso que ele emprega todos os meios não só para se fazer ouvir mas também para agradar. Assim
como se unta de mel o bordo da taça em que se lançou uma bebida amarga mas salutar, para
fazê-la tomar às crianças, assim também Lucrécio atrai e prende pelos encantos da sua poesia,
ora graciosa, ora forte, o leitor que ainda não está acostumado a tão sérias reflexões.
Cada livro é precedido de uma introdução que, em tom naturalmente um pouco uniforme, é
consagrada à glória do mestre venerado, mas que faz vibrar de cada vez uma corda nova, sem
preparar sempre diretamente para o que se vai seguir. A calma contemplativa do filósofo esctare-
cido é comparada, numa bela imagem, à agradável segurança que sentimos quando da terra firme
contemplamos o mar furioso (II, 1 e segs.). Depois, eis que nos pinta a felicidade do sábio: dos
templos serenos da sabedoria, contempla a seus pés a agitação dos homens, as suas inquietas,
ambiciosas € egoísticas rivalidades; é simples e sem necessidades; estende-se à borda de um rega-
to, à sombra de uma árvore, para se deliciar com o encanto e a paz da natureza; sabe que os cui-
dados não cedem ante o esplendor das águas, nem ante o poder e a magnificência terrestres; só a
luz da razão os pode dissipar.
Em certas moedas de Mêmio está cunhada a cabeça de Hércules, e em outras a de Ceres, em
lembrança das festas desta deusa que um avô tinha organizado na sua edilidade; Lucrécio dirige-
se a seu amigo Mêmio para comparar os benefícios das duas divindades com os serviços do divi-
no filósofo que deu a paz à alma do homem, livrando-a dos monstros da paixão e do medo (V, 1
DA NATUREZA 35
e segs.). O poeta, dispondo-se a examinar a natureza da alma (NI, 31 e segs.), imputa ao cego
temor da morte a infâmia, assim como a ambição, a inveja e as dissensões civis, em resumo, todos
os males que a paixão engendra.
Ri-se, como Sócrates, dos cuidados que o homem toma com o seu cadáver, como se depois
da morte o cadáver tivesse ainda alguma importância (III, 868 e segs.). O pensador severo pros-
creve, não sem dureza, estas apreensões perturbadoras, que, no entanto, são tão naturais ao espí-
rito humano. “Já a casa te não dará o seu alegre cumprimento; já a tua excelente esposa, os teus
doces filhos não correrão ao teu encontro para te abraçar, nem encherão teu coração de uma ale-
gria silenciosa; já não realizarás gloriosas ações e já não servirás de apoio aos teus. Ó infelici-
dade, ó infeliz, diz-se muitas vezes, um dia cruel te roubou toda a felicidade da vida. Esquecem-se
de acrescentar: de todas estas coisas não te resta a mínima saudade.” — “Muitas vezes, quando
os homens estão à mesa, quando seguram os seus copos e lhes sombreiam os bordos com flores,
dizem do fundo do coração: o gozo destes bens é curto para os pobres mortais; um momento, e
tudo terá acabado e nunca mais os poderemos encontrar. Como se no seio da morte a sede ou
qualquer outra necessidade atormentasse estes desgraçados.”
Deste tom sério e enérgico eleva-se o poeta ao sublime quando, depois de ter provado cienti-
ficamente que a morte nenhum mal traz ao homem, dá a palavra à própria natureza (III, 929 e
segs.) para castigar a presunção e a loucura daquele que se prende à vida: “Por que é que tu não
sais da vida como um conviva saciado? Nada tenho que te oferecer; isto é sempre a mesma coisa.
Mas tu desejas sempre o que te falta (diz ela a um velho), tu desdenhas o que tens à mão; e foi por
isso que a tua vida decorreu imperfeita e sem encanto. É tempo de deixar lugar aos filhos, porque
assim o quer a lei da natureza: ninguém recebe a vida como propriedade plena; dela apenas temos
o usufruto”. Depois o poeta lembra a um interlocutor, que murmura, os grandes homens que mor-
reram antes dele: o excelente Ancus, tantos reis e soberanos, Xerxes, o grande Cipião, o Africano,
pensadores e poetas como Homero, Demócrito e o próprio Epicuro, que pelo seu gênio os eclip-
sou a todos como o Sol faz apagar as estrelas. “E tu queres te revoltar, tu cuja vida está quase
extinta ainda com teu corpo vivo, tu que dormes a maior parte do tempo e que sonhas quando
estás acordado?”
Com o temor da morte, os homens serão libertados ao mesmo tempo das angústias que lhes
inspiram as torturas infernais, a não ser que o Inferno esteja no seu próprio coração. Como Tân-
talo, aquele que trêmulo pensa nos perigos do futuro vê por cima da cabeça um rochedo sempre
ameaçador; Tício é o infeliz devorado pelo amor; Sísifo, o ambicioso que não trabalha senão para
as honras e para o poder; o homem insaciável de gozos tira a sua água do tonel das Danaides, e
todos os castigos do criminoso se encontram nos tormentos da consciência. Em: resumo, “a vida
do Aqueronte realiza-se para o insensato ainda mesmo neste mundo?. Na pintura das paixões e
da loucura humanas, Lucrécio chega muitas vezes ao tom da sátira, mas dele se afasta pela eleva-
ção das suas observações penetrantes e profundas, assim como pela generosidade serena que nele
denota a simpatia dum conselheiro sincero mais do que a ironia e a exaltação do moralista.
Assim, Lucrécio fala da avareza e da ambição como dum fenômeno que se produziu na sua
altura na marcha regular da civilização. “Antes que fosse encontrado o ouro eram tudo a beleza
e a força. Mas depois os homens mais fortes e mais belos prestam homenagem ao rico; para quem
governa a sua vida segundo a verdadeira razão, é um tesouro para o homem o resignar-se a viver
com pouco, porque deste pouco raríssimas vezes se tem falta. Mas quer-se ser ilustre e poderoso,
para estabelecer a sua fortuna sobre fundamentos duradouros e passar na opulência uma vida sem
cuidados: esperança vã! As lutas dos homens para atingir o cume das honras tornaram perigosa
a estrada. A inveja, atingindo-os como um raio, precipita-os por vezes miseravelmente no Tártaro.
É por isso que mais vale obedecer e viver em paz que querer possuir e comandar reinos. Deixa-os,
portanto, perder o seu trabalho e seus suores de sangue lutando na estreita vereda da ambição,
visto que não sentem senão pelo gosto de outrem e mais regram os seus apetites pelas opiniões do
mundo do que por seus próprios sentidos. Isto é assim e sempre o será, como sempre o foi; a inve-
ja, semelhante ao raio, consome os cimos e tudo aquilo que ultrapassa o nível comum.” (V, 1111
e segs.)
O talento poético do autor mostra-se na sua luz mais graciosa quando, para animar O seu
assunto ou lhe dar relevo, vai buscar à vida e à natureza os exemplos que ora esboça em algumas
pinceladas, ora pinta em descrições completas. Dá provas, neste caso, de profundo sentimento da
natureza, que observa com amor até nas menores coisas. Quer mostrar que na multidão infinita
das criaturas cada ser tem, no entanto, a sua estatura e a sua forma individuais: “Como poderia
de outro modo reconhecer a mãe seu filho e o filho sua mãe? Muitas vezes um vitelo cai morrendo
diante do altar sob a faca do sacrificador, enquanto a mãe a que roubaram o filho percorre o
36 LUCRÉCIO
verde campo, examinando no solo o sinal dos pés forcados; lança os seus olhares para todos os
lados na esperança de avistar o filho que perdeu, faz ressoar o bosque com as suas queixas inces-
santes e frequentemente retorna ao estábulo, atormentada pelo desejo de o rever. Nem as ervas
saborosas, nem a água da corrente, nem os outros vitelos que pastam pelo prado, podem alegrá-la
ou distraí-la” (II, 349 e segs.). Com que finura não soube o poeta pintar dois quadros diferentes,
um campestre e O outro militar, para mostrar ao leitor que massas em movimento, vistas de longe,
aparecem como pontos imóveis? Sobre a colina, são os carneiros que pastam e procuram de longe
a longe as ervas brilhantes de orvalho, são os jogos foliões dos cordeiros saciados; do outro lado,
as fortes legiões manobram em pleno campo com suas armas resplandecentes; o solo ressoa sob
os seus passos; as montanhas repercutem as sonoras vozes de comando, os cavaleiros volteiam.
em roda e de repente atravessam os campos a todo galope (II, 317 e segs.). As emanações da cor
são demonstradas pelo reflexo dos véus de púrpura que no teatro flutuam entre.os mastros a que
estão presos. A cena e as bancadas ficam inundadas por sua luz ridente (IV, 73 e segs.).
Lucrécio pinta com predileção os fatos que todos podem ver todos os dias e experimentar
por si próprios: a dança e os combates das partículas de poeira num raio de sol (IJ, 114 e segs.);
o esplendor do sol nascente e o claro canto dos pássaros (II, 144 e segs.); a borda do mar colorida
pelas conchas variegadas (II, 374 e segs.); a ilusão dos navegadores que julgam que as colinas e.
as árvores fogem diante deles, o erro das crianças que, depois de terem andado à roda, pensam
que os tetos ameaçam cair e que as colunas, como as paredes, giram à sua volta (IV, 385 e segs.);
as formas fantásticas das nuvens (IV, 134 e segs.); o efeito do vinho (III, 474 e segs.) — em resu-
mo, uma abundância inesgotável de imagens encantadoras dá sua graça à vasta construção da
obra.
Querem-se pinturas mais graciosas e acentos mais sonoros? Eis os timbales e os cimbalos,
eis o tilintar das armas dos curetas, que ressoam no cortejo da deusa frígia, mãe dos deuses, quan-
do o ídolo, colocado num carro puxado por leões, rodeado de servidores fanáticos, vai de cidade
a cidade, saudado pelas oferendas e pelas rosas da multidão devota. O poeta livre-pensador pinta
ironicamente, com brilhantes cores, estes delírios, para explicação de cujas origens recorre às ale-
gorias dos poetas gregos (II, 600 e segs.). Das fábulas dos gregos, naturalmente, nada aceita; por
isso, delas só fala de longe a longe e para as rejeitar, como ao mito de Faetonte (V. 397 e segs.).
Mas o coração se lhe abre quando narra as modestas origens'do canto pastoril nos tempos primiti-
vos e inocentes, quando pinta as alegres reuniões de camponeses em que nasceram o canto e a
dança, a ironia e a conversação (V, 1377 e segs.).
Depois, quando se considera a marcha do mundo, o desenvolvimento da humanidade, a
decadência dos costumes, então domina a nota melancólica, comum a tantos poetas e pensadores
da Antiguidade. O mundo, segundo Lucrécio, já envelhece, e torna-se rnenor. A terra está esgota-
da, já não produz senão criaturas raquíticas, e os campos exigem dos animais e dos homens um
trabalho forçado. O velho lavrador, sacudindo a cabeça, queixa-se de que foi inútil a obra de seus
braços; compara o presente com o passado e exalta a felicidade dos antepassados (II, 1150 e
segs.). A fecundidade luxuriante da natureza, excitada pela chuva que a Éter (pater Aether) derra-
ma no seio da Terra, nossa mãe comum, é admiravelmente pintada: “Elevam-se do solo as bri-
lhantes searas, os ramos verdejam nas árvores e por si próprios crescem e dão frutos; é de lá que
tira seu alimento a raça humana, é de lá que as cidades florescentes se adornam de uma seara de
crianças e que por toda parte as florestas cheias de folhagem ressoam ao canto de novos pássaros;
os rebanhos saciados repousam nos abundantes pastos, o alvo líquido do leite corre das tetas
cheias, e os filhotes recém-nascidos, embriagados com esta bebida generosa, saltam pela tenra
erva, com as pernas ainda fracas. Assim, nada se perde na natureza, mas uma coisa engendra a
outra e da morte de um sai a vida de outro” (I, 250 e segs.). O primeiro vagido da criança que vem
à Juz mistura-se às lamentações da agonia; e jamais noite sucedeu ao dia, jamais aurora seguiu-se
à noite, sem que tenham ouvido vagidos queixosos, misturados às lamentações, companheiras da
morte e dos negros funerais (II, 569 e segs.).
Com o amargo realismo de um conhecedor que pagou caro a sua experiência, Lucrécio des-
creve (IV, 1050 e segs.) o comércio dos amorosos, os seus desejos insaciáveis e insensatos, os
males físicos e morais em que eles incorrem: gastam as suas forças, vivem ligados ao menor sinal
do objeto amado; vai-se o dinheiro, abandonam-se os negócios, sofre a reputação. A fortuna
honradamente adquirida pelos pais dissipa-se em belos vestuários, em tecidos, em pedras precio-
sas; dão-se banquetes com coroas de flores e com perfumes, mas tudo em vão: do fundo da fonte
dos prazeres eleva-se uma amargura que sufoca o amoroso; censura-lhe a consciência a sua vida
devassa, ou então uma palavra ambígua que a amiga foi dizendo fica-lhe presa no coração e o
queima como fogo, ou, ainda, vem a descobrir qué os seus olhos se tornaram espertos demais, que
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DA NATUREZA E
ela segue com a vista outro homem, e até descobre no seu rosto os vestígios de um sorriso. São
finalmente inumeráveis os sofrimentos do amor infeliz! Por isso o autor aconselha constante-
mente que se evitem as armadilhas de Vênus e que se despedacem as suas redes quando nelas se
ficou preso. Basta abrir os olhos e verificar os defeitos do objeto amado em lugar de os desculpar.
Depois vem, segundo uma fonte grega, uma enumeração verdadeiramente espirituosa das
lisonjeiras mentiras inspiradas pelo amor. Por mais bela que seja a bem-amada, há, no entanto,
além dela, outras mulheres; não vivemos nós sem ela anteriormente? No fim de contas, não é mais
do que uma criatura humana. Mas o apaixonado, chorando, adorna de flores e perfuma de
unguentos o limiar e as ombreiras da porta que lhe fecharam: imprime-lhe beijos; quando entra,
porém, se uma pequena corrente de ar vem incomodá-lo, logo busca pretexto para se ir embora e
amaldiçoa a loucura de ter concedido a uma pessoa mortal tanto poder sobre ele. Ainda que todos
esses conselhos não tenham realmente um ar trágico e antes façam pensar na comédia, dá-lhes o
poeta um desenvolvimento tão longo que faz acreditar que o assunto lhe interessava profunda-
mente. Conta-se que Lucrécio ficou louco por ter absorvido um filtro amoroso e que se suicidou
com a idade de quarenta e um anos, depois de ter composto vários livros do seu poema nos inter-
valos da loucura. Não se poderia dizer até que ponto este fato é verdadeiro. É-se bastante levado
a crer que este fim infeliz e este desvario do espírito foram atribuídos a Lucrécio pelos vingadores
da religião que ele desprezava. Mesmo, porém, que seja uma ficção o pretenso efeito da bebera-
gem, não há razão decisiva para pôr de lado a narrativa dos sofrimentos e da triste morte de
Lucrécio. Pelo menos este desenlace não é incompatível com a natureza do poeta, tal como ela se
manifesta na sua obra. Um sopro de melancolia e de amarga desilusão passa nos seus juízos
desdenhosos, e julgava ter esvaziado até a última gota o cálice da vida, como o atestam as censu-
ras com que chicoteia o desejo desenfreado de gozar a existência. Evita falar de si ao leitor; não
faz sequer alusão às suas relações com Mêmio. Mêmio é o único dos seus compatriotas que ele
nomeia, e dentre estes nenhum nos informa ter estado ligado com o poeta. Lucrécio deve ter
permanecido muito longe do círculo dos principais poetas da época. Isolado na sua grandeza, um
destino trágico não lhe permitiu alcançar a coroa que ambicionava. Terá acabado por duvidar ele
próprio da verdade do seu evangelho? Suicidou-se porque considerava perdida a tarefa da sua
vida ou porque desesperara de a levar a cabo?
Sobre a extensão das suas leituras e dos seus estudos, pouco há que dizer. Depois de Epicuro,
os seus elogios mais calorosos vão para Empédocles (I, 716 e segs.), que ele coloca acima de todas
as maravilhas e de todos os esplendores da ilha triangular. Admira o poema de Empédocles, e sem
dúvida o deve ter lido, porque se encontram nele muitos traços e muitas expressões que parecem
tirados diretamente do poeta siciliano. Anaxágoras, pelo contrário, só lhe é conhecido por inter-
mediários, como já o indica a expressão aristotélica Homeomeria na parte respeitante a Anaxá-
goras (I, 830 e segs.). É ainda menos provável que tenha lido a obra de Heráclito, de quem traça
a glória, fundada sobre a obscuridade da linguagem (1, 639). Se o combate energicamente, censu-
rando-o por ter feito sair tudo do fogo, deve esse contra-senso a um crítico posterior. Foi prova-
velmente em manuais populares que ele obteve o seu conhecimento dos mais antigos filósofos; a
própria doutrina epicurista, deve tê-la encontrado num resumo cômodo e com bastantes pormeno-
res. Os grandes poetas gregos não devem ter ficado estranhos a um homem da cultura de Lucrê-
cio; abstém-se, todavia, de nomear isoladamente a uns ou outros e desdenha enfeitar-se com as
brilhantes palhetas de seus tesouros. Dos próprios romanos apenas cita seu digno precursor Ênio,
cujos nais lhe ofereciam um modelo clássico para a língua poética em geral e, para as expres-
sões particulares, um vocabulário rico e substancial. A grandiosa empresa de Lucrécio exigia um
estilo de solene dignidade, que trazia consigo o emprego de palavras e de formas arcaicas, tanto
mais que o verso adquiria com isso uma sonoridade mais majestosa. Mas para dominar assunto
tão difícil, com uma língua que de modo algum estava adaptada a este novo gênero, era preciso
uma força criadora de espécie rara, e o poeta bem sabia as dificuldades enormes que tinha de ven-
cer (I, 136 e segs.). Só a tradução dos termos técnicos gregos já era tarefa difícil e por vezes
impossível. Raramente aconteceu ao poeta desanimar nesta parte do seu trabalho; de resto, não
teme as palavras gregas, que são de uso geral e que todos compreendem; pelo contrário, prefere-as
bastantes vezes por causa do seu colorido especial.
Em suma, é necessário sempre levar a crédito de Lucrécio o esforço que lhe impuseram os
defeitos constatados e assinalados por ele na língua nacional (I, 139; III, 260), isto é, a pobreza
e a falta de maleabilidade. Ainda que na parte abstrata da sua exposição, onde nada mais faz do
que traduzir penosamente idéias estrangeiras, seja algumas vezes seco e duro, e se deixe mesmo
arrastar à prolixidade e à monotonia, sabe contudo temperar a aridez das idéias, quando tal é pos-
sível, com um dito brilhante, expressivo ou emocionado. Mas, quando encontra oportunidade de
38 LUCRÉCIO
fazer falar o seu próprio gênio, a língua eleva-se com a inspiração até a magnificência e corre
como um largo rio. Até por vezes a plenitude se torna exuberância, mas não é sem que o poeta o
saiba nem contra o seu desejo. Com os sentidos e o espírito mergulhados nas vivas fontes da natu-
reza, quer ele, mesmo na expressão, não lhe ficar inferior. Não gosta de deixar um substantivo
sem epíteto pitoresco ou de ormnato, emprega de bom grado a figura chamada etimológica, junta
sinônimos, repete os verbos e proposições inteiras, em resúmo, faz todo o possível para realçar a
idéia e colocá-la em pleno relevo.
As figuras de som, como por exemplo a aliteração e oútras, que-ele preza porque estão mais
de acordo com o caráter da obra, sustentam as amplificações para que são feitas. São enormes os
progressos do estilo e da versificação, se o comparamos com Ênio; no entanto, o verso de Lucré-
cio não conhece ainda as delicadezas de uma arte perfeita. Apesar da rudeza e da monotonia, é
harmonioso e másculo.
À importância do poema, sob o ponto de vista do estilo, é provada pela funda influência que
exerceu sobre a língua poética dos sucessores de Lucrécio. Virgílio, sobretudo, dá-lhe testemunho
de uma veneração discreta, mas cheia de amor; estuda-o constantemente e faz-lhe a honra de o
imitar como a seu mestre. Esta homenagem prova e caracteriza muito mais o mérito do precursor
do que o magro elogio de Quintiliano sobre a elegância de seu estilo, ou do que a ênfase de Ovídio
tocando a trombeta para predizer aos versos do sublime poeta uma glória tão duradoura quanto
o mundo. O entusiasmo pelo estudo científico da natureza, a paixão de compreender o Universo,
eis aí os sentimentos que Lucrécio imprimiu aos poetas de grande envergadura que vieram depois;
e foi graças a ele que tomaram como seu ideal atingir os cimos mais altos desta ciência.
DA NATUREZA
LivrO I
Ó mãe dos Enéadas," prazer dos homens e dos deuses, ó Vênus criadora, que por sob os
astros errantes povoas o navegado mar e as terras férteis em searas. por teu intermédio se concebe
todo o gênero de seres vivos e, nascendo, contempla a luz do sol: por isso de ti fogem os ventos,
ó deusa; de ti, mal tu chegas, se afastam as nuvens do céu; e a ti oferece a terra diligente as suaves
flores, para ti sorriem os plainos do mar e o cêu em paz resplandece inundado de luz.
Apenas reaparece o aspecto primaveril dos dias e o sopro criador do Favônio, já livre, ganha
forças, primeiro te celebram e à tua vinda, ó deusa, as aves do ar, pela tua:força abaladas no mais
íntimo do peito; depois, os animais bravios e os rebanhos saltam pelos ledos pastos e atravessam
a nado as rápidas correntes: todos, possessos do teu encanto e desejo, te seguem, aonde tu os quei-
ras levar. Finalmente, pelos mares e pelos montes e pelos rios impetuosos, e pelos frondosos lares
das aves, e pelos campos virentes, a todos incutindo no peito o brando amor, tu consegues que
desejem propagar-se no tempo, por meio da geração.
Visto que sozinha vais governando a natureza e que, sem ii nada surge nas divinas margens
da luz e nada se faz de amável e alegre, eu te procuro, ó deusa, para que me ajudes a escrever o
poema que, sobre a natureza das coisas, tento compor para o nosso Mêmio, a quem tu, ó deusa,
sempre quiseste conceder todas as qualidades, para que excedesse aos outros. Dá pois a meus ver-
sos, ó Vênus divina, teu perpétuo encanto. .
Faze, entretanto, que, por mares e por terras, trangúilos se aplaquem os feros trabalhos mili-
tares; só tu podes obter para os mortais a branda paz, visto que é Marte, o senhor das armas,
quem ordena esses feros trabalhos de guerra, e é ele quem muitas vezes se reclina em teu seio, ven-
cido pela eterna ferida do amor, e, erguendo os olhos para ti, inclinando para trás a nuca roliça,
fica deitado como que suspenso de teus lábios e apascenta de amor seus olhos ávidos. E tu, ó
deusa, enquanto ele repousa, enlaça-o com teu corpo sagrado, solta dos lábios tuas doces palavras
e pede para os romanos, ó cheia de glória, a plácida paz. Efetivamente, nesta época terrível para
a pátria, nem eu posso com serenidade realizar o meu trabalho nem o ilustre descendente dos Mê-
mios iria, em tais circunstâncias, faltar à salvação comum.
(Lacuna)
Além de tudo, dedica? à verdadeira doutrina ouvidos livres e espírito sagaz, afastado de
todos os cuidados, para que, mesmo antes de as entender, não ponhas de lado, com desprezo, as
minhas dádivas, para ti preparadas com fiel diligência. Vou começar a expor-te a essência do céu
* Apesar da opinião de Lucrécio acerca dos deuses, a invocação a Vênus explica-se facilmente pelo fato de
a deusa aparecer como uma das divindades protetoras da família dos Mêmios. A muitos leitores deve ela ter
surgido como uma contradição com as idéias do poeta sobre os deuses; e é possivelmente a esse motivo que
se pode atribuir o aparecimento nos manuscritos, depois da invocação, da parte do Livro II em que Lucrécio
atribui a causas naturais tudo o que acontece no mundo. Como sugere Ernout, quis-se tornar bem patente a
contradição entre os dois passos. No entanto, talvez essa contradição não exista na realidade: Vênus pode
ser, como Baco ou Netuno, ou Ceres, que no Livro II são apontados por Lucrécio, o “nome poético” de uma
força natural. De qualquer modo, a abertura do poema é um dos trechos que mais depõem a favor da sensibi-
lidade e da elogiiência de Lucrécio e como tal tem sido considerado por todos os críticos.
2 Com toda exatidão, Lucrécio delimita o assunto do seu poema; não se trata de expor toda a doutrina de
Epicuro; quer-se apenas insistir, perante o leitor romano, na contextura material e legal da natureza, de
modo a poderem pôr-se de parte todas as superstições favorecidas pela religião dominante; não interessavam
portanto, senão subsidiariamente, nem a teoria do conhecimento, nem a moral, nem mesmo a teodicéia.
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e dos deuses, e revelar-te-ei os princípios das coisas, donde as cria a natureza e as faz crescer e as
alimenta, e para onde de novo as leva a mesma natureza, já exaustas; a estes princípios, na exposi-
ção da doutrina, damos nós habitualmente o nome de matéria, de corpos geradores e de sementes
das coisas; e até lhes chamamos corpos primordiais, porque deles, como princípio, tudo surge.
Quando a vida humana, * ante quem a olhava, jazia miseravelmente por terra, oprimida por
uma pesada religião, cuja cabeça, mostrando-se do alto dos céus, ameaçava os mortais com seu
horrível aspecto, quem primeiro ousou levantar contra ela os olhos e resistir-lhe foi um grego, um
homem que nem a fama dos deuses, nem os raios, nem o céu com seu ruído ameaçador, puderam
dominar; antes mais lhe excitaram a coragem de espírito e o levaram a desejar ser o primeiro que
forçasse as bem fechadas portas da natureza. Mas triunfou para além das flamejantes muralhas
do mundo, percorreu, com o pensamento e o espírito, o todo imenso, para voltar vitorioso e ensi-
nar-nos o que não pode nascer e, finalmente, o poder limitado que tem cada coisa, e as leis que
existem e o termo que firme e alto se nos apresenta. E assim, a religião é por sua vez derrubada
e calcada aos pés, e a nós a vitória nos eleva até os céus.
Temo, porém, que por acaso julgues que penetras em elementos ímpios de doutrina * e te
metes pela senda do crime. Pelo contrário: na maior parte das vezes foi exatamente a religião que
produziu feitos criminosos e ímpios. Foi assim que em Áulida os melhores chefes gregos, escol de
varões, macularam vergonhosamente com o sangue de Ifianassa o altar da virginal Trívia. Quan-
do a faixa enrolada à volta da virgíinea cabeleira caiu por igual de um lado e outro do rosto; quan-
do viu o triste pai, de pé diante do altar, e junto dele os sacerdotes que dissimulavam o ferro, e os
cidadões que, ao contemplá-la, rompiam em choros — então, emudecendo de horror, vergou os
joelhos e deixou-se cair por terra. E em nada podia valer à infeliz, em tal momento, ter sido a pri-
meira a dar ao rei o nome de pai. Foi levantada pelas mãos dos homens e arrastada para os alta-
res, toda a tremer, não para que pudesse, cumpridos os ritos sagrados, ser acompanhada por claro
himeneu, mas para, criminosamente virgem, no tempo em que deveria casar-se, sucumbir, triste
vítima imolada pelo pai, a fim de garantir à frota uma largada feliz e fausta. A tão grandes males
pode a religião persuadir.
É possível que tu próprio º, um dia, vencido pelas terríveis palavras dos poetas sagrados, pro-
cures separar-te de nós. Efetivamente, quantos sonhos podem imaginar, capazes de abater normas
de vida e perturbar pelo temor toda a tua sorte! E com razão: se os homens vissem termo certo
às suas dores, de qualquer modo ganhariam valor e resistiriam à religião e à ameaça dos vates;
mas não há, agora, nenhuma razão nem possibilidade alguma de se resistir, visto que são penas
eternas as que se têm de temer depois da morte.
Não se sabe, com efeito, qual seja a natureza da alma: se nasce conosco ou, pelo contrário,
se se introduz nos corpos; se perece ao mesmo tempo que eles, desfeita pela morte, ou vê as trevas
de Orco e os vastos abismos; se, por vontade divina, se introduz em outros seres vivos, como disse
o nosso Ênio, que foi o primeiro a trazer do ameno Hélicon uma coroa de perene folhagem, cuja
glória se espalharia entre as gentes de Itália. No entanto, Ênio também claramente expõe, em ver-
sos eternos, que há lugares certos do Aqueronte onde ficam, não as nossas almas e os nossos cór-
pos, mas umas como sombras de estranha palidez; e diz que de lá lhe falou da natureza das coi-
sas, depois de haver derramado lágrimas amargas, o sempre glorioso Homero.
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3 O elogio de Epicuro, demasiado amplo se considerarmos o valor filosófico e científico do pensador grego,
provém, por um lado, do entusiasmo de discípulo que era corrente entre os epicuristas, por outro lado, sem
que se queira dar menos consideração à sinceridade de Lucrécio, da necessidade, digamos estratégica, de o
pôr como um insuperável revelador da verdade. Acresce ainda que, no caso de Lucrécio, o temperamento o
levaria a expressões ainda mais admirativas do que as do comum dos epicuristas; de resto, a tendência retó-
rica do Jatim tornava difícil aos escritores um sentido exato das fronteiras entre a eloguência e a deciamação.
* Não se limitando à defesa da doutrina, quanto à acusação de impiedade, que devia aparecer fregiente-
mente da parte dos defensores da religião tradicional, Lucrécio passa ao ataque, demonstrando que é a reli-
gião e não a filosofia que tem de responder por crimes tão horríveis como o sacrifício de Ifigênia.
8 Lucrécio aponta como um dos problemas essenciais, se não o essencial, o problema da morte; é não só,
para os não iniciados em Epicuro, o inexplicável terminar da vida como também o temor do que sucede no
outro mundo o que oferece terreno tão fácil aos avanços da religião; tem portanto, segundo lhe parece, de se
pôr bem nítida a idéia de que a morte não é mais do que um dos acontecimentos do conjunto natural do uni-
verso e a idéia de que, sendo o espírito mortal por natureza, a morte, quanto a acontecimentos de além-tú-
mulo, é por completo inexistente. E, pelo que se refere a este último ponto, tem de se mostrar de que modo
se originam os espectros em que Epicuro e Lucrécio viam o ponto de partida das crenças numa existência
para além da vida; como se verá mais adiante, Lucrécio, sempre seguindo Epicuro, põe-nos como simples
emanações, imagens, simulacros, de corpos vivos e existentes no mundo.
' DA NATUREZA 41
E é por tudo isto que devemos não só tratar dos fenômenos celestes, saber por que motivo se
dao os movimentos do Sol e da Lua, e que força produz os fenômenos da Terra, mas ver sobretu-
do, com sagaz inteligência, donde provém a alma e qual é a sua natureza e quais são essas coisas
que, vindo ao encontro da gente acordada, mas abalada pela doença ou mergulhada no sono, ater-
rorizam os espíritos, dando-nos a ilusão de que estão diante de nós, e os podemos ouvir, aqueles
cujos ossos tocados pela morte se encontram recobertos de terra.
E também não ignoro que é bem difícil explicar em versos latinos º as obscuras descobertas
dos gregos, sobretudo porque se faz mister empregar palavras novas, dada a pobreza da língua e
a novidade do assunto. Mas o teu valor e o prazer que espero tirar da tua doce amizade levam-me
a suportar qualquer trabalho e induzem-me a passar em claro as noites tranquilas, procurando em
que termos e em que verso poderei levar ao teu espírito claras luzes com que possas penetrar
profundamente os fatos e fenômenos ocultos.
Ora, é preciso que afugentem este temor e estas trevas do espírito, não os raios do Sol nem
os dardos lúcidos do dia, mas o espetáculo da natureza e as suas leis. E, para início, tomaremos
como base que não há coisa alguma que tenha jamais surgido do nada por qualquer ação divina.
De fato, o terror oprime todos os mortais, apenas porque.vêem operar-se no céu e na terra muitas
coisas de que não podem de nenhum modo perceber as causas, e cuja origem atribuem a um poder
dos deuses. Assim, logo que assentemos em que nada se pode criar do nada, ' veremos mais clara-
mente o nosso objetivo, é donde podem nascer as coisas e de que modo pode tudo acontecer sem
a intervenção dos deuses.
Realmente, se fosse possível nascer do nada, tudo poderia nascer de tudo, e coisa alguma
teria necessidade de semente. Poderiam surgir homens do mar, romper da terra a família dos pei-
xes escamosos € as aves precipitarem-se do céu; e os rebanhos, os outros animais e toda a espécie
de feras ocupariam, dado o acaso da origem, as terras cultivadas e os desertos. Por seu lado, as
árvores não teriam sempre os mesmos frutos: mudariam de um tempo a outro e todas elas pode-
riam produzir todos. Com efeito, não havendo em coisa alguma elementos geradores, como pode-
ria ter cada ser sua mãe determinada? Mas, como todos se formam por sementes certas, só nas-
cem e chegam às margens da luz no lugar em que existam a matéria e os corpos elementares que
lhe são próprios; por isso, não pode tudo nascer de tudo: cada ser determinado tem em si possibi-
lidades próprias.
Mais ainda: por que motivo veríamos aparecer as rosas pela força da primavera, as searas
pela do calor, a vinha pela do outono, se não fosse que, depois de se terem juntado no tempo
conveniente os germes determinados, aparece todo o ser criado na altura em que chega o seu
tempo e a terra, cheia de vida, traz às margens da luz, com toda a segurança, os seus tenros
produtos?
É evidente que, se surgissem do nada, repentinamente apareceriam, em lugar incerto e em
estações desencontradas, porque não haveria elemento nenhum que pudesse, por ser desfavorável
o tempo, ver-se impedido de união geradora: E também não seria necessário nenhum tempo para
se reunirem as sementes e crescerem os seres, se do nada pudessem surgir; de meninos pequenos
se fariam de relance homens na força da idade e da terra sairiam as árvores já formadas. Sabe-se,
porém, que nada disto acontece: tudo cresce pouco a pouco, como é natural, e de elementos deter-
minados; e tudo o que vai crescendo se mantém na sua espécie. Por aí se pode ver que tudo se
desenvolve sobre matéria própria e dela se alimenta.
A isto acresce que sem as chuvas regulares não pode a terra produzir os frutos que são fonte
8 A dificuldade de expor em latim as idéias ou doutrinas dos gregos foi várias vezes apontada pelos escrito-
“res romanos; efetivamente, não só não possuía a língua latina, por sua natureza, a maleabilidade e a capaci-
dade de expressão do grego, como também lhe faltava a longa tradição filosófica que tinha afeiçoado a lín-
gua grega à formulação do abstrato; e as subseguentes possibilidades do latim, nunca, apesar de tudo, muito
vastas, foram devidas aos esforços obstinados de tradutores como Andronico ou Névio ou de quase traduto-
res como Ênio, Plauto e o próprio Lucrécio.
7 O ponto fundamental que Lucrécio afirma neste passo é o de que “nada pode vir do nada”, o que exclui
automaticamente a idéia de uma criação divina; de fato, os deuses, para criar o mundo, ou teriam de o criar
de si próprios, o que daria, se pudéssemos salvar as dificuldades internas da explicação, uma forma de
panteísmo, ou teriam de o criar a partir de um nada como que exterior a si mesmos. Lucrécio não fala da
dificuldade filosófica, ou pelo menos teológica, que haveria nesta última idéia: um não divino limitaria o di-
vino que, portanto, não seria divino; limita-se a provar que nada pode vir do nada pelos dados da experiência
e por uma espécie de redução ao absurdo, mas por uma redução ao absurdo quase com aspectos caricaturais,
o que vem de a pôr no plano do concreto, procedimento que estava bem de acordo com as linhas gerais da
mentalidade romana.
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42 LUCRÉCIO
de alegria, nem pode a natureza, privada de alimento, propagar as raças de animais e conservar
a vida; e é mais fácil admitir que existe um grande número de corpos comuns a muitos seres,
como acontece com os elementos das palavras, do que a possibilidade cle haver alguma coisa que
não tenha princípio.
Finalmente, por que razão não poderia a natureza ter feito homens tão grandes que pudes-
sem passar a vau O oceano, separar com as mãos os altos montes e ultrapassar, vivendo, muitos
séculos de vida, se não fosse porque há uma quantidade determinada de matéria para tudo o que
se gera e dela se compõe tudo o que surge? Tem de se admitir que nada pode nascer do nada, por-
"que toda criatura precisa de algum germe para que depois lhe seja possível elevar-se nas suaves
auras do ar. . |
Além de tudo, se vemos os lugares cultivados valerem mais do que os incultos e restituirem
às mãos frutos melhores, é porque a terra contém, com toda certeza, os germes das coisas, e
somos nós quem, revolvendo com o arado as fecundas glebas e amanhando a terra, os fazemos
eclodir. Se eles não existissem, tudo, sem o nosso trabalho, se tornaria, até Sos aMEa ISA
muito melhor ainda.
Acrescente-se a isto “que a natureza faz voltar todos os corpos aos seus elementos, mas nada
“aniquila inteiramente;º se alguma coisa estivesse sujeita a perecer em todos os seus elementos,
poderia desaparecer subitamente da nossa vista; não seria necessária nenhuma força para produ-
zir O fim das suas partes e para lhes desfazer a ligação. Mas, de fato, como todos os seres se com-
pôem de germes eternos, não permite a natureza que se veja o fim de coisa alguma senão quando
surge alguma força que pelo choque a despedace, ou se insinue pelos espaços vazios e a dissolva.
Se fora certo que o tempo, a tudo quanto faz desaparecer pela idade, consome inteiramente
a matéria, como poderia Vênus trazer de novo à luz da vida as gerações de animais, e como, de-
pois de eles terem surgido, poderia a terra criadora encontrar com que os sustentar e fazê-los cres-
cer, apresentando-lhes alimento? Donde vêm ao mar as fontes próprias e os rios que de longe lhe
trazem águas alheias? E o céu, como alimenta os astros? Efetivamente, já hã muito o tempo infi-
nito e os dias passados deveriam ter destruído tudo o que tem corpo mortal. Pois se durante todo
este tempo e a idade transata houve elementos com que se pudesse refazer este mundo, é seguro
que eles são dotados de natureza imortal; nada, portanto, pode volver ao nada.
Por fim, a mesma força,” a mesma causa, poderia destruir sem distinção todas as coisas, se
a matéria eterna a não mantivesse como que numa rede mais ou menos cerrada. O simples conta-
to seria uma causa de morte, porque nada haveria de corpo eterno cujo contexto só pudesse ser
desfeito por uma força determinada. Mas como há, de elemento a elemento, ligações especiais, e
a matéria é eterna, permanecem os seres com seu corpo incólume, até que apareça uma força bas-
tante forte que lhes desagregue a estrutura. Nada, portanto, volta ao nada; tudo volta, pela
destruição, aos elementos da matéria.
Acabam as chuvas por se perder quando o ar que as engendrou as precipita no seio da terra-
mãe; mas surgem as brilhantes searas e verdejam os ramos das árvores, e crescem elas próprias
e se carregam de frutos. Deles se alimentam a nossa raça e a raça dos animais bravios, por eles
vemos as alegres cidades florescerem em crianças e cantarem os bosques frondosos com suas aves
novinhas; é por eles também que as ovelhas, que de gordas se cansam, deitam nos pastos os cor-
pos nédios e o lácteo resplandecente néctar líquido lhes mana dos úberes pejados; é por eles,
ainda, que a nova geração brinca ligeira, por entre as ervas tenras, com suas patas incertas e a
juvenil cabeça perturbada pelo leite puro. Por conseguinte, não é destruído inteiramente nada do
que parece destruir-se, porque a natureza refaz os corpos a partir uns dos outros e não deixa que
nenhum se crie senão pela ajuda da morte de algum outro.
Mas agora, visto que te ensinei que nada pode surgir do nada, nem os seres criados podem
volver ao nada, e para que não principies a duvidar do que se disse, pelo fato de que não se podem
8 É evidente que, se nada pode vir do nada, alguma coisa tem sempre de existir para que outra apareça:
nada, portanto, pode voltar inteiramente ao nada; tudo o que desaparece se transforma noutro ser.
º Para que os corpos se possam transformar noutros corpos são necessárias'duas condições: pela primeira,
deve haver, como ligação entre eles, dando-lhes as suas características comuns de corpos, um elemento eter-
namente idêntico a si próprio; pela segunda, esse elemento deve ser bastante móvel, bastante capaz de troca
e de combinação, para desempenhar cabalmente o seu papel. Por outro lado, como não vemos nos corpos ne-
nhum desses elementos, devem eles ser invisíveis; chega-se assim à idéia do átomo que aparece desde muito
cedo na filosofia grega e que veio até o nosso tempo, embora a concepção moderna de átomo seja bastante
diferente da do átomo grego, que mais corresponderia talvez, pelo menos com certos pensadores, à nossa
idéia de molécula. |
DA NATUREZA 43
distinguir com a vista os elementos das coisas, escuta exemplos de corpos cuja existência é segura
na natureza e que, no entanto, não se podem ver.
Em primeiro lugar, a força desencadeada do vento chicoteia o oceano, afunda grandes na-
vios e dispersa as nuvens, ou então, percorrendo as planícies em veloz turbilhão, as alastra de ár-
vores enormes e bate os montes mais altos com seus sopros que devastam florestas; tão violento
é o seu furor e tão cruel a sua cólera quando freme e sibila e ameaça e ruge.
São, pois, os ventos, e não é maravilha nenhuma, corpos invisíveis que varrem o mar e as ter-
ras e até as nuvens do céu, e as assaltam de súbito e em turbilhão as arrastam; precipitam-se e
espalham a destruição exatamente como um rio de brandas águas que se enche de súbito com as
torrentes que as chuvas abundantes fazem descer do alto dos montes, e que levam consigo destro-
ços de florestas e árvores inteiras; as sólidas pontes não podem aguentar a repentina violência da
água que se precipita; o rio, perturbado pelas grandes chuvas, investe as estruturas com força
irresistível; derruba-as com enorme estrondo, revolve sob as ondas as pedras imensas e lança-se
sobre todo obstáculo que se oponha à corrente.
É também assim que devem ir os ventos assoprando: mal, como um rio violento, se abatem
sobre qualquer lugar, levam tudo à sua frente, tudo arruínam com seus crebros ataques; ou então
arrebatam as coisas, voltejando, e levam-nas em giros de turbilhão. Não hã, pois, dúvida alguma
de que são os ventos corpos invisíveis, visto que se descobre serem êmulos, pelas características
e pelos feitos, dos grandes rios que têm corpo visível.
Depois, sabemos dos vários odores dos seres e, no entanto, não os vemos chegar-nos ao
nariz; e não contemplamos os ardentes calores, nem conseguimos, com os olhos, dar pelo frio,
nem costumamos enxergar as vozes; todavia, é evidente que tudo isto é de natureza material, por-
que pode impressionar os sentidos: nada pode tocar e ser tocado se não é corpo material.
Por fim, as roupas penduradas à beira da costa onde se quebram as vagas enchem-se de umi-
dade e secam, se as expomos ao sol; contudo, não se vê de que modo se deposita a água, nem, por
outro lado, como desaparece com o calor: é que o líquido se divide em pequenas partículas que
os olhos de nenhum modo podem ver.
Da mesma sorte, depois de muitas revoluções do Sol, gasta-se por debaixo, pelo uso, o anel
que se traz no dedo, escava a pedra a queda de uma gota de água, a recurvada relha do arado,
apesar de ser de ferro, diminui nos regos, e todos vemos como as lajes de pedra das estradas se
adelgaçam sob os pés da multidão; ao pé das portas, as estátuas de bronze mostram a mão direita
* gasta pelo toque dos transeuntes que as saúdam. Yemos, portanto, que estes objetos diminuem à
força do uso; mas a vívida natureza impede-nos de ver de que maneira e em que tempo desapa-
recem os corpos.
Finalmente, nenhum olhar, por mais agudo e atento, pode perceber o que vão a pouco e
pouco juntando a cada ser a natureza e os dias, nem se pode distinguir o que perdem a cada ins-
tante as coisas que envelhecem pelo tempo ou de fraqueza, ou as rochas que, mergulhadas no
oceano, são roídas pelo úmido sal.
No entanto, nem todas as coisas são, por sua natureza, completamente cheias de matéria; O
vazio existe. 'º Ser-te-á de grande utilidade sabê-lo; evitará que erres, duvidando, e andes sempre
à busca das essências supremas e não confies nas minhas palavras. Há, pois, um espaço intato,
vazio, desocupado. Se o não houvesse, de nenhum modo-os corpos se poderiam mover, porque a
propriedade fundamental dos corpos, que é a de se opor e resistir, estaria em toda parte e sempre;
nada poderia, por consegiuência, mover-se para a frente, porque nenhuma coisa tomaria a inicia-
tiva de se deslocar. Mas agora, pelos mares e pelas terras, e pelo alto do céu, vemos, com os nos-
sos próprios olhos, deslocarem-se, de muitas maneiras e com várias leis, corpos que, a não haver
espaço vazio, não somente careceriam deste inquieto movimento, como também não poderiam de
modo algum ter aparecido, porque, por toda parte, se teria mantido em repouso a matéria
concentrada.
Além de tudo, embora os corpos pareçam sólidos, pode ver-se, pelo que vou dizer, que há
1º Se tudo o que existe como corpo é material e se há movimento desses corpos materiais, tem de haver um
espaço vago onde esse movimento se exerça; a existência de espaço vazio ou de vácuo é demonstrada, por-
tanto, segundo Lucrécio, pela existência de movimento. Não lhe ocorreu sequer admitir, como o fez Zenão
de Eléia, a impossibilidade do movimento material; de resto, se o admitisse, não poderia mais defender a sua
hipótese de um mundo formado de átomos materiais. A ingenuidade filosófica de Lucrécio, como a de todos
os materialistas do seu tipo, tem de se contentar com os dados dos sentidos, sob pena de que lhe rua todo o
edifício ideológico.
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44 LUCRÉCIO
espaços vazios na substância. Mana o fluido líquido das águas pelas pedras das cavernas, e tudo
aí chora gotas abundantes. Dispersa-se o alimento por todo o corpo dos animais. Crescem as ár-
vores e dão seu fruto na estação própria, porque o alimento se difunde por todas elas, desde o
mais profundo das raízes, através dos troncos e de todos os ramos. Passam as vozes pelas paredes
e voam através das portas das casas, corre até os ossos o frio que enregela. Ora, se os corpos não
tivessem vazios, absolutamente impossível seria explicar de que rnaneira tudo isto poderia
atravessá-los.
Enfim, por que razão vemos algumas coisas pesarem mais do que as outras, sendo das mes-
mas dimensões? Se houvesse tanta matéria num floco de lã como num pedaço de chumbo, é evi-
dente que deveria pesar o mesmo, visto que é próprio da matéria exercer uma pressão de cima
para baixo, ao passo que, por sua própria natureza, o vazio não tem peso. Portanto, aquilo que
tem o mesmo tamamnho e é mais leve mostra, sem dúvida alguma, que tem mais espaço vazio; e
o que é mais pesado indica ter mais quantidade de matéria e menos vazio dentro de si. É, assim,
verdadeiro o que buscávamos com sagaz razão: existe, misturado aos corpos, aquilo a que cha-
mamos vazio.
E agora vejo-me obrigado a prevenir o que alguns pensam quanto a este assúnto, para que
não possas desviar-te da verdade. Dizem eles que, se as ondas cedem perante os esforços dos pei-
xes escamosos e lhes abrem líquidos caminhos, é porque os peixes deixam atrás de si espaços
aonde podem confluir as águas que se desviaram. Assim também se podem mover as outras coi-
sas, umas por entre as outras, e mudar de lugar, embora tudo esteja cheio. Mas tudo isto assenta
sobre um raciocínio falso. De fato, como poderiam os escamosos peixes avançar se às ondas lhes
não dessem espaço? E como poderiam refluir as águas se os peixes não pudessem mexer-se? Por
conseguinte, ou têm de se privar todos os corpos de movimento, ou tem de se admitir que há vazio
misturado às coisas e que dele toma cada corpo a possibilidade de se mover.
Por fim: se dois corpos planos, depois de se chocarem, se afastam de salto, bruscamente, é
fora de dúvida que o ar ocupará todo o vazio que fica entre os dois corpos. Mas este ar, qualquer
que seja a velocidade com que se precipitem as correntes, não poderá encher todo o espaço num
só instante: é fatal que primeiro ocupe um certo lugar e se apodere depois de todo o resto. E é um
erro imaginar alguém por acaso que se deve à condensação do ar o que sucede quando os corpos
se afastam; efetivamente, surge um vazio que nunca houve antes e enche-se o vazio que antes
houve; nem o ar pode adensar-se de tal modo, e, mesmo que pudesse, não conseguiria sem vazio,
creio eu, concentrar-se sobre si próprio e reunir em um só lugar todas as suas partes.
Por isso, e apesar da grande demora causada pelas tuas objeções, terás de confessar que há
vazio nas coisas. Posso ainda, pela menção de muitos argumentos, dar mais seguranças às minhas
palavras: mas a um espírito sagaz bastam estas ligeiras indicações; por elas poderás com segu-
rança conhecer o resto. Assim como os cães, logo que dão com sinais certos de passagem, encon-
tram muitas vezes, só pelo faro, os abrigos cobertos de folhagem dos animais que erram pelos
montes, assim também, neste assunto, tu podes, por ti só, explicar uma coisa por outra, penetrar
por todos os recessos obscuros e de lá.retirar a verdade.
Mas se fores preguiçoso e te desviares, por menos que seja, do nosso objetivo, eis o que desde
já, Mêmio, te posso dizer: de tal modo, com suave linguagem, se derramarão de meu peito, cheio
delas, as doutrinas que bebi em grandes fontes, que, bem o receio, a pesada velhice se insinuará
pelos membros e quebrará em nós todos os liames da vida, antes que sobre um só ponto te penetre
pelos ouvidos, através de meus versos, a grande cópia de argumentos.
Mas, para continuar o que ia dizendo, toda a natureza é constituída por duas coisas: existem
Os Corpos e existe O vácuo em que se acham colocados e em que se movem em diferentes direções.
Quanto aos corpos, basta o senso comum para lhes afirmar a existência; se não pusermos esta
crença como fundamento sólido, não haverá, quando tratarmos de assuntos mais obscuros, nada
em que nos apoiemos para estabelecer pelo raciocínio o que quer que seja. Por outro lado, se não
houvesse o lugar, o espaço a que chamamos vazio, não teriam os corpos onde estar colocados,
nem se poderiam de modo algum mover para qualquer parte; foi o que te demonstramos um
pouco acima.
Além disso, nada existe que possas dizer separado, afastado de qualquer outro corpo ou do
vazio, como se fosse uma terceira parte da natureza: efetivamente, tudo o que existe deve ser algu-
ma coisa em si próprio; se for sensível ao tato, por menor e mais tênue que seja, irá aumentar,
desde que exista, com aumento grande ou pequeno, o número e conjunto total dos corpos; se o
tato não der por ela, se não puder impedir que alguma coisa o atravesse por qualquer parte, então
será aquilo a que chamamos vazio. Depois, tudo o que existir por si, ou terá ação própria, ou
deverá aproveitar-se de outros corpos ativos, ou ser de modo que nele possam existir e fazer-se
DA NATUREZA 45
coisas; nada, porém, pode dar espaço se não for vazio e vago; portanto, além dos corpos e do
vazio, não fica, no número das coisas, nada que caia em qualquer momento na denúncia dos nos-
sos sentidos ou que possa Ser percebido pelo raciocínio do espírito.
Tudo aquilo que tem um nome, encontrá-lo-ás ou inerente a uma destas coisas ou como aci-
dental. É inerente tudo o que não se pode separar ou abstrair do corpo sem a destruição deste,
como, por exemplo, o peso da pedra, o calor do fogo, o fluido da àgua, a tangibilidade de todos
os corpos, a intangibilidade do vazio. Mas a escuridão, a pobreza e a riqueza, a liberdade, a guer-
ra, a paz, tudo aquilo que, por chegar ou partir, não modifica a natureza dos corpos, tem, segundo
o nosso costume e como é justo, o nome de acidental.
Do mesmo modo, o tempo não existe por si:"! é dos próprios acontecimentos que vem o sen-
timento do que se deu no passado, depois do que é presente, em seguida do que há de vir; na reali-
dade, ninguém tem idéia do tempo em si próprio, separado do movimento das coisas é do seu plá-
cido repouso. Quando se diz que foi roubada a filha a Tíndaro, e que as gentes de Tróia foram
dominadas pela guerra, é preciso ver que isto nos não leve a afirmar que tudo teve existência pró-
pria, quando é certo que as gerações de homens, de que foram acidentes, já há muito as fez desa-
parecer o irrevogável passado; tudo aquilo que se deu pode ser considerado acidente ou das gera-
ções ou dos lugares. Finalmente, sem a matéria, que forma os corpos, e sem o lugar e o espaço,
em que tudo se dá, jamais a chama de amor levantada pela beleza da filha de Tíndaro no peito de
Alexandre teria inflamado os célebres combates desta guerra terrível ou incendiado Pérgamo
quando o cavalo de madeira, sem que os troianos o soubessem, teve de noite o seu parto de gre-
gos; por onde se vê que os acontecimentos, sem exceção, não podem, como os corpos, existir ou
subsistir por si próprios, nem existir, seja como for, à maneira do vazio: é melhor considerá-los
acidentes da economia do espaço, em que tudo acontece.
Os corpos são em parte formados pelos elementos e em parte pelo que resulta da reunião des-
tes elementos: o que é elemento, nada o pode destruir; tudo venceu pela sua solidez. Entretanto,
parece difícil de aceitar que haja nos corpos alguma coisa toda sólida; o fogo do céu atravessa
paredes de casas exatamente como os gritos e os sons; o ferro incandesce no lume e despedaçam-
se as rochas com a violência do fervente vapor; a dureza do ouro cede, abalada pelo calor; a rigi-
dez do bronze se liquefaz, vencida pela chama; o calor e o frio penetrante se infiltram pela prata,
visto que os sentimos a um e outro quando temos na mão uma taça e se deita de cima, segundo
o uso, o orvalho das águas; nada no Universo parece sólido nas coisas. Mas, visto que temos de
ir seguindo o raciocínio exato e a natureza, deixa que em poucos versos mostremos que há coisas
sólidas e eternas, que ensinemos serem os germes os elementos dos corpos; é deles que se compõe
tudo o que existe de criado.
Em primeiro lugar '? e em virtude de se 'ter estabelecido que é dupla e diferente a natureza
dos dois elementos — a matéria e o espaço em que tudo sucede —., é evidente que cada um deles
existe por si próprio e puro. Com efeito, em todo lugar por que se estende o espaço a que chama-
mos vácuo não há matéria alguma; por outro lado, em todo lugar em que existe matéria não pode
haver nenhum vácuo ou vazio. Portanto, os corpos primeiros:são matéria sólida e sem vazio.
Além disso, visto existir o vácuo em todas as coisas criadas, é fatal que haja em torno maté-
ria sólida, e, pensando bem, não se poderia aceitar que qualquer corpo incluísse e escondesse em
sua matéria o vácuo, se não se admitisse que existe qualquer coisa de sólido que o contém. Ora,
não há nada que possa conter o vácuo dos corpos a não ser o agregado da matéria; portanto, pode
ser eterna a matéria, que se compõe de elementos sólidos, embora todo o resto se desfaça. .
O problema do tempo fica em Lucrécio por tratar, apesar dos versos que dedicou ao assunto; e não podia
ser de outro modo: se admitisse um tempo absoluto isto poria no seu mundo uma terceira entidade, além do
espaço e da matéria, e uma entidade que não era nem da natureza da matéria nem da natureza do espaço;
se pusesse o tempo como existente no observador, isso o obrigaria a aceitar uma estrutura idealista do uni-
verso; adotou pois, e cremos que mais por instinto do que por inteligência, uma solução que na realidade não
é solução, visto que põe o tempo como resultado da impressão que faz no espírito do observador o decorrer
dos acontecimentos; mas não vê que só existe o decorrer quando se afere o mundo por um padrão de tempo.
No que Lucrécio pode ter razão é em ter pensado que mundo e tempo estão indissoluvelmente ligados.
'2 No que se segue, até a refutação da doutrina de Heráclito, Lucrécio de certo modo não faz mais do que
repetir ou ampliar algumas das noções já expostas; parece que a insistência era uma das características da
escola epicurista e nem de outro modo se poderia explicar que o mestre tivesse escrito centenas de trabalhos
sobre um acervo de idéias tão limitado e simples; mas em Lucrécio a facilidade na repetição deve provir tam-
bém de uma característica comum aos romanos, a de não saber passar com discrição e ligeireza sobre cada
um dos temas que tinham a tratar; dir-se-ia que sentem sempre certa desconfiança perante a capacidade inte-
lectiva e retentiva do auditor ou do leitor.
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46 LUCRÉCIO |
520 Mas também, se não houvesse coisa alguma a que pudéssemos chamar vácuo, tudo seria só-
lido; e, ao inverso, se não houvesse quaisquer corpos que enchessem o espaço ocupado, tudo o
que há constaria apenas de vácuo, de vazio. É, portanto, evidente que a matéria e o vazio se mis-
525 —turam e se separam alternativamente, pois o mundo não é inteiramente cheio nem inteiramente
vazio. Há, consequentemente, certos corpos que podem interromper, enchendo-o, o espaço vago,
e corpos, como já demonstramos um pouco acima, que não podem ser desfeitos por nenhum cho-
530 que vindo de fora, nem despedaçar-se por terem sido penetrados por outro corpo, nem cair em ruí-
nas por outro qualquer motivo, porquanto sem vácuo nada pode ser esmagado, nem quebrado,
535 nem cortado e dividido em dois pedaços, nem apanhar umidade, ou o agudo frio ou o penetrante
fogo que tudo destroem; e, quanto mais vazio se contém num corpo. tanto mais profundamente o
atacam e arruínam estas coisas.
Se, por consegiiência, e conforme ensinei, são os elementos compactos sem vazio, é força que
540 sejam eternos; além de tudo, se a matéria não fosse eterna, já há muito tempo haveriam todas as
coisas volvido ao nada, e do nada teria renascido tudo o que vemos. Mas, como já antes demons-
545 —trei que nada pode ser criado do nada e que nada do que surgiu pode voltar ao nada, devem ser
de matéria imperecível os elementos a que tem, no fim de tudo, de voltar a matéria para que possa
bastar à renovação das coisas. São, portanto, os elementos, sólidos e simples, nem de outro modo
550 poderiam, conservando-se através das idades, ter renovado tudo desde tempos infinitos.
Finalmente, se a natureza não tivesse posto nenhum termo ao despedaçar das coisas, os ele-
mentos da matéria estariam de tal maneira gastos pelo rolar do tempo que nada do que é formado
555 por eles poderia, a partir de certa época, chegar ao supremo final da sua existência. De fato,
vemos que todo corpo pode ser mais depressa destruído do que refeito: assim, tudo o que a longa
e infinita duração dos dias de todo o tempo já decorrido tivesse quebrado, dispersado, aniquilado,
560 jamais poderia ser reconstruído pelo tempo restante. Ora, é evidente que foi marcado um fim certo
à destruição das coisas, porque vemos que tudo se refaz e que, simultaneamente, foi, por geração,
fixado às coisas certo tempo para que possam atingir a flor da idade.
565 Acresce a isto que, embora os elementos naturais sejam absolutamente compactos, se
podem, no entanto, explicar todos os corpos que são brandos, o ar, a água, a terra, os vapores, €
de que maneira se fazem todas as coisas, e que força as gera, pois que o vazio está misturado nos
570 corpos. Mas se, pelo contrário, fossem moles os elementos materiais, não se poderia explicar
como é possível criarem-se as duras pedras e o ferro; com efeito, toda a natureza careceria dos
seus princípios fundamentais.
Sao. Por conseguinte, os elementos têm a força de sua compacta simplicidade: resistência e dure-
za. E, se supusermos que não há nenhum termo à destruição dos corpos, é, todavia, necessário que
580 tenham existido por toda a eternidade elementos naturais, que tenham ficado até agora livres de
todo o perigo. Se, porém, é frágil a sua natureza, é inaceitável que se tenham mantido etema-
mente. apesar dos inumeráveis choques sofridos pelos tempos afora.
585 Finalmente, visto haver em cada espécie, para todas as coisas, um limite ao crescimento e à
existência, e estar estabelecido por leis naturais o que podem e não podem fazer, e nada se mudar,
antes se conservar idêntico, até o ponto de as aves variegadas manterem no corpo, de geração em
590 - geração, os sinais da sua espécie, devem, por força, ter em si um imutável elemento de matéria. Se
os princípios das coisas pudessem ser vencidos e modificados de qualquer modo, haveria incer-
595 teza quanto ao que pode e ao que não pode nascer e quanto às leis que limitam, com exatidão, o
poder de cada coisa, e lhe marcam o fim, e não poderiam as gerações ter reproduzido tantas vezes
a natureza, Os costumes, a vida, os movimentos dos pais.
600 Porém há mais: como existe um termo supremo para os elementos que os nossos sentidos já
não podem discernir, é evidente que não constam de partes e que o seu tamanho é mínimo; nunca
estiveram nem poderão estar isolados, porquanto cada um é parte e elemento de outros e a eles se
605 vêm juntar, por ordem, outras partes semelhantes, de maneira que formem todos juntos a subs-
tância do corpo; como estas partes não podem subsistir por si, é força que se aglomerem num
conjunto donde nada as poderá arrancar.
“610 São, portanto, os corpos elementares de uma compacta simplicidade, e ligam- -se entre si, por
partículas mínimas, com estreita coesão; não são formados por uma simples reunião das partícu-
las, mas vem-lhes a força de uma eterna simplicidade, que a natureza não deixa cercear ou dimi-
nuir, conservando-os como germes das coisas.
615 Além de tudo, se não houver limite na pequenez, os corpos menores compor-se-ão de uma
infinidade de partes, porque cada metade de metade sempre terá metade e nada porá fim à divisão.
620 Que diferença haverá, então, entre a maior e a menor das coisas? É impossível que exista, porque,
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DA NATUREZA 47
embora seja infinito o conjunto de tudo, os corpos que são menores se compõem também de um
infinito de partes.
Ora, como se insurge contra isto um exato raciocínio e não admite que possa o espírito acre-
ditar em tal, tens de confessar, vencido, que há corpos que não são compostos de partículas, e são
os menores de todos. E, como eles existem, tens de confessar que os elementos são compactos e
eternos. Finalmente, se a natureza criadora das coisas costumasse levar tudo a dispersar-se em
partes muito pequenas, já não poderia tornar com elas a formar coisa alguma, visto que, não
sendo formadas de partículas, não podem ter aquilo de que precisa a matéria criadora — as diver-
sas ligações, Os pesos, os choques, os encontros e os movimentos, por meio dos quais tudo se cria.
Por isso, muito se afastaram da verdade aqueles !? que julgaram ser o fogo a matéria cria-
dora e que só do fogo era constituído o Universo. Heráclito é seu chefe e o primeiro a encetar a
luta, a quem a linguagem obscura tornou ilustre entre os gregos, embora mais entre os superficiais
do que entre os espíritos ponderados que procuram a verdade. Pois os tolos admiram e amam de
preferência tudo o que julgam distinguir sob termos ambíguos, e dão por verdadeiro o que pode
soar agradavelmente ao ouvido e se apresenta revestido de grata sonoridade. Mas donde poderiam
vir, pergunto, tão variadas coisas e tudo se formar a partir do fogo puro e uno? De nada serviria
que o ardente lume pudesse adensar-se ou rarefazer-se, se as partes do fogo tivessem a mesma
natureza que todo o fogo tem no seu conjunto; seria apenas mais vivo o seu ardor quando as
partículas estivessem juntas, mais brando quando estivessem separadas e cada uma para seu lado.
Não se pode acreditar que haja outros efeitos de tais causas, nem a imensa variedade das coi-
sas pode vir de lumes densos ou rarefeitos; e mesmo isto, o poder adensar-se o fogo ou tornar-se
ligeiro, só no caso de admitirem que há vácuo misturado às coisas. Como, porém, as Musas admi-
tem muitas contradições e fogem a aceitar nos corpos o puro vazio, perdem o caminho da verdade
por medo ao dificil, e não vêem que, se privarmos as coisas do vácuo, tudo se torna compacto e
se acumula num só corpo, sem possibilidade de emanações rápidas; todavia, como o fogo ardente
lança de si luz e calor, é evidente que não se compõe de partes estreitamente unidas.
Se, por outra hipótese, acham que os fogos, reunindo-se, se podem apagar e mudar de subs-
tância, e não fazem restrições de espécie alguma, força é que o próprio arder se aniquile total-
mente e que surja do nada tudo o que se cria; efetivamente, tudo o que, mudando-se, sai dos seus
limites é a morte do que era anteriormente. É, portanto, necessário que alguma coisa fique intata,
para que não torne tudo inteiramente ao nada e não tenha o conjunto dos corpos de renascer e
tomar forças a partir do nada.
Por conseguinte, como há elementos determinados que sempre conservam a mesma nature-
za, e cuja retirada ou acesso ou mutação de ordem modifica a natureza das coisas e transforma
os corpos, é evidente que esses elementos não são ígneos. Não importaria que alguns deles se reti-
rassem, se afastassem, e se juntassem outros e se trocasse a ordem de outros ainda, se, todavia,
todos conservassem a sua ardente natureza: tudo o que criassem seria sempre fogo.
Mas a minha opinião é a seguinte: há certos elementos cuja reunião e cujos movimentos,
ordem, posição, feitios, produzem o fogo, e que, desde que mudem de aspecto, mudam a natureza
dos corpos; porém não se parecem com o fogo nem com qualquer de outras coisas perceptíveis
aos sentidos e capazes de nos fazer sentir o seu contato.
Dizer depois, como ele diz, que tudo é fogo, que nada há de real entre as coisas senão o fogo,
parece-me o cúmulo da loucura. Parte dos sentidos vai contra os sentidos e destrói o que é fonte
única dos nossos conhecimentos, o que o levou a ele próprio a saber daquilo a que dá o nome de
fogo. Acha, efetivamente, que os sentidos conhecem na realidade o fogo, mas não as outras coisas
que, no entanto, não são menos claras: isto me parece absurdo e insensato. Em que havemos de
confiar? Que pode haver para nós de mais seguro que os sentidos para distinguir o verdadeiro €
o falso? Depois, por que motivo se há de querer suprimir tudo e deixar uma única substância, o
13 A ironia de Lucrécio quanto a Heráclito é pelo menos injusta, mas explica-se pelo estado de guerra que
existia entre os epicuristas e os estóicos, os quais tinham adotado como base do seu sistema a física heracli-
tiana. À obscuridade de Heráclito, que o estado fragmentário em que nos chegou a sua obra nos torna ainda
maior do que era para os antigos, provinha, segundo parece, não só do tom poético que adotara na exposição
das suas idéias como também da própria dificuldade interna do sistema. De qualquer modo, a idéia do fogo
como elemento cosmogônico, se é que se tratava de fogo e não de espírito, como parece por alguns textos,
não era a mais importante de Heráclito; mereceriam muito mais atenção, se tal viesse a propósito no poema
-de Lucrécio e se também fosse tal o seu interesse, as idéias de identidade do ser e do não-ser, da vida e da
morte, de fenômeno como ilusão, e de lei como única estabilidade no ininterrupto fluxo do universo.
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fogo, de preferência a negá-la e a deixar outra qualquer? Rated igual loucura dizer uma ou outra
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coisa.
705 É por este motivo que me parecem ter-se afastado muito da verdade todos aqueles" * que jul-
guem ser o fogo a matéria das coisas e poder ele constituir o Universo, e os que puserem o ar
como princípio da criação, ou os que pensarem que a água formava só por si as coisas, ou que a
710 terra tudo gerava e se transformava em todos os corpos. Juntam-se a estes os que duplicam os ele-
mentos das coisas, ligando o ar ao fogo ou a terra à água, e os que crêem que tudo pode provir
715 de quatro elementos, o fogo, a terra, o area água:
Dentre estes é primeiro Empédocles de Agrigento, a quem gerou nas suas terras a ilha trian-
gular que o mar Jônico, penetrando nas grandes anfractuosidades, banha. com suas ondas glaucas,
720 e que separa das praias da Itália um estreito canal por onde se precipitam as águas do mar. Ali
fica a abissal Caribdes, e ali os rugidos do Etna ameaçam levantar de novo a cólera das suas cha-
725 mas com tal violência que o fogo eruptivo seria vomitado das suas fauces e chegariam outra vez
até o céu os ígneos relâmpagos.
E embora esta grande terra, por vários motivos, seja digna da admiração do gênero humano
e digna de ser visitada, abunde em valiosas riquezas e esteja protegida pela valentia de numerosos
7230 habitantes, é certo que nada produziu de mais notável que este homem, de mais sagrado, de mais
admirável, de mais precioso. Os cantos deste ser divino espalham por toda parte a sua voz e
expõem descobertas tão maravilhosas que dificilmente se crê vir ele de progênie humana.
735 Mas também este, e os que acima nomeamos e em muitos pontos'lhe foram muitíssimo infe-
riores, embora tivessem descoberto muitas coisas como com espírito divino, e dado, do íntimo do
pensamento, respostas decerto mais sagradas e mais seguras que as proferidas da trípode pela
740 — Pítia, sob o loureiro de Apolo, ruíram ao tratar dos princípios das coisas e, porque eram grandes,
com grande queda se abateram. Primeiro porque admitem o movimento tirando o vazio às coisas
e aceitam os corpos brandos e porosos, o ar, O sol, o fogo, a terra, os animais e as plantas, sem
745 que juntem o vazio à sua substância; depois, não põem nenhum fim à divisão dos corpos, nem
termo ao seu fracionamento, nem a possibilidade de haver nas coisas um elemento mínimo, e isto
750 apesar de vermos ter tudo como que um cimo que aos nossos sentidos parece mínimo, e que faz
inferir que aquilo que não se pode ver tem igualmente uma terminação e é essa terminação o que
constitui o elemento mínimo.
Acresce ainda que, se constituíssem elementos moles os corpos que nós vemos nascer e
755 serem intrinsecamente mortais, já toda a natureza teria volvido ao nada e já todos os objetos te-
riam tido de renascer do nada; e já sabes como uma e outra afirmação estão distantes da verdade.
Além de tudo, estes elementos são inimigos uns dos outros e como que veneno uns para os
760 outros: portanto, desde que se juntem, ou perecerão ou se hão de dispersar como o raio pela força
da tormenta ou como vemos dispersarem-se as chuvas € os ventos.
Finalmente, se tudo se cria a partir de quatro elementos, e se neles tudo de novo se dissolve,
765 por que razão os havemos de fazer princípio dos corpos, de preferência a tomar estes últimos
como princípio deles? Efetivamente, engendram-se uns aos outros, e por toda a eternidade se têm
passado uns aos outros não só o aspecto como toda a sua natureza.
770 Por outro lado, se se pensasse que a substância do fogo se pode juntar à da terra e os sopros
do ar à fluidez da água sem que, ao se unirem, percam alguma coisa da sua natureza, nada se
poderia conceber como criado a partir géles nem seres animados, nem seres inanimados, como,
por exemplo, as árvores.
775 De fato, cada um mostrará neste coninio heterogêneo a sua própria natureza, e ver-se-á o
ar misturado com a terra e permanecer o fogo juntamente com a água. Ora, o que é necessário é
780 que cada elemento leve sua propriedade escondida e invisível, para que não domine coisa alguma
que possa ser obstáculo ao conjunto e impeça que tenha o seu caráter próprio tudo aquilo que se
cria.
1º TLucrécio critica Anaximenes, que pusera o ar ou o bafo como princípio de que tudo se forma, Tales, que
atribuíra papel idêntico à água, Fer ecides de Ciro, mais teólogo do que filósofo, Enópides e Xenófanes de
Colofonte, que tinham elevado a dois o número dos elementos, finalmente Empédocles de Agrigento, que
fazia intervir na sua cosmogonia os quatro elementos clássicos, ar, água, fogo e terra. Apesar das restrições
postas à doutrina, o elogio de Empédocles explica-se provavelmente por ter servido o seu poema Sobre a
Natureza de modelo ao trabalho de Lucrécio; note-se, no entanto, que Empédocles gozou sempre de grande
prestígio e que era comum o olharem como a um ser sobrenatural. Também não é impossível que Lucrécio
tenha reconhecido a influência de Empédocles em Anaxágoras, o verdadeiro fundador do atomismo, embora
seja discutido se a sua visão do universo era a visão materialista e mecanicista de Demócrito e de Leucipo.
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DA NATUREZA 49
Mas ainda vão pelo céu e pelos seus fogos, e fazem, primeiro, que o fogo se transforme nas
auras do ar, que daqui surja a chuva, que da chuva se crie a terra, e que depois tudo volte a surgir
da terra, primeiro a umidade, depois o ar, depois o calor; e estes elementos não cessam de se
transformar uns nos outros, passando do céu à terra e da terra aos astros do firmamento.
Ora, é impossível que se passe com os elementos qualquer coisa de semelhante; é efetiva-
mente necessário que subsista alguma coisa de imutável; para que todas as coisas não voltem
inteiramente ao nada: tudo aquilo que, mudando-se, sai de seus limites causa a morte do que foi
anteriormente. Se, portanto, se transformam os elementos de que falamos acima, é fatal que'se
componham de outros elementos, que nunca se possam transformar: em caso contrário tudo vol-
taria inteiramente ao nada. Por que motivo se não hã de admitir a existência de certos elementos
de tal natureza que, se, por exemplo, criarem o fogo, podem depois, por uma ligeira diminuição
ou por um ligeiro aumento, e mudada a ordem e o movimento, dar origem às auras do ar, e assim
tudo se transformar em tudo?
“Mas”, dirás tu, “é fato inegável que todas as coisas crescem da terra para o céu e dele se ali-
mentam; e se um tempo favorável lhes não dá chuvas, fazendo inclinar os arbustos sob a liquefa-
ção das nuvens, se, por sua parte, o sol as não aquece, lhes não dá o seu tributo de calor, não
podem crescer nem as searas, nem as plantas arbóreas, nem'os animais.”
Claro que sim: e nós próprios, se não nos ajudassem alimentos sólidos e líquidos brandos,
perderíamos corpo e toda a vida nos fugiria de todos os nervos e de todos os ossos. É fora de dúvi-
da que nos alimentamos e mantemos de certas coisas, e que outros de outras o fazem; e nada há
nisto que espante: uma quantidade de elementos comuns se encontra nos corpos, misturados de
mil modos, e por isso várias coisas de várias coisas se alimentam.
Além de tudo, é de grande importância, muitas vezes, considerar as combinações que for-
mam, as posições que ocupam e os movimentos que uns dos outros recebem. São os mesmos os
elementos que formam o céu, o mar, as terras, Os rios, o Sol, e os que formam as searas, as árvo-
res, e os animais: mas em cada qual se movem dispostos de modo diferente.
É o que se passa nestes meus versos: vão neles muitos elementos comuns a muitas palavras:
e, no entanto, tem de se reconhecer que versos e palavras diferem muito entre si, não só pelo senti-
do como também pelo som com que soam. Tanto podem os elementos, só porque mudam de posi-
ção ! Mas os princípios das coisas têm ao seu dispor mais numerosos meios para que possam criar
os corpos mais variados.
Estudemos agora a homeomeria de Anaxágoras:! º é o nome que lhe dão os gregos e que a
pobreza de vocabulário pátrio não permite transpor para a nossa língua; mas é fácil explicá-lo, ao
conceito em si, por outras palavras.
Primeiro, aquilo a que chama homeomeria das coisas é que, por exemplo, os ossos sejam
constituídos por pequeníssimos, diminutos ossos, que as vísceras se formem de vísceras diminu-
tas, pequeníssimas, que o sangue surja do juntar entre si de muitas gotas, que o ouro, segundo o
que pensa, possa ser constituído por partículas de ouro, que a terra nasça de terras, o fogo de
pequenos fogos, e a umidade de umidades; e acha que tudo se-forma do mesmo modo. Todavia,
não aceita que haja em parte alguma vazio nas coisas nem que haja limite à divisão dos corpos;
ora, parece-me que nestes dois pontos erra e, pela mesma razão, tanto como os outros de quem
falamos acima.
Acrescente-se a isto que os elementos que concebe são bem frágeis, são elementos primor-
diais e, no entanto, são de natureza igual à dos corpos que constituem, do mesmo modo se fatigam
e perecem, e nada os salva da destruição. De fato, que há neles que possa resistir a um assalto vio-
lento, que possa escapar à morte, já mesmo nas fauces do seu termo? O fogo, ou a água, ou o ar?
O que, então? O sangue, os ossos? Creio eu que nada: tudo será tão inteiramente perecível como
"8 A apresentação que Lucrécio faz das concépções de Anaxágoras é ligeiramente caricatural, apesar de
haver textos que dão alguma base à sua interpretação. No entanto, a “nhomeomeria” de Anaxágoras parece
estar, por certos aspectos, muito próxima dos átomos da fisica moderna; para ele, e falando uma linguagem
atual, o átomo do ferro seria diferente do átomo do hélio ou do átomo do chumbo; a substância ferro não
poderia em caso algum ser formada, por exemplo, de átomos de ouro. Resumindo a evolução da hipótese
atomística, pode dizer-se que Xenófanes e Empédocles dão o primeiro passo pondo os elementos como mais
de um, mas em número limitado; Anaxágoras dá o segundo, atribuindo a cada substância o seu átomo pró-
prio; Demócrito, o terceiro, pondo os corpúsculos como podendo formar vários corpos diferentes; a física
atual fez como que a síntese das três noções, fixando o número de corpos simples, pondo para cada um uma
determinada estrutura do átomo e formando cada átomo de cargas idênticas de átomo a átomo e capazes de
troca.
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as coisas que vemos, claramente, a nossos olhos, acabar vencidas por urna força qualquer. Porém
nada pode recair em nada, nada de nada pode nascer: bastam as provas que já dei.
Além disso, como os alimentos aumentam e nutrem o nosso corpo, isto é, as veias, O sangue,
Os Ossos, se se disser que esses alimentos são por natureza compostos, resultará que se tem de
admitir que têm em si, todos eles, quer sejam sólidos ou líquidos, pequenas partículas de nervos,
ossos e, certamente, veias e gotas de sangue, e que constam de elementos heterogêneos, de ossos
e de nervos, de soro e de sangue misturados.
Depois, se todos os corpos que crescem da terra estão na terra, é fatal que a terra se compo-
nha dos seres heterogêneos que dela saem. Passa a outro campo, e poderás usar as mesmas pala-
vras. Se na lenha se escondem chama, fumo e cinza, tem de se admitir que se compõe a lenha de
elementos heterogêneos. Além disso, todos os corpos que a terra alimenta, ela os faz crescer com
as substâncias heterogêneas que depois saem da lenha.
Resta aqui uma leve possibilidade de fuga, e é o que faz Anaxágoras, dizendo que tudo existe
misturado e escondido em tudo, mas que só nos aparece o corpo cujos elementos se encontrem em
maior número, colocados mais à frente, e com mais eficiência. Isto, porém, está bem longe da ver-
dadeira razão. Se assim fosse, muitas vezes as searas, quando são esmagadas pela terrível força
da pedra, mostrariam algum sinal de sangue ou de outras coisas que em nosso corpo se criam.
Pela mesma razão, era de esperar que manasse sangue das ervas que esmagamos entre pedra
e pedra, e aparecessem gotas doces e saborosas de gosto igual ao do leite das lanígeras ovelhas;
e surgissem frequentemente pelas fendas das glebas as espécies de ervas e as searas e as frondes
que na terra em pequenos elementos devem ocultar-se; e que, para terminar, se pudesse distinguir
na lenha, quando se quebrasse, a cinza, e o fumo, e os fogos diminutos. Ora, os fatos nos mostram
com toda evidência que as coisas não estão assim misturadas nas coisas, mas que nelas devem
estar ocultos, de modos variados, elementos comuns a muitos corpos.
“Mas”, dirás tu, “acontece muitas vezes, nos altos montes, que as árvores mais elevadas
rocem os cimos uns pelos outros, sob o ímpeto dos austros violentos, até que a flor do fogo reben-
te e flameje.” Sem dúvida: e, no entanto, o fogo não está oculto nos troncos: estes encerram nume-
rosos elementos inflamáveis que se juntam ao roçarem e dão origem aos incêndios das florestas.
Se de fato o fogo estivesse dissimulado nos bosques, não poderia ocultar-se nunca e logo abrasa-
ria as florestas e queimaria as árvores.
Vês então agora, como acima te disse, que tem a maior importância saber-se com que ele-
mentos estão misturados os elementos e qual a posição que ocupam, e quais os movimentos que
transmitem e recebem? Vês como podem os mesmos elementos, mudando um pouco, criar fogo e
madeira? É o mesmo que acontece com as palavras: mudando um pouco os elementos, podemos
nomear, com som diverso, “madeira” e “fogo”.
Por fim, se julgas que não se pode produzir tudo o que vês nos objetos manifestos sem que
se atribua aos elementos dos corpos a mesma natureza que a estes últimos, por aí se vão perder
os princípios mesmos das coisas: vão gargalhar sacudidos pelo trêmulo riso, vão banhar de lágri-
mas salgadas o rosto e as faces.
Vamos agora saber do que resta e ouvir coisas mais claras.! º Bem sei que tudo é obscu-
ro; mas uma grande esperança de glória com seu agudo tirso me atravessou o coração e incutiu-
me no peito, ao mesmo tempo, o doce amor das Musas; incitado por ele, percorro agora, com vivo
espírito, as regiões desviadas das Piérides, que ninguém trilhou antes de rim.
É bom ir às fontes virgens e beber, é bom colher flores desconhecidas e com elas trançar para
a minha fronte coroa insigne, qual nunca a ninguém a puseram as Musas. Primeiro, porque te en-
sino importantes assuntos e procuro libertar-te o espírito dos apertados nós religiosos; depois,
porque sobre um tema obscuro vou compondo tão luminosos versos, a tudo tocando com a graça
das Musas. Isto mesmo parece perfeitamente justificado; assim como os médicos, quando tentam
dar às crianças o repugnante absinto, primeiro põem, no bordo da taça, loiro, fluido e doce mel,
de modo que, pela idade imprevidente e pelo engano dos lábios, tomem a amarga infusão do
absinto e, não significando este engano prejuízo, possam deste modo readquirir a saúde, assim
também eu, como esta doutrina parece muito desagradável a quem a não tratou, € foge diante
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18 O papel de iniciador refere-se sempre na obra de Lucrécio ao seu aparecimento na literatura latina. Deve,
porém, registrar-se que já antes de Lucrécio se tinha tentado o poema didático; ninguém, no entanto, tinha
composto sobre o epicurismo. As dificuldades entre o vulgo e os epicuristas devem entender-se provavel-
mente no que diz respeito aos ataques à religião tradicional; além de tudo, a doutrina pareceu sempre difícil
de aceitar e “tristior”, como diz o poeta, aos que não dispensavam a consolação de se sentirem ligados a um
poder espiritual que tivesse seu reino para além das dificeis e incertas aparências do mundo.
DA NATUREZA aa
dela, horrorizado, o vulgo, quis, em verso elogiente e harmonioso, expor-te as minhas idéias, e
ungi-las, por assim dizer, do doce mel das Musas; a ver se por acaso posso manter o teu espírito
encantado com meus versos, enquanto penetras toda a natureza e as leis de sua formação.
Mas, como já ensinei que os elementos da matéria são plenos e voam invictos através do
tempo eterno, vamos agora verificar se tem ou não limite a sua soma; e veremos também se o
vazio que descobrimos, isto é, o lugar, o espaço, em que tudo se passa, aparece como um todo
limitado ou se abre, profundo, imenso, vasto. ;
Tudo o que existe é ilimitado, '” qualquer que seja a direção; do contrário, deveria ter um
fim. Ora, não pode haver fim algum a nada, sem que haja, para além, qualquer coisa que o limite,
de modo que exista um ponto para além do qual é impossível aos sentidos segui-lo. Ora, tem-se
de reconhecer que para lá do conjunto das coisas nada existe: não tem extremidade; carece, pois,
de fim e de limite. E não importa a região em que se possa estar: qualquer que seja o lugar em que
se esteja, sempre se deixa o todo imenso alargar-se por igual a toda parte.
Depois, se se aceitar que todo o espaço é finito e se alguém chegar correndo aos últimos bor-
dos e daí lançar um volátil dardo, achas que, arremessado com toda força, se dirigirá aonde foi
atirado, voando ao longe, ou te parece que alguma coisa o poderá impedir ou deter? Tens de esco-
lher um lado ou outro; ora, qualquer deles te impede a fuga e te obriga a conceder que não há
limite.
Efetivamente, quer haja um obstáculo que o impeça de atingir o ponto aonde foi arremes-
sado, aí parando, quer prossiga a carreira, o que é certo é que não partiu do extremo limite: conti-
nuarei sempre com a mesma razão e, qualquer que seja o lugar onde coloques os limites extremos,
perguntarei o que sucede por fim ao dardo. O que vai acontecer é que nenhum limite poderá
estabelecer-se: fugas numerosas prolongarão sempre o espaço livre.
Além disso, se todo o espaço universal estivesse cerrado de todos os lados e fosse limitado,
já há muito a massa de matéria, arrastada pelo peso, se teria reunido no fundo, e nada se poderia
passar sob a abóbada do céu, nem haveria mesmo céu, nem a claridade do Sol: de fato, toda a
matéria acumulada por sedimentação no decorrer da eternidade jazeria inerte. Mas não existe des-
canso algum para os corpos elementares, porque não há fundo nenhum a que possam confluir e
em que possam estabelecer-se. Tudo anda sempre em contínuo movimento e por todos os lados;
e do infinito se precipitam, sem cessar, os elementos da matéria.
Finalmente, pelo que se passa à nossa vista, cada objeto parece limitar outro objeto: o ar li-
mita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu turno, o mar termina todas as
terras; mas na verdade, nada há, para além do todo, que lhe sirva de limite.
É tal a natureza do espaço e a extensão da imensidade, que os fulgentes raios a não poderiam
percorrer mesmo que prolongassem o seu vôo por toda a eternidade, e nem pelo caminho feito
poderiam ter reduzido a distância que faltasse; efetivamente, por todo lado se abre às coisas, e em
toda direção, um espaço sem limites.
A natureza intervém para que o Universo não se possa fixar limites a si próprio: com o espa-
ço vazio limita os corpos, e ao vazio com os corpos o limita; assim os alternando, torna o todo
infinito: mesmo, porém, que um dos dois não limitasse o outro, naturalmente se estenderia por si
mesmo sem encontrar limite.
Nem de outro modo poderiam subsistir uma hora sequer o mar e a Terra eo luminoso tem-
plo do céu e a raça dos mortais e os sagrados corpos dos deuses. Dispersa do seu conjunto, a
matéria seria levada, desagregando-se, pelos espaços infinitos; ou, antes, nem sequer se teria podi-
do reunir para formar corpo algum, porquanto não poderiam juntar-se os elementos dispersos.
Não é por certo em virtude de um plano determinado nem por um espírito sagaz que os áto-
17 “Lucrécio prova primeiro, pela impossibilidade de se conceber a existência de qualquer limite, que o uni-
verso é infinito; se o universo é infinito, os átomos que o compõem serão também em número ilimitado.
Como já afirmou que os átomos necessitam de espaço para mover-se, O espaço será igualmente infinito. Para
provar a existência de espaço, de vácuo ou de vazio, os epicuristas argumentavam também com a necessi-
dade de se distinguirem os átomos uns dos outros: caso contrário, haveria apenas um átomo; se os átomos
são em número infinito, o espaço terá também de ser ilimitado para que infinitamente faça a separação entre
os átomos. Também havia outra linha de raciocínio: os epicuristas não podiam conceber o espaço senão
como ilimitado; um número limitado de átomos dentro dum espaço infinito conduziria à dispersão total do
universo, se é que alguma vez se poderia ter formado; os átomos devem ser, portanto, em número ilimitado.
Deve esclarecer-se que em toda esta nota se empregou finito e limitado, infinito e ilimitado como signifi-
cando o mesmo, para se manter a linguagem de Lucrécio e não porque haja qualquer propriedade na identifi-
cação dos termos.
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52 LUCRÉCIO
mos se juntaram por uma certa ordem; também não combinaram entre si com exatidão os movi-
mentos que teriam; mas, depois de terem sido mudados de mil modos diferentes através de toda
a imensidade, depois de terem sofrido pelos tempos eternos toda espécie de choques, depois de
terem experimentado todos os movimentos e combinações possíveis, chegaram finalmente a
disposições tais que foi possível o constituir-se tudo o que existe. E é por assim se terem conser-
vado durante muitos anos, uma vez chegados aos devidos movimentos, que os rios saciam o ávido
mar com suas grandes águas, que a Terra, aquecida pelo vapor do Sol, renova as suas produções,
e florescem todas as raças de seres vivos, e se sustentam os fogos errantes pelo céu. De nenhum
modo o fariam se do infinito não chegasse sempre mais matéria para reparar a tempo as perdas
sofridas.
Assim como os seres vivos por natureza se dispersam, perdendo o corpo, quando privados de
alimento, assim tudo se deve dissolver logo que lhe falte a matéria, por qualquer motivo desviada
do caminho devido. E os choques vindos do exterior também não podem conservar o Universo,
seja qual for a sua composição; é certo que podem os átomos chocar com maior fregiência e
manter qualquer ponto, até que cheguem outros e possa o conjunto completar-se; mas, entretanto,
são obrigados a ressaltar e por aí mesmo dão aos elementos espaço e tempo de fuga, de modo que
possam libertar-se do conjunto. É por isso que uma e outra vez têm de surgir elementos novos e,
também, para que os próprios choques se mantenham, torna-se necessária uma força infinita de
matéria a todo lado se estendendo.
Em tudo isto, é Mêmio, tens de fugir a acreditar o que dizem alguns, que tudo tende para o
centro do Universo, e que, portanto, pode o mundo manter-se sem quaisquer choques externos,
não escapando nem o alto nem o baixo, porque tudo se apóia sobre o centro, como se pudesse
aceitar-se que alguma coisa em si mesma se apóie! E afirmam ainda que todos os graves, do outro
lado da Terra, tendem à superfície superior e repousam no solo, ao contrário dos que estão do
outro lado, exatamente como vemos na água imagens de objetos. Pretendem, pelo mesmo racioci-
nio, que andam de cabeça para baixo os animais, mas que não poder cair da Terra para as
regiões inferiores do céu, tal como não poderiam os nossos corpos, por si sós, voar aos templos
do céu: e quando eles vêem o Sol, vemos nós os astros noturnos; alternam conosco as épocas do
céu e correspondem aos dias deles nossas noites.
(Lacuna)'*
Mas não há lugar algum em que os corpos, depois de lã chegarem, possam fixar-se no vazio,
perdida a força do seu peso; por outro lado, é impossível ao vazio ficar por baixo de qualquer
corpo sem que, por sua própria natureza, continue a ceder. Não é possível, pois, admitir que as
coisas se sustentem no conjunto apenas coagidas pela atração do centro.
Depois, dizem que nem todos os corpos tendem para o centro, mas que o fazem a terrae a
água e tudo o que se contém no corpo terrestre, e a água do mar, e as grandes ondas que vêm das
montanhas, e que, pelo contrário, se afastam do centro as brandas, aéreas auras, e os fogos arden-
tes; e cintila de estrelas todo o céu, e alimenta-se a chama do Sol através de todo o azul firma-
mento só porque o calor foge do centro e lá se vai reunir todo; também, por seu turno, não pode-
riam cobrir-se de folhas as últimas ramas das árvores, se da Terra, a pouco e pouco, não subisse
a cada um seu alimento.
(Lacuna)
Os sustentáculos do mundo, à maneira das aladas chamas, fugiriam de repente, dispersos
pelo espaço imenso, e todo o resto os seguiria de forma semelhante, caindo de cima o.espaço do
céu onde o trovão ribomba, fugindo-nos dos pés, subitamente, a terra; tudo, dissolvidos os corpos,
iria, pelo profundo espaço vago, entre as ruínas do céu e as ruínas das coisas, misturadas, e, num
momento, nada ficaria dos destroços senão a deserta imensidade e os invisíveis átomos. Qualquer
18 O texto de Lucrécio foi destruído por um acidente do manuscrito. O (= Oblongus, Vossianus Lat. F. 30,
Leyde), entre os versos 1067 e 1076 do Livro I; restam apenas algumas palavras de cada verso e sobre elas
tentou Munro reconstituir um texto; a tradução seria assim: “Mas só um erro vão pôde fazer que os tolos
aprovassem estas falsidades, por terem, com um falso raciocínio, abraçado a realidade. Não pode haver cen-
tro porque o universo é infinito; e, mesmo que o houvesse, nada prova de maneira alguma que um corpo
qualquer se pudesse fixar nesse ponto de preferência a afastar-se por alguma outra causa; com efeito, todo
o lugar e todo o espaço a que chamamos vácuo deve, pelo centro e sem ser pelo centro, dar igual passagem
aos corpos pesados, por toda parte a que os levem seus movimentos”. O mesmo acidente destruiu oito ver-
sos, mas estes por completo, entre o verso 1093 eo verso 1102 do mesmo Livro I.
DA NATUREZA Bio
que seja o lugar que escolhas para dizeres que aí faltou a matéria, é esse o lugar em que para as
coisas se abrirá a porta do morrer: por ela se escapará todo o tumulto da matéria.
Guiado assim, aprenderás a conhecer isto, sem grande trabalho teu uma coisa esclarecerá a
outra, e a escura noite não te impedirá o caminho sem que tenhas contemplado a natureza última:
os fatos darão luz aos fatos.
IIS
Livro II
É bom, quando os ventos revolvem a superfície do grande mar, ver da terra os rudes traba-
lhos por que estão passando os outros;'º não porque haja qualquer prazer na desgraça de alguém,
mas porque é bom presenciar os males que não se sofrem. É bom também contemplar os grandes
combates de guerra travados pelos campos sem que haja da nossa parte qualquer perigo.
Mas nada há de mais agradável do que ocupar os altos e serenos lugares fortificados pelas
doutrinas dos sábios, donde se podem ver os mais errar por um lado e outro e procurar ao acaso
o caminho da vida, lutar à força de talento, ter rivalidades de nobreza e esforçar-se, com trabalho
de dias e de noites, por alcançar as maiores riquezas e apoderar-se do governo.
Ó pobres espíritos humanos, ó cegos corações! Através de que trevas-e perigos se passa O
pouco tempo de vida! Não sente cada um o que a natureza a gritos proclama, que esteja sem dor
o corpo e goze a mente, fora de medo e de cuidado, de um agradável sentimento?
Pouco é necessário, naturalmente, pelo que diz respeito ao corpo: tudo o que suprime a dor
pode dar-lhe ao mesmo tempo numerosas delícias. E, entretanto, a própria natureza não exige
nada mais agradável: se não temos na casa estátuas douradas de jovens segurando na mão direita
lâmpadas ardentes que dêem luz aos banquetes noturnos, se a casa não refulge com a prata nem
rebrilha com o ouro, se não ressoam as citaras pelas salas lacadas e douradas, não exigem os cor-
pos grandes bens desde que estejam deitados sobre a branda relva, perto de um rio de água corren-
te, à sombra de uma alta árvore, sobretudo quando o tempo sorri e a estação do ano adorna de
flores as ervas verdejantes. E as febres ardentes não se afastam mais depressa do corpo por se
estar agitado sobre tapetes bordados e sobre a rubra púrpura do que por nos termos Far deitar num
pano plebeu.
Por isso, visto em dada serem os tesouros úteis ao corpo, nem a nobreza nem a glória de
mandar, o que falta é pensar que também não são úteis ao espírito. Ora, é certo que o verem-se
por acaso as legiões, cheias de ardor, simular a guerra no campo de Marte, com reservas numero-
sas, providas de armas e igualmente animadas, ou ver-se uma frota fazer-se aô largo com celeu-
ma, em nada influi para que fujam do espírito, temerosas, as pávidas crendices, nem os temores
da morte deixam o peito vazio e livre de cuidados.
E, se pensarmos que tudo isto é ridículo e vão, o que é verdade é que os terrores dos homens
e os cuidados pertinazes não temem o som das armas nem os terríveis arremessos, e audaciosa-
mente se metem entre reis e poderosos, não receando os fulgores do ouro nem o brilhante esplen-
dor de um vestúario de púrpura; por que razãó se há de duvidar de que só a inteligência o possa
fazer, quando toda a nossa vida se passa labutando entre trevas?
Exatamente como trêmulos meninos que tudo receiam nas obscuras trevas, assim nós teme-
mos à luz do dia o que em nada é mais de recear do que as fantasias que atemorizam os meninos
no escuro. E a este terror do espírito e a estas trevas não afastam nem os raios do Sol, nem os
luminosos dardos do dia: só o fazem o estudo da natureza e suas leis.
'º Para Lucrécio, como para Epicuro, a filosofia tem uma finalidade: a de garantir uma existência espiri-
tualmente trangúila, sobranceira às disputas, às intrigas, às invejas e às ambições dos homens; a filosofia tem,
-por conseguinte, um valor de utilidade e é por isso que, para os seus discípulos, Epicuro aparece mais como
um benfeitor da humanidade do que como um espírito elevado que mais tenha progredido do que os outros
no caminho do conhecimento. Os versos em que Lucrécio louva a sobriedade e a vida modesta estão perfeita-
mente dentro da linha epicurista, ao contrário da imagem vulgar da doutrina, e ao mesmo tempo enqua-
dram-se de modo exato na tradição dos moralistas romanos; a única diferença está em que Lucrécio se afas-
ta, com os seus conselhos ou normas epicuristas, da dureza, do severo orgulho e da secura que são freqiientes
nos romanos do tipo de Catão.
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Vamos, então, agora explicar?º por que movimento os elementos geradores da matéria
engendram os vários corpos e os dissolvem depois de engendrados, por que força são obrigados
a fazê-lo, e que possibilidade lhes foi dada de, movendo-se, percorrerem o vago espaço imenso: e
tu, não te esqueças de atender ao que eu disser.
É indubitável que a matéria não forma um todo compacto, visto vermos que tudo se gasta e
por assim dizer se desfaz ao longo dos tempos e se oculta na velhice aos nossos olhos; o conjunto,
no entanto, parece permanecer intato, pois o que se retira de qualquer corpo, e por aí o diminui,
vai aumentar aquele a que se junta: obrigam uns a envelhecer, outros a prosperar; e não param.
nesse ponto. Assim continuamente se renova o Universo e vivem os mortais de trocas mútuas.
Aumentam umas espécies, diminuem outras, e em breve espaço se substituem as gerações de seres
vivos e, como os corredores, passam uns aos outros o facho da vida.
Se julgas que podem parar os princípios das coisas e parando gerar seus novos RR
andas desviado e muito longe de um verdadeiro raciocínio. Efetivamente, como erram através do
vazio, é fatal que ou sejam os elementos das coisas levados pelo seu próprio peso ou pelo casual
choque dos outros: de fato, quando se encontrem, em direções opostas, ressaltam de repente e
cada um para seu lado; e não há nada que estranhar, porque são durissimos, de maciço peso, e
nada por detrás lhes levanta obstáculo. E, para que imagines melhor as agitações de todos os ele-
mentos da matéria, lembra-te de que não há no Universo qualquer fundo, e que não há lugar onde
assentem os elementos, porque o espaço é sem fim e sem limites: já mostrei e demonstrei com
exato raciocínio que o espaço imenso se estende de todos os lados e para todas as partes.
E, porque isto é assim, não é de admirar que não tenha sido dado repouso algum aos elemen-:
tos dos corpos através de todo o imenso espaço vazio: agitados por um movimento constante e
variado, uns ressaltam a grande distância, depois de se chocarem, outros em breve Fspaço sofrem
o efeito da pancada.
Aqueles que, por mais densa composição, pouco se afastam depois do choque, Esdds como
estão pelo entrelaçado de seus esquemas, formam os rijos fundamentos das rochas e os feros cor-
pos do ferro e as restantes coisas deste gênero. Outros, que são poucos, vagueiam pelo vazio imen-
so e ressaltam longe e de longe voltam, com grandes intervalos: estes nos dão o leve ar e o esplên-
dido luminar do Sol. Há, além de todos eles, muitos que vagueiam pelo espaço imenso e que não
têm lugar nas composições das coisas nem jamais foram recebidos e consorciaram movimentos.
Do que acabo de dizer temos nós sempre presente, ante os olhos, o traslado e imagem.
Observa os raios do Sol que entram dando sua luz na obscuridade de uma casa: verás que na pró-
pria luz dos raios se misturam, de modos vários, numerosos corpos diminutos, e, como se fosse
em eterna luta, combatem, dão batalhas, por grupos certos se guerreiarn e não há pausa, agitados
como estão pelos encontros e pelas separações frequentes. Podes imaginar por isto o que será a
perpétua agitação no vago espaço dos elementos das coisas na medida em que um pequeno fato
pode dar idéia de grandes coisas, e elementos para seu conhecimento.
Há também outro motivo para observar os corpos que se vêem agitar-se nos raios do Sol:
tais movimentos desordenados revelam os movimentos secretos, invisíveis, da matéria. Verás que
muitos, ao impulso de choques invisíveis, mudam de direção, e, repelidos, voltam para trás, para
um lado, para outro, realmente para todos os pontos. Ora, é evidente que esta marcha errante vem
toda ela dos elementos.
Efetivamente, são os próprios elementos os primeiros a se moverem por si mesmos; vêm de-.
pois os corpos cuja composição é reduzida e que estão, digamos assim, mais perto de forças
elementares: movem-se impelidos pelos choques invisíveis destas últimas, e, por seu turno, põem
em movimento os que são um pouco maiores. Assim o movimento sobe desde os elementos e a
pouco e pouco chega aos nossos sentidos, até que se movem aquelas mesmas coisas que podemos
ver na luz do Sol, embora permaneçam invisíveis os choques que os causam.
2º Lucrécio, assim como, no Livro I (ou antes: no que forma, do Livro I, uma introdução geral ao poema),
tinha indicado o assunto do seu trabalho, dá agora indicações do que será o tema do Livro II: o movimento
dos átomos, a causa que o provoca e os efeitos que dele provêm. Como os corpos são formados de átomos
e incessantemente uns decaem ou morrem, enquanto outros nascem e crescem, é evidente que os elementos
atômicos que os formam devem precipitar-se sem pausa dum ponto a outro e por toda a imensidade do Uni-
verso; os átomos estão, portanto, em movimento contínuo, e, para dar alguma idéia do que é este movimento,
Lucrécio introduz a comparação com as partículas que dançam nos raios do sol e cuja agitação o poeta atri-
bui aos invisíveis choques dos átomos; é curioso observar a afinidade entre a reflexão de Lucrécio e a-teoria
do movimento browniano estudado pela f fisica moderna.
DA NATUREZA 57
E agora, Mêmio, em poucas palavras poderás saber que movimento foi dado aos elementos
da matéria. Quando a aurora lança sobre as trevas a nova claridade e as aves variegadas, voando
pelos profundos bosques, percorrendo o leve ar, enchem todos os lugares com suas vozes límpi-
das, todos nós podemos ver como o Sol, que então se levanta, tudo cobre rapidamente com seu
manto de luz.
E, no entanto, este calor que o Sol envia, esta luz serena, não transpõem um espaço inteira-
mente vazio; têm que ir mais devagar enquanto fendem as ondas aéreas. Depois os corpúsculos de
calor não vêm um a um, mas caminham presos uns aos outros e como englobados; atrasam-se
eles próprios entre si e encontram obstáculos exteriores: têm, portanto, que ir mais tardos.
Aos elementos, que são simples e compactos, e avançam por um espaço vazio, nada os de-
mora pelo exterior; e, como formam as suas partes um todo único, são levados na direção que
tomaram de princípio; devem, portanto, ter uma mobilidade sem igual e deslocar-se muito mais
depressa do que a luz do Sol e transpor, no mesmo tempo, uma distância muito maior do que
aquela que percorrem no céu os raios solares. (Lacuna ) Mas não continuemos a examinar os ele-
mentos um a um para ver de que maneira se realiza cada coisa.
No entanto, contrariamente a isto?" alguns, ignorantes da matéria, crêem que não teria podi-
do a natureza, sem favor dos deuses, acomodar-se tanto aos objetivos humanos, variando as esta-
ções do ano, criando as searas e todas as outras coisas a que incita os mortais, pondo-se como
guia da vida a própria, divina voluptuosidade, e incitando-se, pelos trabalhos de Vênus, a que se
reproduzam as gerações para que não pereça o gênero humano.
Mas parece, quando pensam que tudo fizeram os deuses por causa dos mortais. que andam
muito longe da verdade. Efetivamente, embora eu ignorasse quais são Os princípios das coisas,
ousaria afirmar, pelas próprias leis do céu e por outros fatos numerosos, que de modo algum o
mundo foi criado para nós por um ato divino: tanto é o mal que o macula. Mas é isto, Mêmio, um
ponto de que trataremos mais tarde; agora exporemos o que resta acerca dos movimentos.
É agora a oportunidade, * 2 segundo creio, e neste mesmo assunto, de te demonstrar que ne-
nhum corpo pode por sua própria força levantar- -se, deslocar-se de baixo para cima. Cuidado, não
te induzam em erro neste ponto os elementos das chamas. É sem dúvida voltando-se para cima
que elas surgem e tomam seus aumentos; e é também para cima que crescem as searas brilhantes
e as árvores, ao passo que os graves, por sua própria natureza, tendem todos para baixo. Mas nem
mesmo quando o fogo salta até os telhados das casas, e com rápida chama devora traves e vigas,
se deve julgar que o faz espontaneamente sem que qualquer força o obrigue; é exatamente o que
sucede quando o sangue, saindo-nos do corpo, se eleva em jato no ar e se espalha, vermelho.
Não vês também com quanta força vigas e traves são repelidas pela água? Quanto maior é
a pressão que exercemos de cima para baixo, quanto mais tentamos, com toda força, obrigá-los
a descer, tanto mais vigorosamente a água Os repele e vomita, a ponto de a maior parte emergir
21 Neste passo, Lucrécio não põe de parte a idéia de uma causa final do Universo; levanta-se contra qual-
quer possibilidade de uma causa final humana, isto é, de tudo ter sido criado por um poder benevolente, para
uso, gozo e conforto da humanidade; e apresenta, como argumento, o grande número de defeitos que, sob o
ponto de vista humano, se podem encontrar no mundo. A opinião contrária era sustentada pelos estóicos: o
mundo era bom e só nós o tínhamos estragado pelo nosso procedimento, extravagante e ambicioso. Quando
mais adiante, no Livro V, Lucrécio trata de novo a questão, não faz mais do que repetir por outra forma os
mesmos argumentos destes versos.
22 A aceitação de um movimento eterno dos átomos suscita um problema, o da força que lhes imprime esse
movimento; na física de hoje, a progressiva desmaterialização do átomo destrói, segundo parece, a dificul-
dade, mas, para Lucrécio, que vê os átomos como corpúsculos, tem de se dar uma explicação cabal. Para ele
há duas espécies de movimentos dos átomos: o primitivo, de cima para baixo, provocado pelo peso, e os
secundários, resultantes dos choques dos átomos entre si. Quanto à segunda espécie de movimento, não
havia objeções; quanto à primeira, já tudo se passava de outro modo; efetivamente, se os átomos caem de
cima para baixo — e já é estranha esta idéia de cima e de baixo num Universo infinito — e se, como o pró-
prio Lucrécio o afirma, não há no Universo centro a que concorram, é evidente que os átomos cairiameterna-
mente em linhas paralelas e nunca mais poderia surgir corpo nénhum. Como resposta, Epicuro ideou a teoria
do clinamen, que Lucrêcio expõe logo a seguir e que tem um defeito grave: o de ser uma hipótese puramente
gratuita, sem apoio de observação dos sentidos, única fonte de conhecimento, segundo a doutrina. A idéia da
declinação dos átomos foi das que mais chamaram a ironia dos adversários do epicurismo na Antiguidade
e os próprios partidários da doutrina procuraram passar sobre este ponto o mais depressa possível. No
entanto, alêm da importância para a cosmogonia, a idéia da declinação era fundamental para a moral epicu-
rista: era a única possibilidade que restava, num Universo totalmente mecanicista, de introduzir uma parcela
de liberdade. Parece que Demócrito, mais coerente, negava a existência de liberdade.
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e aparecer à superfície. Todavia não duvidamos de que estes corpos, entregues a si próprios, serão
levados pelo espaço de cima para baixo; do mesmo modo devem as chamas poder, quando sob
pressão, elevar-se nos ares, embora o peso que nelas existe por natureza lute por fazê-las descer.
E não vês que os fogos noturnos que voam pelo alto dos céus levam atrás de Si longas caudas
de chamas, qualquer que seja a direção que a natureza tenha dado à sua marcha? Não vês cair na
Terra estrelas e astros? E o Sol, lá de cima dos céus, dispersa por toda parte o seu calor e cobre
de luz todos os campos: portanto, desce para a Terra o fogo do Sol. Vês ainda os rios atraves-
sarem obliquamente as bátegas de água: ora dé um lado, ora do outro, arrancam-se das iuvens os
seus fogos; e muitas vezes é na Terra que vem cair a flâmea força.
Há neste assunto um ponto que desejamos conheças: quando os corpos são levados em linha
reta através do vazio e de cima para baixo pelo seu próprio peso, afastam-se um pouco da sua
trajetória, em altura incerta e em incerto lugar, é tão-somente o necessário para que se possa dizer
que se mudou o movimento. Se não pudessem desviar-se, todos eles, como gotas de chuva, cai-
riam pelo profundo espaço sêmpre de cima para baixo e não haveria para os elementos nenhuma
possilidade de colisão ou de choque; se assim fosse, jamais a natureza teria criado coisa alguma.
Se alguém pensasse que os elementos mais pesados poderiam, pela maior velocidade com
que se deslocam através do vazio, cair de cima sobre os mais leves e dar, assim, lugar a choques
que tornassem por sua vez possíveis os movimentos de criação, muito longe andaria ele da verda-
de. É fora de dúvida que tudo quanto cai através da água ou do ar sutil tem de acelerar, segundo
o peso, a sua queda: os elementos da água e a natureza leve do ar não podem retardar por igual
cada uma das coisas e cedem mais depressa quando sofrem a pressão de maiores pesos.
Mas, pelo contrário, em tempo algum e em lugar algum poderia O vazio estar por baixo de
qualquer coisa sem que, segundo lhe pede a sua natureza, continue a ceder-lhe; por isso, todos eles
devem ser levados pelo inerte vácuo com igual velocidade, embora sejam desiguais os pesos. Não
poderão, portanto, os mais pesados cair jamais sobre os mais leves, nem por si próprios originar
os choques pelos quais a natureza gera as coisas.
É, por conseguinte, absolutamentê necessário que os elementos se inclinem um pouco, mas
somente um pouco, para que se não pareça conceber movimentos oblíquos e o refute a realidade.
De fato, pelo que observamos, é evidente e manifesto que os graves, por si próprios, não podem
tomar caminhos oblíquos, pelo menos visíveis para nós, quando se precipitam de cima para baixo.
Mas quem há que possa verificar que em nada se desviam do caminho direito?
Finalmente, se todo movimento é solidário de outro e sempre um novo sai de um antigo,
segundo uma ordem determinada, se os elementos não fazem, pela sua declinação, qualquer prin-
cípio de movimento que quebre as leis do destino, de modo a que as causas não se sigam perpetua-
mente às causas, donde vem esta liberdade que têm os seres vivos, donde vem este poder solto dos
fados, por intermédio do qual vamos aonde a vontade nos leva e mudamos o nosso movimento,
não em tempo determinado e em determinada região, mas quando o espirito o deseja? É sem dúvi-
da na vontade que reside o princípio de todos estes atos; daqui 6 movimento se dirige a todos os
membros.
E não é verdade que os cavalos, com toda a sua força impaciente, não podem irromper no
próprio momento em que lhes abrem as cavalariças e tão rapidamente como lhes desejaria a von-
tade? Tem de se animar a matéria, O corpo, e só quando se anima pelos membros pode seguir o
impulso do espírito; por aqui se vê que tudo vem primeiro do espírito e da vontade e se dirige de-
pois pelo corpo e pelos membros.
Nada hã de semelhante quando somos impelidos pelo violento choque de outrem, por uma
forte pressão. Nesse caso, é evidente que toda a matéria de tôdo o corpo vai, sem nós o querermos,
como que arrastada até que a vontade a refreie nos membros.
Vês então que, embora uma força exterior muitas vezês nos empurre e nos obrigue contra a
nossa vontade a avançar e nos arraste, precipite, há todaviã ho nosso íntimo alguma coisa que se
pode opor € resistir? É por essa vontade que a matéria é obrigada a dirigir-se pelos membros, pelo
corpo, é por ela que se refreia, depois de lançada, e volta para trás.
Ora, é necessário aceitar que haja o mesmo nos germes das coisas, que haja para os movi-
mentos uma causa distinta do choque e do peso: dela nos viria este inato poder, visto que; já O
. sabemos, nada pode vir do nada. De fato, o peso impede que tudo se faça por meio de choques,
como por uma força externa. Mas, se a própria mente não tem, em tudo o que faz, uma fatalidade
interna, e não é obrigada, comô contra a vontade, à passividade completa, é porque existe uma
pequena declinação dos elementos; sem ser em tempo fixo; nem em fixo lugar.
Depois, a massa da matéria nunca foi mais condensada, nem teve jamais maiores intervalos.
Efetivamente nada vem aumentá-la, e nada se perde. Por isso o movimento que anima agora os
DA NATUREZA 59
elementos dos corpos é o mesmo que tiveram em idades remotas e o mesmo que terão no futuro,
segundo leis idênticas; o que teve por hábito nascer nascerá nas mesmas condições; e tudo existirá
e crescerá e será forte de sua própria força, segundo o que foi dado a cada um pelas leis da nature-
za. Nem força alguma pode modificar o conjunto das coisas: não há realmente lugar algum para
onde possa fugir, de todo, qualquer elemento da matéria, ou donde possa vir, para irromper no
todo, qualquer força nova que mude a natureza das coisas e modifique os movimentos.
Neste ponto, não há que estranhar que, estando os princípios das coisas em movimento,
todavia pareça a totalidade estar totalmente sossegada, a não ser pelo movimento próprio de cada
corpo.?º A natureza dos corpos primordiais está muito abaixo de nossos sentidos: e, como já são
invisíveis. também devem ocultar-nos os seus movimentos, sobretudo -quando o que podemos ver
muitas vezes nos esconde também o movimento pela interposta distância dos lugares.
Assim, frequentemente os lanígeros gados que se deslocam pelas colinas trincando os pin-
gues pastos por toda parte a que os incitam as ervas em que brilham como pedras preciosas as
gotas de recente orvalho, enquanto os cordeiros saciados brincam e retouçam brandamente, não
nos aparecem de longe senão confusos e como uma brancura imóvel sobre a colina verde. O
mesmo sucede quando as legiões numerosas enchem com suas evoluções o campo de Marte e nos
apresentam uma imagem da guerra, quando o brilho das armas se eleva até o cêu e toda a terra
à volta resplandece com o bronze e se levanta sob os pés dos homens o rumor que vem da sua
força, e os montes feridos pelos gritos lançam o eco para os astros celestes, e caracolam cavalei-
ros, e de repente, com valente impulso, atravessam, abalando-o, o campo: há, apesar de tudo, um
lugar nos altos montes onde parecem estar firmes e haver apenas um brilho, imóvel sobre os
campos.
E agora, vais ficar a saber? * de que natureza são os elementos das coisas e como são diferen-
tes em forma, e que variedade têm suas múltiplas figuras: não porque haja poucos que têm forma
semelhante, mas porque em geral não são todos iguais. E não há que estranhar: a massa deles é
de tal ordem que não tem, como disse, nem termo nem total e, por conseguinte, são indubitavel-
mente de aspecto desigual e de forma diferente.
Depois, quanto ao gênero humano, e aos bandos escamosos, mudos e nadantes, e aos gran-
des rebanhos, e aos animais silvestres, e às aves variegadas, tanto as que povoam os alegres luga-
res à borda da água, margens dos rios, fontes e lagos, como os que percorrem, voando, os espes-
sos bosques, toma a espécie que quiseres e verás que, apesar de tudo, diferem uns dos outros pela
forma. Doutro modo, não poderia o filho reconhecer a mãe, nem a mãe poderia reconhecer o
filho; ora, vemos que podem e que se conhecem tão bem como os homens entre si.
Muitas vezes, diante dos adornados templos de deuses, perto dos turicremos altares, cai
sacrificado um vitelo. A mãe desolada percorre os verdes pastos, procura as pegadas impressas no
chão pelos cascos fendidos, fixando os olhos em todos os lugares, a ver se pode encontrar o filho
perdido e, parando, enche de queixas o bosque frondoso e volta de novo para o estábulo varada
de saudades pelo filho. Nem os tenros salgueiros, nem as ervas refrescadas pelo orvalho nem os
rios correndo cheios de bordo a bordo podêm distrair-lhe o ânimo e afastar o súbito cuidado; a
vista dê outros vitelos que andam pelos pastos abundantes não pode também distrair-lhe o ânimo
e aliviá-la da sua dor: tanto é certo que procura alguma coisa que lhe é própria e conhecida.
Além disto, os tenros cabritos de voz trêmula conhecem as comígeras mães, e os lépidos cor-
deiros o balido das ovelhas: cada qual, obedecendo à natureza, corre às tetas do leite que é seu.
Por fim, quanto ao grão de qualquer cereal, verás que, apesar das semelhanças que tem com
23 O grupo de filósofos gregos que se costuma denominar eleatas (de Eléia, cidade grega da Itália) defendia
a imobilidade do Universo e negava a existência de vazio, de espaço livre; o movimento que apreendemos
pelos sentidos era, para os eleatas, apenas uma ilusão. É um dos seus pensadores, Parmênides, porventura o
mais notável de todos, quem permite a passagem do materialismo pré-socrático para o idealismo de Platão.
Lucrécio não aponta os argumentos de Parmênides ou de Zenão; toma o problema apenas pelo seu aspecto
concreto e dá-lhe solução por meio de uma imagem. Encontramos aqui um dos primeiros exemplos da pés-
sima influência da poesia ou, dum modo mais geral, da literatura sobre o pensamento filosófico, que deu
como resultado a tendência, muito geral em certas épocas, de tratar os problemas filosóficos por processos
exclusivamente literários.
24º Lucrécio consagra um grande número de versos a descrever as várias formas (hipotéticas) de átomos, de
maneira a explicar as diversas formas e propriedades dos corpos. Não parece haver aqui apenas o interesse'
do filósofo, embora tudo quanto diga respeito aos átomos seja basilar para a física de Epicuro; O interesse
do poeta deve andar a par com o do pensador, se é que o não ultrapassa: a capacidade de expressão do con-
creto de que Lucrécio dá provas a cada passo e o seu gosto, o seu amor, a sua avidez do fenômeno, devem-no
ter levado em grande parte à acumulação de exemplos e descrições de todo este passo.
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os da mesma espécie, há sempre entre eles qualquer diferença de forma. Da mesma maneira,
vemos as conchas colorirem o regaço da terra no lugar em que a água vem aplanar com suas
brandas ondas a sedenta areia do litoral recurvo.
Por tudo isto, é fatal que de modo semelhante, e dado que são os elementos um produto da
natureza e não fabricados pelo homem segundo um modelo determinado, voejem pelo espaço com
forma diferente de um a outro.
É muito fácil explicar agora, de uma forma racional, de que modo o fogo dos raios é muito
mais penetrante do que o nosso, aquele que sai das tochas terrestres. Pode-se dizer que o celeste
fogo do raio, mais sutil, é composto de pequenos elementos e por isso atravessa poros por onde
não passa este fogo nosso, nascido da lenha e produzido pela tocha.
Por outro lado, a luz passa pelo corno, mas a chuva é repelida por ele. Por que razão? Por-
que os elementos da luz são menores do que aqueles de que é formado o criador líquido das águas.
E, embora vejamos o vinho correr rapidamente pelo filtro, tarda o preguiçoso azeite, ou porque os
seus elementos são maiores ou porque são mais recurvos e mais implicados uns nos outros, de
maneira que não podem os germes, separando-se uns dos outros, passar um a um por cada poro.
A isto acresce que o mel e o leite passam na boca com uma sensação agradável para a lín-
gua; pelo contrário, a repugnante natureza do absinto e da bravia centáurea fazem retorcer o
rosto com seu terrível sabor; vês, portanto, facilmente, que os corpos que podem impressionar
agradavelmente o gosto se compõem de elementos lisos e redondos; os que aparecem como áspe-
ros e amargos têm uma contextura de elementos em gancho: é esta a razão por que costumam
despedaçar-nos as vias dos sentidos e exercem violência sobre os órgãos ao entrarem.
Enfim, todas as impressões boas e todas as impressões más para os sentidos são desseme-
lhantes entre si, e até, por formação, opostas; não julgues que o som desagradável e áspero da
estridente serra se compõe de lisos elementos como a musical melodia que os citaristas com seus
ágeis dedos despertam e modulam pelas cordas, não creias também que penetram no nariz dos ho-
mens elementos da mesma forma quando queimam cadáveres repugnantes e quando a cena foi há
pouco regada com açafrão da Cilícia ou quando um altar exala os perfumes pânqueos; não atri-
buas também os mesmos elementos às cores agradáveis que apascentarn os olhos e àquelas que os.
ferem e obrigam a chorar ou parecem, pelo seu mau aspecto, horrorosas e repulsivas. Tudo o que
de qualquer modo é agradável aos sentidos não se forma sem que haja destes elementos lisos; tudo
aquilo que é molesto e rude não aparece sem que haja alguma aspereza da matéria.
Há também alguns que se não podem supor inteiramente lisos nem de todo aduncos, com
pontas recurvas, mas antes com pequenos ângulos um pouco salientes, de modo a poderem mais
titilar do que ferir os sentidos: são desta espécie o tártaro e os sabores da ínula.
Por fim, o cálido fogo e a gélida geada mordem os nossos sentidos, como a dente, mas de
maneira diversa, conforme nos indica o tatear de cada uma. Porque o tato, o tato, ó sagrados,
poderosos deuses!, é o sentido do corpo, quando nele se insinua um objeto externo, ou quando o-
fere uma substância nascida no próprio corpo, ou quando lhe apraz o que sai no gerador ato de
Vênus, ou quando, por um choque, se perturbam no próprio corpo os átomos e, batendo uns nos
outros, nos confundem os sentidos: o que podes experimentar se bateres com tua própria mão em
qualquer parte do corpo. É, portanto, necessário que as formas dos elementos difiram muito entre
si para que possam produzir assim as várias sensações.
Finalmente, os corpos que parecem espessos e maciços devem ter fatalmente na sua compo-
sição maior número de elementos em gancho que formam entre si ramificações compactas. Nos
desta espécie vem em primeiro lugar a pedra diamantina, que pode sustentar com a maior resis-
tência todos os choques, e as valentes rochas, e as forças do resistente ferro, e o bronze que, resis-
tindo, grita nas portas. Mas devem compor-se mais de elementos lisos e redondos os líquidos que
têm uma constituição fluida: a semente da papoula absorve-se tão facilmente como água porque
nada retém entre si os elementos esféricos e cada qual, quando impelido, logo rola e escapa.
Por fim, todos os corpos que vês dispersarem-se num momento, como por exemplo o fumo,
as nuvens e as chamas, têm de se compor de elementos lisos e redondos, se não inteiramente, ao
menos o bastante para que, encadeando-se, não embaracem o movimento: só assim podem ferir
os corpos e penetrar nas pedras, sem que todavia fiquem presos entre si; poderemos assim reco-
nhecer facilmente tudo o que é aplacado nos sentidos e constituído por elementos, não ligados
entre si, mas agudos.
E não tens que te admirar ao veres corpos amargos, que são ao mesmo tempo fluidos, como,
por exemplo, a água do mar: a parte que é fluida consta de elementos lisos e redondos, mas vão
misturados elementos de dor, que são ásperos; todavia, não é necessário sempre que sejam adun-
DA NATUREZA 61
cos; possivelmente são redondos e ao mesmo tempo ásperos, para que possam rolar e ferir-nos os
sentidos.
Para que te convenças mais facilmente que é esta mistura de elementos rugosos e de lisos que
dá o seu sabor amargo ao corpo de Netuno, há um processo de separar e de ver isolada a parte
doce, depois que, pela filtragem repetida através de terra, chega à cisterna € aí repousa: deixa em
cima os elementos do infeto amargor, os quais, por serem ásperos, mais facilmente ficam presos
à terra.
Como ensinei isto,? º vou agora juntar uma coisa que dela depende e que é boa para demons-
trar que os elementos dos corpos variam de forma segundo um modo finito. Se não fosse assim,
deveria haver certos elementos de infinito tamanho, porque, dada a pequenez de todo o elemento,
não podem variar muito as suas formas: põe que os elementos constam, nas suas partes mínimas,
de três ou até um pouco mais: quer se coloquem em cima quer embaixo estas partes de um mesmo
elemento, quer se lhes troque a direita com a esquerda, quer se experimentem outras combinações,
qualquer que seja a ordem capaz de mudar o aspecto de todo o elemento, sempre resulta que, se
por acaso se quiserem variar as formas, se têm de juntar outras partes; e, de forma idêntica, con-
clui-se que se se quiser variar ainda as formas ter-se-á de, por nova combinação, buscar outras
partes; portanto, as formas novas implicam um aumento de volume. Não há, pois, forma de se
crer que possa ser infinita a variedade de formas dos elementos, a não ser que se admita uma
grandeza monstruosa, o que, como já demonstre, é impossível aceitar.
Depois, as barbáricas vestes, a resplandecente púrpura melíbea tingida pela cor das conchas,
o esplendor dourado dos pavões impregnados de ridente graça, cairiam superados por novos colo-
ridos; desprezar-se-ia o perfume da mirra e o sabor do mel e, pelo mesmo motivo, calar-se-iam,
opressos, os cantos do cisne e, nas cordas, as harmoniosas, fébeas melodias: ante cada valor se
levantaria um mais alto valor.
Por outro lado, tudo poderia também ir de mal a pior, exatamente como vimos quanto às
melhores: haveria para O nariz, os ouvidos, os olhos e o paladar sensações cada vez mais desagra-
dáveis. Mas, como não sucede assim, como tudo aparece encerrado dentro de certos limites, é for-
çoso confessar que a matéria só difere, quanto à forma, em termos limitados; desde o fogo às géli-
das geadas há um caminho limitado, e a mesma medida se tem de contar em sentido i inverso.
Com efeito, todo o calor e todo o frio, e todas as temperaturas médias ficam entre os dois
extremos e formam, ordenados, um conjunto. Portanto, tudo o que foi criado difere dentro de cer-
tos limites: de um lado e de outro os contêm duas pontas, como de espadas: as chamas e a geada
que as regela.
Como ensinei isto, vou agora? º juntar uma coisa que dela depende e que é boa para demons-
trar que os elementos dos corpos que têm a mesma forma são em número infinito. Com efeito,
como a variedade de formas é finita, é força que sejam infinitos os elementos semelhantes, e que
seja limitada a massa da matéria: ora, já provei que isto não é assim, mostrando em meus versos
que os corpúsculos de matéria, vindos do infinito, sempre mantêm o total pelo choque que provo-
cam de todos os lados.
Talvez o fato de veres que há seres vivos raros te leve a supor neles uma natureza menos
fecunda: mas pode ser que noutra região e em terras remotas haja muitos dessa espécie e por aí
se complete o número; o que, entre quadrúpedes, sucede principalmente com os elefantes de trom-
ba serpentina, de que há na Índia tantos milhares que é possível se levantarem muralhas de mar-
fim que vedem o acesso: tão grande é a quantidade destes animais bravios de que nós vemos
pouquíssimos exemplares.
Mas, para te ceder também. nisto, embora houvesse uma coisa única, que fosse só ela a existir
25 A idéia de que a variedade dos átomos não é infinita vem naturalmente de Epicuro, mas o filósofo grego
acrescentava que ela é em todo caso incalculável para a mentalidade humana. O argumento apresentado por
Lucrécio de que, se a variedade fosse infinita, acabaria por haver átomos extremamente grandes, é interes-
sante, quando Se compara com o que ensina a atomística atual: com efeito, se concebêssemos um infinito
progresso no número das camadas eletrônicas, acabaríamos por ter os átomos de que fala Lucrécio; a sua
pequenez, a sua invisibilidade, garantem um número finito de variedades.
28 Tucrécio, que expusera a idéia de um número infinito de átomos, propõe também a de um número infi-
nito de átomos de formas idênticas, dentro do infinito, digamos total, de tal maneira que se poderia natural-
mente fazer corresponder a cada átomo deste conjunto um átomo do conjunto de átomos idênticos. Uma
reflexão da mesma natureza pôs Cantor na pista de uma das mais notáveis criações da matemática moderna
(teoria dos conjuntos).
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tal qual é e a que não houvesse igual em todo o orbe das terras, se não existisse uma força de
matéria donde pudesse ser concebida a criação, não poderia ter surgido, nem depois crescer e se
nutrir.
Supondo mesmo que houvesse no total dos elementos os germes limitados de um só corpo,
onde, quando e por que força e de que modo se poderiam juntar através do vasto oceano da maté-
ria, através de turba tão alheia? Não têm, creio eu, possibilidade de se reunir.
Assim como é costume, depois de naufrágios grandes e pequenos, lançar ao imenso mar, por
um lado e outro, barcos, cascos, vergas, proas, mastros, remos flutuantes e arremessar a todas as
praias Os cavernames, para que os vejam os mortais e daí tirem lição, de modo a evitarem as insí-
dias do pérfido mar, e a sua violência e os seus enganos, e não acreditarem nele em tempo algum,
mesmo quando sorri o falaz convite do plácido mar, assim também, se aceitares que é limitado o
número de certos elementos, deverão eles, dispersos por todo o tempo, ser atirados em várias dire-
ções pelas marês diversas da matéria, sem que jamais possam ser impelidos a juntar-se, a reunir-
se, nem fiquem em grupo nem, crescendo, se desenvolvam. Ora, a realidade mostra claramente
que uma € outra coisa acontecem, que os corpos se criam e podem crescer depois de criados. Há,
portanto, em cada espécie, infinitos elementos que chegam para tudo.
E, assim, também os movimentos de destruição não podem vencer para sempre, nem sepultar
a vida para a eternidade, exatamente como os movimentos que produzem e aumentam os corpos
não conseguem assegurar para sempre as suas criações.
Deste modo se vai travando o combate dos princípios, numa guerra desencadeada desde tem-
pos infinitos. Ora, num ponto ou noutro vencem as forças vitais e são vencidas depois; misturam-
se com os lamentos funerários os vagidos que soltam os meninos ao verem as regiões da luz;
nenhuma noite se tem seguido a nenhum dia, nenhum dia se tem seguido a qualquer noite, sem
que se tenham ouvido misturados aos vagidos dolorosos os choros que são companheiros da
morte e dos negros funerais.
Há também nisto alguma coisa que é conveniente manteres bem firme e confiada.à memória
do espírito: nada existe, naquilo cuja natureza é visível a nossos olhos, que se componha duma só
espécie de elementos, e também nada existe que não seja constituído por germes misturados; e
quanto mais propriedades tem um corpo, quanto mais possibilidades rele se encontram, também
mais claramente demonstra que contém vários gêneros e várias formas de elementos.
Primeiro, contém a terra em si os corpos elementares donde as fontes, volvendo as frescas
águas, vão renovar continuamente os mares e também os elementos de que se originam os fogos.
Em muitos lugares da Terra o solo ardendo se incendeia e no ímpeto se enfurecem suas chamas
que vêm do profundo.
Tem igualmente aqueles com que faz crescer para a humanidade as brilhantes searas e as ár-
vores vigorosas e os que lhe permitem apresentar rios, frondes e pastos abundantes aos animais
errantes pelos montes. Por isso lhe deram ao mesmo tempo o nome de grande mãe dos deuses, de
mãe dos animais bravios e de geradora do nosso corpo.
A ela cantaram os doutos poetas gregos?” (Lacuna) saindo do templo e incitando os dois
leões atrelados ao carro; queriam dizer com isto que a grande Terra está suspensa no espaço e que
não há terra em que a Terra se possa apoiar. Juntaram-lhe as feras porque toda a descendência,
por mais brava que seja, se deve abrandar vencida pelos benefícios dos pais. Cingiram-lhe a cabe-
ça com uma coroa de muralhas porque ela sustenta e defende as cidades em lugares escolhidos.
E é ainda com estas insígnias que a imagem da mãe divina é levada pelas terras, no meio de um
respeitoso temor.
Vários povos, segundo os antigos costumes sacros, chamam-lhe Mãe do Ida e dão-lhe por
guarda. bandos frígios porque, segundo dizem, foi desta região que se espalharam pelo orbe da
27 O quadro da Terra adorada pelos homens como deusa é evidentemente um pouco estranho, sobretudo
pela sua extensão, dentro do ritmo filosófico e, quanto possível, de especulação em que o poema se desen-
volve; trata-se, de fato, de um excurso-um pouco à maneira da escola alexandrina, que se aclimataria em
Roma com a poesia de Catulo e dos poetae novi; o gosto pelos efeitos musicais das palavras, a demora nos
pormenores, O próprio assunto, aparentam todo este trecho com, por exemplo, as “Bodas de Tétis e Peleu”
e “A Cabeleira de Berenice”. Filosoficamente, o ponto importante é aquele em que o poeta põe os deuses
apenas como nomes de forças naturais; vai aqui ainda, segundo parece, mais longe do que a teodicéia tradi-
cional da escola, a não ser que se interprete o passo como significando apenas que os homens usam os nomes
dos deuses para os aplicar a fenômenos perfeitamente explicáveis por leis naturais; e é esta decerto a inter-
pretaçao mais aceitável.
DA NATUREZA 63
terra as produções das searas. Juntam-lhes eunucos, porque querem mostrar que todos aqueles
que violarem a divindade da Mãe e se mostrarem ingratos a seus progenitores devem ser conside-
rados indignos de trazer à luz da vida qualquer posteridade.
Tocam tambores tensos, as mãos soam, à volta, côncavos címbalos, as tubas cantam roucas
as suas ameaças, a oca flauta com seu ritmo frígio exalta os corações e vão os dardos como sinais
de violento furor, para que aterrorizem os ânimos ingratos e os peitos infiéis do vulgo com o
temor da poderosa deusa.
Logo que, levada através das grandes cidades, silenciosa, beneficia os mortais com sua cala-
da proteção, os fiéis, com generosa oferta, juncam de bronze e prata todas as ruas que percorre e
uma neve de rosas cobre a Mãe e os bandos que a acompanham. Grupos armados, Curetes Frí-
gios, segundo o nome que lhes dão os gregos, vão lutando entre si, pulam em cadência, alegres
como sangue, e sacudindo com os movimentos da cabeça os terríveis penachos fazem lembrar os
Curetes Dícteos que, segundo se diz, disfarçaram outrora em Creta os vagidos de Júpiter, enquan-
to, à volta do menino, meninos armados, dançando ligeiro, tocavam com ritmo o bronze no bron-
ze, para que Saturno o não apanhasse e não o passasse aos dentes, ferindo com ferida eterna o
coração da Mãe. Por isso homens armados acompanham a Grande Mãe; ou talvez queiram antes
dizer que a dança aconselha que defendamos com armas e valor a terra pátria e sejamos nós a
guarda da honra de nossos pais.
No entanto, tudo isto, apesar de tão belo e tão bem imaginado, anda muito longe da verdade.
Efetivamente, é fora de dúvida que os deuses, por sua própria natureza, gozam da eternidade com
paz suprema e estão afastados e remotos de tudo o que se passa conosco. Sem dor nenhuma e sem
nenhuns perigos, apoiados em seus próprios recursos, nada precisando de nós, não os impres-
sionam os benefícios nem os atinge a ira.
Quanto à Terra, o que é certo é que está em todo o tempo privada de sensibilidade e só por-
que possui os elementos dos mesmos corpos os pode, de modos variados, trazer à luz do sol. Mas
se alguém resolver chamar Netuno ao mar, e às searas, Ceres, e preferir abusar do nome de Baco
a empregar o vocábulo próprio do vinho, concedamos-lhe também que possa dizer que o orbe das
terras é Mãe dos deuses, contanto que, na realidade, não manche o próprio espírito com torpes
superstições.
É por este motivo que, embora pastem as ervas de um mesmo campo, vivam sob o mesmo
céu e mitiguem a sede no mesmo curso de água, vivem com aspecto diferente as lanígeras ovelhas,
e os belicosos filhos dos cavalos e as manadas de cornudos bois, conservando a natureza dos pais
e reproduzindo os hábitos da sua espécie. Tão grande é a diferença da matéria em qualquer espé-
cie de erva, tão grande também o é num rio!
Em seguida toma na totalidade um animal qualquer: ossos, sangue, veias, calor, líquido, vis-
ceras, nervos concorrem na sua formação; todos corpos que são muito diferentes e feitos de ele-
mentos de formas dessemelhantes.
Igualmente, tudo aquilo que arde no fogo tem em si, pelo menos, os elementos donde pode
lançar lume, produzir luz, espalhar centelhas e dispersar ao longe as cinzas.
Passando em revista os outros corpos com a mesma disposição de espírito, encontrarás que
se ocultam nas suas substâncias os elementos de muitas coisas, que encerram germes de formas
variadas. Finalmente, vês numerosos corpos que têm ao mesmo tempo cor, sabor e cheiro: primei-
ro, as dádivas...
(Lacuna) .
Devem compor-se, por conseguinte, de elementos diversos quanto à forma: eletivamente o
cheiro penetra por onde a cor não passa aos nossos órgãos; a cor tem seu caminho certo, e seu
caminho certo para entrada nos sentidos tem o gosto: por aí verás que são diferentes os feitios dos
elementos. Portanto, várias formas se juntam num mesmo todo e se compõem os elementos de
germes misturados.
Também nos meus versos te aparecem por toda parte muitos elementos comuns a muitas
palavras, embora se tenha de reconhecer que versos e palavras se compõem de elementos diver-
sos; não porque tenham poucas letras comuns ou porque não haja duas palavras compostas pelas
mesmas, mas porque em geral os conjuntos não são semelhantes.
O mesmo acontece com as outras coisas: embora lhe sejam comuns com muitos outros os
elementos primordiais, todavia os conjuntos podem diferir muitíssimo entre si: pode-se dizer, com
toda razão, que têm composição diferente a raça humana, as searas e as vigorosas árvores.
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Não se deve, porém, aceitar que os elementos se possam juntar de todas as maneiras. ?*º De
outro modo, ver-se-ia por toda parte nascerem monstros, existirem espécies de homens semiferas,
brotarem às vezes ramos de um corpo vivo, unirem-se membros de animais terrestres e marinhos
e até apresentar a natureza, pelas terras de tudo produtoras, quimeras que exalassem chamas das
tétricas goelas.
Ora, é manifesto que nada disto sucede, visto que todos os corpos criados a partir de germes
determinados e de determinada mãe conservam, segundo vemos, ao crescer, os caracteres especifi-
cos. Claro que isto não pode acontecer sem lei definida: de todos os alimentos que entram no
corpo, uns vão para os órgãos e aí se combinando produzem os convenientes movimentos; outros,
que lhe são alheios, a natureza os devolve à terra, e muitos ainda, que nos são invisíveis, escapam
sob o impulso de certos choques; são os que não se puderam combinar em parte alguma, nem se
juntaram, para os reproduzir, aos movimentos vitais do interior.
Mas não vás julgar que só os animais são determinados por estas leis: o mesmo princípio a
tudo põe suas marcas. Porquanto, assim como todas as coisas, por sua natureza, diferem entre si,
assim também se deve compor cada uma de elementos diversos, não porque sejam poucas a terem
as mesmas formas, mas porque em geral os conjuntos não são iguais. Como os germes são distin-
tos, têm também de ser diferentes os intervalos, as trajetórias, as ligações, os pesos, os choques,
os movimentos, os encontros, que não só diferenciam os seres vivos mas também distinguem as
terras e o total do mar e separam das terras todo o cêu.
Agora, ouve o que tenho para dizer-te,?º o que adquiri a preço de um agradável trabalho,
para que não creias que os corpos brancos, de que os olhos contemplam o esplendor, se compõem
de elementos brancos, e que os negros nasceram a partir de elementos negros: qualquer que seja
a cor de que estejam impregnados os corpos, não creias nunca que vem tal fato de serem os ele-
mentos de matéria tintos de semelhante cor. Os elementos não têm cor nenhuma, nem semelhante
à dos objetos, nem desigual.
Se te parece que elementos como estes não têm possibilidade de ser concebidos pelo espírito,
muito erras; OS que nasceram cegos, os que jamais viram a luz do sol, todavia conhecem pelo tato
corpos que não têm, para ele, cor alguma; daqui se pode concluir que pedem chegar a ser concebi-
dos pela nossa mente corpos que não têm à volta-cor nenhuma. Depois, nós mesmos, quando
tatearmos um objeto nas obscuras trevas, não o sentimos tinto de qualquer cor.
Como demonstrei que isto se passa assim, vou agora mostrar que existe: (Lacuna) toda cor
se pode transformar em outra qualquer, o que não é possível, de forma alguma, fazerem os corpos
elementares. É preciso, com efeito, que fique alguma coisa de estável para que não seja tudo redu-
zido inteiramente ao nada. Tudo aquilo que, transformando-se, sai de seus limites, produz logo a
morte do que antes foi. Cuidado, portanto, não dês cores aos elementos dos corpos: todas as coi-
sas te voltariam inteiramente ao nada. )
Além disso, se, por natureza, não têm os primórdios cor nenhuma e apresentam várias for-
mas de que tiram e variam-toda a espécie de cores, tendo grande importância as combinações dos
elementos, a posição relativa em que se encontram, e os movimentos que imprimem e recebem, é
muito fácil agora explicar racionalmente por que motivo o que anteriormente foi de cor negra
pode de repente adquirir uma brancura marmórea, como, por exemplo, o mar quando os grandes
2º Sendo os átomos em número infinito, havendo a declinação e sendo ilimitado o espaço, poder-se-ia pen-
sar que as suas combinações seriam arbitrárias e em número infinito. Lucrécio desfaz o erro afirmando que
a natureza não pode produzir monstros, o que inutiliza as pretensões supersticiosas da religião, e mostrando
que, sendo os átomos finitos em variedade, não pode deixar de ter limites a variedade dos corpos que eles for-
mam. No Livro IV e no Livro V Lucrécio volta a tratar do primeiro problema, afirmando que os monstros
não podem existir por serem formados de elementos discordantes; tudo provém do encontro, em determi-
nadas circunstâncias, dos simulacros de corpos que atingem os nossos órgãos dos sentidos.
2º A afirmação de que os átomos não têm cor própria vem de Epicuro, que acrescentava mudar-se-lhes a
cor sempre que mudavam de posição; não temos, no entanto, nenhum pormenor quanto ao mecanismo exato
do processo. Como se sabe, também a física atual tem o átomo por incolor. As razões são, naturalmente,
muito diferentes das de Epicuro, que também, como o expõe Lucrécio pouco adiante, fazia os seus átomos
sem calor nem frio, sem som, sem cheiro nem gosto algum. Poderia dizer-se que o mundo de Epicuro é real-
mente o mundo onde só o movimento existe; o que é, de certo modo, a visão da atomística atual, apenas com
o movimento num contínuo a quatro e não a três dimensões. Tal idéia do Universo, a única que é compatível
com a verdadeira experiência, traz consigo graves dificuldades para uma doutrina de caráter materialista;
Epicuro manteve-se na sua posição, mas a ciência moderna caminha rapidamente para uma concepção não-
materialista do Universo: o que não quer dizer mística ou sobrenaturalista, como se tem pretendido.
DA NATUREZA 65
“ventos lhe revolvem a superfície e o transformam em ondas com esplendores de mármore.
Bastará dizer que o que comumente vemos preto, desde que se produz uma mistura na sua '
substância, uma mudança de seus elementos, qualquer adição ou qualquer diminuição, sucede
imediatamente que nos pareça um branco brilhante. Se as ondas do mar se compusessem de ele-
mentos de cor azul, seria impossível que se tornassem brancas. Com efeito, de qualquer modo que
se turvem os elementos de cor azul, jamais poderão passar à brancura do mármore.
Se, porém, são elementos tingidos de cores diferentes que produzem a cor crua e pura do
mar, do mesmo modo que de figuras diferentes e de formas várias se pode realizar uma única figu-
ra, por exemplo, um quadrado, era de concluir que, assim como no quadrado vemos as diversas
figuras, assim pudemos ver na água do mar ou em qualquer outra cor igualmente crua e pura as
cores que seriam entre si diferentes e desiguais: Além de tudo, as figuras diferentes em nada impe-
dem que o quadrado exista em todo o contorno exterior, ao passo que as várias cores dos objetos.
obstariam a que a cor do conjunto fosse una e a mesma.
Portanto, o que nos leva e incita a que atribuamos, sem causa alguma, cores aos elementos
das coisas cai por terra, porque os objetos brancos não se originam de elementos brancos, nem os
negros se compõem de elementos negros, mas cada um deles de vários elementos. De fato, é muito
mais natural que a cor branca nasça da ausência de qualquer cor do ques da negra ou de outra cor
que lute contra eia ou a ela se oponha.
Depois, como não podem existir cores sem luz alguma, e como os elementos das coisas não
aparecem à luz, é evidente que não são os elementos revestidos de cor alguma. Realmente, como
poderia haver qualquer cor nas trevas? A própria cor muda com a luz e doutro modo brilha,
segundo a recebe direta ou oblíqua: é esta a maneira por que se vêem, ao sol, as penas que as
pombas têm na cabeça e à volta do pescoço; umas vezes têm o vermeiho vivo do rubi, outras, por
uma impressão diferente, se misturam o azul e as verdes esmeraldas. Do mesmo modo a cauda do
pavão, quando se banha em plena luz, muda de cor segundo a exposição; como estas cores sur-
gem de uma certa incidência da luz, é seguro que não se pode supor que doutra maneira pudessem
surgir. E como há uma espécie de impressão na pupila quando se diz que se sente a cor branca,
e depois outra quando se sente a cor negra e as restantes, como por outro lado, não importa, quan-
to aos objetos que se tocam, a cor de que estão revestidos, é evidente que não têm os contornos
necessidade nenhuma de cor, e que só a sua variedade de formas produz as diferentes impressões.
Ainda mais: como não há correspondência fixa entre as formas e a natureza da cor e podem
todas as formas de átomos ter uma cor qualquer, por que não hão de os corpos que eles formam
estar igualmente revestidos de toda espécie de cores, qualquer que seja a sua espécie? Havia então
de se ver corvos de brancas penas, passando com seu branco vôc, e nascerem cisnes negros de um
germe negro, ou de qualquer outra cor, pura ou variada.
Depois, quanto mais se-divide um corpo em partes diminutas tanto mais facilmente se pode
ver que pouco a pouco se desvanece e se extingue a cor; é o que acontece quando o ouro se separa
em partículas; e a púrpura e a escarlata, que é muito mais viva, todas se perdem quanto se desfa-
zem fio a fio: daqui se pode concluir que as partículas se despojam de toda cor antes de chegarem
a átomos.
Aceitarás, finalmente, existirem corpos que não dão nem som nem cheiro e por isso não atri-
buirás a todos sons e odores. Do mesmo modo, e porque não podemos ver tudo com os olhos, é
lícito concluir que há corpos privados de cor como há os que estão desprovidos de qualquer cor
ou cheiro; e qualquer espírito sagaz os pode conceber, exatamente como nota os que estão priva-
dos de outras qualidades.
Mas não deves julgar que os elementos só estão despojados de cor: também não possuem
temperatura alguma, nem o tépido nem o frio nem o calor, e são estéreis de som e privados de
sabor, e não lançam do corpo nenhum cheiro próprio. Quando se pretende preparar a delicada
essência da manjerona, ou da mirra, ou da flor do nardo, que néctar nos exala, o primeiro que se
há de procurar, na medida em que é possível encontrá-lo, é um óleo inodoro que não lance qual-
quer cheiro ao nariz, de maneira a que os perfumes, misturados, cozidos com a sua substância,
nada percam ao contato da sua acidez.
Assim também, pela mesma razão, devem os germes das coisas não levar qualquer odor ao
que vai ser criado, nem som, porque nenhum podem emitir, nem por igual motivo qualquer sabor,
nem frio nem calor nem tepidez nem coisa alguma. De resto, tudo o que é de natureza perecível,
de substância branda e mole, frágil e friável, porosa e escavada, tudo tem de ser estranho aos ele-
mentos, desde que desejamos dar ao Universo fundamentos eternos em que se apóie toda a salva-
ção: caso contrário todos os corpos voltariam inteiramente ao nada.
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66 | LUCRECIO
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E agora, quanto aos corpos que vemos terem sensibilidade, ?º é necessário confessar que, no
entanto, são compostos de princípios insensíveis; fatos que são manifestos e evidentes nem refu-
tam esta idéia nem se levantam contra ela: como que nos levam pela mão e nos obrigam a aceitar
que, segundo o que digo, podem seres vivos nascer de corpos insensíveis.
Com efeito, podemos ver?" que existem vermes vivos a partir da infecta lama, quando a terra
úmida ganhou podridão por causa das chuvas excessivas; de resto todos os corpos se trans-
formam do mesmo modo. Os rios, as frondes e os pastos abundantes se transformam em gados,
os gados passam a sua essência aos nossos corpos e muitas vezes do nosso corpo aumentam a
força das feras e o corpo das aves de asas poderosas.
A natureza converte em corpos vivos todos os alimentos e daqui faz surgir os sentidos dos
seres animados, mais ou menos da mesma maneira por que da lenha seca faz sair as chamas €
tudo transforma em fogo. Vês agora que importância tem para os elementos das coisas a ordem
em que estão colocados e, depois que se misturam, os movimentos que imprimem ou recebem?
Que é, então, que te fere o espírito e o abala e o leva a exprimir várias reflexões de modo a
que não creias que do insensível possa surgir o sensível? Certamente o fato de que as pedras, a
lenha e a terra, mesmo misturadas, não podem produzir a sensibilidade vital. Mas será bom
lembrarmo-nos, quanto a este ponto, de que eu não disse que tudo pode surgir de todas as coisas,
mesmo que, sejam quais forem os corpos que dão origem ao sensível, possa de todos eles sem res-
trição nascer a sensibilidade: é de grande importância, primeiro a pequena quantidade do que cria
o sensível, depois a forma de que os elementos são dotados, finalmente os movimentos, as ordens,
as posições. Ora, de tudo isto nada vemos na lenha e na terra: e, no entanto, estes materiais, quan-
do estão como que putrefatos pelas chuvas, geram vermes, visto que os elementos, deslocados da
ordem anterior pelo fenômeno novo, se dispõem de tal modo que têm de aparecer os seres vivos.
Depois, os que dizem que o sensível só pode vir do sensível, habituados a ter sensações por
órgãos sensíveis, (Lacuna) concebem os elementos como moles: efetivamente a sensibilidade anda
toda ligada a vísceras, nervos, veias, que vemos todos compostos de substância mole e perecível.
Aceitemos, no entanto, que possam subsistir eternamente: têm de possuir apenas sensibili-
dade parcial ou de serem inteiramente semelhantes a seres vivos. Mas é seguro que não podem as
partes do corpo serem sensíveis por si próprias: todas as sensações dos membros vão a outros
pontos; a mão separada de nós ou qualquer outra parte do corpo, quando isolada, não conservam
sensibilidade alguma. Resta, portanto, assimilá-las a seres vivos inteiros. É necessário, então, que
sintam o que nós sentimos, de maneira que possam, por todos os lados, cooperar na sensibilidade
vital. Mas como hão de poder neste caso chamar-se elementos das coisas e evitar os caminhos da
morte, se SãO seres vivos e se vivo é, afinal, o mesmo que perecível”?
Suponhamos, no entanto, que o podemos: pela sua reunião, pelo seu conjunto, nada mais fa-
riam que uma multidão, uma turba de seres vivos, exatamente como homens, gados e animais bra-
vios, quando juntos, não podem dar lugar a corpo algum. E se, por acaso, perdem a sua sensibili-
dade própria e adquirem outra, que necessidade houve de lhes dar o que depois se lhes tirou? Só
resta o refúgio de há pouco; vemos os ovos de aves transformarem-se em pintos vivos .€ referver
*º O ponto difícil para todo o materialismo, e quase diríamos também para todo sistema, mesmo dualista,
que admita a matéria como realidade, é o da explicação dos fenômenos da sensibilidade, que vão desde o
sinal mais elementar de vida até o conjunto dos processos do espírito. Lucrécio dá o primeiro passo afir-
mando que o vivo pode provir do não vivo, crença esta que encontramos até muito tarde na história da biolo-
gia e que hoje ganha novas possibilidades de discussão com a descoberta das proteínas-vírus; para Lucrécio, -
e para muitos dos que se lhe seguiram, a questão não se punha nos mesmos termos em que atualmente se
coloca: o que se aceitava como fato averiguado era que o ser vivo provinha diretamente do não vivo, por
exemplo, os vermes do lodo. O ser vivo seria, pois, a consequência, devida à modificação do ambiente, do
meio, de uma nova estrutura de um certo conjunto de átomos; como se admitia simultaneamente que seres
vivos provinham de seres vivos, o ser vivo ficava assim com uma dupla possibilidade de origem; mas o pri-
meiro ponto era o importante, porque não obrigava, perante o fenômeno da vida, a abandonar a hipótese
materialista.
?1 Paralelamente ao que acontece com o próprio ser vivo, a sensibilidade, para Lucrécio, nasce do que é
insensível; se fosse doutro modo, teria de admitir sensibilidade nos átomos, o que não faria senão recuar o
problema; a sensibilidade nasce, portanto, por um certo arranjo, por uma certa disposição dos átomos, e a
sensação não é mais do que o resultado de um encontro de elementos materiais que vêm de fora com os ele-
mentos materiais que, formando os órgãos dos sentidos, são, como diz o poeta, guardas vigilantes do nosso
corpo. À idéia de que a sensação seja um fato puramente psicológico ou uma interpretação de um sinal exte-
rior não aparece, como é natural, no poema de Lucrécio.
DA NATUREZA 67
de vermes a terra que apodreceu por causa das chuvas excessivas: é por conseguinte possível que
o sensível nasça do que não tem sensibilidade.
Se acaso alguém disser que, pelo menos, para que o sensível nasça do insensível, é necessária
uma certa sensibilidade, ou como que um parto por meio do qual venha à luz, bastará explicar-lhe
e demonstrar que não há parto algum sem união prévia e que nada se transforma sem a existência
de um conjunto.
Em primeiro lugar, é impossível haver sentidos, seja de que natureza forem, antes de ter sido
gerado o próprio animal: a matéria mantém-se dispersa no ar, nos rios, na terra e no que nasce da
terra, e não pode reunir-se de maneira a produzir a vida, com os movimentos convenientes, por
meio dos quais se acendem os sentidos que em todo ser vivo tudo velam.
Depois, se um ser vivo recebe um choque demasiado violento e além do que suporta a sua
natureza, abate-se de repente e ficam-lhe confundidas a sensibilidade de corpo e a do espírito.
Com efeito, destroem-se as posições dos elementos e impedem-se profundamente os movimentos
vitais, até que a matéria, abalada em todos os membros, desata os laços vitais que uniam a alma
ao corpo e, desagregada, a lança fora por todos os poros. Que havemos nós de supor que pode
fazer um tal golpe senão sacudir e dispersar tudo?
Pode acontecer também que, depois de um choque menos violento, os movimentos vitais que
se conservam vençam muitas vezes, acalmem o tumulto do imenso golpe e façam voltar tudo aos
caminhos naturais, repelindo o movimento de morte, já quase dominante no corpo e reacendendo
a-sensibilidade quase perdida. Se fosse de outro modo, como poderia, já do próprio limiar da
morte, voltar à vida, recobrando os sentidos, de preferência a continuar o caminho já quase no
final e a ir-se de vez?
Além disso, visto haver dor quando os elementos da matéria, atraídos por qualquer força
através das vísceras vivas e dos membros, se agitam dentro dos seus lugares próprios, e visto apa-
recer um doce prazer quando voltam à sua posição, é de concluir que não podem os elementos
sentir dor alguma e também não podem receber gozo nenhum; efetivamente, não são compostos
de elementos alguns cujo movimento lhes possa causar dor ou dar qualquer espécie de criador
prazer. Não têm, por conseguinte, nenhuma sensibilidade.
Depois, se é necessário, para que os seres vivos possam ter sensações, que se atribua sensibi-
lidade aos elementos que os constituem, de que elementos será então constituído o gênero huma-
no? Sem dúvida riem, abalados por trêmulas gargalhadas, cobrem o rosto e as faces com o orva-
lho das lágrimas, sabem dissertar amplamente sobre a mistura de corpos e até investigam quanto
aos elementos que os compõem a eles; como se assemelham inteiramente aos mortais, devem tam-
bém constar de outros elementos,e esses de outros, de modo que se não ousará parar em parte
alguma.
E não te largarei mais: tudo o que disseres que fala, ri e discreteia tem de ser formado de ele-
mentos que façam o mesmo; se considerarmos isto como delirante e louco e acharmos que pode
rir quem não é constituído por elementos risonhos, e racionar-se e darem-se explicações em ter-
mos doutos sem haver elementos sabedores e eloqlentes, por que não poderiam os seres que
vemos capazes de sensação ser compostos de elementos inteiramente privados de sensibilidade?
Realmente todos somos oriundos duma semente celeste; ê pai de nós todos aqueles donde a
terra nossa mãe criadora recebe as gotas de líquida chuva; assim fecundada, dá à luz as esplên-
didas searas e as árvores vigorosas e a raça humana, dá à luz todas as gerações de animais bra-
vios, visto que lhes apresenta os alimentos de que se nutrem todos os corpos, passando uma doce
vida e propagando a sua espécie; por isso bem merecidamente recebeu o nome de mãe:
E tudo o que saiu da terra à terra volta, tudo o que foi enviado das regiões do céu outra vez
o recebem os espaços do céu. A morte não destrói os corpos a ponto de aniquilar os elementos da
matéria: só lhes quebra a união, Depois combina-os de outro modo e faz que todas as coisas
modifiquem as formas e mudem de cor e adquiram sensibilidade, manifestando-a logo; isto te fará
ver de que importância são para os mesmos elementos as combinações e as posições que possam
ter e os movimentos que entre si transmitam e recebam; não tomes, pois, como podendo residir
nos elementos primordiais e eternos o que vemos flutuar à superficie das coisas e nascer por ins-
tantes e subitamente perecer.
Do mesmo modo é importante nestes meus versos a ligação de cada parte e a ordem por que
vem colocada. Efetivamente, caracteres idênticos designam o mar, as terras, O céu, os rios € O sol
e ainda as searas, as plantas e os animais; se nem todos são iguais, a grande maioria é muito
semelhante; mas o significado difere devido à posição. De igual modo, se se trocam nos corpos as
combinações, os movimentos, a ordem, as posições, as formas, também se muda o próprio corpo.
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68 LUCRÉCIO
Dá agora atenção a razões verdadeiras:?? uma coisa fortemente nova se prepara para te che-
gar aos ouvidos, um novo aspecto das coisas se te vai revelar. Mas nada há tão fácil que não pare-
ça à primeira vista difícil de acreditar, e nada tão grande e tão admirável que todos não deixem
de admirar a pouco € pouco.
Primeiro, a pura e clara cor do céu e tudo o que ele próprio em si mesmo encerra, os astros
errantes por um e outro lado, e a lua, e o sol brilhando com preclaro esplendor; se tudo isto apare-
cesse agora pela primeira vez aos mortais, se de improviso se. apresentasse diante deles, que se
“poderia: dizer de'mais admirável que tudo isto ou que menos ousariam os homens ter acreditado?
“Creio que nada; o espetáculo teria sido admirável. E agora, cansados, saciados de olhar, nem
levantam os olhos aos celestes espaços luminosos.
Deixa, pois, só porque te sentes atemorizado pela novidade, de afastar do ânimo o que é
racional: mas pesa tudo com mais agudo juízo e, se isto te parece verdadeiro, entrega as armas;
se, porém, o vês falso, lança-te ao ataque. O espírito, realmente, procura pensar, visto haver um
espaço infinito fora dos limites do mundo, que há então para além, lá onde a mente quereria inves-
tigar, lá onde o espírito se levanta num vôo livre e espontâneo.
Em primeiro lugar, não há para nós em parte alguma, nem de ambos os lados, nem de cima,
nem de baixo, nenhuma espécie de limite; assim o demonstrei, assim o proclama a natureza por
si própria a grandes brados, assim claro sai da natureza do vácuo: não é, portanto, verossímil,
seja como for, que, abrindo-se por todos os lados o espaço sem barreiras, voando de mil maneiras,
animadas de movimento eterno, partículas em número incontável, no total infinito, só tivesse sido
criado este mundo e este céu e que todos os outros elementos, os de fora, permanecessem inativos,
“tanto mais que tudo se fez naturalmente: foi por eles próprios, espontaneamente, batendo ao
acaso, que os elementos, depois de se terem unido de mil modos, mas era vão e inutilmente, forma-
ram por fim as bases de que sairiam os princípios das grandes coisas, da terra, do mar, do céu, das
espécies de seres vivos. É força, por conseguinte, confessares que existem outros agrupamentos de
matéria semelhantes a este nosso, o qual o éter estreita em ávido abraço.
Depois, quando há, preparadas, grandes quantidades de matéria, quando está pronto o lugar,
e não há para demora nem objeto, nem causa, é evidente que tudo tem de se arranjar e tomar
forma. Ora, se há tão grande quantidade de elementos que não bastaria para os enumerar a vida
inteira dos seres vivos, e subsistem a mesma força e a mesma natureza que podem, em todos os
lugares, reuni-los do mesmo modo por que foram reunidos neste mundo, é força confessares que
há noutros pontos outras terras e várias raças de homens e várias gerações de bichos bravos.
Acresce a isto que nada há no Universo que seja único, que nasça isolado e só e isolado cres-
ça: tudo pertence a qualquer geração e muitas são as da mesma espécie. Repara primeiro nos ani-
mais: verás que foi gerada assim a raça dos que erram pelos montes e a prole dos-homens e, por
fim, os mudos bichos escamosos e as diferentes espécies dos que voam.
Por isso se tem de aceitar que, de igual maneira, não são únicos nem a Terra nem o Sol nem
a Lua nem o mar nem tudo o mais que existe: pelo contrário, são em quantidade inumerável; de
fato, têm um termo de existência marcado tão fixamente e compõem-se de elementos tão naturais
como todas as espécies de coisas que por cá aparecem com toda abundância.
Se retiveres tudo isto, ** já bem conhecido, logo a natureza te aparece como livre, isenta de
senhores soberbos e realizando tudo espontaneamente, sem qualquer participação dos deuses. De
32 A nova verdade que Lucrécio anuncia e para que pede toda a atenção de Mêmio não é na realidade mais
do que a extensão a uma escala universal da idéia de que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos;
como o Universo é ilimitado e nele atuam, com os mesmos elementos, as mesmas causas, tem de se aceitar,
segundo o poeta, que haja, não apenas um mundo, tal como o conhecemos, mas vários, idênticos ou seme-
Jhantes a ele; é a idéia que teve tantos defensores, que aparece, já com um nível literário e elegante em Fonte-
nelle, e que pode ter um último eco nas fantasias astronômicas sobre os canais de Marte.
3º A constância das leis naturais, que Lucrécio acaba de demonstrar, é, segundo sua opinião, o argumento
mais forte a favor da tese de que os deuses não intervêm no governo do mundo e passam o tempo na paz inal-
terável de uma contemplação bem-aventurada. E, assim como nada fizeram para que ele surgisse, também
nada poderão fazer para lhe sustar a velhice e impedir a morte. Para Lucrécio, o mundo não é eterno, embo-
ra O seja o conjunto dos átomos que formam o Universo; o mundo — rnar, terra, céus — é um corpo que
nasceu-como os outros, existe como os outros, e como os outros se há de dispersar, de modo a que os seus
átomos possam entrar em novas formações. Segundo o que pensa, o mundo, por já dele se desprenderem
mais elementos do que aqueles que a ele vêm, está numa fase de decadência, de fraqueza, como o prova o
fato de criar com dificuldade animais pequenos quando já os criou de imenso corpo e o de a terra não produ-
zir as opulentas searas de outros tempos. É uma idéia a que voltará no Livro V e que de certo modo se liga
com a da Idade de Ouro e do presente envilecimento do homem.
“DA NATUREZA 69
fato — e pelo sagrado coração dos deuses, que em paz tranquila passam um plácido tempo e uma
vida serena! —, quem poderia ter mãos bastante firmes para manejar as fortes rédeas do infinito,
quem poderia fazer girar harmoniosos todos os céus, aquecer com fogos etéreos todas as terras
fertilizadas, em todos os lugares, em todos os tempos achar-se sempre pronto a fazer trevas com
as nuvens, a abalar com o trovão os espaços serenos do céu, depois enviar os raios e abater muitas
vezes o seu próprio templo, e, retirando-se para os desertos, lançar furiosamente o dardo que mui-
tas vezes passa além dos maus e tira a vida aos que o não merecem, aos que não são culpados?
Depois do tempo em que surgiu o mundo, e do primeiro dia e do conjunto aparecimento do
mar, da terra e do sol, vieram juntar-se-lhe do exterior muitos corpos, e também se juntaram à
volta elementos que o grande todo, precipitando-os, para aí trouxe; com eles puderam aumentar
o mar € as terras, aparecer o espaçoso palácio do céu elevando seus tetos longe das terras, e surgir
oar.
Efetivamente, de todas as partes donde vêm, são os elementos distribuídos pelos choques
entre os corpos que lhes são próprios e todos se dirigem às suas espécies; a umidade vai para a
umidade, a terra cresce com terrenos corpos, os fogos formam o fogo, o ar, o ar, até que a natu-
reza criadora de todas as coisas a tudo leva atê o extremo do seu crescimento, até o seu devido
termo, o que acontece quando os elementos que penetram nas veias vitais não são mais do que
aqueles que fluindo se retiram. É então que para tudo deve parar o tempo, é então que a natureza
refreia em suas forças o crescimento.
Tudo o que vês aumentar com alegre crescimento e a pouco e pouco subir os degraus da
idade adulta absorve mais corpos do que de si manda, enquanto o alimento se espalha com facili-
dade por todas as veias e os órgãos se não encontram tão distendidos que deixem escapar muitas
coisas e façam gastar mais do que o tempo assimila. Tem de se aceitar que muitos corpos fluem
e se retiram das coisas; mas devem chegar muitos mais, até que se atinja o cimo supremo do cres-
cer. Depois, de partícula a partícula, a idade quebra as forças e o vigor adulto e desliza para a
decadência.
De fato, quanto maior é um corpo depois de ter crescido, quanto mais vasto é, mais numero-
sos são os elementos que espalha e deixa escapar de si, e não é com facilidade que os alimentos
se distribuem em todas as veias, nem bastam para compensar a torrente que escapa em largas
ondas, para produzir a substância necessária. É, pois, natural que os corpos pereçam, uma vez
que se rarefazem com esse fluxo. e sucumbem de todos os lados aos choques externos; pois o ali-
mento acaba por faltar numa idade avançada e pelos choques repetidos dos elementos de fora,
que, batendo sempre, não deixam de consumir os corpos e de dominar-lhes a resistência pelos seus
choques.
Por conseguinte, assim também as muralhas à volta do grande mundo, tomadas de assalto,
cairão em ruínas e em desfeitos escombros: efetivamente, o alimento tem de, renovando-os, repa-
rar todos os corpos, o alimento tem de os escorar, o alimento tem de os sustentar: mas as veias
não admitem a quantidade suficiente, nem ministra a natureza o que seria necessário.
E já agora está o tempo sem forças, já a terra cansada mal cria os animais pequenos, ela que
criou todas as espécies, e produziu, gerando-os, os corpos enormes dos animais bravios. Realmen-
te, creio que as espécies mortais não desceram de lá de cima do céu, por meio de cordas, a campos
de ouro, nem as criaram o mar e as ondas que batem nos rochedos: gerou-as a própria terra, que
as alimenta agora com seu corpo.
Além de tudo, foi ela quem primeiro, espontaneamente, criou para os mortais as luzentes
searas e os vinhedos pingues, foi ela quem produziu os frutos saborosos e os abundantes pastos:
e tudo isto cresce mal, apesar dos nossos trabalhos, em que esgotamos os bois e as forças dos
lavradores. Gastamos o ferro, e o campo mal recompensa, tanto é avaro dos frutos, tão grande é
o esforço que ele exige. ;
Já, abanando a cabeça, suspira mais frequentemente o lavrador de idade, ao ver que foi em
vão todo o seu grande trabalho; e, ao comparar os tempos presentes com os tempos passados,
louva muitas vezes a sorte de seu pai.
Do mesmo modo, o triste plantador de uma vinha hoje velha e enfezada acusa a ação do
tempo, queixa-se repetidamente da sua geração e resmunga que os homens antigos, cheios de pie-
dade, passavam uma vida fácil num pequeno campo, quando era menor a quantidade de terra que
cabia a cada um: e não vê que tudo se enfraquece a pouco e pouco e se dirige para o esquife, fati-
gado pelo decrépito tempo da idade.
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Livro III
Ó tu que primeiro pudeste, ** detão grandes trevas, fazer sair um tão claro esplendor, escla-
recendo-nos sobre os bens da vida, a ti eu sigo, ó glória do povo grego, e ponho agora meus pés
sobre os sinais deixados pelos teus, não por qualquer desejo de rivalizar contigo, mas porque por
amor me lanço a imitar-te. De fato, como poderia a andorinha bater-se com o cisne, que poderiam
fazer de semelhante em carreira os cabritos de trêmulos membros e os fortes, vigorosos cavalos?
Tu, ó pai, és o descobridor da verdade, tu me ofereces lições paternais, e é nos teus livros que nós,
semelhantes às abelhas que nos prados floridos tudo libam, vamos de igual modo recolhendo as
palavras de ouro, de ouro mesmo, as mais dignas que houve desde que o tempo é tempo.
Logo que a tua doutrina, obra de um gênio divino, começa a proclamar a natureza das coi-
sas, dispersam-se os terrores do ânimo, apartam-se as muralhas do mundo, e vejo como tudo se
faz pelo espaço inteiro. Aparece o poder divino e as mansões tranquilas que nem os ventos aba-
lam, nem as nuvens regam com suas chuvas, nem a branca neve, reunida pelo frio agudo, profana,
caindo, e que um límpido céu sempre protege e que sempre riem na luz largamente difundida.
Tudo lhes fornece a natureza, nada lhes toca em tempo algum a paz da alma. E, pelo contrário,
jamais aparecem as regiões do Aqueronte, e a Terra não impede que se veja tudo o que, sob nos-
sos pés, sucede nos espaços vazios; perante tudo isto me tomam divina volúpia e temeroso respei-
to, pelo fato de a natureza, descoberta pelo teu gênio, assim se ter manifestado abertamente em
completa nudez.
Ora, depois de te ter ensinado? * | quais são os princípios de todas as coisas e como, tão dife-
rentes pela variedade de formas, espontaneamente voam, tomados num eterno movimento, e de
que modo se podem gerar, a partir deles, todas as coisas, parece que a seguir devo pôr claro nestes
meus versos a natureza do espírito e da alma, expulsando, derrubando aquele medo do Aqueronte
que perturba desde os fundamentos, intimamente, a vida humana, tudo penetra da cor da morte e
não deixa prazer algum límpido e puro.
É certo que muitas vezes dizem os homens que mais se deve temer doença e desonra do que
o abismo da morte, e que sabem que a natureza do espírito é a do sangue, ou até a do vento, se
a tanto os leva a fantasia, e que, portanto, para nada precisam da nossa doutrina: mas é bom que
vejas, pelo que segue, que se trata mais de jactância e de fanfarronice do que de qualquer real
fundamento.
34 Neste começo do Livro III como que se fundem a invocação a Vênus do Livro I e o elogio da filosofia
no início do Livro II: Epicuro, pela sua penetração filosófica, pelo vigor do pensamento e pela coragem de
atuar contra a falsidade, passou ao lugar de deus e só ele pode ser o guia do poeta, no seu empreendimento
de principiar a exposição das leis da natureza. O ponto mais importante da invocação a Epicuro é decerto
a insistência em que o estudo da filosofia permitirá ao homem ver-se livre de todos os terrores que lhe opri-
miam a vida e levar uma existência semelhante à dos deuses, mas à dos deuses segundo a concepção
epicurista.
*8 Como fizera no Livro II, anunciando que trataria do movimento dos átomos, suas causas e efeitos,
Lucrécio expõe o argumento do Livro NI: vai explicar a natureza da alma, não como objetivo de puro conhe-
cimento, como já era de esperar, mas para mostrar como são vãos todos os terrores que se possam ter da
morte. Lucrécio considera que o terror da morte é muitas vezes a causa dos males da vida; de certo modo,
a sua filosofia seria uma meditação sobre a morte, não no sentido de uma preparação, visto que a morte nada
é, mas no sentido de tal verdade aparecer claramente aos espíritos e de dissiparem todos os temores. É ao ter-
ror da morte que Lucrécio atribui o amor à riqueza, a ambição do poder e das honras; possivelmente Lucré-
cio pensa que tudo isso surge de uma vontade, consciente ou inconsciente, de se afirmar na vida, ou, então,
de um meio de aturdimento que não deixe pensar no problema do fim.
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n2 LUCRÉCIO
Eles mesmos expulsos da pátria, banidos para longe da vista dos homens, manchados por
um crime vergonhoso, afetados até por todas as desgraças, continuam a viver, e em toda parte
aonde chegam sacrificam aos mortos, imolam reses negras e fazem oferendas aos deuses manes, e,
por se verem em dificuldades, mais vivamente se voltam para a religião. É por isso que é conve-
niente observar os homens nos perigos e nas provas, e conhecer na adversidade aquilo que são; é
nesses momentos que se lançam do íntimo do peito as palavras verdadeiras: arranca-se a máscara
e surge a realidade.
Por fim, vêm a avareza e a cega cobiça das honras que obrigam os pobres homens a uitra-
passar os limites do direito e até, cúmplices e servidores do crime, a esforçar-se de dia e de noite,
com trabalho sem par, por atingir os cimos da riqueza: estas chagas da. vida são criadas, em parte
não pequena, pelo medo da morte.
Parece, efetivamente, a quase todos, que o vergonhoso desprezo e a dura pobreza estão longe
de uma vida agradável e trangúila e se encontram como que parados diante das portas da morte;
por isso os homens, levados por um falso terror. querem fugir para longe, e aumentam então as
suas riquezas com o sangue dos concidadãos, duplicam ávidos os bens, acumulando a morte
sobre a morte; cruelmente se alegram com o triste funeral de um irmão e odeiam e temem as
mesas dos parentes.
De igual modo, é muitas vezes deste temor que nasce a macerante inveja: aos olhos deles é
um poderoso, atrai outro as atenções, marchando entre honras esplendorosas, enquanto eles se
queixam de andarem rolando na treva e na lama. Uns morrem por causa de estátuas e de glória
do nome; e algumas vezes de tal maneira toma os homens por medo da morte, o ódio à vida e à
luz que vêem, que a si próprios dão a morte com triste coração, esquecidos de que a fonte dos cui-
dados é esse mesmo terror, que é ele que dificulta a virtude, que é ele que rempe os vínculos da
amizade: em resumo, persuade-os a derrubar a piedade.
Já muitas vezes os homens traíram a pátria e os pais queridos pelo desejo de evitar as regiões
do Aqueronte. Exatamente como os meninos se aterrorizam e tudo receiam nas cerradas trevas,
assim nós, à luz do dia, tememos coisas que em nada são mais temíveis do que aquelas de que os
meninos se assustam nas trevas, julgando que vão realmente acontecer. É, portanto, necessário
que venham dissipar este terror do espírito e esta escuridão, não os raios do sol, nem os dardos
luminosos do dia, mas os fenômenos da natureza e a sua explicação.
Digo primeiro que o espírito, a que muitas vezes chamamos pensamento, e em que se colo-
cam a ordem e o regimento da vida, é uma parte do homem, tal como as mãos, os pés e os olhos
fazem parte do conjunto do ser vivo.
(Lacuna)
[Outros afirmam?) que a sensibilidade do espírito não esta localizada em lugar determinado,
mas que é uma certa disposição vital do corpo, à qual os gregos chamam harmonia, alguma coisa
que nos faz viver com sensibilidade, ao passo que o espírito não está localizado em parte alguma;
de igual modo se diz que existe saúde do corpo, embora a saúde não seja parte do ser saudável.
Assim, não colocam a sensibilidade do espírito num lugar certo: e muito me parecem errar,
desviando-se fortemente da verdade. Muitas vezes, o corpo que é exterior e visível está doente, em-
bora haja alegria numa parte escondida; e, por outro lado, acontece muitas vezes o inverso, quan-
do alguém, infeliz no espírito, se sente bem disposto em todo o corpo, exatamente como um enfer-
mo que tenha os pés doentes pode, no entanto, nada sofrer quanto à cabeça. Além de tudo,
quando os membros estão entregues ao sono e todo o corpo jaz pesado e sem acordo, há todavia
em nós alguma coisa que, durante esse tempo, se agita de mil modos e em si recebe todos os movi-
mentos de alegria e os vãos cuidados do coração.
E agora poderás saber que a alma reside nos membros e que não é por meio da harmonia que
tem o corpo a habitual sensibilidade: primeiro sucede que, embora perdida uma grande parte do
corpo, todavia permanece em nossos membros a vida; e, no entanto, quando escapa um pouco de
calor e um pouco de ar é expelido pela boca, logo ela abandona as veias e os ossos; daqui podes
concluir que nem todos os elementos têm papel igual e igualmente nos garantem a segurança; mas
são principalmente os elementos que são primordiais no vento e no cálido vapor que tratam de
que a vida permaneça nos membros. Há, por conseguinte, no próprio corpo um calor e um vento
vital que nos abandonam os membros moribundos.
Visto, portanto, que está descoberta a natureza do espírito” º e é a alma como uma parte do
28 Lucrécio rebela-se contra a idéia de que a alma seja, não uma parte do corpo, tão material como ele, em-
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DA NATUREZA 73
homem, abandona esse termo de harmonia roubado pelos músicos lá do alto Helicão ou de qual-
quer outro sítio donde o trouxeram para o aplicar a uma coisa que ainda não tinha nome próprio;
seja como for que o guardem eles: tu, escuta as minhas outras palavras.
Digo a seguir que o espírito e a alma?” se mantêm ligados entre si e formam no conjunto
uma só substância; mas o que domina no corpo todo, o que é, por assim dizer, a cabeça; é aquilo
que nós chamamos a reflexão, o pensamento. E este está colocado na região média do peito. Aqui
sobressaltam o pavor e o medo; é neste lugar onde palpitam docemente as alegrias; aqui, portan-
to, estão o pensamento e o espírito.
A outra parte, a alma, disseminada por todo o corpo, obedece e move-se segundo a vontade
e a impuisão do espírito. O espírito raciocina por si só e para si, consigo se alegra quando nada
vem abalar a alma nem o corpo. E do mesmo modo que, sob o impulso da dor, podem sofrer em
nós a cabeça ou o olho, e não padecemos com todo o corpo, assim também o espírito é algumas
vezes O único a sofrer ou a revigorar-se de alegria, ao passo que a outra parte, a alma, não recebe
pelos membros e pelos órgãos nenhuma impressão nova.
Mas, quando o espírito é abalado por um medo violento, vemos que toda a alma sente o
mesmo pelos membros e que por todo o corpo aparecem suores e palidez, a língua se entaramela,
a voz se prende, os olhos se obscurecem, os ouvidos ressoam, os membros desfalecem; finalmente,
vemos que muitas vezes caem os homens pelo terror do espírito; qualquer um pode facilmente
concluir daqui que a alma está ligada ao espírito e que ao ser percutida pela força do espírito por
seu turno abala e fere o corpo.
Este mesmo raciocínio demonstra? *º que é corpórea a natureza do espírito e da alma: quando
a vemos impelir os membros, arrebatar o corpo ao sono, demudar o rosto, reger e dirigir todo o
corpo, como nada disto se pode fazer sem contato e-como não há contato sem corpo, não é verda-
de que se tem de aceitar que o espírito e a alma são de natureza corpórea?
Além disto, vês que o espírito sofre com o corpo e com o corpo sente em nós; se a força hor-
ríve! de um dardo penetrando em nós, dilacerando os ossos e os nervos, não suprime, no entanto,
a vida, segue-se uma languidez, um cair no chão cheio de brandura e, já no chão, um abalo que
nasce do espírito e de quando em quando uma incerta vontade de se levantar. E, por conse-
glência, necessário que seja corpórea a natureza da alma, visto que sofre com dardos, que são
corpos, e com seus choques.
Continuarei agora expondo-te*º de que matéria é formado este espírito e donde veio ele. Pri-
bora mais sutil, mas uma “harmonia”, alguma coisa que vem de órgãos materiais, como a música, sem que
seja ela própria constituída de matéria; nesta última concepção, a alma seria de certo modo uma “forma” do
corpo; mas admiti-lo seria admitir uma parte não material do mundo; daí a dureza de expressão de Lucrécio
e de onde a onde um traço de sarcasmo.
37 Lucrécio distingue entre o espírito e a alma, adotando uma concepção tripartida do homem que se man-
teve até muito tarde, e não só na filosofia grega, e que a filosofia possivelmente terá de considerar de novo,
embora por aspectos muito diferentes daqueles que interessaram a Lucrécio. Para ele existe um espírito (ani-
mus), que é também pensamento, mente (mens) e a alma (anima); o espírito, concentrado num ponto, o meio
do peito, poderíamos dizer, o coração, a alma dispersa por todo o corpo. Em termos mais ou menos atuais,
o espírito de Lucrécio corresponde à noção de alma, a alma, à noção de fluido ou princípio vital de certas
escolas de pensamento.
38 Tanto o espírito como a alma são de natureza material, e o grande argumento parece ser o da impossibi-
lidade de explicar doutro modo o contato entre o corpo, de um lado, e o espírito e alma, do outro. É, como
se sabe, a dificuldade de todos os sistemas dualistas; uma das formas de a resolver é o materialismo de Epi-
curo, adotado por Lucrécio; a outra é um monismo espiritualista. Lucrécio fala da influência do espírito e
da alma sobre o corpo e da influência do corpo sobre o espírito e alma; mas não esquece também a ligação
entre espírito e alma.
*º Quanto à constituição íntima do espírito, Lucrécio tira da mobilidade de quanto nele se passa a idéia de
que deve ser formado de elementos extremamente pequenos e redondos; devem ser, além disso, em pequena
quantidade, porquanto a exalação do espírito, pela morte, não produz qualquer alteração do peso do corpo
nem a retirada da alma tem como resultado modificar-se a linha exterior dos órgãos e dos membros. Seria,
no entanto, um erro supor que espírito e alma são compostos de uma só qualidade de elementos; a prova,
neste caso, é ainda dada pela experiência: da boca dos moribundos solta-se um bafo misturado de calor; se
há calor, há ar; teremos, portanto, o bafo (ar em movimento), o calor e o ar, três elementos, de átomos dife-
rentes; simplesmente, nem ar nem calor nem bafo são bastante sutis para explicarem o pensamento: têm de
se lhes acrescentar uma quarta substância a que se não dá nome algum, mas que é formada de átomos ainda
mais lisos e mais pequenos, já no extremo limite de tais conceitos; é essa substância que constitui realmente
o espírito e explica os fenômenos psicológicos.
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meiro, digo que é perfeitamente sutil e constituído de elementos diminutos. Para que possas saber
que isto é assim, basta que atentes neste ponto. Parece que nada sucede de maneira mais rápida
do que aquilo que o espírito a si mesmo propõe e por si mesmo começa. O espírito, portanto,
move-se, segundo parece, com maior celeridade do que qualquer corpo visível a nossos olhos.
Mas o que é tão móvel deve compor-se de corpos extremamente redondos e extremamente
diminutos, de modo a poderem deslocar-se ao mais pequeno impulso que os abale. Efetivamente,
se a água se agita e corre à mais pequena força, é porque é constituída de elementos pequenos e
rolantes. Pelo contrário, é mais espessa a natureza do mel, o seu líquido mais preguiçoso, o seu
movimento mais lento; toda a massa de matéria adere mais entre si, certamente porque não é for-
mada por elementos tão lisos, tão sutis e tão redondos.
Um vento leve e lento pode colher e fazer que te caia do alto um grande número de sementes
de papoula: mas nada pode contra um montão de pedras ou de espigas. Portanto, os corpos mais
pequenos e mais lisos são por isso mesmo mais móveis; ao inverso, aqueles que se encontram
mais pesados e mais ásperos são mais estáveis. Ora, como se verificou que a natureza do espírito
é extremamente móvel, tem ele de se compor de elementos muito pequenos, lisos e redondos. Este
conhecimento, meu caro, te aparecerá em muitos casos como engenhoso e útil.
Também este fato te mostra a natureza do espírito, a sua ligeira contextura, o pequeno espa-
ço em que se contetia se pudesse condensar-se: logo que o seguro repouso da morte se apoderou
do homem e se retira a natureza do ânimo e da alma, verifica-se que nada se perdeu no total do
corpo, nem quanto ao aspecto nem quanto ao peso: a morte deixa tudo, exceto a sensibilidade
vital e o cálido vapor. É, portanto, necessário que toda a alma seja formada de elementos mínimos
e distribuída pelas veias, pelos órgãos, pelos nervos, visto que, ao retirar-se inteiramente de todo
o corpo, fica intata a linha exterior dos membros e nada se perdeu do peso.
O mesmo acontece quando se desvanece o perfume de Baco ou quando o hálito suave dum
ungiento foge nos ares ou quando o sabor se retira de qualquer corpo; o objeto em si não fica por
isso mais pequeno a nossos olhos, nem coisa alguma se lhe retira do peso, evidentemente porque
numerosos e diminutos elementos constituem o sabor e o odor em toda a substância das coisas.
Por conseguinte, e uma vez mais, a natureza do espírito e da alma só pode ser formada de elemen-
tos mais pequenos, visto que ao fugir não leva consigo peso algum.
Todavia, não devemos julgar que é simples essa natureza. Efetivamente, abandona os mori-
bundos um sopro misturado de vapor: ora o vapor traz consigo ar e não há calor algum ao qual
não esteja misturado ar; como a sua natureza é tênue, tem de se aceitar que se movam dentro dele
muitos elementos de ar.
Já, portanto, se descobriu a tríplice natureza do espírito; mas ainda não bastam elas todas
para criar a sensibilidade: o espírito não aceita que qualquer delas possa criar os movimentos sen-
sitivos e tudo o que no espírito se revolve. É preciso, então, juntar- -lhes uma quarta substância.
Carece ela de qualquer nome: nada existe de mais móvel ou de mais tênue do que ela, nem forma-
da de elementos mais pequenos e mais lisos; é ela que primeiro reparte pelos membros os movi-
mentos sensitivos.
É ela de fato a primeira que se move, formada como é por elementos diminutos; depois o
calor e o invisível poder do sopro recebem os movimentos e em seguida'os recebe o ar; depois
todos se movem, agita-se o sangue, tudo sentem os órgãos e por fim é comunicado aos ossos e às
medulas ou o prazer ou um ardor contrário.
Mas não é impunemente que a dor pode penetrar até aí e derramar-se um agudo mal: tudo
se perturba a tal ponto que falta lugar para a vida e fogem as partes da alma por todos os canais
do corpo. Mas na maior parte das vezes a superfície do corpo é termo destes movimentos: por isso
podem reter a vida.
Agora: de que maneira se misturam estes elementos, de que modo, ligando-se, exercem a sua
ação — eis o que, apesar dos meus desejos, me impede de explicar a pobreza da língua pátria; no
entanto, vou, como puder, tocar sumariamente os pontos principais.
De fato, os elementos destas substâncias entrecruzam os movimentos de tal modo que não se
pode separar nenhuma nem há possibilidade de as localizar: ficam, pois, e sendo muitas, como as
propriedades de um só corpo. Toda substância de qualquer órgão de um animal tem cheiro, calor,
sabor: todavia, de todas estas qualidades se faz somente um corpo. Assim o calor, o ar, o invisível
poder do sopro, criam, misturados, uma única substância e aquela força móvel que divide por elas
o movimento que por si criou e que é a primeira origem dos movimentos sensitivos dos órgãos.
Esta última substância está profundamente escondida, dissimulada, e não há no nosso corpo
nada que se encontre mais dentro do que ela: ela é por sua vez a própria alma de toda a alma.
Assim como, nos nossos membros e por todo o corpo, estão misturados e ocultos a força do espi-
DA NATUREZA e ES
rito e o poder da alma, visto serem formados de poucos e raros elementos, assim também esta
força sem nome se esconde com seus minúsculos elementos e é ela própria, por assim dizer, a
alma de toda a alma, e domina em todo o corpo.
É necessário, do mesmo modo, que O sopro, O ar e o calor misturados entre si existam em
todo o corpo e que um ou outro domine ou esteja subordinado, de maneira que entre si constituam
um conjunto: caso contrário, o calor e o sopro por um lado, por outro lado o poder do ar, destrui-
riam a sensibilidade e, desagregando-se, dispersariam tudo.
Com efeito, o espírito possui o calor, que recolhe quando referve em ira e faz brilhar os olhos
com ardor agudo. Há também o. sopro frio, companheiro do medo, que provoca o arrepio dos
membros e abala o corpo. E há também aquela condição pacífica do ar que se mostra no peito
tranquilo e no sereno rosto. Existe, porém, mais calor naqueles que têm ardentes corações e cujo
espírito iracundo facilmente ferve de i ira.
Neste gênero vem em primeiro lugar a violenta força dos leões que muitas vezes, rugindo,
rasgam o peito com o abalo e não podem conter no peito as ondas de cólera. É mais de sopro 0
frígido espírito dos veados e mais depressa lhes lança pelos órgãos gélidas auras que fazem apare-
cer nos membros um trêmulo movimento. A natureza dos bois vive mais de plácido ar; jamais os
fachos da cólera a exasperam, jamais fumegam rodeando-a com as sombras da negra escuridão;
também nunca fica entorpecida pelos gélidos dardos do pavor: está colocada a meio, entre os vea-
dos e os terríveis leões.
O mesmo acontece com a raça dos homens: *º embora a educação dê a alguns uma uniforme
polidez, todavia lhes deixa os antigos vestígios do caráter que tinha cada um; e não se deve supor
que se pode arrancar o mal pela raiz; um corre mais facilmente para as iras furiosas, outro é atin-
.gido mais cedo pelo temor, um terceiro aceita as coisas com mais paciência do que devia.
É de necessidade que nos outros apareçam ainda muitas diferenças e que sejam vários os
"caracteres dos homens e os costumes que se lhes seguem; mas não posso agora expor as suas cau-
sas ocultas nem encontrar os nomes bastantes para todos os princípios de formas de que provém
esta diferença das coisas: o que vejo poder afirmar-se neste ponto é serem tão pequenos os vesti-
gios de caráter que se deixam, e que a razão não pode afastar de nós, que nada impede se passe
uma vida digna dos deuses.
Portanto, esta substância é contida por todo o corpo, sendo ela própria a guarda e a causa
da segurança do corpo; estão presos um ao outro por raízes comuns e é evidente que não se
podem separar sem destruição. Assim como não é fácil arrancar o perfume aos grãos do incenso
sem que pereça a sua substância, assim também não é fácil extrair de todo o corpo a substância
do espírito e da alma sem que tudo se dissolva, de tal modo se implicaram os seus princípios
desde a primeira origem e aparecem dotados de uma vida consorte. Parece que nenhum deles pode
existir sem a força do outro, ou terem o corpo e a alma sensibilidade por si próprios. É pelos seus
movimentos comuns que a sensibilidade se inflama e acende pelos nossos órgãos.
Além disso, o corpo não pode nascer riunca por si próprio, nem cresce nem parece durar de-
pois da morte. Não é como a água que perde o vapor que lhe foi dado e nem por isso fica
destruída, mas permanece intata: não é, digo eu, do mesmo modo que os órgãos podem suportar,
abandonados, a retirada da alma: perecem profundamente abalados e em podridão se abatem. É
assim que, desde os primeiros tempos, no próprio organismo e no ventre da mae, os contatos mú-
tuos, do corpo e da alma, aprendem os movimentos vitais, de maneira que a separação não se
pode fazer sem desastre e sem mal; vês, portanto, que, se as suas existências estão ligadas na
mesma segurança, é porque são idênticas quanto à sua substância.
Depois, se alguém negar a sensibilidade do corpo, e julgar que é a alma, espalhada por todo
o corpo, que recebe este movimento a que chamamos sensibilidade, não há dúvida de que vai con-
tra fatos manifestos e verdadeiros. Quem há de dar para o fato de o corpo sentir outra explicação
que não seja a que a realidade nos deu e ensinou? E, quanto ao fato de que o corpo, saindo a
*º De um modo geral, os materialistas são pessimistas quanto à natureza humana. Para Lucrécio, a educa-
ção não consegue modificar os defeitos inerentes a cada qual; eles voltarão a revelar-se de cada vez que lhes
for dada oportunidade conveniente. Pode dizer-se que nenhum pensador da Antiguidade considerou a educa-
ção como podendo modificar a natureza, o que tem sido por vezes a idéia de alguns pedagogos modernos;
mas o que eles puseram como assente é que a natureza humana é em si própria boa e que os defeitos provêm
apenas das condições gerais da vida (o problema da inclusão da estrutura biológica 'dos indivíduos entre
estas condições gerais nunca foi plenamente tratado). De resto, não havia em tudo isto senão crenças, incli-
nações pessoais ou considerações metafísicas; só no nosso tempo, a tese de uma bondade humana essencial
recebeu o apoio de provas científicas com os estudos sobre os primitivos atuais.
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alma, não tem mais sensibilidade, o que é certo é que perde o que, durante a vida, não era mesmo
seu; e, quando sai da vida, perde ainda muitas outras coisas.
Dizer, por outro lado, que os olhos nada podem ver, e que por eles, como por uma porta
aberta, o espírito contempla, é bem difícil; o próprio sentido da vista leva a outra idéia, leva a
sensibilidade como por força às próprias pupilas, sobretudo quando não podemos fitar um brilho
forte por nos ferir a luz os olhos. O que não acontece com as portas: nunca um portal, por estar
aberto e por nós olharmos, sofre qualquer incômodo. Por outro lado, se os nossos olhos são como
portas, parece que o espírito devia ver melhor as coisas depois de lhos tirarem, como se supri-
missem obstáculos.
Neste assunto, não podes de modo algum adotar a doutrina venerável do ilustre Demócri-
to, *" a de que os elementos do corpo e do espírito se justapõem, alternando-se um a um, e assim
entrelaçam os membros. Efetivamente, não só os elementos da alma são muito menores do que
aqueles de que se compõem o corpo e os órgãos, como também são inferiores em número e se dis-
persam raros pelos membros; no entanto, pode admitir-se que os objetos mais pequenos que
podem provocar nos nossos corpos movimentos sensíveis são do tamanho dos intervalos que têm
entre si os elementos primordiais da alma.
De fato, algumas vezes não sentimos a aderência do pó, nem a greda que cai de lado sobre
os membros, como não sentimos também o nevoeiro noturno nem a fina teia de aranha que esbar-
ra conosco, quando nos enreda ao irmos caminhando, nem a antiga vestidura que nos lança sobre
a cabeça, nem as plumas das aves, nem os cardos voadores que vão caindo com extrema leveza;
não sentimos igualmente o choque dos pequenos animais, o tocar de cada um dos pês que nos
põem no corpo os mosquitos e os outros insetos. Tanto se têm de agitar em nós antes que, abala-
dos, os elementos da alma que se misturam no corpo aos membros possam, apesar dos intervalos,
chocar-se uns com os outros, encontrar-se, unir-se e repelir-se alternadamente.
E é o espírito, mais do que a força de alma, que mantém fechadas as barreiras da vida e do-
mina mais a própria vida. De fato, sem o pensamento e o ânimo, não pode ficar nos membros,
mesmo por um tempo exíguo, qualquer parte da alma; logo segue facilmente na sua companhia e
se dispersa pelos ares e abandona os gélidos membros no frio da morte.
Permanece, no entanto, na vida aquele a quem ficou o pensamento e o ânimo: ainda que seja
em tronco mutilado, com todos os membros amputados, ainda que lhe tenha sido arrancada,
suprimida dos membros a alma, vive e recebe as vitais auras etéreas.
Privado, não de toda a alma, pelo menos de uma parte, todavia se demora na vida e a ela se
prende; de igual modo, se, dilacerado o olho, ficar incólume a pupila, permanece viva a possibili-
dade de ver, desde que não se ofenda todo o globo da vista e se não corte à volta deixando-o isola-
do: o que não se faria sem destruir um e outro. Mas, se se ferir aquela pequena parte mediana do
olho, logo se extingue a luz e se seguem as trevas, embora o resto do globo esteja intato e cheio
de brilho. Tal é a lei que une para sempre o espírito e a alma.
E agora, para que possas saber *? que nos seres vivos os espíritos e as ligeiras almas estão
submetidos a nascimento e morte, continuarei a expor em versos dignos de ti o que adquiri e des-
cobri por um trabalho contínuo e agradável. Tu, faze de maneira que juntes sob um só nome a
substância de um e de outro e que entendas, quando falar de alma e ensinar que ela é mortal, que
também me refiro ao espírito, visto que são um só todo, uma coisa conjunta.
Primeiro, mostrei que a alma é sutil, composta de elementos minúsculos, e que é feita de ele-
** Segundo parece, porque o trecho de Lucrêécio é o único que nos chegou às mãos sobre o assunto, Demó-
crito afirmara que o homem é formado de uma tessitura de átomos de corpo e de átomos de espírito, alter-
nando-se um a um; Lucrécio, embora admita um contato muito íntimo e como que uma solidariedade entre
corpo e espírito, refuta a opinião de Demócrito com dois argumentos, o de que os átomos do espírito são
mais pequenos que os do corpo e o de que são em número menor. Este ponto de discordância, entre outros,
mostra que os epicuristas não tinham adotado na sua totalidade a teoria de Demócrito; no fundo o que se
tinha aceitado plenamente era a concepção atomística da matéria.
** Demonstrada a natureza material do espírito e da alma, e indicada a forma por que agem no corpo,
passa Lucrécio a explicar que a morte os atinge a ambos exatamente como ao corpo e, para maior facilidade
de raciocínio, passa a tomar espírito e alma como formando um todo. Para Lucrécio, a alma dissipa-se no
ar e mistura-se com os átomos do ar, como acontece com o nevoeiro e os fumos, as substâncias que mais se
lhe assemelham em estrutura; e dispersa-se sempre que o corpo morre, visto que lhe acompanha todas as
fases da vida e está sujeita às mesmas doenças que o atingem. O mais curioso dos aspectos por que Lucrécio
encara a questão é o da impossibilidade de corpo e alma não constituírem senão um todo, para os efeitos de
vida; é um aspecto ques sob um ângulo mais largo, tem sido posto de parte em muita especulação filosófica
e teológica.
DA NATUREZA Ei
mentos muito mais pequenos do que o líquido fluido da água ou a névoa ou o fumo: está muito
à frente pela mobilidade e mexe-se mais com choques leves, visto que a movem os simulacros do
fumo e da névoa. Assim, nos sonhos, quando dormimos, vemos subir alto no ar o vapor dos alta-
res e desprender-se o fumo; sem dúvida estes simulacros vêm para nós de longe.
Ora, como se vê, sacudindo um vaso, correr a água por todos os lados e escapar o líquido,
e dispersarem-se no ar a névoa e o fumo, acredita que também a alma se dissipa, que parece muito
mais facilmente e mais depressa se dissolve nos elementos primordiais, uma vez que se retira,
arrancada dos membros do homem. Porque se o corpo, que é como o vaso da alma, já a não pode
conter quando abalado por alguma coisa ou rarefeito, ao retirar-se o sangue das veias, como se há.
de acreditar que a pode conter qualquer espécie de ar, que é de matéria menos aglomerada que o
nosso corpo?
Além disto, sentimos que o espírito nasce juntamente com o corpo e cresce com ele e enve-
lhece ao mesmo tempo. Assim como o menino é débil e pela fraqueza do corpo lhe é incerto o
andar, assim o acompanha um pensamento sem consistência. Depois, quando a idade cresce com
robustas forças, é também maior a inteligência e aumenta a força do espírito. Em seguida, quando
o corpo é abalado pela força do tempo e declinam os órgãos pelo embotamento das forças, o enge-
nho claudica, delira ao mesmo tempo. É, portanto, também admissível que toda a substância da
alma se dissipa como o fumo nas aladas auras do ar, visto que a vemos nascer com o corpo, cres-
cer ao mesmo tempo e, como disse, arruinar-se, cansada, pela mesma idade.
Acresce a isto que, segundo vemos, se o corpo contrai por sua parte grandes doenças e uma
dor cruel, também o espírito tem cuidados agudos e desgostos e receios; é natural que também
participe da morte.
Mesmo nas doenças de corpo, o espírito, desviando-se, muitas vezes vagueia; fica dementado
e pronuncia coisas delirantes; às vezes é levado, por um pesado letargo, ao profundo, eterno sono
e, de lá, os olhos fechados, pendente a cabeça, nem ouve as vozes, nem pode conhecer os rostos
daqueles que estão à sua volta, chamando-o à vida, e inundando de lágrimas os rostos e as faces.
É, portanto, necessário dizer que também o espirito se desagrega sempre que nele penetram os
contágios da doença. A dor e a doença são ambas obreiras da morte, como já sabemos pelo
desaparecimento de muitos.
Finalmente, por que motivo, quando a força de um vinho generoso penetrou num homem e
o calor, dividindo-se, se espalhou pelas veias, se segue um peso nos membros, vacilam as pernas,
inclinando-se, retarda-se a língua, perturba-se o espírito, nadam os olhos, aparecem gritos, solu-
ços e provocações, todas as consequências. desse gênero? Por que motivo vem isto, senão porque
a veemente violência do vinho costuma perturbar a alma dentro do próprio corpo? Ora, toda
substância que pode ser perturbada e impedida declara por aí que, se nela se insinua alguma coisa
de mais grave, perece e se priva do tempo futuro.
Também muitas vezes, tocado de súbito pela força da doença, cai alguém ante nossos olhos
como fulminádo por um raio, e espuma, geme, treme-lhe o corpo, delira, fica de nervos rígidos,
torce-se, respira sem ritmo, € fatiga-se agitando os membros. É sem dúvida porque a alma, despe-
daçada nos órgãos pela força da doença, se perturba e provoca as espumas, como pela força vio-
lenta dos ventos as ondas se levantam no salgado mar.
Aparece também o gemido porque os membros são atacados pela dor e porque os elementos
da voz são arremessados para fora e levados em bloco pela boca, caminho habitual e por assim
dizer próprio. Há delírio porque se perturba a força do espírito e da alma e, como ensinei, porque
se separam divididos e dispersos por aquele mesmo veneno. Depois, quando a causa da doença se
retira e recolhe ao esconderijo o humor acre do corpo corrompido, então primeiro se levanta
“como vacilante e a pouco e pouco recobra todos os sentidos e recebe de novo a alma.
Visto que podem ser, no próprio corpo, agitados por tão grandes doenças e sofrer dilace-
“rados de mísero modo, por que razão se há de acreditar que sem corpo podem passar a vida ao ar
livre entre os ventos violentos?
Também, como vemos que o espírito se cura, tal como o corpo doente, e pode ser modificado
pela medicina, há aqui indicação de que o espírito vive vida mortal. É preciso juntar partes ou
transpor-lhes a ordem, ou retirar ao conjunto pelo menos um pouco, quer se procure e se pretenda
transformar o espírito, quer se busque modificar qualquer substância. Mas aquilo que é imortal
não deixa que lhe troquem elementos ou lhe acrescentem alguma coisa ou lhe tirem seja o que for.
Efetivamente, tudo aquilo que, mudando-se, sai de seus limites, significa logo a morte do que era
dantes. Portanto, o espírito, ou pela doença ou por ser modificado pelo remédio, mostra caracte-
res mortais. De tal modo vem sempre a verdade ao encontro do falso raciocínio, e, impedindo- lhe
a fuga, o demonstra falso por uma dupla refutação.
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Por fim, vemos um homem ir-se pouco a pouco e perder a sensibilidade membro a membro:
primeiro, tornam-se-lhe lívidos os dedos dos pés e as unhas, depois morrem os pés e as pernas, de-
pois ainda vai pelas outras partes do corpo, lentamente, a passada da gélida morte. Como a subs-
tância da alma é também dividida e não escapa toda inteira em tempo algum, tem de ser tomada
por mortal.
Se se imaginar por acaso que pode retirar-se para dentro através do corpo e levar a um só
ponto os seus elementos, retirando assim a sensibilidade a todos os membros, então o lugar em
que se encontrasse tão grande quantidade de alma devia aparecer com sensibilidade maior; como
tal não se dá em parte alguma, é de força, como dissemos antes, que ela em pedaços se disperse
fora e,.portanto, morra. E mesmo se nos apetecesse aceitar o que é falso, conceder que a alma se
pode concentrar no corpo daqueles que abandonam pouco a pouco a luz, todavia seria preciso
aceitar que a alma é mortal, sem que importe se perece dispersa pelos ares ou se se embrutece con-
traída nas suas partes: efetivamente a sensibilidade abandona cada vez mais toda a pessoa e por
toda parte lhe resta cada vez menos vida.
Como o espírito é uma parte do homem e está fixo num lugar certo, tal como estão os ouvi-
dos e os olhos e os outros sentidos que governam a vida, e como as mãos, os olhos e o nariz não
podem por si próprios, separados de nós, ter sensibilidade ou existir, mas em pouco tempo se cor-
rompem em podridão, assim também a alma não pode existir por si só, sem o corpo e sem o pró-
prio homem, como se ele fosse o vaso que a contém, ou outra coisa qualquer que possas imaginar
estreitamente ligada a ele, visto que adere ao corpo intimamente.
Enfim, o poder vivo do corpo e do espírito só tem vigor e desfruta da vida se é conjunto; sem
o corpo, não pode por si só a substância do espírito produzir movimentos vitais, nem por outro
lado pode o corpo privado de alma subsistir e usar a sensibilidade. Assim como o olho, arrancado
das suas raízes, separado do resto do corpo, não pode por si só distinguir coisa alguma, assim
também parece que a alma e o espírito nada podem por si. E nada há nisto de extraordinário, por-
que, misturados pelas veias e pela carne, pelos nervos e pelos ossos, são retidos por todo o corpo;
não podem os elementos saltar livres a grandes distâncias e por isso, encerrados, produzem os
movimentos sensitivos que não podem produzir fora do corpo, depois da morte, lançados às auras
do ar, visto já não serem retidos do mesmo modo.
De fato, o ar seria um corpo € até um ser vivo, se a alma pudesse dentro dele manter-se unida
e nele encerrar os movimentos que anteriormente realizava nos nervos e no próprio corpo. Por
isso, e ainda uma vez, tem de se confessar que, depois de disperso o invólucro corpóreo e de expe-
lidos os sopros vitais, se dissolve a sensibilidade do espírito e da alma, visto que alma e corpo têm
causas conjuntas.
“Finalmente, como o corpo não pode suportar a partida da alma sem que apodreça com terrí-
vel cheiro, como se há de duvidar de que, tendo-se levantado do mais profundo e íntimo de nós,
a força da alma não emane difusa como um fumo e por isso o corpo caia, transtornado por tão
grande e putrefata ruína, visto lhe terem sido abalados os fundamentos mais profundos, quando
a alma ao sair passou pelos membros, por todos os meandros dos caminhos que há no corpo e
pelos poros? Podes assim conhecer de vários modos que a substância da alma, repartida, saiu
pelos membros e que já se tinha despedaçado no próprio corpo antes de deslizar para fora e flu-
tuar nas auras do ar.
E até mesmo, mantendo-se dentro dos limites da vida, mas abalada todavia por alguma
causa, parece que a alma quer ir-se embora e soltar-se de todo o corpo; e, como se fosse na hora
suprema, o rosto enlanguesce, os membros moles como que se soltam do corpo exangue. Isto
acontece quando alguém se sente mal ou perde os sentidos, quando já todos se agitam e procuram
apertar O laço último da vida. Então, com efeito, abala-se o espírito e todo o poder da alma, ê eles
se abatem com o próprio corpo; um choque mais violento destruiria tudo.
Pode-se duvidar ainda de que, saída do corpo, fraca, ao ar livre, arrebatado o seu abrigo,
não só não possa durar por toda a eternidade mas nem consiga sequer subsistir durante algum
tempo? Não há nenhum moribundo que sinta sair a alma inteira de todo o corpo e ir primeiro à
garganta e, mais acima, às goelas; desfalece, porém, no lugar certo em que está colocada; exata-
mente como se sabe que cada um dos outros sentidos se dissolve na sua sede. Ora, se o nosso espí-
rito fosse imortal, não se queixaria de ao morrer se dispersar: antes seria como sair e abandonar
o vestuário, à maneira da cobra.
Finalmente, por que razão a mente e o refletir nunca nascem na cabeça ou nos pés ou nas
mãos, mas se fixam num só lugar e em certas regiões, se não é porque hã lugares certos para que
nasça cada coisa e aí possa permanecer depois de criada, ficando assim cada órgão repartido de
maneira que nunca se possa inverter a ordem dos membros? A tal ponto se encadeiam os fenôme-
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nos! E também não é de hábito nascer uma chama nos rios ou surgir no fogo o gelo.
Além de tudo, se a natureza da alma é imortal e pode ter sensibilidade quando separada do
nosso corpo, temos que a dotar, creio eu, de cinco sentidos. Não podemos imaginar de outro
modo as almas dos infernos vagando pelo Aqueronte, e assim os pintores e as antigas gerações de
escritores apresentaram as almas dotadas de sentidos. Mas por si só a alma não pode ter olhos,
nariz, mãos, nem língua, nem ouvidos: por conseguência, não pode por si própria sentir e existir.
E visto que sentimos que todo o nosso corpo é a sede da sensibilidade vital, que em toda
parte a alma está difusa, se com golpe rápido uma força repentina vem a cortá-lo ao meio de
modo a separá- -lo em duas partes, é evidente que a alma também será dividida e fendida, e como
o corpo cairá em duas metades. Mas o que se fende e se divide num número qualquer de partes
não pode, evidentemente, pretender a imortalidade.
Dizem que os carros de foices, ** quentes da matança e em tumulto, cortam membros tão
subitamente que se vê palpitar no chão o que caiu, cortado do corpo, enquanto o espírito e a sensi-
bilidade do homem não podem dar pela dor, em virtude da rapidez do desastre. E, ao mesmo
tempo, como o espírito está inteiramente entregue à animação do combate, o homem com o resto
do corpo retoma a luta e lança-se à carnificina, nem sentindo que a mão esquerda lha levaram
com o escudo por entre os cavalos, as rodas e as foices rapaces; outro não sente que lhe caiu a
mão direita, quando ataca e persegue; outro tenta levantar-se sobre a perna que lhe arrancaram,
enquanto, perto, no solo, o seu pé moribundo agita os dedos; uma cabeça cortada de um tronco
quente e vivo conserva no solo um rosto animado e os olhos abertos, até entregar os últimos res-
tos da alma.
Também, se quiseres, à serpente que de um lado vibra a língua e do outro ameaça com o
corpo, cortar com um ferro em muitas partes, verás que tudo o que foi cortado com uma ferida
recente se torce por si próprio e salpica a terra de veneno, e que a parte da frente procura com a
boca a parte de trás para, ferida pela dor ardente, a apertar mordendo. Yamos então dizer que há
almas inteiras em todas estas pequenas partes? Mas, por este raciocínio, a conclusão será que um
só animal tinha no corpo muitas almas. Foi portanto dividida a que, juntamente com o corpo, for-
mava uma unidade; têm de se contiderar ambas mortais porque se podem dividir igualmente em
muitas partes.
Depois, se a substância da alma é imortal, * * e se se introduz no corpo ao nascer, por que
razão não podemos lembrar-nos do tempo passado nem conservar qualquer vestígio do que foi
feito? Efetivamente, se a tal ponto se transformaram as faculdades do espírito que tenha desapare-
cido toda a retentiva das coisas realizadas, creio que se não anda muito afastado da morte; é por
isso que é necessário confessar que morreu a que existia antes e foi depois criada a que depois
existe.
Além disto, se é já depois de concluído o corpo * º que costuma introduzir-se em nós o vivo
poder do espírito, na altura em que nascemos e entramos no limiar da vida, não convinha que jun-
tamente com o corpo e com os membros a vissemos crescer no próprio sangue: devia viver à
parte, sozinha como numa gaiola, mas de modo a derramar por todo o corpo a sensibilidade.
Assim, e uma vez mais, tem de se admitir que as almas não estão isentas de começo nem libertas
da lei da morte.
De resto, não é possível admitir que tão fortemente se ligassem aos nossos corpos, se tives-
sem sido introduzidas de fora, o que seria contra tudo o que ensina a mais clara evidência; está
tão ligada a alma às veias, às carnes, aos nervos e aos ossos, que até os dentes participam de
sensibilidade, como o indica a doença e a guinada da gélida água e o âspero grão de areia mordi-
do de súbito no pão; e, por estarem tão juntas, não parecem que possam sair sãs e salvas de todos
os nervos, ossos e articulações.
E se por acaso julgas que a alma, introduzida de fora, habitualmente flui pelos nossos mem-
*3 Ao argumento de que, acompanhando a alma, o corpo em tudo deve igualmente acompanhá-lo na morte,
junta-se agora o de que, sendo a alma divisível, não pode considerar-se imortal; para Lucrécio a divisibi-
lidade da alma prova-se pelo fato de continuarem animadas partes do corpo separadas da estrutura
principal.
** O terceiro argumento a favor da mortalidade da alma é o de que não existe lembrança da vida anterior;
para outros pensadores gregos, anteriores a Epicuro, essa lembrança existia: era o fundamento, ou um dos
fundamentos, da metafísica pitagórica e Sócrates ou Platão, com o nome de anamnes, puseram-na como
fonte essencial do conhecimento.
*5 No texto que se segue, Lucrécio traz ainda em apoio de sua tese que a alma não se pode desprender, sem
que pereça, do corpo em que está estabelecida, tal a intimidade das suas implicações.
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bros, tanto mais depressa morrerá fundindo-se com o corpo. Efetivamente o que flui dissolve-se,
portanto morre. Divide-se, por conseguinte, pelos poros de todo o corpo, como o alimento, quan-
do se espalha por todos os membros e órgãos, se perde e dá origem a outras substâncias: assim.
também a alma e os espíritos, embora entrem inteiros no nosso corpo, se dissolvem fluindo, por-
que se dispersam por todos os poros nos membros as partículas de que é formada esta substância
da alma, a que domina agora, a que nasceu no nosso corpo a partir da que pereceu dividida pelos
membros. Por isso a substância da alma não parece nem privada de dia natal nem isenta de
morte.
Depois, ficarão por acaso germes de alma no corpo inanimado? * º Se ficam e nele residem,
não haverá possibilidade de ser considerada imortal, visto que se retirou privada das partes perdi-
das; mas se, ao separar-se, fugiu com membros inteiros, de modo a não deixar no corpo nenhuma
parte de si mesma, donde vem que produzem os cadáveres, a carne já podre, vermes, donde vem
que uma tão grande abundância de animais sem ossos e sem sangue se agite por entre os membros
tumefactos?
E se por acaso admitires que as almas se podem introduzir de fora nos vermes e podem vir
uma a uma alojar-se nos corpos, e não deres uma razão para que tantos milhares de almas se reú-
nam no lugar de onde só uma se retirou, parece que se tem de investigar e de discutir se realmente
as almas andam à caça de cada germe de vermezinho e se constroem elas mesmas lugar onde resi-
dam ou se então se introduzem nos corpos completos. Mas não se poderia dizer por que motivo
o fariam elas próprias ou por que razão trabalhariam.
Efetivamente, enquanto estão sem corpo, voejam sem se afligir com doenças, frio e fome. O
corpo está muito mais sujeito a estes males e o espírito, por contágio, sofre por muitos males que
são deie. Mas, embora lhes seja útil fazer um corpo em que entrem, não se vê nenhum caminho
pelo qual isto lhes seja possível. As almas não se constroem, portanto, um corpo e membros.
Também não se introduzem em corpos já completos, porque não poderiam estar intimamente
ligadas com eles nem se realizariam contatos de sensibilidade.
Depois, por que razão * ” segue a dura violência à áspera raça dos leões e a fraude à raposa
e é dada a fuga aos cervos por seus pais e o pavor ancestral lhes incita os membros? Por que
razão todas as coisas deste gênero aparecem desde tenra idade na predisposição de cada um, se
não é porque em cada germe, em cada raça, existe uma determinada força de espírito que se
desenvolve juntamente com o corpo?
De fato, se o espírito fosse imortal e passasse de um corpo a outro, os animais seriam de cos-
tumes mistos: muitas vezes um cão de raça hircana se furtaria ao ataque de um cornígero veado
e O açor tremeria pelas auras do ar, fugindo, ao vir a pomba; seriam os homens irracionais e te-
riam razão as bravias gerações das feras.
É por um raciocínio errado que se afirma que a alma imortal se modifica ao trocar de corpo:
o que muda se dissolve e, portanto, morre. Efetivamente, as partes da alma deslocam-se e mudam
de posição: devem, por conseguinte, poder também dissolver-se nos membros até que finalmente
pereçam inteiras com o corpo. E, se se disser que as almas humanas sempre vão para corpos
humanos, ainda perguntarei como pode ser que de sapientes fiquem tolas, e não tenha experiência
menino algum, nem seja 9 filhote de égua tão hábil e forte como o cavalo adulto.
Dirão como refúgio que num corpo tenro se faz tenro o espírito. Se isto é assim, ter-se-á que
dizer que a alma é mortal, porque, ao trocar de membros, perde tão fortemente a vida e a sensibili-
dade anteriores. Mas de que modo poderá a força do espírito, juntamente com o corpo, chegar, já
firme, âquela desejada flor da idade, a não ser que lhe tenha sido consortê desde os primeiros tem-
pos? Por que razão quer sair dos membros caducos? Acaso teme ficar fechada num corpo podre
e cair-lhe a habitação já cansada pelo largo tempo? Mas, para imortais, não há perigo nenhum.
“*8 Lucrécio pensa ainda, segundo parece, que uma parte da alma fica no corpo e, subdividindo-se, dá as
almas que vão animar os vermes. a
*7 O poeta crê que o fato de haver persistência de caracteres psicológicos diferentes de espécie a espécie
vem a favor das suas idéias sobre a mortalidade da alma; rigorosamente, só se poderia apresentar tal verifi- '
cação como argumento se se pensasse que as almas podiam, indiscriminadamente, penetrar em qualquer
corpo; caso contrário, poderia sempre responder-se a Lucrécio que cada alma procuraria sempre o corpo
apropriado. É para prevenir, no entanto, esta réplica, que Lucrécio põe como ininteligível e, por conseguinte,
inaceitável, que a alma humana, por exemplo, transmigre de adultos a crianças.
DA NATUREZA 81
Finalmente, parece ridículo *º que a alma assista aos conúbios de Vênus e aos partos das
“feras e que, sendo imortais, lutem em número incalculável pelos membros mortais e se batam
entre si para entrar primeiro e com mais força; a não ser que haja entre as almas combinação
estabelecida, de maneira a entrar primeiro a que primeiro chegue voando, sem que haja qualquer
encontro violento.
Por fim, nem a árvore pode subsistir no ar, nem as nuvens no alto mar, nem os peixes viver
nos campos, nem existir sangue nos lenhos, nem haver seiva nas pedras. Está determinado e dis-
posto o lugar onde cada coisa tem de crescer e residir. Assim, a substância de espírito não pode
nascer sozinha sem o corpo nem estar muito longe dos nervos e do sangue. Se realmente o conse-
guisse, mais depressa poderia a própria força do espírito existir na cabeça ou nos ombros ou no
fundo dos calcanhares, e nascer em qualquer parte, porque sempre estaria no mesmo homem, no
mesmo vaso. Mas como se vê que há no nosso corpo lugar determinado e disposto onde a alma
e o espírito podem crescer à parte, tanto mais devemos negar que possam gerar-se e perdurar fora
do conjunto do corpo. Por isso, quando o corpo morre tem de se confessar que perece a alma dis-
persa pelo corpo todo. Juntar o mortal ao eterno e julgar que podem ter sensibilidade conjunta e
utilizar-se mutuamente é não ter senso algum. Que se há de imaginar de mais diferente, separado,
discordante, do que alguma coisa de mortal ligada ao que é imortal e eterno e suportando com ele
as mesmas terríveis tempestades?
Além disto, todas as coisas que.são eternas têm de ReDel com um corpo sólido os choques,
não deixando penetrar em si nada que possa dissociar o entrelaçamento das partes, e é isto o que
sucede com os elementos da matéria de que anteriormente mostramos a natureza; ou, então, de
permanecer por todos os tempos, porque não sofrem os golpes, tal como acontece com o vácuo,
que permanece intato e não recebe choque nenhum: ou, ainda, porque não há à volta nenhum
lugar onde as coisas possam dissolver-se e dissociar-se, tal como é eterno o conjunto dos conjun-
tos fora do qual não há lugar para onde fujam, nem corpos que possam cair sobre eles e dispersá-
los pela violência da pancada.
Mas, se por acaso se tem de considerar a: alma como imortal, por estar fortificada de defesas
vitais, ou porque não lhe chega nada que seja contra a segurança ou porque aquilo que vem se re-
tira repelido, seja como for, antes que lhe possamos sentir os efeitos nocivos, (Lacuna) o que é
certo é que, além de adoecer com as enfermidades do corpo, acontece que se atormenta muitas
vezes acerca do futuro, tremendo de medo e fatigando- -se de cuidados e a remorder os erros anti-
gos e as faltas. Acrescenta a isto O furor próprio do espírito e o esquecimento das coisas, acrescen-
ta-lhe o mergulhar nas ondas negras do ERRO,
Á morte, portanto, nada é para nós *º e em nada nos toca, visto ser mortal a substância do
espírito. E, como não sentimos dor alguma quanto ao tempo passado, quando os cartagineses
acorreram de todos os lados para o combate, quando o Universo, sacudido pelo tumulto trépido
da guerra, tremeu de horror sob as altas abóbadas do céu e em todos os homens havia dúvida
ansiosa sobre a qual dos dois caberia o domínio da terra e do mar, assim também, quando não
existirmos, quando houver a separação do corpo e do espirito, cuja união forma a nossa indivi-
dualidade, também a nós, que não existiremos, não nos poderá acontecer seja o que for nem
impressionar-nos a sensibilidade, mesmo que a terra se misture com o mar eo mar com o céu.
E se, depois de se separarem do nosso corpo, a substância do espírito e o poder da alma con-
*8 TInsistindo na tese, para ele fundamental, Lucrécio apresenta como absurdo que almas imortais disputem
entre si a entrada num corpo mortal. Por outro lado, a alma não pode viver fora do corpo mortal e, a consi-
derarmos a alma como imortal, ver-nos-famos em dificuldades para explicar como pode ela viver unida a um
corpo mortal. Por fim, mostra que a alma não apresenta nenhum dos caracteres que lhe garantiriam a
imortalidade.
*º Feita a demonstração de que a-alma não é imortel, o que levou mais duma terça parte de todo o Livro
II, Lucrécio conclui que a morte não pode de modo algum ser nada terrível; a morte é, na realidade, visto
que por ela se atinge o não-ser, a libertação de todos os males da vida. Não haverá memória nenhuma de
todos os sofrimentos por que se passou, exatamente como na vida não se conserva a lembrança das prova-
ções que não se experimentaram, Dos males futuros também nenhum nos pode alcançar porque, para sofrer-
se um mal, é necessário existir. É por isso que não se deve igualmente ter nenhuma preocupação com aquilo
que sucederá ao corpo depois de morto: deve ser indiferente que o enterrem, o queimem, ou o deixem como
pasto de feras e de aves de rapina; é um erro que vem de ligar o eu, o que existe agora, ao corpo inanimado;
não haverá consciência porque não seremos nessa altura o que somos enquanto vivemos, um conjunto de
corpo e alma.
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tinuam sentindo, nada há nisso que nos interesse, visto que'é só pela ligação e adaptação da alma
e do corpo que existe a nossa individualidade. Também, se o tempo depois de morrermos juntar
toda a nossa matéria e de novo a dispuser onde agora está situada e outra vez nos for dada a luz
da vida, nada nos importará o que se tiver feito, visto que foi interrompido uma vez o curso da
nossa memória. Agora nada nos importa o que fomos, nem nos afeta por isso qualquer angústia.
Efetivamente, se contemplarmos todo o tempo imenso que passou, Os variados movimentos
da matéria, facilmente se pode acreditar que alguma vez estiveram na mesma posição em que
estão agora os elementos de que somos formados neste momento: todavia não o podemos recor-
dar no espírito; entre um tempo e outro sobreveio uma pausa da vida e todos os movimentos,
separados de todos os sentidos, erraram vagueando por aqui e por além.
É preciso, de fato, se por acaso tem de haver alguma coisa de mísero e de triste, que haja
nesse mesmo tempo aquele a quem tem de acontecer: como, porém, a morte o suprime, como im-
pede de existir aquele a quem poderia ser armado tal conjunto de males, ficamos a saber que nada
há de temível na morte, que não pode ser infeliz quem não existe, e que não interessa nada que já
tenha nascido nalguma época, visto que a morte imortal lhe roubou a vida mortal.
Assim, quando se vir um homem lamentar-se sobre si próprio por lhe acontecer, depois de
morto, que ou apodreça o corpo abandonado, ou se desfaça com as chamas ou com as mandi-
bulas das feras, pode-se concluir que não são palavras sinceras, ou que um estímulo secreto se lhe
esconde no coração, embora ele próprio negue acreditar que tenha alguma sensibilidade depois de
morto. Creio eu que não dá o que promete nem as razões; não se tira, não se arranca radicalmente
da vida, e acha ele próprio que alguma coisa de si lhe sobreviverá.
Com efeito, o vivo que se representa a si mesmo no futuro, com as aves e as feras lacerando-
lhe o corpo já morto, apieda-se de si próprio; não se separa dele, não se afasta bastante do corpo
estendido e pela imaginação se confunde com ele e, de pé, empresta-lhe a sua própria sensibili-
dade. Por isso, se lamenta de ter sido criado mortal e não vê que na morte verdadeira não há outro
eu que possa vivo chorar a sua perda, e, ficando de pé, doer-se de que o lacerem ou o queimem.
Realmente, se quando se morre é um mal ser despedaçado pelas mandíbulas e pelas morde-
duras das feras, não percebo por que motivo não é doloroso abrasar-se nas chamas ardentes de
uma fogueira em que nos colocaram ou sufocar posto no mel ou ficar rígido de frio, quando se
está deitado sobre a superficie de uma pedra gelada, ou de ser triturado e esmagado pelo peso da
terra que nos deitaram por cima.
“Tá agora não te receberá uma casa alegre, ºº nem uma esposa excelente, nem os filhos queri-
dos correrão a roubar-te beijos e a acariciar-te o peito com silenciosa ternura. Já não poderás ter
negócios florescentes, já não poderás ser a guarda dos teus. Ó infeliz de ti, ó infeliz”, dirão ainda,
“um dia nefasto te roubou todas as vantagens da vida.” Mas não acrescentam a seguir: “Também
já não te seguirá a saudade de tudo isto”. Porque se o vissem claramente em seu espírito e se cum-
prissem estas palavras, já libertariam a mente da grande angústia, do grande medo.
“E tu, adormecido como estás na morte, assim ficarás por todo o tempo, isento de todas as
cruéis dores. Mas nós, perto da horrível pira, te choramos incessantemente, a ti já feito em cinzas,
e dia algum nos arrancará do peito essa dor eterna.” Tem, por conseguinte, de se perguntar a
quem assim fala para que é necessária uma tal amargura; se tudo vern a dar em dormir e estar em
sossego, quem há de consumir-se num eterno luto?
Outros homens, ainda, quando se sentam à mesa e seguram os copos e sombreiam o rosto de
grinaldas, dizem convictos: “Breve é o gozo para os pobres homens; depressa passará e depois
nunca mais poderemos ressuscitar”. Como se o primeiro mal na morte fosse esse de a sede abra-
sar os miseráveis e de cálida os queimar ou de haver com eles a saudade de qualquer outra coisa.
Ninguém, realmente, se lamenta a si e à vida quando repousam por igual o espírito e o corpo.
Pode haver, pelo que nos respeita, um sono eterno e nenhuma saudade de nós nos vem afligir.
Todavia, os elementos espalhados pelos nossos membros não vagueiam de modo algum longe dos
movimentos sensíveis quando o homem se levanta do sono e se recobra. Tem, portanto, de se crer
que a morte é ainda menos para nós, se alguma coisa pode ser menos do que aquilo que vemos
8º Todo o final do Livro é, sob o ponto de vista poético, um dos mais vivos e belos trechos de toda a obra
de Lucrécio, com as suas falas reproduzidas em discurso direto e a prosopopéia da natureza. Filosofica-
mente, é o coroamento de tudo quanto ficou para trás: podemos ter a certeza de que não há mal algum na
morte, de que o castigo dos infernos não é mais do que lenda ou figura poética e de que é na terra que real-
mente se é punido por todo o mal que se faz; que se é punido, sobretudo, por ter ignorado que se deve viver
sobriamente, livre de ambições e desprendido de todo o laço que possa trazer-nos qualquer espécie de
inquietação.
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nada ser: segue-se à morte uma dispersão maior da quantidade de matéria e ninguém torna a acor-
dar depois que a gelada suspensão da vida o tocou uma vez.
Finalmente, se de súbito a natureza proferisse palavras e viesse ela própria increpar algum de
nós: “Que tens tu, ó mortal, que te abandonar de tal modo a dores tão excessivas e amargas? Por
que choras e te lamentas sobre a morte? Efetivamente, se a vida anterior te foi agradável e se
todos os prazeres não foram como acumulados num vaso furado e não correram e se perderam
inutilmente, por que razão não hás de, tolo, retirar-te da vida como um conviva farto e aceitar
com equanimidade um repouso seguro? Mas se tudo aquilo de que gozaste se perdeu em vão e a
vida te pesa, por que buscas aumentá-la mais, para que tudo de novo tenha um mau fim e desapa-
reça sem proveito? Não seria melhor pôr fim à vida e ao tormento? Não posso imaginar e inven-
tar agora coisa alguma que te agrade: tudo é sempre o mesmo. Se o teu corpo já não está decré-
pito com os anos, se os membros não estão lânguidos de cansaço, tudo fica, no entanto, igual,
mesmo que persistas em viver, vencendo todos os tempos, e, ainda mais, mesmo que nunca viesses
a morrer”. Que haveríamos de responder senão que a natureza nos intenta um processo justo e
defende uma causa verdadeira?
Se é já um homem mais velho, adiantado em anos, que se queixa e lamenta a morte, fazen-
do-se mais infeliz do que seria justo, não tem ela razão em clamar ainda mais e em o increpar com
acre voz? “Limpa daí as lágrimas, meu pateta, e cala-me essas queixas. Envelheces depois de ter
gozado de todos os bens da vida. Mas, como sempre desejas o que está longe e desprezas o presen-
te, passou-te a vida incompleta e sem gosto, e chegou-te a morte à cabeceira, sem tu a esperares,
antes de poderes retirar-te saciado, cheio das coisas. Mas abandona agora tudo o que não vai com
a tua idade e retira-te, vamos, diante dos outros: eis o que é necessário.”
É justo, creio eu, que assim proceda, Justo, que censure e increpe. Sempre a velhice se retira
expulsa pela novidade, e é necessário que umas coisas se renovem à custa de outras: ninguém é
entregue ao báratro e aos tenebrosos infernos. É preciso que haja material de que se desenvolvam
as gerações futuras; e estas também te seguirão depois de terem gozado da vida; cairão como caí-
ram as que vieram antes de ti.
Nunca deixará de haver alguma coisa que de outra nasça e a vida não é dada como proprie-
dade a ninguém: a todos vem como usufruto. Vê, olhando para trás, como nada significou para
nós toda a velha porção de eternidade que se passou antes que nascêssemos. Eis o espelho que a
natureza nos apresenta do tempo futuro, do que, virá depois da nossa morte. Surge nisto algum
horror, alguma tristeza? Não é tudo muito mais seguro do que o sono?
E é fora de dúvida que tudo o que se diz existir no profundo Aqueronte nos acontece real-
mente na vida. Não há nenhum infeliz Tântalo que receie, como é fama, o enorme rochedo sus-
penso nos ares, e esteja paralisado por um medo sem objeto real; é antes na vida que o vão pavor
dos deuses atormenta os mortais: é nela que se temem os acasos que a sorte traz a cada qual.
Nenhumas aves atacam um Títio prostrado no Aqueronte e é certo que não lhe poderiam encon-
trar no vasto peito nada que perscrutassem durante toda a eternidade; embora fosse enorme a
extensão do corpo derrubado e não cobrisse apenas nove jeiras com seus membros despedaçados,
mas todo o orbe terrestre, não poderia, mesmo assim, suportar uma dor eterna, nem dar sempre
alimento com seu próprio corpo.
Mas, para nós, Títio existe aqui: prostrado de amor, dilaceram-no aves, devora-o a ansiosa
angústia ou despedaçam-no os cuidados de qualquer outra paixão. Também na vida e diante dos
olhos temos nós um Sísifo: é aquele que se esforça por conseguir do povo os feixes e os temíveis
machados e sempre se retira vencido e abatido. Efetivamente, procurar o poder, que é sempre vão
e jamais nos é dado, e nisto sofrer sempre um duro trabalho, é o mesmo que fazer subir com esfor-
ço, por um monte acima, um rochedo que, mal no alto, logo rola e rapidamente busca os plainos
de um campo aberto.
Depois, apascentar sempre um espírito de ingrata natureza e enchê-lo de bens sem nunca o
saciar — exatamente como sucede com as estações do ano que voltam de novo trazendo os vários
frutos e as várias alegrias, sem que, no entanto, jamais nos enchamos dos gozos da vida —, eis
o que, segundo me parece, significa o que: dizem das meninas na flor da idade que lançam água
num vaso sem fundo, o qual de modo algum se poderia encher. E o mesmo acontece com o Cér-
bero e as Fúrias, a falta de luz (Lacuna) e o Tártaro que vomita das fauces chamas horríveis. Não
existem em parte alguma nem poderão certamente existir.
É na vida, porém, que existe o grande medo de castigo por causa de grandes malefícios e que
há expiação para o crime; há prisão e o horrível lançamento do alto do rochedo e a flagelação, os
verdugos, o tronco, o pez, as lâminas e as tochas; mesmo que tudo isto esteja ausente, há o espí-
rito consciente do que fez e que, temeroso, se aplica o aguilhão e se abrasa às chicotadas, sem ver
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entretanto que termo possa haver para os seus males ou qual seja o fim dos castigos, antes temen-
do que ainda mais se agravem com a morte. É aqui, na realidade, que a vida dos tolos se torna um
Aqueronte.
Também poderias alguma vez º" dizer-te a ti próprio: “Também o bom Anco fechou os olhos
à luz do dia, ele que era, meu patife, muito melhor do que tu”. Depois morreram muitos outros
reis e poderosos do mundo que governaram grandes povos. E aquele que outrora lançou estrada
sobre o grande mar, abriu caminho às legiões por entre as vagas e as ensinou a ir a pé pelos abis-
mos salgados, e insultante desprezou com os cavalos os rugidos das águas, também ele, privado
de luz, exalou a alma do corpo moribundo.
Cipião, o raio da guerra, o terror de Cartago, deu os ossos à terra como se fosse um escravo
infimo. Junta-lhe os descobridores das doutrinas e das artes, junta-lhe os da comitiva das Helico-
níades; destes, Homero, o único, depois de ter empunhado o cetro repousou com os outros. Final-
mente, Demócrito, depois que a madura velhice ihe mostrou que se retardavam no espírito os
movimentos da memória, de livre vontade foi ao encontro da morte e lhe apresentou a cabeça.
O próprio Epicuro morreu, extinta a luz da vida, ele que superou pelo engenho a condição
humana, e a todos mergulhou na sombra como o sol etéreo, ao nascer, faz às estrelas. E tu ainda
hás de duvidar e ainda te hás de indignar porque vais morrer? Estás ainda vivo e vendo e, no
entanto, a tua vida é morta porque estragas, dormindo, a maior parte do tempo e acordado resso-
nas, não deixas de ver sonhos, trazes a alma atormentada por vãos receios e não podes encontrar
nunca a origem do mal quando, pobre de ti, te perseguem inúmeros cuidados e vagueias, como
flutuando, ao sabor dos erros do teu espírito.
Se os homens pudessem, *? assim como parecem sentir no fundo do espírito uma carga que
os fatiga com seu peso, conhecer quais são as causas que a geram e por que razão tão grande
fardo de desgraça se lhes mantém no peito, não levariam a vida que levam agora, na maior parte,
sem saber o que querem e procurando sempre mudar de lugar como se pudessem, assim, ver-se li-
vres da carga. '
Muitas vezes, aquele que sai de grandes paços, porque se aborreceu de estar em casa, a eles
volta de súbito, por nada haver fora que sinta ser melhor; corre precipitado para a sua casa de
campo, incitando os garranos, como se fosse levar socorro a um incêndio em casa; mas, logo que
passa O limiar, boceja, ou, pesado, se deita a dormir e procura o esquecimento; ou então, a toda
pressa, dirige-se à cidade para a tornar a ver.
Deste modo, cada um foge a si próprio, mas como se vê não lhe é possível escapar-se, e fica
preso à força e odeia, porque, estando doente, não compreende a causa da enfermidade. Mas, se
bem a vissem, todos, abandonando as outras coisas, procurariam conhecer primeiro a natureza,
porque a origem de tudo vem da eternidade, não de uma só hora: e é na eternidade que os mortais
terão de passar todo o tempo que lhes resta após a morte.
E, então, por que tremer tanto em perigos e dúvidas? Que enorme e maléfico desejo de viver
nos subjuga? Há para os mortais um fim de vida certo e próximo; ninguém pode evitar aparecer
diante da morte. Depois, sempre estamos e insistimos no mesmo, e não é por vivermos que nos
surge qualquer novo prazer. Só enquanto está longe o que desejamos nos parece exceder o resto;
depois, logo que o alcançamos, desejamos outra coisa; a mesma sede de vida nos mantém sempre
anelantes.
Também ficamos em dúvida quanto à sorte que nos trará o futuro, que nos dará o acaso ou
quanto ao fim que se aproxima. Não é por prolongarmos a vida que diminuímos num mínimo que
seja o tempo da morte; não podemos tirar nada que nos faça escapar do aniquilamento. Podes,
*' Para nos ajudar no passo da morte, Lucrécio lembra todos os grandes homens que morreram já antes de
nós, o que é fregiiente na literatura do gênero. A alusão ao rei que estabeleceu uma estrada pelo mar é feita
a Xerxes I, rei da Pérsia que, partindo ao ataque da Grécia, na segunda guerra médica (século V a.C.), atra-
vessou 0 Helesponto por duas grandes pontes.
*2 No fim do Livro, Lucrécio quer afirmar com toda clareza que o medo da morte ou o desagrado que se
possa ter da vida não são mais do que o resultado da ignorância; o conhecimento da natureza das coisas, o
poder de contemplar tudo quanto existe com uma segura ciência, o dominar, por lhe ter penetrado no mais
íntimo, a lei do Universo, garantem a paz na existência, garantem uma vida animada pela idéia de beleza da
hora presente e não esmagada, torturada pelo terror da morte. É por este ponto que se tem feito uma aproxi-
mação entre a filosofia de Epicuro e de Espinosa; mas escusado será dizer que o pensador de Amsterdam,
apesar de determinista, não caiu em nenhuma das ingenuidades filosóficas de Epicuro; e é bem provável que
o sentido último da sua atitude quanto à ciência, vida e morte, seja muito diferente do que davam à sua os
adeptos do epicurismo.
DA NATUREZA 85
portanto, durante o tempo da vida, enterrar quantas gerações queiras; nem por isso a morte ficará
menos eterna: não existe menos aquele que hoje vê o termo da vida do que outro que já morreu
há muitos meses, há muitos anos.
LivRO IV
Percorro as regiões desviadas das Piérides, º* que ninguém trilhou antes de mim.
É bom ir às fontes virgens e beber, é bom colher flores desconhecidas e com elas trançar para
a minha fronte coroa insigne, qual nunca a ninguém a puseram as Musas. Primeiro, porque te en-
sino importantes assuntos e procuro libertar-te o espírito dos apertados nós religiosos; depois,
porque sobre um tema obscuro vou compondo tão luminosos versos, a tudo tocando com a graça
das Musas.
Isto mesmo parece perfeitamente justificado: assim como os médicos, quando tentam dar às
crianças o repugnante absinto, primeiro passam no bordo da taça loiro, fluido e doce mel, de
modo que, pela idade imprevidente e pelo engano dos lábios, tomem a amarga infusão de absinto
e, não significando este engano prejuízo, possam deste modo readquirir a saúde, assim também
eu, como esta doutrina parece muito desagradável a quem a não tratou, e foge diante dela, horro-
rizado, o vulgo, quis, em verso eloquente e harmonioso, expor-te as minhas idéias e ungi-las, por
assim dizer, do doce mel das Musas; a ver se por acaso posso manter o teu espírito encantado
com meus versos, enquanto penetras toda a natureza e lhe sentes a utilidade.
Mas, como ensinei º * quais são os elementos primordiais das coisas, como distantes pela
variedade de formas, voejam por sua livre vontade, levados por um etemo movimento, e de que
modo se pode qualquer coisa criar a partir deles; como ensinei também qual é a natureza do espí-
rito, de que elementos é formada, como convive com o corpo, e de que modo, quando separada,
volta aos elementos primitivos, agora começarei a expor-te o que intimamente se liga a todos estes
assuntos, isto é, O que são as coisas a que chamamos simulacros dos objetos.
São eles como películas arrancadas da superfície dos objetos e que voejam de um lado e
outro pelos ares; indo ao nosso encontro quando estamos acordados, aterram-nos o espírito, exa-
tamente como em sonhos, quando muitas vezes contemplamos figuras espantosas e imagens
daqueles que já não têm luz; são elas que muitas vezes nos arrancam cheios de horror ao sono em
que repousávamos; ora, não vamos acreditar que as almas fogem do Aqueronte ou que espectros
voejam entre vivos, ou que alguma coisa de nós pode ficar depois da morte, visto que O corpo e
a substância da alma, aniquilados ao mesmo tempo, se dispersam nos seus elementos respectivos.
Digo, pois, que são emitidos dos objetos, * * da superfície dos objetos, efígies e leves represen-
tações desses mesmos objetos; deveria dar-se-lhes o nome de películas ou de cascas, visto que têm
83 O prólogo que aparece nos manuscritos é reproduzido, quase sem modificações, dum trecho do Livro 1;
duas hipóteses são possíveis para explicar a repetição: uma, a de que o próprio poeta o tivesse posto como
prefácio provisório, incerto sobre o lugar que melhor caberia ao texto na elaboração geral do poema; a
segunda, a de que um leitor tivesse feito a cópia, de modo a equilibrar o Livro IV com os outros. De qualquer
modo, dão-no neste lugar os dois manuscritos mais importantes, O, já citado, e Q (= Quadratus, Vossianus,
Q. 94, Leyde). :
84 Ao prólogo segue-se, como de costume, o argumento do Livro: Lucrécio anuncia que tratará dos simu-
lacros dos objetos e das visões aterrorizadoras que eles podem provocar nos espíritos não preparados pela
sólida doutrina.
55 A afirmação de que da superfície dos objetos se desprendem figuras, imagens sutis, películas, apóia-se
numa tentativa de prova por analogia: o fumo, o calor das chamas, a pele velha das serpentes, a cor dos tol-
“dos no teatro; os elementos que compõem essas imagens são, segundo Lucrécio, muito mais sutis, muito
mais delicados do que aqueles que constituem os próprios corpos. A teoria não é tão extravagante como
pode parecer à primeira vista e facilmente se poderia traduzir em termos modernos; para a visão, por exem-
plo, cada objeto se comporta como se dele se desprendesse a cada momento uma carapaça de ondas que
reproduzem, pelos seus vários comprimentos, os acidentes de cor do objeto.
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88 LUCRÉCIO
a forma e o aspecto do corpo de que são imagens, daquele mesmo de que emanam para errarem
no espaço. Pelo que vou expor, será possível, mesmo a um espírito obtuso, compreender isto.
Primeiro, porque muitos objetos emitem elementos abertamente, uma parte em solução difu-
sa, como a lenha quando emite o seu fumo ou a chama quanto ao seu calor, e parte mais cerrada
e condensada, como às vezes as cigarras quando abandonam por causa do calor as suas túnicas
redondas, é como os vitelos quando deitam ao nascer películas da superfície do corpo; e também
como a serpente escorregadia despe o seu vestuário entre os espinhos, o que faz que vejamos as
moitas enriquecidas por seus despojos que esvoaçam; ora, como isto se dá, também deve uma
tênue imagem ser emitida pelos corpos da sua superficie exterior.
Não há nenhuma possibilidade de aceitar mais facilmente que se desprendam dos corpos as
coisas de que falei do que aquelas que são tênues, sobretudo porque à superfície há muitos ele-
mentos diminutos, que podem ser lançados na mesma ordem em que estavam e conservar a figura
da forma, e isto tanto mais facilmente auanão menos podem ser impedidos, visto estarem coloca-
dos mesmo à frente.
Efetivamente, vemos muitos objetos emitir e lançar não só o mais profundo e íntimo de si
próprio, como já dissemos antes, mas até mesmo parte da sua superficie e a própria cor. É isto o
que fazem vulgarmente os toldos amarelos, vermelhos e verdes, quando, estendidos nos grandes
teatros, ondulam drapejando pelos mastros e pelas traves: por baixo deles, todo o público sentado
nos degraus, todo o adorno da cena e as estátuas dos deuses e das deusas se tingem e são levados
a tomar a sua cor flutuante; e, quanto mais restrito é o âmbito do teatro, tanto mais todos os obje-
tos, na rarefeita luz do dia, sorriem nesta graça difusa.
Portanto, se os toldos emitem cor da superfície, também quaisquer outros objetos devem
emitir tênues imagens, visto que num caso e noutro é da superfície que elas são lançadas. Existem,
por conseguinte, imagens fiéis dos objetos, as quais voejam por um lado e outro, formadas como
são de um sutil material e não podem ser vistas quando tomadas em separado.
Além de tudo, se o odor, o fumo, o calor e as outras coisas semelhantes se dispersam ao sair
dos objetos, é que, ao virem dos íntimos lugares em que nasceram, separam-se por causa das
sinuosidades do caminho, visto não encontrarem estradas retas que lhes sirvam de saída ao
pretenderem escapar logo que se formam. Mas, pelo contrário, quando é emitida a leve membrana
duma cor de superfície, nada há que a possa dilacerar, visto que, por estar colocada na frente, tem
seu caminho livre.
Finalmente, todas as imagens que nos aparecem nos espelhos, na água, em toda a superficie
brilhante, têm fatalmente que ser como imagens emitidas dos próprios objetos, visto apresentarem
um aspecto idêntico. Existem, por conseguinte, imagens sutis dos objetos e efigies semelhantes a
eles, as quais ninguém pode ver em separado, e que todavia se tornam visíveis, quando repelidas
fregiientemente, continuamente, pela superfíci: dos espelhos; e de nenhuma outra maneira se
poderia explicar como se conservam de tal forma que sejam capazes de reproduzir figuras seme-
lhantes a cada objeto.
E, agora, aprende quão tênue ê a substância de cada imagem, porque os elementos estão tão
abaixo dos nossos sentidos e são tão mais pequenos do que os objetos que os nossos olhos come-
çam a não poder distinguir; e, para confirmar isto, ouve em poucas palavras como são sutis os
elementos das coisas.
Primeiro, há animais tão pequenos que, partidos em três, sua terça parte já não se pode ver
de modo algum. Como se lhes há de imaginar o intestino ou qualquer coisa de semelhante? Que
será o coração ou o olho? Que serão os membros? E as articulações? Como tudo há de ser peque-
nino! E que havemos de dizer daqueles elementos de que fatalmente lhes há de ser formada a .
alma e a substância do espírito? Não vês como são sutis e diminutos? Depois há todas as coisas
que exalam do seu corpo um cheiro penetrante, a panacéia, o repugnante absinto, os desagra-
dáveis abrótonos, a terrível centáurea; se por acaso segurares numa qualquer, mesmo de leve,
como não hás de reconhecer que numerosas imagens dos objetos vagueiam de inúmeras maneiras,
sem força alguma e imperceptíveis aos sentidos?
Mas não julgues que só eles vagueiam, º º esse tais simulacros das coisas que das coisas pro-
vêm. Há também outros que se geram espontaneamente e por si próprios se apresentam neste céu
a que chamamos ar. Formados de maneira numerosa, levantam-se no alto e não deixam de mudar
56 A . 2 . .
Além dos simulacros que se desprendem dos corpos, há a considerar outra categoria, a dos que se for-
mam espontaneamente pelo espaço, devido, segundo crê, ao encontro fortuito de átomos apropriados à à fun-
ção, ou à modificação de simulacros que primitivamente correspondiam a objetos.
DA NATUREZA 89
de aspecto, maleáveis, e de se transformar noutras figuras de toda espécie: como as nuvens que de
quando em quando facilmente vemos acumular-se nas alturas e acariciando o ar com seu movi-
mento violar o sereno aspecto do céu; muitas vezes parecem voar faces de gigantes arrastando
vastas sombras, outras vezes avançar grandes montes e rochedos arrancados dos montes; passam
diante do sol e depois vêm monstros que arrastam e atraem a si outras nuvens.
Agora, quanto ao fato º” da facilidade e da rapidez com que continuamente estas imagens
correm das coisas e caindo avançam, (Lacuna) sempre há alguma coisa nos corpos, à superfície,
que escapa e donde elas são lançadas. Quando chegam a corpos rarefeitos, atravessam-nos, como
principalmente no vidro; mas se chegam a rochedos àsperos ou à substância da madeira, já aí se
dispersam de modo que não podem produzir qualquer imagem.
Mas quando se lhes opõem substâncias brilhantes e compactas, como sobretudo o é um espe-
lho, nada disto acontece; efetivamente, nem podem atravessar, como no vidro, nem por outro
lado, dispersar-se; salva-as o polido de que falamos; é por isso que acontece que de lá as imagens
a nós voltem. Sempre que puseres um objeto, qualquer que ele seja, diante de um espelho, sempre
aparece a imagem, mesmo que o faças num momento e seja em que tempo for; isto é para que sai-
bas que da superficie dos corpos continuamente fluem tênues contexturas, figuras tênues.
Portanto, muitos simulacros se geram num breve espaço, de tal forma que sem dúvida se lhes
pode dar à origem o nome de rápida. E assim como o sol, em breve espaço, deve enviar numero-
sos raios para que sempre todas as coisas deles estejam cheias, assim também é necessário, por
igual razão, que num instante sejam trazidos dos corpos numerosos simulacros desses corpos e de
muitas maneiras e para todas as partes; sempre que miramos um espelho, aí aparecem as coisas
com forma e cor idênticas.
Além disso, e embora há pouco fosse limpíssimo o aspecto do céu, de repente tudo se per-
turba horrivelmente, de tal modo que se julgaria que as trevas abandonaram todas o Aqueronte e
encheram as grandes abóbadas do céu, tão negra é a noite que desce das nuvens, tão grande a
ameaça da face negra do Terror por cima de nós. E ninguém pode dizer que pequena parte destes
objetos é a sua imagem; ninguém pode explicá-lo por palavras.
Vê agora com que rápido movimento são levadas estas imagens e que mobilidade lhes é dada
quando atravessam vogando os ares, de maneira a percorrerem rapidamente um longo espaço,
qualquer que seja o lugar a que tendam por diversa vontade: vou expô-lo em versos mais harmo-
niosos que abundantes, tal como o breve canto do cisne é melhor do que o clamor dos graus dis-
persos pelas etéreas nuvens do Austro.
Primeiro é conveniente ver que os corpos leves e compostos de elementos diminutos são, na
maior parte das vezes, rápidos. À este grupo pertencem a luz do sol e seu calor, visto serem feitos
de elementos diminutos que vão, por assim dizer, empurrados uns pelos outros e não hesitam,
abalados pelos choques sucessivos, em atravessar o intervalo do ar. Efetivamente, a luz se sucede
logo à luz e o fulgor é estimulado por outro fulgor como por um aguilhão.
É necessário, portanto, que de igual modo os simulacros possam percorrer um espaço enor-
me num só momento, primeiro porque são pequenos, depois porque há por detrás uma causa que
os empurra e impele, o que é quase de sobejo quando são levados por tão veloz leveza, depois
ainda porque são emitidos com uma tessitura tão rarefeita que podem facilmente penetrar seja no
que for e, por assim dizer, fluírem pelo intervalo do ar.
Além disto, se os corpúsculos mais profundos e íntimos dos corpos são lançados para fora,
como a Iluz do sol e o calor se vêem num momento espalhar-se por todo o âmbito do céu, voar
pelo mar e pelas terras e inundar o firmamento, que não sucederá com aqueles que já estão prepa-
rados mesmo na frente, quando são lançados sem que nada lhes retarde a emissão? Não vês que
devem ir mais rápido e mais longe e que no mesmo tempo devem percorrer uma distância muito
maior do que aquela que transpõem no céu os raios do sol?
87 Os simulacros produzem-se continuamente, tal como no exemplo das ondas para a visão (descontados os
intervalos quânticos), sao refletidos pelos espelhos ou superfícies que se comportam como espelhos, deslo-
cam-se com grande velocidade, quase instantaneamente (argumento das estrelas refletidas no espelho) e
todos os corpos os emitem, de modo a impressionarem a todos os sentidos. Para muitos historiadores da filo-
sofia tem sido um ponto obscuro o pensamento epicurista quanto a determinar-se por que razão certos simu-
lacros impressionam os olhos, outros o ouvido, outros o tato; não há realmente nenhum texto de Epicuro
sobre o assunto; mas bastaria imaginar uma diferença de estrutura dos simulacros e um critério de receptivi-
dade dos sentidos, conforme referências de Lucrécio; do mesmo modo se compreende hoje que não sejam os
olhos sensíveis ao infravermelho, por exemplo, que é no entanto da mesma natureza fundamental da luz visí-
vel, mas com outro comprimento de onda.
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Há também entre os principais, segundo parece, uma prova convincente de quão rápido é o
movimento com que são levados estes simulacros: se se colocar ao ar livre um espelho de água,
imediatamente os astros serenos do céu estrelado se refletem na água como luzeiros do mundo.
Não vês, por conseguinte, em que instante a imagem vem das regiões do céu às regiões da terra?
Por isso e ainda uma vez, é necessário aceitar que há .elementos admiráveis que ferem os
olhos e provocam a visão. De certos corpos fluem perpetuamente os cheiros, como o frio dos rios,
o calor do sol, e das ondas do mar a salsugem que rói os paredões ao longo do litoral. Não deixam
variadas vozes de esvoaçar no vento.
Finalmente, quando estamos junto do mar, vem-nos à boca muitas vezes uma umidade com
sabor de sal, e atinge-nos o amargor quando vemos preparar diante de nós uma solução de absin-
to. Portanto, é fora de dúvida que de todos os corpos saem coisas, sejam elas quais forem, e que
são levadas para todos os lados, sem que haja neste fluir qualquer descanso ou demora, visto que
os sentimos sempre e é sempre possível tudo ver, cheirar e ouvir.
Além disso, manuseando um objeto nas trevas, podemos reconhecer que é o mesmo que
vemos à límpida claridade do dia: é forçoso concluir que uma causa semelhante provoca o tato e
a visão. Portanto, se apalpamos nas trevas um objeto quadrado e temos a impressão de um qua-
drado, que poderá ser aquilo que nos parece um quadrado à luz do dia senão a sua imagem?
Parece que é nestas imagens que há uma causa de visão e que sem elas nada pode ser visto.
Ora, os simulacros de corpos de que eu falo são levados para todos os lados e são lançados dividi-
dos para todos os pontos; mas, como nós só podemos vê-los com os olhos, é por isso que todos
os objetos se nos apresentam com forma e cor somente do lado a que nos voltamos.
Também é a imagem que faz ?º que vejamos e permite conhecer a distância a que cada objeto
está de nós. Ffetivamente, quando é emitida, imediatamente empurra, expulsa o ar que está entre
ela e os olhos; este ar escorrega todo pelos nossos olhos, banha as pupilas e assim passa. É por
isso que vemos a distância a qué está cada objeto. Quanto mais ar se agita por diante, quanto
mais longo é'o sopro que banha: os nossos olhos, tanto mais se vê o corpo como colocado ao
longe. Sem dúvida, tudo isto se'passa de uma forma rapidíssima, visto que vemos ao mesmo
tempo qual é ê o objeto ea que distância está.
Nestás: coisas, é. necessário não ter como espantoso que os simulacros que ferem os nossos
olhos não possam ser vistos em separado e que se distingam os próprios corpos. Do mesmo modo,
quando O' vento nos fere e quando: corre o áspero frio, não costumamos sentir as partículas isola-
das do vento é do frio: vem tudo de uma vez e vemos que sucede como se alguma coisa viesse dar
pancadas no nosso' corpo, provotando a sensação de um objeto externo. Por outro lado, quando
tocamós uma pedra com o dedo; a superfície da pedra, a sua cor externa que'nós tocamos; mas
não é ela que nos produz a sensação tátil: o que sentimos é a própria dureza interna, profunda, da
pedra. Rs
“Agora, aprende *º por que motivo se vê a imagem para além do espelho, porque certamente
a vemos recuada e profunda. Acontece o mesmo com as coisas que realmente se vêem fora, quan-
do uma porta aberta oferece uma visão livre e permite que se veja de dentro o que está fora. Tam-
bém aqui a visão se dá em virtude de o ar estar em duas camadas, em camada dobrada.
” Primeiro, para dentro da porta, vê-se uma camada de ar, depois à direita e à esquerda
seguem-se as ombreiras da porta, em seguida a luz externa inunda os olhos e logo outra camada
dear e as coisas que na realidatie se vêem lá fora.
O mesmo acontece com à imagem que se projetou no espelho e que vindo ao encontro dos
nossos olhos empurra e põe em movimento o ar que se encontra entre ela e os olhos e faz que a
sintamos a ela antes do espelhô. Mal percebemos, por sua vez, o próprio espelho e imediatamente
*º Para Lucrécio, a noção de espaço físico é dada pela quantidade de ar interposta entre o objeto e os olhos;
o simulacro empurra o ar e a quântidade maior ou menor que passa pelos olhos dá a idéia da distância; em
parte alguma aparece hipótese de:scomodação muscular.
99 A teoria do espelho que Lucrécio- apresenta é a do ponto luminoso com imagem virtual, em espelhos pla-
nos. À noção de distância, para látdo espelho, é dada, segundo o poeta, pela coluna de ar que o simulacro do
objeto empurra do espelho ao objeto, na reflexão, e que se acrescenta à coluna de ar que já empurrara o
simulacro do próprio espelho; as: duas, juntando-se, dão o dobro da distância do objeto ao espelho; por
consequência, a imagem aparece para lá do plano do espelho. O processo psicológico de reconstituição, que
parece evidente em todo o fenômeno, não entra no raciocínio de Lucrécio. A explicação da simetria é das
mais engenhosas do poema. Quanto às imagens que se podem sobrepor aos objetos, o texto é muito incerto
para que se possa assentar em qualquer. conclusão: parece, no entanto, que se trataria de espelhos côncavos,
semicilíndricos, formados de pequenos espelhos planos justapostos. (Ernout e Crouslé.)
DA NATUREZA... 9]
uma imagem vinda de nós chega a ele e, refletida por ele, volta atê nossos olhos; e como no seu
percurso ela descola outra camada de ar que nos faz ver em seguida, parece-nos assim recuada
além do espelho, em sua distância exata. Por isso nada há de espantoso em que da superfície dos
espelhos saia uma visão a igual distância, visto que ela nos aparece em virtude de uma dupla ca-
mada de ar.
Quanto ao fato de que a parte direita do nosso corpo apareça nos espelhos como sendo a
esquerda, isso acontece porque, ao bater a imagem na superfície do espelho, não é refletida tal
qual, mas leva uma volta de diante para trás, exatamente como se, ao atirarmos uma máscara de
gesso, antes de estar seca, contra um pilar ou uma trave, ela imediatamente, conservando na frente
a figura intata, se lançasse logo para trás. Sucederia que onde antes estivera o olho direito apare-
cesse agora o esquerdo e, por seu turno, do esquerdo surgisse o direito.
Acontece também que uma imagem seja passada de espelho a espelho de modo que chegue
a acontecer que haja cinco e até seis simulacros: efetivamente, todas as coisas que estejam escon-
didas lá para trás, bem no interior, podem, todavia, embora estejam afastadas e desviadas, ser
levadas inteiras, por caminhos angulosos, e aparecer nos vários espelhos como se lá estivessem.
Tanto é certo que a imagem se reflete de espelho a espelho e que, apresentada à esquerda, logo
fica como se fosse à direita, depois volta de novo para trás e se converte no que era.
Mas, se existem espelhos facetados que sigam curvas semelhantes às dos nossos flancos,
refletem-nos então simulacros direitos em relação a nós, ou porque a imagem passa de espelho a
espelho e daí a nós vem ter depois de dar duas voltas, ou então porque ao vir gira sobre si própria,
visto que o feitio curvo do espelho a ensina a desse modo se dirigir a nós.
Depois, se parece que os simulacros avançam, pôem o pé como nós € imitam o gesto, é por-
que, logo que saímos duma parte do espelho, deixa ela imediatamente de nos enviar simulacros;
efetivamente a natureza obriga todas as coisas a refletir-se, a ressaltar segundo os mesmos ângu-
los com que foram recebidas.
Fogem os olhos aos brilhos vivos e evitam contemplá-los; também cega o sol se se tenta
olhá-lo de frente, visto ser grande a sua força e adquirirem peso os simulacros ao cair de cima,
através do ar puro; ferem os olhos e perturbam os elementos que os compõem. Além disso, todo
esplendor demasiado vivo sempre abrasa os olhos, visto que possui numerosos elementos de fogo
que produzem dor ao introduzirem-se neles.
Tudo aquilo que contemplam 8º os que têm icterícia se torna amarelo, porque numerosos ele-
mentos do amarelo, saindo do corpo deles, vão ao encontro dos simulacros das coisas, e porque
têm nos olhos, misturados por toda parte, muitos elementos que tudo tingem de amarelo ao seu
contato.
Vemos, das trevas, tudo o que está na luz, porque mal o negro ar da escuridão que estava
mais perto penetra e ocupa os nossos olhos sem defesa; imediatamente se segue um ar brilhante,
incandescente, que é como se os limpasse e dispersasse as negras sombras daquele ar; efetiva-
mente ele é de maior mobilidade nas suas numerosas partículas, mais sutil e mais poderoso.
Logo que ele enche de luz os caminhos dos olhos e abre aqueles que antes obstruía o ar escu-
ro, imediatamente o seguem os simulacros das coisas que estão colocadas na luz e por aí fazem
que as vejamos. Pelo contrário, não podemos fazer o mesmo da luz para as trevas, visto que 0 ar
de escuridão que está atrás dele e que se lhe segue é mais espesso, enche todos os orifícios e ocupa.
os caminhos dos olhos, de maneira que não se pode mover nenhum simulacro lançado por qual-
quer coisa.
Quando vemos ao longe as torres quadradas duma cidade, acontece que muitas vezes as per-
cebemos redondas, visto que todo ângulo percebido de longe parece obtuso ou atê mesmo não se
vê e perde o seu efeito, sem que aos nossos olhos chegue qualquer impressão; efetivamente, os
simulacros, ao serem levados pelo ar, ficam muito fracos, em virtude dos choques frequentes com
o mesmo ar. Assim, todo ângulo escapa aos nossos sentidos e todas as estruturas de pedra apare-
cem como se tivessem sido passadas no torno, não porque efetivamente e verdadeiramente sejam
redondas, mas porque as formas surgem como que diluídas numa penumbra.
Parece igualmente que a nossa sombra conosco se move ao sol e que nos segue os passos e
8º A observação de Lucrécio sobre a visão dos doentes de icterícia levá-lo-ia, se a tivesse explorado, a
admitir um papel ativo e não simplesmente passivo dos órgãos da visão; o mundo seria o resultado das
inter-relações de sujeito e objeto, de observador e observado; ir-se-ia até ao ponto de um e outro aparecerem
como simples aparências, sem que se pudesse determinar a coisa em si, De resto, a visão do murido que
Lucrécio devia ter era realmente essa, porque para ele tudo resultava da interação de átomos que eram, por
exemplo, sem cor nem som.
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92 LUCRÉCIO
nos imita o gesto; não se creia, porém, que possa andar um ar privado de luz e que ele siga os
movimentos e os gestos dos homens: de fato, aquilo que nós costumamos considerar sombra nada
pode ser senão ar privado de luz. Não há nisto nada de admirável, porquanto a terra, em lugares
certos e por determinada ordem, é privada da luz do sol pelos caminhos que seguimos, dela se
enche logo que os abandonamos; por isso parece que aquilo que foi a sombra do corpo nos vai
seguindo de um para outro lado. Efetivamente, sempre se derramam novos raios de luz e desapa-
recem os primeiros como lã que se fosse deitando ao lume. Por isso facilmente a terra se despoja
de luz e dela se enche e de si lava as negras sombras.
Todavia, de nenhum modo *! concedemos que se enganem os olhos. De fato, é função deles
distinguir onde está a luz e a sombra; mas se a luz ou as sombras são as mesmas que anterior-
mente havia num ponto e que passaram para outro, ou se antes tuda sucede como já dissemos,
isto é o que deve discernir o raciocínio do espírito, visto que os olhos não podem conhecer a natu-
reza das coisas: não se deve, portanto, atribuir aos olhos o erro do espírito.
O navio em que somos transportados move-se e parece estar parado; e aquele que fica no
ancoradouro julgamos nós que avança. As colinas e os campos parecem fugir-nos pela popa
quando passamos perto, de navio, levados pelo vôo das velas. As estrelas parecem estar todas
fixas nas abóbadas do ar e todas elas são levadas em contínuo movimento; todas elas tornam a
ver, depois de nascerem, o poente longínquo, quando já mediram com seu corpo brilhante o céu
inteiro. Do mesmo modo, segundo parece, permanecem o sol e a lua nas suas posições, quando é
certo que os fatos nos indicam que eles se movem. Vistos de longe, os montes que surgem do meio
do abismo e que dão entre si passagem livre e grande para esquadras, parecem todavia formar
juntos apenas uma ilha.
Parece que os átrios vacilam e que as colunas vão de roda à volta das crianças, quando elas
próprias deixam de girar, e de tal modo que lhes é difícil não crer que toda a casa lhes vai cair em
cima.
Quando a natureza principia a levantar ao alto e a fazê-lo subir acima dos montes o rubro
facho de trêmulos raios, parece que esses montes sobre os quais está o sol e que ele próprio, tocan-
do-os de perto, abrasa, ardendo, com seu fogo, não estão a mais de duas mil flechadas, não estão
a mais de quinhentos tiros de azagaia; mas entre eles e o sol encontram-se os imensos plainos do
mar que se estendem sobre a grandeza das plagas celestes e os muitos milhares de terras que habi-
tam os variados povos e as gerações dos animais bravios.
No entanto, uma poça de água que não tem mais que um dedo de profundidade e que se
forma entre as pedras sobre o pavimento das nossas estradas mostra. quando a olhamos um tal
abismo pela terra adentro quanto o espaço enorme que vai da terra ao céu; dá-nos a impressão de
que lá podemos ver as nuvens e ver o céu e ver, milagrosamente escondidos por debaixo das ter-
ras, todos os corpos que nesse céu existem.
Finalmente, quando o nosso fogoso cavalo pára no meio dum ric;, e nós olhamos para as rá-
pidas águas da corrente, parece que o corpo do cavalo, que está parado, é levado contra a corren-
te, como se uma força o arrastasse para o lado contrário com toda violência; e, para todos os pon-
tos a que lançamos os olhos, nos parece que tudo é levado, que tudo flui exatamente do mesmo
modo.
Um pórtico sustentado de uma extremidade à outra por colunas paralelas, e todas ao mesmo
nível, parece, todavia, quando o vemos todo de uma das extremidades, ser levado a tomar a incli-
nação dum cone alongado, juntando o telhado com o solo, o lado direito ao lado esquerdo, até se
dirigir inteiramente à ponta invisível do cone.
No mar, parece aos marinheiros que o sol sai das ondas e às ondas se dirige, nelas escon-
dendo a sua luz; é porque não vêem nada mais que não seja água e céu; não se creia, porém, levia-
namente, que por toda parte sejam enganados os nossos sentidos. Aqueles que são ignorantes do
mar parece que os navios ancorados no porto têm partidas as obras mortas e se afundam na água:
efetivamente, toda a parte dos remos que está acima da água salgada é direita e direito é também
o leme na sua parte superior; tudo, porém, que mergulha no líquido parece quebrado: é dobrado,
virado debaixo para cima e vem refletido flutuar quase à superfície das águas.
Quando, de noite, os ventos levam pelo céu as nuvens rarefeitas, vêem-se os astros esplendo-
8? No trecho em que arquiva várias ilusões de óptica, inclina-se Lucrécio para a afirmação de que se trata
não de um erro dos sentidos mas sim do intelecto; como consegiiência, devia dizer que todo fato é uma teo-
ria, O que punha por terra a sua idéia do conhecimento em si e, mais largamente, toda a construção
materialista.
DA NATUREZA - 93
rosos ser arrastados ao encontro das nuvens e passar por cima delas, numa direção completa-
mente contrária àquela em que verdadeiramente são levados.
E se, por acaso, a nossa mão, colocada por cima de um dos olhos, o aperta, acontece, não
sei por que sensação, que, ao olharmos, vemos tudo que olhamos desdobrando-se em dois: duas
luzes florescem nas chamadas das tochas, um duplo mobiliário se desdobra pelo interior das
casas, duplas são as faces dos homens e duplos os corpos.
Finaimente, quando o sono atou os membros com um brando torpor e o corpo jaz inteira-
mente numa suprema quietação, então nos parece que estamos acordados e que movemos os nos-
sos membros; pensamos, nas cegas trevas da noite, ver o sol e a luz diurna e, num lugar fechado,
mudarem-se o céu, o mar, Os rios e os montes, € parece-nos passar a pé pelos campos e ouvir os
sons, embora por toda parte haja apenas o severo silêncio da noite; estando calados, parece que
falamos.
Vemos muitas outras coisas da mesma espécie admirável, que são como se procurassem
todas elas quebrar a fé que temos nos sentidos; mas em vão, porque a maior parte de tudo isto
apenas nos engana por causa das opiniões de espírito que nós próprios juntamos, de maneira a
fazer-nos ver aquilo que de fato os nossos sentidos não viram. Efetivamente, nada é mais difícil
do que distinguir as coisas verdadeiras das duvidosas que o nosso espírito por si mesmo junta.
Finalmente, se há aí alguém *? que julgue nada saber, isto mesmo ele ignora, se pode saber,
visto que diz nada saber. Portanto, não me darei ao trabalho de discutir com ele, visto que resol-
veu trocar a cabeça pelos pés. Todavia, concederei que sabem alguma coisa, com a condição de
lhes perguntar, visto nada terem encontrado de verdadeiro nas coisas, donde lhes vem o saber que
- sabe que sabe ou que não sabe, que fato deu sinal do verdadeiro e do falso, que fato prova distin-
guir-se o duvidoso do seguro? ,
Descobrir-se-á que é pelos sentidos que primeiro se revela a nós o sinal da verdade e que os
sentidos não se podem refutar. Efetivamente, deve-se aceitar com mais fé aquilo que espontanea-
mente pode fazer que o verdadeiro triunfe sobre o falso. Ora, que pode merecer maior fé do que
os sentidos? Por acaso poderá a razão depor contra eles, quando é falsa a sensação, ela que intei-
ramente nasceu dos sentidos? Se eles não são verdadeiros, também a razão se torna inteiramente
falsa. Ou poderão os ouvidos retificar os olhos ou o tato ou os ouvidos? Acaso o gosto conven-
cerá de erro o tato, acaso o nariz refutará, acaso vencerão os olhos? Claro que não, segundo o que
penso.
Efetivamente, o poder está dividido entre todos e tem cada um a sua força; torna-se, portan-
to, necessário que haja um sentido próprio para o que é mole, outro para o que é gélido e fervente,
e que outros sintam as várias cores dos corpos e vejam tudo aquilo que se relaciona com as cores.
Do mesmo modo, tem o sabor a sua própria força e por si mesmo nascem os odores, por si pró-
prios os sons. É, portanto, de concluir que não podem os sentidos corrigir-se uns aos outros; não
poderão também ter mais verdade um que outro, visto que os devemos considerar dignos de fé a
todos por igual. Por conseguinte, é verdadeira toda sensação que eles têm em qualquer momento.
E, se a razão não pode determinar a causa pela qual aquilo que de perto é quadrado de longe
se vê redondo, é ainda melhor, dado o desconhecimento da razão, dar uma explicação imperfeita
de ambos os aspectos do que deixar sair das mãos aquilo que é seguro, infringir a fé que mais se
deve e abalar por inteiro os alicerces em que se apóiam a salvação e a vida. De fato, não é só a
razão que ruiria; também a própria vida cairia imediatamente se se ousasse não acreditar nos sen-
tidos e não evitar os precipícios e as outras coisas do mesmo gênero a que se tem de fugir,
seguindo aquilo que lhes é contrário. Tém, portanto, de se considerar como vã toda a massa de
palavras que nos aparece preparada, formada contra os sentidos.
Finalmente, se uma construção se começa com uma régua torta, se o esquadro enganador se
afasta de uma linha reta, se o nível em algum ponto falha por pouco que seja, é fatal que tudo
82 O que Lucrécio diz das ilusões dos sentidos prestava-se naturalmente ao ataque dos céticos, que conclui-
riam pela impossibilidade de toda a ciência; Lucrécio responde-lhes pelo argumento, tanta vez repetido sob
uma ou outra forma na história da filosofia, de que, se nada se sabe, nem se pode saber se se sabe, isto é, de
que, se se diz que não se pode saber, uma afirmação se fez, a de que alguma coisa se pode saber; o ceticismo
foi, portanto, abatido pela base. Nem Lucrécio nem nenhum dos autores antigos que usaram do argumento
faz referência ao problema lógico que consiste em saber se a proposição “nada se pode saber” ou“toda
proposição é falsa” é da categoria das “sobre si próprias” ou das “que se aplicam a si próprias”; no entanto,
só no segundo caso o argumento será legítimo. (McTaggart.)
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94 LUCRÉCIO
fique errado e de través, malfeito, deitado, inclinado para a frente, deitado para trás, com os telha-
dos discordantes, de tal modo que tudo parece querer cair, e cai, traído pelos primeiros cálculos
errados; do mesmo modo, também o raciocínio sobre os corpos sairá errado e torto se por acaso
nasce de erradas sensações. Vejamos agora de que maneira cada sentido tem as suas próprias
impressões: a razão não é dificil de encontrar.
Primeiro, ouvem-se sons ºº? e todas as vozes quando se insinuam nos sentidos e provocam a
sensação abalando os órgãos. Tem de se aceitar que são corpóreos a voz e o som, visto que podem
abalar os sentidos. Além disso, a voz raspa a garganta e muitas vezes um grito ao passar faz sal-
tar fora os canais por que passa; efetivamente, a multidão dos elementos da voz, agrupando-se em
grande número e começando a sair, fere, obstruindo-a,.a abertura da boca. Não é, portanto, duvi-
doso que os sons.e as palavras constem de princípios corpóreos: de outro modo não poderiam
ferir.
Não te passou também despercebido o que leva do corpo, o que arranca dos nervos e das for-
ças dos homens uma conversa contínua levada desde o brilho da aurora que surge até a sombra
da escura noite, principalmente quando falamos com grande clamor. É necessário, por conse-
guinte, que a voz seja de natureza corpórea, visto que falando muito se perde uma parte do corpo.
" Vem, então, a aspereza da voz da aspereza dós elementos e a suavidade da suavidade surge.
Não são iguais pela forma os elementos que penetram nos ouvidos quando a tuba de som grave
muge num murmáúrio opresso e rouca reboando bárbara ressoa, ou quando os cisnes levantam
acima das fortes torrentes do Helicão a lúgubre voz em suas claras queixas.
No momento em que fazemos sair do corpo estes sons e os lançarnos direitos pela boca, arti-
cula-os em palavras a língua sua obreira, e os conforma ajudada em parte pelos lábios. E por isso
que, se a voz nos chega a uma distância não muito grande do ponto de que partiu, é fatal que as
próprias palavras sejam ouvidas claramente e se lhes distinga a articulação: conservam de fato a
disposição ea forma. = |
Mas, se o espaço intermediário é demasiadamente grande, é fatal que as palavras se confun-
dam por causa da grande quantidade de ar que se interpõe, e que a voz se perturbe enquanto voa
pelos ares. Pode-se, então, perceber o som, mas não reconhecer qual seja o sentido das palavras:
de tal maneira nos chega a voz embaraçada e confusa.
Além disso, muitas vezes uma só palavra pronunciada pela boca de um só pregoeiro vai ferir
todos os ouvidos de uma multidão. Por conseguinte, uma única voz pode subitamente separar-se
em várias, porque se divide segundo os ouvidos de cada um, aí marcando a forma e o som distinto
das palavras. Mas a parte das vozes que não vai cair em ouvido algum perece ao passar e em vão
se difunde pelos ares. Outra parte, batendo em corpos duros e por eles repelida, a nós volta sonora
e algums vezes nos engana com um simulacro de palavra.
Compreendendo bem isto, poderás tu próprio explicar a ti e aos outros de que maneira nos
lugares desertos as pedras nos reenviam a forma das palavras com exatidão e pela sua ordem,
quando procuramos os companheiros perdidos pelas sombrias montanhas e com grandes gritos
chamamos os que se dispersaram: eu mesmo vi, ao emitir um som, que os lugares seis ou sete
vezes os restituíam. As próprias colinas os transmitiam às colinas e as palavras repelidas por elas
docilmente refaziam o caminho.
Aqueles que habitam perto destes lugares dizem que os ocupam caprípedes sátiros, ninfas e
faunos, e afirmam que é o seu estrépito noctívago e os seus jogos joviais que vêm frequentemente
quebrar-lhes os taciturnos silêncios; surgem os sons das cordas e as queixas maviosas que solta
a flauta tocada pelos dedos dos cantores; e a gente agrícola o ouve de longe, quando Pã, sacu-
dindo as coroas de pinheiro de sua cabeça semi-selvagem, percorre com o lábio recurvo os cála-
mos abertos para que a flauta não deixe de fazer ressoar a musa pastoril. E contam muitas outras
maravilhas e portentos deste gênero, para que por acaso não se julgue que foram abandonados
pelos deuses, ficando solitários todos estes lugares. Por isso falam destes milagres; ou então são
levados por qualquer outra razão, porque toda a raça humana é por demais ávida de ouvidos.
Depois, não temos de nos admirar se de algum modo pelos lugares através dos quais nada se
pode ver chegam as vozes e impressionam nossos ouvidos. Também muitas vezes damos por uma
conversa que se passa a portas fechadas; e nada há nisto de admirável, porque a voz pode passar
8º Como se sabe, a física mantém a idéia de uma “transmissão corpórea” do som, pela teoria das vibrações
no ar. Quanto à voz, Lucrécio não parece afirmar que se trata de uma exalação; aqui a teoria dos simulacros
manqueja. A teoria do eco é ainda a atual. O fenômeno da travessia dos corpos sólidos pelo som é explicado
por Lucrécio pela passagem dos elementos da voz através dos canais que se abrem em todo o corpo.
DA NATUREZA 95
intata pelos orifícios recurvos dos corpos, ao passo que os simulacros se recusam. Efetivamente,
dispersam-se as passagens, não são retas como, por exemplo, as do vidro que toda imagem atra-
vessa voando.
Além de tudo o som separa-se para todos os lados; uns nascem dos outros e um, ao produ-
zir-se, logo se dissolve em vários, exatamente como uma faúlha costuma dispersar-se em vários
lumes. Assim todos os lugares, por mais escondidos, se enchem de som, dos sons que estavam à
volta e que os despertam com o som.
Os simulacros, porém, vão todos por caminhos diretos ao ponto aonde uma vez foram envia-
dos; por isso é impossível, seja a quem for, ver para trás de um muro, mas é possível, de fora,
ouvir as vozes. E, todavia, a própria voz, ao transpor as paredes das casas, perde a sua agudeza,
penetra confusa nos ouvidos e na verdade mais ouvimos os sons do que as palavras.
Quanto à língua e ao palato, com os quais sentimos o gosto, não é necessário que haja gran-
des explicações. Primeiro, sentimos o gosto na boca quando esprememos o alimento ao comê-lo,
exatamente como se alguém se pusesse a espremer com a mão e a secar uma esponja cheia de
água. Depois, aquilo que esprememos se distribui inteiramente pelos canais do palato e pelos ori-
fícios recurvados da complicada língua. Quando os elementos deste suco que sai são lisos, tocam
suavemente e suavemente impressionam todos os espaços da língua, que logo se enchem de saliva;
mas, pelo contrário, quanto mais estão cheios de aspereza tanto mais ferem os sentidos e mais os
dilaceram.
Depois, o prazer que se tira destes sucos tem seu fim no palato; logo que se precipita pela
garganta, já não há nenhum prazer, enquanto se dispersa inteiramente pelos membros; não impor-
ta em nada o alimento de que se nutra o corpo, contanto que aquilo que se toma possa, digerido,
dividir-se pelos membros e conservar a compleição úmida do estômago.
Vejamos agora, segundo o que vou explicar, (Lacuna) por que razão tem cada um seu ali-
mento e por que razão aquilo que para uns é desagradável e amargo pode, todavia, parecer a ou-
tros extremamente agradável; há nestas coisas tanta variedade e tanta diferença que o alimento de
uns se torna para outros um veneno violento. É o que sucede com a serpente que, tocada pela sali-
va do homem, morre e se destrói, mordendo-se a si própria. Além disto, o heléboro é para nós
um terrível veneno, mas aumenta a gordura das cabras e das codornizes.
Para que se possa conhecer a razão destas coisas convém lembrar primeiro aquilo que disse-
mos anteriormente, isto é, que há nos corpos elementos misturados de numerosos modos. Todos
os animais que se alimentam, exatamente porque são diferentes no exterior e porque segundo as
raças é também diferente a linha de contorno de corpo, também são compostos de elementos de
diferentes formas.
Ora, como os elementos são diferentes, é fatal que sejam também diferentes os intervalos e
os canais a que chamamos poros, em todos os membros e na boca e no próprio palato. Uns devem
ser maiores, outros devem ser menores, uns devem ser triangulares, outros devem ser quadrados,
muitos serão redondos, algúns de numerosos ângulos dispostos de várias maneiras.
Efetivamente, como o exigem a disposição das formas e o movimento, devem os feitios dos
poros diferir uns dos outros e variarêm os caminhos segundo a imposição das estruturas. Por isso
aquilo que é agradável para uns é desagradável para outros; nos primeiros, naqueles a que é agra-
dável, devem os corpos mais lisos entrar vagarosamente nos canais do palato: mas, pelo contrá-
rio, aqueles para os quais um corpo é desagradável devem receber na garganta elementos dema-
siado ásperos e picantes.
É fácil agora, por intermédio destes fatos, conhecer o resto. Assim, quando aparece uma
febre, ou por excesso de bilis ou porque se excitou por outra razão alguma força mórbida, logo se
perturba todo o corpo e se trocam as posições dos elementos; acontece que os corpos que pri-
meiro convinham aos nossos sentidos não convêm agora e outros aparecem mais aptos, os mes-
mos que, penetrando nos sentidos, podem em geral ser desagradáveis. As duas coisas se encon-
tram misturadas no sabor do mel, como já anteriormente o demonstrei com frequência.
Tratarei agora da maneira por que o cheiro nos vem ter ao nariz. É necessário primeiro que
haja uma quantidade de corpos donde se levante, fluindo, o vário fluxo dos odores, e tem de se
aceitar que ele flui e é emitido e se espalha por toda parte; mas alguns deles convêm mais a alguns
seres vivos por causa das formas desiguais. Assim as abelhas, embora estejam longe, são atraídas
através do ar pelo odor do mel, e os abutres pelos cadáveres. A força atenta dos cães levará a toda
parte aonde tenha dado um passo a unha fendida dos animais bravios, e de longe pressente o odor
humano a branca ave que salvou a cidadela dos filhos de Rômulo.
Assim também o próprio cheiro de cada coisa leva cada animal ao seu alimento e o obriga
a afastar-se do terrível veneno: deste modo perduram as gerações dos animais.
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Quanto aos cheiros que nos vêm impressionar o nariz, há alguns que podem ir mais longe do
que outros; no entanto, nenhum deles é transportado tão longe como o som, como a voz, sem'falar
sequer das coisas que ferem as pupilas dos olhos e impressionam a visão. Efetivamente vêm erran-
tes e vagarosos e a pouco e pouco desaparecem, facilmente dispersos nas auras do ar; até lhes é
difícil sair do interior dos corpos: de fato, é do mais profundo que os odores fluem e saem das coi-
sas: demonstra-o o fenômeno de que tudo, ao partir-se, ao esmagar-se ou ao ser destruído pelo
fogo, pareça exalar um odor mais forte.
Depois, é facil ver que o constituem elementos maiores que o da voz, visto que não penetra
pelos muros de pedra por onde a voz e o som facilmente passam. Por isso verás também que é
mais difícil saber em que lugar está colocado aquilo que deita cheiro. Efetivamente, a emanação
resfria ao demorar-se pelos ares e Os sinais das coisas não correm quentes aos sentidos. Deste
modo muitas vezes se desviam os cães e procuram a pista.
Também não ê só nos cheiros e nos sabores que isto acontece: os aspectos das coisas e as
suas cores não convêm por igual aos sentidos de todos: há algumas que são bastante duras para
certas visões. Acontece até que os raivosos leões não podem suportar nem contemplar o galo
acostumado a aplaudir com as asas a partida da noite e a chamar a aurora com sua clara voz;
logo pensam na fuga.
Nada há nisto de estranho, porquanto existem no corpo dos galos certos elementos que, ao
serem lançados nos olhos dos leões, escavam as pupilas e produzem umia terrível dor, de tal modo
que, apesar da bravura, não podem suportá-la; no entanto, não podem ferir os nossos olhos, ou
porque neles não penetram ou porque, se penetram, lhes é dada saída livre de dentro dos olhos, de
tal maneira que não possam, demorando-se, ferir os olhos seja onde for.
Vais agora saber e compreender º * em poucas palavras quais são os corpos que movem o
espírito e donde vem aquilo que à mente vem. Primeiro direi o seguinte, que sutis simuiacros das
coisas, de numerosas espécies, vagueiam em grande número por todas as partes e que facilmente
se juntam entre si nos ares quando chegam ao encontro uns dos outros, exatamente como as teias
de aranha ou as folhas de ouro. São, efetivamente, muito mais sutis na sua estrutura do que os
corpos que ferem os nossos olhos e provocam a visão, visto que penetram pelos pequenos interva-
los dos corpos e lá dentro excitam a sutil substância do espirito e provocam as sensações.
É assim que nós vemos os centauros e os membros dos Cilas e as fauces cerbéreais dos cães
e as imagens daqueles cujos ossos, tocados pela morte,a terra cobre; efetivamente, simulacros de
todas as espécies são levados por todos os lados, em parte porque se formam no próprio ar, espon-
taneamente, em parte porque escapam dos vários corpos ou porque aparecem pela reunião das
suas formas.
De fato, não é certamente a partir de um centauro vivo que se forma a sua imagem, visto que
jamais houve tal espécie de animais; mas quando a imagem de um homem e de um cavalo se reú-
nem por acaso, facilmente se juntam uma à outra, como dissemos anteriormente, devido à sua
substância sutil e à sua textura delicada.
As outras coisas da mesma espécie surgem do mesmo modo. Como os simulacros são leva-
dos rapidamente por causa da. suma leveza, segundo o que já disse, facilmente qualquer delas,
com sua imagem sutil, nos pode impressionar o espírito com um só choque; efetivamente, o pró-
prio espírito é delicado e de mobilidade extraordinária.
Facilmente poderás reconhecer, pelo que se vai seguir, que tudo se passa como te digo.
Como aquilo que vemos com o espírito e com os olhos é igual, tem de se aceitar que surge do
mesmo modo. Ora, eu demonstrei que me é possível ver um leão pelos simulacros que me impres-
sionam os olhos; deve ser pelo mesmo motivo que o espírito se impressiona: ê pelos simulacros
que ele vê o leão e todas as outras coisas, exatamente como os olhos; e até imagens muito mais
sutis.
E se, quando o sono -nos prostra os membros, o espírito fica vigilante, é porque exatamente
do mesmo modo o impressionam os mesmos simulacros que vêm a nós quando acordados; a tal
** Depois de ter aplicado ao gosto e ao olfato a teoria da emissão com que explicou a vista e o ouvido,
Lucrécio trata especialmente das visões do espírito. Epicuro, no trecho correspondente (A Heródoto, em
Diógenes Laércio, Livro X), fala também da imaginação. As visões seriam, como já se disse, produzidas por
simulacros modificados no trajeto ou fundidos e de substância tão sutil que diretamente impressionariam o
espírito. Esses simulacros chegam ao espírito, porque os sentidos, geralmente adlormecidos pelo sono, não se
lhes podem opor com sua força de verdade. O movimento das visões no sonho é explicado como resultando
de uma série rápida de imagens paradas; é, no fundo, a teoria da retenção de imagens com que se explica (o)
cinema, mas como ela incompleta, porque não entra em linha de conta com o trabalho criador do espírito.
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DA NATUREZA 97
ponto que nos parece distinguir com toda exatidão aqueles a quem a vida faltou, aqueles de que
se apoderaram a morte e a terra.
A natureza leva a que isto se produza porque todos os sentidos embotados repousam pelas
várias partes do corpo e não podem abater a mentira com sua verdade. Além de tudo, a memória
está prostrada, lânguida de sono, e nem revida que é presa da morte e do extermínio aquele que
o espírito julga contemplar.
Também não é de estranhar que estas imagens movam em cadência os braços e as outras
partes do corpo. O que aparece em sonhos sucede deste modo: mal foge a primeira imagem, logo
surge outra em posição diferente, de modo que parece que a primeira mudou de gesto. É de ver
que tudo isto se faz com ioda rapidez: tão grande é a mobilidade e a abundância das coisas, tão
grande a abundância de partículas, num momento de tempo quase imperceptível, que a tudo
podem bastar.
Neste ponto, temos de investigar muita coisa, muito temos de esclarecer, se queremos expor
tudo com lucidez. Deseja-se saber em primeiro lugar por que razão, logo que temos desejo de um
objeto, imediatamente o espírito o imagina. Será que por acaso os simulacros obedecem à nossa
vontade e nos ocorre uma imagem quando o queremos, quer se trate do mar, quer se trate da terra,
quer finalmente do céu? Reuniões de homens, cortejos,“festins, batalhas, tudo a uma só palavra a
natureza nos prepara e cria. E o que é mais extraordinário é que o espírito daqueles que estão no
mesmo sítio, no mesmo lugar, lhes imagina coisas que são muito diferentes umas das outras.
E que diremos a respeito das imagens que nos sonhos vemos avançar ritmicamente e mover
os ágeis membros, ágeis sim, visto que alternadamente movem os braços com leveza, e a nossos
olhos acompanham seus gestos com pés harmoniosos? Acaso estas imagens são embebidas de
arte e doutamente vagueiam, de modo a poderem durante a noite fazer seus Jogos? Ou não será
antes que num só momento, segundo o que sentimos, isto é, ao soltar-se um som, estão incluídos
numerosos tempos, que a razão descobre existirem, visto que em todo instante e em todo lugar
imediatâmente nos aparecem estas imagens? Grande é a mobilidade e a abundância das coisas.
Efetivamente, logo que desaparece a primeira imagem, outra surge em outra posição e parece ser
a primeira que mudou de gesto.
E, como estes simulacros são sutis, o espírito não pode ver com clareza se por acaso não está
com atenção; por isso, tudo o que existe logo perece, a não ser aquilo para que ele próprio se pre-
parou. Assim ele se prepara e espera que há de ver o que se segue a cada coisa; e portanto aconte-
ce. Não vês também, quando os olhos se põem a fixar corpos sutis, como ficam atentos e se apli-
cam e como sem isto não pode suceder que vejamos com clareza? E aiê nas coisas que se vêem.
distintamente se pode observar que, se não se estiver com atenção, tudo se passará sempre como
se estivessem afastadas e extremamente remctas. Por que nos havemos, então, de admirar se o
espírito perde todas as coisas a não ser aquelas a que está entregue? Depois, muitas vezes, de
pequenos indícios imaginamos as coisas mais vastas e a nós mesmos nos defraudamos, a nós mes-
mos induzimos em engano.
Acontece também às vezes que não aparece uma imagem da mesma espécie: a mulher que
anteriormente tínhamos na mão parece transformar-se em homem ou então um rosto surge de
outro rosto, uma idade de outra idade; mas o sono e o esquecimento fazem que não persista a
nossa admiração,
Há nestas coisas um erro grave º º (Lacuna) a que se tem de fugir e que se tem de evitar, de
temer, acima de tudo: é preciso que não se julgue que a clara luminosidade dos clhos foi criada
para que possamos ver ao longe; e não é para que possamos caminhar a passos largos que a extre-
midade das pernas e coxas se apóia, articulando-se nos pés; também os braços que temos dotados
de fortes músculos e as mãos que nos servem a um lado e outro nos não foram dadas para que
pudêssemos fazer aquilo que é de utilidade para a vida. Pensar-se seja o que for, a este respeito,
desta maneira, é usar um raciocínio pervertido, e ao revés: não há nada ro nosso corpo que tenha
aparecido para que possamos usá-lo, mas é o ter nascido gue traz consigo a utilização.
Não existiu a visão antes de ter aparecido a luz dos olhos, nem o exprimir-se por palavras
antes de ter sido criada a língua; a origem da língua é, pelo contrário, muito anterior à do falar,
e foram criados os cuvidos muito antes de se escutar o prirneiro som e, segundo creio, existiram,
88 A propósito das operações dos sentidos, Lucrécio nega a existência de causas finais, muito de acordo
corn as suas idéias gerais sobre o mundo; num sisterna mecanicista como o seu não pode haver senão causas
eficientes; neste ponto, o raciocínio de Epicuro está de acordo com as diretrizes da ciência moderna, a qual,
pelo menos, afirma que não se pode determinar, cientificamente, a existência de causas finais.
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numa palavra, todos os membros antes de terem sido utilizados. Não puderam, portanto, crescer
para serem usados.
Pelo contrário, aprendeu-se a combater nas batalhas e a despedaçar os membros e a marcar
de sangue o corpo muito antes que voassem os cintilantes dardos; e a natureza levou a evitar as
feridas, antes que, por meio da arte, o braço esquerdo apresentasse o obstáculo do escudo. E é
claro que o entregar ao descanso o corpo fatigado é muito mais antigo do que os brandos col-
chões do leito; e apareceu o acalmar a sede antes dos copos. Quanto a tudo isto, é possível acei-
tar-se que tiveram como origem a possibilidade do uso e a experiência da vida. No entanto, têm
de ser postas de lado todas as coisas que, tendo surgido primeiro por si próprias, nos deram de-
pois noção da sua utilidade. Deste gênero são primeiro, como vemos, os sentidos e os membros;
é por isso que, digamo-lo uma vez mais, não se pode aceitar que tenham sido criados segundo um
critério determinado.
Não temos também de nos admirar do fato de naturalmente todos os animais procurarem o
alimento conveniente. Efetivamente, já demonstrei que de todos os corpos fluem e escapam ele-
mentos de numerosas espécies; mas é dos animais que eles vêm em maior número. Como são agi-
tados pelo movimento, os elementos são trazidos do interior por meio do suor e exalam-se
em grande quantidade pela boca quando, fatigados, ficam anelantes; então o corpo todo fica rare-
feito e toda a natureza quase cai em ruínas; e logo a dor surge como conseqgiiência.
Por isso se toma o alimento que sustente os membros e reanime as forças e acabe, espalhan-
do-se pelos membros e pelas veias, com o aberto desejo de comer. Do mesmo modo, os líquidos
se distribuem a todos os lugares que os reclamam; os numerosos elementos de calor, que, aglome-
rados no estômago, o incendeiam se dissipam com a chegada do líquido que apaga este fogo e não
deixa que o árido calor possa abrasar mais os vários órgãos. Fica sabendo que é assim que a ofe-
gante sede se suprime do nosso corpo, que é assim que se farta o desejo esfomeado.
E agora como é que nós podemos dar passos para a frente quando o queremos, como é que
podem os nossos membros mover-se em várias direções, como é que alguma força é capaz de des-
locar o peso tão grande do nosso corpo? Eis o que vou dizer: tu, recolhe as palavras.
Digo que, como já antes mostrei, º º os simulacros do movimento vêm impressionar o nosso
espírito e dar-lhe excitação; daqui nasce a vontade; efetivamente, nada começa a realizar-se senão
aquilo que o espírito previu e quis; daquilo que ele vê, fica presente a imagem. Portanto, quando
o espírito se move a querer marchar e caminhar, imediatamente toca na substância da alma que
está disseminada em todo o corpo pelos membros e pelos órgãos: o que é fácil, visto que as duas
substâncias são ligadas. A alma, por seu turno, toca no corpo e assim, a pouco e pouco, toda a
massa avança e caminha.
Além disto, também o corpo se rarefaz e o ar, que evidentemente sempre deve ter mobilidade,
vem pelas aberturas e penetra largamente pelos poros e se dispersa até as partes mais diminutas
do corpo. Daqui vem que por estes dois motivos o corpo vai como um navio levado pelas velas
e pelo vento.
Portanto, não há nada de espantoso em que corpúsculos tão diminutos possam manobrar tão
grande corpo e fazer voltar uma tão grande carga. O vento de substância tão sutil e rarefeita pode,
agindo, fazer mover a grande massa dum grande barco; e, no entanto, uma só mão o dirige qual-
quer que seja a sua velocidade, um só leme o manobra aonde quer, e, por meio das roldanas e dos
paus de carga, uma só máquina move com ligeiro esforço e levanta coisas de grande peso.
Agora exporei em versos º ? mais harmoniosos que abundantes as maneiras por que o sono
espalha pelos membros o seu sossego e liberta o peito dos cuidados do espírito; farei como o
cisne, o qual, com seu canto breve, supera o clamor dos grous dispersos nas etéreas nuvens do
vento sul; e tu, dá-me ouvidos sutis e um ânimo sagaz; não negues que é possível fazer-se o que
eu digo, não recues repelindo do peito as palavras verdadeiras, quando é certo que por tua culpa
não terias podido distingui-las por ti próprio.
Primeiro surge o sono logo que a força da alma se dispersa pelos membros e uma parte sai
fora de nós e outra parte fatigada se retira aos lugares mais profundos. Então, por fim, os mem-
bros se abrandam e se tornam como fluidos. Não hã dúvida que a nossa sensibilidade é obra da
88 Afirmando que não se principia uma ação sem que se veja o que se quer fazer, Lucrécio de certo modo
admite as causas finais que repeliu mais acima. É fácil pô-las de parte no mundo determinista dos fenôme-
nos; a tarefa revela-se, porém, muito difícil quando se passa aos domínios do espírito.
8? A explicação do sono pelo recolhimento da alma é comparável a uma das hipóteses atuais, a que liga o
sono ao corte de contato sensorial com o mundo exterior.
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DA NATUREZA 20
alma; e, quando o sono embaraça essa sensibilidade, tem de se aceitar que a alma se perturbou em
nós e foi lançada; não toda, porque então o corpo ficaria jazendo mergulhado no eterno frio da
morte. Certamente, se nenhuma parte da alma ficasse escondida nos membros, exatamente como
um fogo fica escondido coberto por numerosa cinza, donde viria que a sensibilidade de repente se
pode reanimar nos membros, exatamente como a chama surge dum lume adormecido?
Mas vou explicar por que motivo se realiza esta mudança e donde vem que se possa pertur-
bar a alma e ficar lânguido o corpo: tu, por teu lado, farás que eu não lance ao vento estas
palavras.
Em primeiro lugar, é necessário que a parte externa do corpo, visto estar em contato estreito
com as auras aéreas, seja ferida e abalada pelos seus choques frequentes; é este o motivo por que
quase todas as coisas são recobertas de couro ou então de conchas, de superfícies calosas ou de
cascas. Por outro lado, a parte interna também é batida por este mesmo ar que respiramos, quan-
do inspiramos e quando expiramos. Ora, como o corpo é batido de um lado e de outro, e como
os choques, por intermédio dos pequenos poros, chegam às primeiras partes e aos elementos
primordiais do corpo, a ruína dos nossos membros vai se fazendo pouco e pouco. Perturbam-se
as posições dos elementos do corpo e do espírito.
Sucede, então, que é expulsa uma parte da alma e que outra parte, escondendo-se, retira-se
para o interior; outra parte ainda, dispersa pelos membros, não pode manter contato entre si nem
aproveitar-se de movimentos mútuos: efetivamente, a natureza levanta barreiras nas comunica-
ções e nos caminhos e por isso a sensibilidade se afasta, dado o efeito profundo destes movimen-
tos. Depois, como nada mais sustenta os órgãos, torna-se o corpo débil e enfraquecem todos os
membros; abandonam-se os braços e as pálpebras e, mesmo estando-se deitado, dobram-se os jar-
retes e abandonam-nos as forças.
Por outro lado, se o sono chega depois da refeição é porque os alimentos têm o mesmo resul-
tado do que o ar quando se espalha inteiramente pelas veias; e, se o sono mais pesado é aquele que
se tem depois de um bom repasto ou quando se está cansado, é porque é nessa altura que os ele-
mentos primordiais estão mais abalados em virtude do grande esforço. Acontece, ainda, que é
mais profundo o retiro da alma, que uma parte maior é lançada para fora e que toda ela se encon-
tra mais dividida e mais dispersa lá por dentro.
E, sejam quais forem *º os objetos a que por inclinação cada um se sente preso, é a eles, às
coisas em que muito nos demoramos, àquelas em que o espírito mais se ocupou com especial
atenção, que, na maior parte das vezes, vemos, segundo nos parece, virem em sonhos ao nosso
encontro; acontece ao advogado defender causas e comparar leis, aos generais combater e lan-
çar-se na batalha, aos marinheiros bater-se em duelo contra os ventos, e a nós fazer isto mesmo,
investigar continuamente a natureza das coisas e expor na pátria língua aquilo que encontramos.
Todas as inclinações a todas as artes aparecem em sonhos do mesmo modo e ocupam, enga-
nando-os, os espíritos dos homens. Todos aqueles que durante muitos dias deram assídua atenção
a toda série de jogos públicos, vemo-los nós depois, quando já eles deixaram de lhes ocupar os
sentidos, conservar todavia no espírito caminhos abertos por onde podem chegar até eles idênticas
imagens. Durante muitos dias passeiam elas diante dos seus olhos, de modo que, ainda que des-
pertos, vêem os dançarinos movendo os ágeis membros, e ouvem com seus próprios ouvidos o
límpido canto da cítara e a voz das cordas, e vêem o mesmo ajuntamento e o resplandecer das vá-
rias decorações da cena: tal é a importância da inclinação e do prazer e dos hábitos que vêm de
se ter trabalhado numa coisa, não só no que se refere aos homens, mas também a todos os
animais.
Assim poderás ver cavalos fortes, mesmo deitados, suar em sonhos, ofegar continuamente,
como que bater-se com todas as forças pela palma do triunfo ou pelas barreiras abertas. .. Mui-
tas vezes os cães dos caçadores, durante um brando repouso, de súbito agitam as pernas, de
repente soltam a voz e frequentemente aspiram o ar com o focinho, como se tivessem descoberto
a pista dos animais bravios e a fossem seguindo; muitas vezes, acordando, perseguem os vãos
simulacros de veados, como se os vissem fugindo, até que, dissipado o erro, voltam a si. Do
mesmo modo a branda raça dos câãezinhos, habituada à casa, de repente se sacode e levanta o
corpo do chão, como se visse faces e rostos conhecidos.
E quanto mais alguma coisa é feita de ásperos elementos tanto mais é de necessidade que
88 A origem dos sonhos é, para Lucrécio, de caráter interior: sonha-se aquilo em que se pensa habitual-
mente ou O que não se pôde realizar durante o dia; os dois últimos exemplos podem, porém, indicar a possi-
bilidade de uma explicação fisiológica ou exterior dos sonhos.
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tenha violência nos seus sonhos. Já as variegadas aves fogem e de súbito perturbam de noite os
bosques sagrados, batendo as asas, se por acaso lhes pareceu durante o agradável sono que abu-
tres lhes ofereciam batalha e voando as perseguiam. ,
Por seu turno, o espírito do homem, agitado por grandiosas ações, muitas vezes faz o mesmo
e o mesmo realiza nos seus sonhos: os reis tomam cidades, são feitos prisioneiros, travam bata-
lhas e levantam gritos como se ali mesmo os estivessem degolando. Muitos se debatem, lançam
gemidos de dor como se fossem entregues às mordeduras de uma pantera ou de um cruel leão,
tudo enchem com seus grandes clamores. Muitos falam de grandes coisas durante o sono e muitas
vezes foram eles próprios os denunciadores dos seus atos. Muitos vão ac encontro da morte.
Muitos, como se caíssem no chão, lá do alto do monte, com todo o peso de corpo, ficam ater-
rados e, arrancados ao sono, dificilmente voltam a si, tal a obsessão do seu espírito, tal a agitação
do corpo. Outros, cheios de sede, ficam sentados junto de um rio ou de amena fonte e é como se
quisessem engolir toda a água. E muitas vezes os mais delicados, enleados pelo sono, julgam
levantar o vestuário junto de uma bacia ou dum tonel cortado e derramam o líquido extraído de
todo o corpo, inundando ao mesmo tempo os tapetes de Babilônia de magnífico esplendor.
Também àqueles em que na flor da idade começa a correr pelos canais o líquido seminal, no
mesmo dia em que se torna maduro dentro do corpo, aparecem imageris de vários corpos, com o
aspecto de belas feições e de lindas cores, os quais incitam, irritando-os, os lugares túrgidos de
abundante sêmen, de tal modo que eles, como se tudo se passasse na realidade, derramam em
ondas a abundante corrente e mancham o vestuário.
Esta semente de que falamos *º agita-se em nós, logo que a idade adulta começa a fortificar
os nervos. Efetivamente, tem de haver alguma coisa que abale e agite as outras. Só a força de um
ser humano é capaz de fazer sair do homem a semente humana. Logo que ela sai dos seus lugares
de residência, corre através dos membros e dos órgãos por todo o corpo, juntando-se em lugares
determinados dos nervos e logo excita as próprias partes genitais do corpo.
Esses lugares, excitados, ficam cheios de sêmem, e aparece a vontade de o lançar para dentro
do que excitou o terrível desejo; o corpo vai procurar aquilo que de amor feriu o espírito. De fato,
na maior parte das vezes, todos caem para o lado donde foram feridos e o sangue lança-se para
o lugar donde recebemos o golpe, de tal modo que o líquido rubro inurida o inimigo se por acaso
está perto. Assim também sucede com aquele que recebeu uma ferida dos dardos de Vênus, quer
lhos tenha lançado um moço de membros feminis, quer as mulheres cujo corpo, todo ele, lança
amor; tende a ir ao lugar donde foi ferido e procura juntar-se e lançar o líquido, saído do corpo,
a esse Corpo: pois o desejo sem voz pressagia a volúpia.
Ei o que é para nós Vênus; daqui vem o próprio nome de amor, daqui destila Vênus ao nosso
coração as primeiras gotas do prazer, daqui vem depois o gélido cuidado. Realmente, se está
ausente aquilo que se ama, logo vêm perto de nós as suas imagens, logo o seu doce nome ressoa
de contínuo aos nossos ouvidos.
Mas convém fugir a essas imagens, afastar de si os alimentos do amor, pensar em outras coi-
sas e lançar num corpo qualquer o líquido coligido: não devemos retê-lo, convertê-lo a um único
amor e preparar para si próprio um cuidado e uma dor certa. Porque a ferida se fortalece e se
torna inveterada se a alimentarmos. De dia para dia, cresce o furor e se torna mais pesada a pena,
se não se apagam com feridas novas os golpes antigos, se, variando, não se confiam ainda recen-
tes à Vênus vagabunda ou se não se podem transferir a outro objeto os movimentos do espírito.
E aquele que evita o amor não fica privado do fruto de Vênus, mas antes recolhe aquilo que
ê agradável e sem as dificuldades. Efetivamente, o prazer que recolhem os que estão de cabeça fria
é mais puro do que o dos desvairados. No próprio momento da posse, o ardor dos amantes flutua
ao sabor de incertos impulsos e não sabem ao certo se primeiro hão de gozar com os olhos ou
com as mãos. Apertam estreitamente o que desejaram, provocam dores no corpo, muitas vezes
ferem os lábios com os dentes e os magoam de beijos: tudo isto porque não é puro o seu prazer
e há ocultos estímulos que os instigam a ferir aquilo mesmo, seja o que for, donde surgiram ague-
les germes de furor.
Mas facilmente quebra Vênus as fúrias do amor e o prazer se mistura às mordidelas, refrean-
so “Todo o trecho sobre o amor pode de certo modo autorizar ou ter dado origem às afirmações de São Jerô-
nimo quanto às causas da loucura do poeta. É de resto, pela forma de apresentação do assunto, pelo tom rea-
iista, quase grosseiro e, doutra parte, pela linha elegíaca do contexto, um exemplo bem frisante da literatura
romana do gênero; liga-se, por um lado, à comédia de Plauto e Terêncio, sobretudo à do primeiro, por outro
lado à poesia de um Pérsio, de um Tibulo ou de um Ovídio.
DA NATUREZA 101
do-as. Há sempre uma esperança de que o corpo, que é origem do furor, possa ele próprio extin-
guir a chama. No entanto, a natureza é inteiramente contra isto; é o amor o único objeto que,
quanto mais possuímos, tanto mais incendeia o nosso peito com terríveis desejos. De fato, a comi-
da e a bebida são levados para o interior do corpo e, como podem ficar alojadas em lugares deter-
minados, é fácil satisfazer-se o desejo de líquidos e frutos. Mas, realmente, duma face humana e
duma linda cor nada vem ao corpo, para que ele goze, senão frágeis simulacros; esperança mise-
rável que muitas vezes é levada no vento.
Assim como aquele que em sonhos, cheio de sede, procura que beber e ninguém lhe dá com
que possa extinguir o ardor dos membros, e busca imagens de líquidos, em vão se atormenta e fica
cheio de sede, ao mesmo tempo que bebe das torrentes de um rio, assim também Vênus, no amor,
ilude os amantes com a imagem: não podem saciar-se olhando o corpo que se lhes apresenta nem
podem com as mãos arrancar seja o que for dos delicados membros, e incertos erram por todo o
corpo.
Depois, quando, enlaçados os membros, gozam da flor da idade, já quando o corpo pressa-
gia o prazer e já quando Vênus semeia os campos femininos, avidamente prendem o corpo, mistu-
“ram a saliva das bocas e lhes inspiram o bafo, oprimindo os lábios com os dentes; e tudo inútil,
porque nada podem roubar a esse corpo e nele não podem, com todo o corpo, penetrar e aniqui-
lar-se. Realmente é isto o que parecem tentar fazer num esforço violento: a tal ponto se enleiam,
desejosos, nos laços de Vênus, quando os membros desfalecem abalados pela força da paixão.
Finalmente, quando irrompe o amor acumulado nos nervos, faz-se por algum tempo uma
pequena pausa no violento ardor. Em seguida, volta aquela mesma raiva, torna a vir aquele furor,
visto que eles próprios procuram saber aquilo que desejam e não podem descobrir o meio de ven-
cer aquele mal; de tal modo estão incertos acerca da invisível ferida que os põe doentes.
Acrescenta a isto que consomem as forças e perecem nos cuidados, acrescenta ainda que o
tempo se lhes passa aos acenos de outrem. Entretanto, Gissipa-se a fortuna e transforma-se em
tapetes da Babilônia, os deveres tornam-se lânguidos e a reputação vacilante adoece. Sem dúvida
lhes resplendem nos pês ungiientos e sapatos de Sícion e grandes esmeraldas de verde brilho se
encastoam em ouro e se fatiga com frequência o vestuário marinho bebendo o suor de Yênus. Os
bens honestamente adquiridos pelos pais convertem-se em diademas, mitras, em mantos e em
fazendas de Alindes ou de Geos. Preparam-se banquetes notáveis pela decoração e pela comida,
jogos, taças, que se seguem umas às outras, perfumes, coroas e grinaldas; e tudo inútil, porque do
meio da fonte dos prazeres surge não sei que de amargo que angustia nas próprias flores, ou quan-
do surgem na consciência os remorsos de se passar a vida, de se perderem os anos assim na indo-
lência, ou porque uma palavra ambígua que ela lançou ao partir deixou preso no coração um fogo
que revive, ou então porque se suspeita que ela dá muito movimento aos olhos, ou a outro, ou
lhe supreende no rosto os vestígios de um sorriso.
E, no entanto, tudo isto se encontra ainda no amor propício e favorável; mas num amor
adverso e sem esperança são inumeráveis os males que se poderiam encontrar, mesmo estando
apagada a luz dos olhos; é por isso que é melhor estar à vela já antes, do modo que ensinei, e ter
cuidado em não se deixar prender. De fato, é mais fácil evitar o sermos lançados aos males do
amor do que depois de presos sair daquelas redes e quebrar os fortes nós de Vênus.
E contudo, mesmo estando-se preso e enlaçado, ainda se poderia fugir ao inimigo se a pró-
pria pessoa se não pusesse obstáculós passando em claro todos os defeitos do espírito e do corpo
- daquela que se deseja e quer. É isto o que fazem na maior parte os homens cegos de desejo, atri-
buindo qualidades âquelas que realmente as não têm. Por isso vemos que muitas que são más e
feias vivem em delícias e prosperam no meio de supremas honras. No entanto, eles riem-se uns
dos outros e aconselham a que aplaquerm Vênus, porque os sentem afligidos por um amor vergo-
nhoso, sem que, pobres deles, vejam os seus males, muito maiores.
Uma negra tem a cor do mel; a imunda e fedorenta é apenas maltratada; a de olhos verdes,
uma Palas; a nervosa e lenhosa, uma gazela; a baixinha, a anãázinha, uma das graças, um puro
grão de sal; a grande, a colossal, uma maravilha plena e majestosa. A tartamuda que não sabe
falar chilreia; a muda é pudica; a incendiária, a odiosa, a tagarela, torna-se uma chama; aquela
que nem pode viver de magreza é um delicado amorzinho e a que morre de tosse é realmente um
mimo. À avantajada, de grandes seios, é a própria Ceres, depois de nascido Baco; a de nariz acha-
tado é uma silena, é uma sátira; a de grandes lábios, um puro beijo. E seria muito longo se eu ten-
tasse enumerar as outras coisas da mesma espécie.
Mas, suponhamos que ela tem na face toda a beleza que se queira e que em todos os mem-
bros surge a força de Vênus; há outras iguais e sem ela vivemos até hoje; faz todas as coisas, bem
o sabemos, que fazem as feias: sufoca-se a pobre de cheiros terríveis quando as criadas a evitam
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de longe e a furto se riem. Mas o namorado, posto fora e chorando, cobre muitas vezes de flores
e de grinaldas o limiar da porta e unge o soberbo portão de perfume da manjerona e cobre, o míse-
ro, a entrada com seus beijos. Ora, se O tivessem deixado entrar, o cheiro o atacaria logo de início,
de tal modo que procuraria motivos excelentes de se ir embora e lhe cairia das mãos a queixa
meditada e preparada há muito tempo; ele próprio condenaria a sua estupidez por lhe ter atri-
buído mais qualidades do que aquelas que pode ter um ser mortal.
Nem isto engana as nossas Vênus; pôem todos os seus cuidados em ocultar estes bastidores
da vida, quando os querem reter e prender a si por meio do amor; e tudo inútil porque se pode,
pela força do espírito, trazer tudo à luz e averiguar o que causa riso; depois, se ela tem bom espí-
rito e não é odiosa, pode-se perdoar alguma coisa e fazer concessões aos defeitos humanos.
E também nem sempre a mulher suspira com fingido amor quando abraçando o corpo do
homem o aperta ao seu corpo e o segura umedecendo os beijos com lábios sugadores. Muitas
vezes, ela o faz sinceramente e, procurando gozos comuns, o incita a percorrer a carreira amoro-
sa. Se fosse doutra maneira, nem as aves, nem os animais dos rebanhos, nem os gados, nem as
éguas poderiam submeter-se aos machos: é porque a natureza, ardendo fortemente, as incita e as
leva a alegremente receberem o prazer de Vênus daqueles que as assaltam.
E não vês como muitas vezes aqueles que o mútuo prazer encadeou ficam torturados nos
laços comuns? Quantas vezes os cães, nas encruzilhadas, procurando separar-se, puxam com
toda força cada um para seu lado e ficam, no entanto, presos pelos fortes vínculos de Vênus. Ora,
se os prazeres não lhes fossem comuns, nunca fariam isso; e prazeres que os podem enganar €
manter presos. Por isso, e di-lo-ei uma e outra vez, O prazer é comum.
Quando, na mistura das sementes, 'ºa mulher por acaso e de súbito ganha energia e vence
pela força a força masculina, então, por causa da semente materna, nascem os filhos semelhantes
à mãe, como o seriam ao pai, da semente paterna. Mas aqueles que se vêem com um e outro
aspecto, pondo juntamente os rostos.dos pais, esses crescem a partir do sangue materno e paterno,
quando as sementes, excitadas através do corpo pelos estímulos de Vênus, vêm ao encontro uma
da outra e se misturam com mútuo ardor, de tal modo que nenhuma delas vence ou é vencida.
Acontece também que muitas vezes podem ser semelhantes aos avós e frequentemente repro-
duzem as feições dos bisavós, visto que os elementos, em grande número e de muitas formas, mui-
tas vezes, misturando-se, se ocultam no corpo dos pais e transmitem de pais a filhos o que partiu
da estirpe primitiva. Daqui tira Vênus rostos de vária espécie e reproduz as feições, a voz e a
cabeleira dos antepassados; tudo isto vem duma semente determinada, exatamente como as nos-
sas faces, os nossos membros. Também nascem mulheres da semente do pai e existem varões
desenvolvidos a partir do corpo materno. Sempre o parto é o produto duma dupla semente, mas
é mais semelhante àquilo de que se cria, âquilo de que mais vem; o que se pode ver, quer se trate
de descendência masculina ou de raça feminina.
Não são os poderes divinos que recusam seja a quem for a semente genital, de modo que
nunca lhe chamem pai os filhos queridos e passe o tempo de vida com uma Vênus estéril; muitos,
porém, pensam assim e, cheios de tristeza, inundam os altares de abundante sangue, perfumam as
aras com suas dádivas, para que, por semente abundante, engravidem as esposas. Mas é em vão
que fatigam os deuses e os oráculos.
Na verdade eles são estéreis porque têm a semente demasiado espessa ou então porque ela é
fluida e tênue além do que seria conveniente. Se ela é tênue não pode ficar presa a lugar algum e
logo se dispersa se retira-sem dar origem a qualquer nascimento; mas, se é espessa e se é lançada
mais compacta do que seria bom, não só não voa com tão ligeiro impulso como também não pode
penetrar nos lugares de maneira equilibrada nem, se penetrou, se mistura com facilidade o sêmen
ao sêmen feminino.
De fato, parece que Vênus difere muito segundo as harmonias. Uns mais facilmente fecun-
dam certas mulheres e de outros mais facilmente outras mulheres recebem a carga e engravidam.
Muitas, estéreis durante vários himeneus, alcançam depois esposos dos quais concebem filhos e se
enriquecem com agradáveis descendentes. E muitos cujas esposas, apesar de fecundas, nunca ti-
nham parido, encontram também uma natureza igual à sua, de modo a poderem proteger de filhos
7º A doutrina da hereditariedade que Lucrécio expõe era geral entre os antigos; os pontos mais interes-
santes para comparação com a genética moderna são o da existência de caracteres que poderíamos chamar,
com linguagem atual, dominantes e recessivos, o do duplo germe e o da transmissão pelos germes dos carac-
teres hereditários (o gene, no fundo, não é mais, nas teorias modernas, do que um àtomo de hereditariedade).
DA NATUREZA LOS
a sua velhice. A tal ponto é importante que as sementes se possam misturar a sementes aptas à
fecundidade e que as espessas se juntem às fluidas e as fluidas às espessas.
Também tem importância neste ponto o alimento de que se sustenta a vida; há certas coisas
que fazem crescer a semente pelo corpo, outras que a diminuem e a pôem doente. Também tem
muitíssima importância a maneira por que se realiza o brando prazer; parece que é à maneira dos
animais quadrúpedes que as esposas concebem com mais facilidade, porque a semente pode assim
dirigir-se aos lugares certos, dada a inclinação do peito e a elevação dos rins.
Também não é necessário, de modo algum, que as esposas tenham voluptuosos movimentos.
Efetivamente, a mulher se impede de conceber e se retrai, quando louca excita, com as nádegas,
o prazer do homem, e, desmanchando-lhe o corpo, lhe retira o líquido; com efeito, atira fora do
rego certo a relha do arado e impede o jato da semente nos lugares próprios. As mulheres de má
vida costumam mover-se, e exatamente para que não fiquem prenhes, grávidas muito amiúde, ao
mesmo tempo que fazem o possível para que tenham os homens um prazer mais sutil; mas as nos-
sas mulheres não têm necessidade alguma destas coisas.
Depois, não é por intervenção divina ou pelas flechas de Vênus que se vai amar uma mulher
de beleza inferior. Muitas vezes a própria mulher, -pelos seus costumes, pelos seus modos, pela
maneira por que trata seu corpo, leva facilmente a que vá alguém partilhar a sua vida. E ainda
mais isto, que o costume gera o amor; efetivamente, aquilo que se toca com pancadas leves mas
frequentes acaba com o tempo por ser vencido e abater-se. Não vês como as gotas de água, caindo
numa pedra, com o tempo a perfuram?
1280
LivrO V
A
Quem pode com inspiração poderosa ”* compor um poema digno da majestade do assunto e
destas descobertas? Quem terá forças para em palavras cantar os louvores conforme os méritos
daquele que nos deixou tais bens nascidos e adquiridos dos seus esforços? Ninguém, creio eu, que
tenha nascido com um corpo mortal. Porquanto, se, como o pede a própria e recorhecida majes-
tade do assunto, se tem de falar dele, não há dúvida, é Mêmio glorioso, que foi um deus, um deus,
aquele que primeiro descobriu a regra da existência que se chama agora sabedoria, aquele que tra-
zendo a nossa vida, por meio da sua arte, de tão grandes ondas e de tão grandes trevas, colocou-a
em lugar tão tranquilo e em tão clara luz.
Compara, efetivamente, as antigas descobertas de outros tidas por divinas. Diz-se que Ceres
trouxe as searas aos mortais e Líber o líquido tirado do sumo das vinhas; no entanto, sem estas
coisas, a vida poderia ter subsistido, exatamente como consta viverem ainda hoje certos povos.
Mas não se poderia viver bem sem um coração puro; é por isso que nos parece merecidamente ser
um deus aquele cujas palavras, espalhadas entre as grandes nações, ainda agora pela sua suavi-
dade abrandam os ânimos e se tornam consolação da vida.
E se acaso julgamos mais importantes os feitos de Hércules, muito longe andamos de um
raciocínio exato. Em que nos seria hoje um obstáculo aquela grande fauce do leão da Neméia e
o horrendo javali da Arcádia? Que poderiam o touro de Creta, o flagelo de Lerna, a hidra defen-
dida por cobras venenosas? Que nos ofenderiam os três peitos vigorosos do tríplice Gerião (Lacu-
na) e os habitantes do Estinfalo e os cavalos de Diomedes soprando fogo pelas ventas, na Trácia,
junto das praias da Bistônia, perto do Ismar?
Em que seria contra nós a serpente que guardava os fulgentes frutos das Hespérides, furiosa,
de cruel olhar, e cujo corpo enorme eniaçava o tronco da árvore, lá perto do litoral do Atlas e das
cóleras do oceano, lá onde nenhum dos nossos e nenhum dos bárbaros ousa chegar? E todos os
outros monstros desta espécie, que foram aniquilados, em que nos prejudicariam, vivos, se não
tivessem sido aniquilados? Em nada, creio eu: efetivamente, a terra inteira agora está cheia de
monstros e estremece de horror, pelos bosques e pelos altos montes e pelas profundas florestas;
mas estes lugares, todos nós os podemos evitar sem nenhum custo.
Mas, se o peito não foi purificado, que lutas e que perigos não temos nós de afrontar sem o
querer! Quantas preocupações bem duras não despedaçam o homem que a paixão solicita, quan-
tos temores não vêm daí! E que direinos do orgulho, da devassidão, da petulância? Quantas des-
graças não consumam! É o luxo e a preguiça? O homem que, pelas palavras, submeteu todas
estas coisas e as expulsou do espírito, sem empregar as armas, não teremos nós de o comparar em
dignidade ao número dos deuses? Além de tudo, ele pronunciou muitas palavras belas e divinas
acerca dos deuses imortais e em seus ditos explicou toda a natureza das coisas.
É marchando nas suas pegadas que eu vou investigando e expondo por palavras as razões
das coisas, e de que maneira foi criada cada uma delas e a necessidade que há de persistirem nessa
lei, visto que não poderiam quebrar as fortes determinações do tempo.
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Repete-se o elogio de Epicuro, a ponto de aparecer como superior aos deuses, a que se atribuíam inven-
ções fundamentais, ou aos heróis do tipo de Hércules, que tinham tornado a Terra habitável para os homens.
Logo a seguir o poeta, depois de resumir o assunto dos livros precedentes, pôe como argumento deste o desti-
no do mundo, a maneira por que tudo se formou € as leis naturais, que segue a sua evolução sem que interve-
nha nenhum poder divino.
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106 LUCRÉCIO
Descobrimos, primeiro, de que modo ”? a substância do espírito é composta de um corpo
submetido ao nascimento e não pode durar incólume por um tempo sem fim, e que são imagens
o que costuma enganar-nos o espírito durante o sono, quando parecemos ver aqueles que a vida
abandonou.
Agora, pois, que me trouxe a este ponto a ordem do raciocínio, tenho de explicar a razão de
ser o mundo composto de uma substância mortal e estar submetido às leis do nascimento. Direi
também de que modo esse agregado de matéria formou a Terra, o céu, o mar, as estrelas, o Sol
e o globo da Lua; depois que seres vivos nasceram da terra e quais os que nunca nasceram, e de
que modo a raça humana começou a entender-se entre si numa linguagem variada por meio de
nomes dados às coisas; e de que modo se insinuou nos peitos aquele medo aos deuses que em todo
o orbe das terras protege os templos sagrados, os lagos, os bosques, os altares e as imagens dos
deuses.
Além disso, explicarei por que força inflete e governa a natureza o curso do Sol e o anda-
mento da Lua, para que não se acredite por acaso que eles prosseguem espontânea e eternamente
nos seus caminhos entre céu e Terra, a fim de favorecer o crescimento de plantas e de animais,
nem se julgue que giram impelidos por qualquer vontade divina,
De fato, aqueles que aprenderam *º? que os deuses levam vida sossegada procuram, no entan-
to, saber por que lei tudo acontece, sobretudo no que diz respeito aquelas coisas que se vêem
acima da cabeça, nas regiões etéreas. E lá voltam às antigas religiões e fazem intervir senhores
terríveis que os pobres julgam ter todos os poderes, porque não sabem o que pode e o que não
pode existir e o poder limitado que tem cada uma das coisas segundo uma lei fixa marcada por
limites rígidos.
E agora, para que te não demoremos mais tempo com promessas, observa primeiro os mares
e as terraseo céu; é tríplice a sua natureza, três os corpos, é Mêmio, três os aspectos tão diferen-
tes, três as suas contexturas, e, no entanto, um só dia os lançará à destruição e ruirá a massa, a
máquina « do mundo, sustentada durante tantos anos.
E não deixo de perceber como isto é novo e admirável para o espirito, que eh a dar-se no
futuro a destruição do céu e da terra e quão difícil me será vencer-te pelas minhas palavras; é O
que sempre sucede quando se leva aos ouvidos alguma coisa não habitual, sem que se possa, por
outro lado, submetê-la à vista dos olhos ou pô-la debaixo das mãos, o que é o mais seguro cami-
nho, e o mais fácil, para levar a verdade ao peito humano e aos templos do espírito. Entretanto,
falarei. Talvez os acontecimentos confirmem as minhas palavras e tu vejas em pouco tempo um
grande terremoto abalar tudo com os seus movimentos. Mas oxalá a fortuna, que tudo rege, isto
afaste de nós, e possa a razão, de preferência ao fato, persuadir-te de que todo o mundo pode desa-
bar vencido e com fragor horrível.
Antes, porém, de começar a expor a respeito deste ponto os oráculos do destino mais sagra-
dos e muito mais verídicos do que os da Pítia, que fala de lá da tripeça e do loureiro de Febo, tra-
tarei de consolar-te com muitas palavras doutas; talvez tu, refreado pela religião, penses que as
terras eo Soleocéueo mar e as estrelas e a Lua devem, por seu corpo divino, permanecer eter-
nos, e julgues que é justo punir, como sucedeu com os gigantes, com todas as penas dignas de um
imenso crime, aqueles que pelo seu raciocínio perturbam os fundamentos do mundo e quereriam
extinguir o claríssimo sol do céu, marcando os imortais com palavras mortais; no entanto, todas
estas coisas se acham tão distantes do poder divino, e são tão indignas de serem levadas à conta
72 Para Lucrécio, como para Epicuro, o mundo está destinado a perecer. Trata-se de um conjunto de corpos
naturais sem espírito de deuses que o salvem da destruição; por assim dizer, o mundo é ainda mais material
do que o homem porque nele não existe nenhum vestígio de alma; dado que o homem desaparece, não há
razão alguma para que julguemos o mundo eterno.
73 Lucrécio insiste na idéia de que os deuses estão completamente desligados do mundo e apresenta a de
que nada tiveram que ver com a sua criação. Quanto ao problema da criação, Lucrécio apóia-se em dois
argumentos de mais interesse: o primeiro é que, sendo os deuses, por definição, perfeitos, não haveria razão
nenhuma para criarem o mundo, com algum fito de que os adorassem ou lhes fossem gratos; o segundo, que
tendo passado uma eternidade em repouso também não haveria motivo para que o interrompessem subita-
mente. Outra ordem de argumentos é a de que só se pode criar aquilo de que: se tem modelo: não havendo
modelo de homens nem de mundo, os deuses não os poderiam ter criado; com efeito, a aceitação por Lucrê-
cio de modelos-idéias, de modelos existentes, ou na fantasia ou na própria estrutura dos deuses, implicaria
uma ordem não materialista do mundo. Finalmente, Lucrécio põe de parte a idéia de uma criação divina
levantando de novo o problema da existência do mal.
DA NATUREZA 107
dos deuses, que mais se poderia julgar terem sido apresentadas para mostrar o que é um corpo
completamente privado de movimento e sensibilidade vitais.
De fato, é preciso não supor que todo o corpo possa conter a substância do espírito e a inteli-
gência, assim como não pode uma árvore subsistir no ar, nem as nuvens nos salgados plainos,
nem viver os peixes pelos campos, nem haver sangue na madeira, nem haver sumo nas pedras.
Está marcado e determinado o lugar em que cada coisa pode crescer e habitar.
“Assim, a substância do espírito não pode surgir sozinha sem o corpo nem pode estar afas-
tada dos nervos e do sangue. Se, efetivamente, o pudesse, muito antes a própria força da alma
poderia residir na cabeça ou nos ombros ou na extremidade dos calcanhares e nascer em qualquer
parte do corpo, visto que no fim ficaria no mesmo homem e no mesmo vaso.
Ora, como parece haver no nosso corpo um lugar certo e determinado onde podem residir e
crescer por si o espírito e a alma, é esta mais uma razão para negar que possam viver fora do
corpo e duma forma viva, quer nas friáveis glebas da terra, quer no fogo do sol, quer na água,
quer nas altas regiões do ar. Todos estes corpos não contêm qualquer sensibilidade divina, visto
que nem sequer podem ser animados por uma alma. ;
Do mesmo modo, é impossível acreditar estejam as sagradas mansões dos deuses colocadas
em qualquer parte do mundo. Efetivamente é sutil a natureza dos deuses e muito afastada dos nos-
sos sentidos: até difícil de perceber com o espírito; ora; como foge ao contato e ao toque das
mãos, também não pode tocar nada daquilo que para nós é tátil. De fato, aquilo que em si próprio
não pode ser tocado também não pode tocar. Por isso as mansões deles devem ser diferentes das
nossas casas e delicadas como seu corpo: o que mais adiante provarei com largo discurso.
Dizer ainda que foi por causa dos homens que eles quiseram preparar a maravilhosa natu-
reza do mundo e que, por conseguinte, convém louvar a louvável obra dos deuses e julgá-la eterna
e imortal; dizer que não é lícito abalar jamais nos seus fundamentos, seja qual for a razão, ou ata-
cá-la com palavras ou derrubá-la inteiramente, apenas porque foi fundada para à raça humana e
por toda a eternidade pela antiga sabedoria dos deuses; imaginar outras coisas deste gênero e vir
apresentá-las é, é Mêmio, perfeita loucura.
Em que importaria realmente o nosso agradecimento a seres imortais e felizes para que por
nossa causa empreendessem fosse o que fosse? Que novidade pôde levá-los, depois de estarem
tanto tempo sossegados, ao desejo de mudarem a sua vida anterior?
Com efeito, parece que a novidade deve agradar a quem encontra obstáculos nos tempos
antigos; mas aquele a quem nada aconteceu de desagradável no tempo já passado, aquele que ia
levando uma bela vida, como o pôde inflamar de tal modo o amor da novidade? Que mal haveria
para nós em não termos sido criados? Ou é que por acaso a vida jazia nas trevas e na dor até a
ter iluminado a origem genésica das coisas? Realmente, todo aquele que nasceu deve querer
conservar-se na vida enquanto o retiver o doce prazer. Mas, para quem jamais provou o amor da
vida nem esteve no número dos vivos, que importa não ter sido criado?
Depois, para gerar as coisas tem de haver um modelo; donde tiraram os deuses a primeira
idéia de homens, para saberem o que desejavam fazer e o verem claramente no espírito? De que
modo reconhecerem eles a força dos princípios e a possibilidade de lhes trocarem a disposição, se
a própria natureza lhes não tivesse dado o modelo que haviam de criar?
Os elementos dos corpos em número e feitios inumeráveis e batidos pelos choques desde tem-
pos infinitos foram sempre arrastados, levados pelos seus pesos, a juntar-se de todas as maneiras
e a tudo experimentar, tudo o que podia criar-se pela sua junção; não é, pois, de admirar que tives-
sem chegado a tais-disposições, que tivessem vindo a movimentos como aqueles pelos quais o
Universo, deslocando-se, eternamente se renova.
Mesmo que eu ignorasse quais são os elementos das coisas, ousaria, no entanto, e só pelo es-
tudo das leis celestes, afirmar e mostrar, até por outras coisas ainda, que de nenhum modo a natu-
reza foi preparada para nós por vontade dos deuses: tão grandes são os seus defeitos!
Primeiro, de toda a terra coberta pelo imenso ímpeto do céu possuem os montes e os bosques
da terra uma ávida parte; ocupam outra as rochas e os brejos desertos e outra ainda o mar que
largamente separa os litorais, e as terras. Depois, perto de duas partes, roubam-nas aos mortais o
fervente ardor e a incessante queda da neve.
Quanto ao que sobra de terra cultivada, a natureza por sua própria força a esconderia sob as
silvas, se a energia humana não resistisse e se por causa da vida a não tivesse habituado a gemer
sob o forte enxadão e não tivesse rasgado a terra pesando sobre o arado. Se nós não revolvês-
semos com a relha as fecundas glebas, se não preparássemos o solo para o que tem de nascer,
nada poderia por si mesmo subir no límpido ar; e todavia muitas vezes o que foi obtido com gran-
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108 LUCRÉCIO
“de trabalho, quando já tudo se cobre de folhas e floresce pela terra, ou o abrasa o sol etéreo com
o calor demasiado ou o destroem as súbitas chuvas e a fria geada, e o arrebatam os flagelos do
vento em violento turbilhão.
Por que razão, além disso, alimenta e multiplica a natureza, em mar e terra, a raça terrível
das feras inimigas do gênero humano? Por que razão trazem doenças as estações do ano? Por que
razão vagueia a morte prematura?
Depois, a criança, que, tal o marinheiro arremessado pelas ondas terríveis, jaz nu sobre o
solo, sem falar, sem nenhum auxílio para a vida, logo que a natureza o lança num esforço, do ven-
tre da mãe às praias da luz, enche o lugar de queixosos vagidos, como é natural para quem tem
ainda de passar tantos males durante a vida.
Mas crescem os variados animais, os de rebanho e as feras, sem que sejam necessários gui-
zos nem as palavras balbuciadas e suaves da ama criadora; não têm de procurar vestuários dife-
rentes segundo a época do céu, nem necessidade de armas e de altas muralhas para proteger as
suas coisas: a terra e a natureza criadora a todos dão de tudo, e largamente.
Visto que a substância da terra, e a água, e os leves sopros do vento e os cálidos vapores de
que parece compor-se todo o Universo, tudo isso consiste em matéria sujeita a nascimento e
morte, deve considerar-se que dessa mesma matéria é formada a natureza de todo o mundo. De
fato, tudo o que nos aparece com partes e membros constituídos por elementos sujeitos a nasci-
mento e morte é também, segundo vemos, de natureza sujeita a nascimento e morte. Por isso,
quando vejo os enormes membros e as partes do mundo serem consurnidos e renascerem, é lícito
concluir que também o céu e a Terra tiveram algum tempo em que principiaram e que serão
destruídos no futuro.
Não creias que neste ponto 7 * eu tenha de deformar os fatos a meu favor por considerar que
são mortais a terra e o fogo, por não duvidar de que perecem a água e os ventos e por ter dito que
tudo nasce e cresce de novo. Primeiro, uma parte considerável da terra, abrasada pelo sol conti-
nuo, batida frequentemente pela força dos pês, solta um nevoeiro de pô e nuvens voadoras que os
fortes ventos dispersam por todo o ar. Também uma parte das glebas é diluída pelas chuvas e os
rios roem as margens que vão raspando. Depois, tudo aquilo que se alimenta e aumenta restitui
a parte que recebeu. E, como parece fora de dúvida que ela é a mãe de todas as coisas e seu
comum sepulcro, temos como conseqiiência que a terra se gasta e, aumentando, recresce.
Quanto ao resto, não há necessidade de mostrar por palavras que o mar, os rios, as fontes,
sempre abundam em águas novas e que perenemente manam as nascentes: por toda parte o decla-
ra a grande carreira das águas. Mas como a água também desaparece, os líquidos nunca são
demais, em parte porque os fortes ventos que varrem a superficie do mar e o etéreo sol que os atrai
com seus raios os vão diminuindo, em parte porque se dispersam cá embaixo pela terra inteira.
Depois, aí se coa de toda impureza e volta para manar a substância da água e se reúne na cabe-
ceira de todos os rios, depois flui sobre as terras numa doce marcha, seguindo o caminho já uma
vez ligeiramente aberto pelas águas.
Falarei agora do ar que na sua totalidade sofre em cada hora inumeráveis transformações.
De fato, tudo aquilo que flui das coisas é logo levado inteiramente ao grande mar aéreo; e se ele
não fizesse nenhuma restituição aos corpos e não reparasse o que vai fugindo, já tudo se teria dis-
sipado e convertido em ar: não cessa, portanto, de nascer das coisas e de nas coisas recair, exata-
mente porque tudo de contínuo flui.
Do mesmo modo a fonte da límpida luz, o Sol etéreo, sem cessar. banha o céu duma luz
Jovem e continuamente sustenta a luz de nova luz. Realmente, todo o fulgor se lhe some, seja o
que for que dele caia. Podes concluí-lo do fato de que, mal as nuvens começam a passar debaixo
do Sol e, por assim dizer, a quebrar os raios da luz, logo a parte inferior deles desaparece na sua
totalidade e a Terra se escurece por toda parte aonde são levadas as nuvens; vês por aqui que as
coisas precisam sempre de um novo esplendor, que o primeiro jato de luz perece logo e que não
haveria maneira de se poderem ver as coisas à luz do Sol, se a fonte da luz a não fornecesse de
contínuo.
E também as luzes noturnas, as que são terrestres, os lustres suspensos, as tochas impreg-
nadas de gordura que no meio da escuridão brilham de fulgores coruscantes, todas elas se apres-
7* Todo o trecho que se segue tende a mostrar que tudo o que existe no mundo está sujeito à morte e que
é por uma renovação, por uma substituição incessante, que tudo conserva a nossos olhos o mesmo aspecto;
Lucrécio mantém-se agora, logicamente, dentro de uma concepção do mundo como descontínuo.
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DA NATUREZA 109
sam da mesma maneira a fornecer nova luz servindo-se do lume: vão depressa, depressa, com trê-
mulos lumes, e a nenhum lugar deixam como se a luz tivesse sido quebrada. A tal ponto se
apressam todos os fogos a esconder, nascendo rapidamente, a morte da chama, Deve-se supor
que, do mesmo modo, nos lançam a sua luz, por meio de frequentes emissões, o Sol, a Lua, as
estrelas: o primeiro ímpeto das chamas perde-se sempre, de modo que se não pode crer que elas
sejam duma força inviolável.
Finalmente, não vês também como as pedras são vencidas pelo tempo, como tombam em
ruínas as altas torres e apodrecem os rochedos, e se abrem fatigados os templos e as estátuas dos
deuses e não pode a santa divindade recuar as fronteiras do destino e bater-se contra as leis da
natureza? Não vemos finalmente os monumentos dos homens caírem em ruínas e perguntar [texto
alterado nos manuscritos] e ruírem dos altos montes pedras soltas e incapazes de agientar e
suportar as fortes forças dum tempo limitado? Realmente não cairiam arrancadas de súbito se por
toda a eternidade tivessem suportado sem tremer todos os ataques dos anos.
Considera, por fim, tudo isto que acima de nós e à nossa volta encerra em seu amplexo a
Terra inteira: se, como dizem alguns, de si procria todas as coisas e as recebe depois de mortas,
é porque é totalmente formado de substância sujeita ao nascimento e à morte: sem dúvida tudo
aquilo que de si próprio aumenta e alimenta as coisas deve diminuir e depois aumentar quando as
recebe.
Além disso, se não houve para a Terra e para o céu nenhum gênesis original, e sempre foram
eternos, por que razão não houve poetas que outras coisas cantassem para lá da guerra de Tebas
e dos funerais de Tróia? Aonde foram perecer tão numerosas vezes os feitos de tantos heróis, e
não florescem inscritos em parte alguma nos eternos monumentos da fama?
Mas, segundo minha opinião, toda a natureza do mundo é recente e nova e não tomou há
muito tempo seus começos. É por isso que algumas artes ainda hoje se aperfeiçoam, que ainda
hoje elas progridem; ainda hoje se fazem acrescentos aos navios e foi há pouco tempo que os mú-
sicos produziram sonoras canções. Finalmente, foi também há pouco que se descobriu esta natu-
reza, esta legalidade das coisas e sou eu próprio que primeiro entre os primeiros me encontro a
poder traduzi-la em nossa língua.
Pode ser que se julgue que já existiu antes tudo isto, mas que pereceram as gerações dos ho-
mens num sopro abrasador ou que tombaram as cidades num grande desastre mundial ou que saí-
ram, de chuvas frequentes, rios destruidores que foram pelas terras e submergiram as cidades: isso
te faria confessar mais uma vez que há também para Terra e céu destruição futura.
Realmente, se na altura em que as coisas são abaladas por tão grandes males e tão grandes
perigos ainda viesse algum desastre mais terrível, então tudo seria uma enorme desgraça, uma
ruína imensa. É pelo mesmo motivo que verificamos entre nós sermos mortais: adoecemos com as
mesmas doenças que tiveram aqueles que a natureza removeu da vida.
Além disso, para que todos os corpos permaneçam eternos, é necessário que, por serem de
sólida substância, repilam os choques e não deixem penetrar em si nada que possa lá dentro disso-
ciar as partes combinadas; é o que sucede com os elementos da matéria, cuja natureza já mostra-
mos ânteriormente. Ou, então, só podem durar por toda a eternidade porque estão livres de cho-
ques: é o que se dá com o vácuo que permanece intato e não é atingido por nenhum golpe. É ainda
possível que isto se dê porque não há à sua volta nenhum lugar aonde as coisas se possam de
qualquer modo retirar e dissolver: é o que sucede com a eternidade do conjunto dos conjuntos,
visto não existir fora nenhum lugar para onde saltem, nem haver corpos alguns que possam cair
sobre eles e dispersá-los com violento choque.
Mas, como ensinei, a natureza do mundo não é formada de substância compacta, visto que
o vácuo está misturado às coisas; também não é como esse vácuo; nem também faltam os corpos
que poderiam, nascendo, por acaso, lá do infinito, arrebatar num turbilhão violento este conjunto
das coisas ou provocar qualquer outro desastre perigoso; também não falta lugar e espaço e
profundidade aonde possam dispersar os fundamentos do mundo, ou qualquer outra força que
possa, abalando-os, destruí-los.
Por isso, a porta da morte não está de modo algum cerrada para o céu ou para o Sol ou para
a Terra ou para as altas ondas do mar: mas permanece aberta, imensa, e espera com sua vasta
fauce. É, portanto, necessário confessar que tudo isto teve um começo; e, porque são de subs-
tância mortal, de nenhum modo poderiam, desde a infinita eternidade, desprezar as válidas forças
do tempo imenso.
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110 LUCRÉCIO |
Finalmente, quando os enormes membros 7 * do mundo lutam entre si com tanta violência,
envolvidos numa ímpia guerra, não vês que pode haver algum fim para tão longo combate? Por
exemplo, quando o Sol e todo o calor tiverem esgotado todos os líquidos. E é o que tentam fazer,
mas ainda não atingiram o seu objetivo, de tal maneira se opõem os rios e ameaçam, por seu turno,”
inundar tudo correndo dos profundos abismos do oceano. Mas é inútil, porque os ventos que var-
rem os mares e o Sol etéreo, absorvendo-os, os vão diminuindo e esperam secá-los antes que a
água possa atingir o objetivo do seu empreendimento. Assim animados em tão grande luta, e com
forças iguais, batem-se entre si pelo domínio de todas as coisas: e já uma vez o fogo os superou,
e já uma vez, segundo é fama, reinou a água sobre os campos.
Efetivamente venceu o fogo, e muitas coisas, lambendo-as, abrasou, quando a violenta força
dos cavalos do Sol, desviando-se do seu caminho, arrebatou Faetonte por todo o céu e por todas
as terras. Mas então o pai onipotente, aguilhoado por uma ira violenta, derrubou dos cavalos ao
solo, com um súbito raio, o ambicioso Faetonte; e o Sol, indo ao encontro do caído, tomou a eter-
na lâmpada do mundo, reuniu os cavalos dispersos, atrelou-os ainda trêmulos, depois,
guiando-os pelo seu caminho, tornou a criar todas as coisas; é isto o que cantaram os antigos poe-
tas gregos. Mas tudo se abate perante um raciocínio perfeitamente verdadeiro: o fogo pode vencer
quando os seus elementos, reunindo-se do infinito, são em número maior; depois, tombam as for-
ças vencidas por qualquer outra causa ou então tudo perece pelos arderites ares.
Também outrora a água, segundo se diz, começou por subir e vencer e destruiu numerosas
cidades dos homens. Depois, logo que se retirou, desviada por qualquer outra causa, a força que
do infinito se juntara, pararam as chuvas e diminuíram os rios a sua força.
Mas vou, agora, expor, em sua ordem, ' º de que maneira aquele conjunto de matéria formou
a Terra e o cêu e as profundidades do mar e as órbitas do Sol e da Lua. De fato, não foi por um
plano nem em virtude de uma inteligência sagaz que os elementos das coisas se colocaram por sua
ordem; não foram também eles que dispuseram os seus movimentos: os elementos das coisas, em
grande número, abalados por choques de muitas espécies, foram sempre levados por seus próprios
pesos e juntaram-se de todas as maneiras e experimentaram todas as coisas que podiam criar-se
pela sua reunião; é por isso que, tendo vagueado durante um tempo imenso, experimentando todas
as espécies de junção e movimento, finalmente constituem aquilo que, depois de pronto, logo se
tona muitas vezes o início dos grandes objetos naturais, da terra, do mar, do céu e da raça dos
seres vivos.
Ainda não se podia ver aqui a roda do Sol voando pelo alto com sua luz ampla, nem os gran-
des astros do mundo, nem o mar, nem o céu, nem finalmente a terra » o ar, nem qualquer outra
coisa semelhante às nossas. Só havia uma tormenta recente, uma certa massa formada de elemen-
tos de toda espécie, a qual combatia discorde, misturando os intervalos, os caminhos, as ligações,
os pesos, os choques, as reuniões e os movimentos, por causa das formas diferentes e das várias
figuras: não podiam, nestas circunstâncias, permanecer juntos nem ter entre si os convenientes
movimentos.
Depois começaram a separar-se as partes deste amontoado, a juntar-se Os iguais aos iguais
e a encerrar o mundo, a dividirem-se os membros, a disporem-se as grandes partes, isto é, a distin-
guir-se da Terra o alto céu, a ir para um lado o mar, de maneira a ficar, com um líquido, à parte,
a ir para outro o fogo de um céu puro e distinto.
Com efeito, a princípio, todos os elementos da terra, em virtude de serem pesados e estarem
presos uns aos outros, juntavam-se no meio e ocupavam todos eles as regiões mais baixas; e quan-
to mais se entrelaçavam e se juntavam tanto mais faziam sair o que devia constituir o mar, os
75 Para Lucrécio, o fim do mundo poderá ser a consegiência natural da luta do fogo e da água, do elemento
quente e do elemento frio; parece-lhe, historicamente, se tal termo pode ser justo, que houve vitórias parciais,
ora do fogo, ora da água, mas que um dia um dos elementos poderá vencer definitivamente. É difícil dizer
até que ponto a idéia sobreviveu nas especulações filosóficas ou pseudofilosóficas baseadas na segunda lei da
termodinâmica (lei da entropia); mas talvez se possa ver nas concepções filosóficas sobre um máximo final
de calor ou de energia desordenada uma idéia semelhante à da possibilidade do fim do mundo pelo seu
abrasamento.
78 Lucrécio explica a seguir a formação do mundo, com os elementos da Terra acumulando-se no centro do
Universo; o Sol, a Lua, os outros astros, formados posteriormente, gravitariam em torno da Terra, como se
sabe, nas hipóteses cosmogônicas mais modernas, o sistema planetário proviria do Sol; quanto aos outros
astros, Lucrécio não os vê indepententes do sistema planetário; mas é possível que a sua idéia de pluralidade
dos mundos esteja de algum modo representada na hipótese atual dos universos-ilhas.
DA NATUREZA 11
astros, o Sol, a Lua e as muralhas do grande mundo. Efetivamente, tudo isto se compõe de germes
lisos e redondos, e de elementos muito mais pequenos que os da terra.
Daí, irrompendo das partes da terra, pelos raros poros, se elevou primeiro o éter cheio de
fogo e consigo levou muitos fogos ligeiros, mais ou menos como vemos muitas vezes, quando os
áureos raios matutinos do radiante Sol se tingem de vermelho com o recente orvalho das ervas
cobertas de pedrarias e exalam sua névoa os lagos e os perenes rios, a tal ponto que parece fume-
gar a própria terra; tudo isto que se levanta se reúne e forma lá em cima, com um corpo denso,
as nuvens que nos ocultam o céu. Foi, portanto, assim que então o liso e volátil éter, tendo-se
condensado, se pôs à volta de tudo, e espalhando-se ao longe, em todas as direções, a tudo abra-
çando com seu ávido abraço, serviu de cerca às outras coisas.
Nasceram depois o Sol e a Lua, cujos globos giram pelos ares intermédios; nem a Terra nem
o grande céu os atraíram, porque não eram tão pesados que se depositassem no fundo, nem tão
leves que pudessem ser levados para as regiões superiores; todavia, de tal modo estão colocados
nos espaços intermédios que giram como corpos vivos e fazem parte de todo o mundo; do mesmo
modo podem, no nosso corpo, ficar alguns membros em repouso, enquanto outros se movem.
Depois de se terem retirado estes elementos, a Terra se abateu no lugar em que se estende
agora a planície azul do mar e encheu os fossos com um salgado abismo. E, de dia para dia, à me-
dida que, à volta, o calor do éter e os raios do Sol, com seus crebros golpes, obrigavam a Terra
a reduzir os seus extremos limites, de modo a que, repelida, se reunisse no meio e se concentrasse
mais; O salgado suor que lhe saía do corpo aumentava, manando, o mar e os nadantes campos, e
mais numerosos também escapavam e voavam os elementos do vapor e do éter, e adensavam no
alto, longe da Terra, os fulgentes recintos do céu. Formavam-se as planícies, e com os altos mon-
tes iam crescendo as elevações; realmente, as pedras não podiam baixar-se nem podia todo lugar
deprimir-se por igual.
Assim, pois, se estabilizou a massa da Terra, ?” com seu denso corpo, e, por assim dizer,
todo o lodo do mundo foi correndo por seu peso para o fundo e aí ficou depositado como um sedi-
mento; depois o mar, depois o ar, depois o próprio éter cheio de fogos, ficaram todos puros, pela
ligeireza da sua constituição, e cada um mais leve do que o outro; por cima de todos, o mais leve,
o ligeiríssimo éter, faz mover as suas auras aéreas sem que misture às auras do ar o seu ligeiro
corpo; deixa que elas sejam todas agitadas pelos violentos turbilhões, deixa que as perturbem as
incertas procelas, enquanto ele próprio leva seus fogos com suavidade e segurança. E que o éter.
possa caminhar com marcha regular e certa é o que nos demonstra o Ponto, mar que flui com
maré determinada e conserva na carreira o mesmo ritmo.
Cantemos agora a causa do movimento dos astros. Primeiro, se gira o grande orbe do céu,
tem de se aceitar que dum e doutro lado oprime os pólos uma certa massa de ar que se mantém
de fora e o fecha a um e outro; depois, que existe uma outra corrente que, pelo lado de cima, se
dirige ao lugar aonde volvem, brilhando, os astros do eterno mundo; ou, então, que outra, por
baixo, move fazer o orbe em sentido contrário, exatamente como vemos os rios fazer mover as
rodas das azenhas.
É também possível que todo o céu esteja parado, enquanto se deslocam os astros luminosos,
quer porque estejam incluídos no espaço os rápidos fogos do céu e procurando o seu caminho se
movam à volta, levando consigo os lumes pelas abóbadas do céu; quer porque uma corrente de ar
se precipite de fora e, movendo-os, faça girar os lumes; quer, ainda, porque eles podem deslizar
por si próprios, por todo o lugar aonde o alimento os chama e os incita, quando apascentam por
todo o céu os seus corpos de chama.
É dificil afirmar qual destas coisas se passa no mundo; mas o que eu ensino é o que é possí-
vel que aconteça no conjunto dos vários mundos criados de vários modos, e por isso vou expondo
as várias causas que podem, no conjunto, dar origem ao movimento dos astros; de todas, só uma
poderá ser a causa que efetivamente dê movimento aos astros; mas não pode ensinar qual delas
seja, esta ciência que só progride passo a passo.
o Quatá à causa do movimento dos astros, Lucrécio, seguindo um hábito dos epicuristas, apresenta duas
hipóteses, a de que sejam arrastados pelo movimento da esfera celeste e a de que, ficando o céu imóvel, te-
nham os astros movimento independente; a causa deste movimento poderia ser um movimento do éter que
procura uma saída, uma corrente de ar vinda do exterior ou um movimento próprio dos astros que iriam bus-
cando o êter de que se alimentam.
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Sto LUCRÉCIO
Para que a Terra esteja em repouso 'º na região média do mundo, é necessário que o peso
diminua e se desvaneça aos poucos e que tenha por baixo uma estrutura diferente ligada desde a
origem e intimamente adaptada às partes aéreas do mundo com as quais vive em conjunto. É por
isso que não pesa sobre o ar nem o comprime, exatamente como os membros não têm peso para
nenhum homem, nem a cabeça pesa sobre o pescoço, nem damos por que todo o peso do corpo
assenta sobre nossos pés; mas tudo o que vem de fora nos incomoda com seu peso quando colo-
cado sobre nós, embora ele seja muito menor. Tanto importa considerar o que pode cada uma das
coisas. Assim a Terra não é alguma coisa de estranho que de repente se tenha ajuntado e apresen-
tado às alheias auras: foi concebida ao mesmo tempo desde a origem do mundo e é dele uma parte
determinada, exatamente como os nossos membros o são de nós.
Alêm disso, quando a Terra é abalada de repente por um trovão violento, ea por sua vez,
a tudo abala com o seu movimento; ora, não o poderia fazer de modo algum se não estivesse liga-
da ao céu e às partes aéreas do mundo. De fato, estão presos uma e outro por comuns raízes, estão
ligados desde o princípio dos tempos e estreitamente unidos.
E não vês também como a tenuíssima força da alma nos sustenta o corpo, que é de tão gran-
de peso, visto estarem ligados e estreitamente unidos? Depois, como é possível levantar-se o corpo
com um ligeiro salto, senão porque a força da alma governa os membros? Não vês como uma
natureza fraca pode ter tanta força, desde que esteja ligada a um corpo pesado, como o ar está li-
gado às terras e a nós a força de alma?
Nem a roda do Sol nem o seu calor º podem ser maiores ou menores do que parecem aos
nossos sentidos. Efetivamente, qualquer que seja a distância a que um lume lance a sua luz e nos
exale para os membros cálido vapor, nada o intervalo diminui ao corpo das'chamas, nem pelo que
se vê é mais pequeno o fogo. Depois, como o calor e o lume do Sol, derramando-se, chegam até
os nossos sentidos e acariciam a Terra, deve ter o Sol, na verdade, a forma e o contorno que se
lhe vêem, sem que nada se lhe possa aumentar ou diminuir.
Também a Lua, quer ilumine a Terra com uma luz emprestada, quer lance de seu corpo uma
“luz própria, também a Lua, haja nisto o que houver, não se desloca com uma figura maior dó que
aquela que na aparência se distingue com os nossos olhos. Todos os objetos que vemos ao longe
através de uma grande espessura de ar aparecem com aspecto confuso, antes de diminuírem por
pouco que seja. Mas, como a Lua apresenta um claro aspecto e uma figura determinada, é força
que tenha, qualquer que seja o seu feitio, o tamanho com que a vemos aparecer no céu.
O mesmo acontece finalmente com todos os lumes do céu que nós podemos ver aqui da
Terra, enquanto é clara a sua cintilação e enquanto se vê o seu ardor: pouco mudam o seu con-
tono para uma ou outra dimensão e segundo o seu afastamento; é lícito concluir que só podem
ser numa pequeníssima parte, numa parte ínfima, maiores ou menores do que aquilo que parecem.
Também não é de admirar que aquele solzinho tão pequeno possa emitir tão grande quanti-
dade de luz de maneira a encher, a inundar os mares e a terra inteira e o céu e a banhar tudo com
seu cálido vapor. É possível que todo o nosso mundo só tenha essa fonte donde pode à larga
manar e correr a luz, porque é ali que de todo o mundo se vêm juntar os elementos de calor, ali
que seus impulsos confluem, e dali, dessa única origem, que todo o ardor fiui. Não vês tu que
pequena fonte de água é necessária para largamente regar os prados, para até se inundarem os
campos?
É também possível! que do fogo do Sol, e sem que ele seja muito abundante, possa o ardor
comunicar-se ao ar com seus cálidos lumes, se acaso o ar dá qualquer oportunidade, qualquer
possibilidade, para que se incendeie ao ser tocado por um pequeno lume, é o mesmo que sucede
com as espigas e o colmo, quando vemos uma só faísca provocar um inc êndio.
E é possível ainda que 0 Sol, brilhando alto com sua rósea lâmpada, possua à sua volta um
grande fogo de raios invisíveis, que nenhum fulgor denuncie e que, cheio de calor, lhe aumente a
força dos raios. -
Também não é fácil e simples explicar de que maneira O Sol, deixando o seu pouso de verão,
dirige o curso para o trópico de inverno, o Capricórnio, e depois voltando se encaminha para as
metas solsticiais do Câncer, e de que maneira a Lua parece percorrer num mês o espaço em que
78 O sustentar-se a Terra no espaço, no centro do Universo, é probiema que Lucrécio resolve supondo que
na parte inferior a Terra é feita de substância que perfeitamefte se liga à do ar em volta; a Terra, portanto,
não seria esférica. 2
*º Em muitos pontos (grandeza real e aparente dos astros, esfericidade da Terra, origem do luar, etc.) a
astronomia epicurista representa um retrocesso sobre astronomias anteriores.
DA NATUREZA . 113
o Sol consome o tempo de um ano. Não se pode, repito, encontrar para estes fenômenos uma.
causa simples.
Primeiro é possível que tudo seja como o declara a divina opinião do grande Demócrito, isto
é, que tudo quanto está mais vizinho da Terra menos facilmente possa ser levado pelo turbilhão
do céu. Diminuem e se desvanecem as suas rápidas e violentas forças, à medida que baixam, e por
isso fica o So] com os astros que deixou para trás, porque está menos alto no céu do que as arden-
tes estrelas.
E isto sucede ainda mais com a Lua: como a sua carreira é mais baixa e estã mais longe do
céu, mais próxima da Terra, tanto menos pode rivalizar em velocidade com as estrelas. Como é
mais fraco o movimento que a arrasta, por estar mais baixa do que o Sol, tanto é mais fácil a
todos os astros alcançá-la e ir-lhe além. É por isso que ela nos parece voltar, com maior mobili-
dade, a cada uma das estrelas: mas são os astros que a alcançam.
Também é possível que um ar, alternado em tempo certo, venha de cada lado do mundo, de
maneira a poder arrancar o Sol dos astros estivais e levá-lo até as voltas invernais e ao gélido frio
e de maneira a fazê-lo voltar desde as gélidas sombras do frio até as partes estivais e aos ardentes
astros.
Pode-se também julgar por igual raciocínio que a Lua e as estrelas que giram em grandes ór-
bitas durante muitos anos sejam levadas a um e outro lado pelos alternos ares. Não vês também
como as nuvens vão para diversos lados, para cima e para baixo, levadas pelos diversos ventos?
Por que razão não podiam os astros que vão pelos grandes orbes do éter ser levados por correntes
diversas entre si? E quando a noite cobre as terras com grande escuridão, é porque o Sol tocou
com a sua longa carreira os últimos lugares do céu, e lânguido exalou os seus focos abalados pelo
caminho e derruídos pela grande quantidade de ar, ou porque o obrigou a passar a sua, carreira
para debaixo das terras a mesma força que ihe levou o globo por cima das terras.
Também num tempo certo leva Matuta pelas regiões do éter a rósea manhã e espalha os seus
clarões, ou porque o próprio Sol, sempre o mesmo, voitando de debaixo das terras, começa a lan-
çar os seus raios como experimentando o céu, ou porque os fogos se reúnem, e costumam, a uma
hora determinada, juntar-se muitos germes de calor que fazem gerar-se sempre os novos lumes do
Sol; é o que sucede, segundo se diz, nos altos montes do Ida, donde se vêem os fogos dispersos da
luz que nasce reunirem-se depois como que num globo e formar um orbe perfeito.
Todavia, não há nada de admirável no fato de os germes, estes germes do fogo, se poderem
reunir em tão certo tempo e reparar o brilho do Sol. Efetivamente, vemos muitas coisas que todas
elas acontecem, e em tudo, em tempo certo. Em tempo certo florescem as plantas e em tempo
certo deixam elas cair as suas flores. E não é em tempo menos certo que ordena a idade que nos
caiam os dentes e que na puberdade se cubra o impúbere dum brando vestuário e igualmente,lhe.
apareça nas faces uma delicada barba. Finalmente, os raios, a neve, as chuvas, as nuvens e os ven-
tos não sucedem em épocas do ano demasiado incertas. De fato, tais foram os primeiros elemen-
tos das causas e tais sucederam as coisas do mundo desde a sua primeira origem: por isso voltam
também segundo uma ordem determinada.
Do mesmo modo, é possível que vejamos crescer os dias e diminuir as noites, ou -então encur-
tarem-se os dias ao passo que tomam as noites seus aumentos, porque o mesmo Sol, debaixo das
terras e nor cima delas, correndo pelas regiões do céu, faz cursos desiguais e divide a órbita em
partes não idênticas, colecando de um lado aquilo que retira do outro, descrevendo para isso uma
curva maior, nas mesmas proporções, até que chegue àquele ponto do céu em que 0 fulcro do ano
iguala aos dias as noturnas sombras.
E
A meio do curso entre o sopro do Aquilão e o do Austro, indica o céu com igual distância
as duas metas por causa da posição da órbita dos astros dentro da qual o Sol, deslizando, conclui
o seu tempo, iluminando com tuz oblíqua as terras e o céu, como o expõe a explicação daqueles
que assinalaram todos os lugares do céu marcados pela disposição das estrelas.
Mas também é possível que o ar seja mais espesso em certos lugares e que demore debaixo
das terras o trêmulo facho do fogo, de maneira que ele não possa penetrar facilmente e emergir
para nascer; seria por isso que as noites se demoram mais longamente durante o tempo de invemo
e tarda a brilhante radiação do dia. Ou então é porque, segundo as partes do ano, costumam reu-
nir-se mais cedo ou mais tarde os lumes que fazem o Sol surgir de um lugar determinado; neste
caso, parecem ter razão...
(Lacuna)
Pode a Lua brilhar batida pelos raios do Sol e de dia para dia mais voltar para nós a sua luz,
à medida que se afasta da órbita do Sol até lhe brilhar plenamente, bem de frente, e ver o seu declí-
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114 LUCRÉCIO
nio lá de cima quando nasce. Depois, voltando para trás, deve, por assim dizer, esconder pouco
a pouco a mesma luz, à medida que se aproxima do fogo do Sol, vindo do outro lado do círculo
dos astros. Esta é a opinião dos que imaginam ser a Lua semelhante a uma péla e ter seu curso
por baixo do Sol.
É possível também que ela vá girando com o seu próprio lume e apresente vários aspectos do
seu esplendor. Pode ser que outro corpo, levado juntamente com ela e girando no mesmo movi-
mento, lhe ande no encalço e se interponha, sem que seja possível distingui-lo, por ser levado sem
luz alguma.
Pode também rodar sobre si própria, como, por exemplo, uma espécie de bola, tingida na
metade por uma luz resplandecente, e produzir, girando o globo, as formas variadas, até que nos
mostre e apresente aos nossos olhos a parte que está inteiramente cheia de luz; depois, a pouco e
pouco, volta para trás e retira a parte luminosa do volume da esfera. É esta a babilônica doutrina
dos caldeus que tende a refutar a arte dos astrônomos, como se não pudesse acontecer aquilo por
que cada qual se bate e houvesse razão para mais se adotar uma doutrina do que a outra.
Finalmente, por que haveria de ser impossível que se criasse uma nova Lua, com uma suces-
são regular de formas e figuras determinadas, desaparecendo em cada dia a que tivesse sido cria-
da, para em seu lugar outra nascer? É difícil demonstrar o contrário, vencendo com palavras,
quando é certo que muitas outras coisas se criam pela mesma ordem determinada.
Vão juntamente a primavera e Vênus, e logo antes o alado arauto de Vênus, enquanto junto
dos passos de Zéfiro, Flora, sua mãe, cobre todos os caminhos de cores egrégias e de perfumes.
Seguem-se o árido calor e a sua companheira, a poeirenta Ceres e os sopros etésios dos Aquilões.
Vem depois o outono e juntamente Évio Evan. Seguem-se outros tempos, outros ventos, o Vul-
turno de altos trovões e o Austro com a força dos seus relâmpagos. Finalmente o frio traz as
neves e o inverno a gelada preguiça; logo depois, castanholando os dentes, vêm os arrepios. É
menos de admirar que a Lua nasça em tempos certos e em tempos certos seja destruída, quando
em tempo certo tantas coisas podem acontecer.
Pelo que se refere às faltas do Sol e aos desaparecimentos da Lua, podem apresentar-se quan-
to às causas várias maneiras de pensar. Por que motivo pode a Lua privar a Terra da luz do Sol
e interpor a elevada cabeça entre ele e as terras, apresentando aos seus raios um orbe opaco, e não
se pode admirar que o faz um outro corpo que giraria sempre sem luz? Não poderia também o Sol
em determinado tempo abandonar, cansado, os seus fogos, para renovar depois a sua luz, em
-seguida a ter passado pelos lugares do ar que são inimigos das suas chamas, que fazem perecer e
extinguir os fogos? E por que motivo só a Terra poderá despojar de luz a Lua e oprimir o Sol
colocando-se-lhe por cima, na altura do mês em que a Lua percorre as rígidas sombras do cone?
Por que não há de poder, nesse mesmo tempo, vir outro corpo por debaixo da Lua ou por cima
do orbe do Sol interrompendo-lhe os raios e a profusa luz? E depois, se a Lua fulge com o seu pró-
prio brilho, por que motivo não há de poder enfraquecer num determinado lugar do mundo, quan-
do percorre as regiões inimigas de seus próprios lumes?
E agora, já que expliquei de que maneira pode suceder cada coisa através dos espaços azuis
do grande mundo, para que possamos conhecer os vários cursos do Sol e os caminhos da Lua e
a força e a causa que os provocam e a forma por que podem desaparecer pelo ocultamento da luz
cobrindo de treva a Terra que o não esperava, à maneira de olhos que se fechassem e se abrissem
de novo para ver os lugares iluminados por sua clara luz, vou, então, voltar à juventude do mundo
e aos moles campos da Terra e às novas produções que eles julgaram por bem fazer surgir nas
margens da luz e confiar aos incertos ventos.
Primeiro produziu a terra,ºº à volta das colinas e por todos os campos, as espécies de ervas
com seu verde esplendor; com sua cor verdejante brilharam os prados flcridos e foi concedido às
várias árvores crescer à compita pelos ares, sem que nenhuma rédea as contivesse. E assim como
primeiro aparecem as penugens, os pêlos e as sedas nos membros dos quadrúpedes e no corpo das
aves de asas poderosas, assim também a jovem terra produziu primeiro as ervas e os arbustos e
criou depois, de várias maneiras, numerosas gerações mortais de formas variadas.
Efetivamente os animais não podem ter caído do céu nem.o que é terrestre pode provir das
8º O quadro dos princípios da vida na Terra é um tanto confuso quanto à cronologia: parece, no entanto,
que Lucrécio põe como tendo aparecido primeiro a vida vegetal, depois a vida animal; da vida vegetal teriam
surgido logo de início ervas e arbustos, dos animais, as aves; a raça humana seria quase contemporânea,
com a vida facilitada pelo clima quente e úmido. Como se sabe, a paleontologia não justifica nenhuma das
idéias de Lucrécio.
DA NATUREZA 15
lagoasisalgadas. Resta, portanto, aceitar que merecidamente recebeu a terra o nome de mãe, visto 795
que tudo veio a nascer da terra. E, mesmo agora, muitos animais saem da terra gerados pelas chu-
vas e pelo cálido vapor do Sol; não há, pois, que estranhar que muitos mais e muito maiores te-
nham nascido quando estavam em plena juventude a Terra e o éter. 800
A princípio, as espécies aladas e as várias aves abandonavam os ovos e eclodiam na época
primaveril, exatamente como agora as cigarras abandonam no verão espontaneamente os seus
redondos envoltórios e procuram o alimento e a vida. Foi então que a terra produziu primeiro as s05
gerações mortais, visto que havia no ar em grande quantidade calor e umidade.
Em toda parte em que o lugar dava qualquer oportunidade, apareciam úteros ligados à terra
por meio de raízes; logo que em devido tempo eles se abriam pelo esforço dos filhotes, já em idade 810
de fugirem ao úmido e procurarem os ares, para eles dirigia a natureza os canais da terra, obri-
gando-a, pelas veias abertas, a lhes escorrer um líquido semelhante a leite, como acontece agora
às mulheres paridas que se enchem de doce leite, visto se lhes dirigir para os peitos toda a força
do alimento.
A terra dava aos meninos o sustento; o calor, vestuário, e as ervas numerosas e cheias de
branda lanugem lhes forneciam um leito. De resto, a juventude do mundo não trazia ainda os
duros frios, nem o demasiado calor, nem os ventos de grandes forças. Tudo por igual vai cres- 820
cendo e ganhando o seu vigor.
É por tudo isto que, digamo-lo ainda uma vez, a terra merecidamente recebeu o nome de
mãe: ela própria criou a raça humana e produziu, por assim dizer, em tempo determinado toda a
raça de animais que vagueia e folga pelos montes e ao mesmo tempo as aves aéreas de variadas 82
formas. Mas, como deve haver algum termo para a fecundidade, por fim parou à maneira da mu-
lher cansada pela longa idade.
O tempo modifica a natureza de todo o mundo, um estádio se sucede a outro, segundo uma
ordem determinada, e nada fica semelhante a si próprio: tudo passa, a tudo a natureza muda e 830
obriga a transformar-se. Apodrece um corpo e se enfraquece de velhice e logo outro cresce e sai
daquilo que se desprezava. Assim, pois, modifica o tempo a natureza de todo o mundo e passa a 835
terra de um estádio a outro: acaba por não poder o que já pôde e por ser capaz do que lhe era
impossível.
Foi nessa altura que a Terra*' tentou criar numerosos monstros de estranho aspecto e mem-
bros, por exemplo, o. andrógino, intermediário entre os dois sexos, e que não é nem um nem outro
e que de ambos se afasta, e Os seres que não tinham pés ou que não tinham mãos, e também os s40
que não tinham boca e eram mudos e os que se encontravam cegos e sem face e os que tinham os
membros inteiramente presos ao corpo e não podiam fazer coisa alguma, nem andar nem evitar
o mal nem apanhar aquilo que seria útil.
Outros monstros criava e outros portentos, e tudo inútil porque a natureza lhes impediu o 345
crescimento e não puderam alcançar a desejada flor da idade nem encontrar alimento nem unir-se
pelo ato de Vênus. Vemos efetivamente que deve existir um concurso de circunstâncias para que
seja possível às gerações o propagar-se; é necessário primeiro que haja alimentos e depois que 850
exista para os elementos seminais uma saída por onde possam correr dos membros cansados;
para que a fêmea se possa juntar aos machos é preciso que tenha cada um o que permita a troca
de gozos. g
Tiveram então que desaparecer muitas raças de seres vivos que não puderam, reproduzindo- 855
se, dar origem a uma descendência. Todas aquelas que vês se alimentarem das auras vitais têm,
ou a manha, ou a força, ou então a mobilidade que, desde o princípio, protegeram a raça e a
conservaram. Há também muitas que nos foram recomendadas pela sua utilidade e que se conser- 860
vam entregues à nossa guarda.
A cruel espécie dos leões e as gerações bravias foram guardadas pela força, as raposas pela
manha e os veados pela fuga. Mas os cães de sono leve e coração fiel, a raça que nasceu de germe 865
cavalar, os lanígeros gados e as gerações corníferas, todas elas foram, ó Mêmio, entregues à tutela
dos homens. Trataram de fugir das feras, de conseguir a paz, de obter, sem fadiga sua, uma farta
alimentação, a qual nós lhes damos como prêmio da sua utilidade. Mas todos aqueles a quem a 870
815
ed]
81 Lucrécio tem a noção da existência de espécies diferentes das atuais; no entanto, parece que não se
devem interpretar tais concepções no sentido que lhe dá a paleontologia: os exemplos apresentados pelo
poeta são propriamente do domínio da fábula e fazem parte do corpo de lendas tradicionais da Antiguidade.
Lucrécio não deixa, porém, de combater a crença nos centauros, quimeras e monstros semelhantes, como Já
fizera atrás. O andrógino era metade homem e metade mulher.
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116 LUCRÉCIO |
natureza não concedeu nada disto nem podiam viver por si próprios nem trazer-nos qualquer utili-
dade, em troco da qual nós assegurariamos a segurança da nossa proteção e o alimento, decerto
875 ofereciam aos outros uma presa vantajosa, visto se encontrarem encadeados pelos laços do desti-
no, até o dia em que a natureza levou toda a raça ao extermínio.
Mas não houve centauros nem podem em tempo algum existir conjuntos. de dupla natureza
880 e de dois corpos, formados de membros díspares, nem haver forças desiguais. E qualquer o pode
reconhecer pelas razões seguintes, mesmo que seja de espírito obtuso. Primeiro, ao fim de cerca
88s detrês anos, está o cavalo em pleno vigor, mas não o está uma criança; mesmo nesta idade, pro-
curará em sonhos a ponta do seio que o amamentou. Depois, quando o cavalo começa a não ter
já as mesmas forças vigorosas por causa da idade e lhe falham os membros e o deserta a fatigada
vida, então floresce para o menino o tempo da sua juventude e lhe veste as faces uma branda
penugem.
890 Não julgues, pois, que possam ter existido ou existir centauros provenientes de germe de
homem e germe de cavalo, ou Cilas de corpos meio marinhos e rodeadas embaixo de raivosos
895 cães, ou qualquer outra coisa deste gênero, desde que a vejamos com membros discordantes. De
fato, não florescem a par, nem os corpos lhes tomam vigor ao mesmo tempo, nem simultanea-
mente os atinge, a velhice; também não é igual neles o ardor de Vênus nem têm os mesmos costu-
900 | mes, nem lhes correm pelos membros os mesmos prazeres; muitas vezes engorda os animais de
barba a mesma cicuta que é para o homem um terrível veneno. E, como a chama costuma carbo-
nizar e abrasar não só os fulvos corpos dos leões como também tudo o que na terra existe de vís-
905 - cera ou de sangue, como é que poderia acontecer que houvesse alguma coisa de três corpos, na
frente um leão, atrás um dragão, no meio realmente uma quimera, lançando do corpo, pela boca,
uma terrível chama?
Portanto, aquele que imagina que, por ser nova a Terra, e por ser recente o céu, poderiam ter
910 surgido animais deste gênero e se apóia, para isso, só nesse nome vão de juventude, também pode,
do mesmo modo, afirmar muitas coisas, por exemplo, que corriam por toda parte pelas terras rios
de ouro, que as flores das árvores costumavam ser pedras preciosas e que nascera um homem de
915 tão prodigiosos membros que podia, só por um esforço dos pés, transpor o fundo mar e fazer, com
as mãos, que à sua volta girasse todo o céu.
Do fato de ter havido nas terras muitos germes de coisas no tempo em que a terra produziu
Os primeiros animais não se pode concluir que se tenham podido gerar por uma conjunção de par-
920 tes de animais criaturas tão híbridas; efetivamente, tudo aquilo que ainda agora abunda pelas ter-
ras, as espécies de ervas e os frutos e as vigorosas árvores, não pode aparecer em confusão, mas
cada uma surge segundo a sua lei e todas elas, por especial determinação, conservam as suas
diferenças.
925 Mas a raça humana que houve*? naqueles campos foi muito mais dura, como era natural,
dado que a tinha criado uma dura terra; tinha como fundamento ossos rnaiores e mais sólidos e
as carnes estavam ligadas por fortes nervos, de modo que nem os impressionava facilmente ou o
930 calorouo frio ou a novidade da comida ou qualquer das ruínas do corpo. E, enquanto muitos lus-
tros se desenrolavam pelo céu marcados pelo Sol, levavam eles uma vida errante à maneira dos
animais bravios.
Não havia quem vigorosamente guiasse o curvo arado nem se sabia amansar os campos com
935 o ferro; nem enterrar no solo novas mudas, nem cortar com as podoas os ramos velhos das altas
árvores. O que o sol e as chuvas tinham dado, o que espontaneamente tinha criado a terra, basta-
va como oferta para lhes aplacar o peito. Na maior parte das vezes sustentavam o corpo com as
940 | bolotas dos azinhos; e também naquele tempo produzia a terra em maior quantidade e maiores as
82 A idéia de homens primitivos de grandes esqueletos não concorda com os dados atuais da antropologia
pré-histórica; a duração média da vidaera também muito inferior à do homem contemporâneo. O quadro
geral da vida do homem pré-histórico tem muitos pontos de contato com a visão da Idade de Ouro familiar
aos poetas da Antiguidade; distingue-se, contudo, por certos pormenores, como o da força primando ao sen-
timento da fraternidade e de organização de grupo. Embora não seja inteiramente legítima a comparação dos
primitivos atuais com os primitivos prê-históricos, a etnologia parece ir neste ponto contra Lucrécio: a Idade
. de Ouro deve ter realmente existido, como existe nos grupos de primitivos atuais que se puderam estudar; a
transformação de vida, a passagem ao tipo de sociedade que conhecemos, e que fez ter sobre a natureza hu-
mana idéias não autorizadas pelos fatos, parece ter sido devida à modificação do conceito de propriedade,
ou, antes, ao aparecimento do conceito de propriedade; é, porém, muito possível que o aparecimento deste
conceito seja, por sua vez, a conseguêncca de um fenômeno de caráter biológico, o que ligaria toda a questão
às idéias da Darwin, imediatamente, e às de Lamarck, em perspectiva mais larga.
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DA NATUREZA Rg
bagas que se vêem agora no inverno tingir-se, ao amadurecerem, da cor purpúrea. Além disto, a
florida juventude do mundo produzia nessa altura alimentos grosseiros que eram bastantes para
os míseros mortais.
Os rios e as fontes os chamavam para aplacarem a sede, como agora as águas, correndo do
cimo dos altos montes, fazem apelo para que se dessedentem as gerações das feras. Finalmente,
como andavam errantes, conheciam os silvestres abrigos das ninfas, donde sabiam que fluía,
lavando sem cessar os úmidos rochedos, por cima do musgo verde e gotejante, uma água rápida
e clara; e sabiam das que irrorapem e se derramam em campo aberto.
Não sabiam tratar ainda os objetos pelo fogo, nem fazer uso das peles, nem vestir o corpo
com os despojos das feras; habitavam as florestas, os cavos montes e os bosques e, forçados como
estavam a evitar as chicotadas dos ventos e as chuvas, escondiam com ramagens os membros
esquálidos.
Não podiam compreender o bem comum nem sabiam usar entre si de quaisquer costumes ou
de leis. Cada um levava espontaneamente a presa que a sorte lhe oferecia, porque estava habi-
tuado a usar da sua força e a viver apenas para si.
Vênus juntava pelos bosques os corpos dos amantes, quer houvesse efetivamente um desejo
mútuo, quer a violenta força do homem e a paixão dominadora, quer uma recompensa, bolotas,
bagas ou frutas escolhidas.
Confiados no vigor admirável das mãos e dos pês, perseguiam as gerações silvestres dos ani-
mais bravios, atirando-lhes pedras ou com o peso enorme das clavas; a muitas venciam, a poucas
evitavam com seus esconderijos semelhantes aos javalis cobertos de secas; estendiam nus no solo
os rudes membros, de cada vez que a noite vinha e os tomava, e punham à volta ramos e folhas.
Não procuravam, em clamores pelos campos e errando, cheios de medo, pelas sombras
noturnas, o Sole o dia: ficavam calados e mergulhados no sono até que o Sol, com o seu róseo
facho, trouxesse a luz ao céu; acostumados desde pequenos a ver sempre as trevas e a luz surgi-
rem em tempos alternados, não tinham nada que pudesse espantá-los ou que pudesse fazê-los des-
confiar de que as terras ficariam para sempre mergulhadas numa noite eterna, por ter sido rouba-
da a luz do Sol.
O que mais os preocupava era a raça das feras, que sempre tornava perigoso o descanso para
aqueles infelizes; expulsos de casa, fugiam de seus tetos de pedra quando chegava o espumante
javali, ou um vigoroso leão; e a horas intempestivas da noite tinham de ceder a estes hóspedes ter-
ríveis as suas camas juncadas de ramagens.
Não era então mais frequente do que é hoje que as gerações mortais abandonassem com
lamentos as doces luzes da vida. Só havia mais quem fosse apanhado como um pasto vivo pelas
feras e, tragado pelos dentes, enchesse de gemidos as florestas, os bosques e os montes, ac ver as
vivas vísceras se enterrarem num vivo túmulo. Outros, a quem a fuga salvara com o corpo meio
comido, punham as trêmulas mãos sobre as terríveis feridas e com tremendos gritos chamavam
pelo Orco, até que os privavam da vida tremendas convulsões, e sem socorro algum, sem saberem
o que haviam de fazer às suas feridas.
Mas não havia num só dia a morte de milhares de homens arregimentados debaixo de ban-
deiras, nem os revoltos plainos do mar partiam nos rochedos os navios e os homens. Era em vão,
inutilmente, e sem fim, que na maior parte das vezes o mar se levantava colérico ou, sem razão,
depunha as suas cóleras inanes; e também não podia seduzir ninguém a traidora sedução do mar
tranquilo com suas ondas ridentes. Estava ainda nas trevas a funesta arte da navegação. Depois,
a penúria de alimentos dava à morte os membros enfraquecidos, ao passo que hoje é a abundância
que nela os mergulha. Muitas vezes, porque o não sabiam, a si próprios administravam veneno;
agora mais hábeis, administram esse veneno aos outros.
Em seguida, depois que prepararam cabanas, peles e o lume, e depois que a mulher, ligando-
se ao marido, (Lacuna) entrou em matrimônio, e viram nascer a prole sua descendente, então
começou o gênero humano a abrandar. O fogo tomou-lhes os corpos sensíveis ao frio e menos
capazes de suportá-lo só com o abrigo do céu; Vênus diminuiu-lhes as forças e os meninos, com
suas carícias, facilmente quebraram a dura natureza de seus pais.
Foi também por essa altura que a amizade começou a juntar os vizinhos entre si, pelo desejo
que tinham de não se prejudicar nem de usar de violência uns contra os outros; recomendaram-se
as mulheres e a raça feminina, balbuciando e exprimindo por gestos que era justo cuidar-se dos
mais fracos. Não é que a concórdia pudesse nascer em todos os casos, mas uma boa e grande
parte conservava fielmente os. seus tratados; caso contrário, já todo o gênero humano teria desa-
parecido, nem poderia a descendência ter-se propagado até hoje.
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118 LUCRÉCIO
Quanto aos vários sons** da linguagem, foi a natureza que obrigou a emiti-los e foi a utili-
dade que levou a dar nomes às coisas; é do mesmo modo que vemos os meninos recorrerem ao
gesto por não saberem pronunciar as palavras apontando com o dedo os objetos que estão presen-
tes. Sente, de fato, cada qual o uso que pode fazer das suas capacidades. Ainda antes que os cor-
nos, nascendo, façam saliência na fronte do vitelo, já ele saber atacar e perseguir, iracundo e cheio
de hostilidade. Os filhotes de panteras e leões sabem defender-se com as garras, os pés e as mordi-
delas, quando ainda mal lhes apareceram os dentes e as unhas. Vemos depois como a raça das
aves se fia nas asas e pede às penas um auxílio ainda trêmulo.
Pensar que alguém podia ter distribuído nomes às coisas e que depois teriam os homens
aprendido esses primeiros vocábulos é realmente ignorar tudo. De fato, como poderia ele ter assi-
nalado tudo com palavras e ter emitido os vários sons de uma língua, quando se supõe que os ou-
tros eram por esse tempo incapazes de fazer o mesmo? Além disso, se os outros não tivessem
usado de palavras entre si, donde teria vindo a noção de utilidade, e donde lhe teria sido dado o
primeiro poder para que ele soubesse e visse no seu espírito aquilo que pretendia fazer?
Depois, não podia um só dominar e vencer muitos, de maneira a que quisessem aprender os
nomes das coisas. Por outro lado, não é fácil ensinar de qualquer modo e persuadir os surdos
âquilo que é necessário que se faça; efetivamente nem obedeceriam nem permitiriam, fosse como
fosse, que os ouvidos lhes fossem magoados em vão pelos sons que ninguém tinha ouvido.
Finalmente, que há de tão estranho no fato de o gênero humano, que tinha força de voz e lín-
gua, marcar as coisas com várias palavras, segundo as várias sensações, quando os mudos ani-
mais, quando as gerações das feras costumam soltar gritos diferentes e variados quando têm
medo, ou quando sentem dor, ou quando lhes entra o prazer? Tudo isto se pode reconhecer com
exemplos bem sabidos.
Quando os cães molossos principiam a irritar-se e lhes tremem os lábios moles, desnudando
os duros dentes, os sons com que nos ameaça a raiva reprimida são muito diferentes de quando
ladram e enchem tudo com seus latidos. Quando se pôem a lamber brandamente com a língua os
seus cachorros ou quando os derrubam, brincando com as patas e, ameaçando-os de os morder,
mas tendo cuidado com os dentes, fingem que os devoram, acariciam-nos com ladridos que são
também muito diferentes de quando ladram sozinhos à porta das casas ou de quando, chorando,
fogem às pancadas, baixando o corpo. Finalmente, não parecem diferir os nitridos, quando o
cavalo, na flor da idade, se precipita entre as éguas, acicatado pelo alígero amor e, com as narinas
dilatadas, freme pronto aos combates, ou quando outra emoção lhe abala os membros?
Também a raça alada das várias aves, os açores, os abutres e os petréis, que nas ondas mari-
nhas vão procurar entre a água salgada o alimento e a vida, têm em certo tempo vozes muito dife-
rentes de que quando lutam por comida e as presas se defendem. Há outros que mudam segundo
os tempos os seus cantos roucos, como, por exemplo, as velhas gerações de gralhas e os bandos
de corvos quando se diz que pedem água e chuva, ou quando anunciam os ventos e os temporais.
Portanto, se as várias sensações podem levar os animais, apesar de mudos, a emitir sons variados,
quanto mais de aceitar é que tenham podido os mortais ir marcando cora uma e outra palavra as
várias coisas.
Para que não guardes para ti, nestes assuntos, uma pergunta, direi que foi o raio que pri-
meiro trouxe à Terra fogo para os mortais e que daí se originou todo o ardor das chamas. Vemos
muitas coisas abrasarem-se com as chamas celestes, quando o raio lhes trouxe o calor do céu. No
entanto, quando uma árvore frondosa vacila, impelida pelos ventos, e aquece caindo sobre os
ramos de outra árvore, faz saltar um fogo a grande violência do atrito e brilha às vezes o ardor
férvido da chama, enquanto os ramos e o tronco se entrechocam. Uma cu outra destas duas cau-
sas pode ter dado o fogo aos mortais. Depois o Sol os ensinou a cozer o alimento, a amolecê-lo
com a vaporação da chama, porque viam muita coisa tornar-se branda com o golpe de seus raios
e ser, através dos campos, vencida pelo seu calor.
De dia para dia modificavam* * mais a sua alimentação e a sua vida, em virtude de novas
descobertas e do fogo, graças às demonstrações dos que estavam mais à frente, pela inteligência
e pela força de alma. Começaram os reis a fundar cidades e a levantar cidadelas para sua guarda
83 A doutrina de Lucrécio quanto à origem da linguagem é de tppo naturalista, de acordo com as linhas ge-
rais do seu pensamento; repele a teoria a que poderíamos chamar voluntarista e ignora a de um deus inventor
e dador da palavra; os epicuristas repeliam também esta última hipótese.
8* Para Lucrécio, existiu primeiro o rei, depois a propriedade; parece que se deu o contrário ou, pelo menos,
que, tomando o rei no sentido mais elementar, o de que domina, o aparecimento foi simultâneo. Lucrécio.
aproveitou o ensejo para dar algumas indicações, embora muito ligeiras, sobre o ideal de vida epicurista..
DA NATUREZA feto
e para seu refúgio e a dividirem os gados e os campos e a dar a cada um segundo o seu aspecto,
as suas forças e a sua inteligência; efetivamente o aspecto valia muito e as forças tinham grande
importância. Mais tarde se criou a riqueza e se descobriu o ouro, o qual facilmente roubou as hon-
ras aos que eram fortes e belos; de fato, muitas vezes seguem a comitiva de qualquer rico aqueles
que são fortes e de mais belo corpo.
Se, contudo, se seguisse na vida um verdadeiro raciocínio, as grandes riquezas para o homem
consistiriam em viver serenamente com pouca coisa. Nunca existe penúria do que é pouco. Mas
fizeram-se os homens ilustres e poderosos para que a fortuna ficasse assente numa sólida base e
pudessem passar na opulência uma plácida vida: tudo inútil, porque ao lutarem pelo acesso às
honras supremas tornaram o caminho cheio de perigos; muitas vezes, já lá no cimo, os derruba
como um raio a inveja e os precipita ignominiosamente nos terríveis Tártaros; porque a inveja,
como os raios, abrasa quase sempre os cimos e tudo o que está colocado mais alto.
É por isso que vale mais obedecer com sossego do que desejar o governo do mundo e ocupar
os tronos. Deixa, pois, que se cansem inutilmente e suem sangue, enquanto lutam pelo estreito
caminho da ambição: eles só têm sabor por boca alheia e tudo procuram mais por ouvirem dizer
do que pelas próprias sensações; e o que é hoje, o que será CEDO, não terá diferença alguma do
que foi antes.
Portanto, depois de mortos os reis,º º jazia subvertida a antiga majestade dos sólios e os ce-
tros soberbos e a preclara insígnia da cabeça soberana chorava, sangrando sob os pés da multi-
dão, a sua grande glória: efetivamente, espezinha-se com fúria tudo aquilo que antes demasiado
se temeu. Tinha, pois, chegado tudo a um último grau de decomposição e confusão, desejando
cada um para si o governo e o poder supremo. Então, uma parte ensinou aos outros a criar magis-
trados, a constituir um corpo de leis e a usar delas. E o gênero humano, cansado de passar a vida
em violências, enfraquecido pelas inimizades, espontaneamente se submeteu às leis e ao direito
articulado.
Como a cólera dava a cada um o direito dé se vingar mais cruelmente do que o permitem
agora as justas leis, estavam os homens fatigados de passar a vida em violências. Depois, o medo
dos castigos macula as alegrias da vida. A força e a injustiça são como redes que vão cercando
cada um e muitas vezes voltam àquele de que se originaram, não sendo fácil que passe uma vida
plácida e pacata quem pelos seus feitos viola os tratados públicos de paz.
Embora engane a raça dos deuses e dos homens, não deve confiar em que fique perpetua-
mente escondido; muitos homens, falando em sonhos ou delirando, quando doentes, denunciaram,
segundo se diz, os crimes ocultos durante muito tempo. Não é dificil exprimir por palavras a
razão que levou a divulgar pelos grandes povos os numes dos deuses e encher as cidades de alta-
res e tratou de empreender as solenes cerimônias religiosas, cerimônias que no nosso tempo flores-
cem em grandes recursos e lugares, e também a razão pela qual se estabeleceu nos mortais aquele
horror que os incita a levantar novos templos dos deuses em todo o orbe das terras e os obriga a
celebrá-los nos dias festivos.
Sem dúvida, já então as gerações* * mortais viam com o ânimo vigilante as egrégias figuras
dos deuses e mais as admiravam quando as viam, em sonhos, com tamanho maior. Atribuíam-
lhes sensações porque elas pareciam mover os membros e emitir palavras soberbas, de acordo
com o seu aspecto preclaro e as suas grandes forças. Davam-lhes uma vida eterna, porque sempre
se lhes renovava o aspecto e permanecia a beleza; também não julgavam que, tendo eles um tão
grande vigor, pudessem facilmente ser vencidos por uma força qualquer. Achavam, por isso, que
tinham uma vida feliz, visto não os oprimir o temor da morte e também porque em sonhos os
viam realizar muitas e admiráveis coisas e não terem eles próprios dificuldade alguma.
Depois percebiam que a ordenação do céu e os vários tempos dos anos voltavam com um
ritmo certo e não eram capazes de conhecer as causas por que tal acontecia. Buscavam, então, o
refúgio de transferir tudo para os deuses e de fazer que tudo se dobrasse aos seus acenos. Coloca-
ram a sede e as residências dos deuses no céu, porque viam que a noite e a Lua, a Lua e o dia e
85 Lucrécio modela toda a história da humanidade sobre a história de Roma e da Grécia, em que se dá
efetivamente a queda da realeza, por motivos diferentes nos dois países, e a sua substituição por um regime
de caráter republicano, mas não democrático, como se tem dito frequentemente.
*8 De fato, e ao contrário do que se julgava, há povos primitivos sem a idéia de uma divindade, pelo menos
de uma divindade materializável; a explicação do seu aparecimento varia com os autores: para Lucrécio, ela
vem do trabalho da imaginação, na vigília e nos sonhos, e da ignorância das causas naturais. Esta idéia pare-
ce contradizer a da existência real dos deuses, que Lucrécio não contesta; é possível, no entanto, que o poeta
apenas se refira à intervenção dos deuses no mundo.
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120 LUCRÉCIO
a noite, e os severos astros da noite, e os fachos que de noite vagam pelo céu, e as voadoras cha-
mas, e as nuvens, o Sol, as chuvas, a neve, Os ventos, os raios, O granizo, e O rápido fremir, e os
grandes murmúrios de ameaças, tudo isto é no céu que se passa.
Ó raça humana tão infeliz por ter atribuído tais fatos aos deuses e por lhes ter juntado as có-
leras acerbas! Quantos lamentos para si próprios, quantas feridas para nós, quantas lágrimas
para os nossos descendentes não originaram eles!
Não é piedade alguma mostrar-se muitas vezes aproximando-se velado duma pedra e a cor-
rer a todos os altares e deitar-se prostrado no solo e abrir as mãos diante dos templos dos deuses
ou espargir os altares com muito sangue de quadrúpedes ou atar votos aos votos: o que vaie é
poder olhar tudo com um espírito pacífico.
Efetivamente, quando olhamos cá debaixo os espaços celestes do grande mundo e as estrelas
brilhando no alto.sobreo fixo éter, e vêm ao espírito os caminhos do Sol « da Lua, então o cuidado
que no peito outros males oprimem acorda e começa a levantar a cabeça, a saber se por acaso não
haverá frente a nós num imenso poder dos deuses que seja capaz de dirigir com variado movi-
mento as resplandecentes estrelas. A pobreza da ciência traz uma tentação à mente que duvida e
quer saber se houve realmente uma origem do mundo, se há realmente um fim para ele e até quan-
do poderão as muralhas do mundo suportar a fadiga do inquieto movimento, se revestidas por di-
vino poder duma força eterna poderão, batidas pela passagem do tempo, desprezar para sempre
as fortes forças desse tempo imenso.
Além disto, a quem se não aperta o ânimo com o pavor dos deuses, a quem se não arrepiam
de medo os membros, quando a terra abrasada treme toda com o choque horrível dos raios, quan-
do os rugidos percorrem todo o céu? Não tremem os povos e as nações, não encolhem seu corpo
os reis soberbos, tomados pelo pavor dos deuses, com o receio de que tenha chegado o terrível
tempo de sofrer castigo por algum crime vergonhoso ou por uma palavra insolente?
E também quando pelos mares a força do vento violento varre pelas ondas o comandante da
esquadra juntamente com as fortes legiões e os elefantes, não procura ele com promessas a bene-
volência dos deuses e não pede com orações, cheio de terror, a paz dos ventos e sopros favoráveis,
embora tudo isto seja inútil, porque muitas vezes, ievado pelo violento turbilhão, não deixa de ser
arrastado aos vaus da morte?
Sem dúvida, existe escondida* ? qualquer força que destrói as coisas humanas e que parece
ter gosto em calcar os belos feixes e as machadas cruéis. E quando toda a terra vacila debaixo dos
pês e caem abaladas as cidades, ou estremecem e ameaçam ruína, que há de estranhável em que
as gerações mortais se humilhem e deixem às forças dos deuses o poder grande e admirável capaz
de governar tudo no mundo?
Digamos agora que o bronze,ºº o ouro e o ferro e, ao mesmo ternpo, o peso da prata e O
poder do chumbo foram encontrados quando, pelos grandes montes, O fogo queimara com seu
ardor os imensos bosques, quer porque tivesse um raio sido enviado pelo céu, quer porque, fazen-
do a guerra nos bosques, lhes tivessem posto fogo para atemorizar o inimigo, quer ainda porque
desejassem, levados pela bondade da terra, expandir os pingues campos € converter as terras em
pastagens, quer, finalmente, para matar as feras e enriquecer-se com a presa; de fato, começou-se
a caçar com armadilhas e fogo antes de encerrar o bosque com as redes e de incitar os cães.
Seja como for, e qualquer que tenha sido a causa, o ardor das chamas tinha devorado com
horrível som os bosques, até as raízes, e cozera com o fogo por completo a terra; então, reunindo-
se nos lugares côncavos da terra, manavam das veias referventes rios de prata e de ouro e de bron-
ze é de chumbo. Quando, depois de solidificados, os viram os homens resplandecer na terra com
uma clara cor, levantavam-nos seduzidos pelo encanto liso e nítido e viam que tinham o mesmo
feitio da cavidade em que se tinham formado. Então penetrou-os a idéia de que podiam dar-lhes,
liquefazendo-os pelo calor, a forma e o aspecto que quisessem, e, mais ainda, que podiam, forjan-
do-os, fazer deles as agudas e finas pontas das espadas, de maneira a poderem fornecer a si pró-
87 No fundo, o pessimismo de Lucrécio, que deveria ter desaparecido perante cs ensinamentos da doutrina,
revela-se nesta sua idéia de uma força secreta, escondida, que parece tirar prazer dos tormentos dos homens;
e é fora de dúvida que a beleza mais profunda do poema vem exatamente deste estado de incerteza que se
mantém como base da personalidade de Lucrécio, embora o pensador, que é em Lucrécio muito superficial,
se declare satisfeito com o epicurista, e o homem de combate, que é profundo, nele veia uma arma perfeita.
*º Depois de ter posto a pedra e a madeira como matérias-primas dos primeiros instrumentos humanos,
Lucrécio fala da utilização do bronze e do ferro, na ordem ainda hoje reconhecida pela arqueologia. Parece
também correto o que diz do vestuário e da agricultura.
DA NATUREZA 121
prios as armas e a poderem cortar as árvores dos bosques, aplainar a madeira, raspar os lenhos
até ficarem lisos e furá-los, trespassá-ios, abrir-lhes um buraco.
Para fazer isto empregavam tão frequentemente o ouro e a prata como a princípio tinham
empregado as violentas forças do robusto bronze; mas inutilmente, porque cedia, vencido, o seu
vigor, e não podiam fornecer do mesmo modo um duro trabaiho. Então foi mais apreciado o
bronze, e o ouro ficava abandonade, por ser inútil devido à embotada ponta. Agora, jaz de lado
o bronze e nas supremas honras lhe sucedeu o ouro; assim o tempo rodando muda as épocas das
coisas. O que esteve em apreço por fim não recebe honra nenhuma; outra coisa lhe sucede e sai
o que tinha sido desprezado; de dia para dia, mais o procuram, se, descoberto, floresce em louvo-
res, e obtém, entre os mortais, honras admiráveis.
Tu próprio poderás, é Mêmio, conhecer facilmente de que maneira se descobriu a natureza
do ferro. As armas antigas eram as mãos, as unhas e os dentes, e as pedras, os pedaços de ramos
dos bosques, as chamas e o fogo, logo que foram descobertos. Mais tarde se encontrou a força do
ferro, e a do bronze. O uso do bronze foi conhecido antes do do ferro, porque é mais maleável a
sua natureza e maior a abundância. Só com o bronze cultivavam a terra; com o bronze revolviam
as ondas dos combates e semeavam as grandes feridas e arrebatavam os campos e os gados; efeti-
vamente, tudo quanto estava nu e desarmado cedia aos que vinham armados. Depois, a pouco e
pouco apareceu a foice de ferro e caiu em desonra a foice de bronze; com ferro principiaram a fen-
der o chão da terra e a tornar iguais os combates da guerra.
Soidados armados subiram para o dorso dos cavalos e os guiaram com o freio, enquanto fa-
ziam proezas com a rnão direita antes que se tentassem os perigos da guerra com o carro de dois
cavalos; e houve os carros de dois cavalos antes que se atrelassem duas pareihas e se subisse ar-
mado aos carros de foices. Depois os bois da Lucânia, com as torres no lombo, esses monstros
horríveis de tromba de serpente, foram erisinados pelos cartagineses a sofrer as feridas da guerra
e a confundir os grandes batalhões de Marte. Assim a terrível discórdia fez que de uma coisa
outra nascesse para aterrorizar os povos humanos em armas, e de dia para dia acrescentou os hor-
rores da guerra.
Experimentaram também os touros nos trabalhos da guerra e tentaram lançar contra Os ini-
migos. javalis furiosos. Alguns mesmo lançaram à sua frente vigorosos leões com domadores
armados e duros condutores que os pudessem guiar e prender com cadeias; tudo foi inútil porque,
enraivecidos na confusão do combate, atacavam furiosamene e sem discriminação os esquadrões,
sacudindo por toda parte as terríveis jubas da cabeça, e não podiam os cavaleiros abrandar o
peito dos cavalos aterrorizagos pelo rugido e por meio do freio atirá-los contra o inimigo. Por
toda parte as leoas furiosas se atiravam saltando e atacavam as faces dos que vinham de frente,
ou, por detrás, derrubavam-nos sem que eles esperassem e, abraçando-os, lançavam-nos por terra,
vencidos pelas feridas, e a eles seguravam-se com as fortes mordidelas e as unhas aduncas.
Os touros atiravam os seus ao ar e pisavam-nos a pés e, metendo os cornos por debaixo, dila-
ceravam os flancos e os ventres dos cavalos e escarvavam a terra com o espírito cheio de amea-
ças. Os javalis despedaçavam com os dentes poderosos os seus próprios aliados e, quebrando-lhes
as armas, cruelmente os tingiam com o seu próprio sangue, e misturavam os restos dos cavaleiros
e dos infantes. Os cavalos, atravessando-se, fugiam aos ferozes ataques a dentadas, ou, levantan-
do-se, atacavam os ventos com as patas; tudo inútil porque logo, cortados os nervos das pernas,
se viam cair e cobrir a terra com seu pesado desabar.
Se se julgava que alguns dos animais tinham sido bastante domados no tempo de paz, logo
se via que referviam durante o combate, com as feridas, o clamor, a fuga, O terror, o tumulto e que
a nenhum podiam fazer recuar; fugia, espalhando-se, toda a variada raça das feras, como ainda
agora muitas vezes os elefantes, malferidos pelo ferro, fogem para todo lado, depois de terem mal-
tratado terrivelmente os seus.
Talvez tivessem procedido assim; mas com dificuldade me convenço de que não tenham po-
dido pressentir com seu espírito, e ver, até, o mai comum e terrível que teria de suceder. E talvez
fosse melhor pensar que tudo isto acontece no total dos mundos que de várias maneiras se cria-
ram e não apenas num certo e único orbe de terras. Mas fizeram tudo isto, não tanto com a espe-
rança de vencer como para dar que gemer aos inimigos, mesmo que morressem, quando não ti-
nham confiança no seu número nem tinham armas suficientes.
Houve, primeiro, um vestuário cosido, depois uma cobertura tecida e veio o tecido depois do
ferro, visto ser com o ferro que se prepara o tecido; não poderiam de outro modo ter-se feito
instrumentos tão delicados como as rocas e os fusos, as lançadeiras e os sonoros pentes.
No trabalho da lã fez a natureza que cs homens se adiantassem à raça feminina, porquanto
todo o gênere masculino é muito mais hábil e mais engenhoso; mas um dia os lavradores severos
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122 LUCRÉCIO
o tomaram a mal e fizeram que se entregasse tal trabalho às mãos femininas, para que os outros
participassem da mesma dura tarefa e no duro trabalho endurecessem os membros e as mãos.
A origem e o exemplo da sementeira e da enxertia encontram-se na. própria natureza criadora
das coisas, visto que as bagas e bolotas que caíam das árvores davam no devido tempo enxames
de filhotes; daí veio também o enxertarem-se ramos nos troncos e o mergulhar nas terras pelos
campos novas mudas. Depois, no seu querido campinho, experimentavam uma e outra cultura e
viam os frutos selvagens domesticar-se à força de paciência e de carinhosa cultura.
De dia para dia mais forçavam as florestas a retirar-se para os montes e a ceder o lugar às
culturas para terem, por campos e colinas, prados, lagos, rios, searas e esplêndidos vinhedos, e
para que pudesse correr, espalhando-se pelos campos, pelas colinas e pelos vales, mas sempre bem
distinta, a rede azulada das oliveiras; do mesmo modo, vês agora tudo se distinguir com uma
graça variada, adornando-se de doces macieiras plantadas nos intervalos ou de árvores frutíferas
que lhes formam sebe à volta.
Muito antes de poderem os homens*º celebrar com um canto os versos harmoniosos e ale-
grar os ouvidos, imitaram-se com a boca as vozes límpidas das aves. E os silvos dos Zéfiros pas-
sando pelo oco dos cálamos ensinaram os lavradores a tirar os primeiros sons das escavadas
canas. Depois, a pouco e pouco, aprenderam as doces queixas que derrama a flauta, tocada pelos
dedos dos cantores, a flauta descoberta através dos bosques desviados, das florestas e dos matos,
pelos desertos lugares que frequentam os pastores em seus divinos ócios. Assim, lentamente, o
tempo apresenta cada uma das coisas e a razão o traz às regiões da luz.
Tudo isto, juntamente com a comida, bastante os abrandava e alegrava; tudo, então, é grato
ao ânimo. Muitas vezes estendidos uns com os outros na branda erva, junto de uma corrente de
água, debaixo dos ramos duma elevada árvore, alegravam os corpos sem empregar grandes recur-
sos, principalmente quando a estação sorria e o tempo do ano pintava de flores as ervas verdejan-
tes. Costumava então haver jogos, conversas e doces risos.
Por esse tempo florescia a musa agreste; um alegre prazer levava a coroar a cabeça e os om-
bros de grinaldas entrelaçadas de folhas e de flores e de avançar, movendo os membros, fora de
compasso, duramente e com seu duro pé pisando a terra-mãe; daí nasciam os risos e as brandas
gargalhadas porque tudo era novo e de vigor admirável.
Mesmo quando estavam acordados, davam consolo ao sono concertando os cantos variados,
modulando as vozes e percorrendo as flautas com lábio recurvado; também agora aqueles que
estão acordados conservam o que receberam, mas aprenderam a conservar o ritmo: mas não
tiram daí um prazer maior do que aquele que tirava a silvestre raça dos filhos da terrá.
Efetivamente aquilo que temos à mão antes de conhecermos alguma coisa de mais agradável
é o que nos dá mais prazer e o que parece ser mais forte; depois, uma coisa melhor faz perder as
descobertas antigas e modifica o que sentimos a seu respeito. Assim começou a aborrecer a bolo-
ta, assim se abandonaram as camas feitas de ervas e guarnecidas de ramagens. Também do
mesmo modo caiu no desprezo o vestuário feito da pele das feras; e, no entanto, creio que desper-
tou ao aparecer uma tal inveja que o primeiro que o usou deve ter sido vítima duma cilada; mas
naturalmente se perdeu entre eles, despedaçado e coberto de sangue, e não veio a servir para
ninguém.
Naquele tempo eram as peles, agora é o ouro e a púrpura que fazem que os homens passem
a vida em cuidados e a esgotem com as guerras; mas creio que a culpa nos cabe sobretudo a nós
próprios. Com efeito, o frio apanhando-os nus, sem peles, torturava os filhos da terra; mas a nós
nada nos prejudica carecer duma veste purpúrea e dourada enfeitada de grandes bordados, con-
tanto que tenhamos um vestuário da plebe com que possamos defender-nos.
Portanto, trabalha a raça dos homens em vão e inutilmente, e sempre em vãos cuidados con-
some a sua idade; nada há nisto de admirar, porque não sabe que fim se tem de pôr às posses e
até onde vai o prazer verdadeiro. E foi isto que a pouco e pouco levou a nossa vida para o mar
alto e fez mover profundamente as grandes tempestades da guerra.
Mas o Sole a Lua, esses vigias do mundo que percorrem o grande espaço móvel, tudo
banhando com sua luz, ensinaram aos homens que se mudam as estações do ano e que tudo se faz
segundo uma ordem certa e um plano certo.
Já passavam a vida defendidos por fortes torres e se cultivava a terra dividida e separada, já
8º O quadro idílico dos divertimentos do homem primitivo aparece em todos os escritos do mesmo gênero
e pertence já à corrente bucólica alexandrina, que exprimia sobretudo, num tempo de desenvolvimento de
grandes cidades, a nostalgia da vida rural.
DA NATUREZA 123
o mar florescia de velívolas naves, já tinham, por tratos concertados, auxílios, aliados, quando os
poetas começaram a contar em verso os feitos; também não tinha sido muito antes que se inven-
tara a escrita. É por isso que não pode o nosso tempo contemplar o que se fez antes, senão naquilo
de que a razão pode mostrar os vestígios.
Quanto aos navios e à cultura dos campos e às muralhas, às leis, às armas, às estradas, aos
vestuários e às outras coisas deste gênero, quanto a todas estas vantagens como também quanto
a todas as delícias da vida, poesia, pintura e o esculpir das estátuas perfeitas, foi o uso e foi ao
mesmo tempo a experiência de um espírito diligente que a pouco e pouco deram o ensino e, lenta-
mente, realizaram o progresso. Assim, lentamente, o tempo apresenta cada uma das coisas e a
razão as traz às regiões da luz. E viam os homens em seu espírito que uma idéia esclarecia outra
idéia, atê que, valendo-se de tais artes, chegaram até o cimo dos cimos.
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Livro VI
Foi Atenas, a de ilustre nome,ºº que primeiro concedeu aos infelizes mortais as searas e seus
frutos e deu novo impulso à vida e criou as leis, é primeiro trouxe à vida doces consolações, quan-
do gerou o homem de vasto coração que outrora tudo revelou com sua boca verídica; e, embora
ele esteja morto, a sua glória por causa das divinas descobertas atravessa os tempos e é levada até
o céu.
De fato, quando viu que já possuíam os mortais quase tudo aquilo que se torna necessário
para que a vida se mantenha e que, na medida do possível, tinham posto em segurança sua exis-
tência; quando viu que os homens poderosos estavam cheios de riquezas, de honras e de glórias,
e ainda sobressaíam com a boa fama dos filhos, e que, no entanto, no interior de cada um havia
o mesmo coração ansioso que atormentava em vão a vida do espírito sem pausa alguma e o fazia
enraivecer em queixas furiosas; quando viu tudo isto, compreendeu, então, que era o próprio vaso
que provocava todo o mal e que era ele que por seu defeito corrompia tudo aquilo que lhe vinha
“de fora, mesmo o que houvesse de melhor, em parte porque parecia furado e frouxo, de modo que
não poderia nunca encher-se, fosse como fosse, e em parte porque, segundo via, conspurcava ele
com seu tremendo sabor tudo aquilo que lhe lançavam para dentro.
Purificou, portanto, os corações com suas palavras verdadeiras, pôs um termo à cobiça e ao
temor e expôs em que consiste o bem supremo a que todos nós tendemos, mostrou o caminho, o
percurso menor que podemos fazer para nos dirigirmos a esse bem, todo o mal que existe em
todas as coisas mortais, como aparece e voa de variados modos, ou naturalmente, ou por acaso,
ou pela força, que assim o determinou a natureza, e por que portas seria conveniente sair a repeli-
lo; e provou que, na maior parte das vezes, é em vão que o gênero humano revolve no peito as ter-
ríveis ondas dos cuidados.
De fato, assim como os meninos ficam sobressaltados e tudo temem nas trevas, assim nós à
iuz do dia receamos aquilo que não é mais temeroso do que as coisas de que os meninos, no escu-
ro, têm pavor, julgando que vão acontecer. E é necessário que a este terror, a estas trevas do espi-
rito, dissipem, não os raios do Sol nem os dardos luminosos do dia, mas a contemplação da natu-
reza e suas leis.
E, como eu ensinei que é mortal a construção do mundo e que tem o céu de se compor de um
corpo sujeito a nascimento; como expliquei a maior parte do que nele se passa e tem de se passar,
escuta agora o que resta, uma vez que se sobe ao carro insigne.
(Lacuna)
dos ventos se levantem e de novo tudo se aplaque
(Lacuna)
o que foi se transformou e aplacou o seu furor.
Quanto às outras coisas que os mortais vêem acontecer no céu e na terra, quando ficam os
espíritos suspensos de pavor, e se humilham os espíritos com o temor dos deuses, e deprimidos se
ºº Ao novo elogio de Epicuro, segue-se, muito mutilado nos manuscritos, o argumento do último livro do
poema: Lucrécio vai explicar os fenômenos celestes para que do espírito do leitor se expulsem os últimos ter-
rores e se ponha completamente de iado a idéia de uma intervenção dos deuses, considerando-se puras extra-
vagâncias cs manejos dos adivinhos de formação etrusca.
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126 LUCRÉCIO
abatem no chão, só a ignorância das causas pode levar a que se transfira para os deuses o governo
das coisas e se lhes conceda o seu domínio. Não podem, de modo algum, explicar as causas do
que acontece e julgam que tudo sucede por divino poder.
Efetivamente, aqueles que aprenderam com segurança que os deuses passam uma vida tran-
quila todavia se aterram depois e perguntam de que modo tudo se pode passar, principalmente
naquelas coisas que se vêem por cima das nossas cabeças nas regiões etéreas; e de novo voltam
às antigas crenças religiosas e tomam amos terríveis que, segundo crêem os pobres, tudo podem,
porque não sabem o que é possível e o que não é possível existir, e o poder limitado que tem cada
coisa, a barreira que intransponível se levanta; e assim vão errando, levados por uma cega
doutrina.
Se não vomitas tudo isto do espírito e não lanças para longe de ti atribuir aos deuses coisas
indignas deles e que são alheias à sua paz, sempre te hão de contrariar em castigo de lhes teres
ultrajado as santas divindades; e não é porque o poder dos deuses possa sofrer seja o que for, nem
porque eles, irritados, se dessedentem num castigo terrível: mas serás tu quem há de imaginar que
eles, sossegados na sua paz, revolvem as grandes ondas das cóleras; não te aproximarás com
ânimo plácido dos templos dos deuses, nem poderás receber com tranqjila paz de ânimo os simu-
lacros emanados de seu corpo sagrado e que são para as mentes dos homens os mensageiros da
beleza divina. Vês, por aqui, qual a espécie de vida que virá como consegiência.
Ora, para que uma doutrina perfeitamente verdadeira a lance para longe de nós, é necessário,
embora eu já tenha dito muito, que explique o muito que resta e o adorne de polidos versos; tenho
que expor o aspecto e a lei do céu, tenho de cantar as tempestades e os resplandecentes raios e O
que fazem e a causa que os provoca, para que não vás, desvairado de medo, dividir o céu em par-
tes e saber donde voando chegou o fogo ou a que ponto se dirigiu ou de que maneira se meteu por
lugares cercados e como se escapou depois de por lá ter dominado. Não podem, de modo algum,
explicar as causas do que acontece, e julgam que tudo sucede por divino poder. E tu, quando eu
me lanço na carreira para a branca meta derradeira, mostra-me o caminho, ó engenhosa Musa, 6
Calíope, descanso dos homens e prazer dos deuses, para que eu, sob a tua guia, receba a coroa
com insigne louvor.
Primeiro abala-se com o estrondo do trovão”! o azul do céu, porque as nuvens etéreas, voan-
do pelo alto, vão umas contra as outras, ao impuiso dos ventos contrários. Efetivamente, o ruído
não vem da parte serena do cêu, lá onde na verdade as nuvens formam um mais denso batalhão:
não é daí que vêm os frêmitos e os ruídos maiores. De resto, as nuvens não podem ser de estrutura
tão densa como a pedra ou a madeira, nem tão tênues como as névoas e os fumos voadores. Se
assim fosse, deveriam, como as pedras, cair oprimidas pelo peso ou não poderiam, como o fumo,
permanecer unidas nem reter as neves gélidas e as chuvas de saraiva.
Dão também sobre as planícies do vasto mundo um ruído semelhante ao estrépito dos toldos
que, estendidos sobre os nossos grandes teatros, vão de mastro a mastro e de trave a trave; outras
vezes, furadas pelos ventos petulantes, enfurecem- -se e imitam o som ligeiro do papel. É esta a
espécie de ruído que se. pode reconhecer no trovão; parece que os ventos levam e batem pelos ares
com seus chicotes vestuários flutuantes e papéis voadores. Também acontece que as nuvens, em
lugar de se chocarem de frente, o fazem de flanco e se raspam os corpos levados por diferentes
movimentos; daí vem, até que tenham saído das estreitas regiões, o áspero som que arranha os
ouvidos e longamente se arrasta.
Parece às vezes, ainda, que tudo se abala com o trovão, que tudo treme pesadamente e que
rebentam despedaçadas de súbito as enormes muralhas do vasto mundo, quando um temporal de
fortíssimo vento, juntando-se de repente,se mete pelas nuvens e, encerrando-se dentro, gira sobre
si próprio e obriga a nuvem a tornar-se mais espessa à volta, mais cavada no meio, até que, não
81 Todo o trecho, bastante longo, sobre o trovão, o relâmpago, o raio e a natureza das nuvens, embora
muito afastado do que hoje se considera aceitável como explicação científica, dá boa idéia do esforço de
investigação e da convicção íntima de haver explicação natural para os fenômenos naturais de que deram
provas, entre todos os pensadores gregos, os da escola epicurista; e foi decerto atendendo a este aspecto, e
de modo algum aos resultados, que Kant pôde declará-los o melhor grupo de físicos da Antiguidade. Para
a extensão da parte do Livro VI consagrada a estes problemas deve ter contribuído o fato de segundo a cren-
ça popular ser Júpiter, o próprio rei dos deuses, quem manejava os fogos do céu; convinha demonstrar a
natureza legal do fenômeno. No entanto, e pensando-se sobretudo neste trecho « naquele em que mais adian-
te se descreve a peste de Atenas, tem-se a impressão de que o editor do poema teria reunido neste livro tre-
chos cujo lugar não fora definitivamente marcado por Lucrécio ou que ele pusera como primeiro. esboço
para depois resumir e utilizar numa exposição mais geral dos fenômenos da natureza. ;
DA NATUREZA [27
podendo resistir ao ímpeto violento, rebenta com tremendo estampido. Nada há nisto de estranho.
visto que uma pequena bexiga cheia de ar dá de repente, explodindo, um grande som.
Também há outra razão pela qual podem os ventos produzir um som, quando sopram as
nuvens: vemos muitas vezes passarem nuvens que levam como que ásperos ramos de variados fei-
tios; então tudo se passa como ao atravessar o vento do norte uma espessa floresta: ressoam as
frondes e fragoram os ramos.
Acontece igualmente que a força desencadeada de um forte vento rasgue a nuvem e a despe-
dace, assaltando-a de frente. Aí mostra à evidência o que pode o seu sopro, porque mesmo na
terra, onde ê mais brando, arranca as altas árvores desprendendo-as das mais fundas raízes.
Hã também ondas nas nuvens e são elas, ao quebrarem-se pesadamente, que produzem como
que um rugido; o que também sucede nos profundos rios e no vasto mar, quando as vagas se
quebram.
Acontece igualmente que, ao cair de nuvem para nuvem a força ardente do raio, recebe por
acaso o fogo uma que estã saturada de umidade e logo o extingue com um grande ruído, exata-
mente como, ao sair da forja ardente, lança o ferro em brasa o seu estridor, quando a toda pressa
o mergulhamos em água gelada. Se, pelo contrário, é uma nuvem seca a receber o fogo, arde ela
com grande ruído ao incendiar-se de repente, como, pelos montes com sua cabeleira de loureiros,
vaga a chama no turbilhão dos ventos e tudo abrasa impetuosamente; nada existe de fato que seja,
como o délfico louro de Febo, capaz de arder com terrível ruído e crepitantes chamas.
Finalmente, muitas vezes o quebrar do gelo e a queda da saraiva fazem que as nuvens, lá no
alto, produzam um ruído; quando o vento as acomete em lugar estreito, quebram-se as grandes
montanhas de nuvens espessas e misturadas de granizo.
Há relâmpagos, quando as nuvens, chocando, fazem saltar muitos elementos ígneos, como
quando uma pedra bate noutra pedra ou num ferro: também nesse caso brilha uma luz e também
o fogo se dispersa em claras centelhas. Mas se só ouvimos o trovão, depois que os olhos dão pelo
relâmpago, é porque aquilo que vem dirigido aos ouvidos chega mais devagar do que as coisas
que impressionam a vista. É o que se pode reconhecer, se se vê abater ao longe um alto tronco de
árvore com um machado de dois gumes; acontece que se vê o golpe antes que a pancada produza
som nos ouvidos; assim também vemos nós o relâmpago antes que sintamos o trovão, que é, no
entanto, enviado ao mesmo tempo que o relâmpago, que vem da mesma causa e nasce do mesmo
choque.
É desta mesma maneira que as nuvens tingem os lugares com sua luz ligeira e que refulge a
tempestade com seu trêmulo raio. Quando o vento se meteu dentro de uma nuvem e, girando lá
dentro, fez, como já antes ensinei, que a nuvem se escavasse e se tornasse mais espessa, principia
a aquecer pela sua própria velocidade, exatamente como tudo vês a tal ponto aquecer com o
movimento que até uma bola de chumbo, rodando sobre si própria, se torna líquida ao fim de uma
longa carreira. Portanto, quando, ardendo, despedaça a escura nuvem, expulsa, por assim dizer,
como que à força os átomos de fogo que formam os trementes relâmpagos; segue-se, depois, O
som que nos impressiona os ouvidos mais tarde do que aquilo que chega até a pupila dos nossos
olhos.
Tudo isto acontece com as nuvens que são densas e que ao mesmo tempo se acumulam umas
sobre as outras com ímpeto admirável; não te deixes enganar pelo que vemos por debaixo, onde
nos aparecem mais como extensas do que como dispostas de baixo para cima. Contemplando as
nuvens semelhantes a montanhas que os ventos levam por todo lado pelos ares ou as nuvens que
se acumulam umas sobre as outras e se comprimem e se oprimem pelos altos montes e paradas
se quedam, enquanto os ventos estão sepultados por toda parte, poderás, então, ver bem como são
grandes as suas massas e nelas distinguir uma espécie de cavernas feitas de rochedos suspensos;
e quando os ventos, ao desencadear-se a tempestade, enchem estas cavernas, logo se enfurecem
com grandes rugidos ao verem-se enclausurados nas nuvens e ameaçam como as feras nas jaulas;
ora de um ponto, ora de outro, lançam eles seus mugidos pelas nuvens e giram, procurando uma
saída, e fazem sair das nuvens os elementos do fogo; acumulam, assim, um grande número, rolam
a chama lá dentro pelas escavadas fornalhas, até que, despedaçando a nuvem, coruscantes
Jampejam.
É também, talvez, pela causa seguinte que vca para a terra aquela áurea cor de seu líquido
fogo: é fatal que as próprias nuvens contenham muitos elementos de fogo, visto que, quando não
têm umidade alguma, apresentam, na maior parte das vezes, a cor e o esplendor das chamas. Para
se avermelharem como o fazem e para espalharem os seus fogos, devem com certeza receber mui-
tas coisas do Sol. Quando, por conseguinte, o vento, agindo, as acumula, as comprime, as leva à
força a um lugar, elas de si derramam os elementos que fazem brilhar as cores da chama.
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Há também relâmpagos quando as nuvens se rarefazem no céu. Quando o vento branda-
mente as dispersa e dissolve, têm de lhes cair os germes que produzem o relâmpago: é então que
relampeja sem tremendo terror e sem ruído, nem tumulto algum.
Quanto à natureza de que se compõem os raios, há ainda a dizer que a revelam o2 golpes,as
queimaduras de seu fogo e o forte cheiro a enxofre que se exala nos ares. Tudo isto é sinal de fogo,
não de vento ou de chuva.
Muitas vezes incendeiam também os telhados das casas e com rápida chama dominam nos
nossos próprios lares. A natureza os constituiu como um fogo sutil entre todos os fogos, feito de
elementos diminutos e móveis a que coisa alguma pode opor-se. Passa efetivamente o forte raio:
pelas paredes das casas como se fossem gritos ou palavras, passa pelas pedras, pelo bronze, e num
momento torna líquido o bronze e o ouro; faz que, deixando intato o vaso, se evapore o vinho
num momento, porque o calor que chega evidentemente relaxa tudo à volta e torna porosas as
paredes do vaso; depois, mete-se pelo próprio vaso e decompõe, dispersa rapidamente os elemen-
tos do vinho. Ora, parece que o calor do Sol, apesar da força de seu coruscante fogo, e mesmo
com ajuda do tempo, não conseguiria tais efeitos. Tanto mais rápida e mais irresistível é esta últi-
ma força. RA
Vou agora explicar de que maneira tudo isto se gera e como pode com tanta força abrir fen-
das nas torres, derrubar as casas, arrancar vigas e traves, demolir e destruir os monumentos dos
homens, matar as pessoas, abater os rebanhos, e qual é a origem da violência que produz todas
as outras coisas deste gênero; e não me vou demorar mais em promessas.
> Tem de se supor que o raio se origina a partir de nuvens espessas acumuladas a uma grande
altura; com efeito, não há nenhum que seja lançado de um céu sereno e de nuvens pouco densas.
Disto nos dá a realidade uma prova manifesta, porque é nessa altura que as nuvens se acumulam
por todo o ar, como para crermos que as trevas deixaram todas o Aqueronte e vieram encher as
grandes abóbadas do céu. Quando a tempestade começa a agitar os seus raios, uma noite teme-
rosa sai das nuvens e lá de cima nos ameaça a face do terror.
Também sucede fregientemente que uma negra nuvem se lança sobre o mar como um rio de
pez que se atirasse do céu e caindo sobre as ondas, toda cheia de trevas, traz consigo uma sombria
tempestade pejada de raios e de furacões, e vem ela própria tão cheia. de ventos e de fogos que
também na terra se sente o seu horror e todos procuram um abrigo. É por isto que temos de con-
ceber a tempestade como originando-se no alto sobre as nossas cabeças. Nem poderiam cobrir as
terras de tanta escuridão se, por se acumularem umas por cima das outras em grande quantidade,
não ocultassem o Sol com seu número; e não poderiam igualmente vir oprimir-nos com tanta
chuva, fazer transbordar os rios e haver cheias nos campos, se não houvesse no éter uma grande
altura de nuvens acumuladas. ,
Aí está tudo cheio de vento e de fogos e por isso em toda parte se produzem os trovões e
relâmpagos. Como já ensinei, as escavadas nuvens em si contêm muitos elementos de calor e mui-
tos recebem também dos raios dc Sol o seu ardor. Logo que o vento que as reúne, de súbito, num
mesmo lugar, faz sair, aperiando-as, muitos elementos de calor e ao mesmo tempo se mistura com
. aquele fogo, logo gira lá dentro um turbilhão que no meio da ardente fornalha aguça o raio. Com
efeito, é de duas maneiras que ele se acende, visto que aquece com o seu próprio movimento e com
o contato do fogo. à
Depois, quando já a aqueceu a força do vento e quando já veio o forte choque do fogo, então
o raio, por assim dizer maduro, rompe subitamente a nuvem e a rápida chama é levada a iluminar
todos os lugares com sua luz coruscante. Logo se lhe segue um pesado estrondo, de tal modo que
parece que os espaços do céu, rebentando de repente, nos vão cair em cima. Depois um violento
tremor passa nas terras e rugidos percorrem o elevado céu, porque toda a tempestades se abala e
treme e se move rugindo.
Vem deste abalo uma chuva pesada e abundante, de tal modo que parece que todo o éter se
transforma em chuva e que, precipitando-se, vai trazer de novo o dilúvio, tão grande é o vento e
a tempestade que vem do rasgar da nuvem quando voa o estrondo com seus ardentes golpes.
Também acontece que a força do vento, concitada de fora, cai sobre uma nuvem pejada de
maduros raios; logo que a rompe, se precipita aquele ígneo turbilhão a que em nossa pátria lin-
guagem damos o nome de raio. O mesmo se passa em todo lado a que se dirigiu tal força.
Sucede ainda que a força do vento, emitida sem fogo, se incendeia pelo caminho devido ao
longo espaço do percurso; enquanto vem, perde na carréira certos corpos maiores que não podem
penetrar pelos ares com a mesma velocidade e vai, do próprio ar, raspando e arrastando consigo
pequenos corpes que, voando misturados, produzem o fogo; é mais ou menos da mesma maneira
t
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t
DA NATUREZA 129
que muitas vezes, correndo, se torna ardente a bola de chumbo, quando, abandonando muitos ele-
mentos do frio, recebe nos ares o fogo.
Acontece também que a força da própria pancada faz surgir o fogo, quando a força frígida
do vento veio chocar, embora enviada sem fogo; nada há nisto de admirar, visto que, dada a vio-
Jência do golpe, dela própria surgiram elementos de calor e ao mesmo tempo do objeto que rece-
beu a pancada; é exatamente como voa o fogo quando batemos com um ferro numa pedra: embo-
ra seja frigida a força do ferro, não é por isso que deixam de confluir com a pancada os elementos
da ardente chama. Portanto, todo corpo se deve incendiar com os raios, se por acaso é próprio,
idôneo para as chamas. De resto, não deve ser totalmente fria a força do vento, visto que é envia-
da tão de cima e com tal violência; mesmo que não se incendeie na carreira, chega pelo menos té-
pida e misturada com calor.
"A mobilidade do raio, e o seu forte golpe, ea rápida carreira em que caem os raios, devem-se
E fato de que nas nuvens, já antes de sair, se acumula a sua força e toma o ímpeto imenso de par-
1: depois, como não podem as nuvens conter esta força que aumenta, é ela atirada para fora e
voa com ímpeto extraordinário, como os projéteis lançados pelas, fortes máquinas de guerra.
Acrescenta ainda que é de elementos pequenos e lisos e que não é fácil opor-se coisa alguma a
uma tal estrutura. Foge e penetra pelos interstícios dos caminhos e por isso nao hesita, demorada
por numerosos choques; voa, por consegiência, deslizando impetuosamente.
Depois, como todos os corpos pesados tendem por 'sua natureza para baixo, duplica-se a
mobilidade e torna-se mais forte o seu impulso, porque a tudo se junta o choque; desse modo afas-
ta com mais violência e mais depressa todos os obstáculos que a demoram, opondo-se aos seus
golpes, e lá vai seguindo o seu caminho. Finalmente, como o ímpeto vem de longe, deve ir
ganhando velocidade a pouco e pouco, deve crescer com a carreira, aumentar as fortes forças e
dar vigor à pancada. É ele que reúne todos os elementos e faz que se juntem num só ponto a todos
empurrando e fazendo girar numa só carreira. É possível também que do próprio ar tire no cami-
nho vários corpos que, pelos seus choques, mais incendeiam essa velocidade.
Passa incólume pelas coisas e atravessa ilesa muitos corpos porque se mete O fluido fogo
pelos poros. Muitas coisas atravessa também quando os elementos do raio caem sobre o elemen-
tos dos corpos que formam as suas estruturas. É por isso que facilmente dissolve o bronze e faz
ferver o ouro; a força é feita de corpos minúsculos, de lisos elementos que facilmente se introdu-
zem e que, depois de introduzidos, dissolvem todas as ligações e afrouxam todos os laços.
É sobretudo no outono que mais se abala o palácio do céu adornado de fulgentes estrelas e
depois a Terra inteira, e também quando se abre a florida estação da primavera. Com efeito, fal-
tam os fogos durante o frio, não têm os ventos calor algum, nem as nuvens são de corpo tão
denso. É, portanto, quando há no céu as estações intermédias que se encontram todas as variadas
causas do raio: só estas passagens do ano têm, misturados, o frio e o calor que são ambos neces-
sários para se gerar O raio nas nuvens, haver discórdia de elementos e agitar-se furiosamente o ar
num grande tumulto de ventos e de fogos.
Efetivamente, é o princípio do calor e o final do frio que formam a estação primaveril e é por
isso fatal que lutem suas diferentes naturezas e que tudo perturbem ao se misturarem entre si.
Também o fim do calor vem depois misturar- -se com o princípio do frio e é a esta época que se dá
o nome de outono, quando os duros invernos combatem igualmente com os estios. É por isso que
estas épocas devem denominar-se épocas de transição e é por isso também que não é de admirar
que seja nestes tempos que mais aparecem os raios e que se agita no céu a torga tempestade, visto
que uma dupla guerra envolve os elementos, dum lado com as chamas, do outro lado com os ven-
tos e a umidade dos prados.
Isto é verdadeiramente penetrar na própria natureza do ignífero raio e ver por que motivo su-
cede cada coisa, sem que se vá andar para trás e para diante e inutilmente com os carmes tirrenos,
procurando por lá indicações do oculto espírito dos deuses e sem que nos ponhamos a observar
de que ponto chega voando o fogo, ou a que parte se dirigiu, ou de que maneira se meteu pelos
lugares fechados, ou de que forma saiu depois de por lá ter dominado, ou em que nos pode preju-
dicar o choque do raio que vem do céu.
Se, realmente, é Júpiter e os outrós deuses que abalam com o terrível som os rêsplandecentes
espaços do céu, e lançam o fogo para toda parte que lhes apeteceu, por que razão não fazem que
aqueles que cometeram um crime abominável, sem temor algum, não exalem do peito trespassado
as chamas do raio que os fulminou, servindo assim de terrível ensinamento para os mortais, e por
que razão aquele que não tem crime algum na consciência se vê envolvido inocente nas chamas
e é levado e arrebatado subitamente pelo turbilhão daquele fogo celeste? Por que razão atacam
lugares desertos e trabalham inutilmente? Acaso estão dando exercício aos braços e fortificando
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os músculos? Por que razão permitem que o ardor de seu pai venha embotar-se na Terra? Por que
razão o' consente ele próprio e não o poupa para Os inimigos? Finalmente, por que é que Júpiter
não lança dum céu inteiramente limpo e não espalha pelas terras o raio e seu trovão? Então, é
quando lhe passam as nuvens por debaixo que ele desce para elas e daí determina o lançamento
do dardo? Nesse caso, pôr que os atira para o mar? Que censura ele às ondas e à massa líquida
e às flutuantes planícies?
Além disso, se ele quer que nos acautelemos com'o choque do raio, por que razão hesita em
fazer que possamos dar pelo seu lançamento? Se quer, no entanto, que venha o fogo cair sobre
aqueles que o não esperam, por que razão troveja nesse ponto, para que possamos evitá-lo, por
que razão concita anteriormente as trevas, os frêmitos, os rugidos? Acaso se poderia acreditar que
ele os lança para vários pontos? Ousar-se-ia sustentar que jamais ao mesmo tempo tivessem caído
vários raios? Mas se é o que já tem acontecido inúmeras vezes: assim como chove e cai a água
em vários pontos, assim também chegam, ao mesmo tempo, vários raios.
Finalmente, por que motivo destrói ele os sagrados templos dos deuses e, com raio inimigo,
as suas preclaras moradias, por que razão quebra as excelentes estátuas dos deuses e, com a vio-
lenta ferida, diminui o prestígio das suas imagens? E por que motivo ataca ele os lugares elevados
e encontramos nós nos altos montes a maior parte dos sinais dos seus fogos?
É fácil agora, pelo que ficou dito, compreender a razão daquilo a que os gregos chamaram
prestér e o motivo por que de lá de cima cai ele sobre o mar. Acontece algumas vezes que desce
e cai do céu sobre o mar uma espécie de coluna à volta da qual o mar se põe a ferver, levantado
pelos sopros tempestuosos do vento; e todos os navios que nesse momento estão no mar são apa-
nhados pelo turbilhão e atirados para um grandíssimo perigo. Produz-se isto quando a rápida
força do vento não consegue, depois de o ter começado, romper uma nuvem qualquer; abaixa-a
então, à maneira de uma coluna que tivesse descido do céu até o mar, como se à força de punho
e de braço tivesse sido obrigada a estender-se sobre as ondas.
Quando, por fim, o vento a despedaça, sai para o mar a força do vento e nas ondas provoca
uma agitação extraordinária. Desce o turbilhão girando sobre si próprio e consigo arrasta o corpo
maleável da nuvem; e logo que, pejando-a, a traz ao contato das planícies do mar, subitamente se
mergulha todo na água e obriga todo o mar a referver excitado e com enorme estrondo.
Acontece também que o próprio turbilhão de vento se envolve em nuvens, raspando do ar os
elementos deçnuvem como se imitasse um prestér lançado do céu. Logo que chega à Terra e se dis-
persa, vomita a força imensa do turbilhão e da procela. Mas, porque raramente sucede .e porqué
na Terra os montes se lhe põem à frente, aparece com mais frequência nas parspeGunao do mar €
no grande céu aberto.
Formam-se as nuvens, quando um grande número de elementos, voando lá por cima, pelos
espaços do céu, se encontra de repente; como eles são ásperos, prendem-se uns aos outros de
maneira não muito forte, mas suficiente para lhes manter a ligação. Começam assim por consti-
tuir pequenas nuvens e depois estas se vão juntando umas às outras e juntando-se crescem e são
levadas pelos ventos, até que se levanta uma terrível tempestade.
Acontece também que, quanto mais os cumes das montanhas são vizinhos do céu, tanto mais
parece que as alturas fumegam assiduamente, com um espesso negrume de fulva nuvem, porque,
como as nuvens, a princípio, antes que os olhos as possam ver, são tênues, os ventos, transportan-
do-as, as obrigam a ir aos mais altos picos das montanhas. É somente ali que, tendo aumentado
o grupo e tendo-se condensado, começam elas a aparecer 'e ao mesmo tempo parecem surgir no
ar do próprio vértice do monte.
Com efeito, os lugares altos, como o demonstram a realidade e os sentidos, quando subimos
aos altos montes, são extremamente ventosos. Além disso, um número muito grande de elementos
se levanta de todo o ar, como o demonstram as roupas penduradas no litoral, quando se enchem
de umidade. Parece, portanto, que o aumento das nuvens pode vir em grande parte do salgado
movimento do mar, porque há relação consanguínea entre estas umidades.
Além disso, de todos os rios e, ao mesmo tempo, da terra, vemos nós levantarem-se névoas
e vapores que são levados para cima como úm hálito exalado do solo e que espalham pelo céu o
seu negrume e formam as altas nuvens pela sua lenta reunião. Efetivamente, o calor do céu estre-
lado comprime de cima para baixo e é ele que, pela condensação, cobre de nuvens o azul.
Pode ser também que venham para o céu, de fora, aqueles elementos que constituem as nu-
vens e as névoas voadoras. Com efeito, já ensinei que é inumerável o seu número e que é infinita
a extensão do espaço e demonstrei como é grande a velocidade destes elementos e que distância
imensa eles costumam percórrer num só instante. Não é, pois, de admirar que em breve tempo
muitas vezes grandes nuvens de tempestade e as trevas cubram Os mares e as terras, pesandq-lhes
DA NATUREZA 131
em cima, visto que, de todos os lados, por todos os pólos do éter, e, por assim dizer, por todos os
respiradouros do vasto mundo, há saída e entrada livres para todos os elementos.
E agora explicarei eu de que maneira se acumula nas altas nuvens o líquido da chuva é de
que maneira a água cai lançada à terra. Terei, primeiro, como certo que muitos elementos de água
surgem com as próprias nuvens e de todas as coisas, e que há portanto crescimento simultâneo e
mútuo das nuvens e da água que nas nuvens se encontra, exatamente como o nosso corpo cresce
com o sangue, com o suor e com toda a umidade que existe pelos membros.
Também recebem muitas vezes a umidade marítima quando, à maneira de.velos de lã, levam
os ventos as nuvens por cima do grande mar. É igualmente do mesmo modo que é levada para as
nuvens a umidade de todos os rios. Quando todos estes germes de água se reuniram de vários
modos e aumentam muito, as nuvens cheias procuram expelir esta umidade por dois motivos: pri-
meiro, porque as ataca a força do vento, depois, porque a própria massa das nuvens, acumulan-
do-se, cada vez mais exerce a sua pressão, comprime de cima para baixo e obriga a soltar a chuva.
Além disso, quando as nuvens se rarefazem com o vento ou se desfazem tocadas pelo calor
“do sol, logo fazem sair e destilam o líquido da chuva, como a cera, colocada em cima de um fogo
ardente, amolece e se liquefaz. Mas a chuva se torna violenta, quando as nuvens são oprimidas
por uma dupla força, a do vento e a que vem da sua acumulação.
Persistem as chuvas e duram mais tempo quando se movem muitos germes de água e quando
as nuvens e as névoas, comprimindo-se umas às outras, começam a derramá-la e escorre de todos
os lados e a Terra, fumegando, toda exala umidade.
Então, se nessa altura o Sol refulge com seus raios por entre a tempestade opaca e vem de
frente contra as nuvens, logo as cores do arco se levantam no meio das escuras nuvens.
Tudo aquilo que se desenvolve no ar, tudo o que se gera no ar e o que se acumula nas nuvens,
tudo, realmente tudo, a neve, os ventos, a saraiva e as geadas glaciais, e a grande força do gelo
que tanto endurece as águas e que tanto demora a passagem dos rios, tudo isso é muito fácil de
descobrir e também muito fácil o saber-se por que razão acontece e de que modo se gera, desde
que se conheçam bem as propriedades dos elementos.
Vais aprender, agora, qual a razão dos tremores de terra.º? Tens de acreditar, primeiro,
firmemente, que a terra, tanto na superficie como nas suas profundidades, está cheia de ventosas
cavernas e que tem no seu seio muitos lagos, muitos brejos, e penedos e rochas deslocadas; tam-
bém se tem de supor que, recobertos pelo dorso da Terra, rios numerosos fazem rolar suas ondas
e rochedos submersos; efetivamente, exige a evidência que a terra seja semelhante a si própria em
toda parte.
Tendo assim, por baixo dela, tais estruturas e disposições, treme a terra por cima, em virtude
dos desabamentos, de cada vez que a idade faz derruir as imensas cavernas; com efeito, caem
montanhas enormes e com o grande e repentino abalo muito longe se propagam os tremores.
Muito naturalmente, porque também tremem as casas abaladas por carros, ainda que não vão
muito carregados, e que tudo salta também quando o caminho sacode os aros de ferro das rodas.
O mesmo acontece quando se produz por velhice um desabamento de terra para dentro de
grandes e vastos brejos, de maneira a que se agite e vacile com a ondulação da água; também um
vaso não fica sossegado se o líquido que tem dentro não deixa de se agitar em incertas ondas.
Além disso, quando o vento que existe pelos lugares socavados da Terra se reúne para um
lado e aí se deita e exerce a sua pressão, apoiando-se com todas as forças nas profundas cavernas,
então toda a Terra se inclina para o lado em que a força se exerce. Então, todos os edifícios que
existem construídos sobre a Terra, e principalmente aqueles que mais se levantam para o céu,
ameaçam ruína levados na mesma direção e as traves, inclinando-se, parecem prontas a retirar-se.
E ainda há quem ouse acreditar que não existe para a natureza do vasto mundo um tempo
de morrer e um desastre, mesmo quando vêem iminente o desabar de uma tão grande massa de
terra! Porque, se os ventos não tivessem de respirar, nenhuma força refrearia os acontecimentos
e faria retroceder da morte o que já para ela iria caminhando. Mas como, alternadamente, tomam
fôlego e exercem pressão, como voltam formados e depois, repelidos, se retiram, muito mais
frequentemente ameaça a terra ruína do que realmente desaba: inclina-se e volta para trás, e de-
pois de quase ter caído assenta o seu peso nos próprios fundamentos. É por este motivo que vaci-
º2 Ao passo que os versos de Lucrécio sobre o trovão são destituídos de qualquer valor científico, o mesmo
não acontece com o que diz respeito aos tremores de terra, no ponto em que se refere a desabamentos
subterrâneos.
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lam todas as casas, no cimo mais que na parte média, no meio mais do que embaixo, e embaixo
quase nada.
Há ainda uma outra causa deste grande tremor, quando se levanta de súbito com enormís-
sima força um vento que vem de fora ou que nasceu da própria Terra e se lança para as cavidades
do solo; aí, por entre as grandes cavernas, freme e tumultua e gira em turbilhão, até que final-
mente se precipita impetuoso para fora e, fendendo, a terra lhe abre um. vasto abismo.
Foi isto o que sucedeu na Síria, em Sídon, e em Égio, no Peloponeso, onde uma erupção de
vento e o abalo de terra que se seguiu destruíram estas cidades. E muitas outras cidades cercadas
de muralhas pereceram por causa de grandes terremotos, muitas outras foram facadas até o
fundo do mar juntamente com os seus cidadãos.
E, se não há erupção, no entanto o próprio sopro e a fera força do vento, passando pelos
numerosos poros da terra, provocam um tremor parecido com o arrepio: do mesmo modo, quan-
do o frio penetra profundamente nos nossos membros, obriga-os a trerner e mover-se, mesmo sem
o querermos. Então, um duplo terror a todos agita pelas cidades, porque temem os telhados que
lhes podem cair em cima e porque temem que, por baixo, a terra não desapareça nas cavernas ou
se não abra escancarando vastos abismos e não queira enchê-los com suas próprias e confundidas
ruínas.
É por isso que, embora se creia que céu e Terra se não corrompem e estão entregues a uma
eterna segurança, o aparecer de quando em quando bem presente à própria força do perigo nos dá
por qualquer modo uma ferroada de medo, fazendo temer que a Terra nos não seja arrebatada
subitamente de debaixo dos pés para o báratro, que o Universo a não siga todo inteiro e que o
mundo se não torne uma confusa ruína.
Espanta, primeiro, que a naturezaº? não torne o mar maior, quando para lá corre tão grande
quantidade de água, quando para lá de toda parte vêm os rios. Acrescenta a isto as chuvas erran-
tes e as voadoras tempestades que espalhando-se regam todos os mares e terras; junta-lhe ainda
as fontes próprias; todavia, em comparação com o tamanho do mar, todo o aumento mal chegará
a uma gota; por isso é menos de estranhar que não se aumente o mar imenso.
Por outro lado, uma grande parte a leva o Sol com seu calor; vemos, com efeito, que o Sol
seca, com seus ardentes raios, a roupa impregnada de umidade: ora, os oceanos são muitos e
estendem-se por grandes superfícies. Por isso, ainda que seja pequena a quantidade de líquido que
em cada lugar o sol aspira da superficie do mar, todavia, no conjunto, é muito o que ele toma das
ondas.
Também os ventos que varrem a superficie do mar podem levar uma grande porção de líqui-
do, porquanto vemos muitas vezes que os ventos, numa só noite, podem secar os caminhos e fazer
endurecer as brandas crostas de lama.
Já mostrei, além disso, que as nuvens levam consigo muita umidade tirada da superfície do
mar e que por todo lado a derramam sobre a superficie das terras quando chove nas terras a que
o vento leva as nuvens.
Finalmente, como a terra tem 1 um corpo permeável e por todo lado está ligada ao mar, cin-
gindo-o com suas costas, deve, assim como o líquido da água vai das terras para o mar, manar
para as terras a superficie salgada; filtrado o amargor, volta para trás a matéria do líquido e con-
flui para a cabeceira de todos os rios, donde em seguida, com doce curso, torna a ir pelo caminho
que já uma vez traçaram as ondas com seu líquido pé.
Vou, agora, explicar por que motivo” ? pelas fauces da montanha do Etna se exalam fogos
com tão grande turbilhão; não é, efetivamente, de pequena importância o desastre, a tempestade
de fogo que, dominando os campos da Sicília, para aí faz voltar o rosto dos povos vizinhos, quan-
do o peito se lhes enche de cuidados e de terror ao verem os espaços celestes cheios de fumos e
de chamas sem saberem de que espécie são estes novos fenômenos.
É necessário que, nestes assuntos, olhes de longe e de alto, que para toda parte, por mais dis-
tante, dirijas o teu olhar, para que te lembres de como é profundo o Universo e vejas como o céu
não é mais de que uma pequena parte do total, uma fração mínima, mais insignificante ainda de
que um homem comparado com o conjunto da Terra. Se tu vires claramente todos estes bons prin-
cípios, se os contemplares com clareza, então deixarás de te admirar de muita coisa.
“83 A introdução do passo sobre o mar é um tanto abrupta e caracteriza bem a falta de ordenação e propor-
ções de todo este Livro.
** Escusado será dizer que a explicação do vulcanismo é totalmente fantasiosa. O fogo sagrado de que fala
o poeta é a erisipela.
DA NATUREZA 133
Quem há entre nós que se admire de ter alguém sentido nos membros o calor de um acesso
de febre ou, pelo corpo, a dor de qualquer outra doença? Umas vezes incha de repente um pé, -
muitas outras toma a dor aguda conta dos dentes, ou ataca os próprios olhos, ou então é o fogo
sagrado que aparece e que, serpenteando por todo o corpo, queima todo o ponto que tomou e se
insinua pelos membros; não há que estranhar, porque existem muitos elementos de corpos e há na
Terra e no céu bastantes germes de doenças para que possa desenvolver-se a força do imenso mal.
É, sem dúvida, assim que vêm do infinito ao céu e Terra todas as coisas necessárias, para que
de repente a terra abalada se mova, e corra pelo mar e pelas terras um rápido turbilhão, apareça
em abundância o fogo do Etna e flameje o céu. Também isto acontece, também ardem os espaços
celestes, também as chuvas de tempestade se levantam com maior violência no lugar em que por
aceso se reuniram os elementos das águas. É
“Mas é grande demais o ardente turbilhão deste incêndio.”
Claro, mas também não há rio que não pareça imenso a quem nunca viu outro maior, como
parecem enormes o homem ou a árvore e todas as coisas do mesmo gênero que se vêem maiores;
tudo nos surge imenso; e, no entanto, tudo quanto existe no céu e na Terra nada é em comparação
com o conjunto dos conjuntos universais.
Explicarei, então, agora, de que maneira as chamas de súbito irritadas se exalam das vastas
fomalhas do Etna. Primeiro, a estrutura de todo o monte é cavernosa e quase todas as cavidades
se apóiam em sílex; além disso, todas estas grutas estão cheias de ar e de vento, porque o vento
se produz ao agitar-se o ar. Logo que ele aquece e, furioso, abrasa à volta toda a pedra em que
toca e toda a terra, faz saltar um ardente fogo de velozes chamas que se lança pelas retas fauces
e delas sai no alto.
Assim leva até o longe o seu ardor, assim dispersa-ao longe a sua cinza, faz voar um fumo
de espessa escuridão ao mesmo tempo que projeta pedras de peso extraordinário; não se pode
duvidar que haja nisto tudo um turbilhão de vento. Por outro lado, o mar, que em grande parte
banha as faldas do monte, vai quebrando-as com ondas e marés. As cavernas do monte vão do
mar até as profundas fauces que ele tem por debaixo; tem de se dizer que passa por aqui lo
vento?]
(Lacuna)
e obriga a evidência a que penetre pelo mar aberto e que por isso se exale e se levante aquela
chama e atire pedras para O ar e levante nuvens de areia. Efetivamente, bem no cimo do monte
existem as crateras, como eles dizem por lá: nós lhes chamamos gargantas e bocas.
Há ainda alguns fenômenos a que se não pode atribuir uma só causa, mas de que se têm de
enumerar várias, uma das quais será, no entanto, a verdadeira. Do mesmo modo, se, por acaso,
se vir o corpo deitado e sem vida de um homem, é necessário que se enumerem todas as causas
de morte, para que se diga a que a provocou. Com efeito, não se poderia assegurar que morreu,
pelo ferro, ou pelo frio, ou por uma doença, ou talvez por um veneno; mas o que é certo é que foi
por algum destes acidentes. O mesmo temos de dizer de muita coisa.
O Nilo, o rio que banha todo o Egito,º º é o único na Terra que no verão enche e inunda os
campos. É no meio do calor que ele banha o Egito com suas águas, porque é no verão que sopram
os Aquilões contra as bocas do rio, visto serem ventos periódicos, e desta época do ano; como so-
pram em direção contrária à do rio, demoram as águas, levam-nas a acumular-se para montante
e obrigam-nas a parar. Com efeito, é fora de dúvida que estes ventos sopram contra o rio, porque
vêm da região das constelações frias. O rio, porém, vem do sul, da zona quente, visto que nasce
bem do meio-dia, dentre as gerações de homens que negras ficaram por as ter torrado o sol.
É possível, também, que uma grande acumulação de areia, juntando-se na embocadura, em
direção contrária à das ondas, quando o mar, levantado pelos ventos, atira a areia para dentro,
torne menos livre o desaguar do rio e faça menor o seu ímpeto, diminuindo a inclinação das
águas.
E'é possível ainda que as chuvas sejam por essa altura mais abundantes na cabeceira do rio,
º5 As cheias do Nilo impressionaram a todos os antigos por se darem no verão, ao contrário do que sucedia
com os outros rios conhecidos, e as explicações foram numerosas; como de costume, Lucrécio acolhe várias,
sendo uma delas a verdadeira, a do filósofo Anaxágoras (fusão das neves), O que prova que os epicuristas
não condenavam na totalidade os autores de que discordavam.
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porque é então que o sopro etésio dos Aquilões acumula nesses lugares um maior número de
nuvens. E evidente que as nuvens, ao reunirem-se no sul, vão chocar aí com altos montes e são
comprimidas e espremidas à força.
Mas talvez também cresça das altas montanhas dos etiíopes quando descem para os campos
as alvas neves derretidas pelos raios do Sol que tudo vai iluminando.
Vou agora explicar-te a natureza”? º e a estrutura de todos esses lugares e lagos a que cha-
mam os Ávernos.
Em primeiro lugar são eles designados pelo nome de Avernos em virtude de serem contrários.
a todas as espécies de aves; quando, de qualquer região, chegaram voando àqueles lugares, logo,
esquecendo-se de voar, abandonam as velas das asas, e, com o pescoço mole, caem de cabeça
para baixo, ou no chão, se por acaso é essa a natureza dos lugares, ou então na água, se por acaso
se encontra por debaixo um dos lagos Avernos.
Este lugar é junto de Cumas, e aí os montes, cobertos de àspero enxofre, fumegam ainda com
suas fontes termais. Mas há também nas muralhas de Atenas, mesmo no cimo da cidadela, junto
do templo da criadora Palas Tritônia, um lugar onde as rouquejantes gralhas jamais dirigem os
corpos com seu vôo, mesmo quando os altares fumegam com as dádivas, de tal modo evitam, não
as iras de Palas, enfurecida pela vigilância delas; como cantaram os poetas gregos, mas a própria
natureza do lugar que é bem suficiente para isso.
Também, segundo se diz, se pode ver na Síria um lugar onde, mal aí trouxeram seus passos
os quadrúpedes, uma força os obriga a cair pesadamente, como se tivessem sido, de súbito, sacri-
ficados aos deuses Manes.
Tudo isto se produz segundo razões naturais”? e é evidente a sua origem e causa. Não se
acredite, pois, que, por acaso, seja a porta do Orco por estas regiões, nem se creia que daqui levem
os deuses Manes as almas para as regiões infernais do Aqueronte, como se conta que os veados
de ligeiros pés podem, com o focinho, atrair para fora do séu esconderijo a ferina raça das serpen-
tes. Vê como tudo isto se encontra longe da verdadeira razão; com efeito, vou tentar dizer o que
existe na realidade.
Direi, em primeiro lugar, aquilo que já várias vezes disse, que existem na Terra elementos de
toda espécie; muitos são indispensáveis à vida e servem para a nossa alimentação e há muitos que
podem introduzir a doença e acelerar a morte. Muitos existem que são mais adaptados do que ou-
tros aos seres vivos e que mais servem ao seu modo de vida, em vista da diferença de natureza e
da diferença de texturas e de primeiros elementos. Muitos se insinuam pelos ouvidos e lhes são ini-
migos, muitos entram pelo nariz e são adversos e de áspero contato; não são menos aqueles cujo
contato temos de evitar, ou a cuja vista temos de fugir, ou que são de sabor desagradável.
Pode-se ver, em seguida, quantas coisas são fortemente inimigas do homem, quantas são
repugnantes e insuportáveis. Em primero lugar, há certas árvores cuja sombra é funesta, e a tal
ponto que muitas vezes provoca dores de cabeça aqueles que ficam deitados nas ervas por baixo
delas. Há até, sobre as grandes montanhas do Hélicon, uma árvore cuja flor, com seu terrível
cheiro, é capaz de matar um homem. Sem dúvida, todas estas coisas surgem da terra, porque o
solo traz misturados consigo e os produz, depois de os separar, numerosos elementos de muitas
espécies de coisas.
Se uma luz noturna recentemente extinta vem, com seu cheiro desagradável, tocar o nariz de
alguém que está acostumado, por doença, a cair espumejando, logo essa pessoa mergulha num
protundo sono. As mulheres caem adormecidas com o pesado cheiro do castóreo, e escapa-se
lhes das brandas mãos o formoso trabalho, se por acaso sentem esse odor nas suas êpocas men-
sais. Muitas outras coisas fazem desfalecer os membros corporais e abalam a alma nos seus mais
íntimos fundamentos.
Finalmente, se alguém, cheio de comida, se demorar num banho quente, como é fácil cair
desacordado no meio da banheira de água fervente. E quão facilmente a força e o cheiro dos car-
vôes se insinuam no cérebro, se por acaso não tomamos água antes.
Quando a ardente febre domina o corpo, então se torna o cheiro do vinho como um golpe
mortal. Não vês, também, como o enxofre se gera na própria terra e cresce o betume com seu ter-
º6 A etimologia que os antigos propunham para Auerna era Oo grego aornos, que significa “pri-
vado de aves”; o fato de o u se ler realmente como u e não como ve de, em numerosas palavras, haver entre
o grego € O latim a diferença de vocalismo e/o, que remontava ao indo-europeu, fazia que aos pros dos
romanos a etimologia aparecesse como aceitável.
97 A grande preocupação de Lucrécio é a de apontar as leis naturais dos fenômenos que podiam ser, e eram
habitualmente, atribuídos à influência dos deuses ou a fatos miraculosos. ;
DA NATUREZA 135
rível odor; como nos lugares em que se exploram veias de ouro e prata, em que se procura profun-
damente com o ferro o que se esconde na terra, se exalam odores como os de Scaptênsula?
Que emanações maléficas não saem das minas de ouro? O que elas fazem do rosto e das
cores dos olhos! Não tens visto ou não tens ouvido como costumam acabar em pouco tempo,
como têm pouca abundância de vida aqueles que a grande força da necessidade obriga a tais tra-
balhos? Portanto, é a terra que lança todas estas exalações e que as expira para o ar livre, para
o céu aberto.
Do mesmo modo, deve os lugares do Averno lançar às aves uma força mortífera, que da
Terra surge para os astros, de maneira a envenenar numa certa parte os espaços do céu; logo que
uma ave é levada pelas asas a tais lugares, se vê presa e tomada pelo invisível veneno e cai do
lugar onde a emanação se dirige. Mal desaba, logo esta mesma força daquela emanação lhe rouba
dos membros todos os restos de vida. Primeiro nela provoca apenas uma certa agitação; depois,
ao cair na própria fonte do veneno, tem que vomitar ali mesmo a sua vida, visto que há à volta
uma grande quantidade de mar.
Acontece também muitas vezes que esta força, que esta exalação do Averno, expulsa o ar
que está colocado entre -a terra e os pássaros, de maneira que este lugar seja deixado vazio. Logo
que de qualquer ponto ali chegaram, imediatamente o esforço das asas se exerce claudicamente no
vazio e é atraiçoado por todos os lados. Como não podem apoiar-se ou sustentar-se nelas, é claro
que a natureza as obriga, dado o seu peso, a cair até o solo e que, por causa de atravessarem o
vago vácuo. lançam a alma por todos os poros do corpo.
Se a água se torna mais fresca nos poços durante o verão, é porque a terra se torna mais rala
devido ao calor e lança para os ares todos os germes de calor que pode ter consigo. Assim, à me-
dida que a terra é mais afetada pelo calor, tanto mais fria se torna a água que está encerrada no
solo. Por outro lado, quando, devido ao frio, .a terra se comprime e contrai, e como que se toma
mais densa, acontece que, ao contrair-se, espreme para OS poços tudo o que em si tem de calor.
Diz-se que há junto do templo de Amon uma fonte que é fresca enquanto existe luz do dia
e quente durante o tempo da noite. Os homens admiram-na muito e julgam que as terras fervem
de repente quando o ardor do sol lhes passa por debaixo, quando a noite cobre as terras com sua
terrível escuridão. Mas tudo isto está muito longe da verdadeira razão. Com efeito, não tendo po-
dido o Sol, ao bater a descoberto ao corpo da água, torná-la quente da parte de cima, como pode-
rá ele aquecer o líquido e saturá-lo de seu cálido vapor, quando está por baixo do corpo da Terra,
tão espesso? Principalmente quando mal pode fazer atravessar as paredes das casas ao calor de
seus ardentes raios.
Qual é, então, o motivo? É evidente que a terra é mais rala à volta da fonte do que o solo à
volta e que há muitos germes de fogo mesmo à volta da água; logo que a noite cobre a terra com
suas ondas de orvalho, imediatamente a terra arrefece e se contrai até o mais profundo. Acontece
deste'modo que, como se fosse espremida à mão, lança para a fonte todos os seus elementos de
calor e eles tornam quentes o contato e o vapor do líquido. Depois, quando o Sol, nascendo, move
a terra com seus raios e a rarefaz, misturando-lhe o seu quente vapor, de novo voltam às antigas
residências os elementos de calor e para a terra passa todo o calor da água. É por isso que a fonte
se torna fresca à luz do dia. Além disso, o líquido da água é batido pelos raios do Sol e se rarefaz
à luz do dia sob a influência do trêmulo calor; acontece, então, que lança fora todos os elementos
de calor, como também muitas vezes larga o frio que em si contém, liberta os gelos e lhes afrouxa
os nós.
Há também uma fonte fria em que imediatamente se incendeia, com um fogo que de súbito
se concebe, a estopa que se lançou em cima; do mesmo modo, se acende uma tocha e vai bri-
lhando pelas águas, flutuando para todo lado para onde a impelem as auras. Nada há nisto de
admirar, porque existem nas águas muitíssimos elementos de calor, e devem, das profundidades
da Terra, atravessando toda a fonte, vir outros germes de fogo que, depois, se exalam e saem para
os ares, sem- que se possa, no entanto, tornar a fonte quente; além disso, o próprio impulso os
obriga a vir dispersos, enquanto atravessam a água, e a só em cima se juntar.
Há uma fonte desta espécie no mar de Arado: jorra água doce e as salgadas ondas afasta à
sua volta; e em muitos outros lugares oferece o mar uma: oportuna utilidade aos marinheiros
sedentos, porque lança uma água doce entre as suas ondas salgadas.
Podem, portanto, os elementos passar por esta fonte e lançar-se para fora e, ao se juntarem
na estopa ou ao aderirem ao corpo da tocha, ardem imediatamente com toda facilidade, porque
já muitos germes de fogo têm escondidas em si a estopa e a tocha. Não vês também como, ao che-
gar-se a uma luz noturna uma torcida apagada há pouco, se acende ela, mesmo antes de tocar na
chama, e que o mesmo sucede com a tocha? E há muitos outros corpos que se inflamam de longe,
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só pelo contato do calor, antes mesmo de o fogo os penetrar. É isto o que se tem de pensar que
sucede na tal fonte.
Vou agora começar a explicar outro assunto,º* a dizer por que leis naturais pode atrair ao ,
ferro a pedra a que chamam os gregos magnete, nome que lhe designa a origem, porquanto se diz
que provém de Magnésia. Os homens admiram esta pedra; com efeito, muitas vezes se vê formar
uma cadeia com vários anéis que dela pendem. É possível verem-se cinco e mais ainda, suspensos
uns dos outros, balançar-se nas ligeiras auras, uns aos outros passando a força e as ligações da
pedra, de modo que essa força se exerça sem interrupções.
ê Em tudo o que é desta espécie se têm de pôr muitos fundamentos antes que se possa apresen-
tar a própria razão do fenômeno e é com grandes voltas que se tem de fazer a aRroximação: por
isso, peço agora ânimo e ouvidos mais atentos.
Primeiro, deve haver de todos os corpos que nós vemos um perpétuo fluxo, uma emissão, um
emanar de elementos que nos impressionam os olhos e os movem à visão. Perpetuamente fluem
os cheiros de certos corpos, como o frio sai dos rios, o calor do Sol, e das ondas do mar, a vaga
que vai roendo os diques do litoral. Também não deixam os sons de correr pelos ares. Finalmente,
muitas vezes nos vem ao rosto, quando passeamos junto do mar, um líquido com sabor a sal; e
igualmente, quando vemos preparar uma solução de absinto, nos vem atingir o seu amargor. É,
portanto, bem certo que de todos os corpos fluem e que para toda parte são lançados; nenhuma
demora, nenhum descanso, se dão neste fluir, porquanto sempre temos sensações e a tudo pode-
mos sempre ver, cheirar e ouvir.
“Tornarei agora a lembrar como todas as coisas têm uma estrutura rarefeita, conforme se
explica no canto primeiro. Com efeito, e embora tenha isto grande importância pelo que diz res-
peito a muitos fatos, é principalmente por aquilo de que vou tratar que vai necessariamente ficar
bem firme que-nada existe que não seja mistura de matéria e de vazio.
Vemos, primeiro, que, nas cavernas, as pedras de cima como que suam um líquido e gota a
gota o vão destilando e fazendo correr. Assim também a nós mana o suor por todo o corpo e nos
cresce a barba, nos crescem os pêlos por todo o corpo. Todo alimento é distribuído pelas veias e
tudo aumenta e alimenta, até a extremidade do corpo, até as pontas das unhas. Sentimos o frio e
o ardente calor passarem pelo bronze, sentimo-los passar pelo ouro e pela prata, quando temos
nas mãos os copos cheios. Finalmente passam os sons pelas paredes de pedra de nossas casas,
passam o cheiro, o frio e o calor do fogo que também costuma penetrar a própria resistência do
ferro. Enfim, de todos os lados por que nos cerca a loriga do céu
(Lacuna)
E ao mesmo tempo a força da doença, quando vem de fora, e os temporais que nascem do céu e
da Terra, naturalmente, ao afastar-se, entram no céu e na Terra, visto não haver nenhum corpo
que não seja uma ligação de matéria e de vazio.
A isso se acrescenta que todos os principios emitidos pelos corpos não produzem em toda
parte os mesmos efeitos nem convêm igualmente a todos os corpos.
Em primeiro lugar, o Sol recoze e seca a terra, mas derrete o gelo e com seus raios obriga as
altas neves a fundirem-se pelas altas montanhas. Por fim, liquefaz a cera exposta ao seu calor.
Também o fogo torna líquido o bronze e derrete o ouro, mas contrai os couros e as carnes,
e os aperta. Por seu lado, o ferro se endurece ao sair do fogo para a água, mas abrandam-se os
couros e as carnes que tinham sido endurecidas pelo fogo.
A oliveira brava agrada às cabras barbudas, como se derramasse ambrosia e estivesse
impregnada de néctar; e, no entanto, para o homem, nada existe mais amargo do que seus ramos.
Finalmente, o porco foge da manjerona e detesta todo perfume; tudo isto é um terrível vene-
no para O seu corpo coberto de sedas: mas a nós nos parecem muitas vezes capazes de nos dar
uma nova vida. Pelo contrário, a lama que nos parece a nós a mais terrível das imundícies é para
o porco tão deliciosa que todos eles insaciavelmente nela se espojam.
Há ainda uma outra coisa que tenho de dizer antes que principie a tratar da questão em si
própria. Os numerosos poros que todas as coisas apresentam devem, no entanto, ter entre si dife-
renças de natureza e ter em cada caso sua estrutura e seus caminhos. Efetivamente, os seres vivos
º8 O ponto essencial da explicação da força atrativa é a de que os átomos do magnete, por uma propriedade
especial, expulsam pelo choque o ar que estã entre eles e o corpo a atrair; os elernentos deste, logo que o ar
desaparece, precipitam-se no vazio, empurrados além disso pelo ar que existe por trãs deles. A “pedra
magnética” é, como se sabe, um óxido de ferro natural. |
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DA NATUREZA | SM
possuem vários sentidos e cada um por si percebe o que é de seu domínio: vemos que por um lado,
penetram os sons, por outro, os sabores dos sucos, por outro, ainda, os cheiros.
Além disso, existem corpos que parecem atravessar pelas pedras, outros pela madeira, outros
pelo ouro, e escapar outros ainda pela prata e pelo vidro. Por um passam as imagens, pelo outro
parece ir o calor e haver corpos que mais rapidamente passam do que outros. Tudo isto é, natural-
mente, devido à natureza do caminho, que varia de muitos modos, como já antes mostramos, por
causa da diferente natureza e da diferente estrutura dos corpos.
É por isso que, depois de bem confirmados e bem estabelecidos estes princípios, nos é fácil
explicar a razão daquilo que falta, e ficará inteiramente clara a causa por que o ferro é atraído.
É necessário, primeiro, que saiam desta pedra numerosos elementos ou uma corrente que por
seus golpes dissipe o ar que se encontra colocado entre a pedra e o ferro. Logo que o espaço se
encontra vazio, logo que se despeja o lugar que está no meio, imediatamente os elementos do
ferro, caindo, se lançam juntos no vácuo, de maneira que o próprio anel os segue e vai com toda
a sua substância. Não há nenhum corpo cujos primeiros elementos estejam tão ligados e tão entre-
laçados entre si como o ferro, cuja estrutura é tão forte e que dá um tão glacial arrepio.
É por isso que é menos de admirar se possa dizer que não podem sair do ferro para O vazio
certos elementos do ferro, sem que o próprio anel os siga; mas é o que ele faz e lá os segue, até
que chega à própria pedra e a ela adere com invisíveis ligações. É isto o que sucede em todas as
direções, qualquer que seja O lugar em que se faz o vácuo, quer seja debaixo quer seja de cima:
imediatamente os elementos vizinhos se precipitam para o vácuo. Com efeito, são postos em
movimento pelos choques, visto que não poderiam por si próprios elevar-se para Os ares.
Vem ainda sobre isto que uma outra causa torna mais fácil o fenômeno, e, chegando como
ajuda, lhes auxilia o movimento: efetivamente, logo que o ar que está à frente do anel se rarefaz
e o lugar se torna mais livre e vazio, logo sucede que todo o ar que se encontra por detrás como
que empurra e impele para a frente. De fato, o ar sempre bate nos corpos que cerca, mas nessa
ocasião impele o ferro para a frente, porque há dum lado um espaço vago e ele o toma para si.
Logo que este ar de que te vou falando sutilmente se introduz pelos numerosos poros do
ferro, então empurra e põe em movimento as pequenas partículas, como se fosse um vento a
empurrar as velas de um navio. Finalmente, todos os corpos devem conter ar nas suas estruturas,
visto que todos são de substância porosa e a todas as coisas o ar se encosta € circunda. Por conse-
guinte, este ar que está escondido no fundo do ferro sempre é agitado por um movimento continuo
e sempre, sem dúvida, bate naquele anel e certamente o empurra para o interior: então é levado
o anel para o lado a que já uma vez se tinha lançado e com seu ímpeto se dirige para a parte vazia.
Acontece também que algumas vezes foge desta pedra a substância do ferro, habituada como
está a alternadamente se retirar e seguir. Eu mesmo vi saltarem pedaços de ferro da Samotrácia
e enfurecer-se limalha de ferro dentro de taças de bronze, sempre que se lhe punha por debaixo
esta pedra magnete: a tal ponto pareciam impacientes por fugirem da pedra. A interposição do
bronze provoca tal discórdia porque as emanações do bronze, como é evidente, entram primeiro
“nos canais abertos do ferro, e só depois vêm as da pedra, que já encontram tudo cheio de ferro e
não têm já por onde passar como dantes o faziam. Tem, portanto, que bater e atacar com suas
ondas a contextura do ferro e é por isso que atira para longe e que agita através do bronze aquilo
mesmo que, sem ele, tantas vezes atrai.
E, já que estamos neste assunto, deixa também de te admirar pelo fato de que as emanações
desta pedra 1 não possam igualmente atrair outros corpos. Há, com efeito, alguns que, por seu pró-
prio peso, são estáveis, por exemplo, o ouro, e outros que têm o corpo tão rarefeito que a emana-
ção os atravessa intata e lhes não dá impulso algum: parece encontrar-se neste caso a substância
da madeira. Como a estrutura do ferro se encontra colocada entre uma e outra, desde que receba
alguns corpúsculos de bronze, sucede que pode ser impelida pela corrente das pedras de
Magnésia. -
Além de tudo, não são estes fenômenos tão diferentes de outros que eu não possa lembrar
muitos do mesmo gênero, em que um corpo apenas a outro se pode ligar. Vês primeiro que só a
cal pode juntar as pedras. Tão bem se prende a madeira com'a cola de touro que é mais fácil que
cedam os próprios veios das tábuas do que possam dar de si as ligações realizadas com aquele
laço taurino. Ousam os sucos da vinha misturar-se às fontes de água, mas não o podem fazer nem
o pesado pez nem o leve azeite. A purpúrea cor da concha de tal modo se junta com a substância
da la, que já não se poderia separar, mesmo que se desse às ondas de Netuno o encargo de renovar
o trabalho, mesmo que todo o mar a quisesse lavar com suas ondas.
E não se vê, finalmente, que só um corpo é capaz de juntar o ouro ao ouro, e que o bronze
só ao bronze se junta por meio do estanho? E quantos outros exemplos se poderiam encontrar?
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138 LUCRÉCIO E
Mot
Mas para quê? Para ti não são necessários tantos rodeios, nem é justo que eu tenha de empregar
muito trabalho: o que convém é resumir muitas coisas em poucas palavras. Os corpos cujas textu-
ras são mútuas e contrárias, de modo a corresponderem as depressões de um às saliências do
outro, esses corpos são os que têm entre si uma união mais perfeita. Acontece também que um
conjunto de anéis e de ganchos possa manter os corpos ligados entre si: é o que sucede, segundo
parece, com esta pedra e o ferro. x
Explicarei agora qual é a causa das doenças *º e donde pode nascer esta força mórbida capaz
de repentinamente provocar um desastre mortífero na raça humana e nos rebanhos de animais.
Há primeiro, como já ensinei acima, os elementos de muitas coisas que são vitais para nós,
mas é fatal que voejem também aqueles que trazem consigo a doença e a morte. Quando eles por
acaso se levantam e perturbam o céu, torna-se mórbido o ar. Toda esta força de doença, toda esta
pestilência, ou vêm de fora, como vêm as nuvens e as névoas lá por cima pelos céus, ou nascem
da própria terra, quando o solo úmido se decompõe, batido ao mesmo tempo pelas chuvas intem-
pestivas e pelos raios do Sol.
Não vês também que são experimentados pela novidade do clima e da água todos aqueles
que se afastam de sua pátria e de seu lar, e isto apenas porque as coisas são muito diferentes?
Efetivamente que distinto é o céu da Bretanha do do Egito, em que se dobra o eixo do mundo, e
que diferente é o do Ponto e o que vai desde Gades até as negras gerações de homens com sua cor
torrada! Não só vemos que os quatro são diferentes entre si como também que estão cada um
para cada um dos ventos, para cada uma das partes do céu, e que são muito diversas a core a
fisionomia dos homens, e que tem cada raça as suas moléstias especiais. No meio do Egito, junto
do rio Nilo, há a elefantíase, que não se encontra em nenhuma outra parte. Na Ática é atacado o
andar, € Os olhos nos confins da Acaia. Há ainda outros lugares que são inimigos doutras partes
do corpo e outros membros: o que tudo é devido à diferença do ar.
Por conseguinte, quando se move um céu que nos é estranho e começa um ar inimigo a desli-
zar como serpente, então se arrasta a pouco e pouco, tal uma névoa ou as nuvens, e começa a per-
turbar e obriga a mudar-se tudo aquilo por onde caminha; acontece, então, que finalmente chega
até o nosso céu e o corrompe e o torna inimigo e semelhante a si próprio.
Então, de súbito, essa nova doença, essa pestilência, ou cai nas águas ou se deposita nas pró-
prias searas e outros alimentos dos homens ou pastos de animais, ou então permanece como que
suspensa a sua força no próprio ar e, quando aspiramos as auras que se misturaram com ela, é
fatal que ao mesmo tempo a absorveremos no próprio corpo. É do mesmo modo que, chega aos
bois a pestilência e que chega a doença aos tardos rebanhos baladores. E também não importa
que venhamos nós aos lugares que nos são adversos e troquemos a proteção do céu ou que a natu-
reza espontaneamente nos traga um céu corrupto ou outra qualquer coisa a que não estejamos
acostumados e que nos possa dar trabalhos com sua recente chegada.
Foi esta forma de doença, 'ºº foi esta mortífera emanação que outrora nos territórios de Cé-
crope tornou os campos funestos, tornou desertas as estradas e esvaziou de cidadãos toda a cida-
de. Tendo nascido no mais longínquo do território do Egito e de lá vindo, tendo percorrido muito
ar e muitos plainos flutuantes, finalmente se precipitou sobre todo o povo de Pandíon. Então, era
aos batalhões que eles caíam em poder da doença e da morte.
Sentiam primeiro a cabeça ardendo de calor, depois os olhos vermelhos e cheios de um bri-
lho estranho. Por dentro, a garganta negra suava sangue, e se fechava o caminho da voz, coberto
de feridas; a língua, intérprete do espírito, escorria sangue e estava enfraquecida pelos males, pe-
sada no mover-se e áspera ao tato. Depois, pela garganta a força mórbida enchia o peito e acudia
toda ao abatido coração dos doentes; então, na verdade, se derrubavam todas as barreiras da
vida.
A exalação que saía da boca espalhava um cheiro terrível, semelhante ao que deitam os
cadáveres corrompidos abandonados no chão. Depois caíam todas as forças da alma e o corpo
ºº A passagem à explicação das doenças é também muito brusca; a ligação com tudo o que precede faz-se,
de certo modo, porque se trata de movimentos de ar e de átomos.
*9 A descrição da peste de Atenas, com que termina o poema, é baseada nas páginas célebres da Guerra
do Peloponeso, de Tucídides (Livro 1); Emnout lembra como fonte secundária os escritos hipocráticos; efeti-
vamente, encontra-se entre eles um que parece realmente de Hipócrates (Littr é) e que se intitula Acerca das
Epidemias (Livros I e III); mas, como acontece com os filósosfos, é mais possível que Lucrécio tenha lido
manuais do que um texto original.
DA NATUREZA 139
inteiro se enfraquecia, já quase no limiar da morte. Uma ansiosa angústia e uma queixa misturada
de gemidos eram as assíduas companheiras destes insuportáveis males. Por vezes um soluço, que
surgia quer de dia quer de noite e sem descontinuar abalava os nervos com sua freqliência, opri-
miá os membros e os despedaçava, a eles que já estavam tão cansados.
Em ninguém se notava que houvesse ardor de corpo ou que existisse em qualquer parte exter-
na calor demasiado, antes ao tocar-se sentia-se apenas uma impressão tépida; ao mesmo tempo,
o corpo todo coberto de feridas como de queimadura estava inteiramente vermelho, exatamente
como acontece quando o fogo sagrado se espalha pelos membros. A parte interna dos homens es-
tava porém abrasada até os ossos e o estômago ardia com uma chama tal que por dentro tudo era
uma fornalha. Não se podia pôr por cima dos membros nada que se pudesse usar, por mais leve
e tênue que fosse: só o vento e os frios lhes serviam.
Uma parte entregava os membros que ardiam com a doença aos gélidos rios e apresentavam
o corpo nu às ondas. Muitos caíram de cabeça para baixo nas águas dos profundos poços a que
se dirigiam de boca aberta. A ardente sede insaciável, mergulhando-lhes os corpos, punha-lhes
como iguais uma pequena ou uma grande quantidade de água.
E não havia nenhum descanso naquele mal; os corpos jaziam exaustos. A medicina, com tá-
cito medo, apenas balbuciava, enquanto eles, uma porção de vezes, volviam os olhos abertos, os
olhos que ardiam com a doença e que não sentiam sono algum.
Apareciam, então, muitos outros sinais de morte, o espírito perturbado de tristeza e de medo,
o sobrolho carregado, a fisionomia furiosa e dura, os ouvidos inquietos e cheios de ruídos, a respi-
ração acelerada ou então profunda e lenta, o líquido do suor brilhando pelo pescoço umedecido,
os escarros pequenos, ralos, cor de açafrão e salgados, dificilmente arrancados da garganta por
uma tosse rouca. Nas mãos, os nervos contraíam-se, os membros tremiam, e não deixava o frio
de ir subindo dos pês a pouco e pouco. Depois, na hora suprema, as narinas se apertavam, afila-
va-se a ponta do nariz, cavavam-se os olhos, abatiam-se as fontes, a pele do rosto ficava dura e
fria, havia um ricto na boca, fazia-se tensa a fronte. Não muito tempo depois, o corpo ficava rígi-
do com a morte. E entregavam a vida cerca da oitava ou nona resplandecente lâmpada do Sol.
Se algum deles, como acontece, evitava os funerais da morte, um pouco mais tarde, todavia,
o aguardavam o enfraquecimento e a morte, com terríveis úlceras e um negro fluxo de ventre; ou,
então, uma grande quantidade de sangue corrupto, muitas vezes com dores de cabeça, lhe saía das
narinas inchadas: e com ele corriam todas as forças, toda a substância do homem. Se, no entanto,
ele escapava desta tremenda hemorragia, logo a doença lhe atacava os nervos e os membros, e as
próprias partes genitais do corpo. Uns. temendo fortemente os limiares da morte, viviam depois de
se terem privado com o ferro de suas partes viris alguns, sem mãos e sem pés, continuavam, no
entanto, na vida, e havia outros ainda que perdiam a luz dos olhos: a tal ponto entrara neles o ter-
rível medo da morte. E havia também alguns a quem de tal modo tomava o esquecimento de todas
as coisas que nem sequer a si próprios se podiam reconhecer.
Embora estivessem jazendo no solo numerosos corvos uns por cima dos outros, a raça das
aves e das feras afastavam-se para longe, para fugir ao terrível cheiro, ou então, se acaso os pro-
vavam, logo enfraqueciam e lhes chegava a morte. Também, durante aqueles dias, não aparecia
ave nenhuma nem saíam dos bosques as agressivas gerações de feras. A maior parte enfraquecia
com doença e morria. Os cães, principalmente, com sua força fiel, exalavam a alma, estendidos,
cheios de dor, por todos os caminhos; efetivamente, a força da doença lhes arrancava dos mem-
bros a vida.
Funerais desolados e sem acompanhamento procuravam ir o mais rápido possível. Não se
apresentava nenhum remédio que o fosse para todos: com efeito, aquele que dera a um o voltar a
sentir no rosto as vitais auras do ar e a contemplar os espaços do céu preparava para outros o
extermínio e a morte.
O pior mal de todos, e o mais lamentável neste caso, era que, se alguém se via contaminado
pela doença, logo, como se estivesse condenado à morte, ficava prostrado, sem ânimo e de triste
coração e ali mesmo, contemplando os seus funerais, exalava o seu espírito. Efetivamente, o con-
tágio da doença passava avidamente de uns a outros sem pausa alguma, como se fossem gado
lanígero ou gerações bovinas. Era isto que principalmente acumulava um funeral sobre outro
funeral. Tódos aqueles que evitavam visitar os seus doentes, demasiado cobiçosos da vida e teme-
rosos da morte, pouco depois eram punidos com morte vergonhosa e dificil, e morriam abandona-
dos, sem socorro, vítimas da sua incúria. Aqueles que, ao contrário, tinham estado ao pé dos seus
também sucumbiam devido ao contágio e à fadiga que os obrigavam:a-tomar não só o sentimento
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do dever como também a branda voz dos doentes, misturada com o som: das suas queixas. Assim
sofriam os melhores este gênero de morte.
(Lacuna )
uns sobre os outros, procurando enterrar o povo dos seus mortos; voltavam lassos de lamentos e
lágrimas, e uma boa parte se metia na cama por causa da tristeza. E não se podia encontrar nin-
guém que, numa tal ocasião, não tivesse sido experimentado pela doença, pela morte ou pelo luto.
Além disso, já todo pastor e todo guardador de rebanho e todo o que vai guiando o recurvo
arado caía de fraqueza e ficava deitado no fundo das cabanas, com o corpo entregue à morte pela
pobreza e pela doença. Os corpos inanimados dos pais acumulavam-se sobre os corpos inanima-
dos dos filhos, e algumas vezes também se poderia ver abandonarem a vida os filhos, por cima de
seus pais e suas mães.
E não foi numa pequena parte que o flagelo veio dos campos para a cidade, trazido pelo
grande número de lavradores que chegavam de toda parte, já enfraquecidos e doentes. Enchiam
todos os lugares, todas as casas, e mais facilmente a morte, por estarem reunidos, os acumulava
aos montes. Muitos caindo de sede pelas ruas, e rolando o corpo, ficavam estendidos junto das
fontes de água, com o espírito sufocado pela demasiada quantidade da agradável água. Também
se via um grande número com o corpo estendido por todas as ruas e lugares públicos, com os
membros enfraquecidos, meio exânimes, cobertos de porcaria e de farrapos; e assim morriam
entre a horrível sujidade de seu corpo. Sobre seus ossos só restava a pele, já quase toda sepulta
sob as asquerosas úlceras e a camada de sujeira.
Finalmente, até os sagrados templos dos deuses tinha a morte enchido de inanimados corpos,
e por toda parte os templos dos celestes seres estavam todos carregados de cadáveres dos hóspe-
des com que os guardas os tinham enchido. Já não tinham importância nenhuma nem a religião
nem os numes dos deuses: a dor presente era muito mais forte.
Também já não havia na cidade os costumes de sepultura com que o povo piedoso sempre
tinha enterrado os seus mortos; com efeito, todos estavam perturbados e se agitavam e cada um
cheio de tristeza enterrava os seus mortos, segundo as possibilidades presentes. As inesperadas
circunstâncias e a pobreza aconselharam muitas coisas horríveis. Alguns, com grande clamor,
colocavam os seus parentes sobre piras que tinham sido acumuladas para outros e depois chega-
vam-lhes as tochas, e preferiam bater-se, com grande derramamento de sangue, a- abandonar
aqueles corpos.
GLOSSARIO
DE NOMES PROPRIOS
AcaIA: designando a princípio apenas uma região da Grécia, veio a ser tomada como designando
a totalidade do território grego.
AGRIGENTO: cidade da Sicília, pátria de Empédocles.
ANAXAGORAS: nascido provavelmente em 500 a.C. e falecido em 428, sustentou a existência de
germes minúsculos, idênticos aos corpos em estrutura (homeomerias), num conjunto orde-
nado por um nous, uma inteligência, que os textos não permeia pôr como espititual ou
material.
ÂANCO: é o quarto da lista tradicional, e muito incerta historicamente, dos reis de Roma; era sem-
pre apresentado como o tipo do homem Justo e piedoso.
ÁAQUERONTE: nome dum lago ou rio dos infernos que passou depois a designar o próprio inferno.
ÁQUILAO: nome do vento norte.
ARADO: ilha da costa da Fenícia.
ÁARCADIA: região da Grécia, essencialmente pastoril.
ÁTICA: a região da Grécia de que Atenas era a capital.
ATLAS: O gigante divino que sustentava o mundo sobre os ombros ou, segundo outra versão, as
colunas do céu.
ÁULIDA: porto da Beócia.
AUSTRO: nome por que era designado o vento súl.
Baco: um dos nomes do deus do vinho (Dioniso), festujado nas vindimas e símbolo da vida
instintiva.
BARBARIA: designa, no passo do poema em que aparece, a Pronça da Frígia, na Ásia Menor.
BIsTONIA: região da Trácia, na Grécia.
CALÍOPE: uma das nove musas; era a inspiradora dos poetas épicos.
CAMpPo DE MARTE: O lugar de Roma onde se realizavam os exercícios militares.
CECROPE: o fundador mítico de Atenas.
CEos: uma das ilhas do arquipélago grego.
CERES: a deusa das searas, e dum modo mais geral, da produção agrícola.
CILA: monstro que se encontrava no estreito de Messina.
CILÍCIA: província da Ásia Menor.
CípIAO: trata-se de Cipião, o Africano, vencedor de Aníbal na guerra entre Roma e Cartago (sécs.
ULII a.C).
CRETA: a ilha do Mediterrâneo onde, segundo a fábula, tinha nascido Zeus (Júpiter).
CuMas: a cidade da Itália onde a Sibila proferia os seus oráculos.
CURETAS: sacerdotes cretenses de Zeus, confundidos desde muito cedo com os coribantes de
Cibele. -
DEMOCRITO: viveu, possivelmente, de 460 a 373 a.C.; como praticamente se desconhece Leucipo
(c. 430 a.C.), é a ele que se atribui toda a teoria atômica, que, por não admitir a declinação,
era puramente mecanicista.
Dicre: monte de Creta.
DIoMEDES: rei grego, filho de Ares.
EMPEDOCLES: nascido em Agrigento em 490 (?) a.C. e morto por volta dos sessenta anos, era filó-
sofo e médico, e foi considerado como deus pelos contemporâneos. O mundo para ele era
formado por quatro elementos, ar, água, terra e fogo, e movido por duas forças contrárias,
a do amor e a do ódio, a da atração e a da repulsão. Aceitava igualmente a crença órfico-pi-
tagórica da transmigração das almas.
142 | LUCRÉCIO
ENEADES: os descendentes de Enéias, isto é, os romanos; Enéias era, por seu turno, filho de
Vênus.
ERIMANTO: nome de um monte da Arcádia e de um afluente do Alfeio.
EsTINFALO: lago da Grécia (Zaraca).
ErTNa: dizia-se na Antiguidade que Vulcano (Hefesto) estabelecera as suas forjas na Sicília sobre
o Etna e que ao fogo da forja se deviam as erupções do vulcão; o trabalho dos ciclopes, que
o ajudavam, causava igualmente os tremores da terra.
Évio EvAN: epítetos de Baco e gritos das bacantes.
FAETONTE: filho .do Sol, roubara o carro de seu pai e abrasara as terras, porque não sabia
conduzi-lo.
FAvONIO: era o vento do oeste que soprava nos princípios de fevereiro e anunciava a volta da
primavera.
FEBO: propriamente, “o brilhante”; era um dos nomes de Apolo, o deus do Sol e da poesia ou,
mais largamente, de uma vida racionalmente harmoniosa que se opunha, talvez, para Os gre-
gos, à vida dionisíaca de que Baco era o simbolo.
FLORA: deusa da primavera e das flores.
HAMON: nome egípcio de Zeus (Júpiter).
HELICON: monte da Beócia, onde se prestava culto a Apolo.
GERIAO: filho de Crisaor, morto por Hércules.
HERACLITO: viveu provavelmente de 536 a 470 a.C.; sustentou que o elemento essencial é o fogo
ou o bafo, que o mundo é um contínuo fluxo e que o único elemento fixo, identificador dos
vários estados, é a Lei ou a Razão.
HERCULES: filho de Alcmena e de Júpiter, tinha, por imposição dum irmão, realizado notáveis
trabalhos, entre os quais se contavam: a vitória sobre o leão de Neméia; a destruição do ja-
vali de Erimanto, da hidra de cem cabeças dos pântanos de Lerna, das aves do Estinfalo,
dos cavalos de Diomedes, que devoravam gente; a descida aos infernos, vencendo o cão de
tríplice fauce; o descanso dado a Atlas. Como prêmio, tinha sido equiparado aos deuses.
HomERO: poeta grego, dos sécs. VHI-VII a.C., a quem se atribuem, parece que acertadamente, a
Ilíada, epopéia sobre a guerra de Tróia (lion), e a Odisséia, que narra o regresso de Ulisses
(Odisseus); não devem ser de Homero os Hinos e a Batracomiomaquia (Guerra dos Ratos e
das Ras).
IDA: niontanha de Creta, onde Zeus (Júpiter) tinha sido oculto pela mae, Réia, para que o pai,
Cronos (Saturno), o não devorasse; o mito de Réia confundiu-se muito cedo com o de
Deméter, a Terra-Mãe (Cibele).
IFIANASSA: nome que dá Homero a Ifigênia, filha de Agamêmnon, sacrificada em Áulida, para
que os deuses concedessem ventos favoráveis à esquadra grega que se dirigia a Tróia para
resgatar Helena, que fora raptada pelo príncipe Páris (Alexandre).
IsMAR: rio da Trácia.
JuPITER: o rei dos deuses do panteão romano, assimilado a Zeus, que tinha entre os gregos um
papel similar.
LERNA: lago da Argólida, na Grécia.
LíBER: outro nome de Baco.
LucANIA: região da Itália onde tinham aparecido, trazidos por Pirro, os primeiros elefantes (“bois
da Lucânia”).
MAGNESIA: cidade da Ásia Menor ou de Tessália, na Grécia.
MANES: deuses funerários aos quais se faziam sacrifícios para repouso das almas.
MARTE: deus romano, assimilado a Ares, o deus grego que presidia à guerra.
MATUTA: a deusa da manha.
MELIBEIA: cidade da Tessália.
Meio: talvez C. Mêmio, tribuno em 66 a.C., pretor em 58, governador da Bitínia em 57.
NETUNO: o deus romano assimilado a Poseidon, deus grego que representava o mar.
Órco: semideus que presidia aos juramentos e que resídia nos infernos.
PALAS: deusa da inteligência e da sabedoria, protetora de Atenas e a que foi assimilada a Minerva
romana.
PANDION: rei de Atenas, filho de Cécrope.
PARIS: um dos nomes do príncipe troiano que, raptando Helena, desencadeou, segundo a versão
tradicional, a Guerra de Tróia.
PELOPONESO: a península da Grécia em que ficava a Lacedemônia (Esparta).
PERGAMO: um dos montes de Tróia.
DÁ NATUREZA. 143
PIERIDES: as Musas, adoradas na Piéria (Matedônia).
Pírra: a profetisa de Febo, cujos oráculos eram dados em Delfos, à sombra dum loureiro e de
cima de um banco de três pés.
Ponto: o Ponto Euxino ou mar Negro.
SAMOTRACIA: situada na costa grega, na embocadura do Hebro (Maritza), e célebre pela estátua
da Vitória alada.
SCAPTENSULA: cidade da Trácia, perto da qual ficavam minas de prata.
Sísiro: era o nome do condenado que tinha, nos infernos, de rolar eternamente um rochedo por
uma ladeira acima; logo que atingia ó alto, a pedra descia.
TANTALO: em geral, representava-se Târitalo como condenado à fome e à sede, embora tivesse
junto de si comida e água em abundância; mas Lucrécio apresenta outra versão, comum a
vários autores: Tântalo estaria sempre ameaçado pela queda de uma rocha.
TARTARO: subterrâneo dos infernos, na sua parte mais profunda.
TeBas: à cidade da Beócia, célebre, na lenda, pela guerra entre Etéocles e Polinice (cf. Os Sete
córitra Tebas, de Ésquilo, e Antígona, de Sófocles).
TÍNDARO: o pai de Helena, cujo rapto foi a causa da Guerra de Tróia.
Tírios: um dos gigantes, filhos da Terra, e morto por Apolo ou Artemísia; tinham-no condenado
a ser devorado nos infernos por dois abutres.
TRACIA: região do norte da Grécia.
TRÍVIA: propriamente, “das encruzilhadas”, sobrenome dado a Diana ou Hécate, deusa da magia.
VENUS: a deusa romana assimilada a Afrodite, deusa da beleza e do amor, e cujo filho, Cupido
(Eros), era o deus alado do amor, e o mensageiro da deusa.
VULTURNO: vento do sudoeste.
MARCO TÚLIO CÍCERO
DA REPÚBLICA
Tradução e notas de AMADOR CISNEIROS
LIVRO PRIMEIRO
I. Sem o amor pátrio, não teriam Duílio.' Atílio? e Metelo? libertado Roma do terror de
Cartago; sem ele, não teriam os dois Cipiões apagado o incêndio da segunda guerra púnica, e,
quando seu incremento foi ainda maior, não o teria debilitado Quinto Máximo; * nem extinguido
M. Marcelo, * nem impelido P. Africano º às próprias muralhas inimigas. Certamente Catão, '
homem cuja família era desconhecida e de quem, não obstante, todos os que estudam as mesmas
verdades invejam a glória que alcançou com sua virtude e trabalho, podia ser lícito deleitar-se
ociosamente no saudável e próximo sítio de Túsculo.º Mas o homem veemente prefere, embora
seja chamado de louco e a necessidade não o obrigue, arrostar as tempestades públicas entre suas
ondas, até sucumbir decrépito, a viver no Ócio prazenteiro e na tranquilidade. Deixo de nomear os
inúmeros varões que salvaram a República, e passo em silêncio aqueles de quem se conserva
recente memória, temeroso de suscitar queixas com a omissão de algum. Afirmarei, sim, que
tamanha é a necessidade de virtude que o gênero humano experimenta por natureza, tão grande
o amor à defesa da saúde comum, que essa força triunfa sempre sobre o ócio e a voluptuosidade.
II. Mas não é bastante ter uma arte qualquer sem praticá-la. Uma arte qualquer, pelo menos,
mesmo quando não se pratique, pode ser considerada como ciência; mas a virtude afirma-se por
completo na prática, e seu melhor uso consiste em governar a República e converter em obras as
palavras que se ouvem nas escolas. Nada se diz, entre os filósofos, que seja reputado como são e
honesto, que não o tenham confirmado e exposto aqueles pelos quais se prescreve o direito da
República. De onde procede a piedade? De quem a religião? De onde o direito das gentes? E o
que se chama civil, de onde? De onde a justiça, a fé, a equidade, o pudor, a continência, o horror
ao que é infame e o amor ao que é louvável e honesto? De onde a força nos trabalhos e perigos?
Daqueles que, informando esses princípios pela educação, os confirmaram pelos costumes e os
sancionaram com as leis. Perguntando-se a Xenócrates,º filósofo insigne, que conseguiam seus
discípulos, respondeu: “Fazer espontaneamente o que se lhes obrigaria a fazer pelas leis”. Logo,
o cidadão que obriga todos os outros, com as penas e o império da lei, às mesmas coisas a que
a poucos persuadem os discursos dos filósofos, é preferível aos próprios doutores. Onde se poderá
encontrar discurso de tanto valor que se possa antepor a uma boa organização do Estado, do
* Foi graças a um estratagema imaginado por Duílio que os romanos alcançaram a sua primeira vitória
naval sobre os cartagineses. Com efeito, munidos os navios romanos de pontes guarnecidas'de arpões que se
prendiam às galeras de Cartago, travou-se sobre o mar uma verdadeira batalha campal, saindo Roma vito-
riosa. Para celebrar o triunfo de Duílio, ergue-se a famosa rostrata columna (coluna rostral).
2 Atílio Régulo, tendo caído em poder dos cartagineses, foi por estes enviado a Roma, a fim de propor ao
Senado uma troca de prisioneiros. Evitou, porém, que o Senado aceitasse a proposta e, malgrado as súplicas
de sua mulher Márcia e dos seus filhos, voltou a Cartago e foi supliciado.
3 Cônsul romano no ano 251 a.C., vencedor dos cartagineses na Sicília.
* Quinto Fábio. Máximo, cognominado o Cunctator (o Contemporizador), soube, com sua tática prudente,
sustar os progressos de Aníbal. .
5 Marco Cláudio Marcelo, que, durante a segunda guerra púnica, tomou Siracusa.
8 Públio Cornélio Cipião, o Africano, que se distinguiu na segunda guerra púnica e venceu Aníbal em
Zama. Seu neto adotivo Cipião Emiliano, filho de Paulo Emílio, que foi o segundo de nome Africano, foi o
destruidor de Cartago no ano 146 a.C.
7 Catão; o Antigo ou o Censor, célebre pela austeridade dos seus princípios e ao qual se atribui a frase famo-
sa: Delenda Carthago ! (“Destrua-se Cartago "7
8 Antiga cidade do Lácio. :
º Filósofo grego, discípulo de Platão, cujas doutrinas se esforçou por conciliar com as de Pitágoras.
148 CÍCERO |
direito público e dos Costumes? Assim, julgo preferíveis as cidades magnas e dominadoras, como
as denomina Ênio,'º aos castelos e praças fortes; creio, igualmente, que aos que governam a
República com sua autoridade se deve antepor a sabedoria dos peritos em negócios públicos. Já
que nos inclinamos a aumentar a herança da humanidade; já que para isso se encaminham nossos
estudos e trabalhos, estimulados pela própria natureza, e mais, para tornar mais poderosa e opu-
lenta a vida do homem, sigamos o caminho que os melhores empreenderam, e não escutemos as
vozes e sinais que nos chamam por detrás e a que os nossos predecessores fecharam os ouvidos.
HI. A essas razões tão certas e evidentes se opõem, entre os que argumentam em contrário,
em primeiro lugar, os trabalhos que acarreta a defesa da República, impedimento insignificante
para o homem ativo e vigilante, e desprezível não só em coisa de tanta importância como também
nas de menos interesse, nos estudos, nos assuntos comuns e nos negócios ordinários. Acrescenta-
se o perigo de perder a vida; opõe-se o temor à morte, torpe e vergonhoso para o varão íntegro,
habituado a considerar mais miserável consumir-se pela natureza e pela senectude do que dar
valorosamente à pátria, num momento determinado, o que cedo ou tarde terá de devolver à
natureza.
É nesse lugar que se julgam fortes e vitoriosos os adversários, ao alegarem as ingratidões e
injustiças sofridas pelos mais preclaros varões. Aqui apresentam exemplos tomados dos gregos:
Milcíades,!! dominador e vencedor dos persas, não curado ainda dos ferimentos que recebera
lutando corpo-a-corpo em preclara vitória, perdeu a vida, que salvara das armas inimigas, nas
masmorras da cidade; e Temístocles!'? proscrito da pátria que lhe devolvia a liberdade, buscou
asilo não nos portos da Grécia por ele salvos mas entre os bárbaros que em outros tempos hostili-
zara. Não são, certamente, poucos os exemplos da volubilidade e crueldade dos atenienses para
com seus mais preclaros varões; exemplos que, repetindo-se frequentemente entre eles, não falta
quem assegure que tenham passado para a nossa cidade. Recordam-se, a esse propósito, ora o
desterro de Camilo,'* ora a desdita de Aala,'* a inveja de Nasica,!* ora o ostracismo de
Lenas,!'º ou a condenação de Opímio,!” ou a fuga ae Metelo, ora o doloroso assassínio de C.
Mário, 'º a morte dos chefes, ora outras muitas desditas que pouco depois se sucederam. Não dei-
xam de citar meu próprio nome. E creio mesmo que, imaginando dever a meus riscos e conselhos
a conservação de sua vida e do seu repouso, amantes e ternos, de meus males se queixam. É estra-
nho que se admirem nos sacrifícios pela pátria aqueles que a ambição ou a curiosidade leva aos
mares.
IV. Quando jurei, ao deixar o Consulado, na assembléia do povo romano, que repetiu meu
juramento, que eu salvara a pátria, senti a recompensa das inquietações E cuidados que me produ-
ziam as injúrias. Por mais que minhas desditas tivessem mais de honras do que de trabalhos, e
não tanto de inquietação como de glória, maior alegria recebi pelos votos dos bons do que dor
pela alegria dos maus. Mas, se tivesse acontecido outra coisa, do que me poderia queixar? Nada
para mim seria imprevisto nem grave que não esperasse por meus feitos. Ainda mesmo que fosse
lícito colher o maior fruto do ócio pelo doce e variado dos estudos a que me consagro desde a
infância, e ainda mesmo que, sobrevindo algum desastre geral, minha condição não devesse ser
pior, mas a mesma dos outros, não vacilaria em arrostar as maiores tormentas e as próprias inun-
dações fluviais pela conservação dos cidadãos, julgando sacrificar meu bem-estar em arras da
tranquilidade comum. À pátria não nos gerou nem educou sem esperança de recompensa de nossa
parte, e só para nossa comodidade e para: procurar retiro pacífico para a nossa incúria e lugar
tranquilo para o nosso ócio, mas para aproveitar, em sua própria utilidade, as mais numerosas e
melhores faculdades das nossas almas, do nosso engenho, deixando somente o que a ela possa so-
brar para nosso uso privado.
V. Na verdade, não devemos ouvir os subterfúgios que empregam os que pretendem gozar
faciimente de uma vida ociosa, embora digam que acarreta miséria e perigo auxiliar a República,
'º Um dos mais antigos poetas latinos, grego de nascimento (240-169 a.€.).
1! General ateniense, vencedor dos persas na batalha de Maratona.
'2 General ateniense, adversário de Aristides. Acusado de peculato, foi exilado e retirou-se para a Pérsia,
onde morreu.
'3 Tribuno e ditador romano, que mereceu, pelos seus serviços, o título de segundo fundador de Roma.
** Servílio Aala, que matou Espúrio Mélio.
18 Cipião Nasica, primo do primeiro Africano, inimigo implacável de Tibério Graco.
18 Tm dos membros da família Popólia.
'? Opímio Nepote, cônsul que provocou a morte de Caio Graco.
*8 Caio Mário, cônsul romano, vencedor dos Cimbros, rival de Sila.
"DA REPÚBLICA 149
rodeada de pessoas incapazes de realizar o bem, com as quais a comparação é humilhante, em
cujo combate há risco, principalmente diante da multidão revoltada, pelo que não é prudente
tomar as rédeas quando não se podem conter os ímpetos desordenados do populacho, nem é gene-
roso expor-se, na luta com adversários impuros, a injúrias ou ultrajes que a sensatez não tolera;
como se os homens de grande virtude, animosos e dotados de espírito vigoroso, pudessem ambi-
cionar o poder com um objetivo mais legítimo que o de sacudir o jugo dos maus, evitando que
estes despedacem a República, que um dia os homens RORESIOs poderiam desejar, mas então inu-
tilmente, erguer de suas ruínas.
VI. Quem pode demonstrar a isenção que nega ao bio toda participação dos negócios pú-
blicos, exceto nos casos em que o tempo ou a necessidade o obrigue? A quem pode sobrevir maior
necessidade do que a mim, na qual nada teria podido fazer, mesmo não sendo cônsul? Como o
poderia eu ter sido sem ter feito esta carreira desde a minha infância, pela qual teria de chegar, de
cavaleiro, a esta suprema honra? Não está em nossas mãos servir à República quando a vontade
o ordena e de improviso, mesmo quando-ela corra grave risco, se não nos tivermos colocado antes
em condições favoráveis. E, em geral, o que mais estranho nos discursos dos sábios é que os que
negam ser possível governar uma nave num mar tranquilo, porque nunca procuraram saber fazê-
lo, se julguem capazes de tomar o leme quando sobrevém a borrasca. Assim costumam falar e
disso se gabam com não pouca frequência: esauecendo os meios de constituir solidamente um
Estado, atribuem tal conhecimento não aos homens doutos e eminentes mas aos experimentados
nessa modalidade de conhecimento. Como poderão cumprir a promessa de auxiliar a República
em transes dificeis, quando ignoram o que é mais fácil: governar o Estado em tempo de bonança?
Realmente, os sábios não costumam, por vontade própria, descer aos negócios públicos, e nem
sempre admitem esse encargo; mas também julgo perigoso descuidar arbitrariamente o conheci-
mento dos negócios públicos sem se preparar para qualquer eventualidade e desconhecendo o que
pode ocorrer.
VII. Se me estendi tanto em considerações, sobre esse ponto, é porque este livro é uma dis-
cussão empreendida e seguida por mim a respeito do Estado; e, para não frustrá-la, tive primeiro
de combater as dúvidas e desânimos que nos afastam dos negócios públicos. Se houver alguém a
quem decida a autoridade dos filósofos, escolha com cuidado e escute aqueles cuja autoridade e
cuja glória são reconhecidas pelos homens mais doutos, aos quais estimo, mesmo quando não te-
nham dirigido a nave do Estado, porque em compensação muito indagaram e escreveram a res-
peito dessas questões, desempenhando uma espécie de magistratura. Os sete varões que os gregos
chamaram de sábios foram versados na administração pública; e, realmente, em nada se apro-
xima tanto o nume humano do divino como ao fundar novas nações ou conservar as já fundadas.
VII. Pelo que me respeita, a mim que consegui alcançar digna reputação na gestão dos
negócios e encontrar felicidade para explicar os fundamentos das coisas civis, posso, com minha
experiência, discernir e mostrar que os meus antecessores — alguns versados nas discussões —
não desempenharam nenhum cargo prático, e outros, práticos nas gestões públicas, eram rudes
em oratória. Não é minha intenção instituir novas regras, de minha própria invenção, mas repetir
as opiniões dos preclaros e sábios varões de que se guarda memória em nossa idade e na nossa
República; ainda adolescente, pudemos apreciá-las dos lábios de P. Rutílio Rufo, 'º em Esmima,
que nos referiu uma controvérsia de muitos dias, e na qual julgo não estar omitindo ponto algum
de interesse que se possa relacionar com este grande assunto.
IX. Sendo cônsules Tuditano,?º Aquílio,?' P. Cipião, o Africano, filho de Paulo,?? decidiu
passar as férias latinas nos seus jardins, confiando na promessa feita pelos amigos de frequentá- -lo
nagueles dias; no primeiro dia de festa, veio o primeiro Q. Tuberão,*º filho de sua irmã, a quem
Cipião viu com alegria e perguntou:
— Como, tu por aqui tão cedo, Tuberão? Estas férias davam-te ocasião oportuna para te
entregares aos teus estudos.
— Tenho muito tempo — respondeu — para me ocupar com meus livros, que estão sempre
abandonados; mas a ti é mais difícil ficar ocioso, e muito mais em tempo de comoções públicas.
'º Cônsul ao tempo de Sila, reputado o mais ROSE dó seu século.
2º Cônsul romano.
21 Idem.
22 Paulo Cornélio Cipião, pai do Africano.
2º Sobrinho de Cipião, o Africano.
150 CÍCERO
— De onde se conclui — replicou Cipião — que minha ociosidade mais revela falta de
negócios do que de ânimo.
Ao que disse Tuberão:
— Verdadeiramente proveitoso te seria menos ânimo e mais descanso, porque somos mui-
tos os que resolvemos abusar de teu Ócio, se isto não te incomoda.
-—— Consinto nisso, e assim não deixaremos de adquirir algum novo conhecimento.
X. — Queres, pois, já que me dás confiança, e de certo modo me convidas, que examine-
mos, antes que cheguem nossos amigos, o que possa ser o novo sol que se anunciou no Senado?
Não são poucos, nem de pouco crédito, os que dizem ter visto dois sóis, e a desconfiança não é
tanta como o afã de procurar para esse fato uma explicação.
Disse, então, Cipião:
— Como sinto falta da presença de Panécio,? * que estuda com verdadeiro interesse, entre
outras coisas, esses maravilhosos fenômenos celestes ! Por minha parte, Tuberão, se devo dizer-te
o que sinto, não posso assentir no que ele afirma como se visse e tocasse coisas das quais apenas
podemos formar vagas hipóteses; por isso, costumo julgar mais sábio a Sócrates,” º que prescinde
dessa curiosidade nunca satisfeita, por se tratar de coisas superiores à razão humana, ou talvez
indiferentes à vida do homem.
— . Ignoro, Africano — disse Tuberão —, por que se conserva a memória de que Sócrates
desprezava esse gênero de discussões, para só procurar indagar tudo quanto se refere aos costu-
«mes da vida. Que autor podemos encontrar que a ele se refira, de mais autoridade que Platão? ?
Em seus livros e em muitas passagens, a linguagem de Sócrates é tal que, mesmo discutindo a res-
peito dos costumes, das virtudes e atê da República, mistura os númeras, a geometria e a harmo-
nia, seguindo o exemplo de Pitágoras.? ?
Cipião replicou:
— É assim como dizes; mas creio ter ouvido de ti, Tuberão, que, uma vez morto Sócrates,
Platão transladou-se primeiro para o Egito, pelo desejo de saber, depois para a Itália e para a Sici-
lia, a fim de estudar Pitágoras; que teve ocasião de discorrer com Arquitas,?º Terentino?º e com
Timeu,*º que recolheu os comentários de Filolau ?' e que, como naqueles tempos e lugares encon-
trasse no auge os estudos pitagóricos, entregou-se aos estudos de sua escola. Mas, como também
Sócrates lhe era predileto e queria que tudo favorecesse sua doutrina, uniu o enlace e a sutileza da
eloguência socrática à profundidade e obscuridade de Pitágoras.
XI. Nem bem Cipião disse isso, viu aproximar-se L. Fúrio *? e, saudando-o amistosamente,
atraiu-o e colocou-o a seu lado. E como visse também P. Rutílio, que é o autor desta narração, de-
pois de saudá-lo, convidou-o a sentar-se perto de Tuberão. Então, Fúrio:
— Que discutis? — disse. — Pusemos fim ao vosso diálogo?
— Não, de modo algum — respondeu o Africano —., posto que com fregliência investigas
com interesse as questões do gênero das que propôs Tuberão há breves instantes, e Rutílio tam-
pouco deixava, comigo, de se ocupar algumas vezes com elas, no sítio de Numância.
— Qual era a matéria da discussão? — perguntou Filão. *?
— Os dois sóis que dizem ter visto, e a respeito dos quais ele deseja, Filão, conhecer a tua
opinião.
)
XII. Quando Africano disse isso, um escravo anunciou que Lélio? * não tardaria, pois já
tinha saído de casa. Então, Cipião, trajando suas roupas mais luxuosas, depois de dar alguns pas-
sos no pórtico, saudou o recém-vindo Lélio e seus companheiros Espório Múmio,* * seu amigo
2* Personagem desconhecida.
** Famoso filósofo grego, cujas doutrinas Platão expõe nos Diálogos. Acusado de corromper a juventude,
Sócrates foi condenado a beber cicuta.
Re Grande filósofo da Grécia, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles.
= Filósofo e matemático grego, de existência problemática. É tido como o fundador da seita dos
pitagóricos.
28 Filósofo pitagórico.
2º De Tarento.
2º Filósofo pitagórico, ao qual Platão dedica um dos seus Diálogos.
21 Filósofo pitagórico.
s Da família de Camilo, o ditador famoso que salvou Roma da invasão gaulesa.
= Arquiteto e orador ateniense, contemporâneo de Demétrio de Falero.
Lélio, o Sábio, amigo do segundo Cipião, o Africano.
*º Amigo de Cipião.
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predileto, C. Fânio? º e Quinto Cévola,*? ? genros de Léno e jovens instruídos, já na idade de pode-
rem ser questores; depois de saudar todos, voltou ao pórtico, colocando Lélio no meio, como lhe
concedendo um direito de preferência na sua amizade para com eles pela adoração que este pro-
fessava nos campos ao vencedor da África, que obrigava Cipião a homenageá-lo na cidade pela
sua superioridade em anos. Tendo-se dirigido mutuamente a palavra, Cipião, a quem era grata a
presença dos amigos, quis que estes repousassem no lugar do jardim que o sol mais banhava com
seus raios, porque era, do ano, a estação de inverno; e, ao fazê-lo, apareceu um varão muito ilus-
trado e querido por todos, M. Manílio,*º que, depois de saudar Cipião e os outros amigos, sen-
tou-se ao lado de Lélio.
XII. Filão disse então:
— Não creio que a presença dos recém-vindos deva forçar-nos a procurar diferente assunto
de controvérsia, mas tratá-lo com mais calma e dizer alguma coisa digna dos que nos escutam.
— De que tratáveis, ou qualera a conversação por nós interrompida? — perguntou Lélio.
Filão respondeu:
-— Cipião me perguntava qual o meu parecer sobre os dois sóis, cuja aparição se testemu-
nha geralmente.
— E já sabemos, Filão, tudo o que concerne às nossas casas e à República, para nos ocu-
parmos do que acontece no céu?
— Pensas — replicou este — que não interessa aos nossos lares saber o que acontece no
imenso domicílio, que não é o encerrado entre nossas paredes, mas o mundo todo, que os deuses
nos deram como albergue e pátria, fazendo-nos nisto seus partícipes? Além do que, se ignoramos
isso, teremos de ignorar também muitas e grandes coisas. Por minha parte, e provavelmente pela
tua e pela de todos os ávidos de sabedoria, a consideração e o conhecimento dessas coisas me
deleitam.
Lélio respondeu:
— Não o nego, e menos ainda em tempo de férias; mas poderemos ainda ouvir algo, ou vie-
mos tarde? |
— Nada está ainda discutido e, estando a questão íntegra, com prazer te concedo a palavra
para que exponhas a respeito o teu julgamento.
— Escutemos-te primeiro, a menos que Manílio prefira resolver o litígio entre ambos os
sóis, dando“ ambos a possessão do céu.
— Zombas — disse Manílio — da jurisprudência que me honro em conhecer, sem a qual
quem distinguiria o seu do alheio? Mas deixemos essa questão e escutemos Filão, que maiores
dificuldades tem resolvido do que as que no presente nos preocupa, P. Múcio e eu.
XIV. FiLao: — Nada de novo direi por mim descoberto ou pensado; não posso esquecer
que C. Sulpício Galo, *º homem sábio e douto, conforme se afirma universalmente, ouvindo falar
de um caso semelhante em casa de M. Marcelo, que fora cônsul com ele, mandou que lhe trouxes-
sem o globo celeste que o avô de Marcelo tomara, no sítio de Siracusa, daquela cidade magnífica
e opulenta, sem tirar de tão abundante conquista outro despojo; eu ouvira falar dessa esfera a pro-
pósito da glória e do renome de Arquimedes, *º e me admiraria se não soubesse que existia outra
mais notável, construída pelo próprio Arquimedes e levada por Marcelo ao templo da virtude.
Mas depois, quando Galo começou a explicá-la com sua grande sabedoria, achei que o siciliano
tinha mais gênio do que a natureza humana parecia permitir. Galo dizia que a outra esfera sólida
e maciça era invenção antiga, posto que o primeiro modelo se devia a Tales de Mileto, *'que de-
pois Eudóxio de Cnido *? havia nela representado e descrito todos os astros que podemos admirar
na abóbada celeste, e que muitos anos depois Arato *º a completara:com seus versos, aprovei-
tando esses desenhos e valendo-se não da ciência astronômica mas da poética. Esse gênero de es-
38 Idem.
37 Descendente de Múcio Quinto Cévola (o Canhoto), o jovem romano que, depois de se ter introduzido no
acampamento de Porsena para matá-lo e tendo assassinado o secretário do rei julgando que se tratasse de
Porsena, foi conduzido à presença deste e, então, como para castigar o seu engano, queimou a mão direita
em um braseiro.
38 Autor de um poema sobre astronomia.
3º Astrônomo.
*º Ilustre geômetra da Antiguidade, nascido em Siracusa.
“1 Filósofo grego da escola jônica, autor de uma Cosmologia.
*2 Astrônomo grego, a quem se atribui a invenção do quadrante solar horizontal.
*3 Poeta e astrônomo grego, autor de um poema célebre sobre os Fenómenos.
152 CÍCERO
fera em que se representa o movimento do sol e da lua e o das cinco estrelas que se chamam erran-
tes, não se podia demonstrar de um modo sólido. E o mais admirável, no invento de Arquimedes,
consiste em ter ele achado um meio de demonstrar a convergência dos astros para um ponto no
meio da diversidade e desigualdade de todos os seus movimentos e trajetórias. Quando Galo
punha a esfera em movimento, via-se, a cada volta, a lua suceder ao sol, no horizonte terrestre,
como ela sucede ao sol todos os dias no céu; via-se, por conseguinte, o sol desaparecer na esfera,
como no céu, e pouco a pouco a lua vir projetar-se na sombra da terra, ão mesmo tempo que o
sol (surge) do lado oposto...
XV. — E eu estimava muito aquele homem, sabendo o grande afeto que meu pai Paulo“ * lhe
dedicava. Lembro- me de que, nos tempos da minha adolescência, sendo meu pai cônsul de Mace-
dônia e estando!na guerra, a superstição e o terror assãltaram o nosso exército, quando, por uma
noite serena, de súbito, a lua, que resplandecia no céu refulgente, eclipsou-se. Então, ele, que um
ano antes do Consulado foi legado nosso, não teve dúvida em ensinar,
no dia seguinte, ao exército, que não existia prodígio em tal fenômeno, e que sucederia O mesmo
em futuras e determinadas épocas, quando o sol estivesse de tal forma colocado que a sua luz não
pudesse alcançar a lua. |
— Mas como — perguntou Tuberão — ensinar àqueles homens incultos e nada científicos
essas questões?
CIPIAO: — Isto é certo... Nem insolente ostentação, nem palavras impróprias de um
homem sério e digno foram as suas. Nada melhor podia alguém propor-se do que afastar daqueles
homens perturbados o terror supersticioso.
XVI. — E não foi de outro modo, na grande guerra que sustentaram os atenienses e os
lacedemônios, que Péricles, * º príncipe, na sua cidade, da autoridade, da prudência e da elogiên-
cia, assim que escureceu o sol, as trevas repentinamente se fizeram e o receio assaltou o espírito
dos atenienses, ensinou aos seus concidadãos, diz-se, o que ele mesmo aprendera de Anaxágo-
ras, *º a quem ouvira, , isto é é, que, em períodos de tempo necessários e regulares, quando toda a lua
se encontrasse sobre o sol, sucederia o mesmo em alguns meses, se bern que não em todos. E
como, ao discutir, demonstrasse com razões o que afirmava, livrou seu povo do terror; no entan-
to, por esse tempo, era nova € ignorada a razão do escurecimento do sol pela interposição da lua,
razão que, segundo se assegura, foi Tales o primeiro que descobriu. Não escapou, depois, ià pene-
tração do nosso Ênio, que escreveu pelo ano 350 da fundação de Roma: “Em as nonas de junho;
a lua pôs-se diante do sol, e (se fez) noite”; e foi tal nessa matéria o aperfeiçoamento que, a partir
desse dia cuja data vemos consignada nos versos de Ênio e nos anais máximos, reputaram- se
naturais os eclipses anteriores ao que se verificou nas nonas de junho, no reinado de Rômulo, *
eclipse este que deu lugar, com sua escuridão, a que se julgasse devido a um fato prodigioso.
XVII. Tuberão disse então: — Não vês, Africano, como esta ciência, que antes te parecia
insignificante, deve ensinar-se?. .. Que se pode ensinar que pareça grande aos humanos e ao que
penetra o domínio dos deuses? Que pode existir de duradouro para quem conhece o eterno? Que
haverá de glorioso para quem vê quão pequena é a terra em toda a sua extensão e na sua parte
habitada, quão insignificante é o sítio que ocupamos para esperar que, deste ponto, ignorado de
muitíssimos povos, poderá nosso nome voar, longe, nas asas da glória? Certamente, para aquele
que nem os gados, nem os edifícios, nem o dinheiro considera como verdadeira riqueza, pouco
valem todas as coisas deste mundo, cujo desfruto é, na sua opinião, lirnitado, o uso pequeno,
incerto o. domínio, sem contar que, às vezes, os homens mais pequenos desfrutam as riquezas
maiores. Feliz o homem que pode verdadeiramente gozar do bem universal, não por mandamento
das leis, mas em virtude de sua sabedoria; não por um pacto civil que com ele se queira celebrar,
mas pela natureza mesma que dá a cada um o que julga que pode saber, usar e ser-lhe útil. Quem
aprecia o Império e o Consulado como coisas impostas e não como apetecíveis, considera um
dever desempenhá-los; quem encara esses encargos como um gravame e não como algo benéfico
que lhe há de trazer honra e proveito; quem de si mesmo pode dizer o que escrevia de Catão meu
avô Africano, que nunca era mais ativo do que quando nada fazia, que nunca estava menos só do
que quando se encontrava solitário — somente esse é feliz!
— Quem poderá crer, de fato, que Dionísio, ** quando conseguiu tirar a liberdade de seus
** Pai de Filão.
“48 Célebre orador e estadista ateniense.
*S Filósofo grego, considerado como o fundador do teísmo filosófico.
*? Lendário fundador e primeiro rei de Roma.
48
Tirano de Siracusa, que expulsou os cartagineses da Sicília.
DA REPÚBLICA 153
súditos, fez algo mais importante do que Arquimedes, quando, nada fazendo, em aparência, termi-
nou essa própria esfera da qual nos ocupamos? Quem não está mais só do que aqueles que, em
meio à turbulência e ao ruído da cidade e do foro, não encontram com quem falar, sendo-lhes gra-
tos testemunhos, assistem às controvérsias dos sábios, alimeritam-se com os encantos de suas
obras e inventos? Quem se poderá julgar mais poderoso do que aquele que nada necessita do que
deseja a sua natureza, ou mais rico do que o que vê serem maus todos os seus desejos, ou mais
santo e feliz do que o que se vê livre de toda perturbação de ânimo, ou quem mais firme na sua
fortuna do que aquele que pode levar consigo mesmo, embora no seu naufrágio, todos os seus
bens? Que império, que magistratura, que reino pode superar o estado daquele que, contemplando
da altura de sua sabedoria todas as coisas humanas a ela inferiores, só se ocupa com o eterno e
o divino, persuadido de que, sendo todos homens, só o são propriamente os que reúnem os atribu-
tos da humanidade? Eis por que tão eloquentes me parecem as frases de Platão, ou de quem quer
que as tenha dito, quando, tendo-o levado a tempestade, com outros companheiros, a terras igno-
tas e a uma costa deserta, por entre o temor que nos outros fazia surgir a ignorância do sítio, viu,
segundo se diz, figuras geométricas desenhadas na areia, e, com ânimo sereno, exclamou: —
Vede, pois, vestígios de homem. — Interpretou assim, não o cultivo dos campos, mas os indícios
da ciência. E por isso, Tuberão, agradaram-me sempre as ciências, os sábios e os teus próprios
estudos.
XVIII. Então Lélio: — Não me atrevo — disse — a acrescentar a isso coisa alguma,
Cipião; porque nem a ti, nem a Filão, nem a Manílio.
Tivemos na família de Tuberão um amigo digno de servir-lhe de modelo: “Élio Sexto, *
homem realmente sensato e de coração reto”; que de fato assim o fora, também Ênio o a
não pelo fato dele procurar aquilo que jamais descobriria, mas porque dava aos que o consul-
tavam respostas que os libertavam das preocupações e dificuldades. Disputando contra os estudos
de Galo, tinha sempre nos lábios frases que, na Ifigênia, * º pronuncia Aquiles: *
“Os astrônomos estudam os movimentos no céu, localizam o Júpiter, a Cabra, o Escorpião
e outros nomes de animais; nem sequer o da ver o que está sob seus próprios pés e querem
perscrutar o espaço celeste”.
— Costumava dizer também, e disso sou testemunha, por 0 ter ouvido mais de uma vez com
prazer e atenção, que o neto de Pacúvio º2 odiava muito a ciência e o deleitava mais o Neoptóle-
mo º? de Ênio, que opinava ser bom filosofar, embora não muito. Pelo que, se os estudos dos gre-
gos tanto vos deleitam, nem por isso deixa de haver outros melhores e mais livres latinos, que já
aos usos da vida, já aos negócios da República podemos aplicar. Quanto às ciências abstratas, se
têm alguma utilidade, consiste esta em preparar a infância para discernir coisas mais importantes.
XIX. TUBERAO: — Não dissinto de tua opinião, Lélio; mas, dize-me quais são as coisas que
consideras de maior importância.
LeLIO: — Di-lo-ei, embora provoque teu menosprezo, porque foste tu que interrogaste
Cipião a respeito das coisas celestes; creio que o que temos diante dos olhos deve ser examinado
de preferência a tudo o mais. Por que o neto de Paulo Emílio, ** por exemplo, sobrinho de
Emiliano, º º filho de família tão nobre, esperança de tão grande povo, se inquieta pela aparição de
um duplo sol, e não indaga a causa por que hoje temos, numa só República, dois senados e quase
dois povos inimigos? De fato, bem o vês; os detratores, os inimigos de Cipião, incitados por
Crasso * 8 e Clódio, º? continuam, apesar da morte de seus dois chefes, mantendo em dissidência
conosco a metade do Senado, sob a influência de Metelo e Múcio; *º e o único homem que pode-
ria salvá-lo nesta rebelião dos aliados e dos latinos, entre os pactos violados na presença de triún-
viros facciosos, que suscitam cada dia uma nova intriga, no meio da consternação dos homens de
bem e dos ricos, não pode vir em nosso auxílio, porque não lhe permitem fazer frente aos nossos
perigos. Crede-me, pois, adolescentes; não vos inquieteis por um novo sol, que exista é fenômeno
*º Targiúínio Sexto.
8º Tragédia de Eurípides.
5? Herói lendário, que se distinguiu na guerra de Tróia.
82 Poeta dramático latino, contemporânéo de Cipião, o Africano.
*3 Filho de Aquiles.
84 Cônsul romano, morto na batalha de Canas. Seu filho Paulo Emílio, o Macedônio, também cônsul, foi
o vencedor dos persas em Pidna e um dos chefes do partido aristocrático em Roma.
85 Sobrenome do segundo Cipião, o Africano.
88 Político romano, que foi triúnviro com Romipen e César.
87 Político romano.
88 Cônsul romano.
154 | CÍCERO
impossível, mas, mesmo existindo, seria sem perigo para nós; somos incapazes de compreender
esses mistérios, e, se chegássemos a compreendê-los, não sertamos nem melhores nem mais feli-
zes. A unidade do povo, pelo contrário, e a do Senado, são coisas possíveis, e sua ausência acar-
reta todos os perigos. Pois bem: vemos que essa dupla concórdia não existe, e sabemos que ao
restabelecê-la teriamos mais sabedoria e mais felicidade.
XX. Múcio disse: — Que pensas, pois, Lélio, que devamos aprender para alcançar esse
fim?
— As artes que nos tornam úteis à República, porque esse é o mais glorioso benefício da
sabedoria e o maior testemunho da virtude, assim como o maior de seus deveres. À fim de empre-
gar estes dias de festa em diálogos proveitosos ao Estado, supliquemos, pois, a Cipião que nos
exponha qual é, a seu ver, a melhor forma de governo; examinaremos, depois, outras questões
que, uma vez resolvidas, nos terão de levar à que nos oferece hoje o pstgeo de Roma, dando-nos,
ademais, a possibilidade de uma solução favorável.
XXI. Filão, Manílio e Múcio aprovaram a idéia.
— Insisti nisso — disse Lélio —, porque me pareceu justo que o primeiro cidadão de Roma
falasse antes de outrem a respeito de uma questão política, e também porque me lembro de que
costumavas discutir com Panécio e na presença: de Políbio, ºº ambos gregos muito versados na
política, e que demonstravas, com grande número de detalhes e raciocínios, a excelência da cons-
tituição de nossos antepassados. Preparado, como estás, no assunto, far-nos-ás grande mercê
desenvolvendo e expondo teu pensamento a respeito da República.
XXII. Então, Cipião respondeu: — Nunca um assunto de meditação, Eno me absorveu
tanto o entendimento como o que neste instante me propões. Com efeito, em cada profissão, o
operário que se esforça por distinguir-se procura, trabalha, sonha conquistar a superioridade;
como poderei eu, que recebi de meus antepassados e de meu pai a missão única de servir e de
defender o Estado, colocar-me abaixo do nível do último operário, prestando à arte, primeira
entre todas, menos cuidados do que os que ele presta ao ofício mais írifimo? Mas se as doutrinas
políticas dos mais esclarecidos escritores gregos não me satisfazem completamente, tampouco me
atrevo a ter preferência pelas minhas próprias idéias. Suplico-vos, portanto, que não me escuteis
como a um ignorante, completamente estranho às teorias gregas, nem tampouco como a um
homem inteiramente disposto a dar-lhes a preferência; sou romano antes de mais nada, educado
pelos cuidados de meu pai no gosto dos estudos liberais, estimulado desde pequeno pelo desejo de
aprender, mas formado muito mais pela experiência e pelas lições domêsticas do que pelos livros.
XXI. — Por minha parte, Cipião —, exclamou Filão — a ninguém conheço que te iguale
em talento; e, quanto à experiência das maiores matérias políticas, tu nos ultrapassas facilmente
a todos. Conhecemos teu entusiasmo pelo estudo, e, posto que meditaste também, como dizes, a
respeito das especulações da arte de governar, fico reconhecido a Lélio, pois confio em que tuas
idéias, nesse ponto, excederão a tudo o que os gregos nos deixaram.
Cipião respondeu: — A importância que, de antemão, atribuis ao meu discurso aumenta a
dificuldade do assunto de que devo tratar.
Filão respondeu: — Como de costume, sobrepujarás nossas esperanças; não é de temer,
Cipião, que, aó falar da República, te faltem as palavras.
XXIV. Cipião disse: — Farei o possível para agradar-te, e começarei a discussão obser-
vando uma regra necessária em toda disputa, se se quer afastar o erro, que é a de ficar de acordo
quanto à denominação do assunto discutido e explicar claramente o que significa. O sentido parti-
cular deve estabelecer-se bem antes de abordar a questão geral, porque nunca se poderão
compreender as qualidades do assunto que se discute se não se tem o mesmo na inteligência.
Assim, posto que nossa indagação há de versar sobre a República, vejamos primeiramenté o que
é aquilo que procuramos. — Como Lélio aprovasse, Cipião continuou: — Não remontarei, entre-
tanto, numa tese tão clara e tão conhecida, até as primeiras origens, como em tais coisas costu-
mam fazer nossos homens doutos, examinando fatos desde a primeira união do homem e da
mulher, para passar depois à primeira progênie e cognação, analisando cada palavra em suas
concepções e cada coisa nas suas modalidades. Falo a prudentes varões versados nas coisas da
República, que participaram, na guerra, das glórias de uma nação poderosa, e assim não procura-
rei tornar menos claras minhas explicações do que o meu assunto; ademais, não me encarreguei,
como um mestre, de seguir a questão em todos os seus desenvolvimentos, e não posso prometer
que não esquecerei algum detalhe.
5º Célebre historiador grego, mestre de Cipião, o Africano.
DA REPÚBLICA 155
Lélio, então: — Eis precisamente a dissertação que de ti espero — disse.
XKV. — E, pois — prosseguiu o Africano —, a República coisa do povo, considerando
tal, não todos os homens de qualquer modo congregados, mas a reunião que tem seu fundamento
no consentimento jurídico e na utilidade comum. Pois bem: a primeira causa dessa agregação de
uns homens a outros é menos a sua debilidade do que um certo instinto de sociabilidade em todos
inato; a espécie humana não nasceu para o isolamento e para a vida errante, mas com uma dispo-
sição que, mesmo na abundância de todos os bens, a leva a procurar o apoio comum.
XXVI. — Assim, não deve o homem atribuir-se, como virtude, sua sociabilidade, que é
nele intuitiva. Formadas assim naturalmente, essas associações, como expus, estabeleceram domi-
cílio, antes de mais nada, num lugar determinado; depois esse domicílio comum, conjunto de tem-
plos, praças e vivendas, fortificado, já pela sua situação natural, já pelos homens, tomou o nome
de cidade ou fortaleza. Todo povo, isto é, toda sociedade fundada com as condições por mim
expostas; toda cidade, ou, o que é o mesmo, toda constituição particular de um povo, toda coisa
pública, e por isso entendo toda coisa do povo, necessita, para ser duradoura, ser regida por uma
autoridade inteligente que sempre se apóie sobre o princípio que presidiu à formação do Estado.
Pois bem: esse governo pode atribuir-se a um só homem ou a alguns cidadãos escolhidos pelo
povo inteiro. Quando a autoridade está em mãos de um só, chamamos a esse homem rei e ao
poder monarquia; uma vez confiada a supremacia a alguns cidadãos escolhidos, a constituição se
toma aristocrática; enfim, a sabedoria popular, conforme a expressão consagrada, é aquela em
que todas as coisas residem no povo. Cada um desses três tipos de govemo, se conservar aquele
vínculo que uniu primitivamente os homens em sociedade, pode ser, não digo perfeito ou excelen-
te, mas razoável; e qualquer um deles pode ser preferido a outro. De fato, um rei justo e sábio, um
número eleito de cidadãos distintos, o próprio povo, embora tal suposição seja menos favorável,
pode, se a injustiça e as paixões não o estorvam, formar um governo em condições de
estabilidade.
XXVO. — Mas, na monarquia, a generalidade dos cidadãos toma pouca parte no direito
comum e nos negócios públicos; sob a dominação aristocrática, a multidão goza de muito pouca
liberdade, pois está privada de participar nas deliberações e no poder; por último, quando o povo
assume todo o poder, mesmo supondo-o sábio e moderado, a própria igualdade se torna injusta
desigualdade, porque não há gradação que distinga o verdadeiro mérito. Por mais que Ciro, o
Persa ºº tenha sido o melhor e o mais virtuoso dos reis, não me parece o ideal do governo, porque
tal é a minha opinião acerca da coisa pública quando a rege um só homem. Da mesma forma, em-
bora nossos clientes marselheses estejam governados com a maior justiça por alguns cidadãos
eleitos, há, no entanto, em sua condição algo parecido com a servilidade. Quando os atenienses,
em determinadas épocas, suprimiram o Areópago, * ! para só reconhecerem os atos e decretos do
povo, não oferecendo a sua República ao mérito a distinção da linhagem e das honras, não tardou
que chegassem à sua maior decadência.
XXVII. — Falo assim dessas três formas de governo, não as considerando desordenadas
e em confusão, mas na sua normalidade; e, no entanto, cada uma tem todos os defeitos que indi-
quei e outros muitos, pois toas arrastam a funestos precipícios. Depois de um rei tolerável, e
mesmo digno de amor, como foi Ciro, por exemplo, aparece, como para legitimar seus escrúpulos,
o tirano Faláride, º? tipo odioso, ao qual os reis se podem assemelhar com demasiada facilidade;
ao lado da sábia aristocracia de Marselha, aparece a opressão oligárquica, a fração dos Trinta, º
em Atenas; enfim, sem procurar novos exemplos, a democracia absoluta dos atenienses não viu
uma multidão ébria de licença e furor causar a ruína desse povo?
XXIX. — Quase sempre o pior governo resulta de uma confusão da aristocracia, da tirania
facciosa do poder real e do popular, que às vezes faz sair desses elementos um Estado de espêcie
nova; é assim que os Estados realizam, no meio de reiteradas vicissitudes, suas maravilhosas
transformações. O sábio tem a obrigação de estudar essas revoluções periódicas e de moderar
com previsão e destreza o curso dos acontecimentos; é essa a missão de um grande cidadão inspi-
rado pelos deuses. Por minha parte, creio que a melhor forma política é uma quarta constituição
formada da mescla e reunião das três primeiras.
XXX: Aqui, Lélio: — Sei que isso te agrada, Africano — disse; — eu te ouvi dizer isso
8º Fundador do império persa, notável por sua bravura é magnanimidade.
81 Tribunal supremo de Atenas, composto de trinta e um membros, encarregado de julgar as causas crimi-
nais mais importantes.
82 Tirano de Agrigento, famoso por sua extrema crueldade.
83 Os Trinta Tiranos formaram o conselho oligárquico que os espartanos impuseram aos atenienses depois
da vitória de Lisandro.
156 CÍCERO
com frequência; mas, antes de tudo, Cipião, se não te contrario, desejo saber qual dessas três for-
mas de governo te parece preferível. Isso não deixará de ser conveniente ao assunto.
XRXXI. — Cada forma de governo — continuou Cipião — recebe seu verdadeiro valor da
natureza ou da vontade do poder que a dirige. A liberdade, por exemplo, só pode existir verdadei-
ramente onde o povo exerce a soberania; não pode existir essa liberdade, que é de todos os bens
o mais doce, quando não é igual para todos. Como revestiráã esse caráter augusto, não já numa
monarquia, em que a escravidão não é equívoca nem duvidosa, mas nos próprios Estados em que
todos os cidadãos se chamam livres, porque têm o direito de sufrágio, delegam o comando e se
vêem solicitados para a obtenção das magistraturas? O que se lhes dá. dever-se-ia dar sempre.
Como obter jamais, para si mesmos, essas distinções de que dispõem? Porque estão excluídos do
comando, do público conselho, das preeminências dos juízes e tribunais açambarcados pelas
famílias antigas ou poderosas. Mas, nos povos livres, como em Roma ou Atenas, não há éidadão
que não possa aspirar a...
XXXII. — Quando, numa cidade, dizem alguns filósofos, um ou muitos ambiciosos podem
elevar-se, mediante a riqueza ou o poderio, nascem os privilégios de seu orgulho despótico, e seu
Jugo arrogante se impõe à multidão covarde e débil. Mas quando o povo sabe, ao contrário, man-
ter suas prerrogativas, não é possível a esses encontrar mais glória, prosperidade e liberdade, por-
que então o povo permanece árbitro das leis, dos juízes, da paz, da guerra, dos tratados, da vida
e da fortuna de todos e de cada um; então, e só então, é a coisa pública coisa do povo. Dizem,
também, que com frequência se viu suceder à monarquia, à aristocracia, o governo popular, ao
passo que nunca uma nação livre pediu reis nem patronatos de aristocratas. E negam verdadeira-
mente que convenha repudiar totalmente a liberdade do povo ante o espetáculo daqueles mesmos
que levam ao excesso sua indisciplina. Quando reina a concórdia, nada existe mais forte, nada
mais duradouro do que o regime democrático, em que cada um se sacrifica pelo bem geral e pela
liberdade comum. Pois bem: a concórdia é fácil e possível quando todos os cidadãos colimam um
fim único; as dissensões nascem da diferença e da rivalidade de interesses; assim, o govemo
aristocrático nunca terá nada estável, e menos ainda a monarquia, que fez Ênio dizer: “Não há
sociedade nem fé para o reinado”. Sendo a lei o laço de toda sociedade civil, e proclamando seu
princípio a comum igualdade, sobre que base assenta uma associação de cidadãos cujos direitos
não são os mesmos para todos? Se não se admite a igualdade da fortuna, se a igualdade da inteli-
gência é um mito, a igualdade dos direitos parece ao menos obrigatória entre os membros de uma
mesma república. Que é, pois, o Estado, senão uma sociedade para o direito?...
XXXII. — Quanto às demais formas de governo, os filósofos não lhes conservam as
denominações que elas mESIoAs pretendem atribuir-se. Por que saudar, dizem, com o título de rei,
reservado a Júpiter Otimo, º * um homem ávido de poder, dominador, egoísta, de poderio tanto
maior quanto maiores a humilhação eo envilecimento de seu povo! Mais do que rei, esse homem
é um tirano, porque a clemência não é tão fácil a um tirano quanto a crueldade a um rei. Toda a
questão se resume, para O povo, em servir a um senhor humano ou implacável; o que não pode
acontecer é que deixe de obedecer. Como é que a Lacedemônia, mesmo na época em que sua
“constituição política passava por mais esplendorosa, podia esperar príricipes clementes e justos
quando aceitava para rei quem quer que fosse de régia estirpe? A aristocracia, por outra parte,
não é mais tolerável, acrescentam, porque essa classificação de aristocratas, que certas famílias
ricas se arrogam, faz-se sem o consentimento do povo. Quem lhes deu suas prerrogativas? Não
será a superioridade de seus talentos, de seu saber, nem de suas virtudes. Ouço quando...
XXXIV. — O Estado que escolhe ao acaso seus guias é como o barco cujo leme se entrega
aquele dentre os passageiros que a sorte designa, cuja perda não se faz esperar. Todo povo livre
escolhe seus magistrados e, se é cuidadoso de sua sorte futura, elege-os dentre os melhores cida-
dãos; porque da sabedoria dos chefes depende a salvação dos povos, a tal extremo que parecé até
que a própria natureza deu à virtude e ao gênio império absoluto sobre a debilidade e a ignorância
da plebe, que só submissa deseja obedecer.
— Mas pretende-se que essa forma excelente de governo é desacreditada pelos falsos juízos
do vulgo, que, não sabendo discernir o verdadeiro mérito, que é tão difícil, talvez, de discernir
quanto de possuir, imagina que os melhores homens são os mais poderosos, os mais ricos ou de
mais ilustre nascimento. Uma vez que esse erro do povo tenha dado ao poderio as preeminências
da virtude, os falsos “aristocratas” procuram obstinadamente reservar para si esse qualificativo,
sa Júpitér, pai e soberano dos deuses na religião dos romanos e dos gregos, era chamado segundo os seus
diversos atributos: Júpiter Ótimo, Júpiter Tonante, Júpiter Máximo, etc.
DA REPÚBLICA | 157
que de maneira nenhuma lhes cabe; porque as riquezas, o nome ilustre, o poderio, sem a sabedoria
que ensina os homens a se governar e dirigir os outros, nada mais são do que uma vergonhosa e
insolente vaidade; não há no mundo espetáculo mais triste que uma sociedade em que o valor dos
homens é medido pelas riquezas que possuem. Ao contrário, que pode haver'de mais belo e pre-
claro do que a virtude governando a República? Que é mais admirável do que esse governo, quan-
do o que manda não é escravo de paixão alguma e dá o exemplo de tudo o que ensina e preconiza,
não impondo ao vulgo leis que é o primeiro a não respeitar, mas oferecendo, como lei viva, a pró-
pria existência aos seus compatriotas? Se fosse bastante um homem só para tudo, seria desneces-
sário o concurso de outros; assim como, se um povo inteiro pudesse vê-lo e ouvi-lo, disposto à
obediência, não pensaria em escolher governantes. As dificuldades de uma sábia determinação
fazem passar o poder das mãos dos reis para as da aristocracia, da mesma forma por que a igno-
rância e a cegueira dos povos transmitem a preponderância da multidão à de um pequeno núme-
ro. Desse modo, entre a impotência de um só e o desenfreamento da plebe, a aristocracia ocupou
uma situação intermédia que, conciliando todos os interesses, assegura o bem-estar do povo; e,
enquanto vigia o Estado, os povos gozam necessariamente de tranquilidade, confiando-se às mãos
de homens que não se exporiam a ouvir a acusação de descuidar um mandato de tal natureza.
Quanto à igualdade de direito ou da democracia, é uma quimera impossível, e os povos mais ini-
migos de toda dominação e todo jugo conferiram os poderes mais amplos a alguns de seus eleitos,
fixando-se com cuidado na importância das classes e no mérito dos homens. Chegar, em nome da
igualdade, à desigualdade mais injusta, colocar no mesmo nível o gênio e a multidão que com-
põem um povo, é suma inigúidade a que nunca chegará um povo em que governem os melhores,
isto é, numa aristocracia. Eis aí, Lélio, pouco mais ou menos, a argumentação dos dois partidá-
rios dessa forma política.
XXXV. LéLio: — Mas, Cipião, dessas três formas de governo, qual julgas preferível?
Cipiao: — Com razão me perguntas qual das três é 'preferível, porque nenhuma isolada-
mente aprovo, preferindo um governo que participe de todas. Se devesse fazer uma escolha pura
e simples. meus primeiros elogios seriam para a monarquia, desde que o título de pai fosse sempre
inseparável do de rei, para expressar que o príncipe vela sobre seus concidadãos como sobre seus
filhos, mais cuidadoso de sua felicidade do que da própria dominação, dispensando uma proteção
aos pequenos e aos fracos, graças ao zelo desse homem esclarecido, bom e poderoso. Vêm, depois,
os partidários da oligarquia, pretendendo fazer o mesmo e fazê-lo melhor; dizem que há mais
luzes em muitos do que num só, e prometem, por outra parte, a mesma boa fé e a mesma eqgúida-
de; e, por último, eis o povo, que, em voz alta, declara que não quer obedecer nem a um nem a
muitos, que até os próprios animais amam a liberdade como o mais doce dos bens, e que se carece
dela, quer se sirva a um rei, quer aos nobres. Para resumir: a monarquia nos solicita pela afeição;
a aristocracia, pela sabedoria; o governo popular, pela liberdade, e, nessas condições, a escolha se
torna muito dificil.
LELIO: — Acredito-o; mas, se não resolvermos esse ponto, será impossível passar adiante.
XXXVI. Crriao: — Imitemos, pois, Arato, que, ao tratar de grandes coisas, julgou neces-
sário começar por Júpiter.
LeLIO: — Por que por Júpiter? Que relação pode haver entre os versos do poeta e essa
discussão?
Crpiso: — Tanta, que nada encontro mais justo do que nomear, acima de tudo, aquele que
os sábios e os ignorantes proclamam, de comum acordo, senhor dos deuses e dos homens.
LELIO: — Como?
CIPIAO: — É conveniente. O princípio de que existe no céu um só rei soberano e pai de todas
as coisas, que faz com um gesto tremer o Olimpo, º * conforme a frase de Homero, º º esse princí-
pio essencial foi estabelecido pelos primeiros fundadores dos impérios, e, por conseguinte, é essa
uma imponente autoridade, e numerosos, ou antes, universais os testemunhos que nos asseguram
que as nações reconhecem unanimemente, pelos decretos dos príncipes, a excelência da monar-
quia, posto que se formaram na idéia de que todos os deuses são governados por um só. Se essa
crença, pelo contrário, não é mais do que uma fábula feita para os espíritos grosseiros, ouçamos
os mestres comuns de todos os gênios esclarecidos, aqueles que viram claramente, com os olhos,
o que nós, escutando-o, apenas conhecemos.
LEeLIO: — Quem são eles?
6 5 E 21º A. . . “1.
a Montanha entre a Tessália e a Macedônia, onde, segundo a mitologia, residiam os deuses.
Célebre poeta grego, autor da Ilíada e da Odisséia.
158 CÍCERO .
CIPIAO: — Os mestres que, graças ao estudo minucioso da natureza, chegaram a demonstrar
que o mundo inteiro é dirigido por uma alma.
XXXVII. — Mas, se quiseres, citar-te-er autoridades que não sejam bárbaras nem antigas.
LELIO: — Quero.
CipIAO: — Observa, acima de tudo, que faz apenas quatrocentos anos que não temos reis.
LELIO: — Com efeito.
Crpiso: — Uma sucessão de quatro séculos na existência de um povo pode considerar-se um
longo período?
- LELIO: — É apenas sua idade viril.
CIPIAO: — Assim, há quatrocentos anos, havia um rei em Roma.
LeLIO: — Um rei soberbo.
CrriAO: — E antes dele?
LrLIO: — Um rei muito justo; e assim sucessivamente, remontando até Rômulo. que reinou
há seiscentos anos.
CipiAO: — De modo que nem ele mesmo é muito antigo.
LéLIO: — De modo algum, visto que data da época da decadência da Grécia.
CIPIAO: — Mas, dize-me, Rômulo foi rei de um povo bárbaro?
LELIO: — Se dividirmos os homens, como os gregos, em gregos ou bárbaros, receio que
tenha sido um rei de bárbaros; mas, aplicando o termo aos costumes e não à linguagem, não julgo
menos bárbaros os gregos do que os romanos.
CIPIAO: — Aqui, além do mais, pouco importa o povo, mas o grau de cultura, e, posto que
homens sábios de uma época pouco remota quiseram reis, encontramos já testemunhos que não
podemos tachar de antigos nem de inumanos.
XXXVI. Letio: — Vejo, Cipião, que não te faltam autoridades irrecusáveis; mas, como
todo bom juiz, prefiro as provas às testemunhas.
Ciprião: — Desde logo, Lélio, podes empregar um exemplo tomado de tua própria
experiência.
LEeLIO: — Que queres dizer?
CipIAO: — Não te acontece, às vezes, zangar-te com alguém?
LeLIO: — Sucede-me com mais frequência do que eu desejaria.
CIPIAO: — E, quando estás irritado, deixas à cólera a soberania de tua alma?
LeLIO: — Não, por certo; ao contrário, sigo o exemplo de Arquitas de Tarento, que, tendo
chegado à sua casa de campo e encontrado tudo diferente do que ordenara que estivesse, disse ao
seu administrador: “Desgraçado, eu te mataria a pauladas se a cólera me dominasse !”º
“CrprÃO: — Muito bem; Arquitas considerava a cólera como uma desordem sediciosa da
alma e queria acalmá-la com a reflexão. Une a isso a avareza, a paixão das honras e da glória;
une as paixões voluptuosas, e verás que se forma no espírito humano uma como que monarquia
que domina todas essas desordens com um único princípio, a reflexão, a parte mais: excelente da
alma, cujo império não dá lugar à cólera, aos exageros nem à voluptuosidade.
LELIO: — Por completo.
CíPIAO: — Lamentarás, portanto, que os maus desejos e as odiosas paixões, sufocando a
razão, apoderem-se por completo do homem?
LELIO: — Nada concebo mais miserável do que a degradação da inteligência humana.
CrpIAO: — Pretendes, pois, que todas as partes da alma devam estar sujeitas a uma só auto-
ridade, que deve ser a reflexão?
LeLIO: — Meu desejo é esse.
Ciriao: — Como, então, vacilas na escolha de uma forma de governo, quando vês que, se
a autoridade se divide, não há verdadeira soberania, a qual, para existir, necessita de unidade?
XXXIX. LeLiO: — Que importa a unidade ou a pluralidade, se nesta se encontra igualmente
a justiça?
Crpiao: — Vejo, Lélio, que as minhas testemunhas não têm para ti autoridade suficiente, e
vou fazer que aumentes tu mesmo o seu número.
LELIO: — Como?
CIPIAO: — Eu mesmo te ouvi ordenar a teus escravos, por ocasião de nossa última viagem
a Fórmias. º ? que não atendessem a ordens que não emanassem de uma só pessoa.
LéLIO: — É certo, de meu rendeiro.
8? Antiga cidade marítima da Itália, onde Cícero possuía uma quinta.
DA REPÚBLICA 159
CrriAO: — E em Roma, teus negócios estão em mãos de muitos?
LELIO: — De modo algum.
CiriaO: — Por que, então, não concedes que, na ordem política, o poder de um só é o
melhor, sempre que se inspire na justiça?
LELIO: — Inclino-me a isso, e quase sou de tua opinião.
XL. CrrisO: — Sê-lo-ás totalmente, Lélio, quando eu, prescindindo das comparações do mé-
dico e do piloto, isto é, se vale mais confiar a um só, de preferência a muitos, o ieme de uma nave
ou a saúde de um enfermo, expuser considerações mais profundas.
LeLIO: — Quais?
CIPIAO: — Não ignoras que a arrogância e crueldade de Tarquínio *º tornaram 6 título de
rei odioso aos romanos.
LéLIO: — Sim, por certo.
CiriÃO: — Por conseguinte, sabes também o que, no discurso de minha peroração, pensava
dizer-te; isto é, que um excesso de nova liberdade arrebatou o povo delirante quando Tarqlínio
foi expulso; desterro para os inocentes, roubo dos bens alheios, consulados ânuos, humilhação de
seus simbolos ante a plebe, direito universal de apelação, retirada dos plebeus, tudo isso sobre-
veio, com muitos outros acontecimentos que tendiam a dar ao povo todos os poderes.
LELIO: — Foi tal como dizes.
CipiAO: — É certo que se desfrutou, então, Ócio e paz, e que se pode tolerar alguma licença
enquanto nada haja que temer, como numa indisposição insignificante ou numa travessia pacífi-
ca; mas, se o mar começa a alvoroçar-se ou a enfermidade sofre agravação, logo o viajante ou
enfermo implora o auxílio do único homem que o pode salvar. Do mesmo modo, o nosso povo,
em paz e nos seus lares, quer mandar ameaçando, recusando, denunciando, afastando os seus
magistrados; mas, sobrevindo a guerra, obedece a um rei, e toda paixão tumultuosa sacrifica-se e
perece em arras da salvação da pátria. Nossos pais já o fizeram; nas principais expedições, quise-
ram um só chefe cujo título expressasse a extensão de seu poder: era o ditador, assim chamado
porque escolhido pelo dito de um cônsul, e vês que em nossos livros tem o nome de mestre do
povo.
LELIO: — Bem o sei.
CipiAO: — Nossos antepassados, portanto, agiram com notável sabedoria. ..
XLI. — Quando o povo perde um rei justo, explode a dor que, conforme Enio, consternou
Roma inteira depois da morte do melhor dos príncipes:
Lembrança eterna dele tem intacta
E, no céu pondo a vista, chora e diz:
Oh, Rômulo divino! Que fiel
Guarda da pátria em ti reconheciam!
Oh, pai! Oh, rei! Dos deuses tens a estirpe!
— Não davam os nossos antecessores o título de senhor e dono ao chefe cujas justas leis
observavam; não lhe davam tampouco o título de rei, mas o chamavam de protetor da cidade, pai
e mesmo deus. Assim, não se enganavam ao dizer:
Tu nos deste, só tu,a luz ea vida.
— Consideravam que a existência, a glória, a honra, procediam da justiça do rei, e a poste-
ridade teria pensado o mesmo se os soberanos tivessem conservado idênticas virtudes; mas a
injustiça de um só basta, como vês, para destruir para sempre essa forma de govemo.
LELIO: — Sem dúvida, e até anseio estudar essas mudanças que se observam em nossa histó-
ria e nas outras Repúblicas.
XLII. Crpiso: — Uma vez desenvolvida e exposta minha opinião a respeito da forma de
governo que julgo preferível, ser-me-á preciso falar, com alguma circunspecção, dessas grandes
comoções públicas, se bem que seja este o perigo mais remoto no governo que me agrada. E, no
que respeita à monarquia, seu principal escolho e a hipótese mais segura de sua ruína: desde o
momento em que o rei comete a primeira injustiça, essa forma perece convertendo-se em despo-
tismo, o mais vicioso de todos os sistemas e, não obstante, o mais próximo do melhor. Se sucum-
88 Tarqiúínio Sexto, cujo ultraje a Lucrécia foi causa da queda da realeza em Roma.
160 | CÍCERO
be um tirano sob os esforços dos grandes, toma então o Estado a segunda das formas explicadas,
e se estabelece uma espécie de autoridade real, ou, antes, paternal, composta dos principais cida-
dãos que velam com zelo pelo bem comum. Se o povo, por si mesmo. expulsa ou mata o tirano,
demonstra um pouco de moderação enquanto conserva o juízo sereno e, satisfeito de sua obra, de-,
seja conservar a ordem política que ele mesmo acaba de estabelecer. Mas, se, por desgraça, O
povo feriu um rei justo ou o despojou do trono ou, o que é mais fregiiente, fez derramar o sangue
dos nobres e submeteu todo o Estado ao seu furor, sabe que não há incêndios nem tempestades
mais difíceis de apaziguar do que a insolência e o furor dessa desenfreada multidão.
XLII. — Verifica-se, nesse caso, o que Platão descreve com tanta elogiência e que eu vou
tentar traduzir, se minhas forças puderem realizar tamanha empresa: “Quando o povo, devorado
por uma sede insaciável de independência, longe de beber com medida, embriaga-se com o licor
funesto que lhe prodigalizam imprudentes aduladores, então persegue, acusa, incrimina de domi-
nadores, reis e tiranos aos magistrados e chefes que, dóceis e complacentes, não lhe escanceiam
em caudais a liberdade”. Conheces essa passagem?
LELIO: — E-me bastante conhecida.
CipIAO: — Sigamos, pois: “Obedecer, então, a uma autoridade é excitar ainda mais a cólera
do povo, que chama os que assim procedem de escravos voluntários; os magistrados, ao contrá-
rio, que fingem descer ao nível dos simples-cidadãos, e estes que se esforçam para suprimir toda
diferença entre eles e os magistrados, vêem-se cumulados de honras e de elogios. Numa República
assim governada, a liberdade transforma-se em licença, a própria família fica, no seu interior, des-
provida de autoridade, estendendo-se esse contágio aos próprios animais. O pai despreza o filho,
e este deixa de honrar o pai. Perece o pudor em nome da liberdade geral; nada separa o cidadão
do estrangeiro; o mestre, tremendo ante seus discípulos, adula-os, ao passo que eles o menospre-
zam; os jovens pretendem exercer as prerrogativas dos velhos, que, por sua parte, descem a loucu-
ras da juventude para não parecerem odiosos e extravagantes. Os próprios escravos participam
dessa libertinagem; reclamam as mulheres idênticos direitos aos de seus cônjuges; em suma, os
próprios animais, os cães, os cavalos, os asnos, correm livremente, mas tão livremente que atrope-
lam e envolvem quanto se opõem à sua passagem desenfreada”. Ao chegar aqui, Platão exclama:
“Aonde conduz esse extremo de licença? Ao triste resultado de tornar os cidadãos tão delicados e
sombrios, que a menor aparência de autoridade os irrita e exaspera a tal ponto que sonham com
romper as leis que desprezam, para se encontrarem livres de qualquer jugo”.
XLIV. LELIO: — Traduziste fielmente o que foi dito por ele.
Cirprao: — Volto, agora, ao meu discurso. Dessa extrema licença, que só para eles era liber-
dade, embora falsa, Platão faz nascer a tirania, como de um tronco funesto. Assim como o poder
ilimitado dos grandes leva à queda da aristocracia, a liberdade leva o povo demasiado livre à
escravidão. Os extremos se tocam na própria natureza: na temperatura, na vegetação, no corpo
humano, e, sobretudo, na forma de governo. Essa excessiva liberdade logo se transforma em dura
escravidão para os povos e para os indivíduos. Assim, da excessiva liberdade surge o tirano e a
mais injusta e dura servilidade. Com efeito, esse povo indômito e desenfreado escolhe logo, por
ódio aos grandes, já abatidos e degradados, um chefe audaz, impuro, perseguidor insolente dos
cidadãos que mais mérito possuem para com a pátria, pródigo com os bens próprios e alheios;
depois, como não há, para ele, segurança na vida pública nem privada, é cercado de soldados,
confere-se-lhe o poder, e acaba por ser, como Pisístrato *º de Atenas, tirano daqueles mesmos que
o elevaram. Se acaba por perecer em mãos dos bons cidadãos, o que acontece comi:frequência, o
Estado renasce; se os conspiradores são ambiciosos, uma facção, isto é, uma nova tirania se
eleva, e se vê a revolução sucedendo, outras vezes, a esse bom sistema aristocrático, quando por
desdita os chefes se separam do caminho reto. O poder é convertido, então, numa bola que vai de
um jado para outro, passando das mãos do rei às do tirano, das dos aristocratas às do povo, sem
que a constituição política seja nunca estável.
XLV. — Desses três sistemas primitivos, creio que o melhor é, sem disputa, a monarquia;
mas ela mesma é sempre inferior à forma política que resultaria da combinação das três. Com
efeito, prefiro, no Estado, um poder eminente e real, que dê algo à influência dos grandes e algo
também à vontade da multidão. É essa uma constituição que apresenta, antes de mais nada, um
grande caráter de igualdade, necessário aos povos livres e, bem assim, condições de estabilidade
e firmeza. Os primeiros elementos, de que falei antes, alteram-se facilmente e caem no exagero do
ºº Tirano de Atenas, contemporâneo de Sólon.
DA REPÚBLICA 161
extremo oposto. Assim, ao rei sucede O tirano; aos aristocratas, a oligarquia facciosa; ao povo, a
turba anárquica, substituindo-se desse modo umas perturbações a outras. Ao contrário, nessa
combinação de um governo em que se amalgamam os outros três, não acontece facilmente seme-
lhante coisa sem que os chefes do Estado se deixem arrastar pelo vício; porque não pode haver
pretexto de revolução num Estado que, conforme cada um com os seus direitos, não vê sob seus
pés aberto o abismo.
XLVI. — Mas, receio, Lélio, e vós queridos e prudentes amigos, que meu discurso, prolon-
gando-se, se assemelhe mais a uma dissertação de um mestre do que a um diálogo entre amigos
que buscam a verdade. Passemos, pois, a coisas de todos conhecidas, estudadas por mim mesmo
há muito tempo, e que me obrigam a pensar, crer e afirmar que, de todos os governos, nenhum,
por sua constituição, por sua organização detalhada, pela garantia dos costumes públicos, pode
comparar-se com o que nossos pais receberam dos seus em herança e nos transmitiram; e, já que
quereis que eu repita o que, de outras vezes, ouvistes de mim, mostrar-vos-ei qual é esse governo
“ e provarei que é o melhor de todos; tomando nossa República por modelo, tentarei recordar quan-
to disse a tal propósito. Procurarei, assim, desempenhar e terminar a empresa que Lélio me:
confiou.
XLVII. LELIO: — Dizes bem tua empresa, porque é tua de fato. Que outro, senão tu, pode
falar melhor, quer das instituições de nossos pais, tu, filho de tão gloriosos antepassados, quer da
melhor forma política, tu, que, se a tivéssemos conquistado, que por desgraça estamos longe
disso, terias nela o primeiro lugar, quer, enfim, do interesse dos nossos descendentes, tu, oh
Cipião, que, libertando Roma de seus dois terrores, asseguraste seu porvir para sempre?
LIVRO SEGUNDO
I. Como Cipião visse todos ansiosos por ouvi-lo, tornou a tomar a palavra desta forma: —
Começarei por um pensamento do velho Catão, a quem muito amei e admiro singularmente, e ao
qual, quer pela opinião de meus parentes, quer por minha própria espontaneidade, me consagrei
desde minha adolescência, sem que seus discursos tenham chegado a enfastiar-me, tanta era a
experiência dos negócios públicos que encontrava nele, negócios que dirigiu por longo tempo
maravilhosamente, tanto na paz como na guerra; tanta sua modéstia e comedimento de lingua-
gem, digna ao mesmo tempo que agradável; tanto o desejo que tinha de se instruir e de tornar aos
outros partícipes de sua ciência; tal, enfim, sua existência, toda conforme às máximas e discursos
que saíam de seus lábios. Costumava dizer que nossa superioridade política tinha como causa o
fato de que os outros Estados nunca tiveram, senão isolados, seus grandes homens, que davam
leis à sua pátria de acordo com seus princípios particulares; Minos 7º em Creta, Licurgo ”' na
Lacedemônia, e, em Atenas, teatro de tantas revoluções, Teseu, '? Drácon, "* Sólon,” * Clíste-
nes” º e tantos outros, até que para reanimar seu desalento e debilidade achou Demétrio, "* o
douto varão de Falero; ”? nossa República, pelo contrário, gloriosa de uma longa sucessão de
cidadãos ilustres, teve para assegurar e afiançar seu poderio, não a vida de um só legislador, mas
muitas gerações e séculos de sucessão constante. Nunca, acrescentava, se encontrou espírito tão
vasto que tenha abarcado tudo, e a reunião dos mais brilhantes gênios seria insuficiente para
abraçar tudo com um só olhar, sem o auxílio da experiência e do tempo. Assim, seguindo o costu-
me de Catão, remontarei até a origem de Roma, servindo-me com prazer de suas próprias frases;
meu objeto será, por outra parte, mais exeguível mostrando-vos o nascimento de Roma, sua
adolescência, sua juventude, sua vigorosa madureza, do que criando, como Sócrates, uma Repú-
blica imaginária, conforme as obras de Platão.
II. Como todos aprovassem, prosseguiu: — Que República — continuou — terá uma ori-
gem tão esclarecida, tão sabida de todos como esta cidade, que deve sua fundação a Rômulo, filho
de Marte? Porque não podemos repelir a antiga tradição que nos legaram nossos maiores, que
assegura que todo benfeitor de um povo tem algo de divino pelo seu engenho e pelo seu berço.
Apenas Rômulo vira os primeiros raios do sol, quando foi exposto às ondas do Tibre, 'º em com-
panhia de seu irmão Remo, ?º por ordem de Amúlio,ºº rei dos albanos, temeroso de que algum
dia essas crianças fossem funestas ao seu poder. O menino, alimentado com o leite de um animal
selvagem, foi depois recolhido por uns pastores, que o educaram na rusticidade e nos trabalhos do
campo; e cresceu tanto em vigor corporal e presença de espírito que os seus companheiros, nos
7º Rei de Creta, sábio legislador.
71 Personagem de existência problemática. Licurgo é dado, pela tradição, como o legislador da Lacedemô-
nia, também chamada Esparta.
72 Os historiadores gregos atribuem a Teseu a organização da Ática e a legislação primitiva de Atenas.
73 Tegislador de Atenas, cujas leis eram tão severas que se dizia terem sido escritas com sangue. Daí o adje-
tivo draconiano, que se aplica a toda lei ou medida contra as liberdades públicas.
74 Sólon celebrizou-se como legislador de Atenas. Foi um dos sete sábios da Grécia.
75 Avô de Péricles, que instituiu em Atenas o governo democrático e a lei do ostracismo.
78 QOrador, estadista e historiador grego, que governou Atenas em nome do macedônio Cassandro.
77 Porto de aldeia da Ática.
78 Rio da Itália que banha Roma e desemboca no mar Tirreno.
7º Irmão de Rômulo, primeiro rei de Roma, pelo qual foi morto.
8º Rei de Alba Longa.
164 CÍCERO
campos em que hoje Roma se levanta, rendendo homenagem à sua superioridade, submeteram-se
logo aos seus mandados. Colocado â frente desses bandos, a fábula, deixando o posto à história,
refere que surpreendeu Alba Longa,º' cidade então poderosa e rica, e deu morte ao rei Amúlio.
II. — Adquirida essa glória, concebeu o projeto de fundar uma cidade e organizar um
Estado. Com incrível acerto, escolheu o lugar em que a cidade devia situar-se, ponto delicado
quando se trata de uma cidade que quer assentar as bases de uma prosperidade futura; não a
aproximou do mar, coisa fácil com as tropas e recursos de que dispunha, ora penetrando no terri-
tório dos rútulos ou dos aborígines, ora dirigindo-se para a embocadura do Tibre, onde depois
fundou uma colônia o rei Anco.º? Compreendeu com admirável prudência aquele excelente varão
que os pontos próximos às costas não são os mais apropriados para fundar cidades que preten-
dem alcançar estabilidade e poderio, porque as cidades marítimas estão expostas, não só a
frequentes perigos, mas a desditas e acontecimentos imprevistos. A terra firme denuncia, por meio
de mil indícios, a marcha prevista, e até as surpresas do inimigo, que se descobre pelo ruído de
seus passos; e não é atacada tão rapidamente como se pode supor, sabendo-se, por outra parte,
quem é o agressor e de onde vem; por mar, pode desembarcar uma esquadra antes que se possa
advertir a sua proximidade; sua marcha não denuncia nem sua personalidade, nem sua nação,
nem seu objetivo; não se pode, enfim, distinguir com sinal algum se é ou não amiga.
IV. — São também frequentes, nas cidades marítimas, a mudança e a corrupção dos costu-
mes, pois os idiomas e comércios estranhos não importam unicamente mercadorias e palavras,
mas também costumes, que tiram estabilidade às instituições dessas cidades. Os próprios habitan-
tes são pouco afeitos aos seus lares; suas esperanças e pensamentos os arrastam para longe, e,
quando o corpo descansa, vaga errante o espírito. Não foi outra a principal causa da decadência
“de Cartago e de Corinto senão essa vida errante, essa dispersão dos cidadãos, aos quais a ânsia
de navegar e de enriquecer fez abandonar o cultivo dos campos e o prazer das armas. À proximi-
dade do mar, com suas importações ou suas vitórias, facilita ao vício dessas cidades todas as
seduções funestas, e o encanto dos sítios marítimos parece convidar à preguiça e ao fausto e a
todas as corrupções enervadoras do ócio. Quanto eu disse de Corinto poderia sem dúvida apli-
car-se a toda a Grécia, porque o Peloponeso está quase completamente banhado pelo mar, exceto
o território dos fliúncios, e, fora da península, só têm o mar ao longe os enianos, os dórios e os
dolopeus. Que direi das ilhas gregas, de costumes mais agitados e instituições mais móveis que a
fimbria de ondas que as rodeia? Tudo isso continua sendo da antiga Grécia. Quanto a suas colô-
nias, dispersas na Ásia, na Trácia, na Itália, na Sicília, na África, exceto Magnésia, qual delas não
é banhada pelo mar? Até parece que as cidades gregas invadiram o território dos bárbaros por-
que, antes de seu estabelecimento, só dois povos haviam conhecido o mar: os etruscos € os carta-
gineses, aqueles mercadores, estes piratas. Essa, e não outra, foi a causa das calamidades e revolu-
ções da Grécia, surgidas das cidades marítimas que enumerei; mas esses vícios apresentam, por
sua vez, uma grande vantagem: a de que, de todos os pontos do mundo, trazem as ondas os pro-
dutos todos do universo, e, no refluxo, levam aos confins do mundo os produtos dos próprios
campos.
V. — Que pôde fazer Rômulo de mais maravilhoso do que aproveitar todas as vantagens do
mar e evitar os seus inconvenientes? Construiu sua cidade nas margens de um rio cujas águas pro-
fundas se esparramam no mar por uma larga desembocadura, procurando assim uma comunica-
ção fácil no curso do Tibre, não só para proporcionar ao novo povo tudo quanto necessitava
como também para levar para longe o que tivesse de mais; uma nota natural para tirar do ocea-
no todos os objetos necessários ou agradáveis à vista Sire los chegar às regiões mais afastadas.
Na minha opinião, parecia então adivinhar que essa cidade viria a ser o centro, o coração de um
poderoso império; porque, colocada em outro ponto qualquer da Itália, não poderia manto tão
vasto domínio.
VI. — Pelo que respeita às fortificações naturais de Roma, quem, por indiferente que seja,
não conservou na imaginação um desenho dos seus menores detalhes? As muralhas foram cons-
truídas por Rômulo e seus sucessores com previsora prudência; apóiarn-se por todas as partes em
montanhas cortadas a pique, deixando somente um acesso entre os montes Esquilínio e Quirinal,
fechado por um bom reduto e um amplo fosso. A cidadela, já bastante defendida pela altura e o
isolamento da rocha em que se ergue, está tão bem fortificada que pôde conservar-se incólume e
intata mesmo no meio do horrível transbordamento da invasão dos gauleses. Escolheu, além
81 A mais antiga cidade do Lácio, fundada por Enéias.
82 Anco Márcio, neto de Numa Pompílio, foi o quarto rei de Roma.
DA REPÚBLICA” Re
disso, um terreno cheio de mananciais e saudável no meio de uma região pestilenta, porque as
colinas que o rodeiam, ao mesmo tempo que dão ao vale o ar puro, emprestam-lhe a sombra.
VII. — Tudo isso o terminou com grande celeridade, dando à cidade o nome de Roma, to-
mado do seu; e, para afirmar suas bases, concebeu Rômulo um projeto estranho, violento, mas
que revelou sua hábil política e o desejo de preparar o futuro e a fortuna do seu povo. Tinham
vindo as donzelas sabinas de mais ilustre nascimento para assistir ao primeiro aniversário dos
jogos; Rômulo fê-las roubar no circo e deu-as por esposas aos seus guerreiros mais valentes. Esse
rapto armou os sabinos contra Roma; mas, no meio de um combate cujo resultado era duvidoso,
as donzelas roubadas intercederam pela paz, o que deu origem a que Rômulo concluísse uma
aliança com Tácio,** rei dos sabinos, dando-lhe participação na sua autoridade e concedendo aos
dois povos, ao mesmo tempo que os mesmos sacrifícios, o mesmo direito de cidadania.
VINI. — Depois da morte de Tácio, o poder inteiro voltou para Rômulo, que, já de acordo
com aquele, reunira em conselho real os principais cidadãos, chamados de pais pelo carinho do
povo; tinha, também, dividido o povo em três tribos, chamadas com o nome de Tácio, com o seu
próprio e com o de Lucumão,* * morto a seu lado no combate contra os sabinos, e depois em trin-
ta cúrias, designadas também com os nomes de virgens sabinas, as quais, depois de roubadas,
foram as mediadoras da paz; e, embora tudo isso se tivesse instituído em vida de Tácio, nem por
isso Rômulo deixou, depois de ele morto, de se apoiar, para reinar, na autoridade dos pais e no
seu conselho.
IX. — Isso demonstra que Rômulo pensou o que antes havia pensado Licurgo em Esparta:
que o poder de um só e a potestade régia é, para os Estados, a melhor forma de constituição, se
a ela se acrescentam a autoridade e o apoio dos melhores. Assim, com o auxílio desse conselho
e quase senado, terminou com felicidade algumas guerras contra diversas povoações próximas, e
não deixou de enriquecer seus súditos, sem jamais reservar para si a melhor parte do despojo. Por
um costume que felizmente ainda conservamos, Rômulo foi muito respeitoso para com os áuspi-
ces, o que constituiu a primeira base da República, e em todas as suas empresas importantes cui-
dou de aconselhar-se com um áugure escolhido em cada uma das tribos. Teve também a plebe sob
a clientela dos grandes, medida cujas vantagens não deixarei de examinar; e, como a fartura
consistisse, então, em terras e em rebanhos, fez pagar as multas em touros e em carneiros, sem
recorrer jamais aos suplícios corporais.
X. — Depois de um reinado de trinta e sete anos, após ter fundado os dois maiores apoios
da República, os áuspices e o Senado, Rômulo, cuja glória estava no seu esplendor, desapareceu
num eclipse do sol, e a plebe contou-o no número dos seus deuses, glória que não se alcança sem
virtudes sobre-numanas e méritos insignes. E é tanto mais admirável essa apoteose quanto os ou-
tros homens divinizados o foram em séculos menos eruditos e mais favoráveis à fábula, porque a
ignorância gera a credulidade; Rômulo, pelo contrário, viveu há menos de seiscentos anos, numa
época em que as ciências e as letras, já antigas, tinham despojado de seu caráter grosseiro e incul-
to os antigos erros. Com efeito, se, como afirmam os anais gregos, Roma foi fundada no segundo
ano da sétima olimpíada, a existência de Rômulo corresponde a um século em que a Grécia, cheia
já de músicos e poetas, só dava crédito às fábulas muito antigas. A primeira olimpíada estabele-
ceu-se cento e oito anos depois da promulgação das leis de Licurgo, embora um erro tenha feito
atribuir a instituição das olimpíadas a esse legislador. Por outra parte; a opinião que supõe Home-
ro mais perto de nossos dias o faz viver trinta anos antes de Licurgo. É, pois, evidente que prece-
deu de muito a Rômulo, e então os homens sabiam muito para crer em ficções novas. A Antigui-
dade pôde admitir fábulas grosseiras; não, porém, nessa idade em que estava mais espalhada a
cultura. A apoteose de Rômulo foi admitida, no entanto, num século em que o mundo já era
velho; o fundador de Roma inspirou essa admiração profunda pelo seu gênio e suas virtudes, e
mesmo os que séculos antes se teriam negado a crer em outro mortal acreditaram então no relato
de um camponês, Próculo,º * quando, mandado pelos senadores, que queriam afastar qualquer
suspeita de assassínio, afirmou que Rômulo acabava de aparecer-lhe sobre a colina chamada hoje
monte Quirinal,º º suplicando-lhe que fizesse erigir nesse sítio um templo para o povo romano,
porque ele era deus e se chamava Quirino. Ea
8º Rei dos sabinos, que partilhou o poder com Rômulo.
º* Aliado de Rômulo. Com o nome de Lucumão, passaram os etruscos a designar os chefes de tribo e os
sacerdotes.
8º Júlio Próculo, que, depois da morte de Rômulo, afirmou que este lhe tinha aparecido em forma de
divindade.
ºº Derivado de Quirino.
87 Nome dado a Rômulo depois de sua morte.
166 - CÍCERO
XI. — Vedes, pois, como o gênio de um homem pôde dar vida a um povo, não o abando-
nando em seu berço, mas só quando j já estava adulto e completo o seu desenvolvimento.
XII. Letio — Vemos-te, não menos atônitos, seguir nesse discurso um sistema completa-
mente novo e que não se encontra nos livros dos gregos. O príncipe deles, Platão, o maior dentre
os seus escritores, estabeleceu a área de sua cidade no ponto que achou conveniente; cidade admi-
rável sem dúvida, mas estranha à vida real e aos hábitos humanos. Outros reformadores, sem
tomar modelo, sem se propor tipo algum de República, discorreram a respeito das várias consti-
tuições dos Estados. Tu, ao que parece, queres, por tua parte, reunir os dois métodos, preferindo
atribuir a outros os teus descobrimentos e criar sistemas como Sócrates em Platão, enaltecendo a
memória de Rômulo, pela fundação de sua cidade, em circunstâncias e condições que talvez fos-
sem obra do acaso ou da própria necessidade. Continua como começaste; já prevejo que vais exa-
minar outros reinos para apresentar uma República perfeita.
XI. Crpiao: — O Senado de Rômulo, que constava e se compunha de nobres, aos quais
o rei tanto distinguiu que chegou a chamar-lhes pais e a seus filhos patrícios, tentou, depois que
Rômulo desapareceu, governar sem rei a República; mas Oo povo não o consentiu, e reclamou um
rei, apesar da dor experimentada com a perda do primeiro. Como interregno, os nobres pensaram
numa forma de governo nova e desusada; o Estado, esperando o chefe que definitivamente havia
de reinar, não estava sem rei; mas o tempo desse reinado provisório foi limitado, por causa do re-
ceio de qué um reinado muito longo se tornasse demasiado difícil de abandonar. Assim, pois, esse
povo jóvem compreendeu algo que escapou ao legislador da Lacedemônia, Licyrgo, que não
achou; como se isso dependesse dele, que o rei devesse ser eleito, e exigiu, como única condição,
que tivesse nas veias o sangue de Hércules. ** Nossos antepassados, então tão toscos; julgaram, de
fato, qué convinha buscar, de preferência à progênie, a virtude e a sabedoria.
-— Como a fama encontrasse em Numa Pompílio *º esses relevantes dotes, o povo romano,
preterindo os seus próprios cidadãos, arranjou, com a autoridade dos pais, um rei alheio; e, para
isso, châmou a Roma aquele sabino, da cidade de Curas, onde se achava. Desde sua chegada,
Numa, apesar de ter sido nomeado nos comícios curiados, ditou uma lei concemente a estes e a
sancionou com o seu poder; vendo, por outra parte, quanto era grande o ardor bélico dos roma-
nos, e compreendendo que esse ardor se mantinha com suas instituições, determinou ir mudando
os seus costumes guerreiros.
XIV. — Primeiramente, dividiu entre os cidadãos as terras que Rômulo adquirira na guer-
ra, € ensinou-lhes que, sem a devastação e sem a pilhagem, podiam obter-se todas as vantagens
com o cultivo assíduo dos campos; inspirou-lhes 6 amor à paz e à calrna, garantias da fée da j Jus-
tiça, com cujo patrocínio prosperam as colheitas e os cultivos. Do mesmo modo, instituindo áus-
pices maiores, acrescentou ao número dos áugures primitivos mais dois; e, mediante leis, que em
nossos monumentos conservamos, acalmando em todos o ardor da guerra, despertou-lhes o culto
das divindades. Estabeleceu também os flâmines, os álios, as vestais e estatuiu por toda parte a
religião; quis que nos sacrifícios fossem complicadas as cerimônias « simples as oferendas, exi-
gindo do sacerdócio extensos conhecimentos; sem ostentação, e uma piedade mais própria da
observância do que da prescrição dispendiosa. Foi ele, também, quem fez pôr em uso os merca-
dos, os jogos, as festas e todas as ocasiões de reunir e aproximar os homens entre si, atraindo à
doçura e à amizade os que'se tinham tornado ferozes e rudes com a paixão das armas. Depois de
ter reinado assim, no meio de uma completa paz, durante quarenta e nove anos (sigamos a opi-
nião do nosso grande Políbio, a quem nenhum historiador se compara em diligência para averi-
guar datas), deixou a vida, tendo confirmado em Roma duas coisas necessárias como bases do
esplendor e da duração de uma República: a religião e a clemência.
XV. Quando Cipião acabou de falar: — É verdadeira — perguntou Manílio Africano — a
memória que se conserva de que Numa. Foi discípulo de Pitágoras ou, pelo menos, pitagórico?
Com fregiiência o temos ouvido dos anciãos, e assim o vulgo o estima: mas nada disso vemos que
nos satisfaça na autoridade dos anais públicos.
Então, CIPIAO: — É falso — disse —., e não só falso como também néscio no fundo e absur-
do. Porque não se devem supor fatos que, longe de se terem verificado, são impossíveis. Foi no
quarto ano do reinado de Lúcio Tarqiínio, o Soberbo,ºº que Pitágoras chegou a Síbaris, a Croto-
88 O mais célebre dos heróis da mitologia grega, filho de Júpiter e de Alcmena.
8º Segundo rei de Roma.
*º Sétimo e último rei de Roma. Tendo governado com violência e arbítrio, foi destronado por Bruto e
Colatino.
DA REPÚBLICA 167
na e a esta parte da Itália. A septuagésima segunda olimpíada é a data comum da elevação de
Targiínio ao trono e da viagem de Pitágoras. É, portanto, claro, calculando a duração de cada
reinado, que se tinham passado cento e quarenta anos, após a morte de Numa, quando Pitágoras
visitou a Itália pela primeira vez, fato incontestável para aqueles que estudam cuidadosamente os
anais do tempo.
— Deuses imortais ! — prorrompeu Manílio. — Quão inveterado é este erro! Além do
mais, consola-me saber que Roma deve seu esplendor, não às teorias importadas de além-mar,
mas às suas relevantes e genuínas virtudes domésticas.
XVI. — Ainda o saberás mais facilmente — continuou o Africano — quando, estudando o
progresso de nossa República, a vires avançar até o estado em que hoje se encontra. Então apre-
ciarás no seu verdadeiro valor a sabedoria dos nossos antepassados, que transformaram as coisas
tomadas aos estranhos em melhores do. que eram a princípio, e verás que este povo não se engran-
deceu por acaso, mas por prudência e disciplina, ao que, na verdade, não se opôs a fortuna.
XVII. — Morto oTei Pompílio, o povo, ante a proposta de um rei interino, confiou o reinado
a Túlio Hostílio?' nos comícios curiados; seguindo o exemplo de Pompílio, consultou ele as
cúrias a respeito de sua elevação ao trono. Brilhou sua glória na milícia, e foram notáveis seus fei-
tos de armas. Construiu a praça dos Comícios e decorou o palácio do Senado com o despojo
ganho nas batalhas. Dele são as formas legais para a declaração de guerra, costume justo que
consagrou com a intervenção religiosa dos feciais, e, desde então, toda guerra empreendida sem
essas formalidades foi considerada ímpia e injusta. E note-se com quanta sabedoria já viam os
nossos reis o que se devia dar ao povo, pois não é pouco o que sobrê isso posso dizer. Túlio, sem
a autoridade dele, não ousava cobrir-se com as insígnias reais nem fazer-se preceder dos dozé
litores...
XVIII. MANíLIO: — Não caminha para a perfeição, mas voa; esta República cuja origem
descreves.
CrpIAO: — Depois dele, um descendente de Numa Pompílio, por parte de sua filha, Anco
Márcio,º? foi nomeado rei pelo povo; também tomou o império com uma lei curiada. Como tives-
se vencido os latinos, admitiu-os na cidadê. Acrescentou à cidade os montes Aventino e Célio;
dividiu os campos que tinha conquistado; tonservou sob o domínio público os bosques tomados
na guerra, vizinhos ao mar, e fundou uma colônia à margem do Tibre. Por fim, morreu, depois de
ter reinado vinte e três anos.
LéELIO: — Esse rei também é digno de elogios; mas a história romana é bem obscura; com
efeito, embora saibamos o nome da mãe desse rei, ignoramos o do pai.
CIPIAO: — Assim é; mas, naqueles tempos, só os nomes esplendorosos se conservavam.
XIX. — Vê-se, porém, aqui, pela primeira vez em Roma, a influência de uma civilização
estranha. Não era, decerto, um pequeno arroio que então trouxe as artes da Grécia, mas um rio
soberbo, que transportou em suas águas as ciências e as letras. Demarato,ºº o primeiro dos corín-
tios pela consideração, pelo crédito e pelas riquezas, não podendo suportar o jugo do tirano Cip-
selo,º * fugiu com seus tesouros para a Tarquínia, cidade florescente dos etruscos. Tendo sabido,
depois, que a dominação de Cípselo se consolidava, renunciou à sua pátria; varão livre e forte,
fez-se admitir como cidadão na Targúínia, em cuja cidade se estabeleceu e fixou domicílio. Ali,
tendo tido dois filhos com uma mãe de família da cidade, ensinou a ambos as artes e a disciplina
dos gregos.
XX. — Um desses filhos foi admitido facilmente na cidade e, pela sua humanidade e doutri-
na, fez-se confidente do rei Anco, que o fez partícipe de todas as suas decisões e até parecia seu
companheiro no trono. Tinha, ademais, trato amável, e a todos prodigalizava benefícios e liberali-
dades. Assim, morto Márcio, o povo elegeu L. Tarqiúínio, que assim mudara de nome, rendendo
culto aos costumes desse povo. Dessa forma, quando fez sancionar seu poder, duplicou o primi-
tivo número dos pais. Aos primitivos, que consultava de preferência, chamou maiores, e aos
novos, menores. Organizou, depois, a ordem dos cavaleiros, tal como hoje permanece. Não pôde
mudar os nomes de ticienses, ramnenses e lúceros,º º como teria desejado, pela oposição que
encontrou no famoso áugure Névio.º * É sabido que os de Corinto mantinham e cuidavam dos
91 Terceiro rei de Roma, que submeteu os albanos e os sabinos.
92 Neto de Numa Pompílio. Foi o quarto rei de Roma, tendo fundado o porto de Óstia.
ºº Pai de Tarqiínio Prisco. Nasceu em Corinto:
“* Tirano de Corinto.
95 Ticienses: isto é, os sabinos, de Tito Tácio, centúria de cavaleiros instituída por Rômulo. Ramnenses ou
ramnos: isto é, os latinos, outra centúria. Lúcer os ou Lucerenses: isto é, os etruscos, também.
“8 Antigo poeta latino, cômico e épico.
168 CÍCERO
cavalos para as necessidades públicas, mediante uma contribuição imposta aos celibatários e às
viúvas. Acrescentou, pois, aos primeiros ginetes outros, até o número de mil e trezentos, que mais
tarde duplicou, depois de ter vencido os équos, nação forte, que era uma contínua e iminente
ameaça para Roma. Repeliu, igualmente, uma invasão dos latinos; fê-los fugir com sua cavalaria;
sabemos, por fim, que instituiu o primeiro dos jogos romanos; que, na guerra contra Os sabinos,
fez voto, no mais renhido da peleja, de construir um templo a Júpiter Ótimo e Máximo sobre o
monte Capitólio, e que morreu, depois de ter ocupado o trono trinta e oito anos.
XXI. LELIO: — Cada vez parece mais certa a frase de Catão: “A constituição da República
não foi obra de um homem nem de um tempo”. Claramente se vêem quantas e quais foram, em
cada reinado, as coisas boas. Mas afigura-se-me que chegamos àquele que, dentre todos, me pare-
ce ser o que mais e mais claro viu na constituição da República.
CIPIAO: — Assim é: Sérvio”? foi o primeiro que começou a reinar sem consultar a vontade
do povo. Supõe-se que era filho de uma escrava tarquiniense e de um cliente do rei. Educado entre
os íntimos do príncipe, e servindo-o à mesa, revelou uma inteligência pouco comum nas menores
ações e palavras. Dessa forma, Tarquínio, cujos filhos ainda choravam nos seus berços, dedicou-
lhe tanto afeto que Sérvio passava geralmente por seu filho, e dele recebeu vasta instrução, con-
forme os modelos da Grécia, que ele tinha sido o primeiro a seguir. Quando Tarqiiínio sucumbiu
às insídias dos filhos de Ando, Sérvio começou a reinar não por mandato, mas por consentimento
tácito dos cidadãos. Tendo circulado a notícia de que Tarqiiínio sobrevivia aos seus ferimentos,
pareceu, a princípio, que Sérvio não passava de um usurpador; acalmou, então, os irritados credo-
res com sua liberalidade e declarou que tudo quanto fazia devia entender-se em nome do rei, evi-
tando, assim, sua apresentação ao Senado. Mas, depois de sepultado Tarqiínio, Sérvio acudiu
voluntariamente aos sufrágios populares e, uma vez regularizado o seu mandato por meio de uma
lei especial, a primeira coisa em que pensou foi vingar as injúrias dos etruscos.
XXII. — Criou dezoito centúrias de cavalaria de grau máximo. Depois de separar grande
quantidade de cavaleiros da massa, dividiu o resto do povo em cinco classes, separando os jovens
dos velhos e arranjando tudo de modo que a preferência dos sufrágios correspondesse, não à mul-
tidão, mas aos ricos, e cuidou de tudo o que se deve cuidar em toda República: de que os em
maior número não o sejam em valimento. Se essa descrição vos fosse desconhecida, por mim vos
seria explicada; mas basta que vos fixeis no resultado. As centúrias da primeira classe e as dos
cavaleiros, com seus seis sufrágios, às quais se acrescentava a dos carpinteiros, pela sua utilidade
na cidade, formavam oitenta e nove centúrias. Bastava, pois, que oito centúrias, das cento e qua-
tro que restavam, se unissem às primeiras, para que o voto popular tivesse o mesmo resultado que
teria se fosse unânime. As outras noventa e seis centúrias, muito superiores em número, não esta-
vam, pois, excluídas do direito de sufrágio, coisa que teria parecido despótica, e também não
desfrutavam de um poder que teria apresentado inúmeros perigos. Em tudo isso, teve muito em
conta os nomes e as palavras. Deu aos ricos um nome que indicava os auxílios pecuniários que
subministravam ao Estado, e aos que não tinham mais de mil e quinhentos ases, ou não possuíam
mais do que sua pessoa, chamou proletários, indicando assim que deles a pátria só esperava a
prole. Ninguém estava, pois, privado do direito de sufrágio, se bem que a preponderância dos
ricos fosse manifesta. -
XXI. — Cartago era setenta e cinco anos mais antiga do que Roma, posto que fundad
trinta e nove anos antes da primeira olimpíada; muito antes ainda, Licurgo teve os mesmos objeti-
vos; assim, essa igualdade e esse tríplice gênero de governo parece-me que nos deve ter sido
comum com aquele povo. Mas há alguma coisa própria e essencial na nossa República, que não
pode ser mais preclara, a qual procurarei expor o melhor que me seja possível e que parecerá tal
que nada haverá que se lhe pareça. Na Lacedemônia, em Cartago e na nossa própria história até
o momento atual, temos encontrado a reunião desses três elementos políticos, mas nunca na medi-
da justa de equilíbrio. Porque, na sociedade em que uma pessoa é investida de potestade perpétua,
e da regra principalmente, embora haja nela um senado, como em Roma sob os reis, ou como em
Esparta sob as leis de Licurgo, e embora o povo exerça algum direito como na nossa monarquia,
o título -de rei inclina a balança e faz com que o Estado seja e se chame monarquia. E essa forma
de governo é a mais exposta a mudança e transtornos, porque os vícios de um só podem bastar
para precipitá-la num funesto abismo. Em si mesma, não só não acho detestável a monarquia,
como até a considero preferível às outras formas de govemo simples, se alguma forma simples
87 Sérvio Túlio. sexto rei de Roma.
DA REPÚBLICA 169
pudesse agradar-me. Mas isso quando conserva seu caráter, isto é, quando o poder perpétuo de
um só, sua igualdade e justiça garantam a segurança, a igualdade e o bem-estar de todos os cida-
dãos. Mesmo então, falta não pouco ao povo que é governado por um rei; antes de tudo, a liberda-
de, que não se estriba em ter um bom amo, mas em não o ter.
XXIV. — Aquele senhor injusto e cruel teve a fortuna, durante algum tempo, como escrava
de suas empresas. Conquistou o Lácio inteiro, tomou Promécia, cidade poderosa, e, com o despo-
jo de ouro e prata, erigiu o Capitólio, *º cumprindo assim a promessa do avô. Fundou também
colônias, e, seguindo os usos dos povos de que era oriundo, enviou a Delfos,ºº como primícias do
seu despojo, magníficas oferendas para adornar o templo de Apolo. 'ºº
XKV. — Começa agora, neste ponto, O círculo cujas revoluções devemos estudar desde o
começo; porque o que é mais essencial na ciência política, sobre a qual versa nossa dissertação,
é conhecer a marcha e as alterações dos Estados, a fim de que, sabendo para que escolhos cada
governo se dirige, se possam reter ou prevenir seus funestos resultados. O rei a que me refiro,
manchado antes de tudo com o sangue do rei melhor e mais preclaro, perdera a integridade de seu
ânimo, e, temeroso do castigo que o ameaçava, queria impor-se pelo temor. Da altura de suas
vitórias e dos seus tesouros, cego pelo despotismo e pelo orgulho, chegou a não poder governar
suas paixões nem a concupiscência libidinosa dos outros. Assim, tendo o mais velho dos seus fi-
lhos desonrado Lucrécia, 'º" filha de Tricipitino 'º2 e esposa de Colatino, 'º? e tendo essa nobre
e casta mulher se suicidado para não sobreviver à honra ultrajada, deu isso ocasião a que um
homem de gênio e virtude, Júnio Bruto, !'º * sacudisse o jugo infame e sangrento; simples cidadão,
encarregou-se dos destinos públicos, ensinando pela primeira vez esta grande máxima: “Todo
homem é magistrado quando se trata de salvar a pátria”. Roma inteira ergueu-se à sua voz e,
indignada com a morte de Lucrécia, jurou vingá-la e vingar seus desolados parentes. E, recor-
dando a injustiça de Tarqguínio, dos seus filhos e de todos os seus, expulsou para sempre de Roma
sua raça nefanda.
XXVI. — Vedes de que modo o rei produz o déspota, e como basta o crime de um só
homem para converter uma boa forma de governo na pior de todas as que se possam imaginar?
É a esse déspota do povo que os gregos chamam tirano; porque querem dar o nome de rei somente
aquele que vela pelo povo como um pai e que conserva os que governa na condição e estado mais
venturosos da vida. Considero, como já disse, boa essa forma de constituição política, mas tam-
bém próxima do estado mais pernicioso. No mesmo momento em que um rei se deixa domiriar
pela injustiça, converte-se em tirano, e nada é mais horrível e repulsivo aos deuses e aos homens
do que esse animal funesto que, embora com forma humana, sobrepuja, em ferocidade e-cruelda-
de, as mais desapiedadas feras. Quem dará o título de homem a um monstro que não reconhece
comunidade de direitos para com os outros homens, nem laços que o unam à humanidade? Mas
será mais oportuno falar da tirania quando a ilação do nosso discurso levar a nos ocuparmos
dagueles que, estando a cidade livre, pensaram em usurpar sua dominação.
XXVII. — Tendes, pois, o primeiro exemplo de tirano; os gregos quiseram designar com
esse nome o rei injusto; nós chamamos reis, indistintamente, a todos os que exercem por si sós
uma autoridade perpétua. Foi por isso que Espúrio Cássio,'º *M. Mânlio,'ºº Mélio'” e decerto
98 Templo dedicado a Júpiter e cidadela no monte Capitolino, onde os triunfadores eram coroados. Perto
do templo estava a rocha Tarpêia, de onde eram precipitados os traidores. Daí provém a locução: “Do Capi-
tólio à rocha Tarpéia não vai mais que um passo?, o que significa que, muitas vezes, ao triunfo pode seguir-
se o opróbrio.
ºº Cidade da antiga Grécia, na qual havia um templo onde Apolo ditava oráculos pela boca de Pítia.
1ºº Deus grego e romano dos oráculos, da-medicina, da poesia, das artes, dos rebanhos, do dia e do sol
(nesta última qualidade, também chamado Febo).
'º1 Dama romana que se matou por ter sido ultrajada por um filho de Tarqgiínio, o Soberbo. Esse fato deu
origem ao estabelecimento da República em Roma.
Personagem pouco conhecida.
103 Lúcio Tarqgiínio Colatino, neto de Tarqiínio Prisco e marido de Lucrécia. Foi, com Bruto, um dos pri-
meiros cônsules de Roma.
1º4 Lúcio Júnio Bruto, principal autor da revolução que expulsou de Roma os Tarqúínios e instituiu a
República.
Espúrio Cássio Vicelino, cônsul romano, promotor de uma lei agrária que lhe custou a vida.
1º8 Marco Mânlio Capitolino, cônsul romano que salvou o Capitólio sitiado pelos gauleses e foi, mais
tarde, precipitado da rocha Tarpéia.
'º7 Espúrio Mélio, cavaleiro romano que aspirou à realeza.
170 CÍCERO |
modo, mais tarde, Tibério Graco !ºº foram acusados de querer usurpar o trono.
XXVII — Licurgo, na Lacedemônia, estabeleceu um conselho de anciãos, composto uni-
camente de vinte e oito, aos quais deu o direito supremo de deliberação, reservando para O rei a
supremacia do mando. Nossos romanos, imitando-o, deram aos que ele chamou de anciãos o
nome de senado, o que também fez Rômulo, conforme dissemos, com os pais; e, nesse sistema, a
a-força, como a potestade, correspondeu ao poder real. Certamente, tanto Licurgo como Rômulo
concederam alguns direitos ao povo; mas, longe de servirem para sac iar sua sede de liberdade,
serviram para acendê-la. O povo sempre estará pendente do receio de que se eleve um rei injusto.
É, pois, como antes disse, frágil a fortuna do povo que se baseia na vontade e nos hábitos de um
sÓ.
XXIX. — O modelo e a verdadeira origem da tirania são, pois, encontrados por nós nessa
mesma República que Rômulo fundou com tão bons auspícios, e não naquela que, conforme
escreve Platão, se nos apresenta nos diálogos peripatéticos de Sócrates. Assim, bastou a Targui-
nio, para destruir todo esse gênero e regime monárquico, não uma nova potestade, mas uma usur-
pação arbitrária da que já tinha. Oponha-se agora, a esse déspota, um príncipe prudente, virtuoso,
apto para assegurar a felicidade e a glória dos seus concidadãos, um verdadeiro tutor e procura-
dor da República, que assim deve ser chamado quem é o reitor e governador da cidade. Será fácil
reconhecer esse sábio varão: será aquele que possa proteger o Estado com suas palavras e com
suas obras. Como ainda não lhe dei um nome, procurarei fazer um bosquejo de seu caráter.
XXX. — Platão dividiu seu território, com suas moradas e riquezas, entre os cidadãos, em
partes iguais, e estabeleceu sua República, tão fácil de desejar quanto dificil de possuir, e que
vinha a ser menos um plano suscetível de realização do que um modelo em que se pudessem estu-
dar todos os expedientes-da política. Por minha parte, tanto quanto possa consegui-lo, tentarei apli-
car princípios idênticos, não ao vão simulacro de uma sociedade imaginária, mas à mais ampla
e poderosa República, de modo que se possa assinalar a causa dos males e bens públicos. Uma
vez expulso Tarquínio, depois de duzentos e quarenta e dois anos de monarquia, contados os
interregnos, o povo romano chegou a tomar tanto ódio a tudo o que se relacionava com o nome
de rei quanto a dor que experimentara com a morte de Rômulo, ou antes, com a sua desaparição.
Assim como então não podia carecer de rei, assim também, expulso Tarqgiínio, o proprio título de
rei tornou-se-lhe insuportável.
XXRI. — Quebrou- -se aquela lei. Pensando assim, os nossos maiores desterraram Cosimo:
apesar de sua inocência, como suspeito pela sua família; aos outros T'arquínios, por ódio ao seu
nome. Levado pelo mesmo pensamento, P. Valério, 'ºº nas suas arengas no foro, toi o primeiro a
abater os feixes diante do povo, e deu ordem de levar ao pé do monte Vélia os materiais de uma
casa que tencionava edificar no cimo da colina, quando viu que o lugar por ele escolhido susci-
táva a suspeita do povo, por ter o rei Túlio tido ali sua residência. Ainda assim, mereceu o nome
de Publícola por ter proposto a primeira lei votada nos comícios centuriados, que proibia que os
magistrados matassem e até lastimassem os cidadãos que apelassem para o povo. O direito de
apelação existia sob os-reis, conforme demonstram os livros dos Pontífices!'"º e significam os
nossos arquivos augurais; as próprias Doze Tábuas!" indicam, em muitas passagens, que era
permitido apelar de toda sentença e de todo castigo; a eleição dos decênviros legisladores, que
escreveram as leis sem apelação, demonstra suficientemente que existia contra eles esse direito.
Lúcio Valério,''2 Potício!'? e Horácio Barbado,""* homens conhecidos pela sua popular
prudência, estabeleceram, numa lei do seu Consulado, que os magistrados não poderiam Julgar
sem apelação; enfim, as três leis Pórcias devidas, como é sabido, aos três Pórcios,!! * não altera-
ram as anteriores senão no que se referia à sanção penal »Assim, Publícola, tendo feito adotar essa
.
198 Tibério Graco e seu irmão Caio, filhos de Cornélia, foram os autores das leis agrárias com as quais
desejavam pôr um fim à avidez da aristocracia romana, que se apoderara da maior parte das terras conquis-
tadas ao inimigo.
102 P. Valério Volúsio Publícola, um dos fundadores da República romana, tendo participado com Bruto
da expulsão dos Targlínios.
119 Sacerdotes.
11 A Lei das Doze Tábuas foi a primeira legislação escrita dos romanos. Assim foi chamada por ter sido
gravada em doze tábuas de bronze. Os decênviros, isto é, os dez magistrados nomeados depois do estabeleci-
mento da República em Roma com o fim de elaborar um código, foram os seus autores.
12 Lúcio Valério, cônsul romano.
113 Senador romano.
11º Um dos autores da lei que recebeu o seu nome: Lei Horácia.
115 Tribunos do povo, cada qual tendo feito uma lei, que recebeu, por isso, o r1ome de Lei Pórcia.
DA REPÚBLICA 171
lei lata de apelação, mandou tirar as machadinhas dos feixes consulares e, no dia seguinte, no-
meou Lucrécio!'º para participar da mesma forma de suas atribuições; e, como o novo cônsul
fosse mais velho, enviou-lhe os seus litores, estabelecendo-se o hábito de que cada mês prece-
dessem os litores a um magistrado, para não multiplicar as insígnias num povo mais livre do que
numa monarquia. Não tendo dado ao povo uma liberdade moderada, manteve integérrimo o prin-
cípio de autoridade e o conservou em mãos dos-grandes. Não é sem causa que decanto tão antigos
tempos; apresento os modelos dos homens e das coisas em que o resto do meu discurso se deve
apoiar.
XXXKIT. — Nessas condições, pois, manteve o Senado a República, naqueles tempos em
que, num povo tão livre, pouco pelo povo e muito pelos costumes e pela autoridade do Senado, ela
se regia; os cônsules exerciam uma potestade temporal e ânua, mas régia pelas suas prerrogativas
e natureza. Conservava-se, não obstante, o mais essencial, talvez para que os nobres pudessem
obter o poder, que consistia em que nada se pudesse aprovar do resolvido pelo povo sem que os
patrícios o sancionassem. Por essa mesma época, dez anos depois da criação dos cônsules, apare-
ce a ditadura com T. Laércio," ? nova forma de poder, que pareceu bem depressa semelhante à
monarquia. Entretanto, as principais famílias conservavam ainda uma preponderância que não
contrariava o povo, e grandes façanhas militares foram, nesses tempos, realizadas por esforçados
varões, investidos de grande poder, quer como cônsules, quer como ditadores.
XXXHI. — A própria marcha dos acontecimentos exigia que o povo, livre dos reis, ten-
tasse conquistar o maior poder possível, e essa nova revolução realizou-se num curto intervalo,
dezesseis anos depois, sob o Consulado de Póstumo,''º Cominio"'º e Espúrio Cássio; talvez fal-
tasse razão para isso, mas, muitas vezes, a natureza das coisas públicas vence a razão. Recordai
minhas primeiras palavras: um Estado em que os direitos e as prerrogativas não estão num equil-
brio perfeito, em que os magistrados não têm suficiente poder, bastante influência as deliberações
dos nobres e o povo bastante liberdade, não pode ter estabilidade nem permanência. Assim, entre
nós, as dívidas do povo levaram a perturbação ao Estado, e por isso a plebe ocupou o monte
Sacro, e depois o Aventino. Tampouco a disciplina de Licurgo foi freio bastante para os gregos,
e, sob o rei Teopompo,'?º em Esparta, os cinco magistrados chamados éforos se nomearam,
como os reguladores em Creta, em oposição ao poder real, do mesmo modo que entre nós, para
contrapesar a autoridade consular, se instituíram os tribunos da plebe.
XXXIV. — Nossos antepassados acharam, sem dúvida, para esse mal, um paliativo, que o
próprio Sólon, alguns anos depois, em caso análogo, não ignorou; nosso Senado tampouco des-
cuidou da aplicação do remédio ao mal da dívida, quando, tendo a crueldade de um credor exci-
tado a indignação pública, todos os cidadãos presos por dívidas recuperaram a liberdade e ficou
abolida a prisão por tal delito. Sempre que as calamidades públicas levaram o povo a essa miserá-
vel condição, pensou-se, no interesse da saúde geral, em aliviar sua desdita; mas, uma vez descui-
dada essa prudente política, verificou-se em Roma uma mudança que, com a criação de dois tri-
bunos, numa sedição, diminuiu o poder e a autoridade do Senado. Este ainda pôde conservar não
pouca influência e preponderância, composto como estava de cidadãos tão denodados quanto sá-
bios, os quais, com seus conselhos e com suas armas, protegiam a cidade, conservando o seu
ascendente, porque, sendo superiores aos outros em honras, lhes eram inferiores no gozo dos pra-
zeres e em riquezas; acrecente-se que, nas coisas privadas, punham sua diligência, sua fortuna e
seus conselhos a serviço de todos os cidadãos.
XXXV. — Com a República nesse estado, E. Cássio, alentado por sua popularidade, pre-
tendeu apoderar-se da autoridade real, tendo sido acusado pelo questor; não ignorais que, então,
seu próprio pai, tendo sabido de sua culpa, o condenou à morte, com o consentimento popular.
Proximamente, pelo ano 54 do Consulado, Tarpéio'?" e Atérnio'?? propuseram às cúrias a subs-
tituição da multa por castigos corporais, coisa que não pôde deixar de ser agradável ao povo.
Vinte anos depois, tendo o rigor dos censores L. Papírio'?º e P. Pinário!?* feito passar para o
domínio público, à força de multas, quase todos os ganhos dos particulares, essa forma de con-
118 Cônsul romano.
17 T. Laércio, da cidade de Laerte, foi o primeiro ditador de Roma.
118 Cônsul romano.
Nº Idem.
120 Rei de Esparta, que instituiu os éforos.
121 Cônsul romano.
122 O cônsul Atérnio, que promulgou a chamada Lei Atérnia.
'23 Autor da Lei Papíria.
12º Dos Pinários, antiga família do Lácio.
172 CÍCERO | |
fisco foi substituída, por sua vez, por módica avaliação pecuniária, mediante uma lei de C. Júlio
e P. Papírio.
XXXVI. — Mas, alguns anos antes, quando a autoridade do Seriado estava no seu esplen-
dor e o povo a suportava com paciência, adotou- -se outro novo sistema; os cônsules e os tribunos
abdicaram de seus cargos, e dez magistrados supremos'?* foram criados para exercer o poder
soberano sem apelação e escrever as leis. Depois de escreverem dez tábuas de leis com prudência
e suma equidade, sub-rogaram sua autoridade no ano seguinte a outros decênviros, os quais não
demonstraram a mesma fidelidade nem a mesma justiça.
— Não se deixa citar, no entanto, um ato de C. Júlio, membro desse colégio, que, denun-
ciando como assassino o nobre Sexto, de cuja habitação vira retirar um cadáver, apesar de ser
decênviro sem apelação e de ter em suas mãos o supremo poder, aceitou a caução de acusado e
declarou que não queria infringir a maravilhosa lei, pois só aos comícios de centúrias cumpria jul-
gar a vida de um cidadão romano.
XXXVII. — Passaram-se três anos sem que os decênviros quisessem sub-rogar a outros
su: autoridade. Com a República nesse estado, o qual, como eu disse muitas vezes, não podia ser
duradouro, por não ser igual para todas as classes da cidade, todo o poder e toda a influência fica-
ram nas mãos dos aristocratas, sendo os nobres decênviros nomeados sem oposição dos tribunos
da plebe, sem adição de outra magistratura e sem apelação para o povo contra o machado e o chi-
cote. Tamanha foi, pois, a sua injustiça, que se produziu um horrível transtorno, uma completa
revolução; publicaram duas novas tábuas com iníquas leis, uma das quais proibia toda aliança
entre plebeus e patrícios, aliança concedida pelo matrimônio até aos estrangeiros; essa lei foi,
mais tarde, derrogada pelo plebiscito Canuleio.'?º Abusaram, enfim, do povo, em benefício de
sua concupiscência e avareza. Todos sabemos, por ter sido esse fato celebrado em muitos monu-
mentos literários, que Virgílio'?? imolou sua filha na praça pública, com suas próprias mãos,
para subtraí-la ao desejo brutal de um decênviro; este, desesperado, fugiu para o monte Álgido,
onde estava o exército, e os soldados, abandonando a guerra inda indecisa, partiram para o monte
Sacro e, como de outra vez já O tinham feito, assaltaram o Aventino com as armas.
XXXVIII. Quando Cipião disse isso, todos permaneceram em silenciosa expectativa.
Por fim, TuBERAO: — Embora — disse — nada de'ti os meus maiores exijam, ouve, Africa-
no, o que de ti desejo.
— Fala — disse Cipião —, que com prazer te ouvirei.
TusEerAO: — Elogiaste nossa constituição política, se bem que Lélio te interrogasse, não
sobre a nossa, mas sobre toda forma de governo; por outro lado, não nos disseste de que modo
essa República, que tanto elogias, pôde constituir-se e conservar-se, com que disciplina, com que
costumes ou leis.
XXXIX. Crrrao: — Logo teremos ocasião propícia para falar da instituição e conservação
dos Estados, Tuberão. Pélo que diz respeito ao melhor governo, creio ter respondido a Lélio
satisfatoriamente. Com efeito, defini, em primeiro lugar, três formas políticas possíveis; depois,
outras três, perniciosas, a elas contrárias; afirmei que nenhuma delas era perfeita, mas sim aquela
que resultasse de uma combinação das três. Se citei o exemplo de Roma, não foi certamente com
o fim de definir um Estado sem mácula, mas com o de demonstrar praticamente a aplicação,
numa grande cidade, do que eu descrevera em meu discurso. Mas, se queres conhecer o melhor gê-
nero de República, sem citar como exemplo povo algum, utilizarei a imagem da natureza.
XL. — Esse, e não outro, é o tipo que há tempo procuro e ao qual desejo chegar.
LeLIO: — Procuras o do varão prudente?
Crpiao: — Justamente.
LeLiO: — Modelos bastantes tens diante dos olhos, começando por ti mesmo.
Cipido: — Oxalá que o Senado nos desse modelos semel antes! 1 O político prudente é como
aquele homem que vimos na África com frequência, o qual, montando um elefante gigantesco, O
dirige e governa a seu capricho, mais com a vontade do que com os atos.
LELIO: — Tive ocasião de observar a mesma coisa quando fui teu legado.
CrpraO: — Assim, um bárbaro, ou um cartaginês, consegue guiar uma fera, uma vez domes-
ticada e afeita aos hábitos do homem. Mas esse algo que reside no espírito do homem e que dele
. faz parte com o nome de inteligência não deve domar somente uma fera dócil e submissa, mas
'25 Tsto é, os decênviros.
128 Caio Canuleio, tribuno do povo.
127 Cidadão romano.
DA REPÚBLICA is
outra muito mais indômita e terrível; fera pronta a todo excesso, ébria de sangue, disposta a toda
crueldade e que necessita, para ser guiada, do férreo braço de um varão implacável e forte.
LELIO: — Ágora compreendo o cargo destinado ao varão que eu esperava, e as condições de
que necessita.
— Uma só exijo — disse Africano —, pois todas as outras já estão nele compreendidas:
estudar sem descanso; trabalhar sem trégua pelo seu aperfeiçoamento; procurar que os outros o
imitem; e ser, com o esplendor de sua alma e de sua vida, para os seus concidadãos, como um
espelho aberto. Assim como os sons despertados nas liras e nas flautas, combinados com o canto
e a voz, produzem um conjunto harmônico que agrada ao ouvido inteligente, ao passo que as
dissonâncias o incomodam, assim também um Estado, prudentemente composto da mescla e
equilíbrio de todas as ordens, concorda com a reunião dos elementos distintos; e o que no canto
é chamado pelos músicos de harmonia é, no- Estado, a concórdia, a paz, a união, vínculo sem o
qual a República não permanece incólume, do mesmo modo que nenhum pacto pode existir sem
a justiça.
XLI. LELIO: — Creio o mesmo; renuncio convosco a tudo quanto até agora Misses da
República, ou a quanto possamos dizer daqui por diante, se não confirmamos antes que, sem uma
suprema justiça, não se pode reger de modo algum a coisa pública. Mas, se te apraz, deixemos
isso por hoje. Temos ainda muito que dizer, e podemos diferi-lo para amanhã.
Aceita, essa opinião pôs termo à polêmica por aquele dia.
LivRO TERCEIRO
I. CrpiÃO: — A princípio, o homem emitia unicamente sons inarticulados e confusos. De-
pois sua inteligência lhe fez distinguir e separar em partes esses sons; deu, depois, a cada coisa um
nome que a distinguisse das outras; e os homens, separados antes, encontraram-se unidos com
esse vínculo de simpatia. A propria inteligência, as vozes, que pelo seu som pareciam antes infini-
tas, assinalaram-se e se expressaram todas com poucos sinais e caracteres, com os quais se tornou
possível falar com os ausentes, manifestar os movimentos de nossa alma e esculpir nos monumen-
tos a lembrança das coisas que se foram. Inventaram-se depois os números, para a vida tão neces-
sários, cuja ciência se pode dizer imutável e eterna, posto que é a primeira que ergue nosso olhar
para O céu e nos diz que não devemos ver indiferentemente a sucessão das noites e dos dias e o
curso tão imutável quão majestoso dos astros.
IH. — Alguns homens, cujas almas se elevaram a eminente altura, puderam discorrer a res-
peito das coisas que, como disse, tinham recebido dos deuses, e tornar-se dignos delas. Assim, os
que nos legaram suas dissertações sobre a vida são, para nós, grandes homens, e o são realmente,
quer considerados como sábios profundos, quer como apóstolos da verdade, quer como mestres
da virtude. Não se deve, por isso, deixar de reconhecer que a arte social de govemar os povos, ou
na variedade dos descobrimentos dos homens versados no governo da República, ou no que eles
escreveram em seu ócio fecundo, longe de ser uma ciência sem importância, desperta nos enge-
nhos privilegiados uma virtude divina e quasé incrível; e quando a essas excelsas faculdades natu-
rais, desenvolvidas pelas instituições civis, se unem, como nos interlocutores deste diálogo, sólida
instrução e extensos conhecimentos, ninguém haverá que a eles se deva antepor. Com efeito, que
pode existir de mais preclaro do que o conhecimento e o hábito dos problemas mais importantes
da política, quando se unem a eles o prazer e a experiência das artes do entendimento? Que ho-
mens haverá melhores do que Cipião, Lélio e Filão, que, para reunir quantos dotes um homem
eminente necessita, uniram às tradições dos seus antepassados e aos seus costumes domésticos a
doutrina estranha que haviam recebido de Sócrates? Em suma, quem ambas as coisas quer e
pode, quem se instrui ao mesmo tempo na doutrina presente e nas instituições passadas, julgo que
merece a maior consideração e os mais perfeitos elogios. Se fosse absolutamente necessário esco-
lher um desses caminhos da sabedoria, apesar de parecer mais feliz a vida pacífica e santa, passa-
da tranquilamente na solidão dos estudos e das artes, eu julgaria certamente mais louvável e ilus-
tre a vida cívica, na qual brilham tão grandes homens, como Cúrio,!28
Que ninguém conseguiu vencer com ferro ou ouro.
NI. — Nossos grandes homens se diferenciam nisto: em alguns, a oratória e as artes desen-
volveram os princípios da natureza, que é obra, em outros, das instituições e das leis. Por si só,
nossa cidade produziu um considerável número, se não de sábios, posto que tanto se deve restrin-
gir a aplicação desse título, certamente de varões dignos de elogios, por terem cultivado os inven-
tos dos sábios e os preceitos da sabedoria; contai, agora, todos os Estados famosos, nos tempos
que foram e nos que são; considerai que a maior obra do gênio sobre a terra consiste em constituir
uma República verdadeira; e ainda quando só conteis um homem em cada cidade, que imensa
multidão não encontrareis de varões ilustres? Basta prestardes atenção à Itália, ao Lácio, à pró-
pria sabina e volsca multidão, ao Sâmnio, à Etrúria; basta dirigirdes o olhar para a grande Gré-
cia, OS assírios, OS persas, Os cartagineses. ..
128 Marco Cúrio Dentato, cônsul romano, vencedor de Pirro. Incorruptível, dizia preferir impor a própria
vontade aos possuidores do ouro a possuí-lo ele próprio.
176 CÍCERO
IV. FiLao: — Na verdade, me confere uma empresa pouco simpática, pretendendo tornar-
me defensor da injustiça !
LeLIO: — Temerás certamente que, ao dizer tudo quanto se costuma dizer contra a Justiça,
pareça que defendes tua opinião, quando és brilhante exemplo de honra e probidade; mas nin-
guém ignora o hábito de discutir teses contrárias, para chegar ao descobrimento da verdade por
esse meio.
FiLAO: — Pois bem, defenderei o mal, em vosso obséquio. Se os que procuram o ouro não
hesitam em afundar-se na lama, nós, que procuramos alguma coisa mais do que o ouro ou seja,
a justiça, não devemos evitar nenhum incômodo. Pudesse eu, ao defender opiniões alheias, fazê-lo
também com linguagem alheia! Mas, hei de ser eu, Filão, quem há de sustentar o que defendia
Carnéades, o grego, tão hábil em apoiar teses contraditórias?
— Se falo, pois, nesse sentido, não será certamente para expressar o que meu ânimo sente,
mas para que possas desfazer a argumentação de Carnéades, que costumava despedaçar as
melhores causas com seu engenho.
V. — Aristóteles !2º tratou em quatro livros, com bastante amplitude, dessa questão da jus-
tiça. Pelo que diz respeito a Crisipo, '*º nada encontrei nele de elevado nem de grande; porque,
conforme seu costume, atende mais às palavras do que às coisas. Nern por isso afirma que não
tenha sido digno dos heróis da filosofia combater por uma virtude que, se existe de algum modo,
é altamente liberal e benfeitora, cabendo à sabedoria colocá-la num divino sólio. Seu propósito
não devia ser outro; que outras coisas se poderiam propor ao escrever, ou que outra podia ter sido
à sua determinação? Não lhe faltou, certamente, talento. Mas a causa que defendia pôde mais do
que a sua vontade. O direito que procuramos pode ser alguma vez civil, natural nunca; se o fosse,
como o quente e o frio, o amargo e o doce, seriam o justo e o injusto iguais para todos.
VI. — Se, como na ficção pacuviana, pudesse alguém ser levado pelos ares num carro de
serpentes com asas e percorrer as nações, as cidades e as várias gentes, fixando nelas seus olhos,
veria, antes de tudo, o grande Egito, cuja história nos traz a lembrança de séculos-e aconteci-
mentos sem número; veria um boi adorado como deus, sob o nome de Ápis, '?! e muitos outros
portentos entre eles, e muitas feras adoradas como deusas. Na Grécia, como entre nós, veria sun-
tuosos templos consagrados a ídolos de forma humana, considerados ímpios na Pérsia; de modo
que, se Xerxes !º? fez incendiar ali os templos de Atenas, foi na firme crença de que era sacrilégio
encerrar em estreitas paredes os deuses, cuja residência era a imensidade dos mundos; mais tarde
ainda, quando Filipe !?? concebeu a guerra, que empreendeu depois Alexandre, '* * contra os per-
sas, foi com o pretexto de vingar a profanação dos mesmos templos, que os gregos não queriam
reedificar, para tornar mais sempitermna aos olhos da posteridade essa prova do crime dos bárba-
ros. Muitos outros povos, como os de Tauro, os do Egito sob a dominação de Busíris, '* * os gau-
leses e os cartagineses, julgaram que era.piedoso e gratíssimo aos deuses imortais sacrificar os ho-
mens em seus altares. Observai quão longe estão essas instituições das dos etólios e cretenses, ao
julgarem honesto o latrocínio, e da dos lacedemônios, que proclamavam que onde chegasse o
ferro de sua lança se estendiam campos florescentes. Costumavam os atenienses declarar, em
juramento público, que todas as terras que produziam oliveiras e trigos eram de sua propriedade.
Os gauleses julgavam afrontosos os trabalhos agricolas e, assim, procuravam colher, com as
armas na mão. os campos alheios. Nós mesmos, homens justos, que não permitimos que as gentes,
transalpinas semeiem azeitonas nem uvas, para superá-las em vinhos e azeites, ao fazer isso jul-
gamos proceder prudentemente, mas não com justiça. Vede como a sabedoria difere da equidade;
o mais sábio legislador, aquele Licurgo, que observou sempre a maior equidade no direito, não
deixou de condenar a plebe ao vil cultivo dos campos dos ricos.
VIH. — Se eu quisesse descrever os gêneros diversos de leis, instituições, hábitos e costu-
mes, tão diversos não só em todos os povos como numa mesma cidade, demonstraria nesta os
seus milhares de mudanças. Se Manílio, nosso intérprete de direito, que agora me ouve, fosse
interrogado a respeito dos legados e heranças das mulheres, decerto responderia diversamente do
12º Célebre filósofo grego, nascido na Macedônia. Foi discípulo de Platão e mestre de Alexandre.
120 Filósofo estóico.
'*? Boi sagrado que os antigos egípcios consideravam como a expressão mais completa da divindade sob
a forma de animal.
132 Rei da Pérsia, filho de Dario.
1º Rei da Macedônia, pai de Alexandre.
“3* Filho de Filipe. A vida de Alexandre pode ser lida em Plutarco, Alexandre e César.
135 Rei do Egito.
DA REPÚBLICA | 177
que costumava responder na sua adolescência, quando ainda não se havia promulgado a lei
bocônia,'º* º que, atendendo só à utilidade e benéfício dos varões, está cheia de injustiças para
com as mulheres. Por que não há de ser a mulher capaz de possessão? Por que, se uma vestal
pode instituir herdeiro, não há de poder fazê- lo sua mãe? Por que, se era necessário fixar limites
à riqueza das mulheres, pôde a filha de Público Crasso,'º” sendo única, herdar milhões, sem
quebrar a lei, ao passo que a minha não pode herdar quantia muito menor?
VIII. — Se fosse inata a justiça, todos os homens sancionariam o nosso direito, que seria
igual para todos, e não utilizariam os beneficios de outros em outros tempos nem em outros paí-
ses. Pergunto, pois: se o homem justo e bom deve obedecer às leis, a quais deve obedecer? Não
será a todas sem distinção, porque a virtude não admite essa inconstância, nem a natureza essa
variedade, comprovando-se as leis com a pena e não com a nossa justiça. Não há direito natural
e, por conseguinte, não há justos por natureza. Direis, talvez, que, se as leis mudam, todo cidadão
verdadeiramente virtuoso nem por isso deve deixar de seguir e observar as regras da eterna justi-
ça, em lugar das de uma justiça convencional, posto que dar a cada um seu direito é próprio do
homem bom e justo. Mas, quais são, então, os nossos deveres S para com os animais? Não varões
vulgares, mas doutos e esclarecidos, Pitágoras e Empédocles, 'ºº proclamam um direito universal
para todos os seres vivos, ameaçando com terríveis penas aquele que se atrever a violar o direito
de um animal qualquer. Prejudicar os animais é, pois, um crime.
— Como Alexandre perguntasse a um pirata com que direito infestava o mar com seu
barco: “Com o mesmo”, respondeu-lhe, “com que tu infestas e devastas o mundo”.
IX. — Perguntai a todos; a prudência prescreve que aumentemos nosso poder e ampliemos
os nossos territórios, para chegarmos aos fins que nos propomos, De que modo Alexandre, esse
grande conquistador, que estendeu seu império na Ásia, teria podido, sem violar o território
alheio, propagar seu império e entregar-se à voluptuosidade da dominação, da ambição e do orgu-
lho? A justiça, pelo contrário, nos prescreve o respeito aos direitos privados, nos manda consultar
o interesse do gênero humano, dar a cada um seu direito, não tocar nas coisas sagradas, nem pú-
blicas, nem alheias. Que acontece então? Riquezas, crédito, grandeza, autoridade, império, são
patrimônio dos particulares e dos povos, se escutas a prudência. Mas, posto que falamos da Repú-
blica, os exemplos públicos nos serão de mais utilidade; e, já que os princípios de direito são idên-
ticos para as nações e para os indivíduos, julgo preferível dizer alguma coisa da marcha política
de um povo. E, sem falar de outros, do nosso, cuja vida, desde o berço, Cipião seguiu ontem no
seu discurso, e cujo império se estende hoje pelo mundo inteiro: foi por meio da justiça e com uma
política prudente que, do povo mais insignificante, chegou a ser O povo rei?
X. — Todos os que usurpam o direito de vida e morte sobre o povo são tiranos; preferem,
porém, chamar-se com o nome de reis, reservado a Júpiter Ótimo.
— Quando as riquezas ou O nascimento, ou qualquer coisa parecida, fazem predominar na
República alguns homens, embora pretendam chamar-se aristocratas, não passam de facciosos.
Quando o povo pode mais e rege tudo ao seu arbítrio, cnama-se a isso liberdade; mas é, na verda-
de, licença. Quando um teme o outro, o homem ao homem, a classe à classe, forma-se entre o
povo e os grandes, em consegiência desse temor geral, uma aliança de que resulta o gênero de
governo misto, que ontem Cipião tanto elogiava. A justiça não é filha da natureza, nem da vonta-
de, mas de nossa fraqueza. Se fosse preciso escolher entre três coisas, cometer injustiças sem
sofrê-las, cometê-las e sofrê-las, ou evitar ambas, o melhor seria cometê-las impunemente; se fosse
possível, portanto, não fazê-las e não sofrê-las, ao passo que o estado mais miserável seria lutar
sempre, quer como opressor, quer como vítima...
XI. — Nenhum povo teria pátria se tivesse de devolver o que usurpou, exceto os árca-
des'?*º e os atenienses, que, temerosos, na minha opinião, de que chegue o dia dessa justiça,
supõem ter saído da terra, como os ratos da imundície dos campos.
XII. — Une-se a esses argumentos a opinião de certos filósofos, tanto mais digna de se
levar em conta quanto nesta matéria, em que procuramos o homem de bem, o varão reto e since-
ro, não empregam na controvérsia nem suscetibilidade nem astúcias. Negam que o atrativo da vir-
tude consista, para o varão reto, no prazer pessoal que a bondade e a justiça lhe proporcionam,
'36 De Boco, rei da Mauritânia, que entregou aos romanos Jugurta, seu genro.
'37 Homem famoso por suas riquezas. Foi triúnviro com Pompeu e César.
138 Eilósofo e médico de Agrigento. Conta-se que se lançou na cratera do Etna para que não se achassem
os seus restos mortais e se Julgasse que tinha subido aos céus. Mas, devorado pelo vulcão, as suas sandálias
foram devolvidas, ficando assim desvendado o seu orgulhoso suicídio.
13º Povo de pastores que habitava a Arcádia, região montanhosa da velha Grécia.
178 CÍCERO
mas em que a vida do homem virtuoso transcorre sem cuidados, nem temores, nem perigos, ao
passo que os ímprobos albergam sempre em sua consciência algum escrúpulo, oferecendo-se sem-
pre, ante seus olhos, a afrontosa imagem dos processos e dos suplícios. Acrescente-se que não
pode haver benefício, por grande que seja, nem prêmio que proceda da injustiça, que valha a pena
recear sempre, esperar sempre o castigo que ameaça o injusto. N
XI. — Suponhamos dois homens: um, o melhor de todos, de suma equidade e justiça, e de
fé singular; outro, insigne na maldade e na audácia; suponha-se que uma cidade caiu no erro de
crer que o varão virtuoso era malvado, facinoroso e infame; que, pelo contrário, considere o ím-
probo como de suma probidade e fé; que, por essa opinião de todos os cidadãos, aquele varão vir-
tuoso seja insultado, encerrado, mutilado em mãos e pés, cegado, condenado, torturado, quei-
mado e proscrito; que morra de miséria, longe da pátria, e pareça, enfim, o mais infeliz dos
homens, assim como o mais miserável. Por outro lado, cerquemos o malvado de adulações, de
honras, do apreço geral; cumulemo-lo de dignidades, categorias, riquezas, e proclamemo-lo,
unanimemente, o mais virtuoso e o mais digno de prosperidade pelo julgamento comum. Quem
será tão demente que hesite na escolha da conduta de ambos?
“ XIV. — Nos povos, como nos indivíduos, não há cidade tão imbecil que não prefira impe-
rar com a injustiça, a cair pela justiça na servilidade. Não procurarei exemplo muito longe; eu era
cônsul, e vós fazíeis parte do meu conselho, quando tive de julgar o tratado numantino.! *º Quem
ignorava que Quinto Pompeu tinha assinado o tratado. e que se dava o mesmo com Mancino? ! *!
Homem virtuoso, aprovou este a lei que eu apresentei, depois de consultado o Senado; aquele
combateu-a, acérrimo. Se procurais pudor, honradez, boa-fé, procurai-a em Mancino; quanto à
sabedoria, em política, em prudência, quem poderá superar Pompeu?
XV. — Se um varão reto e honrado tem um escravo fugitivo, ou uma casa insalubre e pesti-
lenta, cujos vícios só ele conhece, e suponho que os taxe para vendê-los, dirá a todos os que quise-
rem ouvi-lo que vende um escravo fugitivo e uma casa pestilenta, ou o ocultará a quem tiver de
comprá-los? Se o declara, passará por honrado, e também por idiota; porque não os venderá, ou
os venderá por preço insignificante. Se o oculta, será prudente, porque prosperará nos negócios,
e também malvado, porque engana. Pelo contrário, se esse homem encontrar outro que venda
ouro julgando vender metal dourado ou prata, ou chumbo, avisá-lo-á para que aumente o preço?
Não passará isso de insigne tolice.
— Não há dúvida de que a justiça prescreve que não se mate o próximo, nem se toque no
que lhe pertence. Mas, que fará o justo que, no perigo de um naufrágio, vê agarrar-se a uma tábua
outro mais fraco do que ele? Expulsá-lo-á para salvar-se, mormente quando no meio do'mar nin-
guém pode presenciar tal fato? Fá-lo-á se proceder cordatamente, posto que pereceria se o não
fizesse. Se prefere morrer a prejudicar a outrem, será na verdade justo, mas estulto, pois dá sua
vida para conservar a alheia. Da mesma forma, se, fugindo diante do inimigo, vê um homem feri-
do montado num cavalo, deixá-lo-á nele para morrer às mãos do inimigo, ou o desmontará para
aproveitar-se desse meio de salvação? Será mau se o faz, mas prudente; insensato, se não o faz,
embora honrado.
XVI. Crprao: — Eu não insistiria, amigo Lélio, se os nossos amigos, assim como eu, não
desejassem ver-te tomar parte neste diálogo. Disseste, ontem, que teu discurso seria mais longo do
que o meu; mas, se isso não for possível, suplicamos- -te que nos digas alguma coisa.
LeLIO: — Essa tese de Carnéades não deve achar ouvidos na nossa juventude. Se sente o que
diz, é homem impuro, e, se não o sente, seu discurso não é menos digno de censura.
XVII. — A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, eter-
na, cuja voz ensina e prescreve o bem, afasta do mal que proíbe e, ora com seus mandados, ora
com suas proibições, jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente ante os maus. Essa
lei não pode ser contestada, nem derrogada em parte, nem anulada; não podemos ser isentos de
seu cumprimento pelo povo nem pelo-Senado; não há que procurar para ela outro comentador
nem intérprete; não é uma lei em Roma e outra em Atenas, uma antes e outra depois, mas una,
sempiterna e imutável, entre todos os povos e em todos os tempos; uno será sempre o seu impera-
dor e mestre, que é Deus, seu inventor, sancionador e publicador, não podendo o homem desco-
nhecê-la sem renegar-se a si mesmo, sem despojar-se do seu caráter humano e sem atrair sobre si
a mais cruel expiação, embora tenha conseguido evitar todos os outros suplícios.
14º De Numância, que foi destruída por Cipião Emiliano.
y E Ê A :
**1 Hostílio Mancino, cônsul romano, entregue aos numantinos por ter firmado com estes um tratado de
paz vergonhoso, que o povo não quis ratificar.
DA REPÚBLICA 179
XVII — A virtude quer a glória como único prêmio, e a quer sem amargura.
— Com que riquezas recompensarás o varão justo? Com que império? Com que reino?
Julga esses bens como humanos, e os seus como divinos. Porque, se a ingratidão do universo, ou
a inveja da multidão, ou inimigos poderosos, tiram à virtude seu prêmio, sempre desfruta ela de
inúmeros consolos, consolando-se, sobretudo, com a própria beleza.
XIX. — Ao voltar Tibério Graco da Ásia, perseverou na justiça para com os seus concida-
dãos; não respeitou, porém, os direitos nem os tratados concedidos aos aliados e aos latinos. Se
esse procedimento se repetir, se essa licença for mais longe e arruinar os nossos direitos para
substituí-los pela violência; se um dia os que nos obedecem ainda pela afeição só puderem ser
contidos pelo terror, receio muito, não por mim, pois em minha idade já não tenho muitos dias
para oferecer ao nosso país, mas por nossos filhos e pela imortalidade de nosso império, imortali-
dade que nos foi assegurada pelas instituições e costumes de nossos pais.
XX. Tendo Lélio dito isso, todos lhe manifestaram o prazer que sentiram ao ouvi-lo. Cipião,
mais contente e comovido do que os outros:
— De tal modo, Lélio, defendeste essa tese — disse-lhe —, que me atrevo a comparar-te
com o nosso colega Sérvio Galba, ! *? o qual, em vida, sobrepujava a todos os oradores.
XXI. — Quem podia chamar República — continuou Cipião — ao Estado em que todos
estavam oprimidos pela crueldade de um? Não havia vínculos de direito, nem consentimento na
sociedade, que é o que constituía o povo. O mesmo aconteceu em Siracusa. Aquela cidade precla-
ra, que Timeu dizia ser a maior das gregas, e por sua formosura a todas preferível, não chegou a
ser uma República sob a dominação de Dionísio, apesar das suas muralhas, dos seus portos
banhando a cidade, das suas largas ruas, dos seus templos e dos seus pórticos. Nada de tudo isso
era do povo nem para o povo. Posto que, onde está o tirano, não só é viciosa a organização, como
ontem eu disse, como também se pode afirmar que não existe espécie alguma de República.
XXII. LéLIO: — Falas admiravelmente, e já adivinho o objeto que se propõe teu discurso.
CrpiaoO: — Vês, pois, que, onde tudo está sob o poder de uma facção, não se pode dizer que
existe República.
LELIO: — Assim o julgo, francamente.
Crriao: — E julgas bem. Que foi de Atenas quando , depois daquela grande guerra do Pelo-
poneso, se lhe impuseram tantos chefes pela força? A vetusta glória da cidade, o pomposo aspecto
dos seus edifícios, o seu teatro, os seus ginásios, os seus pórticos, os mosaicos célebres dos seus
pavimentos, a sua cidadela, as obras de Fídias,' *?* o magnífico porto do Pireu, bastavam para
fazer de Atenas uma República?
LéELIO: — Não, certamente, porque nada, ali, era do povo.
CirpiaO: — E quando os decênviros em Roma, mandando sem apelação, chegaram a ferir a
liberdade de morte?
LELIO: — A coisa do povo já não existia, e breve este lutou para recuperá-la.
XXIII. Crrião: — Chego, enfim, a tratar da terceira forma de governo, em que talvez encon-
tremos, também, não poucas dificuldades. Quando todo o poder está em mãos do povo, Senhor
único; quando a multidão, inapelável, soberana, fere, mata, aprisiona, confisca os bens a seu
talante, podes, Lélio, negar que exista uma República, posto que queremos que a República seja
“coisa do povo?
LELIO: — A nenhum Estado negarei tanto esse nome como àquele em que tudo estã sob o
poder da multidão. Negamos o nome de República a Siracusa, a Agrigento, a Atenas, quando dos
tiranos, e a Roma, quando dos decênviros; não creio que corresponda mais o nome de República
ao despotismo da multidão, porque o povo não está para mim, como tu ontem, Cipião, disseste
muito bem, senão onde existe o consentimento pleno de direito, sendo esse conjunto de homens
tão tirano como se fosse um só e tanto mais digno de ódio quanto nada há de mais feroz do que
essa terrivel fera que toma o nome e imita a forma do povo. Se as nossas leis privam dos seus bens
os inserisatos, como deixá-los de posse do poder?
XXIV. — Não se pode dizer da aristocracia o que nesse ponto dissemos da monarquia.
Mumio: — E também muito mais. Um poder que se não há de dividir expõe, com efeito, os
reis a parecerem déspotas; ao passo que a administração de muitos homens virtuosos faz com que
não seja fácil encontrar um estado melhor. Prefiro, entretanto, a monarquia à dominação do povo
inteiramente livre, terceiro sistema, e o mais defeituoso, de que ainda te falta falar.
142 Célebre orador do tempo da República.
"4º O mais ilustre escultor da Antiguidade, nascido em Atenas.
180 CÍCERO. |
XXV. CrpiaO: — Reconheço, Espúrio, tua aversão ao sistema popular, e, mesmo que pudes-
se ser tratado com mais lenidade do que a que costumas usar, concedo, r1ão obstante, que, dos três.
gêneros, é esse o menos digno de aprovação. Mas não estou de acordo contigo em preferir ao rei
os aristocratas; porque, se é a sabedoria que há de governar a República, que importa que resida
num ou em muitos? Mas as próprias palavras nos fazem cair no erro. Quando falamos de aristo-
cracia, pensamos no governo dos otimates. Mas, quando fazemos menção de um rei, ocorre-nos
o qualificativo de injusto. No entanto, não pensamos na injustiça ao falarmos do governo monár-
quico. Pensa em Rômulo, em Pompílio ou em Túlio Hostílio, e talvez, então, se torne menor tua
severidade.
| Mvio: — Que achas, pois, digno de elogio na constituição democrática?
CiPIAO: — Parece-te democrática, Espúrio, a constituição de Rodes?
MuMio: — Sim, na verdade, e pouco digna de vitupério.
Ciriao: — Dizes bem; e, se te lembras de quando estiveste lá comigo, verás que todos, ali,
tão depressa pertenciam à plebe como ao Senado, cumprindo ora os deveres populares, ora os
senatoriais. Por ambos os conceitos, recebiam seus direitos, e tanto no teatro como nos comícios
tomavam conhecimento de todos os assuntos, desde os de maior importância até os mais
insignificantes.
Livro QUARTO
I. CrriAO: — Foi acertada a divisão por ordens, idades e classes; na dos cavaleiros, exer-
ciam os senadores seu sufrágio, não sem que se quisesse destruir por muitos, nesciamente, essa
ordem de cavalaria.
H. — Considerai agora, além disso, de que modo se procurou assegurar aos cidadãos uma
vida pura e honesta na sociedade, vida que é sua primeira causa, e que os indivíduos da República
devem esperar das instituições e das leis. Pelo que se refere ao princípio de educação das crianças
de condição livre, em que tantas vezes se frustraram os trabalhos assíduos dos gregos, e ponto em
que o nosso hóspede Políbio acusa as nossas instituições de negligência, não se quis que se fixasse
pelas leis, nem que fosse público o ensino, nem que para todos fosse o mesmo.
DI. — Nossos antigos costumes proibiam que os púberes se despissem no banho. Desse
modo, procuravam afirmar as raízes do pudor. Em compensação, entre os gregos, que exercícios
tão aburdos os de seus ginásios, que ridícula preparação para Os trabalhos da guerra, que lutas e
que amores tão livres e dissolutos! Passo por alto Eléia e Tebas, onde era autorizada a mais libi-
dinosa e absoluta licença. Os próprios lacedemônios, concedendo tudo nos amores da juventude,
exceto o estupro, levantaram apenas uma débil muralha entre o que toleravam e o que proibiam;
permitir reuniões noturnas e todo gênero de excessos era querer deter um rebanho com um lenço.
LeLIO: — Vejo claramente, Cipião, nessa crítica dos costumes gregos, que preferes falar dos
povos de mais fama a lutar com Platão, ao qual não aludes.
IV. — Jamais a comédia, se não a tivessem autorizado os costumes públicos, teria podido
apresentar no teatro tão vergonhosas infâmias. Os gregos, mais antigos nos seus vícios, permitiam
que se dissesse no teatro tudo quanto se quisesse, como se quisesse, sem respeitar os nomes
próprios.
— À quem não aludiu a comédia? Ou antes, a quem não deixou de aludir? A quem per-
doou? Pode permitir-se que fustigasse homens populares na República, como ímprobos e sedicio-
sos: Cléon,'** Cleofonte,! **º Hipérbolo. ! * 8 Pode imaginar-se que, para essa gente, mais eficaz
do que a alusão do poeta fosse a censura dos seus cidadãos. Mas, ultrajar, em verso e em cena,
Péricles, que, durante tantos anos, na paz como na guerra, com um crédito tão legitimo, regeu os
destinos de sua pátria, é menos tolerável do que se. entre nós, ultrajasse Plauto! *” a Névio, ou a
Cipião, a Catão, e a Cecílio. ! **
— Nossas leis das Doze Tábuas, tão parcas em impor a pena capital, castigavam com essa
pena o autor ou o recitador de versos que atraísse sobre outrem a infâmia. Essa disposição foi
sábia, porque devemos submeter nossa vida às decisões legítimas dos juízes e dos magistrados, €
não ao engenho dos poetas; e não devemos ouvir censuras senão onde a resposta é lícita e nos
possamos defender judicialmente.
1** Demagogo ateniense, a quem Aristófanes faz várias alusões cômicas.
145 Filósofo e demagogo ateniense.
148 Orador ateniense.
14? Poeta cômico latino.
148 Idem.
LivrO QUINTO
I. “Se Roma existe, é por seus homens e seus hábitos. ”! *º
— A brevidade e a verdade desse verso fazem com que seja, para mim, um verdadeiro orá-
culo. Com efeito: sem nossas instituições antigas, sem nossas tradições venerandas, sem nossos
singulares heróis, teria sido impossível aos mais ilustres cidadãos fundar e manter, durante tão
longo tempo, o império de nossa República. Assim, antes da nossa êpoca, vemos a força dos cos-
tumes elevar varões insignes, que por sua parte procuravam perpetuar as tradições dos seus ante-
passados. Nossa idade, pelo contrário, depois de ter recebido a República como uma pintura
insigne, em que o tempo começara a apagar as cores, não só não cuidou de restaurá-la, dando
novo brilho às antigas cores, como nem mesmo se ocupou em conservar pelo menos o desenho e
os últimos contornos. Que resta daqueles costumes antigos, dos quais se disse terem sido a glória
romana? O pó do esquecimento que os cobre impede, não já que sejam seguidos, mas conhecidos.
Que direi dos homens? Sua penúria arruinou os costumes; é esse um mal cuja explicação foge ao
alcance da nossa inteligência, mas pelo qual somos responsáveis como por um crime capital. Nos-
sos vícios, e não outra causa, fizeram que, conservando o nome de República, a tenhamos já per-
dido por completo.
IH. — Nada havia tão real como a explanação da eguidade, na qual se compreendia a inter-
pretação do direito; porque costumavam os gregos submeter à decisão dos reis a interpretação do
direito privado. Por isso, as terras, os campos, os pastos e os bosques se reservavam aos reis,
como bens da coroa, para que o cuidado dos seus interesses pessoais não pudesse distraí-los dos
assuntos públicos. Nenhum particular podia constituir-se em juiz ou árbitro de um litígio; porque
tudo isso era reservado e conferido ao poder real. Julgo que, entre nós, foi Numa quem conservou
mais esses velhos costumes dos reis da Grécia, pois os outros, se bem que tivessem posto algum
cuidado nisso, tomaram maior parte na guerra, cultivando principalmente esse direito. E, no
entanto, aquela trangiila e longa paz de Numa gerou em Roma o direito e a religião. E, desse
modo, escreveu ele aquelas leis que hoje subsistem, e, ao fazê-lo, fez algo próprio do cidadão mo-
delo de que falamos.
II. Crpiso: — Será possível que te admires de que um agricultor conheça as raízes e as
sementes?
MANILIO: — Não, por certo, se a obra se realiza.
CipiAO: — Julgas, pois, que é próprio do agricultor esse estudo?
MANÍLIO: — Sim, se cuida do cultivo dos campos.
CiriAO: — Pois bem: assim como o agricultor conhece a natureza do terreno e assim como
um escritor sabe escrever, procurando ambos, na sua ciência, antes a utilidade do que o deleite,
assim também o homem de Estado pode estudar o direito, conhecer as leis, beber nas suas pró-
prias fontes, sob a condição de que as suas respostas, escritos e leituras o ajudem a administrar
retamente a República. Certamente, deve conhecer o direito civil e natural, sem cujo conheci-
mento não pode ser justo. Mas deve ocupar-se com tais coisas como o piloto se ocupa com a
astronomia, e o médico com as ciências naturais, referindo esses estudos à prática de sua profis-
são, aproveitando-se deles no que lhe possam ser úteis e sem se separar do verdadeiro caminho
que empreendeu.
IV. — Nessas cidades, os melhores fogem da ignomínia e do menosprezo, procurando a es-
tima e o elogio de seus concidadãos. Na verdade, não os aterram menos as penas mais cruéis,
14º Moribus antiquis res stat romana virisque (verso de Ênio).
184 CÍCERO
consignadas nas leis, do que a desonra que repugna à natureza do hornem e faz brotar nela um
temor espontâneo. O político hábil procura fortificar esse instinto com a opinião, com as institui-
ções, com os costumes, para que a consciência do dever seja, antes que o temor, um poderoso
freio. Isso, porém, não se prende ao assunto, senão no que se refere à glória, da qual tivemos oca-
sião de tratar mais amplamente.
V. — Quanto ao que se relaciona com a vida privada, nada há ce mais útil e necessário à
vida e aos costumes do que o matrimônio legal, os filhos legítimos, o culto do lar doméstico, para
que todos tenham assegurado seu bem-estar pessoal no meio da felicidade comum. Em suma, não
há felicidade sem uma boa constituição política; nao há paz, não há felicidade possível, sem uma
sábia e bem organizada República.
LIVRO SEXTO
IL — Se bem que a melhor recompensa de' sua virtude sem mácula seja, para Os sábios,
a consciência plena de suas boas ações, e se bem que essa virtude divina não deseje estátuas
sustentadas por um pouco de chumbo, nem coroas de lauréis efêmeros, aspira, no entanto, a um
gênero de recompensa mais estável e de esplendor mais permanente.
Letio: — Qualéa recompensa?
CIPIAO: — Posto que já estamos no terceiro dia feriado, permiti-me que vos dirija a palavra
pela última vez.
II. — Quando tribuno da quarta legião, como sabeis, cheguei à África, no Consulado de
Manílio, a primeira coisa que fiz foi visitar o rei Masinissa, ' ºº cuja família estava unida à minha
por uma sincera e estreita amizade. Uma vez na sua presença, o velho, abraçando- me, derramou
algumas lágrimas, ergueu os olhos para o céu, e disse: “Graças ao sol, e a vós todas, deidades
celestes, por me haverdes deixado ver, antes de abandonar a vida em meu reino e sob este teto, Pú-
blio Cornélio Cipião, cujo nome é o bastante para me despertar alegria, recordando em minha
alma o varão invicto de virtudes memoráveis”. Interroguei-o sobre o seu reino, e ele a mim sobre
a nossa República, consagrando ambos o dia à satisfação da nossa mútua curiosidade.
HI. — Depois de um régio banquete, continuamos conversando a noite toda, sem que aque-
Je ancião falasse de outra coisa a não ser de Cipião, o Africano, de quem recordava não só os fei-
tos mas também as frases que havia ouvido. Por fim, quando nos retiramos para os nossos quar-
tos, achei-me tão fatigado da viagem e de ter velado a noite toda, que caí logo num sono muito
mais profundo do que o que de ordinário costumava desfrutar. Então (talvez pela impressão do
que tínhamos conversado, porque é frequente que os pensamentos e as palavras da vigília produ-
.zam durante o sono efeito análogo ao que de Homero escreve Ênio, que com fregiiência costu-
“mava falar e pensar nele) Africano se me apresentou sob aquela forma que eu conservava na
minha imaginação, mais por ter visto seu retrato do que sua própria figura. Quando o vi, comecei
a tremer. Mas ele: — Serena teu ânimo, Cipião — disse-me — e grava na mente minhas palavras.
IV. — Vês aquela cidade, que, obrigada por mim a sofrer o jugo romano, renova a guerra
primitiva e se sente incapaz de aquietar-se? — Mostrava-me Cartago de um lugar excelso, cheio
da luz que derramavam sobre ele as fulgentes estrelas. — Vês aquela cidade que vens combater
agora como simples soldado? Antes de dois anos, serás cônsul para destruí-la, e o nome que tens
por minha herança conquistarás por ti mesmo. Quando tiveres destruído Cartago e quando, de-
pois do teu triunfo, tiveres sido censor e legado no Egito, na Síria, na Ásia, na Grécia, serás
nomeado, ausente, novo cônsul, e darás fim à maior das nossas guerras, reduzindo Numância a
“cinzas. Mas, depois que tiveres subido ao Capitólio, levando nas rodas de teu carro a vitória
escrava, serás vítima da perturbação que meu neto, com seu conselho, terá produzido na
república.
V. — Então, Cipião, será preciso esgotar, em proveito da pátria, todos os recursos do teu
valor, do teu gênio, da tua sabedoria, porque, nesta época, vejo quase incerto o roteiro do destino.
Quando tua vida mortal, por oito vezes, tenha visto passar sete revoluções do sol; quando esses
dois números, ambos perfeitos, cada um por diferente causa, tenham formado para ti, na sua natu-
ral evolução, a cifra fatal, para ti e para teu nome dirigirá os olhares a cidade inteira, para tio
Senado, para ti os bons cidadões, para ti os aliados, para ti os latinos voltarão seus olhos; só em
ti descansará a salvação da pátria; e ditador, enfim, serás o destinado a organizar a nova Repú-
150 Rei da Numídia, aliado dos romanos.
186 CÍCERO.
blica, se conseguires escapar das mãos ímpias dos teus parentes. — Lélio e todos os que ouviram
Cipião lançaram um grito de horror. Ouvindo-o, disse o Africano: — Não perturbeis o meu
sonho; continuai a ouvir tranquilos o que segue. ds
VI. — Para inspirar-te maior alento, oh, Africano!, na defesa da República, deves saber
que todos os que socorrem, salvam ou engrandecem a pátria têm no céu um lugar marcado e
certo, no qual desfrutarão felicidade e beatitude sempiternas; porque nada é mais grato a Deus, a
esse Deus que a todos governa, do que essas sociedades de homens formadas sob o império do
direito, que se chamam Estados, cujos legisladores, como os que as governam e conservam, par-
tem daquele lugar a que hão de voltar um dia mais próximo ou remoto.
. VII. — Então, apesar da perturbação de que me achava possuído, menos pelo receio à
morte do que pelo horror à traição dos meus, perguntei-lhe se ele e meu pai ainda viviam, assim
como a todos os que julgávamos mortos: — Dize antes — respondeu — que vivem só aqueles
que os vínculos do corpo conseguiram romper como as grades de uma prisão; verdadeiramente,
“não passa de morte o que chamais de vida. Como prova, olha teu pai Paulo, que para ti vem. —
Ao vê-lo brotou-me dos olhos um caudal de lágrimas; ele, porém. com abraços e ósculos de amor,
impediu que eu chorasse.
VIH. — Quando, por fim, consegui secar os olhos e recobrei a fala, exclamei: — Dize-me,
é melhor e mais santo dos pais, se é esta a vida, conforme assegura Africano, por que é a terra
minha morada e a vosso lado não me é lícito ir? — Não será assim — respondeu — quando
Deus, cujo templo é tudo o que tua vista alcança, te livrar da escravidão do corpo e abrir para ti
esta morada celeste. Porque os homens foram gerados com uma lei que hão de cumprir: a de cui-
dar daquele globo que vês no meio deste templo e que se chama terra; foi sob essa condição que
sua alma foi tirada destes fogos eternos que chamais de astros e constelações móveis; animados
por inteligências divinas, os círculos e órbitas dessas esferas percorrem-nas com incrível celeri-
dade. Eis por que tu, Públio, e todos os homens piedosos estais sujeitos à tirania do corpo, sem
poderdes abandonar o sítio que vos foi indicado, nem deixar a vida sem serdes desertores da tare-
fa indicada por Deus. Assim, Cipião, como teu avô, e eu, que te gerei, cultiva em tua alma a justi-
ça e a piedade, que devem ser grandes para com os parentes e os amigos, e mais sagradas ainda
para com a pátria. Esse e não outro é o caminho das mansões celestiais, em que os que já viveram,
livres de todo laço e ligação, vêem girar os mundos e passar os séculos num eterno dia sem
crepúsculo.
IX. — Mostrava-me, então, o esplendoroso círculo que brilhava com luz deslumbrante no
meio dos fogos celestiais que chamais de Via Láctea por tê-lo aprendido dos gregos; e meus olhos
contemplaram surpreendentes maravilhas. Eram aquelas as pedras siderais, que nunca pudemos
contemplar da terra, cujas magnitudes nunca pudemos conceber; à menor era a que, com luz
alheia, brilhava mais longe do céu e perto da terra. Aqueles globos estrelados superavam a terra
imensamente em magnitude. Nossa morada terrestre me fez sentir vergonha, por sua pequenez, do
nosso império, que ocupava no espaço ilimitado um ponto apenas perceptível.
X. — A voz do Africano me tirou do meu êxtase, ressoando augusta: — Até quando —
disse — teu olhar na terra permanecerá absorto? Não vês esses santuários? Estão diante de ti
nove globos, ou antes, nove esferas, que compõem enlaçadas o Universo, e o que ocupa um lugar
excelso nas alturas, o mais longínquo, o que dirige, contém e abraça todos os outros, é o próprio
Deus soberano, no qual se fixam, em seu movimento, todos os astros seguindo o seu curso sempi-
temo; mais abaixo, resplandecem sete estrelas impelidas num curso retrógrado, em oposição ao
movimento dos céus. Uma dessas pedras miliárias é chamada Saturno na Terra; propício e saudá-
vel ao gênero humano é aquele fogo que se chama Júpiter; mais além está Marte, horrível e san-
grento para a Terra; perto, no centro dessa esplendente região, ergue-se o Sol, príncipe moderador
das outras luminárias, alma e princípio regulador do mundo, que Com sua luz fulgente completa
e ilustra tanta magnitude e tanta grandeza. Atrás deles, qual cortejo brilhante, seguem seu curso
Vênus e Mercúrio, e, por fim, banhada pelos raios solares, em último lugar, com majestade serena,
roda a Lua. Mais abaixo, nada é senão mortal e caduco, exceto as almas, que os homens devem
à munificência dos deuses; sobre a Lua, tudo é eterno. A Terra, por sua parte, nona esfera, colo-
cada na região central do mundo e do céu a mais distante, ínfima e imóvel, sente o peso de todos
os astros que sobre ela gravitam.
XI. — Quando, por fim, sacudi o letárgico estupor que tal espetáculo me produziu, pergun-
tei: — Que som doce e intenso é esse que chega aos meus ouvidos?
— É a harmonia que, a intervalos desiguais, mas sabiamente tonibinados, produz a impuil-
são e o movimento das esferas em que, misturando-se os tons agudos com os graves, se produzem
acordes e diversos conceitos; não se pode realizar em silêncio tamanho movimento, e a natitera
I
DA REPÚBLICA 187
quis que, quando as notas agudas vibram num lado, as graves ressoem em outro. Por esse motivo,
o primeiro mundo sideral, mais rápido na sua evolução, produz um ruído precipitado e estridente,
ao passo que a Lua, com seu curso inferior, produz um som grave e lento; a Terra, nono globo,
fica imutável e muda no centro do Universo, na região mais baixa, eternamente fixa. Assim, pois,
esses oito astros, dois dos quais são tão parecidos, Vênus e Mercúrio, produzem sete sons separa-
dos por iguais intervalos, e esse número sete é quase sempre o nó de todas as coisas. Os homens
inspirados, que, com instrumentos diversos ou com a voz, imitam esses cantos abrem caminho e
procuram ingresso neste sítio, do mesmo modo que os outros, que, mediante seu engenho na vida
humana, cultivaram os estudos divinos. Essa harmonia, ressoando nos ouvidos dos homens,
ensurdeceu-os sem que chegassem a compreendê-la, e vós, por outra parte, tendes esse sentido
pouco desenvolvido. Assim como o Nilo, nos lugares chamados cataratas, se precipita de montes
altíssimos e ensurdece as pessoas que se encontram perto daquele lugar com o ruído estridente
com que se despenha, assim também não podeis escutar a prodigiosa harmonia do Universo intei-
ro no seu giro rápido, e não podeis contemplar o Sol de frente, sem que seu esplendor deslumbre
vossa vista. — Absorto com o que escutava, eu não deixava, por isso, de voltar os olhos com
fregiiência para a Terra, que se me apresentava ao longe como um ponto.
XII. — Então, disse o Africano: — Vejo que contemplas, agora, a morada do homem; se
te parece pequena, como é realmente, desdenha as coisas humanas e volve teus olhos para o céu.
Dize-me que fama, que celebridade, que glória entre os homens esperas conseguir. A Terra só é
habitada em alguns pontos longínquos, e esses pontos, incômodos e angustos, estão separados por
imensas solidões. Os povos não só estão separados até o extremo de não se poderem comunicar
uns com os outros, como também, separados de vós e em outro hemisfério, não podeis, às vezes,
esperar deles glória alguma.
-— XIHI — Contempla essas faixas que, como cingidouros, circundam a Terra; duas dessas
faixas, diversas entre si, se apóiam em diferentes pólos do céu, achando-se cobertas pelo gelo e a
nevê de um inverno perpétuo e cruel; em compensação, a que está no centro é maior e arde ao
fogo do sol. Duas são as faixas ou zonas habitáveis: a austral, cujos habitantes são, por sua posi-
ção, opostos a vós, e tão estranhos que parecem não ser de vossa raça; essa outra parte, por vós
habitada, estreita nos vêrtices e ampla no centro, não é mais do que uma diminuta ilha, rodeada
pelo mar a que na terra chamais Grande Oceano Atlântico, tão pequeno como vês, apesar de
tanto nome. Mas, no centro mesmo dessas terras conhecidas e habitadas, conseguiu o teu nome ou
de algum dos nossos compatriotas transpor os cumes do Cáucaso ou as ribeiras do Ganges?
Quem no extremo Oriente, ou nos confins de norte a sul do Ocidente, ouvirá pronunciar o teu
nome? E, sobretudo, repara como é estreita a esfera em que vossa efêmera glória quer dilatar-se.
Mesmo os que falam de vós, falarão muito tempo?
XIV. — Supondo mesmo que as futuras gerações, recebendo dos seus avós a fama de cada
um de nós, ponham um cuidado extraordinário em transmiti-la, as inundações e os incêndios,
inevitáveis na Terra em determinadas épocas, impediriam que adquirissemos uma glória, não já
eterna, mas perecedora. Que interesse tens, por outra parte, em seres nomeado pelos que hão de
nascer depois de tua morte, sem que tenhas sido pelos que nascerem antes, varões que não foram
menos, mas decerto melhores?
XV. — Supondo mesmo que o vosso nome chegasse àqueles que podem ouvi-lo, nenhum
poderia guardar a memória de um ano; porque, se, conforme os cálculos vulgares, se mede o ano
pela revolução de um só astro, o Sol, para medir um ano verdadeiro seria preciso esperar a volta
de todos os astros ao ponto primitivo de onde partiram para percorrer suas órbitas depois de lon-
gos intervalos; só então se poderá dizer que transcorreu um ano, o qual compreenderá certamente
mais séculos do que conta o homem. Pareceu, outrora, que o Sol se extinguia e eclipsava à vista
dos homens, quando a alma de Rômulo penetrou neste mesmo templo; assim, quando na mesma
parte o próprio Sol se eclipsar de novo, quando os astros voltarem ao mesmo signo e ocuparem
o mesmo lugar que então ocupavam, terá transcorrido esse ano; hoje ainda não transcorreu a
vigésima parte.
XVI. — Se chegasses, pois, a desesperar de voltar para este sítio, em que estão as almas de
todos os grandes e insignes varões, que seria para ti essa glória humana, que só uma exígua parte
do ano pode durar? Assim, pois, se quiseres fixar teus olhares na altura e no interior deste eterno
santuário, desdenha as palavras do vulgo, deixa de estar dependente delas e de esperar recom-
pensas aos teus atos humanos, e procura fazer que só o atrativo da virtude te conduza à verda-
deira glória. Julguem os homens e falem de ti como lhes aprouver: suas palavras não transporão
as estreitas regiões terrestres que vês, nem se renovará o seu eco; morrerá com uma geração,
extinguindo-se no esquecimento da posteridade.
188 CÍCERO
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!
XVII. — Depois que ele disse isso: — Oh! Africano — prorrompi —, se os que bem mere-
cem da pátria encontram abertas as portas da verdadeira glória, eu, que desde a minha infância
segui as pegadas de meu pai e as tuas, para tornar-me digno do vosso nome, serei muito mais cui-
dadoso nesse propósito, com a esperança de tão alta recompensa !
— Luta sem descanso para consegui-la — respondeu-me — e fica sabendo que não és mor-
tal, mas teu corpo, porque não és o que pareces por sua forma. O homem está na alma, e não
naquela figura que com o dedo se pode mostrar. Fica, pois, sabendo que é Deus, se Deus é quem
pensa, quem sente, quem recorda, quem provê, quem rege, modera e move o corpo, de que é dono
como Deus do mundo, quem, como eterno Deus soberano, move o Universo e seu corpo mortal.
com as energias de seu espírito.
XVII. — Eterno é o que sempre se move, mas o ser que recebe o movimento de outro e
não faz senão transmiti-lo, é necessário que deixe de viver, uma vez que cessa o movimento que
se lhe comunica. Só existe, pois, um ser que se move por si mesmo, que nunca cessará seu movi-
mento, porque nunca se cansa. Todas as outras coisas que se movem acham nele o princípio do
seu movimento. Mas todo princípio carece de origem, posto que tudo nasce dele; não pode nascer
ele de coisa alguma, porque, se de alguma nascesse, não seria princípio; e, se nunca começa,
nunca acaba. Porque, extinto um princípio, não poderia renascer de outro, nem criá-lo de si, se do
princípio há de emanar forçosamente. Por isso, no ser que se move por si mesmo, está o princípio
do movimento; nesse ser que não pode ter nascimento nem morte sem que o céu se destrua e fique
imóvel toda a natureza, sem força nova que a movesse ao primeiro impulso.
XIX. — Uma vez afirmada e demonstrada a eternidade do ser que se move por si mesmo,
quem pode negar que a imortalidade é atributo da alma humana? Tudo o que recebe impulso
externo é inanimado; todo ser animado deve ter, pelo contrário, um movimento interior e próprio;
esta é, pois, a natureza e a força da alma. Com efeito, se somente ela, em todo o Universo, se
move por si só, é certo que não teve nascimento e que é eterna. Exercita-a, pois, nas coisas melho-
res, e fica sabendo que nada há de melhor do que o que tende a assegurar o bem-estar da pátria;
agitado e exercitado o espírito nessas coisas, voará veloz para este santuário, que deve ser e foi
sua residência, e ainda virá mais depressa se, em sublimes meditações, contemplando o bom e o
belo, romper a prisão material que o prende. As almas dos que, abandonados aos prazeres volup-
tuosos e corporais, foram, na vida, servos de suas paixões e, obedientes ao impulso de sua volup-
tuosidade libidinosa, violaram as leis divinas e humanas, vagam errantes, uma vez quebrada a pri-
são dos seus corpos, ao redor da Terra, e, só depois da agitação de muitos séculos, tornam a
entrar nestes lugares.
— À visão desapareceu, então, e eu despertei.
LÚCIO ANEU SÊNECA
CONSOLAÇÃO A
MINHA MÃE HÉLVIA
“DA TRANQUILIDADE
DA ALMA
MEDÉIA
APOCOLO QUINTOSE DO
DIVINO CLÁUDIO
Tradução e notas de GIULIO DAVIDE LEONI
I — 1. Muitas vezes, minha boa mãe, estive a ponto de escrever-te para te consolar: sempre
me detive. Muitas considerações levaram-me a ousar: principalmente, pensava que teria esquecido
todas as minhas preocupações, se tivesse conseguido secar por um pouco tuas lágrimas, embora
não podendo enxugá-las por completo; além disso, tinha certeza de que, se conseguisse confortar
antes a mim mesmo, minha tentativa de tirar-te.da prostração teria sido mais eficaz; enfim, temia
que a sorte, sobre a qual fui vitorioso, pudesse vencer algum dos meus queridos; de qualquer
maneira, pondo a mão sobre a minha chaga, era levado a querer curar vossas feridas. 2. Muitas
outras razões, de outro lado, afrouxavam esse meu propósito: compreendia que não devia afrontar
tua dor ainda recente e ardente, para evitar que os confortos a exasperassem e a aumentassem,
visto que também nas doenças nada há mais danoso que um remédio intempestivo. Esperava, por-
tanto, que a violência da dor se quebrasse, e que, mitigada pelo tempo a ponto de suportar os
remédios, permitisse ser tocada e observada. Mais ainda, conquanto folheasse todas as obras
compostas pelos mais ilustres gênios para acalmar ou pelo menos aliviar as dores, não encontrava
exemplo algum de alguém que tivesse consolado seus queridos enquanto ele mesmo era por eles
lastimado. De modo que a novidade do empreendimento me fazia hesitar e temer que essa não
fosse uma consolação, mas uma excitação à dor. 3. Que novas palavras, e não tiradas da usual
linguagem de todo dia, devia usar um homem que, já em cima da fogueira, levantava a cabeça
para consolar os entes queridos? Toda dor que passa os limites do suportável tira necessariamente
a faculdade de escolher as palavras, se amiúde sufoca também a voz. Procurarei, todavia, fazê-lo
como posso, não porque tenha confiança em minha capacidade, mas porque o fato de que o con-
solador seja eu mesmo poderá constituir a mais feliz das consolações. E confio que a mim, a quem
nunca negaste nada, agora não negarás, por muito obstinada que seja a tua aflição, que ponha um
limite a tuas lágrimas.
IH — 1. Olha quanta confiança tenho em teu afeto: tenho certeza de que serei mais forte do
que tua dor, sendo que nada é mais forte do que ela êntre os míseros. E para não a afrontar logo,
dela me aproximarei antes, e dentro porei tudo o que pode inflamá-la; observarei e reabrirei outra
vez todas as chagas já cicatrizadas. 2. Alguém dirá: “Que nova maneira de consolar é essa, lem-
brando os males esquecidos e pondo perante o cúmulo de todas as suas desventuras uma alma que
a muito custo consegue suportar só uma?” Mas reflita, esse alguém, que os males que chegaram
a esse ponto de gravidade, isto é, de piorar não obstante o remédio, curam-se geralmente com os
contrários. Antes de tudo pór-lhe-ei na-frente todos os seus lutos, todas as desventuras; e isto será
não um medicamento brando, mas uma cauterização e uma amputação. E que obterei? Que uma
alma, que venceu tantas misérias, enrubesça por não ter a força de suportar, sobre um corpo
coberto de cicatrizes, uma nova ferida. 3. Que chorem e se lastimem e se enfraqueçam, ao sopro
das mais leves contrariedades, as almas delicadas das pessoas que uma tranquilidade demasiada-
mente longa enervou; mas as pessoas que passaram toda a vida na desgraça devem suportar com
forte e imutável constância mesmo as dores mais graves. À perpétua infelicidade só tem isto de
bom: que endurece por fim os que incansavelmente persegue.
4. Descanso algum te concedeu a sorte, entre os mais graves lutos; e nem excetuou o dia de
teu nascimento. Assim que nasceste, ou melhor, enquanto nascias, perdeste tua mãe, e foste por
assim dizer abandonada à vida. Cresceste sob o jugo que uma madrasta, que todavia obrigaste,
com um respeito e um afeto que só se pode ver numa filha, a ser-te realmente mãe; mas não há
ninguém a quem uma madrasta mesmo ótima não tenha custado sempre demasiado cargo. Per-
deste, enquanto esperavas a sua chegada, um amorosíssimo tio, homem bom e forte; e, pois, que
a sorte temia apresentar-se muito pouco feroz, deixando-te um intervalo de repouso, tiveste que
194 SÊNECA |
sepultar no mesmo mês o marido bem-amado, que te tornara mãe de três filhos; e esse luto te foi
anunciado enquanto ainda choravas o outro, enquanto teus filhos estavam longe, como se teus
males tivessem sido recolhidos todos propositalmente naquela época para que não tivesses nada
sobre o que tua dor pudesse reclinar-se. 5. Não falo dos perigos contínuos e dos sustos, de que
sem interrupção sustentaste os assaltos. Faz pouco tempo que recolheste os ossos de três netos no
mesmo seio em que foram criados; e vinte dias depois de celebrar o enterro de meu filho, morto
entre teus braços e teus beijos, tiveste a notícia de meu exílio. Somente isso te faltava até agora:
chorar os vivos.
HI — 1. Sim, é verdade: essa recente ferida é a mais grave de quantas já desceram em teu
corpo, porque não esfolou somente a pele, mas penetrou profundamente em teu peito e até o cora-
ção. Mas como os recrutas gritam mesmo quando levemente feridos, e temem a mão do médico
mais do que as espadas, enquanto os veteranos, por muito profundos que sejam os golpes recebi-
dos, suportam pacientemente e sem queixas que seus corpos sejam limpos da podridão como se
fossem de outrem, assim tu agora deves submeter-te com firmeza à cura. 2. Longe de ti as lamú-
rias e os gemidos e as outras manifestações de dor feminina: mal empregadas foram tantas
desventuras, se ainda não aprendeste a ser desventurada.
Talvez pareça que te tratei com demasiada severidade, não tirando nenhum de teus males,
mas antes amontoando-os todos diante de ti?
IV — 1. A isso me induziu um fim magnânimo: isto é, estabeleci vencer tua dor, não iludi-
la. E vencê-la-ei, creio eu, se conseguir demonstrar antes de tudo que não sofro por uma razão a
respeito da qual eu poderia ser chamado mísero e por causa da qual os meus familiares poderiam
tornar-se míseros; depois demonstrarei, passando a ti, que nem tua sorte, que em tudo está unida
à minha, se pode chamar infeliz. 2. Começarei dizendo, como teu afeto materno almeja ouvir, que
eu não tenho mal algum. Se puder, demonstrar-te-ei como também as coisas que tu pensas que me
aniquilam com seu peso não são nem elas intoleráveis. Se, enfim, nisso não for possível acredita-
res, terei pelo menos o orgulho de estar contente nessas condições, que costumam tornar míseros
os homens. Não creias em outros, no que dizem a meu respeito: pessoalmente, para que não sejas
agitada por falsas opiniões, declaro-te que não sou em nada mísero; direi mais, para que tenhas
maior certeza: nunca poderei ser mísero.
V — 1. A natureza nos gerou em bom estado e nele estaríamos se dela não nos afastás-
semos. Ela fez com que não precisássemos de muitas coisas para viver prosperamente: cada um
pode por si tornar-se feliz. Pouca importância têm as coisas contingentes, tanto que não têm
poder, nem, se favoráveis, de ensoberbecer o sábio, nem, se contrárias, de abatê-lo: ele esforçou-se
sempre para pôr em si cada bem seu, para obter de si toda a sua alegria. 2. E com isso pensas tal-
vez que eu queria dizer que sou um sábio? Não, absolutamente; porque, se pudesse mesmo só afir-
má-lo, isso significaria que não só não seria infeliz, mas seria o mais felizardo de todos os homens
e quase um deus. Agora (e isso basta para suavizar qualquer miséria) me entreguei aos sábios, e,
ainda incapaz de defender-me por mim, encontrei em campo alheio o abrigo, que facilmente prote-
ge a si mesmo e aos seus. 3. Eles me aconselharam que ficasse sempre atento e observasse qual-
quer ataque, qualquer assalto da desgraça muito antes que me abatesse.
A desventura é grave para aqueles a quem chega inesperadamente; facilmente a suporta
quem sempre a espera. Assim, também o ataque de um exército inimigo dispersa os soldados
tomados de surpresa; mas se preparados para a guerra antes da guerra, ordenados e prontos repe-
lem a primeira investida, que é a mais furiosa. 4. Nunca me entreguei à sorte, mesmo quando
parecia que estivesse em paz comigo; todos os favores, dos quais muito generosamente me cerca-
va (riquezas, cargos, prestígio), coloquei-os em tal lugar de onde pudesse retomá-los, sem me
aborrecer. Deixei sempre grande distância entre mim e eles: tirou-me os favores, portanto, não
mos arrancou. A sorte contrária não diminui senão os homens que se deixaram enganar pela pros-
peridade. 5. Os homens que se agarram a seus presentes como a coisas das quais temos perpétua
propriedade, e que por eles querem ser invejados pelos outros, jazem prostrados e aflitos, quando
os deleites falsos e fugazes abandonam sua alma vã e pueril, que ignora qualquer prazer real; mas
quem na prosperidade não se orgulhou, não se abala se as coisas mudarn. Contra um e outro esta-
do têm uma alma invicta, cheia de firmeza já experimentada, porque experimentou na boa sorte
o que é útil contra a infelicidade. 6. Por isso, como nas coisas que todos almejam possuir, sempre
1 O primeiro é M. Aneu Novato, que foi magistrado e governador da Acaia; o segundo é L. Aneu, autor
desta “consolatio”: o terceiro é M. Aneu Mela, que foi pai do poeta Lucano: pouco se sabe acerca de sua
vida; suicidou-se depois da conjuração de Pisão.
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: a e Ê a j 5 E
CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA. 195
pensei que não houvesse algum bem verdadeiro (e as achei vazias e cobertas de uma maquilagem
aparente e ilusória, sem nada que parecesse à sua aparência), assim agora, nesses que são chama-
dos males, não encontro nada que seja tão horrível e duro como pode fazer temer a opinião do
vulgo. A própria palavra “exílio” chega ao ouvido muito duramente e fere quem a ouve como tris-
te e execrável justamente por essa convicção radicada em todos: assim decidiu o povo. Mas o
sábio rejeita em grande parte os decretos do povo.
VI — 1. Sem dar importância, portanto, ao critério da maioria, que se deixa transportar
pela superficialidade e pela opinião corrente, vamos ver o que é o exílio. É, na substância, uma
mudança de lugar. Para que não pareça que eu esteja atenuando sua aridez e tirando o que tem
de pior, direi ainda os aborrecimentos que derivam dessa mudança: pobreza, desonra, desprezo.
Com esses lutarei mais tarde: por enquanto, quero limitar-me a examinar qual é a dor proveniente
da pura e simples mudança de lugar.
— 2. “Viver longe da pátria é intolerável.” Olha, pois, para a multidão, à qual não são sufi-
cientes as casas da imensa Roma: a maior parte dela está longe de sua pátria. Afluem de seus
municípios, de suas colônias, de toda a terra, quem levado pela ambição, quem pelo seu dever de
magistrado, quem por uma missão confiada, quem pelo afã de gozar em lugar mais apropriado e
rico de vícios, quem pelo desejo de estudos literários, quem pelos espetáculos; alguns foram impe-
lidos pela amizade, outros por uma atividade que encontrou mais amplo teatro para demonstrar
a própria virtude; alguns levaram para lá sua venal beleza, outros sua venal elogiência. 3. Nenhu-
ma raça de homens falta na cidade, que oferece grandes prêmios às virtudes e aos vícios. Supo-
nhamos que todas essas pessoas sejam chamadas,uma por uma; e se pergunte a cada uma onde
nasceu: veremos que a maioria é formada por gente que deixou sua residência para se estabelecer
numa cidade grandíssima e belíssima, realmente, mas não sua. 4. Em seguida, deixando essa cida-
de, que se pode chamar cosmopolita, vamos para todas as outras: não existe nenhuma que não
tenha sua população em grande parte estrangeira. Deixemos as cidades que atraem as multidões
com sua posição amena e com suas campinas risonhas; perlustremos os lugares mais desertos, as
ilhas mais rochosas, Ciatos, Sérifo, Giaro, Cossura:2 não encontraremos lugar algum de exílio,
onde alguém não more por seu prazer. 5. Onde se poderá encontrar um rochedo mais desguarne-
cido do que este? ou mais pobre para quem procure riqueza? ou mais selvagem para quem dê
atenção aos homens? ou mais horrível pela posição? ou mais inclemente pelo clima? Apesar de
tudo, também aqui moram mais estrangeiros do que indígenas. A mudança de lugar não é. pois,
“tão grave, se esse lugar consegue tirar alguém de sua pátria. — 6. E há também quem afirme exis-
tir nas almas humanas uma certa inclinação natural a mudar de sede e transferir a sua própria
residência; pois que o homem recebeu da natureza um intelecto móvel e inquieto, que nunca pára.
num lugar, mas anda de um lado e de outro, levando seus próprios pensamentos para qualquer
coisa, ansioso de sossego e ávido de novidade. 7. Isso não pode admirar a quem reflita em sua pri-
meira origem; pois que o homem não é plasmado de pesada matéria terrena, mas deriva do sopro
divino: e as-coisas celestes estão sempre em movimento; melhor, fogem em velozrcorrida. Olha as
estrelas, que iluminam o mundo: nenhuma delas fica parada. O sol anda continuamente e vai de
lugar em lugar e, embora rodando com todo o universo, move-se em sentido contrário ao céu e
passa por todos os pontos das constelações e nunca pára: seu movimento e seu andar de um lugar
a outro são eternos. 8. Todas as coisas rodam e passam: vão de um a outro ponto, como ordena
a inexorável lei do mundo; quando terão terminado, durante um determinado período de tempo,
sua volta, farão novamente o caminho percorrido. Continuas, agora, a pensar que a alma huma-
na, formada pelas mesmas partículas das quais são constituídos os astros, sofre em viajar e em
migrar, quando o próprio deus simpatiza ou talvez vive justamente pelo seu eterno velocíssimo
movimento? |
VIL — 1. Agora, das estrelas volta-te para as coisas humanas: verás que todos os homens
e todos os povos, sem exceção alguma, mudaram suas sedes. Que procuram as cidades gregas nos
países dos bárbaros? E as colônias macedônias no meio dos hindus e dos persas? Na Cítia e em
todas as terras daqueles povos ferozes e indômitos, vêem-se cidades gregas fundadas nas costas
do Ponto: nem a rigidez do inverno perpétuo, nem a índole dos habitantes, selvagens como seu
clima, obstaculizaram os emigrantes. 2. Na Ásia Menor há uma multidão de gregos; Mileto fun-
dou em todo o mundo e deu habitantes a setenta e cinco cidades: todo o lado da Ttália banhado
pelo mar Jônio tornou-se a “Magna Grécia”. A Ásia deu origem aos etruscos, os tírios (fenícios)
; 1
2 Ilhas do mar Egeu, que conservam também hoje os nomes gregos de Skiatos, Sériphos e Gyaros, Cossura
é a hodierna ilha de Pantelleria, entre a Sicília e a Tunísia.
196 SÊNECA
habitam a África, os cartagineses, a Espanha, os gregos introduziram-se na Gália, os gauleses, na
Grécia; os Pireneus não impediram a passagem dos germanos: 3. a volúvel raça humana espa-
lhou-se por todos os caminhos do mundo, mesmo se desagradáveis e desconhecidos. Levaram
consigo os filhos, as esposas e os pais, mesmo se velhos; alguns, após terem sido jogados aqui e
acolá, não escolheram eles mesmos o lugar onde parar, mas pelo cansaço pararam no mais próxi-
mo; outros conquistaram com as armas o direito de apoderar-se das terras alheias; outros foram
engolidos pelo mar, enquanto iam para terras desconhecidas; outros pararam onde a falta do
necessário os obrigou a parar. 4. E, assim, também são diferentissimas as causas que os levaram
a abandonar a própria e procurar outra pátria: quem, fugindo às armas inimigas, foi expulso de
sua terra e levado, despojado de tudo, para terra estrangeira, pela destruição de sua cidade; quem
foi expulso pela guerra civil; quem foi mandado embora pela necessidade de diminuir a população
demasiadamente abundante; quem foi obrigado a fugir por uma epidemia ou por frequentes terre-
motos, ou por qualquer outra causa que tornava o país malsão e inabitável; outros foram seduzi-
dos pela fama de uma região fértil, exageradamente famosa. 5. Quem por uma causa, quem por
outra se afastou de sua casa: isto, porém, mostra claramente que nada ficou nunca no mesmo
lugar em que nasceu. Eterno é o mudar do gênero humano; todos os dias alguma coisa muda em
tão enorme esfera; pôem-se os alicerces de novas cidades, surgem novas nomes de povos, depois
que os precedentes se extinguiram ou foram absorvidos por povos mais fortes. Que mais são essas
emigrações de povos, senão públicos exílios?
6. Mas para que levar-te num tão longo discurso? Para que lembrar Antenor, que fundou
Pádua, e Evandro, que pôs o reino dos Árcades nas margens do Tibre? E Diomedes e os outros
que, vencidos ou vencedores, a guerra de Tróia dispersou por terras alheias? 7. O Império Roma-
no reconhece como seu fundador um exilado, * fugido pela queda de sua cidade, à procura de ter-
ras longínquas por medo dos vencedores, trazido à Itália pelo Fado com poucos companheiros
sobreviventes. E quantas colônias semeou, mais tarde, por todas as províncias o povo romano!
Ele mora aonde chegou vitorioso. À essas “mudanças de lugar muitos aderiram de boa vontade, e
também os velhos, abandonados os próprios altares, seguiam os colonos além-mar. 8. É inútil, por
outra, citar mais exemplos: um ainda acrescentarei, que se apresenta espontaneamente ao olhar:
também esta ilha amiúde mudou de habitantes. Sem calcular os mais antigos, cujos nomes se per-
dem na noite dos tempos, os gregos da Fócida, que agora moram em Marselha, pararam antes
nesta ilha; não se sabe exatamente o que os fez fugir depois: se o clima áspero ou a vizinhança da
Itália muito poderosa, ou o mar sem portos; não foi, certamente, a barbaridade dos habitantes,
como aparece pelo fato de que pararam no meio de povos gauleses, ferozes e incivis, então, muito
mais que todos os outros. 9. Depois passaram por essa ilha os ligúrios e depois também os iberos,
como se vê pela semelhança dos costumes: têm, de fato, chapéus e calçados semelhantes âqueles
dos cantábrios, e também algumas palavras: pois que a língua deles, devido a suas relações com
OS gregos e os ligúrios, modificou-se profundamente. Foram trazidas ainda duas colônias de cida-
dãos romanos, uma por Mário e outra por Sila: tantas vezes mudaram os habitantes desse árido
e espinhoso rochedo! 10. À custo, enfim, se pode encontrar um recanto habitado ainda pelos indí-
genas: tudo está misturado e transplantado. A cada um sucedeu um outro; este desejou o que
aquele achou aborrecido; esse foi expulso do lugar, de onde antes expulsara os outros. Porque a
sorte quis que nada ficasse sempre no mesmo lugar.
VOL — 1. Não considerando os outros inconvenientes conexos com o exílio, contra a
mudança de lugar pareceu remédio suficiente a Varrão, o mais douto entre os romanos, pensar
que, por toda parte onde formos, teremos ao nosso redor a mesma natureza; e a Bruto * pensar que
quem parte pode levar consigo suas virtudes. 2. E se alguém julga ineficaz para consolar o dester-
rado um só desses dois remédios, deverá reconhecer que juntos são eficazes. De fato, quão pouco
é o que perdemos! Mas nos seguem em toda parte as duas coisas mais belas: a natureza comum
a todos e a virtude individual. 3. Crê-me, isso foi feito por aquele que deu forma ao universo, seja
ele o Deus Senhor de Tudo, seja a incorpórea razão, artífice das maiores obras, seja o divino espi-
rito difundido com igual intensidade em todas as coisas, máximas e mínimas, seja a sorte e a série
imutável das causas ligadas uma à outra: isto, digo eu, foi feito para que não fiquem ao arbítrio
alheio senão as coisas de menor valor. 4. O que no homem há de melhor está além de toda a força
humana e não pode ser dado nem tirado. Esse céu, que é a coisa maior e mais bela que a natureza
3 A:
Enêias.
* Varrão é o famoso historiador e filólogo (116-27 a.C..); Bruto é o assassino de Júlio César.
CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA 197
tenha criado, e a alma que o contempla e o admira — e dele é a parte mais nobre — são nossos,
sempre, e conosco ficarão enquanto vivermos. 5. Por isso, alegres e de cabeça erguida iremos com
passo intrépido aonde quer que a sorte nos leve, percorreremos qualquer terra: entre os confins do
mundo não há exílio; porque nada daquilo que está dentro dos confins do mundo é estranho ao
homem. De qualquer parte o olhar levanta-se igualmente para o céu, a mesma distância separa em
qualquer parte as coisas divinas das humanas.
6. Por isso, enquanto meus olhares não se afastarem do espetáculo que nunca os farta;
enquanto me for permitido olhar o sol e a lua, fixar os outros planetas, deles observar o nasci-
mento e o ocaso e as distâncias, e indagar as causas que tornam seu curso mais veloz e mais lento,
contemplar durante a noite tantas estrelas brilhantes, uma imóvel, outra que se move em curto es-
paço mas sempre sobre seu caminho, e algumas que aparecem de repente, algumas que espiram
centelhas, como se caíssem, tanto que ofuscam a vista, ou fulgidíssimas percorrem voando um
grande espaço; enquanto estiver com todas essas coisas e me confundir, tanto quanto é permitido
ao homem, com as coisas celestes; enquanto tiver sempre alta a alma, inclinada por sua natureza
à contemplação dos astros a ela semelhantes — que importa que solo eu pise?
IX — 1. “Mas esta terra não é rica de árvores frutíferas que alegrem a vista; não é sulcada
por rios grandes e navegáveis; nada produz que os outros povos venham procurar, é fértil apenas
o suficiente para nutrir os habitantes; nela não se abrem pedreiras de mármores procurados, nela
não se escavam minas de ouro ou de prata.”
2. Acanhada é a alma, que as coisas terrenas deleitam; e & preciso arrancá-la dessas e levá-la
para as que em toda parte aparecem igualmente e igualmente resplandecem. Devemos refletir que
esses bens terrenos são obstáculos aos verdadeiros bens por causa das opiniões falsas e mentiro-
sas: quanto mais compridos pórticos se constroem, quanto mais altas torres se levantam, quanto
mais amplos caminhos se abrem, quanto mais profundas se escavam as grutas estivas, quanto
mais monumentais se erguem os tetos das salas de jantar, tanto mais todas essas coisas nos escon-
derão o céu. 3. Embora o acaso te tenha atirado em tal lugar, em que a mais luxuosa habitação
seja uma choupana, terias na verdade uma alma vil e serias um mesquinho confortador de ti
mesmo, se te resignasses a isso só, lembrando a choupana de Rômulo. Deves antes dizer: “Esta
humilde choupana hospeda virtudes? E então é mais linda que todos os templos, pois que nela
estão a justiça, a moderação, a sabedoria, a piedade, a regra para justamente cumprir todos os
deveres, a ciência das coisas divinas e humanas. Lugar nenhum é angusto, se pode conter tantas
e tão grandes virtudes, nenhum exílio é tão grave, se nele podemos ir com aquelas virtudes”. 4.
Bruto, em seu livro Das Virtudes, conta ter visto Marcelo º desterrado em Mitilene, e tê-lo encon-
trado feliz, o quanto pelo menos pode sê-lo um homem, e dedicado aos bons estudos como em ne-
nhum outro período da vida; e diz ainda que por tal motivo teve a sensação, partindo, de ir ele
para o exílio, porque voltava sem Marcelo, mais que de deixar Marcelo no exílio. 5. Ó bem-aven-
turado Marcelo, teu exílio agradou a Bruto mais que teu Consulado teria agradado à República !
Que homem deve ter sido ele se obteve que um outro se considerasse um desterrado somente por-
que se afastava dele, exilado ! Que homem deve ter sido para ser admirado por outro homem, que
foi admirado, ele próprio, por Catão ! 6. Conta ainda Bruto que Júlio César, passando por Mitile-
ne, não parou, porque não podia suportar a cena de um homem reduzido a tão míseras condições.
A Júlio César impetrou mais tarde a volta com públicas súplicas o Senado, tão atencioso e meigo,
que parecia que todos tivessem naquele dia a alma de Bruto, e que pedissem não para Marcelo,
mas para si próprios, para não ficarem exilados, como teriam ficado sem ele; mas muito mais glo-
rioso foi para Marcelo o dia em que Bruto não suportou deixá-lo e César não suportou vê-lo
desterrado, porque teve a sorte de ver o reconhecimento de ambos: Bruto se sentiu magoado de
voltar sem Marcelo, César ficou envergonhado.
7. Não há dúvida de que um homem tão forte como Marcelo tenha exortado amiúde a si
mesmo a suportar o exílio de bom grado com estas palavras: “Não é uma desventura que tu este-
jas bem longe da pátria. Apreendeste de teus estudos pelo menos o suficiente para saber que para
o sábio todo lugar é pátria. Por outro lado, o homem que te mandou ao exílio não esteve ele
mesmo dez longos anos longe da pátria? Esteve para estender os domínios romanos, todavia este-
ve longe. 8. E agora chama-o a si a África, que ameaça uma nova guerra, chama-o a Espanha, que
consolida a sedição desordenada e abatida, chama-o o infiel Egito, chama-o todo o mundo que es-
ê Partidário de Pompeu na luta civil, ficou em voluntário exílio quando Júlio César subiu ao poder. Cícero,
para agradecer a César que perdoara a Marcelo, pronunciou uma notável oração (Pro Marcello).
198 SÊNECA À
pera das agitações do Império a ocasião para revoltar-se. Aonde correrá antes? Contra que parte
se voltará? Sua vitória o arrastará para todas as terras. O vulgo pasmado e reverente olhe para
ele: tu vives Mes porque Bruto te admirou !”.
X — 1. Portanto, Marcelo suportou bem seu exílio, e nada mudou em sua alma a mudança
de lugar, sa disso lhe derivasse a pobreza. Mas cada pessoa, que não seja possuída pelo
demônio da avareza e do luxo, que confunde a ordem das coisas, sabe que a pobreza não é um
mal. Quão pouco chega, de fato, para sustentar um homem! E a quem pode faltar esse pouco, se
tem alguma virtude? 2. No que me diz respeito, tenho consciência de ter perdido preocupações,
não riquezas. As necessidades do corpo são poucas: pode subtrair-se do frio, e tirar-se a fome e
a sede; tudo o que se deseja a mais procura-se para os vícios e não para as necessidades. Não é
preciso sondar todo o mar nem encher o ventre com animais matados nem arrancar as ostras das
praias desconhecidas dos mares mais longínquos: que os deuses e as deusas exterminem aqueles,
cujo afã de coisas raras passa além dos confins de um império, que suscita tantas invejas! 3. Que-
rem que se apanhe para lá do Fásis º alguma raridade para que embeleze seu suntuoso banquete,
e não têm vergonha de fazer vir aves desde os partos, aos quais ainda r1ão fizemos pagar a derrota
de Crasso. De toda parte do mundo acolhem alimentos, conhecidos e ignorados, para sua gula
enjoada; da extrema parte do oceano são trazidas as iguarias que seu estômago, estragado pelas
gulodices, pode aceitar; vomitam para comer, comem para vomitar, e não se dignam a digerir
nem os petiscos que eles procuram por toda a terra.
Quem despreza essas coisas, que dano pode receber da pobreza? Além disso, se alguém as
deseja, ela lhe será útil. Sara, de fato, sem querer; e se, não forçado, torna um remédio, pelo menos
durante o tempo em que não pode querer, é como se não quisesse. 4. Calígula (que a natureza
degenerou, penso eu, para mostrar quanto pode o máximo dos vícios no máximo da prosperidade)
gastou em um dia só para um almoço dez milhões de sestércios; e, embora ajudado pela fantasia
de seus cortesãos, pôde a custo encontrar a maneira de converter o tributo de três províncias num
almoço. 5. Paupérrimos aqueles cujo paladar não se excita senão perante alimentos preciosos:
preciosos não por algum excelente sabor ou doçura da gula mas pela raridade e dificuldade de
encontrá-los! Caso contrário, se readquirissem o bom senso, que necessidade haveria de tantas
fadigas gastas em servir o ventre, de iguarias de países longínquos, e de despovoar e de sondar os
abismos? Espalhados jazem os alimentos, que a natureza pôs por toda parte; mas eles, como:
cegos, os relaxam e percorrem todas as regiões e atravessam os mares para estimular a grande
preço a fome, que com pouco poderiam satisfazer. 6. Teríamos vontade de lhes dizer: “Para que
fazeis descer ao mar os navios? Para que armais as mãos contra as feras e contra os homens?
Para que correis aqui e acolá afanosamente? Para que acumulais riquezas sobre riquezas? Não
quereis refletir quão pequenos são vossos corpos? Não vos parece-uma loucura, até a mais solene
das loucuras, desejar muito, quando o vosso corpo pode conter tão pouco? Podereis aumentar
vosso patrimônio, levar mais longe os confins do Império, mas não dilatar vossos corpos. Quando
vossas compras tenham saído perfeitamente, e vossos soldados vos tenham trazido preciosos
manjares, e esses manjares de todas as partes da terra sejam recolhidos, não tereis onde pôr vos-
sos banquetes. 7. Para que procurais tantas coisas? Na verdade, eram infelizes vossos antepas-
sados (sobre cuja virtude se baseiam ainda hoje vossos vícios), que preparavam a comida com
suas próprias mãos, dormiam no chão e tinham casas ainda não resplandecentes de ouro e tem-
plos ainda não reluzentes de pedras preciosas; e juravam religiosamente sobre divindades feitas de
argila; e aqueles que a essas divindades tinham implorado, embora certos de morrer, para não fal-
tar à fé jurada, voltavam para o inimigo !? 8. E aquele nosso ditador, que ouviu os embaixadores
dos samnitas, enquanto que com a mesma mão, com a qual muitas vezes abatera o inimigo e pu-
sera a coroa de louro sobre o altar de Júpiter Capitolino, virava no fogo um modesto alimento,
vivia talvez menos feliz do que viveu nosso quase contemporâneo Apício, que na cidade, da qual
certa vez foi obrigado a partir pelos filósofos, teve escola de gulodice e contaminou seu tempo
com sua ciência? 9. Vale a pena saber como acabou: após dissipar cem milhões de sestércios na
cozinha, após gastar em cada orgia somas fabulosas iguais a muitas dádivas de príncipes e às ren-
das dos tributos do Estado, por fim, oprimido pelas dívidas, foi obrigado a examinar suas contas;
e, calculando que lhe teriam sobrado dez milhões de sestércios, como se viver com dez milhões de
sestércios fosse para ele viver sob o espectro da fome, envenenou-se. 10). Que necessidade louca de
luxo havia nesse homem, para o qual ter dez milhões de sestércios era pobreza! E agora pensa,
se puderes, que o que importa é a quantidade de dinheiro, não a da alma. .. Houve quem se afli-
8 Rio da Ásia Menor. |
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CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA 199
giu de possuir dez milhões de sestércios e afastou-se, envenenando-se, daquilo que tantos almejam
possuir! Para homem tão estulto, a última bebida foi salutar: os verdadeiros venenos ele os comia
e bebia quando não se deleitava somente, mas se vangloriava de banquetes imensos, ostentava
seus vícios, arrastava toda a cidade a imitar suas prodigalidades, e levava a segui-lo por tal cami-
nho a mocidade, que mesmo sem maus exemplos é por natureza mais inclinada para o mal que
para O bem. 11. Isso acontece a quem não usa as riquezas conforme o bom senso, que tem regras
bem determinadas, mas conforme seus preciosos hábitos, cujo capricho é demasiado grande para
ser dominado. Para a cobiça nada chega, para a natureza basta também pouco.
Por isso a pobreza não traz nenhum dano ao desterrado; porque lugar algum de exílio é tão
pobre que não seja bastante fértil para alimentar um homem.
KI — 1. “Mas o desterrado sentirá a falta de roupas e de casa.” Mesmo se ele desejar essas
coisas somente porque são necessárias, não lhe faltará nem teto nem trapo para vestir. Como com
pouco se nutre, assim com pouco se veste o corpo humano: a natureza quis que as necessidades,
que ela deu ao homem, não fossem dificeis de satisfazer. 2. Mas se desejar vestes de púrpura reple-
ta de muitas conchas, ou tecidas de ouro, ou bordadas com várias cores e pontos, ele é pobre por
culpa não da sorte mas sua. E se a esse homem devolveres tudo o que perdeu, nada obterá mesmo
após a restituição, faltar-lhe-á, comparado com aquilo que deseja, mais que quanto falta ao
desterrado, comparado com o que possuía. 3. Se deseja vasilhame de ouro e prata ilustrado pela
assinatura de antigos artesãos, e bronzes que se tornaram preciosos pela loucura dos amadores,
e um exército de escravos, tanto que se torne angusta a casa mais espaçosa, e cavalos ocupados
só em comer e engordar, e mármores de todas as regiões; mesmo que todas essas coisas lhe sejam
amontoadas na frente, nunca lhe satisfarão a insaciável alma, mais do que qualquer quantidade de
água poderia saciar o homem cujo desejo provém não da falta de água mas do queimar das vísce-
ras ardentes: porque essa não é sede, mas doença. 4. Nem isso acontece só pelo dinheiro ou pela
comida: todos os desejos, que nascem não do desejo mas do vício, têm a mesma natureza: por
muito que se acumule na frente de tais homens, a cobiça desses não terá fim, mas dará mais um
passo. Quem, portanto, permanece contente entre os limites marcados pela natureza, não conhece
a pobreza: quem sair desses limites é pobre mesmo entre as maiores riquezas. Às necessidades
provêm suficientemente também os lugares do exílio; às coisas supérfluas não bastam os reinos.
5. É a alma que torna ricos os homens: a alma segue-os no exílio; e quando encontra quanto
basta para sustentar o corpo, mesmo nas mais ásperas solidões, é rica e goza de seus bens: à alma
nada importa o dinheiro, não mais do que importa aos deuses imortais. 6. Todas essas coisas que
os tolos, escravos do próprio corpo, olham admirando — mármores, ouros, pratas, grandes mesas
redondas e polidas — são pesos terrenos que não podem atrair uma alma pura e que lembra sua
natureza, imune de tal vício e pronta para voar ao céu assim que liberta do corpo, e no entanto
observa as coisas divinas com pensamento incansável, quanto lho permite o grave e importuno
cargo dos membros, que a cercam. 7. Por isso não pode nem ser mandada ao exílio, pois que é
livre, semelhante aos deuses, presente em todo o espaço e contemporânea a todo o tempo: porque
seu pensamento vaga em todos os céus e penetra o passado e o futuro. É esse nosso mísero corpo,
prisão e corrente da alma, que pode ser jogado em qualquer lugar; sobre ele têm poder os suplí-
cios, os roubos, as doenças: a alma é sagrada e eterna, e ninguém lhe pode fazer violência.
XI — 1. A fim de que tu não creias que para aliviar os aborrecimentos da pobreza (que é
grave só para os homens que a crêem tal) eu me sirva unicamente de preceitos dos sábios, observa
como são mais numerosos os pobres; nem poderás dizer que. eles são mais tristes ou mais preocu-
pados do que os ricos, porque atê se diria que são mais felizes quanto menos possuem os objetos
que possam magoá-los. 2. Deixemos os pobres e vamos aos ricos; em quantas circunstâncias são
eles semelhantes aos pobres? Quando viajam, suas bagagens são só uma parte daquilo que pos-
suem; e, se a viagem impõe pressa, devem privar-se da multidão de acompanhadores. Quando sol-
dados, quanto da própria riqueza levam consigo, visto que a rude vida da milícia impede todo
luxo? 3. Os ricos são iguais aos pobres não somente em certas condições de tempo ou por miséria
de lugar: quando são tomados pelo tédio das riquezas, escolhem alguns dias em que comem no
chão e deixam seu vasilhame de ouro e de prata, servindo-se de louças de barro. Loucos, temem
sempre aquilo que às vezes desejam ! Imitam a pobreza para experimentar um prazer; e, contudo,
quanta escuridão e quanta ignorância daquilo que ela realmente é ofende seus cérebros!
4. Quanto a mim, cada vez que volto com o pensamento aos antigos têmpos, tenho pudor de
procurar confortos à pobreza: pois a corrupção de nosso tempo chegou a tal ponto que o viático,
que se deixa aos desterrados, é maior do que aquilo que era uma vez o patrimônio dos ricos. É sa-
bido que Homero teve um só escravo; Platão, três; Zenão, de quem teve origem a austera e viril
escola estóica, nenhum; e quem poderá dizer que eles tiveram uma vida infeliz, sem arriscar-se a
Í
200 SÊNECA |
parecer a todos por essa sua opinião infelicíssimo ele mesmo? 5. Para as exéquias de Menênio
Agripa, que foi mediador de paz entre os nobres e a plebe, foi preciso fazer uma coleta. Atílio Rê-
gulo, depois de ter dispersado os cartagineses na África, escreveu ao Senado que seu colono tinha
ido embora, abandonado seu campo; e o Senado estabeleceu que o campo fosse cultivado durante
a ausência de Atílio Régulo às expensas públicas. Não achas que valeria a pena não ter um cria-
do, para ter como colono o povo romano? 6. As filhas de Cipião receberam um dote do erário,
porque o pai não lhes deixara nada; e era lógico, por Hércules, que o povo romano pagasse ao
menos um tributo a Cipião, pois exigia um tributo anual de Cartago. Felizes os maridos para os
quais foi sogro o povo romano ! Ou crês que aqueles cujos filhos são-casados com dançarinas, que
têm um milhão de sestércios de dote, sejam mais felizes que Cipião, cujos filhos receberam em
dote do Senado, seu tutor, uma pequena moeda? 7. Como pode queixar-se um desterrado de que
lhe falte alguma coisa, se para Cipião faltou o dote, para Régulo um colono, para Menênio o
enterro, e se para todos aquilo que faltava foi substituído tanto mais honrosamente, justamente
porque faltava? Com esses advogados a pobreza não só é defendida, mas pode tomnar-se até
agradável.
XII — 1. Poder-se-á responder: “Por que divides artificiosamente todas essas coisas, que
são toleráveis quando isoladas e não quando juntas? É tolerável mudar de sede, se mudar somente
a sede; é tolerável a pobreza, conquanto não se junte a ela a desonra, que abate todas as almas por
si só”. |
2. Às pessoas que me queiram assustar, acumulando diante de mim todos os males, é preciso
responder assim: se formos suficientemente fortes contra uma só desgraça, o seremos igualmente
contra todas. Desde que a virtude robustece a alma, ela é por toda parte invulnerável. 3. Se te
livraste da avareza, que é o mais violento flagelo da humanidade, a ambição não retardará teu
caminho; se consideras a morte não como uma pena mas como uma lei da natureza, de modo que
a alma fique desembaraçada do medo dela, nenhum outro medo ousará vir aborrecê-la; se estás
convencido de que a união dos sexos foi dada ao homem não para o prazer mas para a continua-
ção da espécie, e não violas essa lei arcana e severíssima, profundamente enraizada em nossas vís-
ceras, estarás imune a qualquer outro desejo do prazer. A razão não vence os vícios um por um,
mas os abate todos contemporaneamente: ela vence uma vez por todas. 4. Pode acreditar-se, tal-
vez, que o sábio seja perturbado pela infâmia, ele que reúne tudo em si e está tão afastado das opi-.
niões do vulgo? Mais ainda do que a infâmia é uma morte infamante: contudo, Sócrates, com o
mesmo rosto, com o qual certa vez, único em Atenas, dominara os trinta tiranos, entrou no cárce-
re, tornando-o com isso menos infamante: porque o cárcere não é cárcere quando nele está um Só-
crates. 5. Quem pode ser tão cego, perante a verdade, a ponto de achar desonrosa para Marcos
Catão a dupla recusa de suas candidaturas à pretoria e ao Consulado? Foi antes vergonha para
a pretoria e para o Consulado, os quais não podiam senão ser honrados por um Catão. 6. Nin-
guém pode ser desprezado por outrem, se não se desprezou antes a si mesmo. À esse tipo de
desonra estão sujeitas as almas covardes e fracas; mas para o homem que se eleva acima e contra
os mais cruéis golpes da sorte, e domina os males que oprimem os outros, as desventuras são
como uma auréola.
De fato, nós somos tais que nenhuma coisa desperta nossa adrniração tanto quanto um
homem forte na desventura. 7. Quando, em Atenas, Aristides estava sendo levado ao suplício,
quem quer que o encontrasse baixava o olhos e gemia, como se tivesse sido condenado não um
homem justo mas a própria justiça: assim mesmo, houve quem lhe cuspisse no rosto. Teria podido
sentir indignação, sabendo que ninguém que tivesse a boca pura teria ousado uma tal coisa: ele,
ao contrário, limpou o rosto, e sorrindo disse-ao magistrado, que o acompanhava: “Avise esse tal
que de agora em diante não boceje mais tão indecentemente”. E foi esse o melhor modo de se.
fazer vilania à vilania. 8. Sei que alguns dizem que não há pior coisa que o desprezo e que preferi-
riam a morte. À esses responderei que amiúde o exílio não produz o desprezo: quando cai um
grande (e continua grande mesmo no chão), ele não é desprezado mais do que quanto o sejam as
ruínas dos templos, que os devotos adoram igualmente como se estivessem de pé.
XIV — 1, Então, minha querida mamãe, não tens, pelo que me diz respeito, nenhum motivo
para te consumires em pranto: resta examinar, ainda, se podem estimular-te motivos particulares;
isto é, se pode magoar-te a idéia de que perdeste uma ajuda e uma defesa, ou a idéia de que não
podes suportar minha falta. 2. Para a primeira bastam poucas palavras, porque conheço tua alma,
e sei que ela, em seus entes queridos, não ama senão eles mesmos. Esta idéia se refere às mães, -
que, com feminina incapacidade de controle, querem controlar os poderes dos filhos; às mães que,
como as mulheres não podem exercer os cargos públicos, satisfazem à própria ambição por meio
dos filhos, pondo-a a serviço dos outros. 3. Tiveste grande prazer nos bens de teus filhos, muito
CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA 201
pouco gozaste dos mesmos, impuseste sempre um limite à nossa- generosidade, sem impor limite
algum a ti mesma; quando ainda vivo teu pai, aumentaste a riqueza, que já teus filhos possuíam;
administraste nossos haveres com o mesmo cuidado como se fossem teus, com o mesmo escrá-
pulo como se fossem de outrem; não procuraste nenhuma vantagem de nossa influência, como se
fosse coisa de outrem, e de nossas honras não te foi dado mais do que o comprazimento e as des-
pesas: nunca teu afeto visou ao útil. Não podes, pois, magoar-te, porque ao filho, que te foi arran-
cado, faltem as coisas que, quando ele se encontrava no «RUMO estado, nunca as achaste neces-
sárias a teu afeto.
XV — 1. Para te dar conforto, devo bater sobre a verdadeira origem de tua grande dor de
“mãe: “Tenho, então, que me privar do abraço de meu filho amadiíssimo; não posso ter a alegria
de vê-lo e de falar- lhe! Onde está aquele em cuja presença a tristeza desaparecia de meu rosto e
no qual derramava qualquer pensamento triste meu? Onde estão os colóquios, que não me sacia-
vam, os estudos dos quais participava com maior interesse do que é de costume entre as mulheres,
com maior camaradagem do que é comum ver nas mães? Onde estão os encontros, nos quais, ao
ver sua mãe, ele se iluminava de um riso de eterna criança?”
2. Junta a isso a vista dos lugares, onde gozamos e vivemos juntos, e, necessariamente, a
vista de todos os objetos, que te lembram nossa recente vida em comum, estímulo eficacíssimo
para azedar a dor: pois a sorte quis completar sua cruel maquinação contra ti, fazendo com que
te afastasses, tranquila e sem nem a suspeita de um semelhante acontecimento, apenas dois dias
antes de me golpear. 3. Fora um bem a distância que nos tivera afastado um do outro; fora um
bem nossa separação de alguns anos para preparar-te a essa desgraça: voltaste, ao contrário, não
para ter a alegria de ver teu filho mas para perder o costume de estar longe dele. Se tivesses parti-
do muito tempo antes, terias suportado com maior coragem o golpe, pois a longa separação teria
atenuado a saudade; se não te tivesses afastado nóvamente, terias tido pelo menos o extremo pra-
zer de ver teu filho dois dias mais. Ao contrário, a sorte cruel dispôs as coisas de modo que nem
estivesses a meu lado na desgraça, nem estivesses habituada à ausência. 4. Mas, quanto mais gra-
ves são essas dores tanto mais deves chamar em socorro todas as tuas forças, e enfrentar, por
assim dizer, com maior ímpeto, esse inimigo, que conheces e que amiúde derrotaste. O sangue que
agora derramas não brota de meu corpo invulnerado: a nova ferida te alcançou atravês das cica-
trizes precedentes.
XVI — 1. Não é razoável que te desculpes dizendo que éês mulher, porque às mulheres é con-
cedido o direito de chorar em demasia, mas não sem um limite. Nossos antepassados estabele-
ceram onze meses de luto para as mulheres que choravam o marido: por meio desse decreto pú-
blico vinham a uma transação com a pertinácia da aflição feminina. Não proibiam o luto, mas lhe
impunham um termo; afligir-se sem medida, mesmo quando se perde alguém dos entes mais queri-
dos, é um gosto tolo, e não afligir-se em absoluto é dureza desumana: entre o sentimento e a razão
o meio-termo ideal é sentir a dor da perda e reprimi-la. 2. Não é razoável que penses em certas
mulheres a cuja dor só a morte põe fim (e tu conheces algumas que, pondo o luto pela morte de
um filho, nunca mais o tiraram).
De ti, ao contrário, pela energia que tua vida exigiu desde o começo, temos o direito de espe-
rar mais: não pode assumir como desculpa o ser mulher quem sempre foi imune aos defeitos das
mulheres. 3. Não te arrastou no número das demais o pior vício de nosso tempo, a falta de pudor;
não te dobraram nem as jóias nem as pérolas; a riqueza nunca conseguiu brilhar a teus olhos
como o máximo bem do gênero humano; a imitação dos piores, que é perigosa mesmo para os
honestos, não afastou do caminho certo a ti, que foste criada numa casa antiga e austera; nunca
te envergonhaste de tua fecundidade como se fosse coisa repreensível no teu tempo; nunca escon-
deste, como se fosse um peso vulgar, teu ventre prenhe, como fazem as outras, que se dedicam
somente à beleza; nunca suprimiste no seio os filhos concebidos; 4. não manchaste o teu rosto de
cosméticos; nunca te agradaram os vestidos com os quais, quem os veste, está mais nua do que
se estivesse nua: único enfeite, beleza superior a qualquer outra e não vinculada a idade alguma,
máximo orgulho foi para ti sempre a pudicícia.
5. Não podemos, pois, para legitimar tua dor, servirmo-nos do pretexto de teu sexo, do qual
tuas virtudes te afastaram: deves manter-te tão longe dos prantos femininos quanto te mantiveste
dos defeitos. Nem as mulheres te deixarão consumir sobre tua ferida, se querem tomar como
exemplo aquelas cuja admirada virtude pôs entre o número dos grandes. 6. A sorte reduziu a dois
os doze filhos de Cornélia: dez mortos (se repararmos no número) e Gracos (se quisermos fazer
a estimação da perda). Contudo, às pessoas que ao redor dela choravam e imprecavam contra seu
destino impôs não acusar a sorte, que lhe dera por filhos os Gracos. De uma tal mulher é justo
que nascesse aquele que na assembléia ousou dizer: “Tu ousas dizer mal de minha mãe, que gerou
202 SÊNECA
a mim?” Mas muito mais corajosas me parecem as palavras da mãe: porque o filho mostrou ser
orgulhoso de sua estirpe, a mãe mostrou ser orgulhosa também da morte dos filhos. 7. Rutília se-
guiu no exílio o filho Cota, e o afeto prendeu-a de modo que preferiu enfrentar o exílio a enfrentar
a dor de estar longe; e não voltou para a pátria senão quando voltou o filho. Com a mesma cora-
gern, com a qual o seguira perdeu-o mais tarde, quando tinha voltado e já se sentia posto em evi-
dência na vida pública; e ninguém a viu chorar depois que o levaram embora. No exílio mostrou
sua força de alma, na morte sua sensatez, porque nada conseguiu amedrontar seu amor materno,
e nada a fez insistir numa aflição inútil e tola. Quero que tu estejas no número dessas mulheres,
e que sigas, em dominar e comprimir teu desgosto, o magnânimo exemplo dessas como sempre
dessas imitaste a vida.
XVII — 1. Compreendo que isso não está em nosso poder, nem podemos dominar nossas
comoções: especialmente as comoções que se originam da dor e são indomáveis e rebeldes a qual-
quer tratamento. Queremos sepultá-las e sufocar os gemidos: ao contrário, as lágrimas escorrem
pelo rosto fingidamente calmo; queremos ocupar a mente nos jogos e nos espetáculos dos gladia-
dores: ao contrário, mesmo no meio dos espetáculos, que nos deveriam distrair, basta a sombra
da saudade para reviver a paixão. 2. É melhor, pois, vencê-la do que enganá-la; porque das distra-
ções, dos prazeres e dos negócios ressurge, e toma vigor do descanso para tornar-se cada vez mais
áspera; ao contrário, se ceder à razão, acalma-se para sempre. Por isso, não te recomendarei,
como sei que muitos fazem, que faças uma viagem longa que te ocupe, ou agradável que te divirta,
nem que ocupes teu tempo revendo diligentemente as contas e administrando o patrimônio; nem
que te ocupes sempre com algum novo trabalho. Todas essas coisas são úteis para a dor; e não
quero que ela seja enganada, mas que acabe.
3. Por isso te incito a procurar refúgio onde todos os que procuram conforto para suas má-
goas deviam refugiar-se: nos estudos liberais. Eles saberão sarar tua ferida, arrancando de ti toda
queixa. Tu agora os deverias cultivar mesmo se nunca tivesses tido familiaridade com eles; mas
tu, porquanto te permitiu a austeridade de velho tipo de meu pai, abordaste todas as boas artes,
embora sem aprofundar seu estudo. 4. Oh! se meu pai, que era o melhor dos homens, mas estava
demasiadamente preso aos costumes dos antepassados, tivesse desejado que tu fosses ensinada ao
invês de informada somente dos preceitos da sabedoria ! Agora, contra os golpes da sorte, precisa-
rias não procurar auxílios mas servir-te dos que tiveste. Mas meu pai não quis que tu seguisses tua
inclinação para esses estudos por causa das mulheres que se servem da cultura não para tirar rê-
gras de sabedoria e sim para enfeitar-se com ela como com custosa jóia. Todavia, graças à tua
pronta inteligência, assimilaste maís que quanto pudesse fazer supor o tempo dedicado à cultura:
lançaste os alicerces de toda disciplina. 5. Volta para ela, agora: ela te protegerá. Ela te consolará,
te deleitará; se entrar em tua alma, acolhida com sincera fé, nela não entrará mais a dor, nem as
preocupações, nem o inútil tormento de uma vã aflição: para nenhum desses males estará aberto
teu peito, que para as outras fraquezas está, há tempo, fechado. Ela é realmente o mais seguro cas-
telo, e só ela te poderá arrancar do arbítrio da sorte.
XVII — 1. Mas, visto que, enquanto não entrares no porto que os estudos te prometem, pre-
cisas de algum amparo onde apoiar-te, quero mostrar-te de que alívios podes dispor. Dirige teu
olhar para meus irmãos: se eles estão salvos, não é justo que tu acuses a sorte. 2. Em um ou outro
tens razões de alegria diferente: um, com sua atividade alcançou as mais altas honras, outro
sabiamente delas se manteve afastado. Vive tranquila na dignidade do primeiro, na paz do segun-
do, no afeto de ambos. Conheço os sentimentos profundos de meus irmãos: o primeiro ama as
honras só para que te ornem, o outro fechou-se numa vida pacífica e calma só para se dedicar a
ti. 3. A sorte situou teus filhos da melhor maneira, para que te dêem auxílio e deleite: podes ser
defendida pela autoridade de um, gozar do ócio do outro. Disputarão entre eles as atenções para.
contigo, e a saudade de um será compensada pelo afeto de dois filhos: poderás até afirmar sem
mais que não te falta senão o número.
4. Desses dirige o olhar a teus netos: ao gracioso menino que é Marcos, ” diante do qual ne-
nhum aborrecimento pode durar, nenhuma dor, por grande e recente que seja, pode arder no peito
de ninguém: o menino vivaz tudo alivia! 5. Que lágrimas não enxugaria seu riso? Que rugas de
dor não estenderiam suas carícias? Quem não seria convidado a brincar pela sua alegria? Quem
não se sentiria atraído e afastado de seus pensamentos, embora profundos. por aquele seu chilrar,
do qual nunca nos cansaríamos? 6. Queiram os deuses conceder-nos que ele sobreviva a nós!
Sobre mim pare cansada toda a crueldade da sorte; todas as dores de sua mãe, todas as dores de
? Provavelmente é Marcos Lucano.
CONSOLAÇÃO A MINHA MÃE HÉLVIA 203
sua avó, transfiram-se para mim: os outros gozem sempre de seu estado atual. Nenhuma queixa
farei sobre meu luto e sobre minha condição, conquanto tenha sido eu o bode expiatório da famí-
lia, de modo que a ela não chegue nenhuma outra desgraça. 7. Pegue no colo Novatila, º que logo
te dará bisnetos, e cujo afeto eu cultivava tanto, e que considerava tão minha que agora, por me
ter perdido, se pode chamar órfã, embora o pai esteja ainda vivo: ama-a também por mim. A sorte
lhe arrancou a mãe, há pouco tempo: teu afeto pode fazer com que ela se magoe pela perda, mas
não sinta a falta da mamãe. 8. Agora é o momento de regularizar seus costumes, de formar seu
caráter: mais profundamente descem os preceitos que se imprimem nas almas de tenra idade.
Acostume-se a falar contigo, cresça como tu a queres: dar-lhe-ás muito, mesmo que só lhe dês o
exemplo. Este sagrado dever será para ti como um remédio, porque nada mais que a razão ou
uma sábia ocupação pode tirar da dor uma alma que se aflige por uma pessoa querida.
9. Contaria entre os maiores alívios teu pai, se não estivesse longe de ti. Todavia, pelos
sentimentos que nutres para com ele, pensa quais sejam os seus para contigo: compreenderás
quanto é mais justo que tu te conserves para eles antes que estar fixa sobre mim. Cada vez que te
invadir a violência sem limite da dor e ela te quiser arrastar consigo, pensa em teu pai. Tu, dan-
do-lhe tantos netos e bisnetos, não te podes considerar filha única; todavia, depende de ti que esse
último período de sua vida seja sereno como foi feliz a vida passada. Enquanto ele viver, não é
justo que tu te queixes de viver.
XIX — 1. Ainda não falei de teu maior conforto, de tua irmã,º daquele coração a ti mais
que fiel, no qual passam indivisivelmente todas as tuas mágoas, daquela alma maternal para nós
todos. Com ela tu confundiste tuas lágrimas, em seu seio retomaste vida. 2. Ela é sempre o eco fiel
de teus sentimentos: só pelo que me diz respeito, sua dor não é causada somente por tua dor. Suas
mãos me levaram a Roma; seus cuidados afetuosos e maternais me restabeleceram após longa
doença; para ser útil à minha questura, ela, que antes não teria ousado nem falar nem responder
em voz alta aos cumprimentos, aumentou suas relações, e por mim, pelo afeto que me dedicava,
venceu a verecúndia. Sua vida retirada, sua humildade no meio de tanta insolência de outras
mulheres, sua calma, seus costumes modestos e amantes da paz familiar, não impediram que se
tornasse por mim até ambiciosa.
3. Esse é o alívio, minha querida mãe, pelo qual serás acalmada: fica perto da irmã o mais
que puderes, liga-te a ela com apertados abraços. Quem está aflito procura fugir aquilo que sobre-
tudo ama e procura liberdade para sua dor; tu, ao contrário, com qualquer pensamento, aproxi-
ma-te dela: seja que tu queiras continuar a ficar neste estado. seja que queiras afastar-te deste
estado, tua dor encontrará em tua irmã ou um termo ou uma companhia. 4. Mas, se não me enga-
no, quanto à experiência dessa tão perfeita mulher, ela não permitirá que te consumas numa esté-
ril tristeza, e te porá diante seu exemplo, do qual fui também um espectador. Ela perdera o esposo
querido, nosso tio (com o qual casara ainda jovem), mesmo durante a viagem por mar; contudo,
suportou ao mesmo tempo a dor e o medo e, vencendo a tempestade, náufraga trouxe salvo o
cadáver do marido. 5. Quantos admiráveis feitos de muitas mulheres jazem sepultados no esqueci-
mento! Se a ela fosse dado por sorte viver nos tempos antigos, tão simples em sua admiração
pelas virtudes, quantos escritores, disputando entre si, celebrariam essa esposa que, esquecendo
ser uma fraca mulher, esquecendo o mar, terrível mesmo para os corações mais fortes, expôs ao
perigo sua própria vida para sepultar o cadáver, e não temeu seu perigo, porque pensava no enter-
ro do esposo. É celebrada pelos carmes a mulher "º que se ofereceu em substituição ao marido;
mas até mais querer dar-lhe sepultura com o perigo da vida, porque maior é o amor que enfrenta
um perigo igual para uma vantagem menor. 6. Depois disso, ninguém se admire de que ela não
tenha sido vista em público por dezesseis anos, durante os quais o marido governou o Egito, e que
não admitiu em casa nenhum habitante da província, e que nada pediu ao marido, e que nunca
permitiu a ninguém que lhe pedisse alguma coisa. Por isso, aquela província mexeriqueira e hábil
em dizer mal dos prefeitos, onde também os que eram isentos de culpa foram atingidos pela
maledicência, admirou-a como exemplo único de santidade, e, coisa dificílima para quem ama as
indiretas mesmo se perigosas, conteve a seu respeito toda liberdade de palavra, e hoje, sem espe-
rança, deseja uma prefeita a ela semelhante. Teria sido muito se aquela província durante dezes-
8 Filha de Novato.
8 Nada conhecemos acerca dessa mulher, que parece ser irmã da mãe somente pelo lado materno.
'º Alusão a Alceste, que sacrificou sua vida para salvar a do marido Admeto; mas Hércules, agradecido
pela hospitalidade que este lhe dera, tirou-a dos Infernos, restituindo-a ao esposo. Eurípides tratou desse
assunto numa cêlebre tragédia.
204 SÊNECA
seis anos a tivesse louvado; e, até mais, que a tenha ignorado. 7. Lembro esses fatos não para
dizer seus louvores, que um acento tão breve diminui, para que tu entendas a magnanimidade
dessa mulher, que não foi vencida pela ambição e pela avareza, companheiras e peste de toda
potência, e que o medo da morte, quando o navio já quebrado lhe mostrava iminente o naufrágio,
não assustou a ponto de fazer com que desistisse, presa ao marido morto, de procurar não uma
salvação para ela mas o modo de levar a salvo o cadáver para sepultá-lo. Tu deves mostrar-te
igual a ela em força da alma, e retomar coragem, e comportar-te de maneira que ninguém possa
pensar que te arrependes de ter tido a mim como filho.
XX — 7. Mas, visto que, não obstante tudo, teu pensamento amiúde correrá a mim, e ne-
nhum de teus filhos neste período será lembrado mais frequentemente do que eu (não porque eles
te sejam menos queridos, mas porque é natural que a mão pouse mais sobre a parte que dói), eis
como deves pensar-me: alegre e ativo, como se é quando tudo vai bem. De fato, tudo vai bem, pois
que a alma, livre de qualquer estorvo, pode atender às ocupações próprias dela, e agora compraz-
se em estudos menos severos, agora, ávida de verdade, eleva-se a considerar sua natureza e a do
universo. 2. Procura antes as terras e suas posições; depois as leis do mar que as circunda, e o
alternar-se da baixa e da alta maré; depois estuda o espaço medonho que liga a terra ao céu e que
está cheio do tumulto dos trovões e dos raios, dos sopros dos ventos e da chuva, da neve e da
saraiva; enfim, exploradas as zonas mais baixas, irrompe atê a sumidade do céu, e goza do espetá-
culo maravilhoso das coisas divinas e, lembrando sua eternidade, transcorre através de todos os
tempos, durante todo o passado e todo o futuro.
DA TRANQUILIDADE
DA ALMA
sa
SERENO A SENECA '
I — 1. Observando-me atentamente, descobri em mim, ó Sêneca, certos defeitos tão visíveis
que eu os poderia tocar com o dedo; outros que se dissimulam nas regiões mais profundas; outros,
enfim, que não são contínuos, mas que reaparecem somente a intervalos. Eu não hesito em dizer
que estes últimos são os mais desagradáveis de todos. Eles lembram aqueles inimigos que nos
rodeiam para nos assaltar no momento propício e com os quais não se sabe nunca se se deve estar
em pé de guerra, ou se se pode contar em um período de paz.
2. No entanto, a disposição na qual eu me surpreendo o mais frequentemente (pois. por que
não me confessarei a ti, como a um médico?) é de não estar nem francamente liberto de minhas
crenças e repugnâncias de outrora, nem novamente sob seu domínio. Se o estado no qual estou
não é o pior que possa existir, é, em todo caso, o mais lamentável e o mais bizarro: não estou nem
doente nem são.
3. Não me digas que todas as virtudes são fracas nos seus inícios e que com o tempo elas
tomam consistência e força. Também não ignoro que todos os benefícios que visam ao exterior,
como o brilho de uma dignidade, a glória da eloqiuência e todos aqueles que dependem do favor
público, têm necessidade de duração para crescerem: as virtudes precisam de tempo para amadu-
recer, e as qualidades que nos permitem seduzir graças a um simples verniz esperam que o correr
dos anos lhes acentue gradualmente as cores. Mas temo que o hábito que fortalece todas as coisas
possa consolidar em mim esta fraqueza: tanto no mal como no bem, um contato prolongado nos
faz tomar o gosto.
4. Em que consiste esta enfermidade de uma alma irresoluta, que não se inclina deliberada-
mente nem à virtude nem ao vício? Eu não saberei dizê-lo numa palavra, mas posso explicá-lo
pormenorizadamente. Indicar-te-ei o que sinto: tu acharás o nome da doença.
5. Tenho um profundo amor à simplicidade, e o confesso: o que amo não é nenhum leito
faustosamente preparado, não são de modo algum roupas que se tiram do fundo de um baú, que
se torturam debaixo de pesos'e de inúmeros parafusos, para obrigá-las a ficarem com lustro,?
mas um costume simples e grosseiro que se conserva sem cuidado e que se usa sem escrúpulo.
6. O que eu amo não é uma alimentação que muitos escravos preparam e olham comer, que
se encomenda não sei quantos dias antes e que é apresentada por não sei quantos braços: são pra-
tos fáceis de achar e de preparar, quenão têm nada de requintado, nem de raro; relativamente aos
quais se tem certeza de que não faltarão em nenhuma parte, que não pesam nem à bolsa nem ao
. estômago e que não tornam a sair de nenhum modo por onde eles entrarem. ?
7. O que eu amo é um servo simplesmente vestido, um pequeno escravo desajeitado, é a ma-
-ciça baixela de meu pai, homem rústico, cuja argentaria não trazia nem gravações, nem mesmo o
nome do artífice; é uma mesa que não deslumbra pelas suas cores marmóreas e que não seja
conhecida de toda cidade por ter pertencido sucessivamente a toda uma série de amadores, mas
que seja de uso cômodo e diante da qual não se vejam os olhos dos convivas nem arregalarem de
prazer nem de ciúmes.
? Sêneca imagina que o amigo Aneu Sereno (do qual bem pouco conhecemos: a ele o filósofo dedicou três
obras — A Perseverança do Sábio, Da Trangiilidade da Alma, O Lazer — para convertê-lo do epicurismo
ao estoicismo) lhe apresente algumas perguntas. Na verdade, Sêneca não responde exatamente às perguntas
e dúvidas do amigo, mas de modo geral estas páginas se colocam entre as mais brilhantes e vivazes do escri-
tor romano.
2 Prensas com manivelas (“prela”) para conservar as pregas.
3 Conforme o bem conhecido costume romano: vomitar para comer ainda...
208 SÊNECA
8. E, quando estou bem acostumado a essa maneira de viver, eis que me deixo fascinar pela
pompa de algum paedagogium, * pelo espetáculo de escravos mais cuidadosamente vestidos e
guarnecidos de ouro que para um desfile público, e de um batalhão de criados resplandecentes.
Igualmente me fascina uma casa onde tudo, até o solo que se pisa, é precioso, onde a riqueza é tão
pródiga nos menores recantos, que mesmo Os tetos reluzem, e onde uma multidão de cortesaãos se
oprime ao redor das fortunas que se desperdiçam. E que dizer daquelas àguas límpidas e transpa-
rentes, que correm ao redor das salas de festa; e das próprias festas dignas de sua decoração?
9. Posso dizer que o luxo, ao sair de uma longa e ingrata temperança, me envolve de repente
com seu brilho e me rodeia com seu tumulto, e sinto meus olhares vacilarem: eu o suporto menos
facilmente à vista do que no pensamento; e retorno de lá não corrompido mas desencorajado: não
mais sustento a cabeça alta no meio de meus pobres. móveis, sinto pungir-me uma dor secreta €
me ponho a duvidar sobre se todas aquelas suntuosidades não valem que as prefiramos. Nada há
em tudo isto que mude meus sentimentos, mas não deixa de haver algo suscetível de abalá-los.
10. Resolvi seguir a varonil energia de nossos preceitos e introduzir-me na vida pública.
Agradam-me as dignidades e os fasces: não certamente que a púrpura ou as varas do litor me
seduzam, mas para estar na possibilidade de melhor servir meus amigos e meus próximos e todos
os meus concidadãos e finalmente a humanidade inteira: com um ardor de noviço, inclino-me a
seguir Zenão, Crisipo e Cleanto, º nenhum dos quais, para falar a verdade, tomou parte nos negó-
cios públicos, mas dos quais muitos se tornaram discípulos. |
11. Minha alma, que não está habituada a choques, padece com a menor humilhação; ao so-
frer alguma injúria (como é comum encontrar em toda a existência humana) ou alguma contrarie-
dade, bagatelas, que me têm tomado mais tempo do qué elas valem a pena, volto-me à ociosidade
e, como os animais, por mais cansados que estejam, acelero o passo-ao retornar ao lar.
12. Decido, então, encerrar-me em casa: que ninguém me roube um dia, pois jamais ele me
indenizaria de uma tal perda; que minha alma não se incline a não ser para si mesma, que não
sonhe a não ser consigo; que não se ocupe de nada que a distraia, de nada que a submeta ao julga-
mento de outrem. Apreciemos uma tranquilidade que seja estranha a todas as preocupações públi-
cas ou particulares. .
13. Mas, desde que uma nobre leitura me exaltou o espírito e que grandes exemplos me esti-
mularam, não peço mais nada que saltar no forum para emprestar a um o apoio de minha pala-
vra, a outro o de uma atividade que poderá não servir de nada, mas que se esforçará, ao menos,
por ser útil para abater em pleno forum o orgulho de alguns audaciosos, que o sucesso tona
insolentes.
14. Em literatura, por Hércules, estou bem advertido de que não se deve ter em vista senão
as idéias e não se deve falar a não ser para exprimi-las: é preciso subordinar a forma ao pensa-
mento, de maneira que este, qualquer caminho que ele tome, veja as palavras seguirem sem esfor-
ço. Para que serve compor obras eternas? Por que querer que a posteridade pronuncie teu nome?
Tu nasceste para morrer: existe menos pretensão em se fazer ocultar em silêncio. º Escreve, pois,
para ocupar teu tempo, escreve para ter proveito e não para tua glorificação, num estilo despro-
vido de brilho: inútil esforçar-se mais que de ordinário, quando se trabalha para viver.
15. Sim, mas desde que meu espírito se eleva para concepções um pouco generosas, eis que
ele apura seu estilo e aspira dar à forma a mesma elevação que ao sentimento, e minha linguagem
tenta igualar a nobreza de meu pensamento. Esquecendo, então, meus princípios e os conselhos de
um gosto mais sóbrio, lanço-me numa sublimidade de estilo e não sou mais eu que falo pela
minha boca.
16. Para abreviar esta enumeração, eu torno a encontrar sempre em mim esta fraqueza de
uma alma cheia de boas intenções, e temo cair nela ou, o que seria mais angustioso, ficar perpe-
tuamente suspenso à beira deste abismo; e me pergunto se meu caso não seria por acaso mais
grave do que ele me parece: pois temos os olhos indulgentes quando se trata de nossa pessoa e O
amor-próprio obscurece sempre nossos julgamentos.
17. Creio que há muitos homens que poderiam ter-se elevado à sabedoria se não se tivessem
Julgado filhos da fortuna, se não tivessem fingido ignorar algumas de suas imperfeições e não
tivessem tido os olhos fechados diante dos outros; pois não se deve irnaginar que nossa própria
* Escola para as pajens, nas casas dos ricos romanos,
S Filósofos gregos: Zenão (325-246 a.C.) fundou a doutrina do estoicismo, que foi continuada por seu disci-
pulo Cleanto (331-233 a.C.) e sistematizada por Crisipo (278-204 a.C.).
8 Ao pé da letra: “Em se fazer sepultar com funerais sem fausto”.
DA TRANQUILIDADE DA ALMA 209
adulação nos seja menos funesta que a de outrem. Quem ousa dizer a si mesmo a verdade? Qual
é o homem que, no meio de uma multidão de cortesãos que o adulam, não exagera ainda mais as
lisonjas que lhe dirigem?
18. Assim, pois, eu te suplico, se conheces um remédio capaz de deter as indecisões que me
agitam, não me julgues indigno de te dever a tranquilidade. Sei que esta inconstância da alma não
tem nada de muito perigoso e que ela não acarreta nenhuma perturbação profunda; e para empre-
gar uma comparação que te faça compreender do que me queixo: a tempestade não mais me agita,
mas não sinto menos enjôo. Liberta-me, pois, deste mal e vem em auxílio de um desventurado que
ainda sofre à vista da terra.
SENECA A SERENO
Il — 1. Eis que faz muito tempo, por Hércules, que eu me pergunto a mim mesmo sem
nada dizer, ó Sereno, com o que poderia comparar uma semelhante disposição de espírito; e o que
me parecia assemelhar- lhe mais é o estado daquelas pessoas que convalescem de uma longa é
grave enfermidade, e sentem ainda de tempos em tempos alguns calafrios e leves indisposições; e
que, uma vez livres dos últimos traços de seu mal, continuam a se inquietar com perturbações
imaginárias, a se fazer, ainda que restabelecidas, tomar o pulso pelo médico e consideram como
febre a menor impressão de calor. Sua saúde, ó Sereno, não deixa nada mais a desejar, mas aque-
las pessoas não estão habituadas novamente à saúde: assim, ainda se vê estremecer e agitar-se a
superfície de um mar calmo, quando a tempestade acabou de se aplacar.
2. Assim também os procedimentos enérgicos nos quais encontramos auxílio anteriormente
não são mais próprios: tu nãó precisas mais nem lutar contra ti nem te censurar nem te atormen-
tar. Estamos na etapa fina!: tem fé em ti mesmo e convence-te de que Segues o bom caminho, sem
te deixares desviar pelas inúmeras pegadas dos viajantes extraviados à direita ou à esquerda e dos
quais alguns se desgarram nas proximidades da estrada.
3. O objeto de tuas aspirações é, aliás, uma grande e nobre coisa, e bem próxima de ser divi-
na, pois que é a ausência da inquietação. Os gregos chamam este equilíbrio da alma de “euthy-
mia” e existe sobre este assunto uma muito bela obra de Demócrito. Eu o chamo “tranqlilidade”,
pois é inútil pedir palavras emprestadas para nosso vocabulário e imitar a forma destas mesmas:
é a idéia que se deve exprimir, por meio de um termo que tenha a significação da palavra grega,
sem no entanto reproduzir a forma.
4. Vamos, pois, procurar como é possível à alma caminhar numa conduta sempre igual e
firme, sorrindo para si mesma e comprazendo-se com seu próprio espetáculo e prolongando
indefinidamente esta agradável sensação, sem se afastar jamais de sua calma, sem se exaltar, nem
se deprimir. Isto será tranquilidade. Procuremos, de um modo geral, como se pode alcançá-la: tu
tomarás, como entenderes, tua parte do remédio universal.
Da Mas ponhamos desde logo o mal em evidência, em toda a sua diversidade: cada qual nele
reconhecerá o que lhe diz respeito pessoalmente. Ao mesmo tempo, dar-te-ás conta de tudo quan-
to tens menos a sofrer deste descontentamento de ti, do que aqueles que, estando ligados por uma
profissão de fé faustosa e ornando com um nome pomposo a miséria que os consome, teimam no
papel que escolheram, menos por convicção que por questão de honra.
6. Para todos os doentes o caso é o mesmo: tanto tratando-se daqueles que se atormentam
por uma inconstância de humor, seus desgostos, sua perpétua versatilidade e sempre amam
somente aquilo que abandonaram, como aqueles que só sabem suspirar e bocejar. Acrescenta-lhes
aqueles que se viram € reviram como as pessoas que. não conseguem dormir, e experimentam
sucessivamente todas as posições até que-a fadiga as faça encontrar o repouso: depois de ter
modificado cem vezes o Plano de sua existência, eles acabam por ficar na posição onde os sur-
preende não a impaciência da variação mas a velhice, cuja indolência rejeita as inovações. Ajun-
ta, ainda, aqueles que não mudam nunca, não por obstinação, mas por preguiça, e que vivem não
como desejam, mas como sempre viveram.
7. Hã, enfim, inúmeras variedades do mal, mas todas conduzem ao mesmo resultado: o
descontentamento de si mesmo. Mal-estar “que tem por origem uma falta de equilíbrio da alma e
das aspirações tímidas ou infelizes, que não se atrevem a tanto quanto desejam, ou que se tenta
em vão realizar e pelas quais nos cansamos de esperar. É uma inconstância, uma agitação perpé-
tua, inevitável, que nasce dos caracteres irresolutos. Eles procuram por todos os meios atingir o
objeto de seus votos: preparam-se e constrangem-se a práticas indignas e penosas. E, quando seu
210 SÊNECA
esforço não é recompensado, sofrem não de ter querido o mal, mas de o ter querido sem sucesso.
8. Desde então, ei-los presos, ao mesmo tempo, do arrependimento de sua conduta passada
e do temor de nela recair, e pouco a pouco se entregam à agitação estéril de uma alma que não
encontra para suas dificuldades nenhuma saída, porque ela não é capaz nem de mandar nem de
obedecer às suas paixões; entregam-se à aflição de uma vida que não chega a ter expansão, e,
enfim, a esta indiferença de uma alma paralisada no meio da ruína de seus desejos.
9. Tudo isto se agrava quando, superada uma tão odiosa angústia, nos refugiamos no ócio e
nos estudos solitários, nos quais não se saberá resignar uma alma apaixonada da vida pública, e
paciente de atividade, dotada de uma necessidade natural de movimento e que não encontra em si
mesma quase nenhum consolo. De sorte que, uma vez atraídos pelas clistrações que as pessoas
atarefadas devem mesmo às suas ocupações, não mais suportamos nossa casa, nosso isolamento
e as paredes de nosso quarto; e nos vemos com amargura abandonados a nós mesmos.
10. Daí este aborrecimento, este desgosto de si, este redemoinho de uma alma que não se fixa
em nada, esta sombria impaciência que nos causa nossa propria inércia, principalmente quando
coramos ao confessar as razões, e o respeito humano recalca em nós nossa angústia: estreita-
mente encerradas numa prisão sem saída, nossas paixões aí se asfixiam. Daí a melancolia, a lan-
guidez e as mil hesitações de uma alma indecisa, que a semi-realização de suas esperanças pro-
longa na ansiedade e seu malogro na desolação; daí esta disposição para amaldiçoar seu próprio
repouso, para lamentar-se por não ter nada a fazer e para invejar furiosamente todos os sucessos
do próximo (pois nada alimenta.a inveja como a preguiça desgraçada, e se desejaria ver todo o
mundo malograr, porque não se soube obter êxito).
11. Depois deste despeito pelos sucessos dos outros e deste desespero de não ser bem sucedi-
do, começa o homem a se irritar contra a sorte, a se queixar do século, a se recolher cada vez mais
em seu canto e aí se abriga sua dor no desânimo e no aborrecimento. A alma humana é, com efei-
to, por instinto ativa e inclinada ao movimento. Toda ocasião para se despertar e para se afastar
de si lhe é agradável, mais particularmente entre as naturezas deterioradas, que pretendem a coli-
são das ocupações. Certas úlceras provocam a mão que as irritará e se fazem raspar com prazer:
o sarnento deseja o que irrita sua sarna. Pode-se dizer o mesmo destas almas, em que as paixões
brotam como as úlceras malignas e que consideram um prazer atormentar-se e sofrer.
12. Não existem igualmente prazeres corporais que se reforçam corn uma sensação dolorosa,
como quando uma pessoa se vira sobre o lado que ainda não está fatigado e se agita sem cessar
procurando uma posição melhor? Semelhante a Aquiles, de Homero, ” deitando-se ora de bruços
ora de costas e experimentando sucessivamente todas as posições possíveis. E não é isso o natural
da doença, nada suportar por muito tempo e tomar a mudança por um remédio?
13. Daí aquelas viagens que se empreendem sem nenhum intuito, aquelas voltas a esmo ao
longo -das costas, e esta inconstância sempre inimiga da situação presente, que alternativamente
experimenta o mar e a terra: “Depressa, vamos a Calábria”. Logo se está cansado das doçuras da
civilização. “Visitemos as regiões selvagens, exploremos o Brútio (Calábria) e as florestas da
Lucânia.” Todavia, nestas solidões, suspira-se por qualquer coisa que dê descanso aos olhos fati-
gados pelo rude aspecto de tantos lugares áridos. “A caminho de Tarento, com seu porto e seu
inverno tão doce, e para esta opulenta região que seria capaz de sustentar sua população de
outrora !? Mas não, retornemos a Roma: faz muito tempo que meus ouvidos estão privados dos
aplausos e do barulho do circo e tenho desejo de agora ver correr sangue humano.”
14. Assim como as viagens se sucedem, um espetáculo substitui o outro, e como diz Lucré-
cio: “Assim cada um foge sempre de si mesmo”.º Mas para que fugir se não nos podemos evitar?
Seguimo-nos sempre, sem nos desembaraçarmos desta intolerável companhia.
15. Assim, convençamo-hnos bem de que o mal do qual sofremos não vem dos lugares, mas
de nós mesmos, que não temos força para nada suportar: trabalho, prazer, nós mesmos; qualquer
coisa do mundo nos parece uma carga. Isto conduziu muitas pessoas ao suicídio: porque suas per-
pétuas variações as faziam dar voltas, indefinidamente, no mesmo círculo, e elas consideravam
impossível toda novidade. Assim tomaram desgosto pela vida e pelo mundo e sentiram aumentar
em si o clamor furioso dos corações: “Mas como, sempre a mesma coisa?”
7 Homero, Ilíada (XXIV): Aquiles ficou inconsolável pela morte do amigo Pátroclo.
8 Famosa cidade da Lucânia, Tarento foi florescentíssima colônia grega; mas no tempo de Sêneca estava
meio deserta.
* Lucrécio, Da Natureza (II, 1066); na verdade, Sêneca acrescentou no verso de Lucrécio o advérbio “sem-
per” (= sempre).
DA TRANQUILIDADE DA ALMA, 211
O REMÉDIO. DOUTRINA DE ATENODORO
WI — 1. “Queres saber o que aconselho contra esta melancolia? O melhor seria, na opinião
de Atenodoro, 'º obrigar-se à atividade, tomando parte nos negócios públicos e procurando para
si obrigações sociais. Com efeito, vêem-se homens que passam seus dias a expor o corpo à ação
do sol, a excitá-lo e a cuidá-lo: os atletas não podem fazer nada de mais útil do que exercitar
desde manhã até a noite seu vigor físico e seus músculos, aos quais consagram sua existência. Da
mesma maneira, para nós, que preparamos nossas almas para as lutas da vida civil, o mais belo
emprego que podemos fazer de nosso tempo é consagrá-lo inteiramente à tarefa que escolhemos;
pois, desde que uma pessoa tem vontade de se tornar útil a seus concidadãos e à humanidade, o
“meio de nisto se exercitar e aperfeiçoar ao mesmo tempo é lançar-se imediatamente em plena ação
e administrar segundo suas aptidões os interesses públicos e particulares.
2. “Mas”, acrescenta ele, “como no louco combate das ambições, no meio de tão maus espí-
ritos que caluniam nossas melhores intenções, a retidão não está nada segura, pois deverá encon-
trar mais dissabores que satisfações, nosso dever é renunciar ao forum e à vida pública. Mas uma
alma elevada encontra mesmo na vida particular abundantes ocasiões para desenvolver seu zelo,
e se a fúria do leão e dos outros animais diminui quando são colocados na jaula, hão é da mesma
maneira com o ardor dos homens, cujas grandes ações se tornam maiores quando realizadas em
segredo.
3. “Será necessário, todavia, ao se esconder uma pessoa, em qualquer lugar onde se abrigue
seu ócio, procurar tornar-se útil aos indivíduos e à sociedade. pela sua inteligência, sua palavra €
seus conselhos. Pois não se é unicamente útil à República lançando candidatos, defendendo acu-
sados, opinando sobre a guerra e a paz; exortar a juventude e, num tempo tão pobre de mestres
de moral, inspirar aos corações a virtude, empolgar, deter os extraviados que se lançam ao
dinheiro e ao vício e, na falta de melhor, retardar ao menos sua queda: é trabalhar, no domínio
particular, pelo bem público.
4. “Por que dizer que o pretor, que julga entre estrangeiros e cidadãos, ou que o pretor urba-
no, que repete a quantos aparecem a fórmula que lhe dita um assistente, fazem obra mais impor-
tante que o filósofo, o qual ensina o que é justiça e o que é o dever, o que são a paciência, a cora-
gem, o desprezo pela morte, o conhecimento dos deuses e, finalmente, como uma boa consciência
é um bem que se adquire facilmente?
5. “Por conseguinte, se consagras ao estudo um tempo que roubas à vida social, tu não podes
ser acusado nem de abandonar nem de faltar ao teu dever: o bom soldado não está necessaria-
mente na linha de frente, nem defende necessariamente o flanco direito ou o flanco esquerdo: ele
pode também vigiar as estradas, posto que por ser menos perigoso não é contudo supérfluo; fazer
sentinela durante a noite e velar sobre o arsenal: todas funções que não têm nada de mortífero e
que todavia fazem parte das obrigações militares.
6. “Ao te isolares no estudo, tu te livrarás de todos às desgostos da vida, não mais desejarás
a noite por aborrecimento do dia e não mais serás uma carga para ti mesmo, nem inútil aos
outros. Farás inúmeros amigos e todo homem de bem virá espontaneamente ao teu encontro: pois
jamais, por mais obscura que seja, a virtude vive ignorada; existem sinais que revelam sua presen-
ça, € a aquele que for digno sempre a descobrirá.
7. “Se, com efeito, renunciarmos a toda relação com o próximo e nos afastarmos do gênero
humano para viver unicamente concentrados em nós mesmos, este isolamento, esta indiferença
absoluta, terão por resultado a mais completa ociosidade: começaremos a construir de um lado e
a demolir do outro; a repelir o mar, a desviar as águas lutando contra as dificuldades do terreno
e a desperdiçar o tempo, que a natureza nos dá para aproveitar.
8. “Assim procedendo, somos ora avarentos, ora generosos: uns, ao gastar, fazem um cál-
culo minucioso de seu emprego e outros nada guardam. Assim, é o cúmulo que um ancião carre-
gado de anos seja incapaz de provar.o quanto tem vivido, a não ser pela invocação da sua própria
idade.”
1º Édifícilafirmar se o Atenodoro aqui lembrado é o mestre de Augusto e discípulo do estóico grego Posidô-
nio, ou um outro Atenodoro, igualmente estóico, amigo de Catão e cognominado “Kordylion” (corcunda).
21 | SÊNECA
DOUTRINA PESSOAL DE SENECA
IV — 1. Por mim, muito querido Sereno, sou de opinião que Atenodoro se inclina e se reti-
ra rapidamente demais diante das circunstâncias. Não contesto que não haja casos onde se deva
recuar; mas lentamente, passo a passo, salvando as bandeiras e a honra. militar. Pois obtém-se do
inimigo muito mais respeito e garantias quando nos rendemos com as armas. 2. Aqui está, segun-
do minha opinião, o que deve fazer a virtude e aquele que deseja a virtude: se o destino triunfa e
lhe tira os meios de agir, que ele não se apresse em virar as costas e fugir, largando suas armas
e tratando de procurar um abrigo, como se existisse um lugar no mundo onde se pudesse escapar
do destino: mas que ele imponha somente maior reserva à sua atividade e procure com perspi-
cácia algum emprego que lhe permita tornar-se outra vez útil à cidade.
3. A carreira militar lhe é proibida? Que ele pretenda as magistraturas: está ele reduzido à
vida particular? Que advogue. O silêncio lhe é imposto? Que ele dê a seus concidadãos o apoio
mudo de sua presença. Mesmo o acesso ao forum lhe é perigoso? Que nas residências particula-
res, nos espetáculos, à mesa, ele se mostre companheiro honesto, amigo fiel, conviva moderado.
Ele não pode mais cumprir com seus deveres de cidadão? Restam-lhe os deveres de homem.
4. Daí o princípio do qual nós, estóicos, estamos orgulhosos: o de não nos encerrarmos nas
muralhas de uma cidade só, mas de entrarmos em contato com o mundo inteiro e de professarmos
que nossa pátria é o universo, a fim de oferecer à virtude o mais amplo campo de ação. Excluem-
te do tribunal, expulsam-te da tribuna e dos comícios? Volta-te e olha: quantas extensões imensas,
quantas nações se abrem para ti! Por mais vasta que seja a parte do mundo que te é vedada, aque-
la que te é permitida será sempre maior.
5. Mas repara que nem todo mal vem de ti. Pois não queres tomar parte nos negócios públi-
cos, a não ser como cônsul prítane, “ceryx” ou “sufet”.!! Não queres tu igualmente fazer a guerra
como general ou como tribuno? Mesmo se não figuras na primeira linha e que a sorte te rebaixa
entre os triários, '? combate de lá, por meio de tua voz, de tuas exortações, de teu exemplo e de
tua moral: tendo as mãos cortadas, ainda podemos servir nosso partido, continuando firmes no
nosso posto e animando os outros com nosscs gritos. 6. Adota uma tática análoga: se a sorte te
afasta das primeiras classes da República, resiste e ajuda os outros com teus brados; se te apertam
a garganta, resiste ainda e auxilia-os por meio de teu silêncio. Jamais um bom cidadão perde seu
trabalho: este é ouvido e é visto. Sua fisionomia, seus gestos, sua muda obstinação e seu modo de
andar, tudo auxilia.
7. Há na medicina substâncias que, sem que se tenha necessidade de prová-las ou de tocá-las,
agem pelo aroma; assim é a virtude: sua benfazeja influência se exerce mesmo a distância e sem
que ela seja visível. Que ela dê expansão e seja livre em seus impulsos, ou que ela tenha dificul-
dade em se desfraldar e seja reduzida a recolher suas velas; que ela seja ociosa, muda, estreita-
mente aprisionada, ou que se abra com facilidade, em todas as situações possíveis ela é útil. Acre-
ditas tu que o repouso bem empregado não é um exemplo proveitoso? 8. Assim, a melhor regra
é combinar o repouso com a ação, todas as vezes que a atividade pura nos for perturbada por
impedimentos acidentais ou por condições políticas: pois jamais todos os caminhos nos serão
interditados, de modo que não nos reste nenhum meio de praticar uma ação virtuosa.
V — 1. Onde encontrar uma cidade mais miserável que Atenas, na época em que era marti-
rizada pelos trinta tiranos? Mil e trezentos cidadãos, elite da população, pereceram sob seus gol-
pes e sua crueldade, que, longe de saciar, se exasperava cada vez mais. Numa cidade que possuía
o Areópago, o mais justo dos tribunais, que ao lado de seu Senado possuía entre o povo um outro
Senado, via-se cada dia reunir-se um sombrio grupo de carrascos e uma sinistra cúria estreita de-
mais para tantos tiranos. Que tranqgiilidade podia conhecer esta cidade que possuía tantos tira-
nos, até para servir de guarda-costas? !º Não se podia mesmo conceber a menor esperança de
liberdade e nenhum remédio parecia possível contra uma tal quantidade de desgraças: onde esta
desafortunada cidade encontrou tantos Harmódios?" *
* Cônsul prítane: supremo magistrado em algumas cidades gregas; nada se sabe acerca do “ceryx”;
“sufet”? era o supremo magistrado de Cartago.
'2 Soldados que constituíam a terceira linha de um exército romano disposto em ordem de batalha.
'* Depois da derrota na guerra contra Esparta, Atenas teve um governo de trinta tiranos (404 a.C.), que
cometeram abusos pelo que, um ano depois, foram expulsos e restabelecida a democracia. Ao que parece,
conforme a frase irônica de Sêneca, cada tirano estava cercado por outros tiranos ou satélites.
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DA TRANQUILIDADE DA ALMA 213
2. Sócrates, entretanto, ia e vinha, tranquilizava os senadores desconsolados, pregava a cora-
gem àqueles que perdiam a esperança na República; aos ricos; cuja opulência os fazia estremecer,
censurava este arrependimento tardio de sua funesta cobiça; a quem o queria imitar, oferecia o
grande exemplo de um cidadão que marcha livre, com trinta déspotas ao seu redor. 3. Não obs-
tante, eis que Atenas, ela mesma, fez morrer este homem numa prisão: ele desafiou impunemente
todo um bando de tiranos, e um governo livre não pôde tolerar sua liberdade. Vê, pois, que mesmo
numa República oprimida o honesto encontra ocasião para mostrar quem ele é, e que numa Repú-
blica próspera e feliz reinam. ao mesmo tempo a crueldade, a inveja e mil outros vícios
dissimulados. À
4. Por conseguinte, conforme a situação da República e o que a fortuna nos permitir, lançar-
nos-emos a todo pano ou nos recolheremos em nós mesmos; mas, em todos os casos, nós nos
moveremos sem nos deixarmos paralisar pelo temor. Aquele que assim proceder, esse será verda- E
deiramente homem: porque, sentindo-se envolvido pelos perigos e não ouvindo ao seu redor senão -
o fragor das armas e das prisões, evitará a destruição de sua virtude nos obstáculos, mas também
não a esconderá: pois enterrar-se não é conservar-se.
5. Se não me engano, Cúrio Dentato dizia que ele preferia estar morto a viver morto: o pior
dos males não é suprimir-se do número dos vivos, antes de morrer? Mas façamos assim: se
pertencemos a um tempo no qual a vida política é dificil de ser praticada, tornemos mais ampla
a parte do ócio e do estudo: como o marinheiro nas travessias perigosas, multipliquemos as esca-
las; e, sem esperar que os afazeres nos abandonem, desprendamo-nos deles espontaneamente.
VI — 1. A este respeito devemos considerar primeiramente a nós mesmos, depois as tarefas
que queremos empreender, depois os homens para os quais ou com os quais teremos de trabalhar.
2. Antes de tudo, é indispensável avaliar-se uma pessoa a si mesma, pois na maioria das vezes
exageramos nossas capacidades. Um cairá por ter presumido demais de sua eloqiência; outro
quer tirar de seu patrimônio mais do que este pode render; um terceiro esgota seu corpo débil em
labores extenuantes. 3. Alguns têm uma timidez incompatível com a vida de negócios, que exige
uma fronte intrépida; outros têm uma rigidez que não lograria êxito na corte; outros não sabem
dominar sua cólera e explodem com palavras imprudentes ao menor mau humor; outros, enfim,
são incapazes de reprimir sua veia e deixam-se levar contra sua vontade a prazeres perigosos:
para todos estes, o repouso é preferível à atividade. Um caráter ardente e indócil deve evitar tudo
que possa instigá-lo a uma independência perigosa.
5. Devemos examinar se nossas disposições naturais nos tornam mais aptos à ação ou aos
trabalhos sedentários e à contemplação pura; e inclinar-nos do lado para o qual nosso gênio nos
conduz. Isócrates arrancou com viva força Éforo do forum, quando se convenceu de que este era
mais indicado para escrever história. ! º* Jamais um talento que se força produz o que se esperava;
e forçar a natureza é sempre inútil.
6. Em seguida, devemos avaliar nossas próprias empresas e colocar na balança nossas forças
e nossos projetos. Com efeito, devemos sentir-nos sempre superiores à tarefa que realizamos: um
fardo desproporcionado só pode esmagar quem o carrega. De outro lado, há ocupações que, sem
terem muita importância, estão cheias de mil complicações: deve-se evitá-las por causa dos apu-
ros sem fim, aos quais elas darão origem. Não nos aventuremos jamais a um negócio. em que
poderíamos correr o risco de ficar sem saída: aceitemos aqueles nos quais estamos seguros, ou
que pelo menos temos esperanças de terminar: deixemos aqueles que se complicam quanto mais
se trabalha e que não podem ser interrompidos quando se quer.
7. Deve-se finalmente escolher com cuidado os homens: ver se eles merecem que lhes consa-
gremos uma parte de nossa existência e se são gratos ao sacrifício de tempo que lhes fazemos;
pois há os que chegam a considerar os serviços que lhes prestamos como um benefício para nós
mesmos.
8. Atenodoro declarava que ele não iria cear mesmo com alguém que não lhe devesse nenhu-
ma obrigação. Tu podes crer, quanto menos ele havia de ir, com os que pagam os serviços de seus
amigos por meio de um jantar e que consideram cada prato de sua mesa como uma nova generosi-
!* Eáípias, filho de Pisístrato, reinou em Atenas com brandura; mas, depois do assassinato do irmão Hipar-
co, tornou-se cruel e foi morto por Harmódio e Aristogitão (514 a.C.).
18 A obra de Isócrates, famoso orador grego (436-338 a.C), exerceu grande influência sobre Cícero: Quan-
to a Éforo, pouco ou nada se sabe; foi discípulo de Isócrates e escreveu uma vasta obra de história, que não
chegou até nós.
EV
214 SÊNECA
dade: como se eles honrassem as pessoas comendo em excesso. Suprime estes testemunhos e
espectadores, pois um banquete a portas cerradas não terá mais nenhum prazer para eles. ! º
VII — 1. Mas nadá agrada tanto à alma como uma amizade fiel e doce. Que felicidade a
de encontrar corações aos quais se possa sem temor confiar quaisquer segredos; consciências, que
nos temem menos do que a nossa; companheiros, cuja palavra acalma nossas inquietações, cujos
conselhos guiam nossas decisões. cuja alegria dissipa nossa tristeza e cuja vista seja para nós um
prazer ! Naturalmente, escolhê-los-emos também isentos de paixões, o quanto for possível, pois o
o vício é contagioso: ele se apodera de nós desde que nos aproximamos e seu contato é funesto.
2. Durante uma epidemia deve-se evitar demorar junto de pessoas já contaminadas e que
são vítimas do flagelo; pois contrairemos seu mal e só seu hálito já nos contaminará. Do mesmo
modo, quando se tratar de escolher nossos amigos, apliquemo-nos para não nos ligarmos a não
ser com homens o menos possível corrompidos: é querer propagar o mal colocar indivíduos sãos
em contato com enfermos. Fora disso, não exijo que o prudente seja o único objeto de tuas simpa-
tias ou de teus primeiros passos: e onde encontrarias tu este mortal sem igual, que já procuramos
durante tantos séculos? O melhor é o menos mau.
3. Apenas serias tu favorecido na tua escolha, se escolhesses amigos virtuosos entre os Pla-
tões, os Xenofontes e em toda aquela fecunda linhagem dos sucessores de Sócrates, ou se pudesses
ter a contribuição do século de Catão, que produziu tantas personagens dignas de serem contem-
porâneas de um Catão. (Produziu também muitos malvados, que tramaram crimes piores que os
de qualquer outra época: é que uns e outros eram igualmente necessários para valorizar Catão;
são-lhe necessárias pessoas de bem para comparar seu mérito, e más, para seu valor.).Mas hoje
em dia, com tão grande penúria de pessoas honestas, deve-se ser menos exigente na escolha.
4. Evitemos, porém, o mais possível as naturezas tristes e queixosas, que não deixam esca-
par nenhuma ocasião para se lamentar. Por mais fiel, por mais dedicado que possa ser, um
companheiro de humor inconstante e que se queixa a cada mornento é inimigo de nossa
“trangiilidade.
MAUS EFEITOS DA RIQUEZA
VIII — 1. Passemos ao domínio das riquezas, principal fonte das misérias dos homens:
pois, comparando-se todos os nossos outros perigos, prazeres, doenças, temores, desgostos, sofri-
mentos e preocupações de toda espécie, com os males que nascem do dinheiro, será deste lado que
muito claramente penderá a balança.
2. Figuremo-nos como se suporta mais facilmente não possuir do que perder; e percebe-
remos que a pobreza tem muito menos tormentos a temer e muito menos riscos a correr. Pois é
um erro pensar que os ricos aceitam mais corajosamente suas penas: que o corpo seja grande ou
pequeno, as feridas lhe são igualmente dolorosas. 3. Bion disse com fineza: “Não é porque se tem
mais cabelos sobre a cabeça que é menos desagradável sentir arrancá-los”." ? Não é diferente no
caso do pobre e do rico, e seu sofrimento é o mesmo: o dinheiro se apega tão intimamente à alma,
que não se pode arrancá-lo sem dor. É, aliás, eu o repito, mais suportável e mais simples nada
adquirir do que perder alguma coisa: daí vem que se vê um ar mais alegre nas pessoas que a fortu-
na jamais visitou do que naquelas que ela traiu.
4. É o que Diógenes 'º compreendeu na sua sublime sabedoria; e dispôs-se de tal modo que
nada lhe pudesse ser tirado. Chama isto pobreza, necessidade ou miséria; dá a esta confiança não
importa que nome afrontoso: eu cessarei de julgar Diógenes feliz, quando tu me achares um outro
homem que não tenha nada para perder. Ou eu me engano, ou é ser rei viver cercado de pessoas
rapaces, de trapaceiros, de bandidos, de ladrões e ser o único no mundo que está ao abrigo de seus
crimes. 5. Se se duvida da felicidade de Diógenes, que se duvide também da situação dos deuses
imortais, e que se pergunte se eles não são infelizes por não possuírem nem propriedades, nem jar-
dins, nem terras valorizadas pelos braços de mercenários, nem capitais colocados com grandes
18 Aqui deve haver uma vasta lacuna no texto.
17 Bíon foi poeta satírico e filósofo cínico grego (séc. III a.C.). A tradução da frase, ao pé da letra: “Não
ê menos penoso para o cabeludo do que para um calvo sentir arrancarem-lhe os cabelos”.
18 O cínico Diógenes, contemporâneo de Alexandre Magno, pregou a volta do homem ao estado de
natureza.
DA TRANQUILIDADE DA ALMA 215
juros na praça do comércio. Não é uma vergonha estar fascinado pela riqueza? Vamos! Volta-te
para o céu: aí verás deuses despojados, dando tudo ou nada conservando para si. É, pois, pobre,
no teu parecer, ou semelhante aos deuses imortais o homem que se despoja de todos os bens que
dependem da fortuna?
6. Chamas tu feliz a Demétrio, o alforriado de Pompeu, 'º que teve a audácia de eclipsar a
opulência de seu patrão? Cada dia era-lhe apresentada a lista de seus escravos, como a um gene-
ral o efetivo de suas tropas: ele, que devia considerar-se rico com dois subalternos ?º e uma cela
pouco espaçosa ! 7. Mas Diógenes não tinha senão um escravo que se evadiu: indicaram-lhe onde
ele estava, mas o filósofo não se dignou repreendê-lo: “É vergonhoso”, disse ele, “que Manés
possa passar sem Diógenes e não Diógenes sem Manés”. Para mim é como se ele tivesse dito:
Fortuna, vai ver outro lugar: Diógenes não possui mais nada sobre o que tu ainda tenhas direitos.
Meu escravo fugiu? Mas não, sou eu que estou “livre”.
8. Um numeroso pessoal exige que o habilitem, que o alimentem; deve-se prover ao apetite
de tantos animais devoradores, é preciso comprar-lhes roupas, é preciso tirar partido das criaturas
que não obedecem a não ser com lágrimas e maldições. Quanto mais feliz é aquele que não deve
nada a ninguém, a não ser a alguém para quem é fácil recusar: isto é, a si mesmo.
9. Mas, visto que não temos uma semelhante energia de alma, limitemos ao menos a exten-
são de nossos bens, a fim de estarmos menos expostos às injúrias da fortuna. Os homens de talhe
medíocre, que podem abaixar-se atrás de seus escudos, saem mais facilmente do perigo do que
aqueles que os excedem e cuja vigorosa corpulência se oferece de todos os lados aos golpes. Para
o dinheiro, a verdadeira medida consiste em não cair na pobreza, mas aproximar-se dela o mais
possível.
IX — 1. Logo, esta limitação nos será puramente agradável, se tomarmos previamente o
gosto pela economia, sem o qual as maiores fortunas são ainda insuficientes e mesmo as mais
modestas se prestarão ao desperdício; tanto mais que o remédio está ao nosso alcance e que a
pobreza mesma. secundada por gostos simples, pode-se transformar em riqueza. 2. Habituemo-
“nos a ter o luxo à distância e a fazer uso da utilidade dos objetos e não de sua- sedução exterior.
Comamos para matar a fome, bebamos para apagar a sede e reduzamos ao necessário a satisfa-
ção de nossos desejos. Aprendamos a andar com nossas pernas, a regular nosso vestuário e nossa
alimentação, não sobre a moda do dia, mas sobre o exemplo dos antigos. Aprendamos a cultivar
em nós a sobriedade e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir nossa vaidade, a dominar nos-
sas cóleras, a considerar a pobreza com um olhar calmo, a considerar a frugalidade, apesar de
todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejos naturais; a não ter
nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia
seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos.
3. É impossível ao homem preservar-se suficientemente contra todos os caprichos e todas as
injustiças do destino, para não sofrer frequentes tormentas, quando se está com as armadas no
mar. Deve-se reduzir o espaço que se ocupa, se se quer que as setas da fortuna caiam no vácuo:
daí resulta que o exílio e a desgraça são por vezes de um efeito salutar e que as desgraças medío-
cres curam por vezes outras mais graves. Quando uma alma. surda aos bons conselhos, se esquiva
dos tratamentos mais suaves, não é querer seu bem submetê-la à pobreza, ao descrédito público
e à proscrição? Um mal combate o outro. Tomemos, pois, o hábito de nos abstermos de especta-
dores quando ceamos, de não nos sujeitarmos a não ser a um pequeno número de escravos, de não
termos roupas a não ser para O uso que as criou e de nos alojarmos modestamente. Não é só nas
corridas e nos torneios do circo, é também na arena da vida que é preciso saber curvar-se.
4. As despesas de ordem literária, as mais justas de todas, não são estas mesmas razoáveis,
a não ser que sejam moderadas. Para que servem inúmeros livros e bibliotecas, se o proprietário
encontra apenas o tempo em sua vida para ler as etiquetas? Uma profusão de leituras sobrecar-
rega o espírito, mas não o ilustra; e melhor seria aplicar-se muito a um pequeno número de auto-
res do que vagar no meio de muitos. 5. Quarenta mil volumes foram queimados em Alexandria. ?
Quantos outros exaltam este esplêndido monumento da magnificência real, como Tito Lívio, que
o chama a obra-prima do gosto e da solicitude dos reis. Eu não vejo lá nem gosto nem solicitude,
mas orgia da literatura; e quando digo da literatura minto, pois o cuidado pelas letras lá não era
1º Demétrio ficou famoso pela sua riqueza, prodigalidade e arrogância (Plutarco, Pompeu, XL, 1-3).
2º Subalternos (“vicarii”): escravos de categoria inferior, subordinados a outro escravo.
21 Em 49 a.C. um incêndio destruiu grande parte da biblioteca de Alexandria, criada pelos ptolomeus,
descendentes de um general de Alexandre Magno.
216 .SÊNECA
cultivado: aquelas belas coleções só eram constituídas para amostra. Quantas pessoas despro-
vidas da mais elementar cultura têm também livros, que não são de modo algum instrumentos de
estudo, mas que adornam suas salas de refeições! Compremos os livros dos quais temos necessi-
dade, não os compremos para ostentação.
6. É mais moral, dizes tu, assim gastar seu dinheiro, em lugar de o desperdiçar em vasos de
Corinto e em quadros. Há vício desde que haja excesso. Por que esta indulgência para um homem
que coleciona armários de cidreira?? e de marfim, que compra obras completas de autores desco-
nhecidos ou medíocres, para bocejar no meio de tantos milhares de volumes, não aproveitando de
seus livros a não ser as encadernações e os títulos? 7. Eis como verás em casa dos mais insignes
preguiçosos toda a coleção de oradores e de historiadores e estantes para livros construídas até o
teto: pois hoje em dia, ao lado dos banhos nas termas, a biblioteca tornou-se um ornamento obri-
gatório de toda casa que se preza. Eu perdoaria perfeitamente esta marta, se ela nascesse de um
excesso de amor ao trabalho; mas estas obras sagradas, dos. mais raros gênios da humanidade,
com as estátuas de seus autores, que assinalam sua classificação, são adquiridas para serem vistas
e para decorarem as paredes.
CoMO SE PORTAR NA INFELICIDADE
X — 1. Todavia, eis que tombaste em qualquer situação difícil, sem que hajas feito nada
para isso: a adversidade pública ou particular passou-te um laço pelo pescoço, laço que não podes
mais nem desapertar nem arrebentar. Lembra-te de que os desventurados que são peados ?º come-
çam por se revoltar contra os pesos e as cadeias de suas pernas; e que, desde que eles começam
a se resignar, em lugar de se revoltar, a necessidade lhes ensina a suportar sua sorte com coragem
e o hábito torna-a suportável. Encontrarás em qualquer situação divertimentos, descansos e pra-
zeres, se te esforçares para julgar teus males leves, antes de considerá-los intoleráveis. 2. O melhor
título da natureza ao nosso reconhecimento é que, conhecendo todos os sofrimentos para os quais
estávamos destinados na vida, para abrandar nossos padecimentos ela criou o hábito que nos
familiariza em pouco tempo com os mais rudes tormentos. Pessoa alguma resistiria, se, ao conti-
nuar, a adversidade conservasse a mesma violência que tem na primeira desgraça.
3. Estamos todos ligados à fortuna:? * para uns a cadeia é de ouro e frouxa, para outros é
apertada e grosseira; mas que importa? Todos os homens participam dc mesmo cativeiro, e aque-
les que encadeiam os outros não são menos algemados; pois tu não afirmarás, suponho eu, que os
ferros são menos pesados quando levados no braço esquerdo. As honras prendem este, a riqueza
aquele outro; este leva o peso de sua nobreza, aquele o de sua obscuridade; um curva a cabeça sob
a tirania de outrem, outro sob a própria tirania; a este sua permanência num lugar é é imposta pelo
exílio, aquele outro pelo sacerdócio. Toda a vida é é uma escravidão. 4. É preciso, pois, acostumar-
se à sua condição, queixando-se o menos possível e não deixando escapar nenhuma das vantagens
que ela possa oferecer: nenhum destino é tão insuportável que uma alma razoável não encontre
qualquer coisa para consolo. Vê-se frequentemente um terreno diminuto prestar-se, graças ao
talento do arquiteto, às mais diversas e incríveis aplicações, e um arranjo hábil torna habitável o
menor canto. Para vencer os obstáculos, apela à razão: verás abrandar-se o que resistia, alargar-
seo que era apertado e os fardos tornarem-se mais leves sobre os ombros que saberão suportá-los.
5. Não descortinemos, de outro lado, um campo vasto demais aos nossos desejos: limitemos
o vôo aos objetos mais próximos, visto que não podemos pensar em reprimi-los inteiramente.
Renunciando ao que é impossível ou dificil demais para realizar, apeguemo-nos ao que, estando
mais próximo, anima nossa esperança; mas sem esquecer que todas as coisas são igualmente frí-
volas e que, se as aparências diferem, ê sempre no interior a mesma futilidade. Não invejemos as
situações elevadas: pois o que julgamos ser o cume não é mais do que a beira de um abismo. 6.
Em compensação, aqueles que a sorte pérfida colocou sobre estes perigosos picos diminuirão os
riscos que correm, se se despojarem do orgulho natural e reduzirem sua fortuna na medida do
possível, e a um nível mais modesto.
Há, sem dúvida, muitos homens que não têm o direito de abandonar o cimo onde estão colo-
22 Madeira preciosa da África (chamada também tuia), que servia para fabricar móveis de luxo.
2º Escravos que tinham as pernas ligadas por peias.
2* De um costume militar é tirada esta metáfora: a “custodia militaris” consistia em ligar o braço direito
do condenado ao braço esquerdo do seu guarda.
DA TRANQUILIDADE DA ALMA 217
cados e de onde não podem descer a não ser ao preço de uma queda: homens que consideram sua
mais pesada obrigação, precisamente, o serem obrigados a pesar sobre os outros, sobre os quais
não estão elevados, mas sim amarrados. Que por sua justiça, sua doçura, sua clemência e sua
generosa bondade, eles preparem forças para a sorte que os espera e cuja esperança lhes suavize
os perigos da inconstância. 7. Todavia, nada nos preservará melhor das inquietudes deste gênero
do que fixarmos sempre um limite para nossas ambições, sem esperar que a fortuna nos inter-
rompa, como é seu costume; e suspendermos nosso progresso muito tempo antes do instante fatal.
Do destino ainda sentiremos a picada de muitos desejos; mas estes serão desejos acanhados, que
não nos poderão lançar em intermináveis aventuras.
SUPERIORIDADE E DESPRENDIMENTO DO SABIO
XI — 1. É aos espíritos imperfeitos, medíocres e insensatos que convêm as considerações
que precedem: não ao sábio. O sábio não precisa dar um passo tímido ou vacilante: sua fé em si
mesmo é tão grande que ele não hesita em se dirigir ao encontro da fortuna, diante da qual jamais
cederã. Não há nenhuma razão para temê-la, porquanto não são somente seus escravos, suas
propriedades, sua situação, mas seu corpo mesmo, seus olhos, suas mãos e tudo o que o prende
à vida; porque é sua pessoa, numa palavra, que conta no número dos bens revogáveis, visto que
ele vive com a idéia de que seu ser lhe é somente emprestado e está pronto para devolvê-lo de boa
vontade, à primeira requisição. 2. Não que ele se sinta diminuído por saber que não pode dispor
de si: ao contrário, ele se conduzirá em todas as coisas com o mesmo escrúpulo e a mesma pru-
dência com que um homem consciencioso e leal exerce a guarda de um depósito. 3. E no dia em
que ele for convidado a restituir, longe de revoltar-se contra o destino, ele lhe dirá: “Dou-te graças
pelos bens que colocaste e deixaste em meu poder. Sua conservação tornou-se cara para mim;
mas, como tu ordenas, eu os abandono e os restituo com o coração reconhecido e obediente. Se
ainda me queres deixar qualquer coisa do que te pertence, eu a guardarei; se decides diversamente,
eis minha prataria, meu dinheiro, minha casa e meus escravos: devolvo, restituo tudo”. Que a
natureza, que é nossa primeira credora, nos reclame sua dívida; a ela também diremos: “Retoma
esta alma, melhor do que ma deste. Não procuro nem evasivas nem subterfúgios: de bom grado
deponho em tuas mãos o que recebi de ti, sem perceber; toma-o”.
4. Retornar para o lugar de onde:se vem: que há de cruel nisto? Quem não souber morrer
bem terá vivido mal. É preciso, pois, começar por despojar a existência de seu prestígio e por
colocá-la entre as coisas sem valor. Somos hostis aos gladiadores, diz Cícero,? º quando eles que-
rem, custe o que custar, obter a vida livre; nossa simpatia é granjeada quando se torne evidente
que eles a desprezam. Nossa situação é a mesma, pois quantas vezes morremos, vitimas do nosso
medo de morrer !
5. Estes são caprichos que a fortuna se permite: “Por que”, diz ela, “poupar-te, criatura débil
e trêmula? Tu serás trespassada e serás crivada de golpes, justamente porque não sabes oferecer
o pescoço. E tu, tua vida será prolongada e terás uma morte mais rápida, porque em lugar de des-
viares a cabeça ou de te cobrires com as mãos, esperas o ferro com coragem”. 6. Aquele que
temer a morte não fará jamais obra de homem; mas aquele que disser a si mesmo que, desde o ins-
tante em que foi concebido, sua sorte foi decidida, governará sua vida em conformidade com esta
decisão; e por prêmio terá a vantagem, graças a este mesmo vigor da alma, de jamais se deixar
surpreender por qualquer acontecimento que surja: Considerando antecipadamente tudo o que
pode acontecer, como o que irá realmente acontecer, ele amortecerá o choque de todos os males:
pois, para quem está preparado e a espera, a violência de todas as desgraças se abranda; e somen-
te acham seus golpes terríveis os que se julgavam em segurança e que não tinham diante de si
senão perspectivas felizes.
7. Eis a doença, a escravidão, minha casa que desmorona e se incendeia: nada de tudo isto
é inesperado para mim. Eu sabia no meio de que caos a natureza me condenava a viver. Quantas
vezes ouvi na minha vizinhança prorromper a voz das carpideiras; quantas vezes vi passarem
diante da minha porta os archotes e as tochas que precedem os funerais prematuros !? º Freqien-
25 Cícero, Pro Milone, 92.
28 Perto do leito fúnebre as carpideiras e os parentes entoavam a “conclamatio funebris”. O rito primitivo
das tochas e archotes era conservado nos funerais das crianças.
ROS E
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temente ressoou ao meu lado o fragor de uma construção que desmoronava; muitas pessoas às
quais o forum, a cúria ou uma conversação acabavam de me reunir, foram arrebatadas durante a
noite. De quantas mãos, fraternalmente unidas, à morte rompeu de repente o aperto ! Por que me
admirar, quando eu me vir, um belo dia, colhido pelos perigos que jamais cessaram de me rodear?
8. A grande maioria dos homens, ao começar a navegar, esquece-se da tempestade. Jamais
eu me envergonharia de citar um mau autor, por uma boa intenção: Publílio Siro, poeta mais
vigoroso do que os trágicos e os cômicos, quando renuncia aos gracejos vulgares do mimo e às
palavras feitas para o público das galerias, no meio de tantos outros versos cujo tom se eleva não
só acima do estilo trágico, mas também do cômico, escreveu: “Aquilo que pode ferir um pode
ferir todos os outros”. Se nos convencermos profundamente desta máxima e se, ao assistirmos às
inúmeras desgraças que cada dia caem sobre nosso próximo, pensarmos que elas podiam muito
facilmente cair sobre nós, seremos pessoas armadas muito tempo antes do ataque. Não há mais
tempo para nos fortificarmos, quando o perigo já nos alcança. 9. “Eu não imaginava que isto me
aconteceria !” “Jamais se acreditara que isto seria possível!” E por que não? Onde está, pois, a
riqueza, que a miséria, a fome e a mendicidade não podem alcançar. Onde está a magistratura,
cuja pretexta, o bastão augural e o calçado nobre não são acompanhados de acusações humilhan-
tes, da crítica do censor, de mil infâmias e do supremo desprezo da multidão? Onde está a onipo-
tência, que não é ameaçada pela destruição e pelo esmagamento das violências de um senhor ou
de um carrasco? E um longo intervalo de modo algum é necessário: no espaço de uma hora pas-
sa-se do trono aos pés do vencedor.
10. Persuade-te, pois, de que toda situação está sujeita a mudanças e de que tudo o que cai
sobre os outros pode igualmente cair sobre ti. És rico; por acaso és mais que Pompeu? Quando
Caio Calígula, usando para com este velho parente um novo gênero de hospitalidade, abriu-lhe a
casa dos Césares, a fim de fechar a sua, achou-se aquele sem pão e sem água. Ele, que possuía não
sei quantos rios, tendo nos seus domínios sua nascente e sua foz, mendigava o que vazava das
goteiras; e morreu de inanição e de sede no palácio de seu parente, enquanto seu herdeiro, que o
esfomeava, lhe fazia preparar exéquias públicas.” ?
11. Tu exerceste as mais altas funções: foram estas tão grandes, tão inesperadas, tão ilimita-
das como aquelas de Sejano? ?º Pois no dia em que o Senado lhe serviu de cortejo o povo o deixou
em farrapos. Deste privilegiado, que os deuses e os homens cumularam de todos os favores possi-
veis, não restou nada para o dente do algoz.
12. És rei: não te enviarei a Creso, que entrou na fogueira por ordem de seu vencedor e viu
extinguir-se a chama, sobrevivendo assim não somente à sua realeza mas também à sua própria
morte; nem a Jugurta, que, no mesmo ano em que aterrorizou o povo romano, foi-lhe oferecido
em espetáculo. Não vimos o rei da África, Ptolomeu, e o rei da Armênia, Mitridates, detidos pelos
guardas de Calígula? Um deles teve de partir para o exílio e o outro preferiu sofrer um exílio
menos desleal.?º Na presença deste perpétuo vaivém de elevações e de quedas, se não conside-
rares tudo o que te pode acontecer, como o que deverá com efeito acontecer, darás à adversidade
forças contra ti; ao contrário, desarmá-la-ás, quando fores tu que a esperares chegar.
FUGIR A AGITAÇÃO ESTERIL
XII — 1. Em seguida, a primeira coisa a evitar é desperdiçar nosso esforço ou em objetos
inúteis ou de maneira inútil: quero dizer, imaginar ambições irrealizáveis ou reparar um pouco
tarde, uma vez satisfeitos nossos desejos, que nos esforçamos sem proveito. Em outras palavras,
evitemos de um lado os esforços estéreis e sem resultado, e de outro lado os resultados despropor-
cionados ao esforço. Pois é quase certo que nosso humor se entristeça, seja depois de um insuces-
so, seja depois de um sucesso do qual nos temos de envergonhar.
27 Quem foi este Pompeu? É impossível identificá-lo: talvez um parente de Calígula, que foi por este deixa-
do morrer de'fome para tirar-lhe a riqueza.
2º Ministro e favorito do imperador Tibério; procurou apoderar-se do trono, mas foi denunciado, preso e
estrangulado.' )
2º Creso foi o último rei da Lídia (séc. VI a.C.), vencido por Ciro. Jugurta, rei da Numídia (séc. II a.C).
corrompeu o Senado romano na defesa de seus interesses; mas, vencido, tomou parte como prisioneiro no
triunfo de Caio Mário. Ptolomeu e Mitridates foram convidados a ir a Roma por Calígula e cumulados de
atenções; mas excitaram a inveja do imperador, que mandou matar o primeiro e exilar o segundo. Sêneca
não está aqui inteiramente de acordo com os historiadores nos pormenores desse episódio.
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DA TRANQUILIDADE DA ALMA Bio
2. É preciso privar-se da agitação desregrada, à qual se entrega a maioria dos homens, que
vemos precipitarem-se alternativamente nas casas particulares, nos teatros e nos lugares públicos:
sua mania de se intrometer nos negócios dos outros lhes dá um ar de grande atividade. Pergunta
a algum deles, quando sai de casa: “Aonde vais? Qual é teu destino?” Ele responderá: “Por Hér-
cules! Não sei nada, mas eu verei gente e encontrarei qualquer coisa para fazer”. 3. Eles vagam
assim ao acaso, mendigando ocupações; e que fazem? Não o que resolveram fazer, mas o que a
sorte dos encontros lhes oferecer. Suas saídas absurdas e inúteis lembram as idas e vindas das for-
migas ao longo das árvores, quando elas sobem até o alto do tronco e tornam a descer até embai-
xo, para nada. Quantas pessoas levam uma existência semelhante, que se chamaria muito justa-
mente preguiça agitada. 4. Eis que correm como a um incêndio: ter-se-ia pena deles, ao vê-los
atropelarem os transeuntes, precipitarem-se e precipitarem os outros; entretanto, para onde cor-
rem eles? Vão saudar qualquer personagem, que não lhes responderá ao cumprimento, acompa-
nhar o séquito fânebre de alguém que nem conheciam, assistir ao processo de qualquer profis-
sional das núpcias*º, ou escoltar uma liteira, que por vezes eles mesmos carregam. Quando em
seguida voltam para casa moídos por uma fadiga inútil, protestam que nem eles mesmos sabiam
por que tinham saído, nem para onde tinham ido; e no dia seguinte recomeçarão a mesma série
de marchas desordenadas. 4
5. Que todo esforço tenha, pois, um alvo preciso e seja apropriado para um resultado. Não
é uma atividade verdadeira, mas sim quimeras, que animam os inquietos e loucos. Pois estes não
se moveriam sem uma certa esperança; e eles se iludem com as aparências, porque seu espírito
alucinado não lhes permite distinguir a realidade. 6. Dá-se o mesmo com cada um destes infelizes
que não saem a não ser para aumentar a turba: fúteis e quiméricas razões fazem-nos girar pela
cidade, ainda que eles não tenham nada absolutamente para fazer; a aurora os expulsa de casa e,
depois de terem sido esmagados inutilmente diante de um número considerável de portas e de
terem saudado muitos nomencladores,*" sem terem sido recebidos em nenhuma parte, dentre
todos, os mais difíceis de serem encontrados em casa são eles mesmos.
7. À esta doença se prende um vício horrível: este, de se informar de tudo, de estar à espreita
de todas as novidades, tanto secretas como públicas, e de possuir uma quantidade de histórias
perigosas para contar e igualmente perigosas para ouvir.
XUI — 1. Este é bem o pensamento de Demócrito, quando ele começa nestes termos:?*?
“Quem quiser viver com a alma tranquila não deve ter muitas ocupações: nem de ordem particu-
lar nem de ordem pública”. Trata-se aqui naturalmente de ocupações inúteis, pois, desde que elas
são necessárias, devemos, tanto particulares como públicas, ter não somente muitas, mas inúme-
ras; ao contrário, quando nenhum dever imperioso nos ordena, devemos saber reprimir nossa ati-
vidade: 2. pois quem multiplica suas ações se.expõe a cada instante à sorte. Ora, o mais certo é
provocá-la o menos possível, mas pensar nela sem cessar, sem jamais confiar na sua constância.
“Eu viajarei, se nada me impedir.” “Serei pretor, se nada se opuser.” “Terei êxito neste negócio,
se nada vier em contrário.”
3. Eis que isto nos leva a dizer que nada acontece ao sábio contra sua expectativa: não o
subtraímos das desgraças humanas, mas sim dos vícios humanos; e todas as coisas lhe sucedem
não conforme seus desejos, mas conforme suas previsões. Ora, o que ele prevê, antes de tudo, é
que os obstáculos podem sempre opor-se aos seus projetos. Não é, pois, evidente que o pesar cau-
sado por uma decepção é bem menos sensível quando não se prometeu antecipadamente o sucesso
com segurança?
NAO SE OBSTINAR CONTRA AS CIRCUNSTANCIAS '
XIV — 1. Devemos igualmente mostrar docilidade e não ser escravos demais das resolu-
ções que tomamos; ceder de boa vontade à pressão das circunstâncias e não temer mudar, seja de
resolução, seja de atitude, contanto que não caiamos na versatilidade, que é de todos os caprichos
o mais prejudicial à nossa trangúilidade. Porque se a obstinação é inevitavelmente inquieta e
3º Sêneca confirma (De Beneficiis, III, 16, 2) que muitas mulheres se divorciavam e se casavam nóvamente,
repetidas vezes.
*1 “Nomenclator” era o escravo encarregado de dar ao seu senhor o nome das pessoas que o procuraram
ou cumprimentaram. :
32 Demócrito, filósofo grego do atomismo (séc. V a.C.). Assim começa a sua obra Ácérca do Prazer.
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deplorável, visto que a fortuna lhe arranca a todo momento qualquer coisa, a leviandade é ainda
muito mais penosa, porque ela não se fixa em nada. Estes dois excessos são funestos à tranqui-
lidade da alma: recusar-se a toda alteração e nada suportar.
2. É preciso, finalmente, que nossa alma, renunciando a todos os benefícios exteriores, se
recolha inteiramente em si mesma: que ela só confie em si e só se alegre consigo, que ela só apre-
cie seus próprios bens, que ela se afaste o mais possível dos estranhos e se consagre exclusiva-
mente a si mesma, que os prejuízos materiais a deixem insensível e que ela chegue mesmo a
encontrar um lado bom nas suas desgraças.
3. Quando lhe foi anunciado o naufrágio no qual tudo o que possuía foi tragado pelo mar,
nosso Zenão disse: “A fortuna quer que eu filosofe mais desembaraçadamente”. Um tirano amea-
cava o filósofo Teodoro *º de mandar matá-lo e mesmo de privá-lo da sepultura: “Tu podes”, dis-
se-lhe este, “dar-te este prazer: existem aí 2,7 decilitros de sangue, sobre os quais tens todos os
direitos; quanto à sepultura, és estranhamente ingênuo, se crês que me aflijo por apodrecer sobre
ou debaixo da terra”.
4. Júlio Cano,* * um dos maiores homens que já existiram e cuja glória nada sofreu, nem
mesmo por ter nascido neste século, teve uma longa discussão com Caio Calígula. Como ele se
retirasse, o novo Faláride* ? lhe disse: “Para que não te iludas nem ao menos com uma vã espe-
rança, ordenei que te executem”. “Agradeço-te, excelente príncipe”, respondeu Cano. 5. Não sei
qual era seu pensamento, porque essas palavras podem bem ter vários sentidos: queria ele ultrajar
o príncipe e mostrar toda a crueldade de uma tirania sob a qual a morte era um benefício? Ou
censurava-lhe o absurdo de obrigar todos os dias a agradecerem-lhe aqueles cujos filhos ele mata-
ra, assim como aqueles de quem confiscara a fortuna? Ou, enfim, via ele na morte uma libertação,
que aceitava com prazer? Qualquer que seja a resposta, ela provêm de uma grande alma.
6. Dir-se-ia: Caio Calígula podia, depois disto, ordenar que o deixassem viver. Mas Cano
não tinha este receio: sabia-se que, desde que ele dera semelhantes ordens, Calígula manteria sua
palavra. Acreditarias tu que os dez dias que decorreram até seu suplício, Cano os passou sem
nenhuma inquietude? Na verdade, não parece verossimil o que este grande homem disse, o que fez
e a tranquilidade que manteve. 7. Ele jogava o “jogo dos ladrões”,* º quando o centurião, pas-
sando com um grupo de condenados, convidou-o a se levantar e a segui-lo; então ele contou seus
pontos e disse a seu adversário: “Atenção! Depois de minha morte, não digas que ganhaste!”
Depois, fazendo um sinal ao centurião: “Tu serás testemunha”, disse-lhe, “de que eu tenho a van-
tagem de um ponto”. Crês tu que Cano dava tanta importância ao seu jogo? Ele zombava do car-
rasco. 8. Seus amigos estavam consternados em perder um tal homem. “Por que esta tristeza?”,
disse-lhes. “Vós vos perguntais se a alma é imortal; eu irei sabê-lo agora mesmo.” E até o último
instante ele não cessou de procurar a verdade e de perguntar à sua própria morte a solução do
grande problema. 9. Seu filósofo?” o acompanhava; já o aproximavam do túmulo, onde cada dia
eram oferecidos sacrifícios a César, nosso deus: “Em que pensas neste momento, Cano??, pergun-
tou-lhe o filósofo; “em que disposição de espírito te encontras?” “Tenho”, respondeu Cano, “a
intenção de observar neste instante tão breve se vou sentir minha alma elevar-se.” E ele prometeu,
caso descobrisse alguma coisa, tornar a voltar, a fim de instruir seus amigos sobre a sorte das
almas. Ê
10. Eis a tranquilidade no meio da tempestade! Não é digno da imortalidade este homem que
procura na sua própria morte uma prova da verdade; que nos últimos momentos de vida interroga
sua alma exalante, e que, não satisfeito de instruir-se até a morte, quer que a morte mesma lhe en-
sine alguma coisa? Pessoa alguma jamais filosofou por tão longo tempo. Não abandonemos
depressa demais este grande homem, do qual não se pode falar a não ser com veneração: sim, nós
transmitiremos teu nome até a posteridade mais afastada, ilustre vitima, cuja morte ocupa um tão
grande lugar entre os crimes de Calígula!
XV — 1. Mas não adianta nada ter eliminado as causas da tristeza pessoal, pois algumas
33 Teodoro de Cirene foi contemporâneo de Sócrates (sécs. V-IV a.C.); e o tirano foi Lisímaco, um dos
generais de Alexandre Magno e mais tarde rei da Trácia.
** Personagem desconhecida: só Sêneca lembrou-se dele nesta passagem.
35 Faláride: tirano de Agrigento (Sicília), famoso pela sua crueldade.
38 Tma espécie de jogo de damas: era chamado também “jogo dos pequenos soldados”.
37 Era costume das grandes personagens da época ter sempre a companhia de uma espécie de diretor espiri-
tual, chamado “filósofo”. Ver, a este respeito, a obra de Sêneca Consolação a Márcia (TV, 2).
DA TRANQUILIDADE DA ALMA 221
vezes acontece que um desgosto pelo gênero humano se apossa de nós, quando percebemos quão
grande é a quantidade de crimes felizes; quando refletimos até que ponto é rara a retidão e desco-
nhecidas a inocência e a sinceridade, desde que ela não convenha; quando notamos os lucros e as
dissipações da paixão desregrada, igualmente odiados, e a ambição que vai além de seus próprios
limites, a ponto de procurar seu esplendor através da baixeza. Então mergulha o espírito em noite
escura; e destas virtudes assim transformadas, que em ninguém se espera ver, nem são de utilidade
alguma para quem as tem, originam-se densas trevas. 2. Assim devemos aplicar-nos a não consi-
derar odiosos, mas ridículos, os vícios dos homens e a imitar Demócrito antes que Heráclito: este
não podia aparecer em público sem chorar, o outro sem rir, um não via a não ser a miséria em
todas as ações dos homens, o outro só tolices. Aceitemos, pois, todas as coisas superficialmente
e suportemo-las com bom humor: pois está mais em conformidade com a natureza humana rir-se
da existência do que lamentar-se dela.
3. Acrescentemos que se presta melhor serviço ao gênero humano ao se rir dele do que ao
lamentá-lo: o gracejador nos deixa alguma esperança de melhora, o outro se aflige estupidamente
com os males que desesperadamente procura remediar. Enfim, para quem julga as coisas de um
ponto de vista mais superior, uma alma mostra-se mais forte abandonando-se ao riso do que
cedendo às lágrimas; visto que não se deixa perturbar a não ser por uma emoção muito superficial
e que não vê nada de importante, nada de sério, nem mesmo de deplorável em toda a comédia
humana.
4. Observemos os motivos de cada uma de nossas alegrias e de nossas tristezas e compreen-
deremos a precisão deste pensamento de Bíon: “A vida dos homens se assemelha a uma série de
experiências: ela não tem nem mais valor nem mais importância do que aquela de um
embrião”.?º 5. Vale mais aceitar tranquilamente os costumes comuns e os vícios da humanidade,
sem se deixar levar nem ao riso nem às lágrimas: pois atormentar-se com os males dos outros é
tornar-se perpetuamente infeliz, e alegrar-se com eles é adotar um prazer desumano. 6. Assim é
mostrar uma sensibilidade inútil chorar porque o vizinho enterra seu filho e tomar um ar de triste-
za: igualmente, nas nossas desventuras pessoais, jamais nos devemos entregar à dor a não ser o
quanto exige a natureza e não o que reclama o costume. Quantas pessoas não vertem lágrimas
unicamente para que estas sejam vistas, e cujos olhos secam no mesmo instante em que ninguém
mais as observa ! Mas elas julgariam vergonhoso não chorar quando todo mundo o faz: o hábito
de se sujeitar à opinião de outrem é um mal tão inveterado que o mais espontâneo de todos os
sentimentos, a dor, tem também sua afetação.
XVI — 1. Vem em seguida uma consideração que muitas vezes, e não sem motivo, entris-
tece nosso espírito e o mergulha na maior inquietude: quando vemos pessoas de bem acabarem
mal — Sócrates constrangido a morrer prisioneiro; Rutílio a viver no exílio; Pompeu e Cícero a
se entregarem aos seus clientes; e Catão, este Catão, enfim, viva imagem da virtude, reduzido a
testemunhar publicamente, atirando-se contra sua espada, que a República perecia ao mesmo
tempo que ele. Como não se afligir com a idéia de que a fortuna paga tão injustamente os méritos
dos homens? E que esperar para si mesmo, quando os melhores dentre eles são os mais
maltratados?
2. Mas, que se deve, então, fazer? Observa como cada um destes grandes homens suportou
seu destino; e se eles mostraram coragem, ambiciona a mesma firmeza de alma. Se foram fracos
e covardes diante da morte, sua perda é indiferente: ou eles são dignos de que os admiremos por
sua bravura, ou sua covardia os torna indignos de pena. Não será vergonhoso se a morte heróica
destes homens de coragem fizesse de nós apenas covardes? 3. Glorifiquemos um herói digno de
tanta glória e digamos: “Ó bravo! Ó afortunado homem ! Eis que tu escapas a todas as misérias,
à inveja, à morte; eis-te a sair da prisão. Longe de te julgarem digno de uma má sorte, os deuses
estimaram que mereceste estar para o futuro ao abrigo da-tirania da fortuna”. Quanto âqueles que
querem salvar-se e que no limiar da morte se voltam para a vida, é preciso empurrá-los com viva
força para seu carrasco.
4. Eu não chorarei nem por quem se alegra nem por quem chora: o primeiro seca minhas lá-
grimas antecipadamente e o outro torna-se por suas lágrimas indigno das dos outros. Vou eu cho-
rar por Hércules queimado vivo; por Régulo crivado com mil pontas ou por Catão, que suportou
com coragem tantos golpes? Todos estes heróis, pelo sacrifício de uma insignificante parte de sua
existência, souberam tornar-se eternos e a morte foi para eles o caminho da imortalidade.
38 Bion: ver notal7.
809) SÊNECA
PRATICAR A SIMPLICIDADE
XVII — 1. Um outro gênero de inquietude, que não merece menos atenção, nasce do cui-
dado que o homem emprega em fingir e em jamais se deixar ver tal como é: é o caso de muitas
pessoas, cuja vida só é hipocrisia e comédia. Que tormento, esta permanente vigilância sobre si
mesmo, este terror de ser surpreendido num papel diferente do que aquele que se escolheu ! E esta
preocupação não nos deixa mais, desde o instante em que nos persuadimos de que somos julgados
a cada olhar que nos lançam. Com efeito, aparecem mil incidentes, que nos revelam contra nossa
vontade; e quando logramos nos observar sem desfalecimento, que satisfação ! Mas que segurança
pode oferecer uma existência inteira passada sob uma máscara? É
2. Que encanto, ao contrário, na espontânea simplicidade de um caráter, que desconhece os
ornamentos artificiais e que despreza disfarçar-se! É verdade que corremos o risco de perder a
consideração, abrindo-nos ingenuamente demais a todos: pois não faltam pessoas para menos-
prezar o que se lhes torna acessível. Mas a virtude não pode ser de modo algum desprezada, quan-
do oferecida a todos os olhares; e não é melhor ser menosprezado por sua franqueza do que
impor-se o suplício de uma dissimulação perpétua? Todavia, não excedamos à medida: pois há
muita diferença entre a sinceridade e a falta de modéstia.
ALTERNAR O RECOLHIMENTO E A VIDA SOCIAL
3. É preciso frequentemente recolhermo-nos em nós mesmos: pois a relação com pessoas
diferentes demais de nós perturba nosso equilíbrio. desperta nossas paixões, irrita nossas restantes
fraquezas e nossas chagas ainda não completamente curadas. Misturemos, todavia, as duas coi-
sas: alternemos a solidão e o mundo. A solidão nos fará desejar a sociedade e esta nos recondu-
zirá novamente a nós mesmos; elas serão antídótas, uma à outra: a solidão, curando nosso horror
à multidão, e a multidão, curando nossa aversão à solidão.
ALTERNAR O TRABALHO E O DIVERTIMENTO
4. Nem mesmo é bom ter sempre o espírito igualmente ocupado: é preciso saber distraí-lo
com divertimentos. Sócrates não se envergonhava de se divertir com crianças pequenas, Catão
bebia para descansar das fadigas da vida pública, Cipião exercitava seu corpo de triunfador e de
guerreiro no compasso da dança: não com estas atitudes moles que hoje em dia estão na moda e
que dão ao movimento mesmo uma languidez mais que feminina, mas do mesmo modo que nos-
sos grandes antepassados, que sabiam nos dias de júbilo e de festa dançar varonilmente sem que
seu prestígio se arriscasse a sofrer, mesmo que eles tivessem por testemunhas seus inimigos. 5. É
preciso saber recrear o espírito: ele se mostrará, depois de um repouso, mais resoluto e mais vivo.
Do mesmo modo que não se deve fazer um solo fértil (pois uma fecundidade sempre ativa breve-
mente se esgotaria), assim um trabalho ininterrupto diminuirá o ardor do espírito: um instante de
repouso e de distração lhe devolverá sua energia. Quando o esforço se prolonga demais, ele acar-
reta à inteligência uma espécie de enfraquecimento e de abatimento. 6. Aliás, os homens não se
inclinariam tanto aos divertimentos e aos jogos, se o prazer que sentem não satisfizesse a um dese-
Jo. Todavia, abusando deles, o espírito perderá sua elasticidade e. seu vigor: o sono também é
necessário para restaurar nossas forças; mas se ele continua dia e noite, é a morte. Suspensão e
supressão não são absolutamente sinônimos.
7. Os legisladores instituíram dias de festa nos quais nos reunimos para nos divertirmos em
comum, porque consideraram necessário que o trabalho fosse de tempos em tempos interrompido
por descansos: vêem-se, assim, grandes homens tomarem regularmente de permeio diversos dias
de férias. Outros, ainda, dividiam cada dia entre o repouso e os afazeres. Lembro-me, por exem-
plo, de que o grande orador Asínio Polião jamais se ocupou de qualquer coisa depois de quatro
horas da tarde: passado este momento, nem mesmo lia suas cartas, a fim de evitar qualquer preo-
cupação nova; e ele se reservava duas horas durante as quais esquecia todo o afã do dia. Outros,
í
DA TRANQUILIDADE DA ALMA 223
depois de ter feito uma pausa no fim da manhã, reservavam a tarde para tarefas de menor impor-
tância. Nossos pais, não impediam eles de se iniciar depois das quatro horas da tarde um novo de-
bate no Senado? Os.soldados repartem entre si a vigília; e os homens que voltam da expedição
estão livres do serviço durante a noite.
8. É preciso governar nosso espírito e conceder-lhe de tempos em tempos um descanso que
fará sobre ele o efeito de um alimento restaurador. É preciso, igualmente, ir passear em pleno
campo, pois o céu aberto e o ar puro estimulam e avivam a inteligência; algumas vezes uma alte-
ração, uma viagem, uma mudança de horizontes, assim como uma boa refeição com um pouco
mais de bebida do que de costume, lhe darão um novo vigor. Pode-se mesmo, por vezes, chegar
até a embriaguez: não, de modo algum, para nela mergulhar, mas para nela encontrar a calma,
pois ela dissipa as inquietações, modifica totalmente o estado da alma e afasta a tristeza, assim
como cura certas doenças. O inventor do vinho não foi chamado “Liber”? porque ele solta a lín-
gua, mas sim porque liberta a alma das inquietações que a escravizam; e a reanima e fortalece e
a dispõe para todas as audácias.
9. Mas o vinho, assim como a liberdade, não é salutar a não ser tomado com medida. Afir-
ma-se que Sólon e Arcesilau tinham um gosto acentuado pelo vinho; censurou-se a Catão sua
embriaguez: *º bom meio de reabilitar este vício em vez de rebaixar Catão. Mas não se deve recor-
rer a ele muito frequentemente, a.fim de não adquirir este detestável hábito; é preciso, todavia, por
um instante afrouxar as rédeas à exuberância e à liberdade e fazer uma interrupção momentânea
à sobriedade austera demais. 10. Porque, se acreditamos no poeta grego, “É doce algumas vezes
perder a razão”; ou em Platão: “E em vão que o homem de sangue-frio bate à porta das Musas”
e Aristóteles: “Não se vê jamais um gênio que não tenha seu grau de loucura”. *! 11, Somente a
linguagem de uma alma exaltada pode atingir o majestoso e o grandioso. Que ela desdenhe os
sentimentos vulgares e batidos; que um entusiasmo sagrado a anime e a arrebate: somente depois
ela pronunciará palavras divinas pela boca de um mortal. É impossível alcançar o sublime e o
inacessível, enquanto a alma pertencer a si mesma: é preciso que ela se desvie de seu caminho
habitual, se liberte; e que, mordendo o freio, arrebate seu cavaleiro e o faça subir a alturas onde
jamais ele se arriscaria por si mesmo.
12. Eis, mui querido Sereno, os meios de conservar a trangiúilidade da alma ou de tornar a
encontrá-la quando perdida, e de não sucumbir à pérfida insinuação dos vícios. Todavia, dize a ti
mesmo que nenhum destes meios é suficientemente poderoso para salvaguardar um bem tão frá-
gil, se não cercarmos com a mais ativa e a mais zelosa vigilância nossa alma, sempre pronta a se
deixar desviar.
3º Tíber: um dos nomes de Baco, deus do vinho.
*º Sólon: legislador e poeta grego (séc. IV a.C.); Arcesilau foi filósofo da escola de Platão, iniciador do
probabilismo. A embriaguez de Catão é lembrada pelo historiador Plutarco (Catão, o Moço, IV).
*1 O poeta grego aqui lembrado é Menandro (fragmento 321 da edição Koch): o provérbio é é antigo e popu-
lar (“Semel in anno licet insanire”) e ocorre também em Horácio: “Dulce est desipere in loco” (Ode IV, 12,
28). O mesmo Sêneca, num diálogo de 4 Superstição (que não chegou até nós, mas do qual Santo Agostinho
no À Cidade de Deus, VI. 10, citou este fragmento), tinha afirmado, tratando das festas anuais egípcias em
honra de Osíris: “Huic tamen furori certus tempus est. Tolerabile est semel anno insanire”. E o provérbio
continuou através dos séculos, entre o povo e nas obras dos escritores (Roman de Renart, VI, 485; La
Rochefoucauld, Heine, etc.). — A frase de Platão GRE ond -se no Fedro (22, 245); e a de Aristóteles nos Pro-
blemas (30,1).
MEDEIA
(TRAGÉDIA)
Personagens:
MEDEIA
A AMA
CREONTE
JASAO
O MENSAGEIRO
Os FiLHOS DE MEDEIA
Coro DE CORÍNTIOS
A cena representa o largo diante do palácio de Medéia em Corinto.
[Em Tolco (Tessália) reinava Éson, que foi destronado pelos irmãos Pélias. Jasão, filho de
Éson, pediu ao tio a devolução do trono; mas Pélias, para libertar-se dele, mandou que conquis-
tasse o velo de ouro, guardado num bosque da Cólquida, Jasão chefiou uma grande expedição, da
qual faziam parte príncipes gregos, no navio “Argo”; e, depois de várias peripécias, foi bem suce-
dido na empresa, graças a Medéia (filha de Eetes, rei da Cólquida), que se apaixonou pelo jovem
herói, auxiliou-o e com ele fugiu. Voltando a Iolco, Jasão descobriu que durante a sua ausência
Pélias tinha matado o irmão Eson; então vingou-se por meio dos feitiços de Medéia, que conven-
ceu as filhas do velho Pélias a esquartejar e cozinhar os membros do pai para rejuvenescê-lo.
Acasto, filho de Pélias, subiu ao trono e perseguiu Jasão e Medéia, que fugiram para Corinto,
onde foram recebidos pelo rei Creonte. Jasão, tendo repudiado Medéia, está para desposar Creú-
sa, filha de Creonte: é neste momento que começa a tragédia de Sêneca.|
* x* x
Para uma melhor compreensão da peça, o tradutor julgou oportuno dividi-la em episódios e intermé-
dios, e intercalar algumas indispensáveis didascálias, entre colchetes. Como em todas as obras de autores
romanos, as divindades às vezes têm os nomes gregos, às vezes os nomes latinos: foram deixados os nomes
encontrados no texto ou usados os nomes latinos que são mais conhecidos, salvo os casos em que pudesse
haver confusão.
PROLOGO
MEDEIA
Ó deuses do himeneu, e tu, ó Lucina, vigilante do leito nupcial; e tu que ensinaste a Tífis! a
arte de guiar O primeiro navio para conquistar os mares; e tu, altivo dominador do pélago;* e tu,
ó Sol, que distribuis sobre a terra a luz do dia; e tu, ó tríplice Hécate, * que dás às misteriosas ceri-
mônias uma cúmplice claridade; ó vós, divindades que Jasão quis como testemunhas de seus jura-
mentos para comigo, e vós, que Medéia deve suplicar entre todas as divindades, caos da eterna
noite, reino oposto àquele do céu, ímpios Manes, * e tu, dono do triste império, * e tu, sua esposa, *
raptada por um mais fiel amante — invoco-vos com as minhas imprecações. Agora, agora deveis
assistir-me, ó deusas, vingadoras do crime: os cabelos desarrumados, entrelaçados de serpentes,
firme nas mãos sanguinolentas um lúgubre archote, assisti-me, ó deusas, tão horríveis como quan-
do ficastes perto de meu leito nupcial. Matai a nova esposa, matai o sogro ? e toda a família real..
E a mim, dai um outro mal, mais terrível que a morte, para que eu possa oferecê-lo ao meu espo-
so: que ele viva, errando pobre por cidades desconhecidas, desterrado, espantado, abominado,
sem lar; que ele me deseje como esposa e encontre a porta fechada, hóspede já muito conhecido.
E — não é possível pensar nada mais horrível — possa ele gerar filhos semelhantes ao pai, seme-
lhantes à mãe. Quando eu dava à luz os meus filhos, dava à luz a minha vingança. Mas em vão
lamento-me e falo. Não irei contra os meus inimigos? Arrancarei de suas mãos os archotes, arran-
carei ao céu a luz. O ancestral de minha raça, o Sol,º contempla este espetáculo: não se deixa ele
contemplar e não percorre, sentado como de costume em sua carruagem, os serenos espaços do
céu? Não volta ele ao lugar de onde se levantou, não faz ele recuar o dia? Concede-me, concede-
me ser transportada através das nuvens pela carruagem paterna, concede-me as tuas rédeas, ó pai;
permite-me guiar com teus chicotes flamejantes os cavalos de fogo. Corinto, que apresenta a dois
mares o obstáculo de sua dupla praia, será queimada pelas chamas, deixando reunir as ondas.
Não me resta senão eu mesma levar a tocha de pinho que precede o cortejo nupcial e, depois das
preces para o sacrifício, golpear sobre o altar as vítimas consagradas: em suas vísceras procura
o caminho da vingança, ó minha alma, se tu és ainda viva e te resta uma sombra da antiga força.
Deixa de lado o medo feminino e reveste teu espírito com todas as crueldades do Cáucaso. Todos
os crimes que o Ponto e o Fásis puderam ver serão vistos peio Istmo.º Insensatos, incríveis, horrí-
veis, espantosos para o céu e a terra são os desígnios que se agitam no âmago de meu cérebro:
feridas, mortes, membros esparsos e sem exéquias. Mas são demais medíocres os crimes que
agora estou lembrando... Tudo isso eu fiz, quando virgem; é preciso que minha dor se levante
* Tífis, piloto do “Argo”, foi ensinado pela deusa Atenas na difícil arte de guiar navios sobre os mares.
2 Netuno, deus dos mares.
3 Divindade misteriosa da natureza, identificada com a Lua, Diana e Proserpina e por isso representada
com três cabeças.
* Almas dos mortos, tidas como divindades dos infedos
Plutão, deus do mundo subterrâneo.
Proserpina, raptada por Plutão, amante mais fiel do que Jasão.
À nova esposa é Creúsa, filha de Creonte: por isso Creonte'será sogro de Jasão.
Eetes, pai de Medéia e rei da Cólquida, era filho do Sol.
Ponto: região da Ásia Menor, entre a Armênia e a Cólquida. Fásis: rio da Cólquida. Istmo: a faixa de
terra que divide a Hélade continental do Peloponeso; no Istmo estava situada a cidade de Corinto.
vossa un
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230 SÊNECA |
ainda mais terrível: agora que sou mãe, meus crimes devem ser maiores. Arma-te de cólera, pre-
para-te para aniquilar com um furor que vai até o paroxismo. Que a cena de tua renúncia seja
igual à de tuas núpcias! Como deixarás o teu esposo? Como o seguiste. Sufoca tuas moles perple-
xidades ! Esta casa, onde tu entraste por um crime, por um crime deves deixá-la. [Sai]
PRIMEIRO INTERMÉDIO
|
| -— OCoro
Às núpcias reais assistam benéficas as divindades do céu e do mar, assim como uma multi-
dão comovida. Que primeiramente um cândido touro, de cabeça erguida, avance para os sacerdo-
tes de Júpiter; que a sua fêmea, que tem o corpo níveo e nunca levou o jugo, aplaque Lucina.
Quanto âquela!º que retém as sangrentas mãos de Marte, aquela que dita a paz entre as nações
beligerantes, aquela que em sua cornucópia reúne toda riqueza, ela receberá, sendo mais meiga,
uma vítima mais tenra. E tu,! " que favoreces as núpcias legítimas e dissipas as trevas com a mão
propícia, avança com passo pesado pela ebriedade, cingidas as têmporas com uma coroa de rosas.
E tu,'? que precedes o dia e a noite, astro que voltas sempre demais lentamente para o desejo dos
amantes, deverias aparecer — conforme o desejo das mães e das noras — o mais cedo possível
com teus luminosos raios.
A beleza desta virgem supera de muito a das filhas de Cécrope !'º e das virgens que a cidade
sem muralhas! * manda exercitar-se, como se fossem moços, sobre os cumes do Taígeto;! º de
muito supera a beleza das virgens que são banhadas pelas ondas do Aônio ! º e pelas águas sagra-
das do Alfeu.!” Ao aparecer de tão grande beleza, Jasão vence o filho do funesto raio que subjuga
os tigres ao seu carro; 'º vence o irmão da virgem altiva, o deus que anima as trípodas;'º vence
Castor e Pólux,?º vencedor nos certames do cesto. Possa — ó habitantes do céu, eu vos imploro!
—., possa esta mulher superar todas as esposas; possa O seu esposo superar todos os homens!
Quando ela se dirige para o meio do coro feminino, o seu rosto faz EeaDANdEs: todos os ou-
tros rostos. Assim o Sol ofusca : a huz das estrelas; e a multidão das Plêiades?" se esconde quando
Febo restringe seus cornos arcados num disco que brilha de falsa luz. Assim a cor da neve se
torna vermelha, misturando-se. com a púrpura fenícia; assim o Sol aparece, na dora: ao pastor
molhado pelo matinal orvalho. Arrebatado às núpcias horríveis da filha do Fásis,?? acostumado
a agarrar com medo € forçosaiente o corpo de uma esposa furente, apossa-te com alegria da vir-
gem eólia, casando com o consentimento de seus parentes. Ó moços, entregai-vos aos jogos per-
mitidos neste dia; jogai vossos versos aqui e acolá: esta licença com os príncipes é raramente per-
mitida. Ó filho radioso e generoso do tirsígero Lieu, ?º* é tempo de acender as tochas de pinho
fendido: faze brotar por meio de teus dedos entorpecidos a solene chama. Que o mordaz fescenino
espalhe seus mNIOs, que a multidão se entregue a suas zombarias. Silenciosamente, nas trevas se
afaste aquela? * quê, fugindo, uniu- se com um homem estrangeiro.
1
1º A Paz. — !1 Himeneu, deus do casamento. — '? Vésper, astro da tarde. -— '? Cécrope foi o funda-
dor de Atenas. ;
** Esparta: dizia-se que proteção bastante lhe devia de ser a coragem de seus soldados.
15 Cadeia de montanhas que separam a Lacônia da Messênia, no Peloponeso.
18 Mar que banha as praias da Aônia (antigo nome > da Beócia).
'7 O maior rio do Peloponeso. — 'º Baco, deus dô tumulto e da orgia. — 'º Febo, irmão de Diana.
2º Filhos de Júpiter e de Leda, irmãos de Helena é Clitemnestra.
*1 Estrelas que pertencem à constelação do Touro:
22 Medéia, que nasceu na Cólquida, atravessada pelo rio Fásis.
2º Himeneu, filho de Vênus e de Baco (chamado também Lieu, isto é, aquele que manda embora as preocu-
pações): o deus da alegria era representado segurando um tirso, bastão enfeitado com hera e pâmpanos e ter-
minando em forma de pinha:
2* Medéia.
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70
to
PRIMEIRO EPISODIO
MEDEIA
Tudo está perdido: o canto nupcial chegou a meu ouvido. Imensa dor ! Ainda não posso crer
em tão grande desgraça. E Jasão pôde fazer tudo isso? Depois de me haver tirado o pai, a pátria,
o reino, ele teve a coragem de deixar-me sozinha, numa terra estrangeira? Não tem coração:
esqueceu o bem que eu lhe dei, ele que, somente por meio dos meus crimes, conseguiu vencer o
fogo e o mar? E pensa ele, então, que eu tenha esgotado a série dos meus crimes? Incerta, exacer-
bada, não sinto eu talvez que a loucura me incita para a vingança? Oh, se ele tivesse um irmão !
Ele, ao contrário, tem uma esposa. Eis: é ela que devo alcançar... Mas tudo isso poderá com-
pensar minha angústia? ;
Ó minha alma, se os povos da Grécia ou as bárbaras nações conheceram um requintado
suplício que as tuas mãos ainda à ignoram, agora deves pô-lo em prática. Os teus mesmos crimes
perpetrados no passado devem: nc te; e tu repete-os todos: o velo de ouro raptado, que foi glo-
rioso ornamento do teu reino;?º o pequeno companheiro esquartejado por mim, ímpia virgem, e
seu mísero corpo jogado perante os olhos do pai e depois espalhado aos pedaços no mar;?º eos
membros do velho Pélias cozinhados numa bacia de cobre. Oh! quantas vezes eu derramei crimi-
nosamente um infausto sangue! Mas nenhum desses crimes foi praticado em momentos dera: era
o meu infeliz amor que me armava a mão.
Mas que devia fazer Jasão, dominado pela vontade e pelo direito deste estrangeiro? E Oh,
sim: ele devia deixar-se matar 'antes. . . Ó minha louca dor, vê se podes falar com maior o!
Se for possível, Jasão deve viver, deve: ser meu, como o foi até agora; se não for possível, viva
igualmente, lembre-se de mim é conserve tudo o que os meus benefícios lhe deram. A culpa inteira
é de Creonte: servindo-se da autoridade de seu cetro, ele corta o nosso conúbio, tira de seus filhos
a mãe, quebra uma fé ligada por estreitos liames. Ele só deve ser punido conforme a justiça. Eu
quero transformar a sua casa num amontoado de cinzas. O promontório Meléia,ºº que afasta os
navios num mais longo rumo, poderá ver, embora tão distante, um negro vórtice de chamas subir
ao céu.
A AMA
Silêncio ! Eu te suplico: tua secreta dor deve chorar no âmago do coração. Somente quem
sabe aglentar até ao fim, com calma e paciência, uma grave ferida, sabe depois vingar-se: a cólera
dissimulada é prejudicial; o ódio abertamente declarado perde todo meio para a vingança.
25 O velo de ouro liga sua fama ao mito de Atamã, filho do deus dos ventos (Éolo). Atamã casou com a
deusa Nefele e teve dois filhos, Frixo e Hele; depois, tendo-se apaixonado por uma mulher terrena (Ino), esta
quis que os filhos de Atamã fossem sacrificados. Mas a mãe Nefele mandou a eles um carneiro, que tinha o
velo de ouro, sobre q qual os moços fugiram. Durante a viagem, Hele caiu no mar (que se denominou Heles-
ponto, os hodiernos Dardaneloy); Frixo conseguiu alcançar a Cólquida, bem recebido pelo rei Eetes. Então
Frixo sacrificou O carneiro e pôs o velocino num bosque, guardando por um dragão insone. Em seguida, o
rei Eetes deu a filha Calcíope em casamento a Frixo.
ni Fugindo com Jasão no navio “Argo”, Medéia estava para ser alcançda pelo pai Eetes; então matou o
jovem irmão Absirto e jogou os membros ao mar, a fim de retardar o passo do pai, que paroq para reunir
os restos do mísero filho. x
27 Creonte.
28 Promontório da Lacônia, no Peloponeso.
t
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234 SÊNEC A
MEDEIA
155 Leve é a dor que pode refletir e usar a dissimulação: os grandes males não podem ser escon-
didos. Resolvi passar ao ataque.
À AMA
Ó criatura que eu nutri, susta teu fmpeto insensato: o silêncio poderá salvar-te.
MEDEIA
A sorte tem medo dos fortes e oprime os covardes.
A AMA
160 A coragem é louvável só.quando se mostra oportunamente.
MEDEIA
A coragem não é jamais fora de propósito.
A AMA
Nenhuma esperança poderia aliviar tuas desgraças.
MEDEIA
É quem não tem mais esperança que não deve absolutamente desanimar.
A AMA
165 A Cólquida está longe: teu marido te traiu; nada te fica de tantas riquezas.
MEDEIA
Resta-me Medéia: e nela tu vêso mar ea terra,o ferro e o fogo, os deuses e os raios.
A AMA
Terrível é o rei.
MEDEIA
Meu pai também foi rei.
A AMA
Não tens medo de suas armas?
MEDEIA
Não, se forem terrenas.
A AMA
Tu morrerás.
MEDEIA
Desejo-o.
À AMA
Yai embora.
MEDEIA
170 Tive que queixar-me por ter fugido.
A AMA
Medéia...
MEDEIA
Tornar-me-ei Medéia.
MEDÉIA 235
A AMA
Tu ês mãe. |
MEDEIA
Por quem, tu vês.
A AMA
Hesitas em fugir?
MEDEIA
Vou fugir, mas não antes de ter-me vingado.
à A AMA
Seguir-te-ã o castigo | ;
| MEDEÍIA
Encontrarei talvez a maneira de fazê-lo parar.
A AMA
Cessa de falar, ó insensata, susta tuas âmeaças, teus pensamentos audazes: convém ceder
perante as circunstâncias.
MEDEIA
1
A sorte pode tirar-me os recursos, mas não a coragem. — Quem, com tanta força, faz chiar
a porta do palácio real? É Creonte, ele mesmo, o rei que, cheio de orgulho, reina sobre os
Pelasgos.* ae
CREONTE
[Vendo de longe a mulher): Medéia. criminosa filha de Eetes, ainda não saiu do meu reino?
Ela trama algum outro crime: conheço sua perfídia, conheço sua mão. Quem ela poupará? Quem
ela deixará viver livre e seguro? Estava preparando-me para aniquilar, o mais depressa possível,
este execrável flagelo; mas os rogos de meu genro me venceram. Deixei-lhe a vida: liberte o meu
país de sua inquietadora presença; e poderá ir embora sossegada. Ei-la: aproxima-se com inso-
lência e com ar ameaçante quer, falar, aqui, perto de mim. Escravos, não permiti que ela possa
“tocar-me, nem que se aproxime,nem que fale: ela deve aprender, pelo menos uma vez, a subme-
ter-se às ordens de um rei. ED inigendo-se a Medéia) Vai embora, o mais depressa possível, monstro
horrível e medonho.
ú MEDEIA
Por qual crime, por qual culpa sou condenada ao desterro?
CREONTE
Esta mulher inocente pede-me a causa de sua expulsão.
MEDEIA
Se tu és juiz, ouve-me; se tu és tirano, manda.
1
i CREONTE
1
Justo ou injusto, deves submeter-te a uma ordem do rei.
MEDEIA
a
Nunca um poder iníquo duraã por muito tempo.
2º Antigos habitantes da Grécia: aqui o nome tem o sentido de gregos em geral, ou, em particular, de
coríntios. -
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236 á SÊNECA
CREONTE
Vai queixar-te na Cólquida.
MEDEIA
Para lá voltarei; mas quem me trouxe aqui lá me deve reconduzir.
CREONTE
Tua reclamação chega tarde demais: minha sentença foi pronunciada.
MEDEIA
Quem delibera sem ter ouvido uma das partes faita ao seu dever de-equidade, mesmo se a
sentença pronunciada é justa.
CREONTE
Ouviste Pélias antes de tirá-lo do suplício? Podes falar: é bom dar a uma tão boa causa a
possibilidade de ser defendida.
MEDEIA
Como seja difícil afastar da cólera um espírito já excitado, como a perseverança de ficar no
caminho iniciado seja um privilégio de quem orgulhosamente reina, tudo isso eu o aprendi no meu
palácio real: de fato, embora entristecida pelo miserável infortúnio, expulsa, suplicante, sozinha,
abandonada, vexada em qualquer lugar, todavia no passado brilhei pela glória de meu pai; e é de
meu avô, o Sol, que eu gloricsamente procedo. O território todo que o Fásis banha com os seus
trangiilos meandros; e o território que atrás de si deixa o mar da Cítia,?º lá onde a água dos
pântanos adoça a dos mares; e O território que espanta as virgens armadas de peltas e rodeadas
pelas ondas do Termodonte;?" eis o que meu pai tem sob o seu cetro. Nobre, feliz, poderosa,
distinguia-me por esplendor real: naquele tempo procuravam as minhas núpcias os pretendentes
que agora, por sua vez, são procurados. A sorte — veloz, inconstante, perigosa — tirou-me do
reino, deu-me o exílio. Confie- -se, então, no trono quando a sorte volúvel dispersa a seu arbítrio as
maiores riquezas! O privilégio magnífico € imenso que os reis possuem (e nunca poderão perdê-
lo) é o poder de ajudar os infelizes e de dar um seguro abrigo aos suplicantes. Só isto trouxe comi-
go do reino da Cólquida: a glória ilustre da Grécia, sua mais bela flor, o baluarte da raça
aquéia,?? a prole dos deuses, foram salvos por mim.?? A mim é devedor Orfeu, que com seus
cantos encanta as rochas e atrai as selvas; a mim são devedores os gêmeos Castor e Pólux, e os
filhos de Bóreas,º * e Linceu,ºº que através do oceano enxerga com um simples olhar os objetos
longínquos, e todos os outros Mínios.º º Não falo do chefe” ” destes chefes, pelo qual nada me é
devido; nem o ponho na conta: por vós reconduzi os outros, ele só por mim. Agora, acusa-me e
reúne os meus crimes: eu os confessarei. Podem acusar-me de um crime só: a volta de “Argo”.
Mas se eu, naquele tempo, tivesse optado pelo pudor e por meu pai, toda a terra dos Pelasgos teria
perecido, com todos os seus chefes: primeiro, teu genro, morto pelo feroz touro que emana cha-
mas.*º Seja qual for a sorte que vai oprimir minha causa, não me arrependo por ter salvo o que
era o orgulho de tantos reis. Quanto ao único prêmio que obtive por todos esses crimes, estã em
tuas mãos. Se for do teu agrado, condena a rê; mas devolve-lhe o que a torna criminosa. Eu sou
culpada, confesso-o, ó Creonte; mas tu o sabias, quando abracei teus joelhos e com súplicas
implorei a leal proteção de teu direito tutelar. Ainda uma vez peço-te para as minhas misérias um
3º Antiga região, entre o mar Negro e o Cáspio, que confinava com a Cólquida.
31 Mítico povo de mulheres guerreiras, as Amazonas moravam na Capadócia, às margens do rio
Termodonte.
32 Os aqueus foram uma das raças gregas; e o nome quase sempre é usado no sentido geral de gregos.
33 Medéia, com suas magias, podia ter matado todos os Argonautas.
34 Zetes e Cálais, filhos de Bóreas, foram companheiros de Jasão na expedição.
35 Filho de Afareu, rei da Messênia, Linceu tinha vista tão penetrante que podia ver através dos muros.
38 Jasão pediu para sua empresa o auxílio de Argo, neto de Atamã, rei dos Mínios, povo que morava numa
parte da Beócia. Os Argonautas embarcaram no porto de Orcomeno, que surgia às margens do rio Mínio.
3? Jasão, chefe dos Argonautas.
38 Eetes prometeu a Jasão o velo de ouro, se o jovem tivesse arado com dois touros que emanavam fogo;
e Jasão conseguiu a façanha graças à ajuda de Medéia, que se tinha apaixonado por ele.
MEDÉIA ZM
recanto, um abrigo, um humilde refúgio: se queres expulsar-me da cidade, dá-me pelo menos um
asilo no lugar mais longínquo de teu reino.
CREONTE
Não sou homem que tenha o cetro com tirania; nem quero espezinhar os infelizes: acho tê-lo
mostrado claramente, escolhendo por genro um desterrado oprimido pelos males e temeroso, pois
Acasto,?º rei da Tessália, ameaça-o de castigo e de morte. Esse rei queixa-se: seu pai, velho, trê-
mulo e acabado pelos anos, foi massacrado e o cadáver esquartejado quando, enganadas pela tua
perfíidia, as devotas filhas ousaram um ímpio crime. Se tu separas tua causa da sua, Jasão pode
Justificar-se: o sangue não manchou sua inocência, sua mão não pegou a espada, e permaneceu
puro, pois não foi vosso cúmplice. Mas tu, tu inspiradora de odiosos crimes; tu que em tuas ações
reúnes uma malvadez feminina'a uma força viril e a uma completa inconsciência, vai embora,
liberta de tua presença o meu reino, leva contigo tuas ervas letíferas, tira de meus súditos o medo.
Vai para outra terra, onde poderás importunar os deuses.
MEDEIA
Tu me forças a ir embora? Então devolve à desterrada o seu navio; devolve o seu compa-
nheiro: por que me ordenas fugir sozinha? Não estava sozinha quando aqui cheguei. Se tens medo
de sofrer uma guerra, manda-nos ambos embora. de teu reino. Por que fazes esta distinção entre
os dois cúmplices? Foi por ele que Pélias foi morto, não por mim. Acrescenta a minha fuga, os
meus roubos, meu pai traído, meu irmão esquartejado; em suma, todos os crimes que meu marido
agora ensina ainda a suas novas esposas: tudo isso não deve ser imputado a mim, porque, se me
manchei de todos esses crimes, nunca foi para meu proveito.
CREONTE
Já deverias estar longe daqui: por que estás adiando a partida com esses discursos?
MEDEIA
Indo embora, suplicante, quero dirigir-te um supremo pedido: que o crime da mãe não recaia
sobre os filhos inocentes. :
z
CREONTE
Vai: eu os receberei nos meus paternos braços, como um pai..
MEDEÍIA
Pelos felizes auspícios destas núpcias reais, pelas esperanças que estas suscitam para o futu-
ro, pela sorte dos impérios que a instável Fortuna agita com suas alternas vicissitudes, rogo-te:
concede a quem está para ir embora uma breve dilação, o tempo para dar aos meus filhos o beijo
supremo de sua mãe, talvez moribunda.
; CREONTE
Tu pedes tempo para alguma nova perfídia.
MEDEIA
Qual perfidia tu podes temer de mim, num tão curto espaço de tempo?
CREONTE
Um perverso nunca tem poúco tempo demais para prejudicar.
| — — MEDEIA
Recusarás, então, a esta infeliz um pouco de tempo para chorar?
| CREONTE
Embora o medo que penetrou em mim me leve a recusar, concedo-te um dia só a fim de que
te prepares para o desterro.
3º “Filho de Pélias, queria vingar a morte do pai.
238 SÊNECA
MEDEIA .
É demais: podes tirar uma parte. Eu mesma tenho pressa de ir embora.
CREONTE
Serás degolada se não deixares o Istmo antes que Febq tenha trazido novamente a luz do dia.
300 — Mas as sagradas cerimônias das núpcias me chamam é este dia consagrado a Himeneu recla-
ma minhas preces.
SEGUNDO INTERMÉDIO
O Coro
Foi ousado demais quem por primeiro, num tão frágil barco, fendeu as ondas infiéis e, vendo
fugir atrás de si as praias natais, entregou-se ao capricho dos ventos: atravessando os mares numa
arriscada corrida, ele ousou bonfiar numa sutil tábua de madeira, pequena linha de separação
entre a vida e a morte. Ainda nenhum homem conhecia o movimento dos astros e não se servia
das estrelas que constelam o céu: as embarcações não podiam evitar as chovediças Plêiades, nem
a constelação da Cabra de Oleno º ou o carro que o velho Boote *' segue e dirige lentamente: nas
regiões árticas; Bóreas e Zéfiros *? não tinham ainda um nome.
Tífis ousou desfraldar as velas sobre o vasto mar e ditar novas leis para os ventos, ora esten-
dendo completamente as telas, ora procurando não pegar 0 Noto *º senão de través, afrouxadas
as escotas, ora fixando as vergas no meio do mastro, às vezes içando-as até o cimo quando o ma-
rujo ávido demais quer aproveitar todas as forças do vento e no alto do cesto da gávea desfralda
o pendão vermelho.
Nossos antepassados viveram séculos de inocência, quando longe estava a fraude. Cada um,
sossegadamente, contentava-se de sua praia € envelhecia na terra dos pais, rico de pouco e igno-
rando outros tesouros, exceto os produtos do solo natal. Mas o navio construído com pinho
tessálico * * aproximou as terras tão bem separadas pelas leis da natureza; e obrigou as águas a
suportar os golpes do remo € o mar misterioso a tornar-se um dos nossos temores. Duramente foi
castigado o audaz navio que percorreu uma longa série de perigos, quando de um lado e de outro
os dois montes que se esbarravam no caminho * º fizeram ouvir um espantoso estrondo e a água
comprimida salpicou as estrelas e até as nuvens. O audaz Tífis empalideceu e deixou escapar das
mãos inertes o leme; Orfeu emudeceu; e o navio “Argo”, também ele, perdeu a voz. *º E quando
a virgem do Peloro siciliano, * ? rodeava por uma multidão de cães raivosos, fez emudecer num só
instante todos os uivos, quem não sentiu calafrios ouvindo tantos gritos emitidos por um só mons-
tro? E não é certo que, quando as terríveis criaturas *º encantaram com sua voz melodiosa o mar
da Ausônia, *º o trácio Orfeu, acompanhando-se com a lira piéria, *º quase atraiu a Sereia, acos-
tumada a reter os navios com 9 seu canto?
!
*º Amaltéia, a cabra que alimentou Júpiter recém-nascido, perto de Oleno (antiga cidade da Etólia), foi de-
pois transformada em constelação.
*1 Constelação ártica situada muito perto da Ursa Maior. Boote em grego quer dizer “que guia o carro”,
*2 Ventos do norte e do ocidente. — *? Vento do sul.
** O navio “Argo” foi construído com árvores provenientes das ricas selvas da Tessália.
*5 As Simplégades (“que se chocam”) eram dois enormes rochedos postos antes da entrada do mar Negro:
empurrados pelos ventos, alternativamente se chocavam e se afastavam, fechando e abrindo a passagem aos
navios, que todavia sempre eram despedaçados. Mas, com um estratagema, o navio de Jasão passou; e,
daquele momento para diante, os rochedos ficaram parados.
ERA aà proa do navio representava uma figura esculpida em carvalho de Dodona (a cidade de Epiro, que sur-
gia no meio de uma floresta de carvalhos; e estas ârvores sussurravam os oráculos de Júpiter): também a fi-
gura da proa falava, dando conselhos aos navegantes.
*7 Cila, terrível monstro, que morava num rochedo, ao largo do promontório Peloro, na Sicília: originaria-
mente, era uma bela ninfa, transformada pela feiticeira Circe, sua rival no amor.
*8 As Sereias, que moravam numa ilha perto da Sicília.
*º Antigo nome da Itália.
8º As Musas habitavam a Piéria, região da Macedônia: assim, as Musas foram chamadas Piérides. O adje-
tivo piério equivale a “inspirado pelas Musas”.
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360. Qual foi o preço desta empresa? O velo de ouro; e este flagelo pior que o mar: Medéia, digno
365 — prêmio para os primeiros navegadores. Agora as ondas são vencidas e sofrem todas as nossas leis:
não há mais necessidade de um “Argo” construído pelas mãos de Aterias e cheio de glória pela
honra de conduzir reais remadores; agora o menor barco percorre o pélago: todos os limites
370 foram revolvidos, as cidades edificaram as suas muralhas em novas terras, nada ficou em seu
lugar primitivo sobre a terra aberta a todos. O indiano bebe as águas geladas do Áras, o persa as
375 — águas do Elba e do Reno. *" Daqui a alguns séculos, chegará um momento em que o oceano abri-
rá as barreiras do mundo: abrir-se-ã uma terra imensa, Tétis *? descobrirá um novo mundo e
Tule *º não será mais o mais longínquo ponto da terra.
8! Aras: rio da Armênia. Elba e Reno: rios da Alemanha, — 2 Esposa de Oceano. — 3 A Islândia.
SEGUNDO EPISODIO
A AMA
Filha. aonde vais. longe de tua casa. tão rapidamente? Pára. reprime teus furores. contém
teus ímpetos. [Longe de Medéia, que se agitafuriosamente.] Assim como una mênade * * tomada
pelo delírio divino, quando o deus, que a possui, já lhe tirou a razão, erra doidamente no cume do
nervoso Pindo ou nos montes de Nisa, º º assim ela corre com passo louco, levando no rosto todos
os sinais da furiosa demência. Suas faces são inflamadas; sua respiração é ofegante. Grita; pelos
olhos jorram abundantes lágrimas; serena-se: não há nenhuma paixão que ela não experimente.
Hesita, ameaça, arde, queixa-se, geme. Onde irá cair o peso de seu ódio; onde irão parar suas
ameaças; onde se quebrantará esta agitação? Seu furor transborda. Não é um crime comum nem
medíocre o que ela está meditando: ela vai superar a si mesma, pois eu conheço os sinais de suas
precedentes cóleras. Alguma coisa de grandioso se está preparando: alguma coisa atroz, inumana,
impia. Vejo o indício do furor. Possam os deuses desmentir os meus pressentimentos !
MEDEIA
[Como falando a si mesma! Se tu procuras, ó mísera, até onde deve chegar o ódio, pode
medi-lo sobre o amor. Posso eu'sofrer, sem vingar-me, a vista destas núpcias reais? Posso eu pas-
sar na inércia este dia, que foi pedido e obtido com tantas preces? Enquanto a terra sustentar o
céu; enquanto o resplandecente firmamento desenrolar suas regulares revoluções; ea areia for
incalculável; eo dia seguir o sol, e os astros, a noite; e o pólo apresentar as Ursas * º sempre longe
das ondas; € Os nos se Jogarem ao mar — jamais o meu furor de vingança poderá parar: aliás,
cada vez mais se tornará maior. Qual animal selvagem, qual Cila, qual Caribde * ? que devora as
ondas da Ausônia e da Sicília; qual Etna, que oprime um Titã ofegante, ”º poderia vomitar mais
ardentes ameaças? Nem uma fera impetuosa, nem um mar furioso, nem o terrivel Ponto *º agita-
do pelo noroeste, nem a violência das chamas avivadas pelo vento poderiam conter o ímpeto de
minha ira: eu vou abater, vou.revolver tudo. — Ele ºº teve medo de Creonte e das armas do rei
da Tessália? O verdadeiro amor não tem medo de ninguém. E se ele teve que ceder à força e dar-
se por vencido, pelo menos podia procurar sua esposa e falar-lhe uma última vez. Disso também
ele teve medo, esse homem tão.altivo. E, como genro do rei, podia adiar o momento deste cruel
desterro: por dois filhos concederam-me um só dia. Mas eu não me queixo da brevidade desta
dilação: é maior do que me seria preciso. Vai acontecer neste dia, sim, vai acontecer um fato inol-
- vidável. Irei até contra os deuses e tudo revirarei.
$* Mênades ou bacantes eram chamadas as sacerdotisas de Baco: tomavam parte nas festas em honra ao
deus, seminuas, a cabeça ornada dé coroas de hera, tendo na mão o tirso, executando danças e movimentos
desordenados.
85 Pindo: cadeia de montanhas escarpadas, que separa a Tessália do Epiro. Nisa: cidade da Cária, na Ásia
Menor.
88 Trsa Maior e Ursa Menor: consleiaçõos do hemisfério norte.
87 Caribde: recife no estreito da Sicília. O nome lhe adveio de um monstro feminino que, ao roubar os bois
de Hércules, foi fulminado por Júpiter e por este transformado em escolho e colocado junto do outro recife
denominado Cila (ver nota 46): tão breve espaço separava os dois rochedos que o navegante fatalmente
despedaçava o seu navio de encontro a um escolho ao tentar evitar outro. Daí a expressão: entre Cila e
Caribde, isto é, entre dois perigos. :
88 Os Titãs foram gigantes que uia escalar o céu é destronar Júpiter: moravam no Etna, oficina de
Vuicano.
se Ponto Euxino (“mar Nospitaeio: 3 ou simplesmente Ponto era denominado o hodierno mar Negro.
Jasão.
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AD SÊNECA
A AMA
[Voltando para perto de Medéia] Recupera, senhora, tua alma abalada pelas desgraças, acal-
ma teu rancor.
MEDEIA
Não terei descanso senão vendo aniquilado comigo o universo todo. Tudo deve desaparecer
comigo. É agradável, quando se perece, arrastar outrem à ruína.
A AMA
Vê quantos perigos te ameaçam, se continuar em tua obstinação: ninguém pode impune-
mente atacar os poderosos.
JASAO
[Entrando, ainda longe das mulheres] Ó destino sempre cruel, ó sorte dura e igualmente per-
versa, seja quando me poupas, seja quando me abates! Quantas vezes a divindade inventou para
mim remédios ainda piores do que os meus perigos: se eu quisesse mostrar-me fiel a uma esposa
merecedora, deveria expor minha cabeça à morte; não querendo morrer, devo, aí de mim!, faltar
à minha fé. Não foi o medo que venceu em mim a fidelidade, foi a mirtha trépida piedade, pois a
morte de meus filhos seguiria a de seu pai. Sagrada justiça, se tu habitas o céu, eu te chamo e in-
voco como testemunha: foram os filhos que venceram o pai; ainda mais: mesmo sua mãe, apesar
de sua altivez e de seu coração rebelde ao jugo, teria preferido — estou certo — a salvação de
seus filhos às suas núpcias. Resolvi desarmar sua ira com as súplicas. LAproximando-se) E » Justa-
mente, ei-la: à minha vista, estremeceu, furiosa. Ela transpira ódio: todo o seu desgosto lhe está
pintado no rosto.
MEDEIA
Vou fugir, Jasão, vou fugir. Mudar de sede não é novo para mim. Nova é a causa da minha
fuga, pois atê agora foi por ti que sempre eu fugi. Afasto-me, vou-me embora. Mas, forçando-me
a deixar os teus Penates, *' para onde tu me mandas encontrar outros? Chegarei ao Fásis, à Cól-
quida, ao reino de meu pai, aos campos que foram avermelhados pelo sangue de meu irmão?
Quais são as terras que tu me ordenas alcançar? Quais são os mares que tu me designas? O
estreito do Ponto, *? onde guiei a nobre turma dos príncipes, seguindo meu sedutor, através das
Simplégades? º? Alcançarei a pequena Tolco ou a tessálica Tempe”? º ? Todos os caminhos que eu
te abri, fechei-os para mim. Para onde, então, tu me reenvias? Tu prescreves a uma exilada dester-
ro, sem indicar-lhe o lugar ! Precisa ir embora. É o genro do rei quem me dá a ordem. Aceito tudo.
Acrescenta ainda os mais terríveis suplícios: mereci-os. Que o ódio do rei encubra com cruentas
torturas a amante; que minhas mãos sejam amarradas com correntes; que seja jogada na eterna
noite de um cárcere: sofreria ainda menos do que mereço. — Ser ingrato, lembre-se tua alma do
touro que soprava fogo; e, no selvagem terror de uma raça indômita, lembre-se do rebanho de
Eetes que jogou o fogo sobre o campo onde nasceu uma tropa de homens armados; lembre-se,
enfim, dos dardos lançados por estes inimigos surgidos de improviso, quando, por minha
ordem, esses belicosos filhos da terra se mataram um ao outro. Acrescenta, além disso, o cobi-
çado velo do cameiro de Frixo, º º o monstro sempre acordado que eu forcei a olhar para o céu —
ele que sempre ignorou o céu —; o assassínio de meu irmão e tantos outros crimes praticados
num só crime, e a mentira com que enganei as filhas do velho Pélias: por minha instigação elas
despedaçaram os membros do pai, na vã esperança de vê-lo ressuscitar. Tive um reino estran-
geiro, sacrificando o meu: pelos filhos que tu esperas; pelo lar já firrne; pelos monstros que eu
venci; por estas mãos que nunca poupei quando foi preciso ajudar-te; pelos perigos passados, pelo
céu e as ondas testemunhas de minhas núpcias — tem piedade e retribui, na tua presente felici-
dade, tudo isso a mim que te suplico. Dos famosos tesouros que os Citas roubam nos longínquos
países e trazem dos povos brônzeos da Índia (tesouros que o nosso palácio não pode conter, tanto
que nós enfeitamos com eles as nossas florestas), de tão grandes riquezas eu não trouxe comigo,
MEDÉIA | 243
no desterro, senão os membros de meu irmão: e também os sacrifiquei a ti. A ti sacrifiquei a pá-
tria, O pai, O irmão, o pudor: eis o dote que eu te dei! Devolve-o a quem agora vai para o desterro.
JASAO
Creonte odiava-te: queria tua morte. Foram as minhas lágrimas que o comoveram. E,
somente, te desterrou. :
MEDEIA
Sempre reputei o exílio um castigo; ao contrário, conforme vejo, é um favor.
JASAO
Enquanto o exílio nda te é permitido, vai embora, salva-te: a cólera de um rei é sempre
terrível.
MEDEIA
Dando-me este conselho, tu queres favorecer Creúsa: desejas libertá-la de uma invisa rival.
JASAO
É Medéia que me exprobra meus amores?
MEDEIA
E os assassínios e as perfídias.
JASAO
Mas, enfim, dize-me: por quais crimes me repreendes?
MEDEIA
Por todos os crimes que praticaste.
JASAO
Só resta imputares-me teus próprios crimes.
MEDEIA
Sim,são teus, teus: quem; aproveita um crime, desse crime é autor. Todos podem afirmar que
tua esposa é infame: somente tu tens o dever de defendê- la, de proclamar sua inocência. A teus
olhos deve ser inocente quem é culpado por te favorecer.
JASAO
Como é odiosa a vida, quando temos vergonha de tê-la recebido.
MEDEIA
Não devemos conservá-la, quando temos vergonha de tê-la recebido.
JASAO
Não seria melhor acalmar teu coração excitado pelo ódio? Pensa nos teus filhos.
MEDEIA
Renuncio a eles, renego-os, repilo-os. Creúsa dará irmãos aos meus filhos?
| JASAO
Rainha, dará irmãos aos filhos de exilados: com o seu poder levantará os miseráveis.
MEDEIA
Possa nunca chegar o dia funesto em que estes infelizes devam misturar sua gloriosa estirpe
com uma estirpe vil, confundindo os descendentes do Sol com os descendentes de Sísifo ! * €
8º Filho de Éolo e pai de Creonte, Sísifo foi considerado o homem mais esperto e mais malvado da Antigui-
dade. Fundou Corinto e foi rei desta cidade; fechou o istmo com muralhas: desta maneira podia assaltar os
viajantes como um verdadeiro bandido.
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244 SÊNECA
JASAO
Por que, mísera, desejas arrastar-me em tua ruína? Peço-te encarecidamente: vai embora.
MEDEIA
O próprio Creonte ouviu minhas súplicas.
JASAO
Que posso fazer? Fala.
MEDEIA
Por mim? Até um crime.
JASAO
De todo lado um rei ameaça-me.
MEDEIA
Há algo mais terrível do que eles: eu, Medéia. Põe-nos frente a frente, deixa-nos lutar; e que
Jasão seja o prêmio do vencedor.
JASAO
Eu cedo, oprimido pelos males. Tu mesma receias os golpes da sorte, que já tantas vezes
experimentaste.
MEDEIA
Sempre dominei completamente a minha sorte.
JASAO
Acasto ameaça... *º”
MEDEIA
Creonte é um inimigo ainda mais próximo. Foge aos dois. Eu, Medéia, não quero forçar-te
a armar tuas mãos contra o sogro, nem manchar-te do assassínio de um aliado: ficando inocente,
foge comigo.
JASAO
E como seria possível resistir, se formos ameados por uma dúplice guerra, se Creonte e
Acasto reunissem suas forças contra nós?
MEDEIA j
Acrescenta também os habitantes da Cólquida, acrescenta também Fetes como chefe, reúne
os Citas aos Pelasgos: a todos vencerei.
JASAO
Temo o poderio do cetro.
MEDEIA
No entanto, parece que o desejas.
JASAO
A fim de que não seja causa de suspeitas, abrevia esta longa conversa.
MEDEIA
Ó Júpiter todo-poderoso, é o momento em que deves encher o céu inteiro com teu trovão:
estende o braço direito, prepara os teus fogos vingadores e sacode o firmamento todo dilacerando
as nuvens. É inútil que a tua mão fique incerta na escolha para lançar suas setas: seja qual for a
vítima — eu ou ele —, morrerá um criminoso. Acertando em nós, teu raio não poderá errar.
*7 Éo filho de Pélias.
MEDÉIA 245
JASAO
Vê, afinal, se podes voltar a idéias razoáveis e a propósitos tranquilos. Se há, na casa de meu
sogro, algo que possa abrandar teu exílio, podes pedi-lo.
:* MEDEIA
Minha alma — tu o sabes — pode desprezar as riquezas dos reis: já tem esse hábito. Seja-me
permitido, somente, levar comigo, como companheiros de exílio, os meus filhos, a fim de que
possa chorar sobre o seu peito. Tu terás outros filhos.
JASAO
Desejaria atender a teu pedido, juro-te; mas o amor paterno mo proíbe. Se quisesse obrigar-
me a este sacrifício o rei mesmo, meu sogro, não obteria nada. Eles são minha razão de vida, eles
são a consolação desta alma roída pelos sofrimentos. Renunciaria, antes, ao respirar, aos meus
próprios membros, à luz.
- MEDEIA j
[Como falando a si mesma] Ele ama de tal maneira os seus filhos? Muito bem. Descobri o
ponto vulnerável. LA Jasão.] Pelo menos, indo embora, seja-me concedido dar a eles as supremas
recomendações; possa eu. abraçá-los pela última vez: tudo isso será um grande favor. E, por fim,
peço-te a graça de apagar no teu coração as palavras que eu gritei na agitação de meu rancor.
Conserva, antes, a lembrança de minha volta aos melhores sentimentos: de tua memória sejam
afastadas as recordações de minha ira.
JASAO
Tudo isso já está longe de meu espírito. Suplico-te: domina tua ardente alma, modera-a. A
calma abranda as calamidades. [Sai]
MEDEIA
Foi-se. É possível? Tu podes ir embora e esquecer-me? E esquecer tudo o que eu fiz? Já eu
saí da tua memória? Não, nunca sairei. Vamos, Medéia: chama o poder de teus malefícios. O
fruto de teus crimes é não considerar mais nada como criminoso. Apenas há lugar para a astúcia.
Eles têm medo, de mim. É preciso, então, atacar lá onde não seja possível haver desconfian a.
Vamos, tem audácia, põe em:prática tudo o que é possível a Medéia: até o que é impossível. A
Ama] E tu. minha fiel ama. cómpanheira de minha dor e de meu instável destino. ajuda meus tris-
tes destgnios. Tenho um manto, dádiva divina, orgulho da minha casa e do meu reino: dádiva que
o Sol deu a Eetes como sinal de sua origem: Tenho também um colar reluzente — malha de ouro,
onde pedras preciosas fazem ressaltar ainda mais o metal — com o qual costumo cingir os cabe-
los. Os meus filhos levarão à-esposa estes presentes, que eu quero impregnar e embeber em sinis-
tros filtros. Imploremos a proteção de Hécate. Prepara o sacrifício fúnebre, estejam prontos os
altares, logo a chama crepite no palácio. [Saem]
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1 ERCEIRO INTERMÉDIO
O Coro
Nenhuma força — nem da chama nem do vento furioso nem da terrível seta retorcida —
pode ser comparada à força de uma esposa repudiada, envolvida pelo fogo do ódio: menos vio-
lento é o nubloso Austro º * quando leva consigo a chuva invernal; menos violento é o Histro
quando corre erieinasamente: “destruindo as pontes e inundando as campinas; menos violento é
o Ródano quando repele o mar, ou o Hemo quando se derrete em torrentes ao dissolver-se das
neves, sob o sol já quente, no meio da primavera. Cega é a paixão que estimula o ódio: não se
preocupa de ser moderada nem suporta ser freada, não tem medo da morte, quis espontaneamente
E]
Jogar-se sobre a espada.
Sede clementes, ó deuses: viva em paz quem conquistou 9 mar; mas o rei das ondas é furioso,
pois o segundo império do universo foi vencido. *º 'O jovem ?º que teve a ousadia de dirigir o carro
paterno foi queimado pelas chamas que ele mesmo espalhou loucamente pelo céu. Seguir o cami-
nho já percorrido & sempre menos perigoso: é bom passar onde os predecessores encontraram a
segurança; é bom não quebrar com violência às sagradas leis do mundo.
Todos os que manejaram os remos do intrépido navio, despojando o Pélio 7" da espessa som-
bra de suas árvores sagradas; todos os que passaram através dos rochedos vagantes 2 e, depois
de ter experimentado todos os perigos do mar, por fim amarraram seu cabo na praia bárbara
antes de voltar com o ouro roubado — todos expiaram com um terrível fim a profanação do
império marítimo. i
O mar provocado vingou-: se das ofensas recebidas: em primeiro lugar Tífis, vencedor das
ondas, teve de deixar o leme a um piloto inexperiente, quando na praia estrangeira, longe do reino
paterno, caiu e, depois de ter tido um humilde túmulo, desceu entre as obscuras sombras. Foi de-
pois disso que Áulis, “*felã memória do príncipe perdido, reteve longamente em seu porto os na-
vios cansados de deitar à âncora. .
O filho da musa dos cantos, ” * aquele que com a lira, modulada pelo melodioso plecitro, fazia
parar as torrentes, calar os ventos, quando as aves, renunciando a seu próprio canto, acorriam
perto dele, seguidas pela inteira floresta — foi esquartejado e seus membros espalhados pelas
campinas trácias, enquanto a cabeça flutuou sobre as águas tristes do Ebro: ” º ele chegou nova-
mente às margens do Estige e ao; Tártaro já conhecido, mas desta vez para não mais voltar.
!
68 Austro: vento do sul. E mais adiante: Histo é o antigo nome do Danúbio, um dos maiores rios da Euro-
pa, assim como o Ródano é um dos maiores da França; o Hemo é a cadeia de montanhas que atravessa a
península Balcânica.
8º O império de Netuno, deus dos mares, foi vencido pelos Argonautas.
POr Faetonte (o “brilhante?), filho de Hélio: insistiu em experimentar a sensação de guiar o carro do sol
através dos céus; mas a experiência redundou em desastre, pois quase incendiou a terra: atingido por um raio
de Júpiter. Faetonte caiu no rio Pó. Símbolo da ousadia e da presunção: a mesma sorte tiveram os
Argonautas. ;
7% Alto monte da Tessália, rico em selvas: com árvores desta região foi construído o navio “Argo”?.
72 Ver nota 45.
73 Porto da Beócia, do qual partiu a armada grega que foi sitiar Tróia. Antes de sair, Os navios tiveram de
ficar parados longo tempo, devido à;bonança provocada pela deusa Ártemis.
7* Orfeu, filho de Apolo e da musá Calíope.
7º Rio da Espanha.
78 Orfeu já tinha descido ao reino; ide além-túmulo (Tártaro, onde escorre o rio Estige) para salvar a esposa
Eurídice. Vários são os mitos de seu fim: foi despedaçado pelas bacantes enciumadas, pois ele lamentou a
perda da esposa; ou foi dilacerado pelas mulheres trácias, tendo-se ele oposto às orgias báquicas.
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248 SÊNECA
Alcides [Hércules] 7” abateu os filhos de Aquilão [Bóreasl, matou o filho de Netuno que se
transmudava em inúmeras formas: depois de ter pacificado a terra e o mar, depois de ter violado
o reino do terrível Plutão, estendeu-se ainda vivo sobre o ardente Oeta e ofereceu seu próprio
corpo à cruel chama, pois o veneno de um sangue híbrido o consumia, vítima de um presente da
esposa.
Anceu foi abatido pelos golpes furiosos de um javali. ?º As tuas ímpias mãos, ó Meleagro,
assassinam os irmãos de tua mãe: e tu morres pela mão desta mãe enraivecida. º Todos tinham.
merecido o castigo. Mas qual foi a culpa que.com a morte expiou o jovem*º não mais encontrado
pelo grande Hércules, o adolescente raptado pelas correntes de uma água inofensiva? Ide agora,
ó heróis, percorrei o oceano, quando uma simples fonte é tão perigosa!
fdmon,*"* quando conheceu a sua sorte, deixou-se devorar por uma serpente nas areias da
Líbia.. Adivinho verídico para os outros e falso somente para si, Mopso*? caiu bem longe de
Tebas. Se profetizou exatamente o futuro, o marido de Tétisºº deverá errar, fugitivo; Náuplio,* *
no momento em que estiver para arruinar os Argivos com seus pérfidos jogos, será lançado ao
profundo mar e o filho perecerá, expiando assim os erros paternos. O filho de Oileu* º morreu ful-
minado e ao mesmo tempo afogado; a esposa do rei Feres* º, resgatando a sorte do marido, sacri-
fica por ele a vida. Quanto a Pélias, que mandou entregar-lhe, como presa, o velo de ouro sobre
o primeiro navio, foi queimado na água de uma pequena caideira posta no fogo. Ó deuses, já vin-
gastes o mar: poupai quem somente obedeceu. *?
7? Hércules é chamado Alcides porque seu avô foi Alceu, filho de Perseu. Entre as várias façanhas do herói,
narra-se que abateu Zetes e Cálais, filhos de Bóreas; matou o filho de Netuno, chamado Periclimeno, que
podia mudar de aspecto à vontade; foi ao reino de além-túmulo; fez parte da expedição dos Argonautas; etc.
Enfim, matou o centauro Nesso, que lhe queria raptar sua esposa Dejanira: morrendo, o centauro ofereceu
como presente a Dejaniraa sua túnica ensangiientada, afirmando que era um talismã de raras virtudes, inclu-
sive a de assegurar-lhe a fidelidade do marido. Quando Hércules aprisionou Iole, filha de Aoristo, rei da Tes-
sália, Dejanira teve medo que o marido se apaixonasse pela moça; então, deu ac esposo a túnica de Nesso.
Mas o sangue do centauro fez inflamar o corpo de Hércules, corroendo-o com seu veneno: para acabar com
o martírio, o herói subiu numa fogueira posta sobre o cume do monte Oeta, na Beócia. Júpiter salvou-o,
levando-o ao céu e dando-lhe a imortalidade.
7º Filho de Netuno, foi o piloto que substituiu Tífis. Quando voltou à sua ilha de Samos, um profeta, vendo
que o moço estava plantando uma videira, lhe predisse que não beberia daquele vinho. Anceu fez o vinho e
mandou chamar o profeta, ao qual disse: “Eis o vinho no copo: do copo aos lábios o espaço é muito breve”.
Mas naquele instante um escravo lhe avisou que um javali estava devastando o vinhedo. Arceu. deixon o
copo e correu para caçar o javali, que o matou.
78 Conforme o mito, quando Meleagro nasceu as Parcas afirmaram que a vida da criança estava ligada a
um tição que ardia na lareira: a mãe Altéia pegou o tição, apagou-o e o escondeu numa caixa. Mas numa
luta para ganhar a pele de um javali, nas planícies perto da cidade etólia de Cátidon, Meleagro matou os
irmãos da mãe (Plexipo e Toxeu): enraivecida, a mãe pegou novamente o tição, acendeu-o e desta maneira
o filho morreu.
ºº Hilas, filho do rei da Mísia (conforme outro mito: filho de Hércules e da ninfa Menodice), célebre pela
sua beleza, acompanhou Hércules na expediação dos Argonautas. Um dia estava brincando com as águas de
uma fonte: apaixonadas por ele, as ninfas atraíram o jovem, que não foi mais encontrado pelo inconsolável
Hércules.
87 Adivinho, filho de Apolo.
*2 Sêneca aqui confundiu o tessálico Mopso (que foi companheiro de Jasão na expedição dos Argonautas
e que morreu durante a viagem pela picada de uma serpente) com o adivinho tebano Mopso, filho de Apolo
e da profetisa Manto: morreu na Ásia Menor, durante uma briga com Anfiloco, filho do adivinho grego
Anfiarão. E
*º Peleu, rei de Ftia (Tessália), foi exilado várias vezes: durante a ausência do filho Aquiles, que ficou dez
anos no sítio de Tróia, foi novamente exilado pelos filhos de Acasto, do qual tinha usurpado o trono.
º* Rei da ilha Eubéia: o filho Palamedes, durante o sítio de Tróia, foi vítima das intrigas de Ulisses; para
vingar o filho, Náuplio fez naufragar vários navios gregos que voltavam da guerra, atraindo-os com falsos
sinais contra os rochedos da ilha; mas, quando soube que Ulisses não caiu no engano, se jogou ao mar.
** Ájax, filho de Oileu, rei da Lócrida, foi ao cerco de Tróia: quando a cidade caiu, ele violou a profetisa
Cassandra no templo de Atenas. A deusa, irritada, fez naufragar o navio na viagem de volta: 6 deus Netuno
salvou o herói num rochedo, mas, tendo Ájax gritado que podia salvar-se também sem o auxílio dos deuses,
Netuno quebrou o rochedo e o jovem morreu no mar.
*8 Admeto, rei de Feres (Tessália), obteve de Apolo a graça de não morrer, se alguém aceitasse a morte em
seu lugar. Sua esposa, Alceste, deixou-se imolar; mas Hércules, hóspede de Admeto, desceu ao Tártaro,
lutou contra Ades, rei dos mortos, e reconduziu a mulher ao marido.
87 Jasão obedeceu à ordem de Pélias, indo à conquista do velo de ouro na Cólquicda.
TERCEIRO EPISODIO
j :
À AMA
Minha alma está espantada, cheia de horror: é iminente uma grande desgraça. Quanto mais
cresce o seu desumano furor, tanto mais ela mesmã se exalta e encontra novamente a força que
a animou no passado. Amiúde: vi Medéia, em delírio, atacar os deuses e suscitar a ira do céu; mas
o que ela agora medita é ainda mais extraordinário. De fato, foi-se logo embora daqui com passo
“agitado pela fúria e chegou a seu funesto refúgio; ela espalha todos os seus materiais: voltam à luz
"objetos dos quais ela mesma tinha terror desde muito tempo, objetos misteriosos, secretos, escon-
didos. Depois, estendendo a mão esquerda sobre o lúgubre altar, evoca todos os venenos, que são
produzidos pelas areias da abrasada Líbia, todos os venenos que o Tauro*º gelado pelo frio ártico
“prende em suas neves eternas; e todos os rnonstros. Atraídas pelos mágicos encantamentos de
"Medéia, as raças dos répteis cobertos de escamas deixam seus esconderijos. Eis uma horrível ser-
pente que arrasta seu imenso corpo, vibrando a tríplice língua e procurando a quem deve dar a
morte; mas, ouvindo o canto, fica imóvel e se enrola em espiral. “São armas fracas demais”, ela
-sussurra; “são dardos demais comuns estes que a profunda terra produz: quero pedir ao céu os
seus venenos. Chegou o tempo em que deve ser feito algo mais grandioso do que os malefícios vul-
"gares. Desça até aqui a famosa serpente que se assemelha a um imenso rio e da qual a Ursa Maior
e a Menor sentem os monstruosos apertos (a Grande é propícia aos Pelasgos, a Pequena aos Fení-
cios): a constelação do Serpentário desaperté enfim as mãos e deixe o réptil cuspir veneno! Às mi-
"nhas magias aproximem-se Pitão, que ousou perseguir as divindades gêmeas,ºº e a Hidra com
todos os seus répteis que a mão de Hércules cortava e que imediatamente renasciam.*º Deixa a
Cólquida, ó dragão sempre cuetanie; que eu a primeira vez adormeci com os meus
encantamentos.” *!
Depois de evocar todas as raças dos répteis, ela reúne todas as ervas venenosas: as que nas-
cem entre as rochas inacessíveis do Érix;º? as que, nos montes cobertos de neves, produz o Cáu-
caso molhado pelo sangue de Prometeu;º? as ervas, em cujos sucos mergulham suas flechas os
habitantes da opulenta Arábia, os Medos hábeis nó mancIo do arco, e os velozes Partos; * as
er vas cujos succs são recolhidos, scb um céu gelado, peios valentes Suevos na floresta Herci-
nia;º º as ervas que são produzidas pela terra durante a primavera cheia de ninhos ou quando o
88 Montanhas da Ásia.
8º Serpente enorme e monstruosa, descida do limo da terra, que habitava as cavernas do monte Parnaso, na
Fócida. Foi morta a flechadas por Apolo (que estava acompanhado pela irmã Ártemis) nas proximidades de
Delfos: o deus tirou-lhe a pele e com ela Forrou o trono em que ele e suas pitonisas pronunciavam os
oráculos.
Pi Serpente de sete cabeças, da lagoa de Lerna (na Argólida), que foi morta por Hércules: suas cabeças
renasciam à medida que iam sendo cortadas, motivo por que foi este o mais difícil dos doze célebres traba-
lhos do herói.
91 O dragão sempre vigilante foi: pesto perto da velo de ouro; mas Medéia o adormeceu para que Jasão
pudesse roubar-lhe o precioso objeto.
º2 Monte da Sicília, com um famoso templo dedic ado a Vênus (Vênus Ericina).
93 Prometeu roubou o fogo dos céus para entregá-lo aos homens: como castigo, foi acorrentado a uma
rocha no Cáucaso, onde uma águia ia todos os dias devorar-lhe o figado que à noite se reconstituía e curava.
Foi salvo por Hércules.
º* Os medos moravam perto da Mesopotâmia, os partos nas margens do mar Cáspio.
95 Montanhas da Alemanha central, desde o Reno até os Cárpatos, ricas em selvas, onde morava O povo
belicoso dos suevos.
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250 | : SÊNECA
frio rigoroso já despojou as selvas de seu ornamento e fechou toda a natureza nas suas neves
congeladas; as ervas que levam no caule verdejante as flores venenosas e as ervas cujas raizes
espremidas dão origem a sucos nocivos — todas passam pelas suas mãos. Destas funestas ervas,
algumas provêm do tessálico Atos,” º outras do imenso Pindo; e sobre os cumes do Pangeu outras
entregaram sua tenra cabeleira a uma cruenta foice; outras foram alimentadas pelo Tigre que se
agita num leito profundo, outras pelo Danúbio, outras ainda pelo Hidaspes que, correndo atravês
das áridas planícies, faz rolar pedras preciosas em suas mornas águas, outras pelo Bétis que deu
o seu nome às terras por ele atravessadas e cujas águas, depois de um lento curso, misturam-se
com as ondas do mar da Espéria.º ? Esta erva, feriu-a o ferro quando Febo faz repontar o dia; os
rebentos daquela foram cortados durante a profunda noite; esta, enfim, foi colhida pela unha fa-
dada da feiticeira. Ela pega todas essas ervas mortíferas; expreme o veneno dos répteis, mistu-
rando os malefícios de sinistras aves, o coração de um lúgubre mocho e as vísceras arrancadas à
uivante coruja quando é ainda viva. Estas são as magias reunidas por esta artista em matéria de
crimes: cada uma em seu lugar, tendo umas a força devoradora das chamas, outras a força glacial
de um frio que entorpece. À estes venenos ela acrescenta as fórmulas mágicas não menos terríveis.
— Mas ei-la: ressoam seus passos furiosos; e sua voz: as primeiras palavras fazem tremer o
mundo inteiro.
MEDEIA
Eu vos imploro, multidão das sombras silenciosas, deuses dos mortos, caos cego, obscura
habitação do tenebroso Plutão, antros da horrível morte situados nas margens do Tártaro. Deixai
vossos suplícios, ó almas, acudi para estas novas núpcias. Pare a roda que torce os membros de
Ixião, ºº de modo que ele possa pisar a terra; beba Tântalo em paz as águas do Pirene.ºº Vinde
todas, é Danaides, 'ºº iludidas pelo vão trabalho de vossas urnas sem fundo: este dia precisa das
vossas mãos. A pedra que desliza para baixo liberte enfim Sísifo. 'º" Somente o sogro de meu
marido deverá receber um castigo ainda maior. E agora, chamado pelos meus encantamentos, ó
astro da noite, vem com o teu mais funesto rosto, tendo a ameaça sobre a tríplice fronte. 'º2
Para ti, conforme o hábito de nossa raça, soltei os laços de minha cabeleira; percorri a pês
nus os lugares mais secretos dos bosques; tirei a chuva das nuvens secas; remexi os mares nas
suas profundezas: o oceano, quando venci as marés, teve de fazer recuar as apertadas ondas.
Também o céu, perturbado em suas leis, viu no mesmo momento o Sol e as estrelas; e as Ursas
trocaram o mar, que lhes é interditado. Mudei a segiiência das estações: em pleno verão a terra
cobriu-se de flores, graças aos meus encantamentos; e forcei Ceres!'º? a dar uma colheita em
pleno inverno. O impetuoso Fásis fez subir as ondas para o nascente; e o Híster, que tem muitas
º8 Atos: península montanhosa, que abrange a Calcídia e a Macedônia. E mais adiante: o Pindo, como já
vimos, ê uma cadeia de montanhas escarpadas que separa a Tessália do Epiro; o Pangeu é uma cadeia de
montanhas da Macedônia; o Tigre é, com o Eufrates, o rio que percorre a Mesopotâmia; o Danúbio é um
dos maiores rios europeus; o Hidaspes é um rio da Índia (hoje se chama Dgielem); Bétis é o antigo nome do
rio espanhol Guadalquivir, que atravessa a Andaluzia (a antiga Bética, uma das três regiões da península
Ibérica). j o
º7 Nome que os gregos davam à Itália, pois estava situada a ocidente. a
º8 Ixião foi um herói tessálico, pai dos Centauros; como se gabasse de suas relações com Juno, foi precipi-
tado por Júpiter nos Ínferos e amarrado a uma roda em brasa que devia girar eternamente.
*º Riquíssimo rei da Lídia (Ásia Menor), Tântalo foi muitas vezes convidado pelos deuses aos banquetes
celestes; por isso, ficou soberbo, roubou a ambrosia para levá-la aos homens. Por castigo, foi colocado no
infemo por Mercúrio, que lhe pôs junto da boca um ramo com frutas, o qual se levantava todas as vezes que
ele queria comer, e um cântaro de água que se retirava quando queria beber. — A fonte do Pirene ficava
perto de Corinto. ,
199 As cinquenta filhas de Dânao (filho de um rei egípcio), para não esposarem os cingiienta filhos de Egito
(irmão de Dânao), refugiaram-se com o pai na Argólida; mas os pretendentes reiteraram o pedido: então,
Dânao mandou que as filhas matassem os maridos na primeira noite de núpcias. Todas (menos uma, Iper-
mestra, que salvou o marido Linceu) foram condenadas, como expiação desse crime, a encher eternamente
tonéis sem fundo.
"97 Ver nota 66. Júpiter, zangado com ele, condenou-o a morrer; mas Sísifo acorrentou a Morte e ninguém
podia mais morrer. Então, o deus mandou Ares libertar a Morte, e Sísifo foi condenado, no inferno, a puxar
uma enorme pedra para o cume de uma montanha: quando chegava-ao cume, a pedra caía novamente ao
vale; e assim o castigo era eterno.
192 Ver nota 3.
?º2 Deusa romana (identificada com a Deméter grega), protetora dos cereais e das colheitas; irmã de Júpi-
ter e mãe de Proserpina.
MEDÉIA 251
fozes, deteve preguiçosamente suas âguas ameaçadoras entre as margens. As vagas estrondearam; 765
o mar inchou-se furiosamente, embora os ventos não soprassem; minha voz imperiosa fez desapa-
recer as sombras numa antiga floresta e voltar ali o dia; Febo parou no meio de sua corrida e a
constelação das Híades, abalada pelas minhas magias, vacilou. Eis o momento, ó Febo, para 770
assistir ao sacrifício que preparei para ti.
Para ti a minha mão sangrenta entrelaçou estas grinaldas amarradas com nove serpentes.
Para ti peguei estes membros que foram de Tifeu, o rebelde que abalou o império de Júpiter. 'º 4
Eis o sangue do pérfido Nesso !º ? que ele mesmo me deu no momento de morrer; eis a cinza reco- 775
lhida na fogueira do monte Oeta, cinza que ficou embebida do veneno que fez morrer Hércu-
les.'º É Este archote pertenceu a Altéia, irmã piedosa e mãe ímpia em sua vingança.'º”? Estas 780
penas foram deixadas no seu antro inacessível por uma Harpia, que fugia perante Zetes.!ºº
Acrescentem-se” estas plumas de uma ave do lago de Estinfalos. ferida pelas flechas mergu-
lhadas no sangue da hidra de Lerna.'ºº Ô altares, ouvi vosso sinal: compreendo que as minhas 785
trípodes são agitadas por uma deusa propícia.
Vejo o rápido carro de Trívia:""º não aquele que ela guia, radiosa, durante a noite, quando
seu rosto é completo, mas aquele ao qual faz descrever uma curva mais próxima a nós, quando,
triste e com o rosto lívido, é atormentada pelos terríveis encantamentos dos Tessálios.'!! Espa- 790
lha, então, de teu pálido archote uma sinistra luz no ar, espanta com um novo terror os povos:
para te ajudar, ó Díctina, ressoem os preciosos bronzes de Corinto. !'? Para ti, sobre este amon- 795
toado de terra ensangúentada, ofereço um solene sacrifício; para ti uma tocha, que foi raptada
numa fúnebre fogueira, acendeu estes fogos noturnos; para ti, sacudindo a cabeça e dobrando o 800
pescoço, pronunciei as sagradas palavras; para ti, uma fita liga os meus cabelos soltos, como
durante os funerais; para ti agito este lúgubre galho mergulhado nas águas do Estige;""* parati, sos
despindo o peito como uma mênade, vou agora ferir os meus braços com a sagrada faca. Que meu
sangue caia sobre esses altares: acostuma-te, é minha mão, a usar O ferro, a ver cair gota a gota
o teu querido sangue. Eis: da carne ferida desce o sacro licor. 810
Se tu te queixas dos meus contínuos pedidos, suplico-te que me concedas o teu perdão: o mo-
tivo pelo qual tantas vezes invoco o teu arco, ó filha de Perseu, !"* é sempre o mesmo: Jasão. sis
Agora tu deves impregnar a capa que vou mandar a Creúsa, a fim de que, logo que ela a tenha
posto sobre o corpo, uma chamã penetre nos seus ossos e a devore até a medula. Um fogo secreto 820
se introduza neste fulvo ouro: aquele que expia com o figado sempre novo o celeste roubo,
Prometeu "" º mesmo me deu este presente e me ensinou a arte de dissimular os seus efeitos. Rece-
bi de Vulcano estes fogos cobertos com uma leve camada de enxofre; e de Faetonte, meu parente, 825
provêm estes raios de uma eterna chama. Terho os fogos que saíram do corpo da Quimera;""*
tenho as chamas que foram raptadas da garganta flamejante do touro:!!? misturando nestes 830
fogos o fel de Medusa," !* forcei-os a esconder sua virulência. Estimula a força destes venenos, ó
4
|
'º* Monstro com cem cabeças de dragão: rivalizou com Júpiter pela soberania sobre o mundo; vencido, foi
jogado no Tártaro (conforme outra lenda: sepultado vivo nas vísceras do vulcão Etna).
195 Yer nota 77.
“0 Vernota 77.
197 Ver nota 79.
108 Zetes e o irmão Cálais, filhos Gê Bóreas, libertaram Fineu, rei da Trácia, que estava atormentado pelas
Harpias (monstros alados, com rosto de mulher e corpo de abutre) por ter tirado a vista aos filhos.
199 Nos pântanos de Estínfalos (Acarnânia) moravam aves fabulosas, com garras, asas e rostos de bronze:
lançavam as penas como flechas. — Quanto à hidra de Lerna, refere-se ao segundo trabalho de Hércules: o
herói conseguiu matar a hidra (monstro de nove cabeças, que depois de cortadas renasciam) e no seu fel
venenoso mergulhou as flechas, que produziam feridas insanáveis (ver nota 90).
110 b
4111
Í
Outro nome de Hécate. Ver nota 3.
Famosos eram os adivinhos e feiticeiros da Tessália.
“2 Díctina é outro nome de Hécate (ver nota 3), assim chamada na ilha de Creta, pois no início foi certa-
mente protetora dos pescadores (“diktyon”, rede para pescar). Um eclipse era interpretado como se a lua
sofresse uma grande calamidade: para afastá-la, faziam-se ressoar ou se quebravam vasos de bronze.
“3 Rio que atravessava as regiões do alêm-túmulo,
1º Hécate é, conforme um mito, filha de Perseu e de Astéria; conforme outro mito, de Júpiter e Deméter.
118 Ver nota 93.
!18 Monstro que expelia fogo pelas ventas, descrito geralmente como uma combinação de leão, cabra e ser-
pente. Foi morto por Belerofonte, filho de Glauco, rei de Corinto.
117 Yer nota 38. ;
1º ma das três Górgonas (Medusa, Esteno e Euriale), monstros que tinham o poder de transformar em
pedra os que para eles olhassem. Perseu conseguiu cortar a cabeça de Medusa, ajudado pela deusa Minerva.
250. SÊNECA
835 Hécate; conservando nos meus presentes os germes das chamas que eles.escondem: possam eles
enganar a vista, ser apalpados, penetrar no coração e nas veias, derreter os membros, queimar os
ossos, transformar em chamas ainda mais vivas que as tochas os cabelos da nova esposa.
840 Ah! Obtive o que pedi: três vezes a audaz Hécate deu latidos, três vezes de sua fúnebre tocha
fez sair a sagrada chama.
Acabou o encantamento. [4 Ama] Vai chamar os meus filhos, que devem levar à esposa
845 — estes preciosos presentes. LA ama volta com os dois filhos de Medéia! Ide, ó filhos, prole de uma
mãe infeliz, ide granjear com os presentes e inúmeras preces a vossa senhora, a vossa madrasta.
Ide e voltai imediatamente a mim, para que eu possa gozar de vossos últimos abraços.
QUARTO INTERMÉDIO
O Coro
Aonde se precipita a sangrenta mênade, levada pelo seu cruel amor? Qual crime prepara em
seu impotente furor? Seu rosto inflamado pela cólera torna-se feroz: agitando com arrogância a
cabeça, ameaça abertamente o rei. Quem poderia crer que ela foi exilada? Suas faces são averme-
lhadas e ardentes; depois a palidez afasta o rubor e seu rosto não mantém durante muito tempo
a mesma cor. Ela vagueia ao acaso, como uma tigre privada de seus filhotes percorre furiosa-
mente a floresta do Ganges. "'º Medéia não sabe moderar suas cóleras nem seus amores. Agora
seu ódio e seu amor se juntaram: Que vai acontecer? Quando a nefasta mulher da Cólquida leva-
rá seus passos longe do país dos Pelasgos; quando libertará de sua inquietante presença o reino
e seus reis? Agora, ó Febo, lança teu carro a rêdeas soltas. Que a benéfica noite apague a luz e
que este dia tão terrível desapareça diante de Vésper, príncipe da noite!
118 Grande rio ao norte da Índia.
E)
Co co
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& OS
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EPíÍLOGO
O NuNcio
Tudo está perdido: o reino caiu. À filha e o pai jazem, reduzidos a cinzas.
O Coro
Qual foi a traição que os enganou?
O NuNciIo
O Coro
Mas qual traição podia ser escondida nos presentes?
?
A armadilha comum, pá qual se deixam pegar os reis: os presentes.
O NÚNCIO
i
Eu mesmo estou pasmado: com dificuldade posso crer possível o mal que foi praticado.
O Coro
Como se desenvolveu a desgraça?
O NUNCcIO
Um fogo voraz assola todo o palácio, como obedecendo a uma ordem. O edifício inteiro é
destruído. Temo pela cidade.
| O Coro
Vamos abafar as chamas com a água.
!
O NÚNCIO
Não é possível ! Eis outro: prodígio nesta catástrofe: a água alimenta ainda mais o fogo. Mais
se procura abafá-lo, mais cresce sua violência: consome todos os obstáculos. [Sail
I
A AMA
LEntrando com Medéia e as duas crianças, que ficam no fundo] Foge, é Medéia, longe do
país dos Pelópidas:!2º depressa alcança, sem escolher, qualquer outro lugar.
| MEDEIA
)
Eu afastar-me daqui? Se;eu tivesse saído, voltaria para gozar do espetáculo destas novas
núpcias. Para que hesitar, é minha alma? Estou seguindo o teu feliz ímpeto. Como este esboço de
vingança, que tanto te alegra, é pouca coisa! Então, tu amas ainda, ó insensata, pois te contentas
de que Jasão fique viúvo. Procura uma maneira especial de castigo: prepara-te para ser ainda
digna de ti mesma. Não há mais nada de sagrado para ti, manda embora o pudor: pequena é a
vingança que deixa puras as mãos. Inflama novamente teus furores, excita tua indolência que se
está afrouxando, faze brotar violentamente do fundo do coração os teus antigos impetos. Seja
considerado como piedade tudo o que fizeste até, agora. Vamos, faze de maneira que se saiba
,
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256 SÊNECA
como eram insignificantes e vulgares os crimes praticados para favorecer alguém. Meu ódio não
foi senão um prelúdio: era possível ousar algo verdadeiramente grandioso com mãos ainda
inexperientes? Com o meu furor de virgem? Agora é que sou Medéia: meu talento tornou-se gran-
deno mal. Sou feliz, sim, sou feliz por ter cortado a cabeça de meu irmão; feliz por ter esquarte-
jado o seu corpo, por ter despojado meu pai de seu tesouro sagrado que ele guardava tão cuidado-
samente; feliz por ter armado as filhas para que matassem seu velho pai. Ô meu ódio, tu não deves
senão procurar um objeto: seja qual for o crime, tua mão não será inexperiente. Então, ó minha
cólera, onde te atiras? Que dardos queres dirigir contra o pérfido inimigo? Não sei o que minha
alma feroz decidiu em seu âmago e ainda não ousa confessar a si mesma. Eu fui tola na minha
pressa excessiva: ah! se meu odioso esposo já tivesse uns filhos de minha rival! — Mas basta
pensar que todos os filhos que ele te deu foram gerados por Creúsa. Gosto deste tipo de castigo;
e com justa razão: é o crime supremo, eu reconheço-o; e é preciso que minha alma se prepare para
isso. Vós, que fostes antes meus filhos, vós deveis expiar os crimes de vosso pai! — O horror fez
bater meu coração, meus membros tremem pelo gelo, meu peito sente calafrios. Meu ódio abando-
nou-me e o amor materno reaparece inteiro em mim, afastando os sentimentos da mulher. Eu, eu
vou derramar O sangue dos meus próprios filhos, de minha própria prole? Inspira-te melhor, ó
minha demente cólera. Este espantoso crime deve ficar longe de meu pensamento. Qual seria a
culpa que estes infelizes iriam expiar? — O seu crime é ter Jasão como pai; e um crime ainda
pior: ter Medéia como mãe. Eles devem ser mortos: não são meus... Devem morrer: são
meus... Eles não têm culpa, não fizeram nada de mal: são inocentes, confesso-o. .. Mas tam-
bém meu irmão era inocente! — Ó minha alma, tu vacilas. Por quê? Por que as lágrimas banham
o meu rosto, por que sou arrastada por impulsos contraditórios, entre o ódio e o amor? Uma dú-
plice agitação produz esta incerteza. Assim como quando os ventos lutam entre si cruelmente e
lançam para opostas direções as ondas do mar, umas contra-as outras, 2 O oceano se agita indeci-
so, assim são as indecisões de meu coração: a ira expulsa a piedade, a piedade expulsa a ira. Ó
minha dor, cede à piedade. — [Chamando os filhos] Aproximai-vos, ó meus queridos filhos,
única consolação de minha casa abatida, aproximai-vos e abraçai com ternura vossa mãe. Possa
vosso pai possuir-vos incólumes, com a condição de que também vossa mãe possa possuir-vos.
Mas... o exílio, a fuga, me esperam. Agora os meus filhos, em lágrimas e gementes, serão arran-
cados à força de meu peito... Que o pai os perca; a mãe já os perdeu. Novamente cresce minha
dor e meu ódio ferve. A antiga Erínis,'?" malgrado meu, apodera-se de meus braços. Ô ira, acom-
panha-me onde quiseres: seguir-te-ei. Ah! por que a sorte não me deu tantos filhos quantos foram
gerados pela soberba filha de Tântalo? "2? Por que eu não dei a existência a catorze crianças? Fui
estéril demais para minha vingança; mas... o fui bastante para vingar meu irmão e meu pai: dei
à luz dois filhos! — Aonde corre esta horda ameaçante de Fúrias?'?º A quem procuram? Contra
quem preparam suas flechas de fogo? Contra quem a multidão infernal dirige suas sangrentas
tochas? Uma enorme serpente sibila torcendo-se como um chicote que estala. Quem está sendo
perseguido por Megera!?* com seu terrível facho? De quem é a sombra hesitante, que avança
arrastando seus membros esquartejados? E meu irmão: pede vingança. Ele será vingado. Mas fixa
teus archotes em meus olhos, esquarteja-me, destrói-me. Ofereço meu peito às Fúrias. Tu podes
comunicar às deusas da vingança que me deixem, que voltem sossegadas para o mundo profundo
dos mortos. Deixa-me a mim mesma e serve-te, ó meu irmão, de minha mão, que sabe segurar a
espada. — Eis a vítima, com a qual eu vou aplacar os teus Manes. LEla mata um de seus filhos]
— Que significa este imprevisto tumulto? Pegam as armas, procuram-me para me matar. Agora
que o massacre começou, vou subir ao alto teto do palácio. [4 Ama! Vem comigo, ó minha ama:
teu corpo também será levantado daqui, perto de mim. Vamos, ó minha alma: não é mais o
momento para gastar secretamente teu poderio. Mostra ao povo o que pode fazer a tua mão.
Entra no palácio com a ama e o outro filho, levando também o corpo do filho morto]
JASAO |
LEntrando] Acorram todas as pessoas fiéis, pasmadas pela desgraça de seus reis: acorram,
a fim de que possa ser capturada quem praticou este horrível crime. Aqui, aqui, corte de valentes
soldados, com vossos dardos: é preciso destruir de cima para baixo a casa!
'21 Uma das divindades da vingança.
'22 Níobe, filha de Tântalo e esposa de Anfião, rei de Tebas, teve seis filhos e seis filhas (conforme outra
lenda: catorze).
'2º Divindades da vingança: Fúrias entre os romanos, Erínias entre os gregos.
'2* Uma das principais deusas da Vingança.
'
MEDÉIA 257
MEDEIA
[Aparece no alto do palácio] Agora já recobrei meu cetro: meu irmão, meu pai, o velo áureo
do carneiro, voltam ainda para a Cólquida. Encontrei novamente a pátria e a virgindade, que me
foram roubadas. Ô divindades, que finalmente se tornaram propícias, ó dia de festa, ó dia nup-
cial! Vai embora, o crime é consumado, mas não ainda a vingança. Continua, enquanto tuas
mãos estão agindo. Por que hesitas agora, ó minha alma? Por que vacilas agora que podes agir?
Já minha ira caiu: arrependo-me do que eu fiz, sinto vergonha. .. Ó mísera, que fizeste? Arrepen-
do-me em vão, ai de mim: já eu agi. Uma grande volúpia me penetra nos membros, malgrado
meu: eis, ela cresce. Não me faltava, pará acabar, senão a presença deste espectador. Ainda não
fiz nada: todos os crimes que eu pratiquei sem que ele pudesse vê-los foram inúteis.
JASAO
Ei-la: assoma ao terraço do teto. Um de vós deve levar até lá o fogo, a fim de que as chamas
possam consumir aquela que as ateou.
MEDEIA
Prepara, ó Jasão, esta fúnebre fogueira para teus filhos e levanta para eles o sepulcro. Tua es-
posa e teu sogro já receberam as exéquias devidas aos mortos: e fui eu a dar-lhes a sepultura. O
primeiro filho já teve a sua morte; quanto ao outro, é-sob os teus olhos que terá o mesmo destino.
JASAO
Peço-te por todas as divindades, pela nossa fuga comum, por aquelas núpcias que não foram
desmanchadas por causa de minha infidelidade, peço-te a vida de meu filho. Se aqui há um crimi-
noso, O criminoso sou eu. Podes matar-me, estou de acordo: sacrifica minha cabeça culpável.
1
E)
MEDEIA
Eu vou dirigir o ferro lá onde tu não queres, para o ponto mais dorido. Vai embora, ó sober-
bo, vai procurar agora o leito das virgens: abandona aquela que tu tornaste mãe.
JASAO
A morte de um só filho é suficiente para meu castigo.
MEDEIA
Se somente um morto pudésse saciar minha vingança, não teria praticado aquele crime. Em-
bora matando os dois, será muito pouco para minha dor. Se algum penhor ainda se esconde no
meu seio materno, eu procurarei minhas vísceras com o ferro e com o ferro as dilacerarei.
t JASAO
Acaba, então, o crime “iniciado. Não te imploro mais: poupa-me pelo menos a espera do
suplício.
MEDEIA
Goza vagarosamente de teu crime, não te apresses, ó minha dor. Este é o meu dia: uso o
tempo que me é concedido.
JASAO
Ó malvada, mata-me. à
MEDEIA
Tu me pedes piedade. Então, eis: está feito. [Mata o outro filho] Ó minha dor, não tenho
mais nada para te sacrificar. Levanta teus olhos cheios de lágrimas, ó ingrato Jasão. Reconheces
tua esposa? [Um carro puxado por duas serpentes desce do céu] É desta maneira que eu costumo
fugir. Abre-se, diante de mim, o caminho do céu: estas duas serpentes apresentam docilmente seus
pescoços escamosos ao jugo. Recebe agora os teus filhos, ó pai. [Joga aos pés de Jasão os cadáve-
res dos dois filhos) Eu vou levantar-me no ar sobre este carro alado. [Sobe com a Ama no carro
e desaparece além das nuvens] :
JASAO
Sim, vai pelos infinitos espaços do céu: para provar que não há deuses lá onde tu te elevas.
985
990
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1015
1020
Maroc ato DO
DIVINO CLÁUDIO
Do,
APOCOLOQUINTOSE '
I — 1. Os acontecimentos que se passaram nos céus durante o dia 13 de outubro, primeiro
ano de uma nova era de felicidade, ? eis o que eu quero transmitir à história. E sem ressentimento
nem simpatias.? Aqui será apresentada a verdade: se por acaso alguém me perguntar de onde tirei
estas notícias tão exatas, em primeiro lugar, se não tiver vontade, não responderei. Quem poderá
forçar-me a isso? Eu sei que me tornei livre no mesmo instante em que acabou os seus dias aquele
que tinha demonstrado a verdade do provérbio: Um homem nasce ou rei ou idiota.* 2. Pelo
contrário, se me agradar responder, direi aquilo que me vier aos lábios. Quem exigiu de um histo-
riador deposições juradas? Mas se for preciso apresentar uma testemunha, dirija-se o leitor a:
quem viu subir Drusila aos céus: º ele confirmará ter visto também Cláudio percorrer o mesmo
itinerário “passinho por passinho”. º Queira ou não, ele deve ver tudo o que acontece nos céus: é
inspetor da Via Ápia, onde passaram — é notório — também o divo Augusto e Tibério César,
quando foram para os deuses. 7 3. Se o interrogarmos, dirá tudo direitinho; mas a sós: no meio de
muita gente não abre a boca, pois, desde o dia em que no Senado jurou ter visto Drusila subir aos
céus — e, como agradecimento por tão bela notícia, ninguém quis acreditar aquilo que ele tinha
visto —, declarou solenemente que nunca mais faria nenhuma revelação, mesmo que visse matar
um homem no meio do Foro. Tudo o que ele me contou, aqui vou transcrever sem mudar uma vir-
gula: e que tudo isso possa transformar-se para ele em saúde e felicidade.
I—a.
Já tinha reduzido Febo a luz com caminho mais breve *
e cresciam obscuras as horas contínuas do Sono;
ao contrário, já Cíntia estendia vitoriosa o seu reino;
já o deforme inverno tirara os presentes jucundos
do outono opulento; já o vindimador, demorando,
de Baco envelhecido os pouquíssimos cachos apanhava.
2. Talvez compreender-se-á melhor se eu disser assim: o mês era de outubro; o dia, 13. Não
1 “Apokolokintosis” quer dizer exatamente “transformação em abóbora”: apoteose significa transformação
do homem em deus; portanto (de “colocynte”, abóbora), transformação em abóbora. Mas, na realidade, na
sátira, não se fala dessa metamorfose. Se a obra, como chegou até nós, é completa, “colocynte” é um bem
apropriado apelativo de Cláudio (“abóbora, bobo, homem sem intelecto”). Sobre o título dessa obra e sobre
suas finalidades, veja-se: G. D. Leoni, Polêmicas Filológicas (A “Apokolokintosis” de Sêneca — Polêmica
Catuliana), São Paulo, 1950.
2 É a data do falecimento do imperador Cláudio (Suetônio, Cláudio, 45; Tácito, Anais, XII, 69; Díon Cás-
sio, LX, 34): naquele momento acabava um século de trevas e começava outro século de ouro.
3 Paródia das palavras com as quais os historiadores começavam os seus trabalhos. “Sine ira et studio”
declara Tácito no início dos seus Anais.
* Cláudio fora reie... idiota. Todos o ridicularizaram pela sua imbecilidade (Suetônio, Cláudio, passim).
8 Júlia Drusila, irmã e amante de Calígula, foi divinizada logo depois da morte (Suetônio, Calígula, 24). E
o senador Lívio Gemínio, “curator” da Via Ápia, por ingente quantia de dinheiro, atestou ter visto a mulher
subir aos céus (Dion Cássio, LIX, 10-11).
ê Virgílio, Eneida, IX, 724: o pequeno Júlio segue o pai “non passibus aequis”; mas aqui é ridicularizado
Cláudio, que claudicava (Suetônio, Cláudio, 21 e 30).
7 Augusto e Tibério morreram na Campânia e foram, por isso, transportados a Roma percorrendo a Via
Ápia (Suetônio, Augusto, 100; Tibério, 75).
8 Paródia do tipo de poesia épica composta por medíocres poetas no período de Cláudio.
262 SÊNEC A
sei a hora exata: é mais fácil pôr de acordo os filósofos do que os relógios. Bom, a hora: entre
meio-dia e a primeira badalada. 3. “Oh! homem sem polidez”, dirá o feitor “em geral. os poetas
não se contentam em descrever a aurora e o pôr do sol: incomodam até o meio-dia. E tu queres
deixar de lado uma hora tão bela?”
4. Já Febo como carro dividira a metade do curso
e mais perto da noite as bridas, cansado, agitava,
a claridade extrema levando por curvos caminhos.
WI — 1. Cláudio dispôs a sua alma para a partida; mas não encontrava a saída. Então,
Mercúrio, que sempre gostou do talento dele, chama de um lado uma das Parcas'!º e assim lhe
fala:
— Mulher impiedosa, por que deixas padecer aquele infeliz? Nunca terá descanso, depois
de tão longas torturas? Durante sessenta e quatro anos ele brigou com a própria alma. Por que
não queres dar uma alegria a ele e ao seu povo? 2. Deixa uma vez os astrólogos adivinharem:
desde quando se tornou imperador, eles o enterraram cada ano, cada mês. Todavia, não é esqui-
sito que eles não se orientem e que ninguém conheça a hora da morte dele: de fato, ninguém nunca
pensou que ele tivesse nascido. Cumpre o teu dever:
“Mata-o; e no trono lhe suceda um outro mais digno
3. Mas Cloto retrucou: — Eu tinha pensado, por Hércules, em deixar-lhe alguns dias,
somente para poder conceder a cidadania aos poucos que ainda não a possuem: ele decidira ver
todos com a toga, Gregos, Gauleses, Hispanos, Britanos. !'? Mas, se acharem melhor deixar al-
guns estrangeiros, e tu queres isto, então seja assim.
4. Abriu uma caixinha e pegou três fusos: um era de Augurino, o segundo de Baba, o ter-
ceiro de Cláudio. !º E disse: — Estes três deverão morrer no espaço de um ano, um pouco depois
do outro: desta maneira, Cláudio não irá sem companhia. Não é bonito que uma pessoa, a qual
atê agora viu tantos milhares de aduladores ao seu redor, diante, atrás, por todos os lados, de
repente fique sozinha. Mas, por enquanto, contente-se com esses companheiros.
IV — 1.
Disse: e enrolando sobre o seu fuso funesto os estames
interrompeu o curso real duma tola existência.
Láquesis, entretanto — coroada e enfeitada a cabeça,
a testa e os cabelos guarnecidos de louro piério —,
cândidos fios deriva do velo que neve parece,
e depois os envolve com dedos espertos: os fios
de nova cor se tingem. Admiram-se disso as irmãs:
a tosca lã no instante em precioso metal se transforma
e séculos de ouro procedem do fiúlgido fio.
Não descansam as Parcas: fiando o magnífico velo
Gadiga entre as mais belas) de rocadas têm cheias as mãos!
Corre alegre o trabalho: do fuso que rápido gira
naturalmente descem os dóceis e leves estames:
e vencem de Titão a idade, de Nestor os anos.
º Na realidade, Cláudio morrera um pouco antes; mas o falecimento não foi anunciado imediatamente
pelos cortesãos para acertar antes tudo acerca do sucessor (Suetônio, Cláudio, 45; Nero,8; Tácito, Anais,
XII, 69).
º Os gregos as. chamaram Mórai, os romanos Parcas: eram as três deusas, filhas de Júpiter ou do Érebo
e da Noite, que presidiam aos destinos humanos. Cloto, a mais moça, fiava o fio da vida; Láquesis determi-
nava a qualidade e o comprimento desse fio; Atropos, com'a tesoura, cortava o fio no momento oportuno e
inexorável. O próprio Júpiter não tinha poder para interferir naquelas decisões fatais.
1 Virgílio, Geórgicas, IV, 90: 0 apicultor mata o zangão pior para que reine o melhor na colmeia.
'2 Cláudio quis nivelar os súditos, favorecendo os provincianos com concessões de cidadania; e Messalina
e Os libertos da corte faziam disso um verdadeiro mercado (Dion Cássio, LX, 17; Tácito, Anais, XL 24).
'? Augurino e Baba são personagens desconhecidas: talvez, homens indicados como os maiores bobos da
cidade. Sêneca, nas suas Epístolas (XV, 9), indica Baba como homem de “vita stulta”.
i
APOCOLOQUINTOSE 263
Está presente Febo com o canto; e se alegra da sorte:
contente agita o plectro, contente fornece asrocadas.
Prende-as com o canto, com o canto alivia o trabalho.
De fato, enquanto louvam a cítara e o canto fraterno,
fiam mais depressa as mãos: o notável labor ultrapassa
os destinos mortais. “Deste fio nada seja tirado ”,
Febo sussurra às Parcas, “o curso mortal ultrapasse
quem a mim se assemelha no aspecto, na graça do rosto,
também na voz, no canto. Ele um século de ouro aos opressos
vai dar com alegria, vai quebrar o silêncio das leis.
Assim como Lucifero dissipa no céu as estrelas
ou Héspero no céu a volta dos astros anuncia;
assim como, depois das trevas, a Aurora difunde
a rubra luz e o Sol cintilante o universo saúda,
pra fora das barreiras guiando com ímpeto o carro;
assim o novo César aparece, aclamado por Roma
agora será Nero: desprende-se a luz do seu rosto,
do cândido pescoço guarnecido de longos cabelos." *
2. Assim falou Apolo; e Láquesis, que tinha simpatia para com a personagem tão bela,
contentou-o plenamente, dando por sua parte a Nero como presente ainda muitos anos.
Quanto a Cláudio, todos gritam:
“Fora da casa seja acompanhado com muitos vivas!"
Entretanto, ele soltou a alma: daquele momento em diante, deixou de parecer vivo. Exalou
o último suspiro, enquanto assistia a um espetáculo de comediantes: eis a razão pela qual eu gosto
de estar longe dessa gente. ! º 3. As últimas palavras ! ? que ele pronunciou entre os homens (depois
de ter soltado um som, mais alto do que de costume, pela parte do corpo com que se exprimia
mais eloquentemente) foi esta: “Ai de mim, acho, talvez, que me sujei”.!º Se era verdade, não sei:
o que é certo é que ele sempre sujou em qualquer lugar.
V — 1. Quanto aconteceu, depois, sobre a terra, é inútil narrá-lo. Todos vós sabeis muito
bem; e não há perigo de que possa sair da memória aquilo que a alegria popular gravou tão forte-
mente: ninguém esquece a própria felicidade. Ouvi, antes, o que aconteceu nos céus: poderá con-
firmar tudo isso o meu informante.
2. Anunciam a Júpiter a chegada de um fulano, estatura normal, cabelos quase brancos:
“Não deve ter boas intenções, pois abana continuamente a cabeça; e coxeia do pé direito. Pergun-
tei-lhe de onde vinha: respondeu. não sei que, com sons indistintos e voz confusa. 'º Não com-
preendo a sua língua: não é nem grego nem latino, nem de qualquer outro povo conhecido”.
3. Então Júpiter manda chamar Hércules, que viajara pelo mundo inteiro e devia conhecer
todos os povos; e lhe pede que investigue a raça daquele sujeito. Hércules, à primeira vista, sentiu
grande medo, como se ainda não tivesse acabado de lutar contra os monstros. De fato, logo que
viu aquele focinho nunca visto, aquele modo de andar tão esquisito, e ouviu aquela voz rouca e
inarticulada, que não era de animal terrestre, mas parecia-se com a dos monstros marinhos, pen-
sou: “Não acabei: eis meu décimo terceiro trabalho !” 4. Depois, olhando-o melhor, encontrou
nele alguma aparência de homem. Aproximou-se e lhe perpuntou em grego, coisa fácil para um
natural da Grécia:
— Qualo teu nome? o teu povo? a cidade em que moras? os pais? *º
14 No início do reinado de Nero pareceu voltar um novo século de ouro. Nero afirmava que a sua pessoa
se assemelhava à de Febo-Apolo (Suetônio, Vero, 20 e 53; Dion Cássio, LX, 20; LXIII, 14).
15 Eurípides, num fragmento de tragédia transmitido através das Tusculanae Disputationes de Cícero (I,
115), mostra os amigos de uma pessoa falecida que se alegram durante o enterro, pois o homem deixou as
misérias da vida. É
'8 Suetônio (Cláudio, 45) narra que os cortesãos, para que o povo não tivesse notícia da morte do impera-.
dor, mandaram chamar uns atores, simulando um espetáculo.
1? Dos homens ilustres se transmite sempre a última palavra pronunciada antes de morrer.
18 Suetônio, Cláudio, 32: “Narra-se, além disso, que (Cláudio) tinha meditado um decreto para conceder
aos convidados emitir durante o banquete as flatulências do estômago e as ventosidades dos intestinos.
'º Pormenores que exatamente pintam a figura de Cláudio (Suetônio, Cláudio, 30).
2º Homero, Odisséia, I, 170: Cláudio tinha a mania de citar versos homéricos até nos tribunais (Suetônio,
Cláudio, 42).
264 SÊNECA
Alegra-se Cláudio: lá também hã filólogos; e já tem a esperança de poder colocar as suas
“Histórias”.?' Então, responde com um outro verso de Homero, para indicar as suas qualidades
de César:
— De Ílio os ventos levaram-me à terra onde os Ciconos moram. ??
Na verdade, o verso seguinte teria sido mais exato e igualmente homérico: “Onde toda a ci-
dade saqueei, destruindo os seus homens”.
VI — 1. E certamente teria impingido gato por lebre a Hércules, que não é malicioso, se
não estivesse ali a deusa Febre, a única divindade que tinha acompanhado Cláudio, deixando o
seu templo:?º todos os outros deuses ficaram em Roma.
— Este indivíduo — assim falou a deusa — é mesmo um pantomimeiro. Posso esclarecer
tudo eu. que vivi tantos anos com ele: nasceu em Leão. Apresento-te um patrício de Planco.?
Repito: nasceu a dezesseis léguas de Viena, é um gaulês autêntico. E, como bom gaulês, apode-
rou-se de Roma.? º Garanto: nasceu em Leão, onde durante tantos anos Licínio teve o governo.?
Agora, tu, que percorreste mais caminhos do que qualquer tropeiro profissional, deves conhecer
os Leoneses e saber que o Xanto está longe do Ródano mil e mil léguas. * ”
2. Neste momento, Cláudio pega fogo e dasabafa com um barulho danado. Ninguém
compreendia nada: certamente, mandava que a Febre fosse presa; e mandava com aquele seu
gesto da mão trêmula, todavia firme só para enviar a gente ao cadafalso. Ele tinha dado a ordem
de cortar-lhe a cabeça; mas ali todos pareciam ser libertos, pois ninguém lhe dava ouvido. ?*
VII — 1. — Ouve-me — disse então Hércules. — Chega de brincadeiras. Aqui, neste
país, os ratos comem o ferro.?º Vamos, dize logo a verdade, se não queres que eu acabe com essas
tuas birras. — E para que Cláudio tivesse mais medo, *º Hércules se transforma em ator trágico
e declama:
2. Dize depressa a terra onde nasceste,
se não queres provar esta boa clava
que tão ilustres príncipes matou !
Que resmungo o teu lábio está cuspindo?
Onde a cabeça trêmula viveu?
Dize logo. No dia em que procurava
as terras hespérias do triforme rei, *”
para levar o nobre gado a Argo,
um monte eu vi, que a lua nova ilumina
e que sobre dois rios horrendo pende.
O Ródano veloz e imenso corre;
o volúvel Arar procura o curso
e preguiçoso as margens vai lambendo.?*?
Deu-te o sopro da vida aquela terra?
s
3. Declamou com muita alma e decisão; todavia não se sentia completamente sossegado,
21 Qutra mania do imperador: escrever histórias (Suetônio, Cláudio, 41 e 42).
22 Homero, Odisséia, IX, 39. Cláudio, descendente de Enéias, teria vindo de Tróia (Ílio) para morar entre
cs bárbaros (Cíconos), isto é, os romanos. Sêneca, com ironia, acrescenta que Cláudio não devia citar o
verso 39, mas o 40, onde se afirma que o imperador destruíra Roma e os romanos!
23 Os romanos divinizaram a Febre: talvez por terem construído Roma perto de pântanos. Cláudio morrera
— conforme a versão oficial — por um ataque da febre que sempre, durante a vida toda, o torturara (Suetô-
nio, Cláudio, 2).
L. Munátio Planco fundou a colônia de Leão (Sêneca, Epístolas, II, 91).
Os gauleses, guiados por Breno, ocuparam e saquearam Roma em 390 a.C.
28 Foi um despótico governador da Gália durante o reinado de Augusto (Dion Cássio, LIV, 21). .
27 Xanto: rio da Tróada (Ásia Menor); Ródano: rio que banha a cidade gaulesa de Leão.
28º Pormenores confirmados por Suetônio (Cláudio, 30, 38, 40, 29, 25) e Díon Cássio (LX, 2).
29 Frase cômica, para indicar talvez o mundo da carochinha.
3º Cláudio era medroso e impressionável (Suetônio, Cláudio, 35 e 37.
31 Gérion, rei mitológico que tinha três corpos para cima da barriga, morava na ilha Eritéia, no meio do
oceano; e possuía muito gado, que foi roubado por Hércules.
32 Sobre o rio Arar, que corre mui vagarosamente, veja-se Júlio César, Commentarii de Bello Gallico, 1, 12,
1.
25
APOCOLOQUINTOSE 265
esperando sempre os “raios do idiota”.?º Mas Cláudio, vendo um adversário tão maciço, deixa de
lado a conversa fiada, compreendendo que, se em Roma ninguém podia vencê-lo, ao contrário, ali
não gozava do mesmo privilégio: um galo ê dono só na sua estrumeira.? * 4. Então, falou assim
(ou assim pareceu dizer no meio do informe ruído):
— Ó Hércules, fortíssimo entre os deuses, sempre tive confiança em ti e no teu auxílio para
com os outros; aliás, se me tivessem pedido um fiador, teria dado o teu nome: tu me conheces me-
lhor do que os outros. De fato, vê se recordas: eu, diante do teu templo em Tívoli, administrava
a Justiça longos dias a fio nos meses de julho e agosto. 28 5. Tu sabes quantos tormentos aguentei,
ouvindo dia e noite os advogados: se por acaso a sorte te tivesse jogado entre aqueles causídicos,
embora acreditando ser muito corajoso, tu terias preferido limpar outra vez os estábulos de
Augias: foi muito maior o estrume que eu tive de varrer. Mas querendo agora Re
VI — 1. — ...37 Ninguém acha esquisita a tua impetuosa entrada na Cúria: não há obstá-
culos que tu não possas superar. Todavia, seria bom sabermos qual deus queres que seja este
sujeito. Um “deus à maneira epicuréia”” não é possível: seria um deus que “não se incomoda por
nada e não incomoda ninguém”.?º Um deus estóico? Mas como poderia ser “redondo” -— con-
forme as palavras de Varrão — “sem cabeça nem prepúcio”? ºº Embora. . . espera um momento:
nele há alguma coisa do Deus estóico, pois não tem coração nem cabeça. 2. Vamos! Se ele tivesse
pedido o favor da apoteose a Saturno — ele que, verdadeiro príncipe das Saturnais, festejava
durante o ano todo o mês deste deus *º — não o teria obtido: ainda menos poderia obté-lo de Jú-
piter. que ele — quando lhe foi possível — condenou como incestuoso. De fato. condenou à
morte seu genro Silano: e, pergunto eu, por quê? Porque, tendo uma irmã, a mais linda moça do
mundo, que todos chamavam Vênus, ele preferiu chamá-la Juno! *' -—- Oh! — retruca *? —. gos-
taria de sabê-lo: por que mesmo a irmã? — Ignorante, vai à escola: em Atenas é lícito pela meta-
de, em Alexandria por inteiro. *º 3. Agora, sendo que em Roma — são suas palavras — os ratos
lambem as mós, * * este sujeito quer subir à cátedra? Não sabe o que acontece no seu tálamo; **
certamente, “perscruta os espaços celestes”. *º E quer tomar-se um deus. Não lhe basta ter um
2º Jogo de palavras: “morón” (do idiota) por “theón” (do deus). A mesma brincadeira é lembrada por Sue-
tônio na vida de Nero (32): Nero afirmava que Cláudio, morrendo, tinha acabado de “morari” entre os ho-
mens (“morari” morar, viver; mas o verbo, pronunciado à maneira grega, com o “o” longo, significa “ser'
bobo”).
34 E Cláudio erá... gaulês (* “gallus”) pelo lugar de nascimento.
35 Administrar a justiça foi uma das manias de Cláudio: não deixava O encargo nem nos meses de férias
(Suetônio, Cláudio, 14 e 15).
*8 Falta nos códices a continuação do discurso. Esamento Cláudio convence Hércules e entra no Senado
dos deuses (paródia do Senado romano).
37 Não é possível imaginar qual dos deuses esteja falando.
38 Definição clássica da divindade conforme Epicuro: exatamente o contrário de Cláudio !
39 YVarrão, nas suas Satirae Menippeae, ridicularizara talvez o conceito estóico de divindade, identificada
com o universo esférico.
*º As licenciosas festas em honra do deus Saturno: mais ou menos o nosso carnaval... Conforme notícia
de Suetônio (Cláudio, 32 e 33), Cláudio gostava de banquetes e festas licenciosas.
“1 Silano foi acusado de incesto com a própria irmã Júnia Calvina (Suetônio, Cláudio, 27, 29; Tácito,
Anais, XII, 3, 4). Condenando-o, Claúdio condenou, implicitamente, Júpiter, irmão e esposo de Juno!
*2 Ali, na frente de Júpiter, Cláudio parece insistir no próprio ponto de vista; e por isso é admoestado.
*3 Em Atenas, as leis permitiam o casamento entre filhos do mesmo pai, não da mesma mãe; no Egito, tam-
bém da mesma mãe.
** Provérbio que talvez signifique: tudo é limpo, regular (até os ratos limpam as mós); ou também: Em
Roma todos ficam sob as ordens de Cláudio, os ratos não comem a farinha, mas se contentam em lamber
o pouco que ficou sobre as mós. Nos céus, ao contrário — afirmou pouco antes Hércules —, os ratos
comem ferro...
*5 Conforme o costume, em Roma eram consideradas incestuosas as núpcias com uma sobrinha; e sobri-
nha de Cláudio era Agripina.
*8 É um fragmento de tragédia de Ênio: a frase é usada para indicar (Que, por presunção, não vê aquilo que
está na sua frente. Outros estudiosos interpretam a frase precedente: “Não sei o que ele faz no seu tálamo”,
lembrando as notícias de Suetônio (Cláudio, 29) sobre à cegueira do imperador perante as suas desgraças
familiares. :
266 SÊNECA
templo na Bretanha; *? não lhe basta que os habitantes o venerem e lhe ofereçam preces como a
um deus, “a fim de propiciar-se o idiota !” *º o |
IX — 1. No fim, Júpiter lembra-se de que nem aos deuses é consentido, enquanto estive-
rem pessoas estranhas na Cúria, apresentar e discutir propostas. — Eu — assim fala —, 6 sena-
dores, vos dei licença para pedir explicações; mas aqui, agora, é uma verdadeira balbúrdia. Quero
seja observado o regimento interno da Cúria. Qual será a opinião que de nós poderá ter este sujei-
to, quem quer que seja?
2. Cláudio é mandado para fora da sala; e o primeiro a usar da palavra o pai Jano. *º Este
tinha sido designado para as calendas de julho como cônsul da tarde: 9% era um indivíduo que, até
onde chega a sua estrada, via “diante de si e, ao mesmo tempo, atrás”. *1 Pronunciou um longo
e elogiiente discurso, como quem vive sempre no Foro; e o taquígrafo não conseguiu pegar tudo.
Por isso, não apresento a oração, para não alterar com palavras diferentes as suas frases. 3. Falou
longamente acerca da majestade dos deuses: não se devia dar esta honra a um sujeito qualquer.
“Nos tempos idos”, concluiu, “era grande honra ser feito deus: agora foi tudo reduzido por vós a
uma palhaçada. *? Por isso, para não dar a sensação de julgar mais a pessoa do que o princípio,
proponho: de hoje para diante não poderá ser divinizado ninguém entre os que “comem os frutos
da terra”, ou seja, entre os que “são alimentados pela terra pródiga de trigo”. 53 Quem, contra este
senatus consulto, for feito ou dito ou pintado deus, seja entregue aos espíritos º * e, no próximo
espetáculo, bem chicoteado entre os gladiadores noviços.”
4. Logo em seguida está com a palavra Diéspiter, filho de Vica Pota, º º também ele cônsul
designado. Modesto cambista, vivia de uma outra profissão: vendia cidadanias ao varejo. * º Hér-
cules aproximou-se dele com jeitinho e lhe puxou a orelha. * ” Então Diéspiter formulou assim a
sua proposta: .
5. “Considerando que o divo Cláudio ê consanguíneo do divo Augusto, e também da diva
Augusta sua avó, que ele quis divinizada; **
“considerando que ele supera de muito em sabedoria *º a todos os mortais e que pelo pú-
blico interesse deve existir alguém em condição de “comer nabos fervidos” com Rômulo; ºº
“proponho que, desde hoje, o divo Cláudio seja uma divindade com todos os direitos, igual
a qualquer outro nomeado anteriormente; e que este ato seja transcrito nas Metamorfoses de
Ovídio”. 1
*7 Em Camulodunum. Conforme a notícia de Tácito (Anais, XIV, 31), os habitantes odiavam aquele tem-
plo, pois era o símbolo da tirania romana.
*º E o mesmo jogo de palavras indicado na nota 33. j
*º É o deus romano ao qual era consagrado o início de todas as coisas: a ele era dedicado o primeiro mês
do ano (“Januarius”) e um culto especial ao início de uma guerra (as portas do seu templo ficavam abertas
atê o fim da guerra).
5º Conforme o costume romano: a tarde não era para negócios!
5? Homero, Ilíada, II, 109. Em Homero, o rei Priamo vê muito longe, no passado e no futuro, pois tem bas-
tante experiência. Também Jano, que é bifronte, vê contemporaneamente diante e atrás, mas na estrada, não
na vida!
82 O texto traz: “iam fabam mimum fecistis”; e certamente lembra um mimo popular, em que se ridicula-
rizava uma apoteose.
83 São locuções homéricas (por exemplo Ilíada, VI, 142; VIII, 486, etc.) para indicar os mortais que vivem
sobre a terra.
54 Certamente, os espíritos maus da crença popular.
SS Diéspiter era uma antiga divindade romana, confundida depois com Júpiter. Vica Pota era a deusa das
vitórias e das conquistas: Cicero (Das Leis, IX, 11) explicava a etimologia (errada), lembrando os verbos
“vinco” e “potior”. Mas aqui, evidentemente, Diêspiter é lembrado como filho da deusa que arrasa tudo.
58 Veja-se a nota 12.
57 Para lembrar-lhe de favorecer Cláudio. Puxar a orelha era, em Roma, citar, simbolicamente, uma teste-
munha (Horácio, Sátiras, I, 9, 77). Para os antigos, a orelha era a sede da memória (Plínio, História Natural, .
XI, 251).
88 Cláudio nascera de Antônia (filha de Otávia, irmã de Augusto) e de Druso (filho das primeiras núpcias
de Lívia, esposa de Augusto: Lívia foi divinizada por Cláudio nos primeiros anos do seu reinado).
$º Quando Nero, no elogio fânebre pronunciado no Senado, lembrou a sabedoria de Cláudio, a nenhum dos
presentes foi possível reter uma gargalhada (Tácito, Anais, XIII, 3).
8º Cláudio era guloso (Suetônio, Cláudio, 32 e 33). Ao contrário, Rômulo continuava no céu com seus há-
bitos modestos e sóbrios, comendo nabos fervidos (Marcial, Xênia, 16).
8? Nas Metamorfoses de Ovídio já estavam as apoteoses de Rômulo e de Júlio César, e a alusão à futura
apoteose de Augusto. Por isso, naquele poema devia estar também. .. a apoteose de Cláudio.
APOCOLOQUINTOSE 267
6. As opiniões estavam divididas; e Cláudio parecia sair vencedor: de fato, Hércules, baten-
do o ferro enquanto estava quente, corria continuamente, sussurrando a cada um: “Não me ne-
gues este favor, é para mim uma questão pessoal. Amanhã, se precisares, retribuir-te-ei: uma mão
lava a outra”.
X — 1. Então, foi a vez do divo Augusto, que se levantou e falou com inigualável eloquên-
cia. “Ó senadores”, disse, “vós todos sois testemunhas: desde o momento de minha divinização,
nunca abri a boca. Sempre e só cuido de mim mesmo. Mas agora não posso ficar indiferente e
sufocar uma dor, que minha reserva tornaria ainda mais dura. 2. Para isso procurei na terra e no
mar a paz? Para isso acabei com as guerras civis? Para isso consolidei a Urbe com as minhas leis,
dei-lhe decoro de obras públicas, a fim de que... *2 Ó senadores, nem sei o que devo dizer: qual-
quer palavra é nada para manifestar a minha indignação. Não me resta senão recorrer à célebre
frase de Messala Corvino, homem de alta eloqiência: tenho vergonha do poder ! *2 3. Este sujeito,
ó senadores, que vos parece incapaz de maltratar um mosquito, matara os homens com a mesma
facilidade com a qual um cão levanta a pata. Mas para que lembrarei eu tantas e tão ilustres víti-
mas? Não tem tempo para chorar as desventuras da pátria quem olha para os lutos domésticos.
Por isso, deixarei de lado as desventuras da pátria e falarei só dos lutos domésticos, pois, se tam-
bém minha irmã não sabe o grego, eu conheço-o: é mais próximo o joelho do que a canela da
perna. º * 4. Este sujeito, então, depois de ter ficado por tantos anos à sombra do meu nome, agra-
deceu-me desta maneira: mandando matar duas Júlias, minhas sobrinhas, uma por ferro, outra
por fome; e depois um sobrinho, Lúcio Silano. * ?* Júpiter, veja se Silano não estava do lado da
razão: pelo menos, conforme a justiça, estava do teu lado. Dize-me, ó divo Cláudio, por que todos
os que mandaste matar, os condenaste sem processo nem defesa? Onde existe este costume?” *
XI — 1. “Aqui, no céu, não”, continuou o divo Augusto. “Vê, por exemplo, Júpiter, que
reina há tantos séculos: somente a Vulcão quebrou uma perna quando o pegou pelo pé, jogando-o
dos reinos celestes. º 7
“Brigou com a mulher e a levantou no ar; mas, porventura, a matou? *º Pelo contrário, tu
mataste Messalina: dela, eu era o tio dos pais;.e tu mesmo o eras. “Não sei nada de nada”, gritas. *º
Raio que te parta! É ainda pior essa tua inconsciência do que tê-la matado. 2. E sempre perse-
guiste o teu predecessor Calígula, também depois de morto. 'º Calígula matou o sogro; ”' Cláudio
também o genro. ?* Calígula não quis que o filho de Crasso fosse chamado Magno; Cláudio lhe
devolveu o nome, mas lhe tirou a vida. Nesta família, matou Crasso, Magno e Escribônia: três
patetas, mas nobres; e Crasso era tão bobo que até podia ser imperador: 3. Vamos: vós quereis
fazer deste sujeito um deus? Ele tem tal físico, que parece ter nascido para enfurecer os deuses...
Em suma, se ele proferir três palavras, uma depois da outra, tornar-me-ei seu escravo. 4. Um
deus... e quem poderá adorâ-lo? quem terá confiança nele? Se criardes deuses como este, nin-
82 Estas frases lembram o que Augusto mesmo escreveu no seu testamento espiritual (“Res gestae”).
83 Com estas palavras Messala Corvino demitiu-se do cargo de prefeito de Roma no ano de 25 a.C. (Tácito,
Anais, VI, 11); e eram uma aberta acusação à política de Augusto. Mas Augusto, revendo o passado com
olhar honesto, reconhece que Messala Corvino tinha razão.
54 Provérbio grego, que corresponde mais ou menos ao latino “tunica proprior pallio est”, a camisa está
mais junto ao corpo do que o vestido (Plauto, Trinummus, V, 2, 30); e igual se encontra no francês (“Ma che-
mise m'est plus proche que ma robe”), espanhol (“Primeiro es la camisa que el sayo”), italiano (CStringe piu
la camicia che la gonnella”), inglês, alemão, etc. No espanhol há também: “Más cerca están mis dientes que
tus parientes”, que corresponde ao italiano: “Piú vicino é il dente che nessun parente”. E tudo para dizer:
antes vou pensar em mim, depois, se puder, nos outros... Augusto (do qual muitas vezes Sêneca lembra o
egoísmo) afirma que a irmã não conhece o grego, isto é, este provérbio grego: e de fato Otávia, esposa de
Marco Antônio, foi um exemplo magnífico de virtude, sempre sacrificando o próprio interesse ao bem-estar
dos outros.
85 Lúcio Silano: veja-se a nota 41.
ss Cláudio costumava julgar depressa e sem ouvir a defesa (Suetônio, Cláudio, 15 e 29).
87 Vulcão é o deus do fogo. No Olimpo, defendeu a mãe Juno contra o pai Júpiter; e o pai o pegou pelo pé
e o jogou dos céus (Homero, Ilíada, 1, 591).
88 Júpiter brigou com a esposa Juno (Homero, Ilíada, XV, 18) por causa da guerra entre os gregos e o troia-
nos, pois Juno favorecia Os gregos. Ea
8 Conforme a narração de Suetônio (Cláudio, 29) e de Tácito (Anais, XI, 38), Cláudio mostrou indiferença
à notícia da morte de Messalina: estava num banquete e cinicamente continou a comer.
79 Sêneca brinca com o verbo “persequi”: Cláudio perseguiu Calígula, procurando abrogar todos os atos
do predecessor; e. . . seguiu, imitou os cruéis exemplos do louco Calígula.
71 M. Júnio Silano. ;
72 Lúcio Silano; além do sogro Ápio Silano.
268 SÊNECA
guém acreditará que vós mesmos sois deuses. Ô senadores, quero concluir: se no vosso meio sem-
pre tive uma conduta honrada; se nunca dei a ninguém respostas rigorosas demais, vingai as ofen-
sas que me foram dirigidas. Conforme as minhas argumentações, eis a proposta que eu
apresento.”
E, tendo pegado as tábuas de cera, disse: A
5. “Considerando que o divo Cláudio matou o sogro Ápio Silano, dois genros — Magno
Pompeu e Lúcio Silano; o sogro da filha — Crasso Frugi, com quem se parecia como se parecem
dois ovos; '* Escribônia, sogra de sua filha; a própria mulher, Messalina; e todos os outros que
não foi possível contar;
“proponho sejam tomadas severas providências contra este sujeito, não lhe seja concedida a
faculdade de ser julgado, ” * aliás seja levado daqui quanto mais cedo: saia dos céus no máximo
dentro de um mês; para deixar o Olimpo: três dias”.
6. A proposta ganhou os votos da assistência. Imediatamente, Mercúrio 7º pegou-o pelo pes-
coço e arrastou-o dos céus até aos Inferos, lá
“de onde — dizem — ninguém nunca voltou”. &
XI — 1. Enquanto desciam pela Via Sacra, ” ? Mercúrio pergunta o porquê da aglomera-
ção de gente: seria o enterro de Cláudio? Era o mais esplêndido enterro de todos os séculos; e
organizado nos mínimos pormenores: compreendia-se bem que era o enterro de um deus. ?º Tão
grande era o número dos flautistas, dos corneteiros, de todos os tipos de tocadores, tão grande era
o barulho que até Cláudio o podia ouvir. 2. Todo o mundo estava alegre, em festa: o povo romano
passeava, sentindo-se livre. Agatão e alguns rábulas se queixavam de todo o coração. "º E os juí-
zes, pelo contrário, deixavam os seus abrigos, pálidos, emagrecidos, quase que no momento de
entregar os pontos: gente que recomeçava naquele instante a viver.
Um destes juízes, vendo os rábulas chorarem a própria sorte, aproximou-se e disse: “Quan-
tas vezes eu falei: não é sempre carnaval!”
3. Como viu o seu enterro, Cláudio compreendeu que estava morto, pois um grande coro
cantava solene hino fúnebre em anapestos:*º
Chorar devemos,
bater o peito:
ressoe no Foro
triste clamor!
Deu a ossada
um homem grande:
nunca no mundo
viveu um outro
maior varão !
Vencia no curso
em disparada
os mais velozes;
vencia os rebeldes
dos fortes Partos,
vexava os Persas
com flechas leves,
com firme punho
sabia do arco
setas soltar,
para ferir
hoste que foge
ou as pintadas
costas dos Medos.*"
Impós o jugo
férreo de Roma
ora aos Britanos
pra além das praias
do noto mar,
ora aos Brigantes**
de bruno escudo:
o mesmo pélago
tremeu vencido
sob o ameaço
da nossa lei.
Chorai o grande
que celeremente
mais do que os outros
sabia processos
estudar, uma
só parte ouvindo,
também nenhuma.
Existe agora
um magistrado
que julgue as brigas
no ano inteiro?
Deixa-te o assento
no além-túmulo
quem foi já dono**
de cem cidades
da grande Creta.
Com mãos aflitas
batei os peitos,
ó causídicos,
raça vendúvel;
chorai, poetas* *
novos; e mais
ainda vós
que conseguistes,
jogando os dados,
ganhar fortunas !8 $
APOCOLOQUINTOSE 269
XII — 1. Deleitava-se Cláudio, ouvindo os próprios louvores; e queria assistir mais lon-
gamente ao espetáculo. Mas Mercúrio, divino mensageiro, pega-o e arrasta-o (tendo-lhe coberto a
cabeça para que ninguém pudesse reconhecê- lo) através do Campo de Marte: entre o Tibree a Via
Coberta desce aos Ínferos. *
2. Por um atalho já o liberto Narciso * ? precedera*º o patrão para fazer as honras da casa;
e, à chegada, apresenta-se bem limpo, como quem sai do banho, e grita: — Os deuses misturam-
se aos homens? *º
— Vamos — interrompe Mercúrio —, anuncia a nossa chegada.
Imediatamente, Narciso voa. 3. A estrada desce bastante: é fácil descer."º E Cláudio, embo-
ra gotoso, num instante chega às portas de Dite, onde estava estirado Cérbero, ou, como o chama
Horácio, “a fera que tem cem cabeças”.º'" Cláudio fica um pouco perturbado (sempre se tinha
deleitado com um cachorrinho branco) quando vê na sua frente aquele canzarrão preto e peludo
que não gostaríamos de encontrar na escuridão. Mas põe-se a gritar: — Está chegando Cláudio!
4. Acorre uma multidão festiva: — Alegre-se o mundo inteiro: novamente o encontramos !º? —
Havia o cônsul designado Caio Sílio, o ex-pretor Junco, Sexto Traulo, Marco Hélvio, Trogo,
Vétio ado Fábio. cavaleiros romanos que Narciso mandara ao suplício. No meio da multidão
ululante,ºº encontrava-se o pantomimo Mnester, que Cláudio tornara, como título de distinção,
um divertimento de Messalina. 5. Num relâmpago espalha-se a notícia da chegada de Cláudio:
acodem, correndo, os libertos Políbio, Míron, Arpócrates, Anfeu, Feronacto, que Cláudio tinha
enviado na frente para não se encontrar em nenhum lugar sem os devidos preparativos; chegam,
em seguida, os dois prefeitos Justo Catônio e Rúfrio Polião; depois os amigos Saturnino Lúsio,
Pédon Pompeu, Lupo, Céler Asínio,º * homens de grau consular; enfim, a filha do irmão, a filha
da irmã, genros, sogros, sogras, em suma, todos os parentes mais próximos. Formam uma fila,
que vai ao encontro de Cláudio. 6. Vendo-os, exclama: — Tudo lotado,º * aqui de amigos! Mas
como chegastes? — Então Pédon Pompeu lhe grita: — Que dizes, monstro cruel? De que manei-
7º Na estupidez. Pouco antes chamou Crasso Frugi de bobo.
7* Assim como Cláudio fazia com os outros!
75 Mercúrio é também o deus que guia as almas para o além-túmulo (“psicopompo”).
78 Catulo, Líber, 3, 12. Mas Catulo lembra os Campos Elísios, de onde não pode voltar o passarinho tão
querido de Lésbia...
77 A Via Sacra era a mais importante de Roma, no meio do Foro: sacra, pelas procissões religiosas.
78 Suetônio (Cláudio, 45) e Tácito (Anais, XII, 69) lembram o magnífico enterro.
7º Agatão não é personagem conhecida, mas representa o típico rábula, que durante o governo de Cláudio
gozou de grande favor e teve trabalho dia e noite: não assim os verdadeiros juízes defensores da lei, que
deviam, ao contrário, calar e tremer.
ua Paródia de uma nênia ou canto fúnebre para os grandes varões de Roma.
81 Contra os partos e os persas, Cláudio teve mais derrotas do que vitórias.
82 Povo da Bretanha.
83 Minos, rei de Creta: era tão justo que foi posto como juiz supremo no além-túmulo.
8* Certamente, mais do que poetas deviam ser bajuladores.
85 O jogo dos dados era proibido por lei (Horácio, Odes, II, 24, 57); mas era a maior paixão de Cláudio
(Suetônio, Cláudio, 5 e 33).
88 Conforme uma antiga tradição popular, descia-se ao mundo do além-tâmulo pela Via Tecta, perto do rio
Tibre, no início da Via Flamínia: o lugar era chamado “Tarentum” e era indicado por uma “ara Ditis et
Proserpinae”, onde se celebravam os “Ludi Tarentini”, restabelecidos por Cláudio (Suetônio, Cláudio, 21).
87 Narciso, o mais poderoso liberto de Cláudio, foi morto logo depois do falecimento do imperador (Tácito,
«nais, XII, 7): não tinha subido até o Olimpo, mas descido diretamente aos Ínferos.
Narciso foi morto, enquanto estava tratando a gota nas termas de Sinuessa, na Campânia.
Devia ser uma frase proverbial para homenagear uma pessoa.
Virgílio, Eneida, VI, 126: “facilis descensus Averno”. Mas aqui a frase é sarcástica.
91 Odes, II, 13, 34.
Era o grito com o qual, nas festas egípcias de Ísis, se saudava a volta do boi Ápis. E aqui se saúda a volta
de Cláudio!
º3 Trata-se de uma fifa de amantes e cúmplices de Messalina. Até Mnester, que o mesmo Cláudio tinha jo-
gado entre os braços de Messalina, não se sabe por que (talvez como espião), e que no fim foi morto para
salvar as aparências. Escândalos confirmados por Tácito (Anais, XI, 35-36) e Díon Cássio (LX, 22, 28).
9* Algumas personagens são conhecidas, a maioria desconhecida. Mas o que importa é que todos os amigos
e inimigos, mortos por ordem de Cláudio, reúnem-se pasa receber condignamente quem, afinal, chega aos
Ínferos.
PE a primeira parte da frase é uma paródia de “tudo está cheio de deuses”, palavras atribuídas a Tales,
Heráclito ou Diógenes cínico: ou, talvez, é o “Sunt Jovis omnia plena” de Virgílio (Bucólicas, III, 60). Quan-
to à segunda parte da frase, lembra novamente uma das maiores características de Cláudio: a inconsciência
(Suetônio, Cláudio, 39).
E
270 SÊNECA
ra? Quem podia enviar-nos aqui, senão tu, o assassino de todos os amigos? Mas vamos diante dos
juízes: mostrar-te-ei os nossos tribunais.
XIV — 1. Então, leva-o ao tribunal de Éaco,º * que instruía processos*? conforme a lei
Cornélia acerca do homicídio. Pédon pede seja inscrita a causa contra Cláudio e apresenta o ato
de acusação: “Mortos trinta e cinco senadores, duzentos e vinte e um. cavaleiros romanos; e de-
pois todos os outros. . . quantos são os grãozinhos de pó e areia”.ºº 2. Cláudio não encontra um
advogado defensor: enfim, apresenta-se Públio Petrônio,ºº seu velho companheiro, homem exper-
to na linguagem claudiana, e pede um pouco de tempo para preparar a defesa. Não é atendido.
Pédon Pompeu sustenta a acusação, no meio de um barulho danado; o defensor gostaria de
responder... Mas Éaco, homem justo, pronuncia o veto e condena o réu, depois de ter ouvido
somente a acusação, declarando:
— Receba o mal que fez: assim seja feita a justiça.
3. Seguiu-se um grande silêncio. Todos ficaram estupefatos pela novidade: nunca tinham
visto um sistema igual. Todavia, a Cláudio pareceu mais uma injustiça do que uma novidade. 4.
Discutiu-se muito acerca do tipo de castigo. Uns sustentavam: Sísifo !º! já fora carregador por
bastante tempo; Tântalo, não recebendo socorro, morrera de sede; era preciso brecar a roda de
Ixião, coitadinho. Mas a proposta foi rejeitada: aposentar aqueles veteranos podia dar a Cláudio
a ilusão de ter, num dia futuro, igual tratamento. 5. Decidiram que era necessário encontrar um
novo castigo: isto é, inventar para ele uma fadiga vã e, ao mesmo tempo, a ilusão de um novo tor-
mento sem fim e sem resultado. Eis: Eaco condena-o a brincar com os dados, mas usando um
copo sem fundo. !º? E Cláudio começa, imediatamente: corre atrás dos seus dados que sempre lhe
fogem; e não pode concluir nada:
KV — 1.
E quantas vezes quis jogá-los do copo sonoro,
ambos os dados pelo seu fundo furado escapavam;
e quando, novamente reunidos, ousava jogá-los,
sempre pronto a brincar, sempre pronto a pegar os seus dados;
ficou desiludido: os dados lhe fogem das mãos,
perenes traidores, escapando as ocultas, distantes.
Ássim, quando está para chegar sobre o cume do monte,
escapa-se das costas de Sísifo o inútil penedo.
100
2. De improviso, chega Calígula, que o pede como criado: apresenta testemunhas, que
podem afirmar ter visto Cláudio receber chicotadas e bofetadas ! º* por parte de Calígula. É adju-
dicado a Calígula, que o dá de presente a Éaco; e Éaco o entrega ao seu liberto Menandro, 'º *
para que faça dele um esbirro na instrução dos processos. 'º*
“
98 É um dos três maiores juízes do além-túmulo: Éaco, Radamanto, Minos.
º7 Paródia dos tribunais romanos. A lei citada é a “Cornelia de sicariis et venefíciis” de Sila, lei que dava
competência a uma comissão especial para julgar acerca dos homicídios.
º8 Os algarismos correspondem aos dados de Suetônio (Cláudio, 29). “Quantos são os grãozinhos de pó e
areia” é frase homérica (Ilíada, IX, 185). É
ºº Foi cônsul em 19 d.C. e depois procônsul na Ásia (Tácito, Anais, III, 49; VI, 45).
19º Frase proverbial para indicar a lei de talião.
191 Sísifo: rei de Corinto, foi considerado um dos homens mais astuciosos e malvados; revelou um segredo
de Júpiter e foi condenado à morte; amarrou a Morte e ninguém podia mais morrer; quando morreu, foi con-
denado no além-túmulo a carregar uma enorme pedra até o cume de uma montanha: mas, quando estava
para chegar ao cume, a pedra lhe caía das costas e voltava aos pés do monte. Ficou como símbolo do traba-
lho inútil: assim como o castigo de Tântalo, rico rei da Lídia, muitas vezes convidado pelos deuses nos ban-
quetes do Olimpo; por isso ficou tão orgulhoso que os deuses o castigaram no além-tâmulo a ter continua-
mente fome e sede e a não poder nunca comer e beber. Ixião procurou seduzir Hera, a esposa de Júpiter; e
Júpiter o condenou a ser amarrado numa roda de fogo, que girava sem parar.
192 Igualmente, as cingienta filhas de Dânao, que mataram os esposos, foram condenadas a encher de água
uma pipa sem fundo. Cláudio, já vimos, tinha uma paixão louca pelos dados: jogava em qualquer lugar, até
durante as viagens, na liteira (Suetônio, Cláudio, 33).
19º Cláudio sofreu muito sob o governo de seu sobrinho Calígula (Suetônio, Calígula, 23; Cláudio, 8,9, 38;
Nero, 6).
1º* Cláudio volta a ser escarnecido, como na corte do sobrinho Calígula. Menandro é talvez o nome de um
liberto da corte de Cláudio.
'º8 E afinal Cláudio volta a ser o que sempre foi na vida: um esbirro para instruir os inquéritos e os protes-
sos especiais: de fato, o texto diz “a cognitionibus”, isto é, fora do “ius ordinarium” (Suetônio, Cláudio, 14
e 15). !
MARCO AURÉLIO
MEDITACÕES
LivrO I
1. De Vero, meu avô, a honradez e serenidade.
2. Da reputação e memória de meu genitor,' a discrição e varonilidade.
3. De minha mãe;a religiosidade, a generosidade e a abstenção não só de praticar o mal
mas até de se demorar em semelhante pensamento; ainda, a singeleza do passadio e a distância do
teor de vida dos ricos.
4. De meu bisavó, o ter em casa mestres excelentes, em vez de frequentar escolas públicas,
e compreender que a instrução requer se despenda largamente.
5. De meu aio, o não me haver tornado partidário dos Verdes ou dos Azuis,” nem dos
Palmulários ou dos Escutários; * o aturar fadigas e precisar de pouco; o executar eu próprio mi-
nhas tarefas, o não ser intrometido e a repulsa a intrigas.
6. De Diogneto, * o descaso das futilidades; o não crer no que dizem os milagreiros e charla-
tães sobre encantamentos, expulsão de demônios e quejandas imposturas; o não criar codornizes
nem me entregar a paixões dessa espécie; o suportar franquezas; o familiarizar-me com a Filoso-
fia e ouvir as lições, primeiramente, de Báquio, depois, de Tândasis e Marciano; o ter escrito diá-
logos na infância; o ter desejado o catre, o pelego e todas as outras simplicidades da educação
helênica.
7. De Rústico, º a compreensão de que devia corrigir e cultivar o meu caráter; o não me
entregar à paixão da sofistica, nem compor tratados teóricos, redigir arengas de exortação ou exi-
bir-me, para suscitar admirações, como pessoa operosa e benfazeja; a abstenção da retórica, da
poesia, do preciosismo; o não andar de toga em casa, nem alimentar vaidades que tais; o usar de
simplicidade nas minhas cartas, como ele na que mandou de Sinoessa a minha mãe; a presteza em
responder ao apelo de reconciliação dos que se irritaram comigo e me ofenderam, tão logo de si
mesmos queiram voltar às boas; o ler acuradamente, não me satisfazendo com uma vista d'olhos
superficial; o não assentir precipitadamente às indiscrições; o conhecer os comentários de Epic-
teto, ? que me emprestou de sua biblioteca.
8. De Apolônio,” a independência, a decisão sem longos debates nem recurso à sorte dos
lados; o não me orientar, sequer por instantes, senão pela razão; o não me alterar nos sofrimentos
* Ânio Vero. — ? Domícia Lucila. — * Facções de cocheiros no circo. — * Facções de gladiadores. —
é Erudito e pintor. j
8 Filósofo da escola estóica, conselheiro de Marco Aurélio.
? Uma das maiores figuras da filosofia antiga. Viveu no começo da era cristã, de 40 a 125. Nascido na Fri-
gia, de família servil, foi levado para Roma no tempo de Nero; ali recebeu de seu amo a liberdade e estudou
com Musônio, adepto do estoicismo. Quando Domiciano expulsou da Itália os filósofos, passou-se para
Nicópolis, no Epiro, e ali ensinou Filosofia. Conhecemos os seus ensinamentos graças ao historiador Arria-
no, seu discípulo, que registrou o pensamento e as máximas do mestre em duas obras, Entretenimentos e
Manual, consideradas as obras capitais da escola estóica. Sua influência, profunda no ocaso do paganismo,
estendeu-se atravês da era cristã.
8 QObscuro mestre de filosofia estóica.
274 MARCO AURÉLIO
agudos, na perda dum filho, nas doenças prolongadas; o ter visto com meus olhos, num exemplo
vivo, que o rigor extremo se compadece com a benignidade; o não ser irritadiço nas explicações;
o ter visto um homem que manifestamente reputava como o menor de seus dotes o tirocínio e faci-
lidade em transmitir os princípios doutrinários; o ter aprendido como receber as assim conside-
radas gentilezas dos amigos, sem render-me a elas nem desdenhá-las indelicadamente.
9. De Sexto,” a benevolência; o exemplo de casa regida pela tradição; a concepção de como
viver segundo a natureza; a gravidade não afetada; a solicitude atenta para com os amigos; a tole-
rância para com os ignorantes e para com os que opinam sem maduro exame; a boa harmonia
com todos, tanto que seu convívio agradava mais que qualquer blandícia, apesar de infundir, ao
mesmo tempo, o máximo respeito para com sua pessoa; o atinar arguta e metodicamente com as
normas necessárias à vida e ordená-las; o jamais mostrar nem aparência de cólera ou qualquer
outra emoção, mas ser ao mesmo tempo muito sereno e muito afetuoso; o elogiar sem espalha-
fato; a erudição vasta sem alarde.
10. De Alexandre, o gramático, o não criticar, o não vituperar quem profere algum barba-
rismo, solecismo ou cacofonia, mas aduzir aquela única expressão que devia ser dita, jeitosa-
mente, em forma quer de resposta, quer de confirmação ou debate do assunto mesmo, e não de seu
enunciado, quer ainda dalguma outra semelhante sugestão casual adequada.
11. De Frontão,'º o notar quanta inveja, doblez e hipocrisia há nos tiranos e que esses cha-
mados em Roma patrícios quase sempre são de certo modo bem falhos de afeição.
12. De Alexandre, o platônico, o não dizer ou escrever, amiúde e sem necessidade, que estou
ocupado, nem me subtrair assim constantemente aos deveres sociais para com os de minha convi-
vência, a pretexto de fainas prementes.
13. De Catulo, o não desdenhar as queixas dum amigo, embora porventura infundadas, e
tratar, ao contrário, de restaurar o bom entendimento habitual; o louvar os mestres com ardor,
como se recorda de Domício e Atenódoto; e o amor verdadeiro para com os filhos.
14. De meu irmão Severo,'' o amor à família, à verdade e à justiça; o ter conhecido por seu
intermédio a Tráseas, Helvídio, Catão, Dião, Bruto; a concepção dum poder régio que acima de
tudo respeite a liberdade dos súditos; dele, ainda, o culto da Filosofia, constante e sem desfaleci-
mento; a beneficência e a liberalidade copiosa; o bem esperar da afeição dos amigos e confiar
nela; a franqueza para com aqueles a quem acaso censurava e o não precisarem os seus amigos
conjeturar o que ele desejava ou não desejava, por ser patente.
15. De Máximo, '? o domínio de si mesmo e o não titubear em matéria nenhuma; a fortaleza
nas vicissitudes, notadamente nas enfermidades; a feliz fusão da doçura e da imponência em seu
caráter; o cumprimento de suas obrigações sem queixas;'o crerem todos que ele pensava como
dizia e não havia maldade em seus atos; a ausência de espantos e de medos; o jamais açodar-se
ou demorar, embaraçar-se, descoroçoar, ou gargalhar e em seguida entregar-se a cóleras ou sus-
peitas; a beneficência, a indulgência e a lealdade; o dar antes a impressão de não entortado que
de endireitado; que ninguém jamais se imaginaria menosprezado por ele, nem ousaria acreditar-se
superior a ele.
. 3 . . E RA E and
16. De meu pai, 'º a placidez e a firmeza inabalável nas decisões, fundadas em exames acu-
º Sexto de Queronéia, filósofo estóico, sobrinho de Plutarco.
'º Marco Cornélio Frontão, natural da Numídia (100 a 175 A.D.), preceptor de Marco Aurélio, seu conse-
lheiro e amigo, a quem o imperador votava respeito e carinho, como se vê na volumosa correspondência que
trocaram. Compôs modelos de eloquência, à maneira dos retores gregos. Gozava de grande reputação e sua
casa era freqientada pelos expoentes da cultura contemporânea em Roma. Seu mérito real, porêm, ê diminu-
to; sobressaia na mediocridade geral.
11 Cláudio Severo; cultivou a Filosofia peripatética. Não era, realmente, irmão de Marco Aurélio, mas
consogro.
'2 Cláudio Máximo, adepto do estoicismo.
*3 Trata-se do pai adotivo, Antonino Pio, sucessor de Adriano como imperador, de 138 a 2 6d Outro perfil
seu se encontra no Livro VI, n.º 30.
MEDITAÇÕES 275
rados; a indiferença para com a vaidade de supostas honrarias; o amor ao trabalho e a perseve-
rança; o escutar as pessoas capazes de alguma contribuição para o bem comum; a inflexibilidade
no aquinhoar cada um segundo seu mérito; a experiência de quando apertar e quando afrouxar;
o ter posto fim à pederastia; a afabilidade; o consentir aos amigos nem sempre jantar em sua com-
panhia nem acompanhá-lo obrigatoriamente nas viagens; o não o acharem mudado os que se hou-
vessem afastado por algum dever; o exame acurado nas deliberações em comum e a persistência,
sem abandonar as pesquisas e contentar-se com as idéias Óbvias; a conservação das amizades,
sem enfado nem exagerado apego; a auto-suficiência em tudo e a serenidade; a longa previsão e
o arranjo prévio das minúcias, sem teatralidade; o ter coibido as aclamações e toda bajulação de
sua pessoa; a vigilância permanente dos interesses do Império; a administração das rendas do erá-
rio e a tolerância da crítica em alguns itens administrativos; o não ter superstições em relação aos
deuses e, quanto aos homens, não ser bajulador das massas, blandicioso, populista, mas em tudo
sóbrio, firme e nunca de mau gosto nem inovador; o uso dos bens que concorrem para a comodi-
dade da vida e a sorte lhos proporcionara copiosamente — sem vaidade e ao mesmo tempo sem
pretextos, de modo que, quando os havia, os fruía sem requintes e, quando carecia, passava sem
eles; o não poderem chamá-lo intrujão, nem chocarreiro, nem pedante, e sim homem amadure-
cido, completo, inacessível à bajulação, capaz de gerir os seus interesses e os alheios; além disso,
as atenções para com os filósofos autênticos e, em relação aos outros, sem todavia ofendê-los, o
não se deixar conduzir por eles; ainda, a afabilidade, a amabilidade não fastidiosa; os cuidados
comedidos com o seu corpo, que eram os de alguém não apegado à vida, sem tafularia nem des-
mazelo tampouco; contudo, dado o seu zelo de si mesmo, mínima era sua precisão de médicos,
poções ou emplastros; principalmente, a deferência votada, sem ciúmes, aqueles que tivessem
adquirido algum talento, como a oratória, a ciência das leis ou costumes, ou outras disciplinas, e
o interesse por que cada um deles gozasse de reputação na medida de seus méritos; seguindo em
tudo o costume dos antepassados, o não demonstrar que o seu propósito era esse de preservar a
tradição; também o não ser instável e irrequieto, mas demorar nos mesmos lugares e ocupações;
o entregar-se às tarefas habituais logo após os acessos de dor de cabeça, refeito e em pleno vigor;
o não ter muitos segredos, mas o menos possível e o mais raramente, e isso apenas em questões
administrativas; a prudência e comedimento, tanto na celebração de festividades como na cons-
trução de obras, na liberalidade oficial e atos desse gênero, como homem que visava àquilo que
era mister fazer e não à glória advinda das realizações; o não tomar banho em hora imprópria,
não edificar apenas por gosto, não se preocupar com requintes à mesa, nem com o pano e cores
da roupa, ou com os dotes físicos dos servos; a ordem dada em Lório que recolheu a maior parte
"das alfaias! * da residência da beira-mar e das de Lanúvio; o modo como despachou o pedido do
publicano de Túsculo e seu procedimento em casos semelhantes; nenhum ato cruel, nem indeco-
roso, nem violento, nem azo a dizerem alguma vez chegou a suar, mas o cálculo minudencioso de
tudo, como se o tempo sobrasse, sem confusão, com ordem, solidez e coerência. A ele se ajustaria
.o que de Sócrates se lembra: podia tanto abster-se como gozar daqueles bens que a maioria, se lhe
faltam, debilita-se, se os tem, a eles se rende. A força e firmeza, bem como a continência num caso
e no outro, são próprias de homem dotado de alma equilibrada e invencível, como ele o foi na
moléstia que o levou.
17. Dos deuses, o ter bons avós, bons pais, uma boa irmã, bons mestres, bons familiares,
parentes, amigos quase todos bons; o não ter cometido faltas para com nenhum deles, apesar de
ter um temperamento que poderia eventualmente induzir-me a alguma; foi graça dos deuses não
ter ocorrido conjuntura que me viesse a pôr à prova; o não ter sido educado em casa da amásia
de meu avô por muito tempo; o ter preservado minha juventude e não ter usado a virilidade antes
do tempo, tendo-o, ademais, ultrapassado; o ter estado sob as ordens do soberano, meu pai, que
havia de extirpar em mim toda presunção e fazer-me compreender que é possível viver na corte
sem necessitar de guarda pessoal, nem de roupagens aparatosas, nem lampadários, nem estátuas
e objetos desse gênero igualmente faustosos, mas limitando-se quase ao teor de um simples parti-
cular, sem por isso rebaixar-se nem desleixar o cumprimento dos deveres de imperador em relação
aos interesses do Estado; o deparar um irmão capaz, por seu caráter, de incentivar-me no cuidado
14 O texto aqui não faz sentido; a tradução é conjetura. O sujeito da oração, stolê, roupa, não poderia
acomodar-se com o predicado; supus, em seu lugar, entolê, ordem; o objeto, alfaias, também é conjetura.
Fique anotado aqui, valendo para outras passagens igualmente obscuras, que o texto nos chegou deploravel-
mente eivado de lacunas e corruptelas por vezes indecifráveis.
276 MARCO AURÉLIO
de mim próprio, encantando-me, ao mesmo tempo, com sua deferência e estima; não ter tido fi-
lhos estúpidos nem deformes; o não me haver avançado excessivamente na oratória, na poética e
nas demais disciplinas em que me pudera, talvez, deter, caso sentisse que progredia sem esforço;
o ter-me antecipado em conferir a meus aios dignidades a que pareciam aspirar, sem me fiar da
esperança de fazê-lo mais tarde, pois ainda eram moços; o ter conhecido a Apolônio, Rústico e
Máximo; o ter feito, com clareza e amiúde, a idéia do que é a vida segundo a natureza, e assim,
no que depende dos deuses, de suas comunicações, assistência e inspiração, nada daí por diante
impede que eu viva segundo a natureza e, das minhas deficiências nesse ideal, o culpado sou eu
por não atentar nos avisos, para não dizer nas lições dos deuses; o ter meu físico resistido tão lon-
gamente à vida que levo; o não ter tido contato com Benedita nem com Teódoto e o ter-me curado
também das paixões amorosas concebidas ao depois; nas minhas frequentes irritações contra
Rústico, nada mais ter feito que me houvesse de pesar; o haver morado comigo, ao menos em seus
últimos anos de vida, minha mãe, que havia de morrer ainda jovem; rias ocasiões em que desejei
acudir alguém em aperturas, ou que me pedia por alguma outra razão, o nunca me responderem
que não havia recursos donde tirar; o não ocorrer a mim próprio igual precisão de pedir empres-
tado a outrem; o ser minha mulher 'º o que é, tão obediente, tão afetuosa, tão simples; o dispor
de aios proficientes para meus filhos; a inspiração, em sonhos, de rernédios, sobretudo para não
escarrar sangue e não ter vertigens, e como que um oráculo, em Caieta, a esse respeito; quando
aspirei à Filosofia, o não ter deparado um sofista, nem me sentar a analisar autores ou silogismos,
ou aplicar-me ao estudo dos fenômenos celestes. Tudo isso, com efeito, devo aos deuses protetores
e à Fortuna.
No país dos Quados, à margem do Grã. !*
Livro II
1. Previne a ti mesmo ao amanhecer: “Vou encontrar um intrometido, um mal-agradecido,
um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro”.
Eles devem todos esses vícios à ignorância do bem e do mal. Eu, porém, que observei ser o
belo a natureza do bem e a vergonha a do mal, bem como consistir a natureza do próprio pecador
em seu parentesco comigo, não em razão do mesmo sangue ou da mesma semente, mas por ter
parte na inteligência e numa parcela da divindade, nenhum dano posso receber deles, pois nenhum
me cobrirá de vergonha.
Tampouco me posso exacerbar com um parente, nem odiá-lo porque nascemos para a ação
conjunta, como os pés, como as mãos, como as pálpebras, como as filas de dentes superiores e
inferiores. Por isso, é contra a natureza agir em sentido contrário; agastar-se é agir em sentido
contrário.
2. O que sou é carne, alento eo meu guia."
Larga os livros e não te deixes mais atrair; não té é lícito; ao invés, como quem está para
morrer, despreza a carne — lama de sangue, ossos, renda de nervos, de veias, trança de artérias.
Observa, também, o que é o alento: vento, e nem sempre o mesmo, mas a todo momento
expelido e de novo aspirado.
Em terceiro lugar, enfim, o guia. Pensa nisto: estás velho; não o deixes continuar escravo,
titereado pelos impulsos egoístas, enfadado com o destino atual ou apreensivo quanto ao futuro.
'5 Faustina, filha de Antonino. Essa opinião não foi partilhada por alguns historiadores, quiçá malignos."
*º Povo germânico, que se havia sublevado, no território atualmente da Tchecoslováquia. Este primeiro
livro, aparentemente, foi composto depois dos outros, servindo de introdução. As reflexões filosóficas come-
çam realmente no segundo.
17 O guia é a voz interior, a razão ou a consciência, que nos orienta para o bem. É um nume, uma divinda-
de, um gênio ou bom demónio, instalado em nosso âmago, no pensamento dos estóicos; deriva essa concep-
ção diretamente do pensamento de Sócrates, que dizia ter no seu íntimo um demônio que o advertia sempre
que ia dar um mau passo. A identificação dos demônios e outras divindades do paganismo com o diabo é
uma concepção ulterior do cristianismo. Para Marco Aurélio, como para os cristãos, a consciência, ou guia,
pode ser corrompida pelo homem; cumpre que a preservemos pura.
MEDITAÇÕES ri
3. As obras dos deuses são plenas de providência; as da Fortuna dependem da natureza, ou
da urdidura e entretecimento do que a Providência dispôs. Tudo dela dimana.
Acresce, ainda, O inevitável e o conveniente ao universo, de que és parcela. É um bem para
toda parcela da natureza o que a natureza do universo acarreta e o que importa à preservação
desta. Preservam o mundo as transformações, tanto dos elementos como dos compostos.
Que te bastem essas idéias, adotadas como dogma. Lança de ti a sede de leituras, para não
morreres rezingando e sim com real contentamento, agradecendo de coração aos deuses.
4. Lembra-te quanto tempo vens protelando e quantas prorrogações de prazo concedidas
pelos deuses deixaste de aproveitar. Precisas compreender duma vez para sempre de que universo
és parte, de que regedor do mundo emanaste e, bem assim, que foi circunscrito um limite à tua
duração e, se a não usares para asserenar-te, ela passará, passarás tu e não haverá outra ocasião.
5. Pensa firmemente, a todo momento, como romano e como varão, em executar o mister
que tens nas mãos com gravidade exata e desafetada, com afeto, independência e justiça, e propor-
cionar a ti mesmo uma folga de todas as demais cogitações.
Consegui-lo-ás se desempenhares cada ação de tua vida como se fosse a última, isenta de
toda leviandade, de aversão sentida ao arbítrio da razão, de fingimento, de egoísmo e inconfor-
mação com o destino.
Já vês quão pouco domínio temos de exercer para que nossa vida flua fácil, no temor dos
deuses; porque os deuses não exigirão mais de quem observa esses preceitos.
6. Rebaixa-te, minha alma, rebaixa-te! Não terás mais ocasião de honrar a ti mesma, que
breve é a vida de cada um, a tua está prestes a terminar e tu, em vez de respeitares a ti mesma,
colocas nas almas dos outros a tua eicidade;
7. Não te distraiam os eventos SEO de fora; arranja vagares para aprenderes mais algo
de bom e pára de voltear.
Guarda-te também, doravante, de outro desvario; desvairam, com efeito, aqueles que, ao
cabo de tantas ações, se enfastiam da vida e carecem dum alvo para onde orientar todos os seus
impulsos e, numa palavra, as suas cogitações.
8. Dificilmente vemos alguém sofrendo por não ter observado o que se passa na alma de
outrem, mas por força há de sofrer quem não anda atento às comoções de sua própria alma.
9. Deves sempre lembrar qual a natureza do universo, qual a minha, qual a relação entre
esta e aquela, qual parte sou de qual universo e que ninguém te impede de fazer e dizer o que é
consequência da natureza de que ês parte.
10. Falando como filósofo, Teofrasto, 'º na comparação dos pecados, disse, como se expres-
saria quem os comparasse pelo senso comum, que são mais graves as faltas causadas pela concu-
piscência que as causadas pela cólera.
Evidentemente, o encolerizado não se afasta da razão sem algum sofrimento, sem um latente
aperto no coração, enquanto quem peca por concupiscência, dominado por um prazer, se revela
um tanto incontinente e feminino nos pecados.
Tinha, pois, razão ao dizer, em palavras dignas de filósofo, que o pecado cometido com pra-
zer merece mais severa censura do que o cometido com sofrimento. Em suma, num caso, antes pa-
rece tratar-se de vítima de injustiça. coagida pelo sofrimento a encolerizar-se. enquanto, no outro,
de alguém de si mesmo impelido a praticar injustiça, induzido a agir pela conscupiscência.
11. Em todos os teus atos, ditos e pensamentos, procede como se houvesses de deixar a vida
dentro de pouco.
18 Teofrasto (372 a 287 a.C.), natural de Lesbos, foi o sucessor de Aristóteles na direção de sua escola filo-
sófica. Das duzentas e quarenta obras que Diógenes Laércio lhe atribui, “que versavam sobre Física, Metafi-
sica, Ciências Naturais, Política, Retórica, Moral, o que nos restam são dois tratados de Botânica e um
opúsculo, Caracteres, onde são estudados trinta e um Hpes morais; parece tratar-se de excertos de seus trata-
dos de moral ou de um ensaio sobre a comédia.
28 MARCO AURÉLIO
Se os deuses existem, nada há de temeroso em partir dentre os homens; eles não te haveriam
de precipitar numa desgraça; mas se eles não existem ou não se importam com os assuntos huma-
nos, que me interessa viver num mundo vazio de deuses ou vazio de providência?
Existem, porém, importam-se com os assuntos humanos e deixaram na inteira dependência
do homem evitar cair nos verdadeiros males; e se houver algum outro além desses, teriam também
providenciado para que dependesse de cada qual não lhe acontecer.
Aquilo que não piora o homem, como poderia piorar a vida do homem? A natureza do uni-
verso não haveria de tolerar tal situação, quer por ignorância, quer sabendo mas sem poder preve-
nir ou corrigir, nem cometeria, por impotência ou incapacidade, o grave erro de atribuir aos bons
e aos maus, indistintamente, quinhões iguais de bens e de males.
A morte e a vida, a fama e o olvido, a dor e o prazer, a riqueza e a pobreza, tudo isso acon-
tece igualmente na Humanidade a bons e maus. sem constituir honra nem labéu: portanto, não
são bens nem males.
12. Como tudo desaparece depressa! No espaço. os corpos mesmos: no tempo. sua memó-
ria! Assim é com todas as sensações, sobretudo as que atraem porque deleitam ou afugentam por-
que doem, ou se apregoam a todos os ventos porque envaidecem.
Quão insignificantes são, quão desprezíveis, vulgares, perecíveis e mortas, pode compreen-
dê-lo o entendimento.
O que são aquelas pessoas cujas opiniões e pronunciamentos propiciam a glória? Que é a
morte? E, mais, se d gente a considera em si mesma e, com definir-lhe o conceito, dissipa as fanta-
sias que a envolvem, já não a concebe senão como operação da natureza; quem teme uma opera-
ção da natureza é'uma criança; aliás, ela não é apenas uma operação; é até uma conveniência da
natureza.
Como entra o homem em contato com a divindade? Por qual de suas partes e, sobretudo,
como está disposta essa parte do homem?
13. Nada mais digno de pena do que aquele que a tudo faz a volta completa, investigando,
como diz Píndaro,'* o âmago da terra e perquirindo, através de ilações, a alma do próximo, sem
embargo de sentir que basta dar atenção exclusiva ao nume que traz no seu íntimo e prestar-lhe
um culto sincero. Cultuá-lo é preservá-lo de paixões, de leviandades e de inconformação com o
que advém dos deuses e dos homens.
Afinal, o que advém dos deuses merece respeito por sua virtude; o que advém dos homens,
afeto, mercê do parentesco, e às vezes piedade, devido à insciência do bem e do mal — deficiência
essa tão grave quanto aquela que impede a distinção entre o branco e o preto.
14. Mesmo se houveres de viver três mil anos ou dez mil vezes esse tempo, lembra-te de que
ninguém perde outra vida senão aquelàã que está vivendo, nem vive outra senão a que perde.
Assim, a mais longa e a mais curta vêm a dar no mesmo.
O presente, por sinal, é o mesmo para todos; o perdido, portanto, é igual e assim o que se
está perdendo se revela infinitamente pequeno. De fato, não podemos perder o passado nem o
futuro; como nos poderiam tirar o que não temos?
Lembra-te, pois, sempre destas duas máximas: primeira, que tudo, desde todo o sempre, tem
o mesmo aspecto e se renova em ciclos; nenhuma diferença faz verem-se os mesmos fatos por cem
anos ou por duzentos, ou eternamente: segunda, que a perda é igual tanto para o de vida mais
longa como para quem morre cedo, porquanto o presente é a única coisa de que será desapossado,
pois só tem este e não perde o que não tem.
15. Que tudo é opinião. São evidentes as palavras ditas a Mônimo, o Cínico; evidente tam-
bém o proveito do asserto para quem o degusta dentro dos limites da verdade.
16. A alma do homem a si mesma desonra sobretudo quando se torna, tanto quanto dela
depende, um apostema e um como tumor do mundo. Com efeito, agastar-se com um dos aconteci-
mentos é desertar da natureza, que abrange como partes suas as naturezas individuais dos demais
seres.
'º Pindaro (518'a 446 a.C.); nascido na Beócia, compôs hinos e cânticos de vária espécie, principalmente
religiosos, de exortação moral e odes triunfais celebrando os vencedores nos jogos da Hélade. Dotado de um
estilo grandioso, nobre e ousado, ainda que espontâneo e original, por vezes obscuro, pelo abuso de
metáforas.
I
'MEDITAÇÕES 279
Desonra-se, em segundo lugar, quando repele algum ser humano ou avança contra ele para
causar-lhe dano, como as almas dos coléricos.
Terceiro, desonra a si mesma quando se deixa subjugar pelo prazer ou pela dor.
Quarto, quando dissimula, com fingimentos e mentiras, o que faz ou diz.
Quinto, quando larga seus atos e impulsos sem nenhum propósito, executando à toa e
inconseglentemente seja o que for, quando os mínimos atos cumpre se realizem de acordo com a
finalidade. E a finalidade dos viventes racionais é obedecer à razão e às leis da mais venerável
das cidades e repiblicas.
17. Da vida humana, a duração é um ponto; a substância, fluida; a sensação, apagada; a
composição de todo o corpo, putrescível; a alrna, inquieta; a sorte, imprevisível; a fama, incerta.
Em suma, tudo que é do corpo é um rio; o que é da alma, sonho e névoa; a vida, uma guerra,
um desterro; a fama póstuma, olvido.
— O que, pois, pode servir-nos de guia? Só e única a Filosofia. Consiste ela em guardar o nume
interior livre de insolências e danos, mais forte que os prazeres e mágoas, nada fazendo com
leviandade, engaro e dissimulação, nem precisando que outrem faça ou deixe de fazer nada, aca-
tando, ainda, os eventos e quinhões que lhe tocam, como vindos da mesma origem qualquer donde
vem ele próprio; sobretudo, aguardando de boa mente a morte, qual mera dissolução dos elemen-
tos de que se compõe cada um dos viventes.
Se os elementos mesmos nada têm a recear da contínua transformação de cada um em outro,
por que havemos de temer a transformação e dissolução do todo? Ela é conforme com a natureza
e não existe nenhum mal conforme com a natureza.
Em Carnunto?º
Livro HI
1. Não devemos ter em conta somente que, dia a dia, se vai consumindo nossa vida e res-
tando uma parte menor, mas computar também que, se alguém houver de viver mais tempo, não
se sabe se ainda terá inteligência bastante ampla para a compreensão das questões e da teoria que
aspira ao conhecimento dos assuntos divinos e humanos.
Se entrar em senilidade, não lhe faltará a respiração, o nutrimento, a imaginação, os instintos
e mais funções congêneres; porém o dispor de si próprio, o acertar na conta das obrigações, o
analisar as aparências e, a seu próprio respeito, o examinar se já não será tempo de retirar-se e de-
mais cogitações análogas, que requerem um raciocínio absolutamente exercitado, apagam-se
antes. ;
É mister, portanto, apressar-se, não só por estar a morte cada vez mais próxima, mas tam-
bém por cessarem, antes dela, a percepção e acompanhamento dos fatos.
2. É mister também ter sob as vistas fatos como o seguinte: até os acidentes dos produtos da
natureza têm sua graça e sedução.
Por exemplo, na assadura, o pão fende-se em alguns lugares; as rachaduras assim formadas,
contrárias, de certa maneira, aos propósitos da panificação, têm o seu atrativo e excitam particu-
larmente a vontade de comer.
Igualmente, quando bem sazonados, os figos racham; nas azeitonas amadurecidas na planta,
a aproximação mesma do apodrecimento confere ao fruto uma beleza particular; as espigas ver-
gadas para baixo, a pele da fronte do leão, a espuma a escorrer do focinho do javali e muitos ou-
tros exemplos, embora longe de um belo aspecto quando examinados em si mesmos, não obstante,
como consegiências de obras da natureza, concorrem para a beleza e atração do conjunto.
Assim, a quem tem sensibilidade e inteligência profunda do que há no todo, quase nada,
mesmo entre os acidentes advindos como consegliências, deixaria de ostentar uma graça peculiar;
não menor prazer experimentará contemplando as fauces hiantes das feras na realidade do que
nas imitações exibidas pelos pintores e escultores; seus olhos experimentados poderão ver certa
perfeição e encanto mesmo nas velhas e nos velhos, e uma graça sedutora nas crianças.
o “Aquartelamento à margem do Danúbio, na Panônia, hoje Hungria.
280 MARCO AURÉLIO
Muitos exemplos semelhantes se encontrarão, que não creria um qualquer, senão apenas
quem esteja realmente familiarizado com a natureza e suas obras.
3. Hipócrates,?! após ter curado muitas doenças, adoeceu por sua vez e morreu. Os cal-
deus,?? que predisseram a morte de muitas pessoas, foram depois alcançados por sua vez pelo
destino. Alexandre, Pompeu e Caio César, depois de tantas vezes destruírem cidades inteiras
desde os fundamentos e destroçarem em batalhas campais dezenas ç dezenas de milhares de cava-
leiros e peões, um dia, por sua vez, partiram desta vida. Heráclito,?º autor de tratados tão valio-
sos sobre a destruição do mundo pelo fogo, morreu cheio de água por dentro e todo untado de
bosta. Os vermes mataram Demócrito ? * e vermes de outra espécie a Sócrates.
A que vem isso? Embarcaste; navegaste, aportaste. Desembarca! Se há de ser para uma
outra vida, nela igualmente nada é vazio de deuses; se é para a insensibilidade, deixarás de supor-
tar dores e prazeres e de servir ao teu invólucro, tão desvalioso que o servidor vale mais, pois este
é inteligência e divindade, aquele, terra e lama de sangue.
4. Não gastes a parte restante da vida a cogitar nos outros, salva quando estiveres promo-
vendo o bem público; ou então ficarás privado de outra atividade, isto é, entregue a cismas sobre
o que fulano estará fazendo e por que, o que ele diz, o que ele cogita, o que ele maquina e todas
as indagações dessa espécie, que te desnorteiam e distraem da vigilância sobre o teu guia.
Assim, pois, cumpre obstar a entrada, no encadeamento das idéias, da aventura e vaidade, e
muito especialmente da futilidade e malícia. Deves acostumar-te a só pensar em assuntos tais que,
se perguntarem de improviso Em que pensas neste momento?, possas responder prontamente com
franqueza: Nisto e naquilo; assim evidenciarás direta e imediatamente que tudo em si é singeleza,
bondade, dum ser comunicativo e não cuidoso de sonhos sensuais ou, em suma, voluptuosos, ou
de rivalidades, inveja, desconfiança ou algum outro sentimento de que hajas de corar ao confessar
que o tens em mente.
O homem que assim procede, não mais adiando sua entrada definitiva para o número dos
melhores, é um sacerdote, um ministro dos deuses, servidor daquele nume estabelecido em seu
âmago; isso o põe a salvo da mácula dos prazeres, incólume a todo sofrimento, imune de todo
excesso, inatingível a toda maldade, atleta da luta mais excelsa, para não ser derrubado por
nenhuma paixão, profundamente impregnado de Justiça, saudando do fundo da alma todos os
acontecimentos que constituem o seu quinhão, sem imaginar amiúde, salvo por força maior e no
interesse do bem público, o que outrem estará dizendo, fazendo ou cogitando. Desempenhará o
seu mister e terá incessantemente no pensamento a parte do todo que para ele foi tecida; de seu
mister se desincumbirá nobremente e estará convencido de que seu destino é bom. Com efeito, o
quinhão de sorte de cada um convém ao todo e o todo lhe convém. Não esquece que um paren-
tesco liga todos os racionais, que o interesse por toda a Humanidade é conforme com a natureza
humana e não deve apegar-se à estima de toda e qualquer pessoa, senão à de quem vive em har-
monia com a natureza. Jamais esquece como são, em cása e fora, de noite e de dia, aqueles que
assim não vivem. Por isso, não faz caso do louvor de tal gente, até de si mesma insatisfeita.
5. Não haja nos teus atos má vontade, nem egoísmo, nem falta de exame, nem
contrariedade.
Não embeleze os teus pensamentos a finura; não sejas loquaz nem afanoso.
Ademais, seja o deus que há em ti o superior de um ente viril, respeitável, um estadista, um
romano, um príncipe que a si próprio tenha disciplinado, como seria quem aguardasse, despren-
dido, o chamado para deixar a vida, sem precisão nem de juramentos nem de um testemunho
humano.
*1 Nascido em Cós, cerca de 460 a.C., e morto em idade avançada, autor do célebre juramento dos médi-
cos, encarou a medicina como: ciência, “aliviando- -a das superstições. Deixou tratados famosos sobre Áres,
Águas e Lugares e um livro de aforismos.
22 Caldeus aqui é sinônimo de astrólogos.
2º Filósofo nascido em Éfeso cerca de 540 a.C. Célebre por ter chamado a atenção para a mutabilidade das
coisas. Conhecem-se apenas fragmentos de suas obras, mas exerceu profunda influência na Antiguidade. O
seu pensamento é sempre altivo e envolto em sombras de tristeza. Dois aforismos seus muito citados: Tudo
flui — Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio..
24 Nascido em Abdera cerca de 460 a.C., discípulo de Leucipo, o criador do atomismo, cujas teorias divul-
gou. Conhecemos apenas fragmentos de suas obras. O fim que lhe é atribuído nesta passagem não foi; jo seu,
mas o de Ferecides; terá ocorrido erro de copista ou interpolação. RAS,
MEDITAÇÕES 281
Além disso, serenidade, prescindindo de ajuda externa, prescindindo de trangiilidade propi-
ciada por outrem.
Cumpre ser direito; não desentortado.
6. Se encontras na vida humana um bem mais valioso do que a justiça, a verdade, a tempe-
rança, a coragem, em suma, a satisfação de tua inteligência, de um lado consigo mesma, por pro-
ver a que sigas em teus atos a razão reta, e de outro com o teu destino, nos quinhões indepen-
dentes de teu arbítrio — se divisas, digo, um bem mais valioso, entrega-te a ele de todo coração
e desfruta essa ventura suprema que descobriste.
Se, porém, nada se te depara mais valioso do que aquele nume alojado em teu íntimo, que
reduziu à obediência os teus impulsos, que escruta as idéias, que, no dizer de Sócrates, se arran-
cou às paixões dos sentidos, que se subordinou aos deuses e cogita do bem da Humanidade; se
verificas que tudo mais, comparado com ele, é diminuto e desvalioso, não dês oportunidade a ne-
nhum outro guia que, por te atrair e desviar, impeça continues, sem lutas, a honrar com primazia
aquele bem particular, o teu.
De fato, não te é lícito, ao bem segundo a razão e os interesses do Estado, opor seja o que
for de natureza diversa, como o louvor da multidão, o poder, a riqueza, O gozo dos prazeres.
Todos esses objetivos, embora pareçam, por algum tempo, quadrar a tua natureza, costumam
assumir de repente o domínio e desencaminhar.
Tu, repito, escolhe franca e livremente o mais valioso e apega-te a ele.
— Mas o mais valioso é o que dá proveito.
— Se tiras proveito como ser racional, adota-o; se como ser animal, confessa-o e guarda
modestamente o teu juízo; apenas, cuidado para não te enganares no exame.
7. Jamais aprecies como proveitoso para ti o que algum dia te obrigue a trair a tua fé, a
renunciar ao teu pudor, a odiar, suspeitar, maldizer alguém, a fingir, a apetecer o que haja mister
de paredes e reposteiros.
Quem preferiu a sua própria inteligência, o seu nume e o culto da dignidade deste, não ence-
na dramas, não dá gemidos, prescindirá do isolamento e da multidão; o que é mais, viverá sem
perseguir nem fugir. Absolutamente não lhe importa seja maior ou menor o lapso de tempo em
que há de usufruir da alma que seu corpo reveste. Se houver de retirar-se já, partirá com o mesmo
desembaraço com que iria a qualquer das outras operações que se podem realizar com discrição
e decoro. Durante a vida toda não terá outra cautela senão a de preservar sua inteligência de toda
alteração imprópria do animal racional e social.
8. Na mente de quem se castigou e purificou;, nada se pode encontrar de purulento, nada de
sujo, nenhum mal velado por cicatriz. O destino não lhe interrompe a vida em meio, como se diria
de um ator que se retira sem terminar, sem representar até o fim o seu papel.
Além disso, nenhuma servilidade, nenhuma afetação, nenhum liame, nenhuma cisão, nem
contas por prestar, nem tocas de refúgio. |
9. Venera o poder de opinar. Dele depende inteiramente que não haja nunca em teu guia
uma opinião discrepante da natureza e da constituição do vivente racional. Ele assegura a ponde-
ração, as boas relações com os homens e a obediência aos deuses.
10. Recusa tudo mais e retém apenas esses poucos ditames; lembra, ainda, que cada um vive
apenas o presente momento infinitamente breve. O mais da vida,ou já se viveu ou está na
incerteza:
Exíguo, pois, êé o que cada um vive; exíguo, o cantinho de terra onde vive; exígua até a mais
longa memória na posteridade, essa mesma transmitida por uma sucessão de homúnculos morre-
diços, que nem a si próprios cônhecem, quanto menos a alguém falecido há muito.
11. Aos conselhos já ditos acrescente-se mais um: determinar e definir invariavelmente a
imagem percebida, para vê-la tal qual é na essência, nua e por inteiro distinta no seu todo, e dizer,
de si para consigo, o nome que a designa, bem como o das partes de que se compõe e em que se
dissolverá.
Nada concorre tanto para sentimentos elevados como a capacidade de inquirir, com método
e veracidade, cada um dos eventos da vida e sempre os olhar de modo que se considere a que
. .
267 MARCO AURÉLIO
mundo trazem proveito, qual o proveito e, dado o proveito, que valor tem, dum lado, em relação
ao conjunto e, de outro, em relação ao homem como cidadão da cidade suprema, da qual as de-
mais cidades são, por assim dizer, as casas; o que é, de que elementos se compõe, quanto tempo,
por sua natureza, deverá perdurar o efeito em mim produzido no momento por essa imagem e que
virtude exige de mim, se mansuetude, coragem, lealdade, lhanura, auto-suficiência, etc.
Daí cumpre dizer em cada caso: isto me vem de um deus; isso decorre das conjunturas, da
trama urdida pelos acontecimentos, de tal coincidência fortuita; aquilo procede de um ser de
minha espécie, de um parente meu, de um companheiro, que, todavia, ignora o que é conforme
com a sua natureza. Eu, porém, não ignoro e por isso o trato com benevolência e justiça, de acor-
do com a lei natural da comunhão; contudo, nos casos indiferentes, tenho em mira ao mesmo
tempo o seu mérito.
12. Se cumprires o dever do momento seguindo a reta razão com zelo, com vigor e de boa
vontade, sem intenções secundárias, conservando, porém, em permanente pureza o teu nume,
como se estivesses em vias de restituí-lo; se a isso ligares a observância do preceito de nada espe-
rar nem evitar, e sim contentar-te da presente atividade conforme com a natureza e da veracidade
dos tempos heróicos em tudo quanto disseres e falares, terás vivido feliz. E não há ninguém capaz
de impedi-lo.
13. Os médicos têm sempre à mão os instrumentos e ferros para os casos imprevistos; assim
tenhas tu prestes os preceitos com que possas conhecer as coisas divinas e as humanas e proceder
em tudo, mesmo nos atos mínimos, como quem não esquece os liames mútuos destas e daquelas;
nada realizarias bem na área humana sem uma relação simultânea com a área divina e vice-versa.
14. Não divagues mais. Com efeito, já não hás de reler as tuas notas, nem os feitos dos anti-
gos romanos e gregos, nem os excertos das obras que vinhas reservando para a velhice. Avia-te
para o fim; abandona as esperanças ocas e acode a ti mesmo, enquanto podes, se de ti mesmo
fazes algum caso.
15. Nem todas as acepções se conhecem por aí dos termos furtar, semear, comprar, repou-
sar, ver o que deve ser feito; isto não se faz com os olhos, mas com certa outra visão.
16. Corpo, alma, mente. Do corpo são as sensações; da alma, os instintos; da mente, os
princípios. e
Receber impressões na imaginação pertence também aos brutos; ser titereado pelos instintos
pertence também às feras, aos andróginos, aos Fálaris,? º aos Neros; o guiar-se pela mente no que
se afigura o dever pertence também aos que não crêem nos deuses, aos que renegam a pátria e aos
que praticam. . . quando fecham as portas.
Se, pois, tudo mais temos em comum com os seres sobreditos, ao bom resta a prerrogativa
de amar e de bem acolher os eventos urdidos na trama do destino; não envolver nem perturbar na
multidão de idéias o nume alojado dentro do peito, mas preservá-lo propício, na obediência disci-
plinada à divindade, sem proferir palavra contrária à verdade, sem praticar ato contrário à
justiça.
Mesmo se toda a Humanidade duvidar que ele viva com singeleza, modéstia e bons senti-
mentos, com ninguém se zangará, nem se desviará da estrada que leva ao termo da vida, aonde
cumpre chegar puro, sereno, solto, ajustado, sem constrangimento, ao seu destino.
Livro IV
1. Nosso amo interior, quando se conforma com a natureza, tem diante dos acontecimentos
um comportamento que lhe faculta sempre, na medida do possível, modificar sem esforço o que
se lhe oferece. Não tem predileção a matéria alguma cólocada fora de seu alcance; âquilo, porém,
que lhe achegam ele se lança com reservas e do que se introduz em substituição faz matéria para
si, tal como o fogo quando se apodera do que lhe cai em cima e apagaria uma pequena candeia.
O fogo vivo assimila rapidamente o que lhe deitam em cima, consome-o e daí mesmo tira com que
se erguer mais alto.
** Tirano de Agrigento, na Sicília, célebre pela crueldade.
; MEDITAÇÕES. 283
2. Nada executes ao acaso, nem de maneira diversa dos princípios que integram a arte.
3. À gente procura para si retiros nas casas de campo, na beira-mar, nas serras; tu também
costumas anelar vivamente por isolamentos desse gênero. Tudo isso, porém, é o que há de mais
estulto, quando podes retirar-te em ti mesmo à hora que o desejes.
A lugar nenhum se recolhe uma pessoa com mais tranquilidade e mais ócios do que na pró-
pria alma, sobretudo quando tem'no íntimo aqueles dons sobre os quais basta inclinar-se para
gozar, num instante, de completo conforto; por conforto não quero dizer senão completa ordem.
Proporciona a ti mesmo constantemente esse retiro e refaze-te; mas haja nele aquelas máxi-
mas breves e elementares que, apenas deparadas, bastarão para fechá-lo a todo sofrimento e
devolver-te livre de irritação contra o ambiente aonde regressas.
Com efeito, com o que te irritas? Com a maldade humana? Reaviva o juízo de que os viven-
tes racionais nasceram uns para Os outros; que a paciência é uma parte da justiça; que não pecam
por querer; que tantos já, após ódios ferrenhos, suspeitas, rancores, jazem transpassados pela
lança e reduzidos a cinza; e sossega, enfim.
Porém estás irritado também com os quinhões do todo que te couberam? Recorda a disjun-
tiva ou uma providência, ou os átomos e todas as provas de que o mundo é como uma cidade.
Porém ainda te afetarão os interesses do corpo? Considera que a inteligência não se imiscui
nas agitações, suaves ou violentas, do alento, uma vez que, recolhida, haja compreendido o seu
poder próprio; recorda, enfim, tudo quanto ouviste e admitiste sobre a dor e o prazer.
Porém a gloriola te fascinará? Volta a atenção para a rapidez com que tudo se esquece, para
a extensão do tempo infinito num sentido e no outro, para o vazio da repercussão, para a volubili-
dade e falta de critério dos aparentes aplausos e na estreiteza do espaço onde se circunscrevem.
A terra toda não passa de um ponto, e que diminuto cantinho dela é realmente a parte habi-
tada! E ali quantos são e quem são os que te hão de louvar?
Por fim, lembra-te de teu retiro para dentro dessa nesga de terra tua e, antes de tudo, nada
de tormentos e contensões; sê livre e encara as coisas como um varão, como, um ser humano,
como um cidadão, como um vivente mortal.
Entre as noções mais à mão, sobre as quais te enaras: estejam estas duas: primeira, que
as coisas não atingem a alma; param fora, quietas, e os embaraços vêm exclusivamente dos
pensamentos de dentro; segunda, que tudo quanto estás vendo se transformará dentro de instantes
e deixará de existr. Pensa constantemente em quantas transformações tu mesmo presenciaste.
O mundo é mudança; a vida, opinião.? *
4. Sea inteligência nos é comum, também é comum a razão, em virtude da qual somos
racionais; posto isso, a razão determinadora do que devemos ou não devemos fazer é comum;
posto isso, a lei também é comum; posto isso, somos cidadãos; posto isso, o mundo é como uma
cidade.
Com efeito, de que outro organismo político se dirá que todo o gênero humano participa?
Daí, dessa cidade comum, deriva nossa mesma inteligência, nossa razão, nossa lei. Senão, de
onde? Assim como de alguma terra foi tirado o que há de terreno em mim, de outro elemento o
líquido, de alguma fonte o alento e de alguma fonte especial o quente e o ígneo — pois nada pro-
cede do nada e tampouco para o nada se vai —., assim também de algum lugar veio a inteligência.
5. Tal qual o nascimento, a morte é um mistério da natureza; nos mesmos elementos de que
ele nos compõe, ela nos dissolve. Em suma, não é motivo de vergonha; não é incompatível com
a condição do ser inteligente, nem com o plano da estrutura.
6. Essas coisas tinham naturalmente de ser feitas assim por pessoas tais; não o querer é que-
rer que a figueira não tenha látice.
Em suma, lembra-te disto: dentro de brevíssimo tempo estareis mortos tu e ele, e logo mais
de vós não restará nem o nome. |
7. Suprime a opinião e estará suprimido o lesaram-me, suprime o lesaram-me e estará supri-
mido o dano.
28 O aforismo é de Demócrito. E
284 MARCO AURÉLIO
8. Aquilo que não piora o homem mesmo tampouco lhe piora a vida nem lhe causa dano,
quer de fora, quer de dentro.
9. A necessidade obrigou a natureza do útil a produzir esse efeito.
10. Todo acontecimento tem sua razão de ser; descobri-lo-ás se o observares acuradamente;
não digo apenas que assim é por via de consegiiência, mas também segundo a justiça e como se
alguém atribuísse os quinhões considerando os méritos.
Vai, pois, observando, como principiaste, e em tudo quanto fizeres seja o teu propósito seres
bom na acepção da palavra. Guarda essa intenção em todos os teus atos.
11. Não sejam tuas opiniões aquelas que o insolente adota ou quer que tu adotes, mas veri-
fica se, em si mesmas, se conformam com a verdade.
12. Deves sempre estar pronto para estas duas decisões: primeira, praticar só e precisamente
aquilo que a razão do trono e da lei i inspira para o bem da Humanidade; | segunda, mudar de orien-
tação, se alguém houver que te corrija e dissuada. E
Cumpre, porém, se origine sempre a dissuasão nalguma verossimilhança de justiça e de bem
comum; as motivações devem ser somente dessa natureza e não o agrado ou a glória aparentes.
13. És dotado de razão? — neu, — Então, por que dela não usas? Se ela desempenha o seu
papel, que mais queres?
14. É como parte que existes; desaparecerás no elemento que te gerou; ou melhor, serás reto-
mado na sua razão seminal por via de transformação.
15. Muitos grãos de incenso caem no mesmo altar: uns antes. outros depois. mas isso não
faz nenhuma diferença.
16. A esses que hoje vêem em ti uma fera e um símio, dentro de dez dias parecerás um deus,
se tornares atrás, aos princípios e ao culto da razão.
17. Não procedas como se houvesses de durar dez milênios; o fim inevitável pende sobre ti;
enquanto vives, enquanto podes, torna-te um bom.
18. Quantos lazeres ganha quem não olha o que o próximo disse, fez ou pensou, mas apenas
o que ele próprio está fazendo, para que sua obra mesma seja justa, santa e integralmente boã.-
Não fiques em guarda contra a malvadeza; corre para a baliza em linha reta, sem
ziguezagues.
19. Quem se deixa fascinar pela glória póstuma não imagina que cada um dos que o hão de
lembrar morrerá logo por sua vez, e depois também quem dele receber a lembrança, até se extin-
guir toda recordação na sucessão de fachos que se acendem e apagam?
Suponhamos, porém, imortais os que hajam de recordar e imortal a memória. Que te adianta
isso? Já não digo que não te adianta na morte; mas, em vida, de que te serve o louvor? Salvo, é
claro, nos propósitos da governança.
2 Esquece por ora, como intempestivo, o dom da natureza, ligado a outro aspecto.
20. Ademais, toda e qualquer beleza é bela por si mesma e a si rnesma se completa, sem
compreender o louvor como parte; o que louvamos não piora nem melhora com isso.
O mesmo digo também das coisas chamadas vulgarmente belas; por exemplo, os objetos
materiais e as produções da arte.
O ente deveras belo carece de alguma coisa? Não mais que a lei, não mais que a verdade,
não mais que a benevolência ou o pudor. Desses exemplos, qual o louvor embeleza ou a censura
enfeia? Desmerece a esmeralda se lhe faltam os gabos? E o ouro? E o marfim? A púrpura? Uma
lira? Uma espada? Uma florinha? Uma planta?
21. Se as almas sobrevivem, como pode comportâ-las o ar desde a eternidade? E a terra não
comporta todos os corpos sepultados desde séculos tão longos? Como aqui a transformação e
MEDITAÇÕES 285.
dissolução de uns após.alguma duração abrem lugar para outros cadáveres. assim as almas trans-
feridas para o ar, depois de subsistirem algum tempo, se transformam, se derramam, ardem absor-
vidas pela razão seminal do universo e dessa maneira deixam lugar às que emigram depois.
Essa a resposta na hipótese da sobrevivência das almas. Não basta considerar apenas a mul-
tidão dos corpos assim enterrados; cumpre ainda considerar a daqueles de que diariamente nos
alimentamos nós e os outros viventes. De fato, que número enorme é assim consuimido e, de certo
modo, sepultado nos corpos que deles se alimentam! Sem embargo, o espaço os comporta devido
à conversão em sangue, à transformação em substância aérea ou ígnea.
Qual o meio de investigar aí a verdade? A distinção entre a causa materiale a formal.
22. Não te atordoes; a cada impulso, pratica a justiça; a cada idéia, resguarda o intelecto.
23. Adapto-me a tudo que contigo se harmoniza, é mundo; nada para mim é prematuro ou
tardio, se para ti é tempestivo. É fruto para mim tudo quanto produzem as tuas estações, ó nature-
za; tudo vem de ti, tudo estã em ti, tudo volta para ti. Lá dizia aquele: “Ó amada cidade de
Cécrops! 227 E tu não dirás: “O amada cidade de Zeus 2
24. “Ocupa-te de pouco”, diz ele, “para viveres satisfeito.”?º Não será melhor, afinal, ocu-
par-se do necessário e de tudo que a razão do vivente sociável por natureza decide e como o deci-
de? Isso traz não só a satisfação do dever cumprido mas também a de ocupar-se de pouco.
Se eliminarmos a maior parte de nossas palavras e ações, não farão falta, e nos sobrarão
mais lazeres e sossego. Deves, por isso, de cada vez, lembrar a ti mesmo: Não será isto uma das
- Coisas dispensáveis?
Aliás, devemos eliminar não só os atos mas tâmbém os pensamentos desnecessários, pois
assim tampouco os seguirão os atos que acarretam.
25. Experimenta igualmente como te vai a vida de homem bom que, comprazendo-se com o
seu quinhão no conjunto, contenta-se com ser justo nas ações e benévolo nos sentimentos.
26. Viste aquilo? Vê também isto. Não te compliques; faze-te simples.
Alguém está pecando? Contra si mesmo peca. Aconteceu-te alguma coisa? Ótimo! Tudo
que te acontece estava, desde o início, determinado e urdido para ti no conjunto.
Em suma, a vida é breve; é mister desfrutar o presente com prudência e justiça. Sê sóbrio
foigando.
21. Ou um mundo organizado, ou uma papa, um amontoado sem ordem. É possível, acaso,
subsista alguma ordem em ti, mas desordem no universo, e isso quando tudo se acha tão combina-
do, tão fundido, tão solidário?
28. Caráter negro, caráter mulheril, caráter árido, feroz, bestial, infantil, indolente, desleal,
de histrião, de mercador, de tirano.
29. Se é forasteiro no mundo quem não reconhece o que nele existe, não menos forasteiro
quem não reconhece o que nele sucede.
É um desterrado quem foge à razão social; cego, quem baixa as pálpebras sobre os olhos da
inteligência; mendigo, quem precisa de outrem e não tem em si mesmo o que é útil à vida. Um
apostema do mundo, quem se retira e aparta da razão da natureza comum por não se conformar
com os acontecimentos; porque a natureza que os traz é a mesma que te trouxe. É membro ampu-
tado da cidade quem corta sua própria alma daquela dos racionais, que é uma só.
30. Um vive como filósofo sem túnica; outro, sem livros; esse outro , seminu. “Não tenho
pão”, diz ele, “mas sou fiel à razão.” Já eu não tenho o sustento das ciências e sou fiel.
31. Estima o pouco de ciência que aprendeste e descansa. Passa o resto da vida como quem
confiou aos deuses, de todo coração, tudo que é seu e não fez de nenhum homem seu tirano nem
seu escravo.
.
27 Rei lendário, fundador de Atenas. A citação não foi identificada; parece pertencer a uma peça de teatro.
2º Veja nota 26.
286 |MARCO AURÉLIO :
32. Pensa, por exemplo, no tempo de Vespasiano; verás tudo isto: pessoas casando, criando
filhos, adoecendo, morrendo, guerreando, festejando, comerciando, rusticando, adulando, presu-
mindo-se, suspeitando, maquinando, rogando a morte a diversos, queixando-se da situação,
amando, 'amealhando, ambicionando o Consulado, o Império. Pois bem, o mundo vivo daquele
tempo já não existe.
Passa, agora, ao tempo de Trajano; de novo o mesmo espetáculo; esse mundo também mor-
reu. Examina igualmente as denominações de outras épocas e de povos inteiros e vê quantos, após
esforços ingentes, tombaram em breve e se dissolveram em seus elementos. Deves, sobretudo,
rever aqueles que conheceste pessoalmente a esfalfar-se em vão, esquecidos das operações pró-
prias de sua constituição, de apegar-se a elas firmemente e com elas contentar-se.
É necessário que dessa forma te lembres de que a solicitude empregada em cada ação tem o
seu mérito próprio e sua justa medida; pois assim não descoroçoarás, salvo se te ocupares de
nugas mais tempo do que convém.
33. As expressões correntes outrora são hoje arcaísmos; assim também os nomes dos ho-
mens muito celebrados outrora estão hoje, de certo modo, arcaizados: Camilo, Cesão, Vóleso,
Leonato;?º dentro em pouco, também Cipião e Catão; depois, Augusto; depois, Adriano e Anto-
nino. Tudo é passageiro, logo se toma lendário, logo o olvido completo o sepulta. Isso digo
daqueles que luziram de maneira admirável, porque os demais, apenas morrem, somem, são
desconhecidos.
Que é, afinal, a memória eterna? Um vazio apenas. Que é, então, o que merece o nosso devo-
tamento? Somente um alvo: mente justa, atuação no bem comum, palavra que jamais engane,
disposição a saudar todo evento como coisa necessária, conhecida, emanada do mesmo princípio
e da mesma fonte.
34. Entrega-te de bom grado às mãos de Cloto;*º deixa-a tecer o teu destino com os fatos
que houver por bem.
35. Tudo é efêmero, tanto o que memora quanto o memorado.
36. Considera constantemente que tudo procede de transformação; habitua-te a pensar em
que a natureza do universo nada aprecia tanto como transformar o que há, para criar novos seres
semelhantes.
Todo ser é de certa forma a semente do que dele há de vir a ser. Tu, porém, fantasias que
semente é só a que se lança na terra ou numa matriz; é o cúmulo da ingenuidade!
37. Logo estarás morto e ainda não ês simples, nem tranqúilo, nem seguro de não receber
dano de fora, nem bondoso para com todos, nem pões a sabedoria apenas na prática da justiça.
38. Investiga os princípios que os guiam, ao que fogem os sábios, o que buscam.
39. Do guia de outrem não procede mal teu; tampouco de qualquer mudança e alteração do
meio ambiente. De onde, então? Daquela parte de ti que opina sobre à mal. Que ela, pois, não
opine e tudo irá bem.
Mesmo que o corpo, seu mais próximo vizinho, seja retalhado, queimado, ou supure, putrifi-
que, ainda assim permaneça tranquila a parte que sobre tais fatos opina; isto é, não julgue um mal
nem um bem o que tanto pode ocorrer ao mau como ao bom.
Com efeito, o que tanto acontece a quem vive em desacordo com a natureza quanto a quem
vive de acordo com ela não é nem conforme nem contrário à natureza.
40. Pensa continuamente no mundo como vivente único, com uma só substância e uma só
alma, e em como tudo reverte a uma percepção única, a dele; como tudo ele faz sob um impulso
único; como tudo ê concausa de todo acontecimento e como é feita a urdidura e a meada.
2º Heróis dos mais remotos tempos da história de Roma; o nome Leonato deve ser corruptela; provavel-
mente se trata de Dentato. .
*º Cloto, Láquesis e Átropo eram as três Parcas, divindades que presidiam ao destino de cada um; Cloto
fiava, Láguesis tecia e Átropo cortava, por fim, o fio da vida.
MEDITAÇÕES 287
E : : dir :
41. “Es uma almazinha carregando um cadáver”, dizia Epicteto.*!
42. Quem se está transformando nenhum mal está jpadecendo, bem como nenhum bem des-
fruta em resultar duma transformação.
t
43. O tempo é um rio formado pelos eventos, uma torrente impetuosa. Mal se avista uma
coisa, já foi arrebatada e outra se lhe segue, que será carregada por sua vez.
44. Tudo que acontece é tão corriqueiro e conhecido como a rosa na primavera e as frutas
no verão; assim a doença, a morte, a calúnia, a insídia e tudo mais que alegra ou aflige os estultos.
45. Há sempre afinidade entre o que sucede e o que precede; não é como uma série de núme-
ros separados, que têm apenas 6 cunho da necessidade, mas uma contextura lógica; assim como
os seres estão dispostos numa ordem harmônica, os acontecimentos evidenciam não uma suces-
são pura e simples, mas certa afinidade admirável.
46. Lembra sempre o ensinamento de Heráclito:?? a morte da terra é mudar-se em água; a
morte da água é mudar-se em ar; a do ar, mudar-se em fogo, e vice-versa.
Lembra-te também daquele que esquece aonde o leva o caminho; recorda a passagem: “Di-
vergem daquilo com que mais continuamente convivem, a razão que governa o universo; os fatos
que deparam dia após dia parecem-lhes estranhos”; que “não devemos agir e falar como em
sonho” — que também então supomos agir e falar — “nem como os filhos. . .,** isto é, simples-
mente, da maneira hereditária”.
47. Se um deus te dissesse que morrerás amanhã ou quando muito depois de amanhã, já não
estimarias mais fosse depois de amanhã do que amanha, salvo se fosses o último dos covardes;
pois que diferença faz? Do mesmo modo, não consideres grande vantagem morrer daqui a tantos
anos em vez de amanhã.
48. Pensa constantemente em quantos médicos morreram, depois de tantas vezes carrega-
rem os sobrolhos à cabeceira dos enfermos;quantos astrólogos, depois de predizerem a morte de
outros como se obrassem maravilha; quantos filósofos, após manterem acirradas disputas inúme-
ras sobre a morte ou a imortalidade; quantos potentados, após mandarem executar a tantos;
quantos tiranos, depois de abusarem com tremenda arrogância, como se fossem imortais, do
poder de vida e a morte; quantas cidades inteiras, por assim dizer, morreram: Hélice,? * Pom-
péia, Herculano? º e outras inúmeras.
Repassa, também, um por um, todos os teus conhecidos. Quem fez as exéquias deste, mais
tarde o deitaram num esquife; assim com quem fez as dele. Tudo isso num breve lapso de tempo.
Em suma, considera sempre as coisas humanas como efêmeras, desvaliosas; ontem, um pouco de
muco, amanhã, múmia ou cinzas.
Este átimo de tempo, vive-o segundo a natureza e acaba sem revolta, como cairia a azeitona
madura abençoando a terra que a produziu e agradecendo à árvore que a gerou.
49. Ser como o promontório onde se quebram incessantemente as ondas; ele queda-se ereto
e os estos da maré vêm morrer em seu redor.
“Infeliz de mim, que tal me aconteceu !”” Nada disso e sim: “Feliz de mim, porque, tendo-me
isso acontecido, continuo a salvo do sofrimento, sem que me fira o presente nem me atemorize o
futuro”. O mesmo podia suceder a qualquer, mas nem todos o suportariam sem sofrimento.
Então, por que será isto uma desgraça mais do que aquilo uma felicidade? Chamas, em
suma, infortúnio humano o que não é um malogro da natureza humana? Consideras malogro da
natureza do homem aquilo que não contraria os desígnios da sua natureza? Mas como? Apren-
deste quais os desígnios; esse acontecimento te impede acaso de ser justo, magnânimo, tempe-
rante, prudente, ponderado, leal, discreto, livre, etc. ; Virtudes de cuja reunião colhe a natureza hu-
mana o que é seu?
31 Vejanota 7. — ?2 Veja nota 23. — 3? Texto corrômpido. — ** Cidade grega tragada pelo mar.
35 Cidades sepultadas pelas cinzas do Vesúvio no ano 79 de nossa era.
288 MARCO AURÉLIO
Não te esqueças daqui por diante de recorrer a este princípio em todos os fatos que acarre-
tem sofrimento: isto não é uma desgraça, mas suportá-lo nobremente é uma felicidade.
50. Recurso vulgar, porém eficaz, para o menosprezo da morte é passar em revista os que se
demoraram aferrados à vida. Que vantagem tiveram'sobre quem morreu prematuramente? Afinal,
nalgum lugar jazem Cadiciano, Fábio, Juliano, Lépido 38 e pessoas como eles, que, após enterra-
rem muitos outros, foram por sua vez enterrados.
Em suma, a distância é mínima e se vence através de quais percalços, com quais compa-
nheiros e com que corpo! Portanto, não dês importância a isso. Olha o abismo de tempo atrás de
tieo outro infinito à frente. Nessa ordem de coisas, qual a diferença entre o ser que vive três dias
e o que vive três vezes a idade de Nestor? * ?
51. Corre sempre ao caminho curto; o caminho curto é o da natureza; assim procederás em
todos os atos e ditos da maneira mais sadia. Tal norma de vida livra-te de penas, de campanhas,
do peso da administração e dos requintes.
LIVRO V
1. Quando te custa levantar de manhã, tem presente este pensamento: desperto para um tra-
balho de homem. Enfada-me ainda sair para o mister para o qual fui posto no mundo? Ou fui
constituído para me aquecer deitado sob as cobertas?
— Mas é mais agradável!
— Então, nasceste para o deleite? Em suma, não foi para o sofrimento ou para a ação? Não
vês as plantas, as avezinhas, as formigas, as aranhas, as abelhas, entregues a suas tarefas, colabó-
rando, com a sua parte, na boa ordem do mundo? Então, não queres tu desempenhar a parte de
homem? Não acorres à atividade conforme com a tua natureza?
— Mas o descanso também é necessário.
— É, concordo; todavia, a natureza pôs também a ele um limite, como ao comer e beber;
apesar disso, não estás indo além dos limites, além do suficiente? Quando se trata de agir, já não
é assim; ficas aquém do possível. Por não amares a ti mesmo; do contrário, amarias a tua natu-
reza e seus desígnios. Outros, que amam o seu mister, esfalfam-se nas obras que lhes concernem,
passando sem banho, passando sem comer; tu estimas a tua natureza menos que o gravador a
torêutica, o bailarino a dança, o avaro o dinheiro, ou o presunçoso a gloríola? Esses, quando os
enleva a paixão, a comer e a dormir preferem acrescer o alvo de seu devotamento; tu, porém,
achas mais desprezível ou merecedor de menor dedicação o trabalho do bem público?
2. Quão fácil é arredar de si e apagar toda idéia inoportuna ou estranha, e logo experimentar
uma calma absoluta!
3. Considera-te digno de toda palavra e ação conformes com a natureza. Não te distraiam
a censura ou os comentários por elas suscitados; se agiste e falaste com acerto, não te consideres
indigno. Aquelas pessoas têm seu próprio guia e seguem impulsos seus; não te preocupes com
elas, mas prossegue, acompanhando a tua natureza e a universal; o caminho de uma e outra é um
só.
4. You seguindo os roteiros da natureza até cair e descansar, devolvendo meu alento a este
ar donde o aspiro dia após dia, tombando sobre esta terra donde recolheu meu pai a semente,
minha mãe o sangue e minha ama o leite, e que, dia após dia, por tantos anos, me alimenta e abe-
bera, e sofre que a pise e dela retire tantos benefícios para mim.
5. Não há por que te admirarem a finura? Seja; mas há muitos outros predicados sobre os
quais não podes dizer: “Não é de meu feitio”. Procura, pois, mostrar os que dependem inteira-.
*º Lépido, que formara com Otávio e Antônio o triunvirato. Morreu em idade avançada. Fábio, Cadiciano
e Juliano não foram identificados.
27 Herói da Ilíada, de Homero. O-mais velho e prudente dos guerreiros aqueus; viveu por três gerações.
MEDITAÇÕES 289
mente de ti: sinceridade, circunspecção, laboriosidade, temperança, resignação, simplicidade,
benevolência, liberdade, comedimento, seriedade, magnanimidade.
Não percebes quantos predicados podes desde logo 'adquirir, para os quais não tens nenhuma
desculpa de inaptidão natural, e insuficiência, entretanto ficas voluntariamente aquém?
Porventura'a razão de murmurares, de mesquinhares, de bajulares, de criminares o teu
corpo, de lisonjeares, de futilizares, de tanto te agitares na alma, é uma inaptidão natural de tua
constituição?
Não, pelos deuses! Ao contrário, há muito te podias ter libertado desses defeitos e apenas,
se tanto, ser acusado de um pouco lento de espírito e distraído. E nisso deves exercitar-te, em vez
de tolerar essa preguiça mental ou comprazer-te nela.
6. Fulano, quando presta um benefício a alguém, dispõe-se a cobrar-lhe a gratidão. Sicrano
não se dispõe a fazê-lo, mas lá consigo o imagina um seu devedor, e sabe o que fez. Beltrano, de
certo modo, nem sabe o que fez; é semelhante à videira, que deu uva e, uma vez produzido o fruto
que lhe compete, nada mais indaga; como o cavalo que correu, o cão que rasteou, a abelha que
melificou.
Um homem, depois de praticar uma boa ação, não a puxa para si, mas volta-se para outra,
como a videira se volta para de novo dar uva na estação.
-— Devemos, então, colocar-nos entre os que, de certo modo, fazem o bem sem o notar?
— Sim.
— Mas a isso mesmo é que é mister prestar atenção; por ser próprio do ser social, diz ele,
sentir que sua atividade é social e, por Zeus !, querer que o sinta a sociedade.
— É verdade o que dizes, mas interpretaste mal o que estamos dizendo; serás por isso um
daqueles atrás referidos, igualmente transviados por uma aparência de razão. Se queres, porém,
compreender o sentido daquelas palavras, não tenhas o receio de, com isso, negligenciar alguma
tarefa de interesse da comunidade.
: ,s à
7. Prece dos atenienses: “Chove, chove, ô amado Zeus, sobre as aradas dos atenienses e nas
planícies”. Ou não devemos orar, ou devemos orar assim, ingênua e livremente.
8. Tal como se diz: Asclépio** prescreveu a fulano a equitação, ou banhos frios, ou andar
descalço, assim se diz: À natureza prescreveu a sicrano uma doença, um aleijão, uma perda ou
infortúnio semelhante.
Naquele caso, prescreveu significa mais ou menos isto: ordenou isto.a fulano como ade-
quado ao seu estado de saúde; neste, o que acontece a cada um lhe foi, de certo modo, ordenado
como adequado ao seu destino.
Assim é que dizemos que um fato calhou, como das pedras de cantaria dizem os pedreiros
que calharam bem nos muros e nas pirâmides, quando se ajustam entre si em tal ou qual
colocação.
Em suma, há uma só harmonia e como o mundo se inteira de todos os corpos num tão gran-
de corpo, assim também o destino se inteira de todas as causas numa tão grande causa.
Mesmo os completamente ignaros entendem isto que assevero, pois dizem: Estava-lhe desti-
nado. Logo, isto estava destinado a este e isto estava prescrito aquele.
Aceitemos, portanto, os fatos como os tratamentos que Asclépio prescrevia; nestes há, sem
dúvida, muito de desagradável, mas acatamo-los pela esperança da cura.
Considera algo como a tua saúde o acabamento e perfeição dos decretos da natureza comum
e saúda como tal todo acontecimento, ainda quando pareça um tanto árduo, porque conduz à
saúde do mundo, ao bom' andamento e bom êxito de Zeus. Ele não teria trazido a tal pessoa tal
sucesso, se não conviesse ao todo; nem traz qualquer natureza nada que não seja correspondente
ao ser por ela regido.
Portanto, deves conformar-te com o que te acontece, por duas razões: primeira, porque foi
feito para ti, prescrito para ti e, de certo modo, se relacionava contigo desde o alto, na urdidura
das causas mais veneráveis; segunda, porque o que acontece a cada um em particular assegura a
quem rege o conjunto o bom andamento, a perfeição e, por Zeus!, a própria coexistência.
Com efeito, é mutilar o todo amputar- -lhe seja o que for do complexo e coesão tanto das cau-
sas como das partes e, quando não te conformas, tu, no que de ti depende, estás amputando e, de
certo modo, destruindo.
38 Asclépio ou Esculápio, deus da Medicina. E
290 MARCG AURÉLIO
r
9. Não te aborreças, nem desanimes, nem desistas, se, em tuas ações, nem sempre consegues
seguir Os princípios corretos; após cada malogro, recomeça e rejubila-te se as mais das vezes te
sais como convém ao homem; tem afeição aquilo a que tomas; não voltes à Filosofia como quem
torna ao mestre-escola, mas como os oftálmicos voltam à esponja e ao ovo, como outros doentes
ao cataplasma, à compressa. Assim não farás ostentação da obediência à razão, mas nela
repousarás.
Lembra-te de que a Filosofia quer apenas os dons que a tua natureza quer, ao passo que tu
quiseras outra coisa não concorde com a natureza. Que há, com efeito, mais atraente que eles?
Não é com seus atrativos que o prazer ilude? Bem, examina se não são mais atraentes a grandeza
de alma, a liberdade, a lhanura, a nobreza de sentimentos, a piedade. Que há mais fascinante que
a própria sabedoria, quando refletimos nos passos em tudo firmes e prósperos da faculdade de
observar e conhecer?
10. As coisas se acham de certo modo veladas, de sorte que a filósofos, não poucos nem
quaisquer, pareceram absolutamente ininteligíveis; menos aos estóicos, e estes mesmos julgam-
nas ao menos dificeis de apreender. E toda adesão nossa às percepções sói mudar. Onde, com efei-
to, o homem imutável? Passemos aos objetos perceptíveis em si; quão passageiros, triviais e aces-
síveis ao invertido, à meretriz, ao salteador ! Passemos em seguida ao caráter das pessoas de teu
convívio; mesmo a mais simpática te custa suportar, para não dizer que a ela mesma custa
agúentar-se.
Em semelhante escuridão e imundície, em tal fluxo da substância, do tempo, do movimento
e dos seres movidos, não concebo o que possamos distinguir com estima ou, em suma, o que valha
um esforço. Ao invés, temos de exortar-nos a nós mesmos e aguardar a dissolução natural, sem
lastimar a demora, mas repousando apenas nestes pensamentos: primeiro, nada me sucederá que
não esteja de acordo com a natureza universal; segundo, é-me dado nada fazer em desacordo com
a minha divindade e o meu nume. Porque ninguém me forçará a transgredir seus ditames.
U
11. Em que ando empregando agora as faculdades de minha almia? Perguntar isso a mim
mesmo a todo instante e indagar: o que tenho agora naquela parte de meu ser a que chamam
guia? De que tenho agora a alma? Duma criança? Dum adolescente? Duma mulherzinha? Dum
tirano? Duma rês? Duma fera?
12. O que vem a ser o que a maioria considera como bem pode-se verificar deste modo:
quem reputasse verdadeiros bens certos dons reais, como a sensatez, a Enperemça: a justiça, a
coragem, não mais poderia, concebida essa idéia, compreender aquels verso: 39 Por causa dos
bens.:. ., que será um contra-senso; mas, concebida a idéia de bens como os entende a maioria,
“compreendê- lo-ã bem e admirará facilmente a justeza da expressão do poeta cômico. Tão bem
imagina a maioria a diferença.
Com efeito, o verso não pareceria estranho e impróprio; ao contrário, aplicado à riqueza e
às venturas do luxo e da gloríola, admitimos a propriedade e finura da passagem. Prossegue, pois;
e indaga se devemos estimar e supor sejam bens coisas tais que, assim consideradas, conclui-
riamos naturalmente que o possuidor, devido à abundância, não sabe onde aliviar-se.
13. Consisto em causa formal e material; das duas, nenhuma se desfará no não-ser, assim
como não proveio do não-ser. Logo,-cada parte de meu ser irá localizar-se, por via de transforma-
ção, numa parte do universo; esta, por sua vez, se mudará numa outra parte do universo e assim
infinitamente. Por via de semelhante transformação surgi eu, bem como meus genitores; poder-
seia remontar a outro infinito, pois nada impede se afirme isso, o que seja regido o universo
por períodos delimitados.
14. A razão e a lógica são forças que bastam a si mesmas e às operações de seu âmbito. Par-
tem, efetivamente, de um ponto inicial próprio; caminham ao fim predeterminado; por esse moti-
vo se chama retidão aquele procedimento, significando a direitura do seu caminho.
15. Não deve o homem observar nenhuma das coisas que não competem ao homem como
homem. Não são das que se requeiram dum homem, nem as promete a naturéza humana, nem são
*º De Menandro, ateniense (340 a 292 a.C.), o maior dos-autores da chamada Comédia Nova, muito imita-
do pelos latinos. A Comédia Nova punha em cena tipos humanos, costumes, paixões; estudava os homens,
não satirizava pessoas. “o |
MEDITAÇÕES 291
perfeições da natureza humana. Portanto, tampouco reside nela a finalidade do homem, nem aqui-
lo que preenche a sua finalidade, o bem.
Ademais, se alguma delas competisse ao homem, não lhe competiria menosprezá-la ou con-
tra ela insurgir-se; tampouco mereceria louvores quem lograsse delas prescindir; não seria um
homem bom quem tendesse a diminuir o seu quinhão nalguma, caso fossem bens. Na verdade,
porém, quanto mais uma pessoa delas se despoja, ou de outras da mesma espécie, ou, ainda, quan-
to mais suporta ser despojada de alguma delas, tanto melhor homem é.
16. Quais sejam tuas idéias mais frequentes, tal será a tua inteligência, pois a alma se embebe
das idéias. Embebe-a, pois, com o hábito de idéias tais como estas: onde se pode viver, pode-se
viver bem; pode-se viver na corte; logo, pode-se viver bem na corte.
E ainda: cada ser é levado ao fim para o qual e em vista do qual foi constituído; para onde
é levado, aí está sua finalidade; onde está sua finalidade, ali está sua conveniência e seu bem, e o
bem do ser racional é a sociedade. |
Que fomos feitos para a sociedade está há muito demonstrado; não é acaso evidente que os
- seres inferiores existem em vista dos superiores e estes em vista uns dos outros? Ora, os seres ani-
mados são superiores aos inanimados € os racionais aos animados.
17. Desejar o impossível é loucura; impossível é absterem-se os maus de praticar ações más.
18. Nada acontece a ninguém que sua natureza não suporte. Acontecem as mesmas coisas a
outrem e, seja por ignorar que elas acontecem, seja por ostentação de altivez, mantêm-se firme e
permanece ileso. É estranho possam mais a ignorância e a presunção do que a sabedoria.
19. As coisas mesmas absolutamente não atingem a alma, não têm por onde chegar à alma,
não podem fazê-la mudar, nem mesmo mover. Só ela mesma a si faz mudar e mover; quais sejam
os juízos de que acredita ser digna, tais conforma, para si mesma, as contingências.
!
20. Por outra razão é o homem o que mais de perto nos toca: à medida que devemos fazer-
lhe o bem e suportá-lo; mas na medida em que alguns estorvam os trabalhos que me competem,
o homem se torna para mim tão indiferente como o sol, o vento, os brutos. Estes podem impedir
alguma atividade minha, mas não há o que impeça meus impulsos e minhas disposições, graças
à minha retração e à reversão. A inteligência, com efeito, reverte todo empecilho à sua atividade,
transmuda-o em algo que lhe abra o caminho, e o que empeça a ação passa a favorecê-la, o que
barrava o caminho, a facultá-lo.
21. Respeita o que há de mais poderoso no universo; é a força que de tudo se serve e tudo
regula. Respeita igualmente o que de mais poderoso há em ti;:é congênere daquela. Porque depen-
des do poder que dos outros seres se serve e tua vida é regida por ele.
22. O que não é daninho à cidade tampouco lesa o cidadão. Toda vez que tiveres a impressão
de seres lesado, aplica esta regra: se à cidade isso não causa dano, tampouco sofri eu.
— Mas se a cidade é lesada, não devo irar-me contra quem a está lesando?
— O que estás esquecendo?
23. Reflete amiúde com que rapidez os seres e os fatos passam e se esvaecem. A substância
é como um rio num fluxo perene; as forças estão em transformações contínuas, as causas em
mudanças incontáveis; quase nada é estável; aí perto está o infinito abismo do passado e o do:
futuro, onde tudo desaparece.
Não é louco, pois, quem, em meio a isso, se infla ou se arrepela, ou se lastima como se algo
o estivesse incomodando por algum tempo, ou mesmo por longo tempo?
24. Recorda a substância toda, da qual és mínima parte, e o tempo todo, do qual te foi asse-
lado um lapso breve, infinitamente pequeno; e do destino, do qual és parte. . . de que tamanho?
25. Alguém comete falta contra mim? Isso é lá com ele; ele tem o seu gênio, a sua atividade.
Eu tenho agora o que a natureza comum quer que eu tenha agora, e faço o que a minha natureza
quer que eu faça agora.
26. Permaneça a parte de tua alma que guia e senhoreia inabalável às comoções, brandas ou
2902 4, MARCO AURÉLIO
violentas, que há na carne, & não se envolva; ao contrário, circunscreva a si mesma e limite essas
afecções aos membros. Quando, pela solidariedade recíproca; elas se comunicam à inteligência,
“como num corpo unido, então não se há de tentar obstar a sensação, que é da natureza; não acres-
cente, porém, o guia, por sua iniciativa, a opinião de que seja um bem cu um mal.
4
27. Conviver com os deuses! Convive com os deuses quem lhes mostra constantemente a
alma satisfeita com o seu quinhão, praticando tudo quanto quer o nume dado a cada um como
protetor e guia por Zeus, fragmento dele mesmo. Este nume é a mente € razão de cada um.
28. Tu te irritas com quem tresanda bodum? Tu te irritas com quem tem mau hálito? Que
queres que ele faça? Sua boca é assim; suas axilas são assim; tais partes hão de ter por força tais
exalações. :
— Mas, dirão, o homem é dotado de razão e, refletindo, pode dar-se conta- de seu
desmazelo.
— Bravo! Por conseguinte, tu também és dotado de razão; suscita com a tua faculdade
racional a sua faculdade racional, demonstra-lhe, lembra-lhe. Se te der ouvido, curá-lo-ás e será
escusada a irritação.
Nem ator trágico, nem meretriz.
29. Como pensas viver depois que te vás, assim podes viver aqui mesmo. Se não to consen-
tem, deixa a vida, certo, porém, de nada estares padecendo. Fumaça; vou-me embora. Por que
veres nisso um problema? Enquanto nenhuma razão semelhante me induz a sair, permaneço livre-
mente e ninguém me impedirá de fazer o que desejo. E meus desejos quadram à minha natureza
de vivente racional e social.
30. A mente do universo é social. Ela criou os seres inferiores em vista dos superiores e ajus-
tou estes entre si. Vês como subordinou, como coordenou, como atribuiu quinhões a cada qual
segundo o seu valor e conciliou os seres superiores em mútua concordância?
31. Como tens procedido até aqui com os deuses, os pais, os irmãos, a esposa, os filhos, os
mestres, os aios, os amigos, os familiares, os fâmulos? Tens seguido até o presente, para com
todos, o preceito de a ninguém fazer nem dizer nada de maldoso? *º
' Recorda os transes que passaste; as provações que lograste suportar, que teu conhecimento
da vida é já profundo, que tua missão está cumprida, quantos bons exemplos deste, quantos praze-
res e mágoas desprezaste, quantas ocasiões de glória desdenhaste, a quantos mal-agradecidos tra-
taste com benevolência.
32. Por que almas incapazes e ignorantes confundem uma pessoa capaz e sábia? Que alma
é capaz e sábia? A que conhece o princípio e o fim, a razão que se difunde por toda a substância
e rege o universo, atravês de todo o tempo, segundo períodos ordenados.
33. Pouco falta para seres cinza, ou esqueleto, talvez um nome, ou sequer um nome; e o
nome, um som vago, um eco. |
O que tanto se estima na vida: vazios, podridões, ninharias, cães que se mordem, crianças
briguentas, que riem e logo estão chorando. A lealdade, o pudor, a justiça, a verdade, emigrados
desta terra de largos caminhos para o Olimpo. *?
- Que há que ainda te retenha por aqui, se as coisas sensíveis são mudáveis, inconstantes, os
sentidos embotados, sujeitos a falsas impressões, a alma mesma uma evaporação do sangue, e a
boa reputação entre tal gente um vácuo? E daí? Aguardarás de bom grado quer a extinção, quer
a transmutação. Até que venha a ocasião dela, que nos basta? Que mais, senão venerar e louvar
os deuses, fazer bem aos homens, suportá-los, não os tocar?
Tudo que há para dentro dos limites da carne e do espírito, lembra-te, nem te pertence nem
depende de ti.
34. Podes ter sempre um curso de vida próspero, já que podes seguir um bom caminho e,
seguindo-o, opinar e agir.
*º De Homero, Odisséia, IV, 690.
*1 De Hesíodo, Trabalhos e Dias, 197.
MEDITAÇÕES 293
Há duas coisas comuns à alma dos deuses, à do homem e de todo vivente racional: o não ser
estorvado por outrem e o situar o bem nos sentimentos e atos justos, a isso reduzindo os desejos.
35. Se não se trata de um vício meu, nem de atividade decorrente de vício meu, nem é lesada
a comunidade, por que me afligir com isso? Qual o dano da comunidade?
36. Ser arrebatado de envolta com a imaginação, não; sim, socorrer na medida em que podes
e merecem, mesmo quando a perda é medíocre. Todavia, não imagines se trate duma perda; é esse
um mau costume. Como o velho que reclamava, ao retirar-se, a entrega do pião do aluno, sem
esquecer que também um pião, assim também neste caso. .. *?
— Homem, esqueceste o que isso era?
— Sim, mas eles o tomam tão a sério !
— Éisso razão para enlouqueceres também tu?
Outrora, em qualquer momento que me surpreendessem, eu era um homem ditoso. Ditoso
significa quem atribui a si mesmo um bom quinhão; bom quinhão são as boas tendências da alma,
os bons impulsos, as boas ações.
Livro VI
1. À substância do universo é dócil e maleável; a razão que a rege não tem em si nenhum
motivo de fazer o mal; não tem maldade, não faz mal nenhum e dela nada recebe nenhum dano.
Tudo se produz e completa de acordo com ela.
2. Quando cumpres o teu dever, não faça diferença que sintas frio ou calor, que estejas sono-
lento ou tenhas dormido bastante, que te censurem ou gabem, que morras ou faças outra coisa.
Com efeito, um dos atos da vida é também esse no qual morremos. Basta, portanto, dispor bem
o presente também para esse ato.
3. Vê o fundo; não te passe despercebida, em coisa alguma, sua qualidade própria, nem seu
valor.
4. Tudo que aí está em breve será transformado e ou evaporará, se a substância é simples, ou
se dispersará.
5. A razão que rege sabe como está disposta, o que faz e com que matéria.
6. A melhor maneira de arredá-los é não parecer com eles.
7. Tenhas um só deleite e contentamento, o de passar dum ato social a outro ato social, com
o pensamento em Deus.
8. O guia é o que a si mesmo desperta, modifica e amolda como quiser, e faz que todo acon-
tecimento apareça tal como ele o quer.
9. Tudo se cumpre segundo a natureza do universo; não pode ser segundo outra natureza,
que, ou seria externa e o conteria, ou seria interna e por ele contida, ou seria exterior e sem
ligação.
10. Ou uma papa, enleio e dispersão, ou coesão, ordem e providência. Na primeira altemna-
tiva, por que desejar eu uma longa permanência numa aglomeração casual e em semelhante
mixórdia? Que outra coisa me importa senão como tornar-me terra um dia? Por que me contur-
bo? O dia da dispersão chegará para mim, faça eu o que fizer. Na segunda alternativa, venero,
tenho firmeza e confiança em quem rege.
11, Quando a força das circunstâncias te deixar como que transtornado, volta depressa a ti
*2 Texto corrompido.
294 | MARCO AURÉLIO
mesmo; não fiques fora do ritmo além do necessário, porque serás tanto mais senhor da harmonia
quanto mais frequentemente voltares a ela.
12. Se tivesses ao mesmo tempo uma madrasta e uma mãe, sem embargo de tuas atenções
para com a primeira, seriam constantes os teus retornos para junto de tua mãe. O mesmo se dá
agora com a corte e a Filosofia; volta assim com frequência a repousar nesta, porque graças a ela
a vida te é suportável na outra e tu ês suportável naquele meio.
13. Assim como, dos pratos. de carne e outros alimentos, o pensar que um é o cadáver dum
peixe, outro o cadáver duma galinha ou dum leitão; igualmente, do Falerno, que é o suco duma
uva e, da toga, que é o pêlo.duma ovelha tinto com o sangue dum molusco, e, ainda, da copula-
ção, que não passa de fricção do ventre e ejeção de muco acompanhada de algum espasmo; assim
como essas idéias atingem as coisas em si e as penetram até ver o que elas são afinal, assim deve-
mos agir durante toda a vida; quando mais fidedignas se afiguram as coisas, despi-las, contemplar
a sua vulgaridade e suprimir os comentários ** que a esta conferem imponência. Porque a presun-
ção é uma embusteira formidável e quando mais te imaginas entregue 2 tarefas sérias, aí é que
estás sendo mais ludibriado. Vê o que diz Crates do próprio Xenócrates.
14. Do que o vulgo admira, prende-se ao gênero mais amplo a maior parte, constituída por
um estado ou natureza: pedras, madeira, figueiras, vinhas, oliveiras; outra parte, constituída por
seres um pouco menos brutos, prende-se à espécie animal, como os rebanhos e manadas; uma ter-
ceira, de constituição ainda mais delicada, à espécie da alma racional, não admirada por ser
racional, mas por habilidades ou préstimos quaisquer, Ou apenas por representar a posse dum
grande número de escravos.
Quem, porém, preza a alma racional, universal e sociável, já não dá atenção aos demais
seres; antes de tudo, preserva os sentimentos e movimentos racionais e sociáveis de sua própria
alma e ajuda o seu parente a igual preservação.
15. Continuamente umas coisas se apressam a ser, outras se apressam a passar, e, do que
vem a ser, uma parte já se extinguiu. Escoamentos e transformações renovam o mundo incessan-
temente, como o fluxo ininterrupto das eras faz sempre novo o tempo infinito.
Das coisas que passam a correr nesse rio, qual podemos distinguir com nossa estima, se não
nos é dado firmar-nos em nenhuma? É como se alguém começasse a amar um dos pardais que
passam a voar e ei-lo já fora de vista.
A vida mesma de cada um é algo como a evaporação do sangue € a inalação de ar; o mesmo
que aspirar o ar uma vez e expirá-lo, como fazemos a todo momento, é devolver à fonte donde pri-
meiro a hauriste toda a faculdade respiratória que adquiriste ontem ou anteontem, ao nascer.
16. O que tem valor não é o transpirar como as plantas, nem o respirar como os animais de
criação e as feras, nem o colher impressões pela imaginação, nem o ser titereado pelos impulsos,
nem o ser apascentado, nem o alimentar-se; isso vale tanto quanto a expulsão dos resíduos da
alimentação. |
— Então, o que tem valor? As palmas?
— Não. Nem, portanto, as palmas das línguas, pois os louvores da multidão são línguas
batendo palmas.
— Eliminaste também a gloríola; que resta que tenha valor?
— A meu ver é o mover-se e parar de acordo com a própria constituição e a isso nos condu-
zem os estudos e as artes. Com efeito, o fito de toda arte é que esteja bem apropriado ao efeito
para o qual foi preparado aquilo que ela prepara. Isso é o que têm em mira o cultivador que trata
da vinha, o domador de cavalos e o tratador de cães. A pedagogia e a didática a que se devotam?
Eis, pois, o que tem valor. Se nisso te saíres bem, não diligenciarás obter mais nada.
Não cessarás de dar valor a muitas outras coisas? Então, não serás livre, auto-suficiente e
isento de paixão; sentirás necessariamente invejas, ciúmes, suspeitas das pessoas capazes de
tomar-te aquilo a que dás valor e tramarás contra quem o detém.
Em suma, quem é carecido de algum daqueles bens há de por força andar perturbado e ainda
com muitas queixas, até dos deuses.
*? Texto duvidoso; a tradução é conjetura.
4
* Não se sabe o que teria dito Crates, de Kenócrates, seu antecessor na direção da Academia de Platão.
MEDITAÇÕES 295
Já o respeito e o apreço da tua inteligência te farão contente contigo mesmo, bem adaptado
à sociedade e concorde com os deuses, isto é, grato por todos os quinhões por eles distribuídos,
por todos os postos por eles determinados.
17. Os elementos se movimentam para cima, para baixo, em círculo. O movimento da virtu-
de, porém, não segue nenhuma dessas direções; é algo de divino e marcha com felicidade para
diante, por um caminho difícil de conceber.
18. Como é estranha sua atitude! Não querem louvar os homens que vivem na mesma época
e em-sua própria companhia, mas dão grande importância a terem o louvor da posteridade, que
Jamais viram nem hão de ver. E quase o mesmo que te afligires por não terem tecido louvores teus
as gerações anteriores.
19. Se achas demasiado árdua para ti uma empresa, nem por isso a suponhas impossível ao
homem; ao contrário, se algo é possível e próprio de homem, considera-o acessível também a ti.
20. Nos ginásios, se alguém nos arranha com as unhas e nos acerta uma cabeçada violenta,
não reclamamos, não nos ofendemos, nem o suspeitamos de futuras insídias. Precavemo-nos, por
certo; não, porém, como dum inimigo, nem com desconfiança, mas com uma esquiva isenta de
malquerença.
Seja mais ou menos assim nos outros setores da vida; relevemos muitas faltas desses como
que nossos parceiros de luta; podemos, como dizia, esquivar-nos sem desconfianças nem
ressentimentos.
21. Se alguém pode confundir-me e provar que estou errado em minhas opiniões ou atos, eu
mudarei com prazer. Procuro a verdade; ela jamais causou dano a ninguém; dano sofre quem per-
siste no seu engano e ignorância.
22. Eu cumpro o meu dever. Os outros seres não me inquietam; ou são inanimados, ou irra-
cionais, ou vagantes que desconhecem o caminho.
23. Como ente dotado de razão, trata, nobre e livremente, como entes desprovidos dela, os
viventes irracionais e, em geral, as coisas e matérias; aos homens, trata-os como entes racionais,
como sócios. -
A todo momento invoca os deuses e não te importe quanto tempo despenderás nisso; bastam,
com efeito, três horas assim passadas.
24. Alexandre da Macedônia e seu arrieiro igualaram-se na morte, porque ou foram recolhi-
dos pelas mesmas razões seminais do mundo, ou se dissiparam de modo igual no seio dos átomos.
25. Considera quantas coisas, na mesma parcela infinitamente pequena do tempo, ocorrem
simultaneamente quer no teu corpo, quer no teu espírito; assim não te admirarás de que muitas
“mais, ou melhor, tudo quanto se produz nesse todo único, que chamamos universo, exista
simultaneamente.
26. Se alguém te perguntasse como se escreve o nome de Antonino, haverias de proferir aos
brados cada uma das letras? E então, se ficam irritados, vais irritar-te também? Não enumerarias
com calma, seguidamente, letra após letra? Assim também agora lembra-te de que todo dever se
compõe de determinadas contas; cumpre observá-las sem te perturbares, nem te acerbares por tua
vez com os que se acerbam, para executares com método a tarefa proposta.
27. Que crueldade não permitir aos homens que se atirem ao que lhes parece natural e conve-
niente! Todavia, de certo modo não consentes que o façam quando te agastas porque pecam; com
efeito, eles deixam-se levar absolutamente como a coisas naturais e convenientes a eles.
— Mas não são!
— Então, ensina-os, mostra-lhes, sem te agastares.
28. A morte é o descanso das repercussões sensórias, do titerear dos impulsos, das divaga-
ções do intelecto e dos serviços à carne.
296 MARCO AURÉLIO
29. É uma vergonha seja tua alma a primeira a descoroçoar duma vida a que teu corpo ainda
não renunciou.
30. Cuidado para não te cesarizares, ** para não te imbuíres; isso costuma acontecer. Preser-
va-te simples, bom, puro, grave, desafetado, amigo da justiça, piedoso, benévolo, afetuoso, firme
no cumprimento do dever. Luta por permaneceres tal qual te quis forrar a Filosofia. Venera os
deuses, socorre os homens.
A vida é breve; fruto único da existência sobre a terra são os sentimentos santos e a prática
do bem comum.
Sê, em tudo, um discípulo de Antonino, com a sua tenacidade nos empreendimentos planeja-
dos, a sua equanimidade em todas as circunstâncias, a sua piedade, o seu rosto sereno, a sua bran-
dura, a sua ausência de vanglória, o seu pundonor em bem apreender as questões.
Recorda como ele jamais abandonava nada sem ter examinado a fundo e compreendido
claramente; como suportava, sem retaliar, as censuras improcedentes; como por nada se açodava;
como não dava guarida a calúnias; com que minúcias examinava os caracteres e as ações; quão
avesso era a ofensas, a temores, a suspeitas, a intrujices; com quão pouco se satisfazia, por exem-
plo, em questão de moradia, de leitos, de roupas, de pratos, de famulagem; que disposição para as
fadigas, que perseverança; quão capaz de permanecer no mesmo lugar até o anoitecer, graças a
uma dieta simples, sem precisar aliviar-se dos residuos da alimentação fora da hora habitual; a
firmeza e constância de suas opiniões, e sua satisfação quando lhe demonstravam outra melhor;
como era piedoso sem superstições — para que assim, ao chegar tua última hora, encontre a tua
consciência pura, como a dele.
31. Recobra os sentidos, reanima-te e, sacudido o sono, compreendendo que eram sonhos o
que te molestava, olha de novo as coisas desperto, como as costumavas olhar.
32. Sou formado de corpo e alma. Ao corpo, tudo é indiferente, porque não pode inquietar-
se. À inteligência tudo que não é operação sua é indiferente; tudo, porém, que é operação sua
depende dela.
Ainda, neste seu âmbito, ela se interessa apenas pelo presente; as mesmas suas atividades
futuras e passadas lhe são indiferentes agora.
33. O trabalho da mão ou do pé não é contrário à natureza enquanto o pé executar o mister
do pé e a mão o da mão. Assim também o trabalho do homem, como homem, não é contrário à
natureza enquanto executar o seu mister de homem. Ora, se não é contrário à sua natureza tam-
pouco é um mal para ele.
34. Que prazeres enormes terão experimentado os bandoleiros, os devassos, os parricidas, os
tiranos!
35. Não vês como os ne com se adaptarem em certa medida aos profanos, nem por
isso deixam de ater-se aos princípios de sua arte e não suportam afastar-se deles?
Não é estranho respeitem o arquiteto e o médico a razão de sua arte mais do que o Homen
à sua própria, que lhe é comum com os deuses?
36. A Ásia, à Europa, são cantos do mundo; o mar todo, uma gota do mundo; o monte Atos,
um terrão do mundo; todo o presente, um ponto da eternidade. Tudo é pequeno, mudável,
evanescente.
Tudo provém de lá, ou por ter recebido impulso daquele princípio diretor comum, ou por via
de consequência. Portanto, até as fauces do leão, atê o veneno e todo malefício, como os espinhos,
como o lodo, são resultados do que lá existe de augusto e de belo. Não os imagines, pois, estra-
nhos àquele ser que veneras, mas tem em conta a fonte de tudo.
37. Quem viu o presente viu tudo, não só o que existiu desde a eternidade como tudo o que
haverá no tempo infinito, pois tudo tem a mesma origem e o mesmo aspecto.
*S Forjei o verbo, que não existe; parece de fácil compreensão; no original também foi forjado e significa:
adquirir a mentalidade dos Césares, imperadores despóticos.
MEDITAÇÕES. 297
38. Reflete amiúde na ligação e relação mútua de tudo que há no mundo. De certo modo,
todas as coisas estão entretecidas e, por esse motivo, são amigas umas das outras; com efeito,
uma se segue à outra graças à coordenação do movimento e ao concerto, bem como à coesão da
substância.
39. Ajusta-te às coisas cujo destino é ligado ao teu; estima os homens cuja sorte está unida
à tua; porêm, com sinceridade.
40. Um instrumento, uma ferramenta, qualquer aparelho, quando prestam, fazem aquilo
para que foram fabricados; todavia, quem os fabricou está ausente. Já nos seres que uma natureza
constituiu, a força que os formou está no seu interior e ali permanece. Por conseguinte, deves
respeitá-la mais e pensar que, se tu mesmo te comportas e vives segundo os desígnios dela, tudo
contigo se passa a contento. Igualmente se passa a contento no universo tudo que lhe concerne.
41. Se consideras para ti um bem ou um mal alguma das coisas que não são de teu arbítrio,
fatalmente, conforme esse mal te ocorra ou esse bem te falte, te queixarás dos deuses e odiarás os.
homens causadores ou suspeitos de causadores possíveis da falta ou da ocorrência.
Cometemos muitas injustiças por causa de disputas a esse respeito. Se, porém, conside-
rarmos como bens ou males apenas o que de nós depende, nenhum motivo resta quer de acusar
os deuses, quer de manter uma atitude hostil para com o homem.
42. Todos colaboramos numa única realização, uns consciente e inteligentemente, outros
sem o perceberem. Isso, penso, significava Heráclito ao dizer que até os que dormem são obreiros
e colaboradores dos acontecimentos do mundo. Cada qual colabora a seu modo, mesmo, de sobe-
jo, quem critica e quem tenta sabotar e destruir os resultados, pois até de tal gente precisaria o
mundo.
Resta veres de qual dos lados te vais alinhar. Aquele que rege o universo te empregará muito
bem e acolherã como parte entre os seus ajudantes e coopéradores. Tu, porém, não sejas parte à
maneira daquele verso cômico e tolo no drama, a que alude Crisipo. * *
43. Acaso o sol se mete a fazer o mister da-chuva? Acaso Esculápio *”? o de Ceres Frugífe-
ra? *º Que dizer de cada um dos astros? Não são eles, conquanto diferentes, colaboradores da
mesma obra?
44. Se os deuses tomaram decisões a meu respeito e sobre o que deve acontecer-me, decidi-
ram bem, pois é até dificil conceber um deus mal-intencionado. Que razão os impeliria a fazer-me
mal? Que proveito tirariam disso, quer para si, quer para a comunidade, sua máxima preocupa-
ção? Se não tomaram decisões em particular a meu respeito, fizeram-no a respeito da comuni-
“dade, afinal de contas, e devo saudar e estimar o que me acontece como uma consequência.
Se, porém, eles não deliberaram sobre nada — o que é impiedade admitir, aliãs não houvéê-
ramos de imolar, nem de orar, nem de jurar, nem praticar outros ritos, cada um dos quais pratica-
mos na crença de estarem os deuses presentes em nosso convívio — se, pois, eles não deliberaram
sobre nada do que nos concerne, então posso decidir sobre mim próprio, cabe a mim examinar os
meus interesses. ;
Ora, O interesse de cada um vai com sua constituição e natureza; a minha é racional e social.
Como um Antonino, minha cidade e minha pátria é Roma; como homem, o mundo. Logo, só é
um bem para mim o que for útil a essas cidades.
45. O que a cada um acontece é útil ao todo. Isso bastaria; observando, porém, verás mais
que, em geral, o que é útil a um homem é útil também aos outros. Tome-se aqui a palavra útil na
acepção mais ampla, como se aplica às coisas indiferentes.
46. Assim como te enfadam as funções no anfiteatro e lugares semelhantes, por se exibirem
sempre as mesmas coisas e porque a uniformidade torna tedioso o espetáculo, assim détes sentir
*8 Um dos criadores do estoicismo (280 a 205 a.C.), escritor fecundo; ao inverso dos estóicos em geral,
dava importância às pesquisas científicas.
*7 Veja nota 38. — ** Divindade que protegia a lavoura.
298 MARCO AURÉLIO |
a respeito do curso todo da vida, pois tudo, de alto a baixo, são os mesmos efeitos das mesmas
causas. Até quando?
47. Reflete assiduamente em quantos homens, de toda e qualquer profissão, de raças de toda
sorte, estão mortos; recua até o tempo de Filistião, Febo, Origanião, *º Passa agora às outras
espécies. Temos. por certo. de emigrar para onde se foram tantos oradores disertos. tantos filóso-
fos graves — Heráclito, Pitágoras, *º Sócrates —, tantos heróis antes deles e tantos generais e
tiranos depois. Além desses, Eudoxo, *" Hiparco, 52 Arquimedes, * 3 outras naturezas penetrantes,
altivas, infatigáveis, ousadas; motejadores presunçosos da própria vida humana perecível e efême-
ra, como Menipo º * e tantos seus iguais. |
Reflete em que todos eles jazem há muito. Que de terrível para eles há nisso? Que dizer dos
que nem sequer são nomeados? Assim, uma só coisa existe de grande valor: passar a vida na prá-
tica da verdade e da justiça, sem querer mal aos mentirosos e injustos.
48. Quando quiseres alegrar-te, põe-te a pensar nos méritos das pessoas de teu convívio; por
exemplo, a eficiência desta, o decoro daquela e a liberalidade daqueloutra e outras prestanças de
outras mais. :
Nada nos alegra tanto como os exemplos de virtudes manifestados nos costumes dos convi-
ventes, reunidos em número tão grande quanto é possível. Por isso, devem ser mantidos à mão.
49. Acaso te agastas por pesares tantas libras e não trezentas? Tampouco, então, por teres
de viver tal número de anos e não mais. Assim como te contenta o volume de substância a ti atri-
buído, satisfaze-te também com a medida de tempo.
50. Procura convencê-los; procede até contra a sua vontade, quando a razão da justiça o
reclamar. Se, porém, alguém se opuser recorrendo à força, passa a uma atitude cordial e sem
mágoa; vale-te do obstáculo para exercitar outra virtude e lembra-te de que tomaras a iniciativa
sob reserva e não aspiravas ao impossível.
— Ao que, então?
— A uma iniciativa análoga. Esse objetivo alcançaste; aquilo que iniciamos já é uma
realização.
51. Quem ama a glória situa o seu bem numa atividade alheia; quem ama o prazer, em suas
próprias sensações; quem tem inteligência, em seus próprios atos.
52. É lícito não formar opinião a este respeito e não sofrer atribulações da alma; as coisas
em si mesmas não têm natureza capaz de criar nossos juízos.
53. Habitua-te a dar plena atenção ao que outrem diz e, quanto possível, penetrar na alma
de quem fala.
54. O que não convém ao enxame não convém tampouco à abelha.
55. Se os marujos insultassem o piloto ou os doentes o médico, cuidariam estes dois de outra
coisa senão de como levar a efeito a preservação dos navegantes ou a cura dos pacientes?
** Desconhecidos. O texto parece corrompido, estando Febo por Fábio e Origanião por Virgínio.
5º Pitágoras, do século VI a.C., matemático e filósofo, natural de Samos, de onde se passou para Crotona,
na Itália. Nada deixou escrito, mas fundou uma escola filosófica de considerâvel influência no pensamento
helênico. Seus discípulos criam cegamente na palavra do mestre. A doutrina pitagórica foi professada como
regra duma religião; via no número o princípio que constitui os seres; ensinava a metempsicose e recomen-
dava o ascetismo, que conduz o sábio à semelhança de Deus, a grande Unidade.
5? Eudoxo, de Cnido, astrônomo.
52 Hiparco, astrônomo do século II a.C., grego da Ásia Menor.
ae Arquimedes de Siracusa, célebre Ésico (287 a 212 a.C.) o primeiro que aplicou a matemática à
mecânica.
** Menipo de Gádara, filósofo da escola cínica, autor de livros satíricos: Evocação dos Mortos, Testamento
dos Filósofos. Sua filosofia era popular e sua linguagem jocosa.
MEDITAÇÕES 299
56. Quantos, com quem entrei no mundo, já se foram !.
57. Aos ictéricos o mel sabe'amargo; aos hidrófobos a água mete medo; às crianças a bola
parece bonita. Por que, pois, me enfurio? Achas que o engano tem menos força que a bile no icté-
rico ou o vírus no hidrófobo?
58; “Ninguém te impedirá de viver segundo a razão de tua natureza e nada te acontecerá con-
tra a razão da natureza comum.
59. Como são aquelas pessoas a quem se quer agradar? Quais os resultados em vista? Quais
os meios empregados? Quão depressa o tempo tudo ocultará e quanta coisa já ocultou!
Livro VII
I. Que é o vício? Aquilo que viste tantas vezes. A todo acontecimento, tem presente a idéia
de que é o que muitas vezes viste. Em suma, de alto a baixo, encontrarás os mesmos fatos de que
andam cheias as histórias, quer antigas, quer intermédias, quer recentes, de que andam cheias hoje
as cidades e as casas. Nada há de novo; tudo é corriqueiro, tudo é efêmero.
2. Os dogmas vivem. Como, aliás, poderiam morrer sem se extinguirem as idéias que a eles
correspondem? Depende de ti reavivar incessantemente as cnamas destas.
Eu posso formar idéias sobre o que é necessário; se posso, por que me perturbar? O que há
fora de meu intelecto absolutamente não existe em relação ao meu intelecto. Aprende esse princi-
pio e estás de pé. És capaz de reviver; vê de novo as coisas como as vias; nisso consiste o reviver.
3. Vão açodamento pelas pompas; encenação de dramas; rebanhos; manadas; corpos vara-
dos de lanças; ossos atirados a cães; migas de pão deitadas em viveiro de peixes; azáfama de for-
migas carregando os seus fardos; correria de camundongos espavoridos; bonecos movidos por
cordêéis. ..
Cumpre, pois, suportar tudo isso com benevolência, sem refugar, advertindo, todavia, que
cada qual vale tanto quanto vale o alvo de seus esforços.
4. É mister acompanhar o que se diz, palavra por palavra, e, de cada impulso, o resultado.
Neste caso, ver o escopo visado; naquele, atentar no significado.
5. Basta a minha inteligência para isto, ou não? Se basta, sirvo-me dela no trabalho como
dum instrumento fornecido pela natureza universal; senão, ou passo a tarefa a quem possa desin-
cumbir-se melhor, se não convier doutra forma, ou executo-a como possa, tomando como colabo-
rador quem for capaz de realizar, com ajuda do meu guia, o que, neste momento, for oportuno e
útil à comunidade.
Tudo quanto eu fizer, quer por mim mesmo, quer com ajuda alheia, deve tender a um obje-
tivo único: o que é útil e ajustado à comunidade. |
6. Quantos homens celebrados em hinos já caíram no esquecimento ! Quantos, que os cele-
bravam, partiram há muito!
7. Não te acanhes de receber auxílio; tens que cumprir a missão determinada, como o solda-
do no assalto à muralha. Como farias, se tu, coxeando, não pudesses galgar as ameias sozinho,
mas fosse possível fazê-lo com ajuda?
8. Não te inquiete o futuro; a ele chegarás, se for preciso, levando a mesma razão de que ora
te vales nas questões presentes.
9. Todas as coisas estão entretecidas; seus laços são sagrados, e, a bem dizer, não há uma
estranha a outra; estão coordenadas e, juntas, compõem a ordem do próprio mundo.
O mundo é único, composto de todas as coisas; única a divindade, disseminada por todas as
coisas; única a substância; única a lei; comum a razão de todos os viventes inteligentes; única a
300 MARCO AURÉLIO
verdade,posto que única a perfeição dos seres da mesma espécie e dos viventes que compartilham
a mesma razão.
10. Tudo que é material se esvaece rapidamente na substância universal; toda causa é rapi-
damente recolhida na razão do universo e a memória de cada um sepulta-se rapidamente na
eternidade.
11. No vivente racional, ato natural e ato racional é tudo um.
12. Ou direito, ou em vias de endireitar-se.
13. O que são os membros do corpo nos seres unos são, nos seres distintos, as faculdades
racionais, constituídas para uma atuação conjunta e única. A compreensão disso te será mais
óbvia se disseres a ti mesmo amiúde: “Sou um membro do corpo formado pelos seres racionais”.
Mas se, trocadas as letras, º ? disseres que és uma parte, ainda não amas de coração a Humani-
dade, ainda não te alegra evidentemente o bem fazer; ainda o praticas como uma simples obriga-
ção, não como um benefício para ti mesmo.
14. Que suceda o acidente de origem externa que quiser aos seres capazes de sofrer suas
consegiiências. Tais seres que se queixem, se quiserem, de tais acidentes; de minha parte, basta
que não julgue um mal o sucedido, já não sofri dano; e posso não o julgar.
15. Façam o que fizerem, digam o que disserem, eu tenho de ser bom; é como se o ouro, a
esmeralda ou a púrpura vivessem repetindo: “Façam o que fizerem, digam o que disserem, eu
tenho de ser esmeralda e ter a minha cor própria”.
16. Meu guia não se molesta a si mesmo; quero dizer, não cria para si temores a seu talante.
Se alguém mais pode causar-lhe temores e aflições, que o faça; ele a si mesmo, por suas opiniões,
não se lança em tais vicissitudes.
Cuide o corpo por si de não sofrer nada, se puder; se sofrer, que o diga. A alma, quando ten-
tam assustá-la, afligi-la, basta, em suma, que forme juízo a esse respeito e nada há de sofrer; ela
não está obrigada a admiti-lo.
O guia, no que dele depende, não tem precisões, salvo se criar para si alguma necessidade;
por isso mesmo está livre de perturbações e embaraços, a menos que a si próprio perturbe e
embarace.
17. Felicidade é um bom nume tutelar ou um bom. . . Que fazes aqui, ó imaginação? Vai-te,
pelos deuses te peço, como vieste; não preciso de ti. Vieste por um velho hábito. Não me agasto
contigo; apenas, vai-te.
18. As mudanças assustam? Mas pode alguma coisa ocorrer sem que haja mudança? Que
há de mais caro e familiar à natureza universal? Tu próprio podes tomar banho sem que a lenha * *
seja transformada? Podes comer sem que sejam transformados os alimentos? Pode-se realizar al-
guma outra ação útil sem transformação?
Não vês, então, que as mudanças em ti mesmo são fatos semelhantes e semelhantemente
necessários à natureza universal?
19. Todos os corpos passam na substância do universo como numa torrente, unificados com
o todo e com ele colabórando, como nossos membros uns com os outros.
Quantos Crisipos, quantos Sócrates, quantos Epictetos já não tragou a eternidade! O mesmo
pensamento te ocorra a respeito de todo e qualquer homem ou coisa.
20. Tenho só uma preocupação; o temor de fazer o que a constituição do homem não con-
sente, ou da maneira que ela não consente, ou o que ela não consente neste momento.
21. Perto estás de esquecer tudo e de ser esquecido de todos.
*º Literalmente, por meio de um R. Melos e meros significam, respectivamente, membro e parte.
88 Consumida no aquecimento da água.
MEDITAÇÕES 301
22. É próprio do homem amar até os que o magoam. Isso conseguirás se te ocorrer a lem-
brança de que são teus parentes; que erram por ignorância e sem querer; que, dentro em pouco,
tu e eles estareis mortos e, sobretudo, que não te causaram dano, pois ao teu guia não tornaram
inferior ao que era antes.
23. Da substância universal, comc: duma cera, a natureza universal plasma agora um cava-
lo, depois o derrete e usa a sua matéria para uma plantinha, em seguida para um homúnculo, de-
pois para outra coisa. Cada uma dessas formas subsistiu por um rápido momento. Para o escrínio
nada há de terrível em ser desfeito, comc nada havia em ser formado.
24. Um rosto irado é por demais contrário à natureza. Quando fregiente, a beleza do rosto
fenece ou por fim se apaga de tal maneira que lhe é absolutamente impossível reacender-se.
Este ponto é que deves tentar com reender: que é contrário à razão, pois, se a consciência do
erro se vai, qual o motivo de continuar vivendo?
25. A natureza que rege o universc mudará num instante tudo quanto vês, de sua substância
criará outros seres e, depois, da substância destes, ainda outros, para que o mundo esteja sempre
novo.
26. Quando alguém falta para cortigo, pensa imediatamente que idéia do bem ou do mal o
levou a cometer a falta; quando o tiver:s verificado, passarás a ter pena dele e não sentirás sur-
presa nem cólera.
Com efeito, ou tu mesmo continuarás pensando sobre o bem de maneira igual ou semelhante
e, portanto, deves perdoar-lhe, ou já não formas idéias iguais sobre o bem e o mal e mais fácil te
será a complacência para com o seu engano,
27. Não considerar presentes as coisas ausentes; das presentes, computar as que são mais
propícias e, por isso, imaginar como se iam procuradas, se não estivessem presentes. Ao mesmo
tempo, contudo, toma cautela para não te acostumares, pela satisfação que experimentas, a dar-
lhes tão subido valor que sua falta event tal possa conturbar-te.
28. Recolhe-te em ti mesmo; o guii da razão, por sua natureza, a si mesmo se basta quando
pratica a justiça e por isso mesmo desfruta de calma.
29. Apaga a imaginação. Pára o ogo de titeres. Circunscreve o momento presente. Toma
conhecimento do que acontece a ti ou :. outrem. Separa e divide o objeto considerado em causa
formal e material. Reflete sobre a hora derradeira. O pecado de fulano, deixa-o lá onde foi
cometido.
30. Compara, lado a lado, o pensamento e a expressão. Mergulha a mente nos efeitos e suas
causas.
31. Exorna-te com a simplicidade. com o decoro e com a indiferença a quanto está situado
entre a virtude e o vício. Ama o gênero humano. Toma um deus como teu guia.
Fulano º” afirma que tudo é conv2ncional e, na realidade, só os elementos existem. Basta,
porém, lembrar que tudo se comporta ccmo convencional; pouco já é demais.
32. Sobre a morte: ou é dispersão, se somos átomos; se somos um todo uno, ou extinção ou
tradsmigração.
33. Sobre a dor: o que é insuportável mata; o que dura é suportável. A inteligência, retrain-
do-se, conserva a sua serenidade e o guia não sofre dano. As partes maltratadas pela dor, seo
puderem, que se manifestem sobre ela.
34. Sobre a glória: verifica os pent amentos deles, quais são, do que fogem, o que perseguem.
E mais, que assim como os cômoros de areia, à medida que uns se depositam sobre os outros vão
57 Palavras de Demócrito.
302 MARCO AURÉLIO
escondendo os primeiros, assim na vida as camadas precedentes são logo encobertas pelas que
vêm depois.
35. “A uma inteligência dotada de altivez é duma visão total do tempo e da substância, crês
acaso que a vida do homem se afigure valiosa?
— Impossível, disse ele.
— Portanto, a uma pessoa assim tampouco parecerá terrível a morte?
— Absolutamente não.” **
36. “É próprio dos reis fazerem o bem e serem malsinados.” *º
37. É uma vergonha que o rosto se preste docilmente a moldar-se e compor-se ao mando da
inteligência e esta a si mesma não se molde e componha.
38. “Não adianta agastar-se com as coisas; elas não fazem caso nenhum.” *º
39. “Oxalá dês alegrias aos deuses imortais e a nós.”
40. “Segar a vida como espiga rica de grãos, e que um viva e o outro não.” º!
41. “Se os deuses se descuidaram de mim e de meus filhos, isso também tem sua razão.” *?
42. “Comigo estão o bem e a justiça.” *º
43. Não tomar parte em seus lamentos e convulsões.
44. “Eu lhe daria esta resposta justa: Estás enganado, homem, se cuidas que um varão de
algum prêstimo deve pesar as possibilidades de vida e morte, em vez de considerar apenas este
aspecto de seus atos: se o que faz é justo ou injusto, de homem de brio ou covarde.” * *
45. “A verdade, atenienses, é esta: quando a gente ocupa um posto, seja por o considerar o
melhor, seja porque tal foi a ordem do comandante, aí, na minha opinião, deve permanecer diante
dos perigos, sem pesar o risco de morte ou qualquer outro, salvo o da desonra.” 8º
46. “Mas, meu caro, vê lá se a nobreza e o bem não diferem de salvar do perigo outras pes-
soas e a própria; essa preocupação de quantos anos viver, um homem deveras homem deve pô-la
de lado, em vez de apegar-se à vida; deve confiar esse cuidado à divindade, crer nas mulheres
quando dizem que ninguém escapa à sua sina e examinar o corolário, isto é, qual a maneira mais
digna de viver esse tempo que vai viver.” º
47. Observa o curso dos astros como se os acompanhasses no giro e reflete assiduamente
nas mútuas conversões dos elementos. Esses pensamentos lavam a impureza da vida terrena.
48. Bela esta reflexão de Platão. Por certo, quem discorre sobre a Humanidade deve exami-
nar também o que há sobre a terra, como se a contemplasse do alto duma elevação: rebanhos,
exércitos, lavouras, casamentos, divórcios, nascimentos, mortes, vozearia dos tribunais, regiões
desertas, diversidade de povos bárbaros, festas, lutos, feiras, a mixórdia e a boa ordem formada
dos contrários.
49. Revendo o passado e as múltiplas transformações do que existe no presente, podemos
antecipar a contemplação do futuro, pois será absolutamente semelhante e incapaz de sair do
ritmo dos fatos atuais. Daí, tanto faz estudar a vida humana por quarenta anos como por dez
milênios. Com efeito, o que verás a mais?
50. “E o que da terra nasceu à terra volta; o que brotou dum germe do éter, à abóbada
*8 Trecho de Platão, República. — *º A frase é de Antístenes. — *º Fragmento de Eurípides.
81 Idem. — 8? Idem.
83 Idem. — ** Trecho de Platão, Defesa de Sócrates. — *8 Idem. — ** Platão, Górgias.
MEDITAÇÕES 303
celeste.” º 7 Em outras palavras: o desminchar dos entretecimentos existentes, em átomos, e uma
dispersão análoga dos elementos impassí reis.
51. Também: “Vão desviando o cu so do tempo com alimentos, bebidas, e sortilégios, a fim
de não morrer”. — “O vento que os deu ies desencadeiam, temos de suportá-lo entre sofrimentos,
sem queixas.”
52. Melhor na luta, sim, porém nã» mais votado ao bem comum, nem mais discreto, nem
mais disciplinado em face dos aconteci nentos, nem mais indulgente para com os enganos do
próximo.
53. Quando se pode desempenhar um mister segundo a razão comum dos deuses e dos
homens, nada há que temer, pois quan«lo podemos ser úteis graças a uma atividade próspera,
desenvolvida de acordo com a nossa constituição, então nenhum dano é de recear.
54. Em toda parte e continuamente de ti depende dar bom acolhimento, em respeito aos deu-
ses, às conjunturas presentes, tratar com justiça os homens presentes e esmerar-te no pensamento
presente para que nele nada se insinue qu: não compreendas.
55. Não distraias a tua atenção par. veres os guias alheios, mas atenta diretamente para este
ponto: para onde te encaminham não só a natureza universal, por meio do que te acontece, como
também a tua, por meio das tarefas que te impõe?
Da constituição de cada um decorre o seu mister; ora, os demais seres foram constituídos em
vista dos racionais e, em todos os outros casos, os seres inferiores o foram em vista dos superio-
res, e os racionais em vista uns dos outros.
Na constituição do homem predomina a sociabilidade.
Em segundo lugar vem a não-sujeiç io às paixões corpóreas, que é próprio do movimento da
razão e da inteligência circunscrever-se e não se deixar vencer quer pelo movimento dos sentidos,
quer pelo dos instintos; com efeito, um e outro são de natureza animal, enquanto o intelectual
quer primar e não ser submetido àqueles. E com razão, pois é de sua natureza servir-se de ambos.
Em terceiro lugar, na constituição racional, vem o dom de não precipitar os juízos e não se
deixar embair. Que o teu guia siga por u:n caminho direto, firmado nesses dotes, e terá o que lhe
pertence.
56. Deves viver conforme a natureza o tempo excedente que te resta, como se já estivesses
morto, terminada aqui tua vida.
57. Preza apenas o que te acontece. urdido na trama do teu destino. Que se ajusta melhor a
ti?
58. A cada evento, tem diante dos olhos aqueles a quem sucedeu o mesmo e, sofrendo, agas-
tados e surpresos, reclamavam. Onde estiio eles agora? Em parte alguma. E então? Queres imitá-
los? Não queres deixar as vicissitudes a heias a seus causadores e vítimas, e empregar todos os
teus esforços em como tirar proveito delas.?
Tirarás, com efeito, excelente proveito e será matéria tua, se te aplicares, com decisão, a ser
bom em tudo o que fazes e tiveres presen es estes dois princípios: que é indiferente o momento da
ação...
59. Cava fundo; no fundo está a fonte do bem, capaz de jorrar perenemente, basta que não
pares de cavar.
60. Cumpre que o corpo também esteja firme e não descaia para um e outro lado, quer
quando em movimento, quer quando em r2pouso.
O mesmo que a inteligência faz ao “osto, mantendo-o constantemente composto e de nobre
aspecto, deve-se exigir do corpo todo. Deve-se manter tudo isso sob vigilância, com naturalidade.
87 Fragmento de Eurípides.
304 MARCO AURÉLIO
61. A arte de viver é mais semelhante à luta que à dança em nos mantermos eretos e prepa-
rados para os acontecimentos imprevistos.
62. Reflete assiduamente em quem são as pessoas cujo testemunho desejas e quais os seus
guias; assim não te queixarás dos que erram sem querer, nem precisarás de seu testemunho quan-
do olhares para as fontes de suas opiniões e impulsos.
63. É sem querer, diz ele, ºº que toda alma se priva da verdade; igualmente, portanto, da jus-
tiça, da temperança, da benevolência e de toda virtude. É sumamente necessário te lembres disso
continuamente; serás assim mais brando para com todos.
64. A cada sofrimento, lembra que não traz vergonha nem causa dano à inteligência que te
rege, por que não a corrompe enquanto racional, nem enquanto social.
Na maioria dos sofrimentos, ademais, acuda-te a máxima de Epicuro: a dor não é insupor-
tável nem eterna, se te lembrares dos seus limites e não a ampliares com a imaginação.
Lembra-te igualmente que muitas coisas aborrecidas, sem que o percebamos, são o mesmo
que a dor, como a sonolência, o calor ardente e a falta de apetite. Por isso, quando passares por
um desses dissabores, dize a ti mesmo que cedes a uma dor.
65. Toma cuidado para não sentires para com os misantropos o mesmo que os misantropos
sentem para com a Humanidade. .
66. Como saber se Telauges *º não tinha disposições melhores que as de Sócrates? Não
basta haja Sócrates morrido de maneira mais gloriosa, discutido com os sofistas com maior suti-
leza, suportado melhor a vigília noturna sob a geada, demonstrado mais nobreza desatender à
ordem de ir buscar o Salamínio, 7º nem que caminhasse pelas ruas empertigado — sobre o que
valeria bem a pena deter a atenção, se é que é verdade.
O que cumpre investigar é que disposições de espírito tinha Sócrates, se podia contentar-se
com ser justo para com os homens e piedosó para com os deuses, sem se agastar com os vícios
daqueles, nem escravizar-se à ignorância de nenhum, nem receber com estranheza qualquer parce-
la de seu quinhão no conjunto, nem sofrê-la como intolerável, nem solidarizar sua inteligência
com as paixões da carne.
67. A natureza não te fundiu na composição a ponto de não permitir que te estremes e pos-
suas o que é teu. Ao homem é sumamente possível ser como um deus sem ser reconhecido de
ninguém.
Lembra-te sempre disso e igualmente que a vida feliz depende de mui pouco; por desespe-
rares de ser competente na dialética e na física não é que hás de renunciar a ser livre, modesto, so-
cial e submisso à divindade.
68. Passa a tua vida a salvo de violências, na mais completa alegria do coração, ainda que
todos clamem o que quiserem e as feras espostejem os pobres membros dessa massa que nutres
em torno de ti.
Realmente, que impede que, em meio a tudo isso, a tua mente se conserve calma, com discer-
nimento correto do que a circunda e pronta a tirar proveito do que se lhe oferece?
Dessarte, dirá o discernimento ao que depara: Tu, por tua essência, és isto, embora a opinião
te apresente como outro. O aproveitamento dirá ao que depara: Eu estava à tua procura, pois o
que me está à mão é sempre matéria de virtude racional e social e, em geral, de arte humana ou
divina.
Tudo quanto acontece à divindade ou ao homem se torna habitual e já não é novo nem dificil
de manejar, mas conhecido e fácil de trabalhar.
69. É da perfeição moral passar cada dia como se fosse o último, sem comoções, nem torpo-
res, nem fingimento.
- 8º Epicteto. — *º Nome de um filho de Pitágoras.
7º Procurando comprometer nos seus desmandos pessoas íntegras de Atenas, o governo tirânico dos Trinta
incumbiu Sócrates e mais outros três de ir prender Leão de Salamina; Sócrates não obedeceu, correndo o
Tisco de ser punido.
MIIDITAÇÕES 305
70. Os deuses, que são imortais, não se amofinam por terem de suportar por tantos séculos,
inevitável e constantemente, seres inferio: es tais e tantos; ademais, zelam por eles de todas as
maneiras. Tu, porém, descoroçoas, tu, qre estás em vias de partir, e isso quando és um desses
seres inferiores?
71. É cômico não fugir à própria me ldade — o que é possível; e querer fugir à dos outros
— o que é impossível.
72. A faculdade racional e social, con boas razões, considera inferior a si tudo quanto se lhe
depara não inteligente nem social.
73. Quando tiveres a satisfação de prestar um benefício, e outrem a de tê-lo recebido, para
que ainda procuras, como os insensatos, ima terceira, a de saberem que fizeste o bem ou a de
receberes a paga?
74. Ninguém se cansa de receber ajula. A ajuda é uma ação conforme com a natureza. Não
te canses, pois, de recebê-la ao mesmo tempo que a dás.
75. Foi a natureza universal que decidiu formar o mundo. Logo, ou todo acontecimento se
dá por via de consegúência, ou são absurd»s até os objetivos mais importantes a que se impele em
especial o guia do mundo. A evocação dzsse pensamento te dará maior serenidade em muitas
contingências.
a
Livro VIII
1. Um dos fatos que contribuem para a despretensão é o de já não depender de ti o teres vivi-
do toda a existência ou, pelo, menos, desde a juventude, como filósofo; ao contrário, aos olhos de
muitos outros e aos teus próprios, é evidente que andas longe da Filosofia. Estás, pois, desmentido
e já não te é fácil granjear a fama de filósof>; até as bases se opõem.
Se enxergas deveras onde reside a questão, desinteressa-te da fama e contenta-te com viveres
como quer a natureza o resto de tua vida, dure o que durar. Procura entender o que ela quer e
nada mais te aflija. Sabes por experiência, após quantos errores, que não deparaste a felicidade
nenhures, nem nos silogismos, nem na riqu:za, nem na glória, nem nos deleites, em nada.
— Onde, pois, está?
— Em realizar o que a natureza do homem reclama.
—— Como, então, realizá-lo?
— Possuindo os princípios que regen: os impulsos e as ações.
— Que princípios?
— Os do bem e do mal, quais sejam: nada é bom para o homem, se não o torna justo,
temperante, viril, livre, e nada é mau, s: não lhe infunde os vícios opostos às mencionadas
virtudes.
2. A cada ação, pergunta a ti mesmc:: Que efeitos terá para mim? Não me trará arrependi-
mento? Em breve estarei morto e tudo haverá desaparecido. Se o que estou fazendo é de um ser
inteligente, social e com regalias divinas, que mais procuro?
3. O que são Alexandre, Caio e Ponipeu ao lado de Diógenes, Heráclito e Sócrates? Estes
viram as coisas, suas causas, sua matéric, e tais conhecimentos eram os seus guias; naqueles,
porém, a ignorância de quantos fatos! A stjeição a quantos amos!
4. Ainda que arrebentes, nem por issc deixarão de fazer o que fazem.
5. Em primeiro lugar, não te perturbts; tudo obedece à natureza do universo e em breve não
serás ninguém em parte alguma, como Adr ano e Augusto.
Depois, olhos postos em teu mister, o serva-o e, lembrado da obrigação de seres um homem
bom e do que a natureza humana reclama. cumpre-o sem desvios e tal como te parece justo; ape-
nas, faze-o de bom grado, com modéstia e tinceridade.
306 MARCO AURÉLIO
6. O mister da natureza universal é transpor para lá o que está aqui, transformá-lo, ergué-lo
dali e levá-lo para acolá. Tudo são mudanças, mas não há razão de se temerem novidades; tudo
é corriqueiro e, ademais, os quinhões se equivalem.
7. Toda natureza satisfaz-se com seguir bem o seu caminho. A natureza racional segue bem
o seu caminho quando, nos pensamentos, não assente ao falso e ao dúbio; nos impulsos, tende
apenas para as obras do bem comum; nos desejos e aversões, atém-se ao que depende de nós, aca-
tando de bom grado tudo que a natureza comum lhe atribui. Porque ela é uma parte desta, como
a natureza da folha o é da natureza da planta.
A diferença está em que, no caso da folha, sua natureza é parte duma natureza desprovida
de sentidos e de razão, possível de ser empecida, enquanto a do homem é parte duma natureza
sem empecilhos, inteligente e Justo, que atribui a cada qual segundo o mérito equitativos quinhões
de tempo, substância, causa, energia e acidentes.
Examina, pois, não se vais encontrar igualdade nos quinhões ponto por ponto, mas sim no
confronto da soma de tudo que é de um com a reunião do que é de outro.
8. Não podes ler. Mas podes refrear os excessos; podes suplantar os prazeres e dores; podes
alçar-te acima da gloríola; podes não te irritar com os insensíveis e ingratos e, de sobejo, zelar por
eles.
9. Que ninguém te ouça mais lastimar a vida na corte, nem tu mesmo.
10. O arrependimento é como uma repreensão a si mesmo por ter negligenciado algo útil. O
bem é necessariamente alguma coisa útil e o homem bom deve dedicar-se a ele. Nenhum homem
de bem se arrependeria de ter negligenciado um prazer; logo, o prazer não é nem útil, nem um
bem.
11. Que é isto em si mesmo, pela sua própria constituição? Qual é sua substância e sua
matéria? Qual a causa formal? Que faz no mundo? Quanto tempo dura?
12. Quando te custa despertar do sono, lembra-te de que conforme à tua constituição e à
natureza humana é prestar serviços à comunidade, enquanto o dormir é comum também aos
viventes irracionais; O que é conforme à natureza de cada um lhe é rnais adequado, mais natural
e, portanto, também mais agradável.
13. Constantemente e, se possível, a cada idéia, aplica a ciência da natureza, a das paixões,
a dialética.
14. Quando deparas seja quem for, dize logo a ti mesmo: Que princípios sobre o bem e o
mal segue esse homem?
Com efeito, se segue tais e tais princípios sobre o prazer, a dor, as causas desta e daquele,
bem como sobre a glória, a obscuridade, a morte e a vida, não acharei esquisito ou estranho que
pratique determinados atos e lembrar-me-ei de que tem de proceder necessariamente assim.
15. Lembra-te de que fica tão mal estranhar que a figueira dê figos, como que o mundo dê
os frutos de que é produtor. Igualmente ao médico e ao piloto fica mal estranharem que alguém
tenha febre ou que um vento sopre contrário.
16. Lembra-te de que mudar de opinião e seguir a quem te corrige são igualmente atos
livres, pois é atividade tua, desenvolvida de acordo com um impulso ou julgamento teu e natural-
mente também de acordo com a tua inteligência.
17. Se depende de ti, por que o fazes? Se de outrem, a quem inculpas? Os átomos? Os deu-
ses? Em ambos os casos, é insensatez. A ninguém deves culpar, pois, se podes, corrige-o; se a ele
não podes, corrige ao menos o fato; se este tampouco, que adianta ainda queixares-te? Nada se
deve fazer sem propósito.
18. Aquilo que morre não cai fora do mundo. Se aqui fica, aqui também se transforma e se
MEDITAÇÕES 307
decompõe nos elementos próprios, que siio os do mundo e os teus. Os elementos mesmo se trans-
formam e não resmungam.
19. O cavalo, a vinha, cada ser nasceu para um fim. Do que te admiras? O sol também, dirá,
para algum fim nasceu, bem como os outros deuses. Tu, pois, para que nasceste? Para o prazer?
Vê se essa concepção resiste.
20. À natureza de cada um tem em mira não menos o seu fim que o seu começo e o decurso
de sua vida; é como quem atira a bola. (Que bem há para a bola em subir, ou que mal em descer
e mesmo em cair? Que bem há para a bolha em ser formada ou que mal em ser desfeita? Iguais
perguntas sobre a candeia.
21. Dá-lhe uma volta e vê o que é, o que fica com a velhice, com a doença, com a
prostituição.
Efêmero é tanto quem louva como o louvado, tanto quem lembra como o lembrado; ade-
mais, num canto desta parte do mundo ! Mesmo aí nem todos concordam; nem sequer concorda
alguém consigo mesmo, e a terra toda nã passa dum ponto!
22. Atenta no objeto, ou na atividace, ou no preceito, ou no significado.
Sofres o que mereces, mas preferes sir bom amanhã a sê-lo hoje.
23. Faço alguma coisa? Faço-a tenilo em vista o bem da Humanidade. Acontece-me alguma.
coisa? Acolho-a tendo em vista os deuses e a fonte de tudo, desde a qual se enovela tudo que
ocorre.
24. Tal como vês o banho — óleo, mor, sujeira, água viscosa, tudo asqueroso —, tal é toda
parte da vida e todo objeto deparado.
25. Lucila pranteou Vero; ”" depoi:. foi a vez de Lucila; Secunda, Máximo; ?? depois a vez
de Secunda; Epitincano, Diotimo; ?? dejiis a vez de Epitincano; Antonino, Faustina; depois, a
vez de Antonino. Assim é tudo. Céler, ” * Adriano; depois, a vez de Céler.
Aqueles célebres pela sutileza, ou pelas previsões, ou pela ufania, onde estão? (Sutis são, por
exemplo, Córax, Demétrio Platônico, Eudêmon ? * e outros como eles.) Tudo efêmero, morto há
muito; vários nem por pouco tempo lembrados; outros convertidos em lenda e outros lendas já
extintas.
Lembra-te, pois, disto: necessariamente se dispersará o composto que és, o teu alento se
extinguirá, transmigrará e se localizará alaures.
26. A alegria do homem consiste em fazer o que é próprio de homem. Próprio de homem é
querer bem ao seu semelhante, despreza * as comoções dos sentidos, distinguir as idéias fidedig-
nas, contemplar a natureza do universo e Ds acontecimentos conformes com ela.
27. Três ordens de relações: uma com o estojo que nos reveste; outra com a causa divina,
origem de tudo que a todos acontece; e outra com os conviventes.
28. A dor ou é um mal para o corjo — portanto, ele que se manifeste — ou para a alma;
mas esta pode preservar sua própria serenidade e calma, não admitindo que seja um mal. Com
efeito, todo juízo, impulso, desejo ou aver ;ão estão no âmago e nada penetra até lá.
29. Apaga as fantasias dizendo a ti mesmo continuamente: Depende de mim neste momento
que nesta alma não haja maldade alguna, desejo algum, em síntese, perturbação alguma; ao
invés, vendo tudo como é, trato cada coisa segundo o seu valor. Lembra-te dessa faculdade que
tens segundo a natureza.
71 Anio Vero e Domícia Lucila eram os pais de Marco Aurélio. — 72 Veja nota 12.
*3 Enitincano é desconhecido. — ”* Canín o Céler, professor de Retórica. — ”7* Desconhecidos.
p
308 MARCO AURÉLIO
30. Falar, quer no Senado, quer na presença de quem for, com apuro e clareza; usar uma lin-
guagem sã.
31. Corte de Augusto : esposa, filha, netos, ascendentes, irmã, Agripa, ' º parentes, familia-
res, amigos, Areu, ?” Mecenas, 'º médicos, sacrificadores. A morte de toda a corte. Passa depois
às outras 7º não a morte de cada homem, por exemplo a dos Pompeus. Leva em conta igualmente
aquela inscrição dos túmulos: Último de sua linhagem. Quanto se afligiram os seus antepassados
para deixar após si um herdeiro e, afinal, era fatal que algum fosse o último ! Novamente, aqui, a
morte de toda uma linhagem.
32. Deves organizar tua vida ato por ato e dar-te por satisfeito se cada um deles alcança o
seu fim tanto quanto possível; ninguém pode impedir que leves cada ato a alcançar o seu fim.
— Mas surgirão obstáculos de fora.
— Nenhum, pelo menos, que te impeça a justiça, a temperança, a prudência.
— Mas talvez me impeça alguma outra atividade.
— Talvez; porém, com a boa acolhida ao obstáculo mesmo e com a sábia mudança para
uma atividade não obstada, a primeira ação é imediatamente substituída por outra, que quadra à
organização a que aludi.
33. Ganhar sem orgulho e perder com abnegação.
34. Viste alguma vez uma mão amputada, ou um pé, ou uma cabeça decepada, caída algures
longe do resto do corpo? Mais ou menos isso faz de si, quanto dele depende, quem, recusando os
acontecimentos, se desmembra do bem comum ou age contra ele.
Estás expulso da unidade natural, pois nasceste como parte dela e agora tu mesmo te ampu-
taste. Mas o admirável nisto é que te podes reintegrar. A divindade não concedeu a nenhuma
outra parte o privilégio de voltar a juntar-se depois de se haver separado e amputado.
Considera, pois, a benignidade com que ela distinguiu o homem, deixando ao seu arbítrio
não só o não se arrancar absolutamente do todo mas também o retornar depois de arrancado,
reincorporando-se e retomando o seu lugar de parte.
35. Assim como a natureza dos racionais deu a cada um dos seres racionais as demais facul-
dades, assim também dela recebemos a seguinte: da mesma forma que ela converte, entrosa na
ordem de seu destino, integra em si mesma como parte tudo que a obsta e contraria, assim tam-
bém o vivente racional pode mudar todo empecilho em material seu e utilizá-lo, seja qual for o
desígnio primitivo.
36. Que não te transtornem as conjeturas sobre o desenrolar de tua vida. Não imagines em
conjunto quais e quantas canseiras é de crer te sobrevenham, mas, a cada uma que surge, per-
gunta a ti mesmo: Que de insuportável e intolerável há nesse trabalho? Terás vergonha de
confessá-lo.
Em seguida, recorda que não é tampouco o passado que te aflige, mas sempre o presente. E
este se apouca, desde que o isoles e desmintas a tua inteligência de que não pode arrostá-lo só.
37. Acaso Pantéia ou Pérgamo*º estão agora sentados junto ao esquife de Vero?
— E daí?
— E Câbrias*" ou Diotimo junto ao de Adriano?
— Ridículo! E daí?
— Se estivessem ali sentados, haveriam estes de notá-lo?
— E daí?
— Seo notassem, haveriam de gostar?
— E daí?
— Se gostassem, haveriam aqueles de ser imortais? Não estava assim determinado, que de-
78 Genro de Augusto. — ”? Filósofo da corte de Augusto.
78 Amigo de Augusto, descendente de nobres etruscos, Mecenas foi protetor de Horácio e, e. Virgílio; seu
nome tornou-se apelativo de todos os ricos que amparam escritores eartistas. - E
7º Veja nota 33. — *º Libertos de Vero. — *! Libertos de Adriano..
MEDITAÇÕES 309
viam primeiro envelhecer e depois morrer? O que, pois, iam aqueles outros fazer mais tarde,
quando estes morressem?
Bodum tudo isso, odre cheio de lama de sangue.
38. Se tens vista aguda, olha e julga com o ânimo mais sábio.
39. Virtude sublevada contra a justiça não vejo na constituição do vivente racional; contra
o prazer, vejo a temperança.
40. Se suprimires tua opinião sobre o que aparentemente te aflige, tu mesmo te colocas na
máxima segurança.
— À quem te referes?
— À tua razão.
-— Mas eu não sou a razão.
— Bem, então, que tua razão não aflija a si mesma; se outra coisa está mal em ti, que forme
opinião sobre si mesma.
41. Um empecilho à sensação é um mal para uma natureza animal; um empecilho ao ins-
tinto é igualmente um mal para uma natureza animal. Existe alguma outra coisa igualmente
empecilho e mal para a constituição vegetal. Da mesma forma, portanto, um empecilho da inteli-
gência será um mal para uma natureza inteligente.
Transpõe isso tudo para o teu caso. Toca-te uma dor, um prazer? Que a sensibilidade se
encarregue. Um obstáculo se opôs a um impulso? Se te entregaste sem reserva ao impulso, então
é um mal enquanto és ser racional; se, porém, eximiste a inteligência, já não sofreste dano nem
impedimento.
Ao que é próprio da inteligência, nenhum outro ente sói empecer; não a toca o fogo, nem o
ferro, nem o tirano, nem a calúnia, nada de nada; uma vez tornada esfera perfeita,*? assim
fica?
42. Não tenho o direito de magoar a mim mesmo, Ois jamais magoei a outrem por querer.
43. Cada qual tem o seu deleite. O meu é quando o meu guia goza de bem-estar, sem aver-
são a nenhuma pessoa ou a nenhum dos acontecimentos que ocorrem aos homens. tudo vendo
com olhos benevolentes. dando a cada coisa boa acolhida e tratando-a pelo que vale,
44. Concede a ti mesmo este momento presente. Quem aspira de preferência à celebridade
no futuro não leva em conta que os homens de então hão de ser tais quais os de agora, que mal
suporta; aqueles também serão mortais.
Que te importa, em suma, que eles façam eco a tais ou quais vozes ou tenham tal ou qual
opinião a teu respeito?
45. Toma-me e atira-me onde quiseres; ali manterei jovial o meu nume, isto é, satisfeito de
encontrar-se e agir da maneira que convém à sua própria constituição.
Isto merece, acaso, que, por sua causa, minha alma sofra e se rebaixe, humilhada, prostrada,
submersa, amedrontada? E o que acharás que valha tanto?
46. A homem nenhum pode suceder nada que não seja contingência humana; nem ao boi,
que não seja de boi; nem à vinha, que não seja de vinha; nem à pedra, que não seja próprio de
pedra.
Se, pois, a cada qual acontece o que lhe é costumeiro e natural, por que te agastares? A natu-
reza comum nada trouxe de insuportável para ti.
47. Se uma causa exterior te magoa, não é ela que te molesta, mas o juízo que dela fazes.
Está em tuas mãos apagá-lo prontamente. Se alguma das tuas próprias disposições te aflige, quem
82 A imagem é de Empédocles. filósofo de Agrigento. do século Va.C.. segundo o qual os elementos são qua-
tro: o ar, O fogo, a terra e a água; associando-se pelo Amor, ou dissociando-se pela Discórdia, os elementos
formam os seres compostos.
310 MARCO AURÉLIO
impede que retifiques o teu critério? Igualmente, se te pesa de não realizares determinado propó-
sito que te parece são, por que não o realizas em vez de te afligires?
— É que um obstáculo mais forte se opõe.
— Então, não te aflijas, pois não é tua a culpa de não o realizares,
— Mas não vale a pena viver sem que se realize.
— Então, deixa a vida de bom grado, tal como morre também quem realiza, mas sem ran-
cor aos obstáculos.
48. Lembra-te de que o guia se torna inexpugnável quando, recolhido em si, contenta-se de
não fazer o que não quer, mesmo quando se põe em guarda sem raciocínios. Que será quando,
cercado de precauções e raciocínios, formar juízo de alguma coisa?
Por isso a Inteligência isenta de paixões é uma fortaleza; o homem não tem abrigo mais forti-
ficado onde se refugie e se livre, para o futuro, de cair prisioneiro. Quem não o viu é um ignorante;
quem viu e não se refugiou, um infeliz.
49. Não digas a ti mesmo nada em acréscimo ao que revelam as idéias que se apresentam.
Comunicaram-te que fulano fala mal de ti. Comunicaram isso; que ficasses prejudicado não
comunicaram. Vejo que o filho está doente. Vejo-o; mas que esteja em perigo não vejo.
Fica, pois, assim, sempre nas primeiras idéias, sem ajuntar nada de teu, e nada te acontece.
Antes, ajunta que reconheces cada um dos fatos que ocorrem no mundo.
50. O pepino amarga? Deixa-o. Há espinheiros no caminho? Esquiva-te. Basta. Não acres-
centes a pergunta: Por que existem essas coisas no mundo? Aliás, rirá de ti o estudioso da nature-
za, como ririam o marceneiro e o sapateiro, se os repreendesses por veres em suas oficinas raspas
e aparas de seus trabalhos.
Em verdade, eles têm onde as despejar, enquanto a natureza universal não tem lugar fora; O
admirável no seu mister é que, tendo traçado seus próprios limites, tudo quanto dentro deles pare-
ce estragado, velho e imprestável, ela o transmuda em si própria e dessas mesmas coisas de novo
cria outras novas, e assim não precisa de substâncias estranhas nem de lugar onde despejar as
podridões. Basta-lhe, portanto, seu próprio espaço, sua própria matéria, seu próprio engenho.
51. Não sejas vagaroso em teus atos, confuso em tuas conversas, errante em tuas idéias; não
te encolhas duma vez em tua alma nem te projetes fora, nem passes a vida absorvido no trabalho.
Matam-te, espostejam-te, perseguem-te com maldições? Que há nisso que impeça tua mente
de conservar-se pura, sensata, prudente, justa? É como se alguém, parado junto duma fonte clara
e doce, a insultasse: ela não deixaria de manar sua água boa de beber. Que lhe atire lama, estru-
me, que seja; ela prestes o dissolverá e lavará, sem tingir-se de modo algum. Como, pois, terás
uma fonte inexaurível e não um poço?
Cresce a todo momento em independência, com bondade, singeleza, recato.
52. Quem não sabe o que é o mundo não sabe onde está; quem não sabe para o que nasceu
não sabe o que é, nem o que o mundo é. Quem negligenciou uma dessas noções não poderia dizer
sequer para o que existe.
Que te parece quem foge ou teme o louvor dos que o aplaudem, ou os que ignoram onde
estão e o que são?
53. Queres ser louvado por um homem que se maldiz três vezes por hora? Queres agradar
a um homem que de si mesmo não se agrada? Agrada-se de si mesmo quem se arrepende de quase
tudo que faz?
54. Não te limites a respirar com os outros o ar circundante, mas doravante pensa em con-
junto com a inteligência que tudo envolve; a força intelectiva está tio derramada em toda parte
e tão distribuída a quem pode sorvê-la quanto o ar a quem o pess: aspirar.
55. O vício não causa nenhum dano ao mundo em geral; em particular, não causa nenhum
dano a outrem, mas só é prejudicial âquele a quem é facultado livrar-se dele tão cedo o queira.
56. O livre arbítrio de meu próximo é tão indiferente ao meu livre arbítrio quanto o seu espí-
rito e a sua carne. Com efeito, embora tenhamos sido criados tanto quanto possivel unsjpara os
|
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ST TS PP SD as A DR RS o ESSES SS ES ESSE
MEDITAÇÕES 311
outros, cada um de nossos guias é senhor de si. Doutra forma, o vício do próximo haveria de ser
mal meu, o que não houve por bem a divindade, para que não estivesse em poder de outrem cau-
sar a minha desventura.
57. A luz do sol parece despejada e está difundida por tudo; não, porém, esgotada; é que
esse difundir é um prolongar. Sua luminosidade chama-se actínia*? pelo fato de se alongar. Pode-
mos verificar o que vem a ser um raio de luz, quando observamos a do sol penetrar numa sala es-
cura por uma abertura estreita; ela se alonga em linha reta e como que se apóia no primeiro objeto
sólido que se lhe antolha barrando-lhe a passagem para o ar além; ali pára, sem escorregar nem
cair. ;
Assim se deve a inteligência derramar e difundir, nunca se exaurindo, mas alongando-se, sem
bater com violência ou ímpeto nos obstáculos antolhados, nem tampouco cair, mas parando e ilu-
minando aquilo que a recebe. Por si mesmo se privará do brilho aquilo que não o refletir.
58. Quem teme a morte teme ou a ausência dos sentidos, ou sentir de outra maneira. Ora, ou
não haverá mais sensação e tampouco sentirás nenhum mal, ou adquirirás sensibilidade de outra
natureza e serás um vivente de outra espécie, não terás cessado de viver.
59. Os homens foram feitos uns para os outros; ensina-os, pois, ou suporta-os.
60. Dum modo voa a flecha, doutro a inteligência; mas não menos voa em linha reta e sobre
o alvo a inteligência quando se precautela e quando se detém no exame.
61. Penetra até o guia de cada um e deixa todos os outros penetrarem até o teu.
Livro IX
1. Quem pratica injustiça comete impiedade. Como a natureza universal constituiu os viven-
tes racionais uns em vista dos outros, para se ajudarem mutuamente segundo seu mérito e não se
prejudicarem de modo nenhum, quem transgride esse decreto comete impiedade, evidentemente,
perante a mais augusta das divindades.
Também quem mente comete impiedade para com a mesma divindade; a natureza do uni-
verso é a natureza das realidades e as realidades têm parentesco com as coisas existentes. Ade-
mais, ela se cnama também Verdade e é a causa primeira de todas as verdades. Portanto, quem
mente por querer comete impiedade, pois, enganando, pratica injustiça.
Também quem o faz sem querer, na medida em que destoa da natureza universal e a desor-
dena combatendo a natureza do mundo. Sim, combate-a quem, malgrado seu, é levado para o
lado oposto à verdade; recebeu da natureza recursos, mas negligenciou-os e por isso é incapaz de
discernir entre a verdade e a mentira.
Igualmente comete impiedade quem procura os prazeres como bens e foge das dores como de
males. Com efeito, pessoa que age assim há de necessariamente acusar amiúde a natureza comum
de injustiça nos quinhões atribuídos aos biltres e aos honrados, porque muitas vezes os biltres
gozam prazeres e conseguem aquilo que os produz, enquanto os honrados deparam o sofrimento
e suas causas. Além disso, quem teme o sofrimento há de temer um dia algum dos eventos do
mundo; já nisso há impiedade. Quem vai em busca de prazeres não se absterá da injustiça; aí está
uma impiedade evidente.
Ha opostos a que a natureza comum é indiferente — e não teria criado uns e outros se não
fosse indiferente a uns e outros; quanto a eles quem deseja seguir a natureza, afinando por ela os
seus sentimentos, deve também sentir indiferença. Quem, pois, não é indiferente à dor e ao prazer,
à morte e à vida, à glória e à obscuridade, que a natureza universal trata com Indiferença, comete,
é claro, impiedade.
Dizer que a natureza comum os trata com indiferença é como dizer que eles acontecem
indiferentemente, decorrendo dos fatos e de suas consegliências graças a um impulso inicial da
Providência, pelo qual, a partir de certo momento, ela deu começo à presente organização do
*º Etimologia fantasiosa, pela aproximação de actis, raio de luz, e ecteino, alongo.
312 MARCO AURÉLIO
mundo, compondo determinadas razões das coisas futuras e separanclo certas forças geradoras de
substâncias, transformações e sucessões como as de que se trata.
2. Seria mais próprio de pessoa culta partir dentre os homens sem ter provado o gosto da
mentira, de toda simulação, sensualidade e orgulho; contudo, um roteiro de emergência é exalar
o último alento enfastiado desses vícios. Acaso preferes apegar-te ao vício e ainda não te persua-
diu a experiência a fugir dessa peste? Peste, com efeito, é a corrupção da inteligência muito mais
do que uma análoga má composição e alteração do ar respirável em torno de nós. Esta é a peste
para os viventes enquanto viventes; aquela, dos homens enquanto homens.
3. Não desprezes à morte; dá-lhe boa acolhida, como a uma das coisas que a natureza quer.
A decomposição é em si mesma um fenômeno como a juventude, a velhice, o crescimento, a
maturidade, o aparecimento dos dentes, da barba, das cas, a fecundação, a gravidez, O parto e
quantas outras operações naturais trazem as quadras da tua vida.
Portanto, diante da morte, a atitude do homem que raciocina não é recebê-la com revolta,
violência ou soberba, mas aguardá-la como uma das operações naturais. Como aguardas agora
que o nascituro saia um dia do ventre de tua esposa, assim acolhe a hora em que tua alma escapa-
rá desse invólucro
Se queres um preceito simples, que toque o coração, nada te conformará melhor com a morte
do que examinar de que objetos te vais separar e com quais caracteres deixará de estar misturada
tua alma. Não é absolutamente mister te desavenhas com eles, mas que zeles por eles e os suportes
com brandura, não esquecendo, embora, que os homens que deixarás não cultivam os teus
princípios.
Com efeito, se algo te pode reter e prender à vida, seria apenas a concessão de conviveres.
com pessoas de princípios iguais. Vês, porém, quanto exaure a divergência de vistas no convívio,
a ponto de dizeres: Oxalá mais cedo venhas. ó morte, para que eu não acabe por me esquecer de
mim mesmo !
4. Quem peca contra si peca; quem comete injustiça a si agrava, porque a si mesmo
perverte.
5. Muitas vezes comete injustiça quem omite, não apenas quem faz alguma coisa.
6. Basta o juízo evidente do momento, a ação de interesse social do momento, a disposição
do momento, de bem acolher todo acontecimento produzido pela causa exterior.
7. Delir a imaginação; reprimir o impulso; apagar o desejo; dorninar o guia.
8. Entre os viventes irracionais foi distribuída uma alma única; aos racionais foi partilhada
uma alma inteligente única, como única é a terra de todos os seres terrenos, por uma luz única
enxergamos e um ar único respiramos todos quantos temos vista e respiração.
9. Todos os seres que compartilham algo em comum anseiam por seus semelhantes. Tudo
que é terreno pende para a terra; todo líquido conflui; igualmente o aeriforme, de sorte que é pre-
ciso recorrer a barragens e violência. O fogo tende a subir graças ao fogo elementar; tão pronto
está a conflagrar com todo fogo daqui, que todo materia! um tanto rnais seco é inflamável devido
a menor grau de combinação com aquilo que impeça o incendimento,
Dessarte, tudo que participa da natureza inteligente comum anseia, igualmente e até mais,
por seus semelhantes. Quanto mais excele sobre os outros seres, tanto mais prontamente se mistu-
ra e confunde com o seu semelhante. .
Entre os irracionais não custa notar enxames, manadas, ninhadas e como que amores; por-
que neles já existem almas e se encontra no ser superior o instinto gregário intenso, qual não há
nos vegetais, nem nas pedras e paus. Entre os viventes racionais verificam-se regimes políticos,
amizades, famílias, reuniões, bem como, nas guerras, tratados e tréguas. Entre os seres ainda
superiores, conquanto distantes, de certo modo subsiste uma união, por exemplo entre os astros.
Assim, o esforço para ascender a grau mais elevado pode opcrar solidariedade mesmo em seres
distantes.
Observa, pois, o que ora sucede: apenas os seres inteligentes andam agora esquecidos da
atração mútua e da tendência à união e somente neles não se vê confluência. Contudo, por mais
'
MEDITAÇÕES 313
“que fujam, são detidos de todos os lados, pois pode mais a natureza; verás o que digo, se prestares
atenção. Mais depressa se poderá achar um objeto de terra sem contato com nenhum objeto de
"terra do que um homem desligado da Humanidade.
10. O homem, a divindade, o mundo, dão fruto; na quadra própria cada qual dá fruto. Se o
“uso aplica o termo, no sentido próprio, à vinha e outras plantas, não importa; a razão dá um
fruto, tanto comum como particular, do qual provêm outros semelhantes, de natureza igual à da
razão mesma. S
11. Se podes, corrige; senão, lembra-te de que para isso te foi dada a bondade. Os deuses
mesmos são bondosos para com tais pessoas; ajudam-nas até na obtenção de alguns desejos,
como o de saúde, riqueza, glória; tão bondosos são. Tu também o podes ser; senão, dize-me:
quem to proíbe?
12. Trabalha, não como um coitado, nem como quem quer inspirar dó ou ser admirado;
deseja, sim, apenas uma coisa: andar e parar como determinar a razão política.
13. Hoje saí de todos os embaraços; ou melhor, expulsei todos os embaraços; pois não se
achavam fora de mim, mas cá dentro, nas opiniões.
14. Tudo isso'é, na experiência, vulgar; na duração, efêmero; na matéria, grosseiro. Tudo
hoje é tal qual era no tempo daqueles que sepultamos.
15. As coisas, por si mesmas, param do lado de fora, sem nada saberem de si e nada mani-
festarem. Quem se manifesta a respeito delas? O nosso guia.
16. O beme o mal do ser racional e social não estão no que sente, mas no que faz, como sua
virtude ou vício tampouco estão no que sente, mas no que faz.
17. Para a pedra atirada, cair não é um mal, nem subir um bem.
18. Penetra-os até o guia e verás que juízes temes e que juízes são de si mesmos!
19. Tudo está em transformação. Tu próprio estás numa alteração contínua e, em certo sen-
tido, perecendo; todo o universo também.
20. O pecado de outrem cumpre deixá-lo onde está.
21. O fim da atividade, a cessação e como que morte dum impulso, duma opinião, não cons-
tituem nenhum mal. Passa agora às idades, ou seja, à infância, à adolescência, à juventude, à
velhice; toda mudança desses estados também é morte. É de temer? Passa agora à vida com teu
avô, com tua mãe e por fim com teu pai; achando aí outras muitas destruições, transformações e
cessações, pergunta a ti mesmo se eram de temer. Assim, pois, tampouco o será o fim, a cessação,
a transformação de toda a tua vida.
22. Penetra até o teu guia, até o do universo e o dessa pessoa; o teu, para criar nele uma
mente justiceira; o do universo, para te lembrares de que todo és parte; o dessa pessoa, para sabe-
res se é ignorância ou juízo formado e ao mesmo tempo levares em conta que é teu parente.
23. Assim como tu mesmo integras a comunidade social, assim integre toda ação tua a vida
social. Ação tua sem relação, próxima ou remota, com o bem comum lacera a vida, impede que
seja una, é sediciosa como quem numa república isolasse dessa espécie de sinfonia a sua parte
individual.
24. Cóleras e brinquedos infantis, almas que carregam cadáveres, que nos trazem à lem-
brança, com mais vida, a-Evocação dos Mortos.*
** A alusão tanto pode ser a uma passagem do canto XI da Odisséia como à sátira de Menipo que traz esse
nome.
314 MARCO AURÉLIO
25. Atenta na qualidade da causa formal e examina-a abstraída da causa material; em segui-
da, delimita também o tempo máximo que, por sua natureza, subsiste esta individualidade.
26. Sofreste milhares de penas por não te satisfazeres com que teu guia exerça o mister para
que foi constituído. Basta, porém!
27. Quando outrem te censura ou odeia, ou quando clamam contra ti quejandos doestos,
busca-lhes a alma, penetra e vê como são. Verás que é escusado te esfalfes por que tenham de ti
uma opinião boa ou má.
Não obstante, deves ser benevolente para com eles, por natureza teus amigos. Os próprios
deuses ajudam-nos de todas as maneiras, por meio de sonhos, de oráculos, naquilo justamente por
que eles se atormentam.
28. Os ciclos do mundo são esses, de alto a baixo, século após século. Ou a inteligência do
universo age por um impulso em cada caso — e, se assim é, acolhe tu seu movimento; ou-teve um
impulso único, derivando o resto por via de conseqtiência, e uma coisa contém a outra, pois de
certo modo são átomos ou indivisos.
Em suma, se há um Deus, tudo está bem; se reina o acaso, não obres tu ao acaso. Em pouco,
a terra nos cobrirá a todos; depois, ela, por sua vez, se transformará e o resultado, por sua vez,
se transformará indefinidamente e o novo resultado, por sua vez, se transformará indefinidamente.
Quem considerar as vagas sucessivas de transformações e mudanças, bem como sua rapidez,
desprezará tudo que é mortal.
29. A causa universal é uma torrente; tudo ela carrega.
Quão vulgares esses estadistas anãos, que supõem praticar a Filosofia! Recheados de muco !
Homem, que fazer? Faze o queagora a natureza requer. Começa, se deixam, e não olhes em torno
a ver se alguém o saberá.
Não esperes a república de Platão; satisfaze-te com um progresso ainda que mínimo; consi-
dera que não é pouca coisa o resultado desse progresso.
Quem lhes mudará um dos princípios? Sem mudança de princípios, que mais haverá, senão
servidão de gemebundos a fingir que obedecem?
Aduze Alexandre e Filipe, cita-me Demétrio de Falera.º * Eu os seguirei, caso tenham visto
o que a natureza comum queria e o tenham ensinado a si mesmos; mas, se encenaram papéis, nin-
guém me condenou a imitá-los.
A obra da Filosofia é singela e modesta; não me induzas a pompear grandezas.
30. Contemplar, do alto, rebanhos aos milhares, ritos aos milhares, barcos de todo gênero
nas tempestades e nas calmas, diversidade de pessoas nascendo, convivendo, desaparecendo.
Imagina também a vida que outros viveram outrora, a que se viverá depois de tie a que se
vive agora entre as nações bárbaras; quantos sequer sabem o teu norte, quantos logo o esquece-
rão, quantos ora te louvam e talvez em breve te desgabem; como não é digna de menção a memó-
ria, nem a glória, enfim, nada de nada.
31. Impassibilidade em face dos acontecimentos oriundos da causa exterior; justiça nas
obras oriundas da causa que vem de ti; isto é, impulsos e atos confinados exclusivamente ao mis-
ter do bem comum, que isso é conforme com a tua natureza.
32. Podes eliminar muitas coisas supérfluas que te incomodam € subsistem inteiramente de
tua opinião, e abrir a ti mesmo, daí por diante, largo espaço para abarcar com o pensamento o
universo inteiro, para meditar sobre o tempo infinito e considerar a rápida transformação de cada
coisa em particular, sobre quão breve o que vai do nascimento à dissolução, que infinito precedeu
o nascimento e quão igualmente imenso o que vem após a dissolução.
33. Cedo estará destruído tudo que vês; as testemunhas da destruição, por sua vez, serão
destruídas; quem morre em extrema velhice e o morto prematuro se acharão em situação idêntica.
88 Governador de Atenas, de 217 a 207 a.C., por delegação de Cassandro, rei da Macedônia, instaurou um
regime oligárquico e tirânico. '
MEDITAÇÕES 315
34. Quais os guias dessa gente, o alvo de seus esforços, o móvel de seu afeto e sua estima?
Imagina que estás vendo suas almas nuas. Quando supõem ferir com suas críticas ou servir com
seus louvores, que pretensão !
35. A perda nada mais é que mudança. Nesta se compraz a natureza universal; segundo
seus desígnios tudo com acerto se produz, se vem produzindo desde a eternidade sem variar de
aspecto e se reproduzirá infinitamente em outros seres semelhantes.
Qual a razão, pois, de dizeres que tudo saiu errado e que tudo sairá sempre errado e nenhum
poder se encontrou jamais, entre tantos deuses, que venha a corrigi-lo, e que o mundo está conde-
nado a afundar em misérias perpétuas?
36. A podridão da matéria que é substância de cada ser é água, pó, ossos, ranço; ou, ainda:
calos da terra são os mármores; sedimentos, o ouro, a prata; pêlos, as roupas, sangue, a púrpura,
e assim tudo mais. O alento também é coisa da mesma sorte, que passa de um a outro desses
estados.
37. Basta dessa existência lastimável, de resmungos, de macaquices. Por que te transtornas?
Que há nisso de novo? O que te desvaira? A causa? Examina-a. A matéria? Examina-a. Fora
delas nada existe. Mas torna-te, afinal, mais simples e melhor perante os deuses. Tanto faz obser-
var isso durante um século como por três anos.
38. Se pecou, o mal é seu; quiçá não tenha pecado.
39. Ou tudo procede, como num só corpo, duma única fonte inteligente e a parte não deve
queixar-se do que ocorre para o bem do todo, ou o que há são átomos, nada mais do que papas
e dispersão.
: ma Fnia sr ; MR
Por que, pois, te transtornas? Estás dizendo a teu guia: Estás morto, destruído; viraste uma
fera, um comediante; entraste num rebanho, pastas.
40. Os deuses ou nada podem ou podem. Se não podem, por que rezas? Se podem, por que
não lhes rogas a graça de não temer nem cobiçar nada disso, nem sofrer por nada disso, em vez
de pedir que uma dessas coisas se te depare ou não depare? Afinal, se podem ajudar aos homens,
podem ajudá-los também nesses pedidos.
Dirás, talvez: “Os deuses deixaram isso nas minhas mãos”. Então, não ê melhor usares tuas
forças com liberdade em vez de lutares com o que de ti não depende, com servidão e aviltamento?
E quem te disse que os deuses não nos ajudam no que está em nossas mãos? Começa a orar por
isso e verás.
Fulano roga: “.. .que fulana me receba”. Roga tu: “.. .que eu não deseje ser recebido por
ela”. Um outro: “...que eu fique livre de beltrano”. Tu: “. . .que eu não precise livrar-me dele”.
Um outro: “...que eu não perca o meu filho”. Tu: “.. .que eu não sinta o medo de perdê-lo”.
Em suma, passa a rezar assim e observa o resultado.
41. Conta Epicuro: “Na doença, meus assuntos não eram os sofrimentos físicos, nem con-
versava sobre doenças com as visitas; continuava nos meus estudos anteriores da natureza e apli-
cava-me em especial a esta questão: como a inteligência, embora envolvida em semelhantes agita-
ções da carne, preserva, sem se perturbar, o seu bem próprio? Tampouco”, prossegue, “dava azo
aos médicos de se envaidecer da importância de seu mister, mas minha vida decorria feliz e
digna”.
Que sintas como ele na doença, se adoeceres, e em qualquer circunstância. Não abandonar
a Filosofia em nenhuma conjuntura, nem disparatar com leigos em pontos de ciência natural, são
preceitos comuns a todas as seitas; atentar somente no que se está fazendo e no instrumento com
que se faz
42. Quando esbarrares com a impudência de alguém, pergunta logo a ti mesmo: Podia não
haver impudentes no mundo? Não podia. Não reclames, portanto, o impossível; esse é um daque-
les impudentes que há necessariamente no mundo.
Recorre ao mesmo pensamento ao deparar um celerado, um desleal, um culpado do que for.
Com a lembrança de que é impossível não existir essa espécie de gente, serás mais indulgente para
com cada um.
316 MARCO AURÉLIO
Eficaz, também, é pensar em qual virtude deu a natureza ao homem para suportar determi-
nada falta, pois ela deu como antídoto da ingratidão a paciência e de outros vícios outras virtudes.
Em suma, tens o direito de ensinar a quem se transvia; todo pecador é alguém que erra a
meta e se transvia. Aliás, que mal te fez? Verificarás que, dentre as pessoas com quem te acerbas,
“nenhuma fez nada que redunde em detrimento de tua inteligência, e neste apenas consiste para ti
todo mal e todo dano. ; a
Que de mau e estranho há em proceder o inculto como inculto? vê se não deves recriminar
antes a ti por não teres previsto que ele cometeria essa falta. A razão te dá elementos para enten-
deres provável que tal pessoa incorra em tal pecado; tu, não obstante, o esqueces e estranhas que
o pratique. ;
Sobretudo, quando te queixas dum desleal ou ingrato, volta os olhos para ti mesmo; eviden-
temente é culpa tua se acreditaste que um homem dessa índole manteria a palavra ou se, ao conce-
deres uma mercê, o fizeste com reservas e com o intuito de recolher prontamente todo o fruto de
teu próprio ato.
Que mais queres quando fizeste o bem a uma pessoa? Não te basta haveres procedido con-
forme à tua natureza? ainda procuras a recompensa? É como se os olhos reclamassem a paga de
verem e os pés a de andarem. Assim como esses órgãos foram feitos para essas funções e alcan-
çam o seu fim quando as desempenham segundo sua constituição própria, assim O homem, feito
para a beneficência, quando pratica algum benefício ou apenas colabora num trabalho indiferente,
desempenhou o mister para que foi constituído e alcançou o seu fim.
LivrO X
l. Serás, minha alma, algum dia boa, simples, una, nua, mais visível do que o corpo que te
envolve? Provarás algum dia o sabor de sentimentos amoráveis e resignados? Estarás alguma vez
saciada, sem precisão nem saudade, nem desejo de coisa alguma, animada ou inanimada, para
desfrutar deleites? Nem de tempo para os desfrutar mais longamente, nem de lugar, nem de espa-
ço, nem de clima propício, nem de boa harmonia das pessoas? Estarás satisfeita com a situação,
contente com tudo que te acontece, convencida de que tudo vai bem para ti e é graça dos deuses,
de que estará bem tudo que a eles apraz e tudo que hão de outorgar para a salvação do vivente
perfeito, bom, belo, que gera, une, envolve e abraça tudo quanto se desfaz para o nascimento de
outros seres iguais? Serás um dia tal que habites a mesma cidade que os deuses e os homens, sem
deles te queixares nem lhes dares razão de queixa?
2. Observa o que a natureza exige de ti como de um ser só por ela governado; depois, cum-
pre-o e sê submisso para não vir tua natureza de vivente a sofrer detrimento em suas disposições.
Em seguida, deves observar o que de ti exige a tua natureza de vivente e aceitá-lo integral-
mente, para não vir tua natureza de vivente racional a sofrer detrimento em suas disposições.
Porém, o racional é desde logo social. Segue estas regras e não desperdices os teus esforços.
3. Todo acontecimendo ocorre de maneira que tua natureza ou q suporte ou não. Se te acon-
tece o que a tua natureza suporta, não te rebeles; suporta-o como a tua natureza pode. Se aconte-
cer o que tua natureza não suporta, não te rebeles, porque tanto mais cedo te há de exaurir.
Lembra-te, porém, de que tua natureza suporta tudo que de tua opinião depende tornar
suportável e tolerável, bastanto imaginares que é de tua conveniência ou de teu dever fazê-lo.
4. Se ele se engana, ensina-o com bondade e mostra-lhe o erro. Se não o podes, culpa a ti
mesmo ou nem sequer a ti mesmo.
5. O que quer que te aconteça estava para ti preparado desde a eternidade, e a urdidura das
causas desde o tempo infinito havia entretecido a tua substância com a sua ocorrência.
6. Quer sejam os átomos, quer seja a natureza, admita-se em prirneiro lugar ser eu uma parte
do todo regido pela natureza; depois, ter eu certo parentesco com as partes de igual origem.
Lembrado disso, na minha qualidade de parte, não me hei de contrariar com nenhum qui-
nhão do todo, pois nada prejudica uma parte, se convém ao todo. O todo (com efeito, nada tem
MEDITAÇÕES 317
que lhe não convenha; isso é comum a todas as naturezas, mas a dó mundo goza ainda da vanta-
gem de não ser forçada por nenhuma causa exterior a produzir nada que lhe seja nocivo.
Lembrando-me de que sou uma parte de semelhante todo, acolherei de bom grado tudo que
acontecer. Como sou de certo modo aparentado com as partes de igual origem, nada farei contrá-
rio à comunidade; antes, visarei ao bem de meus semelhantes, dirigirei todos os meus impulsos no
sentido da conveniência comum e os desviarei do rumo oposto.
Assim realizados esses propósitos, minha vida necessariamente correrá com felicidade, tal
como se imaginaria o curso feliz da vida dum cidadão que, na segiiência de seus atos, fosse útil
aos concidadãos e saudasse de bom grado os quinhões que a cidade lhe distribuísse.
7. É fatal que se deteriorem as partes do todo, quero dizer, tudo que o mundo abrange;
entenda-se no sentido de que se alterem. Mas, digo, se isso for para elas um mal inevitável, o todo
não pode estar bem dirigido, uma vez que as partes caminham para a alteração e estão diversa-
mente constituídas para a deterioração.
Acaso a natureza empreendeu arruinar suas próprias partes, criando-as sujeitas a cair no
mal e necessariamente inclinadas para o mal, ou não percebeu que assim acontecia? Não; ambas
as hipóteses são incríveis. Se, dispensando á natureza, se interpretasse o fato pela constituição das
coisas, que ridículo seria afirmar, de um lado, que as partes do todo estão constituídas para se
transformar e admirar-se, de outro, indignar-se como se fosse um acontecimento fora do natural,
principalmente quando a decomposição as resolve naqueles elementos de que cada qual é
composta ! À
Ou há uma dispersão dos elementos componentes, ou a transformação da parte sólida em
terra e do alento em ar, para que também estes sejam recolhidos pela razão do universo, quer seja
este consumido periodicamente pelo fogo, quer se renove por meio de mudanças perpétuas.
Não penses que tua parte sólida e teu alento são os de quando nasceste; pois isso tudo se
acresceu afluindo dos alimentos e do ar inalado a partir de ontem ou anteontem. É, pois, a massa
adquirida que se transforma e não a que a mãe deu à luz. Supõe, ao contrário, que a esta estás
estreitamente ligado pela individualidade, que nada significa, a meu ver, na tese que ora exponho.
8. Depois de teres atribuído a ti mesmo os qualificativos de bom, grave, veraz, prudente,
cordato, altivo, cuidado para não mudares jamais de qualificativos e, se vieres a perder esses,
regressa a eles depressa.
Lembra-te de que prudente significa em ti a atenção minudente e cuidadosa a cada porme-
nor; cordato, a aceitação espontânea dos quinhões distribuídos pela natureza comum; altivo, a
supremacia da parte persante sobre as emoções brandas ou violentas da carne, sobre a gloríola,
a morte, etc.
Se te conservares nesses qualificativos sem anelar que tos atribuam as outras pessoas, serás
outro e encetarás uma outra vida.
O permaneceres tal qual tem sido até agora e te deixares nessa vida lacerar e conspurcar é
próprio de indivíduo grosseiro e apegado à vida, parecido com aqueles lutadores semidevorados,
que, embora cobertos de ferimento e de sangue, ainda assim pedem que os guardem até amanha,
para serem, como estão, atirados às mesmas garras e colmilhos.
Monta, pois, nesses poucos qualificativos; se te puderes manter neles, mantém-te como se
tivesses emigrado para umas Ilhas Afortunadas;º º se perceberes, porém, que estás caindo e já não
dominas, aparta-te, animoso, para algum recanto onde possas dominar, ou então deixa definitiva-
mente a vida, sem cólera, com singeleza, liberdade e modéstia, tendo realizado na vida pelo menos
uma façanha, a de sair assim.
Contudo, muito te ajudaria a lembrar-te dos qualificativos a lembrança dos deuses e a de que
estes não querem ser adulados e sim que todos os seres racionais a eles se igualem; que a figueira
faça o mister de figueira, o cão o de cão, a abelha o de abelha e o homem o de homem.
9. A farsa, a guerra, O terror, o torpor, a servidão, apagarão em ti, dia após dia, todos aque-
les princípios sagrados que concebes no estudo da natureza e transmites. Deves, porém, tudo ver
e fazer de tal maneira que, além de levar a cabo tuas volumosas tarefas, ponhas em prática a teo-
ria, e preserves, despercebida, não oculta, a confiança emanada da ciência de cada questão.
8 é Tlhas fabulosas, cujos habitantes gozavam da mais completa felicidade.
318 “MARCO AURÉLIO
| Quando te deleitarás com a singeleza? Quando com a circunspecção? Quando com o conhe-
cimento de cada ser, do que é sua essência, que lugar ocupa no mundo, quanto tempo por sua
natureza deve durar, de que elementos se compõe, quem o deve possuir, quem o pode dar e tomar?
10. Enfatua-se a aranha de ter caçado a mosca; este, de um lebracho; aquele, de uma ancho-
va na rede: outro, de javardos; outro, de ursos; outro, de sármatas.º ” Se investigarmos seus prin-
cípios, não são todos eles salteadores?
11. De que modo se transformam todas as coisas umas nas outras? Procura um método de
investigá-lo, presta atenção constante e trata de exercitar-te nesse particular: nada contribui tanto
para a elevação dos sentimentos.
Despiu-se do corpo e advertindo que, dentro em pouco, terá de deixar tudo isto e partir den-
tre os homens, confiou-se todo à justiça no tocante a suas ações e à natureza universal no tocante
aos outros acontecimentos.
Do que dirão ou pensarão a seu respeito, ou do que farão contra ele, nem sequer cogitará,
contentando-se com estes dois pontos: praticar a justiça no que está fazendo agora e acolher de
bom grado o seu quinhão presente; deixou de lado todas as outras ocupações e fainas, e nada mais
quer senão palmilhar a estrada direita da lei e seguir a divindade que palmilha a estrada direita.
12. Que necessidade há de conjeturas, quando podes examinar o que cumpre fazer e, se tudo
abarcas com a vista, seguir nesse rumo de boa mente e sem olhar para trás? Se não abarcas, podes
parar para ouvir os melhores conselheiros e, se a isso outras causas se opõem, prosseguir, atido
ao que parecer mais justo à luz dos cálculos que fizeres com base nas conjunturas do momento.
O mérito está em ser bem sucedido nesses cálculos, porque deles costuma vir o malogro.
quem obedece à razão em tudo é alguém tranqjúilo, apesar de móbil; jovial, apesar de retraído.
13. Pergunta a ti mesmo, assim que despertas do sono: acaso te importa que outrem prati-
que a justiça e o bem? Não importa. Acaso esqueceste como procedem no leito e à mesa aqueles
que elogiam ou censuram os outros com arrogância, o que fazem, o que evitam, o que buscam, O
que furtam, o que roubam, não com as mãos e os pés, mas com sua parte mais nobre, aquela onde,
quando se quer, há lealdade, pudor, verdade, a lei, o bom nume?
14. À natureza que tudo dá e toma, diz o homem instruído e modesto: “Dá o que queres e
toma o que queres”. Diz isso não de atrevido, mas apenas por ser obediente e ter bons sentimentos
para com ela.
7 15. O que resta de tua vida é breve; vive-o como numa montanha. Não importa estar aqui
ou ali, quando, seja onde for, vivemos no mundo como numa cidade. Veja a Humanidade, conhe-
ça um homem que vive deveras segundo a natureza. Se não o suportam, matem-no, que é prefe-
rível a viver ao modo deles. :
16. Não mais se trata, de modo algum, de discutir o que é um hornem de bem, mas de sê-lo.
17. Imagina, assiduamente, em sua totalidade, o tempo e a substância, e que cada ser em
particular é, diante da substância, uma semente de figo; diante do tempo, uma torcida de verruma.
18. Detém-te sobre cada ser sob teus olhos e reflete que já se está dissolvendo, já entrou
numa transformação, por exemplo, em putrefação ou dispersão, ou na espécie de morte natural a
cada um.
19. Vê-los quando comem, quando dormem, quando copulam, quando defecam, etc. Depois,
vê-los quando impam e se ensoberbecem, ou quando zangam e ralham autoritários! Todavia, a
quantos hã pouco se escravizavam, e por que!, e, dentro em breve, a que condições estarão
reduzidos!
87 ; e E E a baço aee, e
A designação se aplica a populações nômades que vagavam pelos territórios da Polônia e da Rússia
atuais, nos confins da Germânia. |
MEDITAÇÕES 319
20. A cada um convém o que a natureza universal traz a cada um, e convém na hora em que
ela o traz.
21. “A terra ama a chuva; o Éter venerável também ama”;º8 o mundo ama criar O que hã
de ser. Digo, pois, ao mundo: Temos o mesmo amor. Não é assim que se diz que tal coisa ama
acontecer?
22. Ou vives aqui, e já te acostumaste; ou escapas para fora, e era o que querias; ou morres,
e tua missão está terminada; além dessas, não há outra hipótese. Portanto, coragem!
23. Fique sempre claro que o campo é outro tanto. E como tudo aqui é o mesmo que no
campo, na montanha, na praia, onde quiseres! Encontrar-te-ás, com efeito, diante do que diz Pla-
tão: “Fechando-se em cercados na montanha”, diz ele, e também “ordenhando ovelhas que
balam?”.**
24. Que é para mim o meu guia? Que feitio lhe estou agora dando? Para que dele agora me
sirvo? Não estará vazio de inteligência? Solto e arrancado da comunidade? Não está fundido e
misturado com a carne de sorte que sofra as mesmas alterações?
25. Quem foge a seu amo é fujão. A lei é o amo; o fora-da-lei é o fujão. Ao mesmo tempo,
quem se aflige, se irrita, ou teme, não deseja que tenha acontecido, esteja acontecendo ou venha
a acontecer alguma das determinações de quem tudo rege, a lei que distribui os quinhões que
tocam a cada um. Portanto, quem teme ou se aflige ou se irrita é fujão.
26. Quem depositou o sêmen na matriz retira-se; daí por diante outra causa se encarrega de
completar e acabar o nascituro. O que foi e o que é! Ao depois, deitam-lhe alimento garganta
abaixo; daí por iante, outra causa se encarrega de criar nele a sensação, os impulsos, em suma, a
vida, a força, quais e quantos efeitos!
Contempla, pois, essas maravilhas realizadas em tamanho arcano e vê essa força como
vemos o peso e a força de ascensão, se não com os olhos, com a mesma clareza.
27. Adverte amiúde como as coisas que ora acontecem já ocorreram antes tais e quais; €
adverte que voltarão a ocorrer. Pôe diante dos teus olhos os dramas inteiros e as cenas iguais, que
conheces de experiência própria ou de narrativas mais antigas; por exemplo, toda a corte de
Adriano, toda a corte de Antonino, toda a corte de Filipe, de Alexandre, de Creso; eram todas
cenas tais quais estas; Os atores apenas eram outros.
28. Imagina que todo aquele que se aflige ou se rebela contra seja o que for é semelhante ao
leitão imolado, a escoicinhar, a cuinchar. Semelhante também quem, deitado na cama, só e em
silêncio, lamenta nossos percalços. Adverte que só ao vivente racional foi dado acompanhar os
acontecimentos de bom grado, quando todos os mais os têm de acompanhar simplesmente.
29. A cada um de teus atos em particular, detém-te e pergunta a ti mesmo se a morte é de
temer por te privar dele.
30. Quando o pecado de alguém te mortifica, afasta-te logo e avalia que pecados equiva-
lentes cometes; por exemplo, quando julgas um bem o dinheiro, ou o prazer, ou a gloríola, e
quejandos.
Atentando nisso, depressa esquecerás tua ira, por advertires que ele está sendo constrangido.
O que pode ele fazer? Então, se podes, livra-o da força que o constrange.
31. Quando vires a Satirão, imagina que é um socrático, ou Éutiques, ou Hímem;ºº quando
88 Fragmento de Eurípides.
8º A citação peca por inexata. O trecho é do diálogo Teeteto, 174 D, onde se compara o mister de governar
homens com o de pastorear rebanhos.
9º Todos estes nomes, salvo os de Severo, Xenofonte e Critão, são de personalidades obscuras. Xenofonte,
polígrafo, comandou a célebre Retirada dos Dez Mil, mercenários gregos a soldo de Ciro na Pérsia. Critão,
discípulo e amigo de Sócrates, figura em diversos diálogos de Platão, um dos quais tem o seu nome.
320 MARCO AURÉLIO
vires a Eufrates, imagina que é Eutiquião ou Silvano; quando vires a Álcifron, imagina que é
Tropióforo; quando vês a Severo,”' imagina que é Xenofonte ou Critão e, volvendo os olhos para
ti, imagina que és um dos Césares, e de igual modo em cada caso. Depois, que te ocorra esta
idéia: onde andam eles? Em lugar nenhum, ou pouco importa onde.
Assim verás continuamente o fumo e o nada que são as coisas humanas, tanto mais quando
te lembrares juntamente de que nunca mais existirá no tempo infinito aquilo que uma vez se
transformou.
Por que, pois, essa tensão? Por que não te contentas com chegar airosamente ao termo deste
breve prazo? Que matéria e que hipótese evitas? Que é tudo isso senão temas de exercício duma
razão que viu, com precisão de naturalista, o que se passa na vida?
Continua, pois, até haveres assimilado tais pensamentos, como um estômago forte tudo assi-
mila, como o fogo ardente, do que quer que lhe atirem, formará chama e luz.
32. A ninguém assista razão de dizer que não és simples ou que não és homem de bem;
minta quem de ti formar tal opinião. Isso depende exclusivamente de ti, pois quem impede sejas
bom e simples? Basta decidires não mais viver se não o, fores, pois nern a razão exige que vivas
sem que o sejas.
33. Nesta matéria, o que de mais sadio se pode dizer ou fazer? Seja o que for, tens o direito
de fazê-lo ou dizê-lo, e não alegues que to impedem.
Não pararás de gemer enquanto, ao fazeres, da matéria que se te apresentar ou deparar, o
que é próprio da constituição do homem, não sentires o mesmo deleite que os voluptuosos sentem
nos prazeres. Tens de achar um prazer todo mister que podes desempenhar conforme a tua nature-
za, e isso é possível em toda parte.
Não é dado ao rolão levar para toda parte seu movimento próprio; nem à água, nem ao fogo,
nem a nada de quanto é governado por uma natureza ou vida irracional, pois os obstáculos e
impedimentos são muitos. Mas a mente e a razão podem atravessar tudo quanto se lhes antolha,
segundo faculta a sua natureza e segundo queiram.
Tendo diante dos olhos essa faculdade, mediante a qual a razão será levada atravês de tudo,
como o fogo para cima, como a pedra para baixo, como o rolão obliquamente, não reclames mais
nada. Os demais obstáculos ou são do corpo, do cadáver, ou — salvo ilusão e abandono da razão
mesma — não causam ferimento nem mal de espécie alguma; aliás, quem o sofresse depravar-se-
ia imediatamente. No caso de todas as demais constituições, acontecerido o mal que for a qual-
quer delas, o próprio ser que o sofre, por efeito dele, se deprava; mas no caso presente, se é mister
dizê-lo, fica melhor e mais digno de elogios o homem que aproveita bem os obstáculos.
Em suma, lembra-te de que ao cidadão por natureza nada causa dano se não o causar à cida-
de; nem à cidade, se não à lei. Desses pretensos infortúnios, nenhum causa dano à lei. Ora, o que
não faz dano à lei tampouco o faz à cidade, nem ao cidadão.
34. A quem foi mordido dos princípios verdadeiros basta a citação mais breve e mais óbvia
para. lembrar a insensibilidade à dor e ao medo. Por exemplo: O vento espalha as folhas pelo
“chão; assim as gerações humanas. . . º? São folhas os teus filhos, folhas também esses que em voz
alta lealmente te glorificam ou, pelo contrário, te amaldiçoam, ou então, em voz baixa, te censu-
ram ou escarnecem; folhas igualmente os que hão de recolher tua fama na posteridade. Pois todos
eles brotam na primavera;*? depois o vento os derruba; depois a selva cria outros em seu lugar.
A efemeridade ê comum a todas as coisas, mas tu a todas foges e a todas buscas como se
houvessem de existir eternamente. Em pouco cerrarás os olhos e quem te sepultar será logo por
sua vez pranteado por outro.
35. Um olho são deve ver tudo quanto é visível e não dizer quero o verde, que isso é de quem.
sofre de oftalmia. O ouvido e olfato sãos devem estar prontos para todo som e cheiro; o estômago
são deve comportar-se de modo igual para com todo alimento, como a mó para com tudo quanto
foi constituído para moer. Por conseguinte, a inteligência sã deve estar pronta para todos os even-
tos; mas aquela que diz: Que se salvem meus filhos e Louvem todos o que eu fizer é um olho em
busca do verde, ou dentes em busca de tenruras.
º1 Veja nota 11. — *2 Homero, Ilíada, VI, 147 e 149. — *3 Homero, Ilíada, VI, 148.
MEDITAÇÕES 32]
4
36: Ninguém é tão ditoso que à cabeceira de seu leito de morte não velem alguns jubilosos
com o triste acontecimento.
Era sisudo e sábio; no último momento haverá quem diga de si para consigo: “Vamos, afi-
nal, respirar livres desse pedagogo? Ele, de fato, não molestava a nenhum de nós, mas eu sentia
que, lá consigo, nos condenava”.
Isso a respeito do homem sisudo; quanto a nós, quantas outras razões para quererem muitos
livrar-se de nós. Pensarás nisso na hora da morte e partirás mais conformado, se refletires assim:
“Deixo uma vida de tal valor que os meus companheiros mesmos, por quem tanto lutei, tanto orei,
tanto me preocupei, são justamente os que desejam desfazer-se de mim, esperando daí quiçá algu-
ma outra folga”. Por que, pois, se haveria de ter apego a uma permanência mais longa aqui?
Nem por isso, todavia, tenhas ao partires, menos benevolência para com eles, mas, conser-
vando o teu caráter, sê amistoso, bondoso, caroável. Tampouco te vás como que arrancado; qual
acontece a quem tem uma boa morte, cuja alma deixa placidamente o envoltório do corpo, tal
deve ser tua partida dentre eles, porque com eles te prendeu e misturou a natureza.
— Mas agora desliga!
— Desligo-me como de parentes, mas não arrastado, nem com violência, pois é este tam-
bém um dos fatos conformes com a natureza.
37. Acostuma-te, quanto possível, cada vez que alguém pratica uma ação, a indagar de ti
para contigo: “A que refere ele esse ato?” Começa por ti mesmo e examina a ti mesmo em pri-
meiro lugar.
38. Lembra-te! Quem move o títere é aquele poder oculto em teu íntimo; a eloqiiência é ele,
a vida é ele, o homem, já que é mister dizê-lo, é ele. Não o envolvas na idéia, do invólucro que o
reveste e desses órgãos plasmados em redor. Porque eles são semelhantes a instrumentos, com a
única diferença de serem congênitos.
Com efeito, sem a causa que as move e freia, nenhuma dessas partes é mais útil que a lança-
deira à teceloa, o cálamo a quem escreve e o relho ao cocheiro.
Livro XI
1. Propriedades da alma racional: vê a si mesma, analisa a si mesma, molda-se como quer,
colhe ela própria os frutos que produz — pois os frutos das plantas e produtos análogos dos ani-
mais são outros que colhem —, alcança seu próprio fim, chegue quando chegar o termo da vida.
Não é como no bailado, no espetáculo cênico ou função congênere, onde a ação fica por acabar
quando algo a empece; em cada parte e no ponto onde for surpreendida, ela perfaz, completo e
“acabado, o seu propósito, podendo dizer: Eu recolho o que é meu.
Mais que isso, percorre o mundo todo, o espaço circundante e sua forma, penetra no infinito
do tempo, abarca a reprodução periódica do universo, considera todos os aspectos e verifica que
nada de novo verão nossos pósteros nem viram nada mais notável nossos predecessores, mas de
certo modo, por menos inteligência que tenha, o quarentão viu, em retrato, todo o passado e todo
o futuro.
Próprios da alma racional são também o amor do próximo, a verdade e o pudor, bem como
não dar a nada mais valor que a si mesma — o que é próprio também da lei. Assim, pois, nenhu-
ma diferença há entre a razão reta e a razão da justiça.
2. Desprezarás o deleite do canto, a dança, o pancrácio;” * a melodia, basta que a decompo-
nhas em cada uma das notas e perguntes a ti mesmo se não lhe resistes e te desenganarás; quanto
à dança, faze exame análogo de cada movimento ou parada; da mesma forma com o pancrácio.
Em suma, excetuada a virtude e seus efeitos, lembra-te de examinar a fundo os componentes
e por essa análise chegar ao desprezo; aplica o mesmo método à extensão toda da vida.
3. Que bela é a alma preparada para uma imediata separação do corpo, seja para se extin-
9* Os dicionários não registram o sentido que aqui tem o vocábulo: jogo atlético, que reunia luta e pugilato.
322 MARCO AURÉLIO
guir, seja para se dispersar ou sobreviver! Que essa preparação, porém, provenha de um juízo
próprio e não. dum simples sectarismo, como o dos cristãos; uma preparação raciocinada, grave
e, para ser convincente, nada teatral.
4. Realizei algo para o bem comum? Então tirei proveito. Que sempre tenhas presente esse
pensamento e jamais o abandones.
5. Qual o teu mister? O de ser bom. Como obter êxito nele, senão mediante o estudo, não
apenas da natureza universal, mas também da constituição própria do homem?
6. Primeiramente se representaram as tragédias; davam, com a sugestão dos aconteci-
mentos, a de que era de sua natureza assim acontecerem e que não vos deve magoar, na cena
maior, aquilo que, na do teatro, vos encanta. Vê-se, com efeito, que eles têm de realizar-se assim
e os sofrem mesmo aqueles que exclamam Ó Citerão !º 8 Outrossim, os dramaturgos oferecem
ensinamentos úteis; por exemplo, a célebre passagem: “Se os deuses $e descuidaram de mim e de
meus filhos, isso também tem sua razão” º º e a outra: “Não adianta agastar-se com as coisas”;*
ainda: “Segar a vida como espiga rica de grãos” ºº e tantas do mesmo teor.
Depois da tragédia, representou-se a comédia antiga; com sua franqueza instrutiva, através
de sua própria linguagem despeada, sugeria-nos, não sem proveito, a modéstia. Com intuito seme-
lhante é que Diógenes lhe adotou o estilo.
Depois da comédia antiga, a intermediária e por fim a nova; presta atenção ao propósito que
as inspirava, quando derivaram aos poucos para a imitação artística da vida. Que elas também
trazem ensinamentos úteis é fato reconhecido; porêm, em seu plano geral, semelhantes poesia e
dramaturgia a que alvo apontavam?
7. Quão claro se manifesta não existir na vida outra situação tão propícia ao cultivo da Filo-
sofia como esta em que te encontras agora! E
8. Não é possível podar um galho do galho vizinho sem podá-lo da árvore toda. Assim tam-
bém o homem que se aparta de um só homem desliga-se de toda a comunidade. O galho, todavia,
é podado por outrem; o homem por si mesmo se afasta do próximo, quando o odeia e lhe volta
as costas; não sabe que ao mesmo tempo se está amputando da sociedade toda.
Contudo, eis um dom de Zeus, que organizou a comunidade; temos a faculdade de nos reli-
gar ao próximo e integrar de novo no todo. Quando, porém, semelhante operação se amiúda, difi-
culta extremamente a reunião e reintegração do apartado.
Em suma, ao galho que desde o início vem crescendo e respirando junto com a árvore não
se compara o que foi podado e se tornou a enxertar, digam o que disserern os hortelãos.
Crescer no mesmo tronco, sim; adotar os mesmos princípios, não.
9. Os que te impedem de progredir segundo a reta razão, assim corno não te poderão desviar
da prática do bem, tampouco te arredem da bondade para com eles próprios. Ao invés, preserva
em ti mesmo estes dois propósitos igualmente: não só juízo e procedimento inabaláveis, mas tam-
bém indulgência com aqueles que intentem estorvar-te ou de outra maneira aborrecer-te.
Com efeito, tanta fraqueza haverá em te irritares com eles quanta em abandonares a ação e
capitulares de medo; são desertores equivalentes tanto quem se assusta como quem se alheia de
seu parente amigo por natureza.
10. Não há natureza inferior à arte, porquanto as artes imitam a natureza. Assim sendo, a
mais perfeita das naturezas e mais inteligente não pode ser superada pelo talento artístico. Todas
as artes produzem obras inferiores com vistas às superiores; portanto, o mesmo faz a natureza
comum. Eis aí a gênese da justiça e dela procedem as demais virtudes.
Com efeito, não se preservará a justiça se dissentirmos em coisas indiferentes, se nos deixar-
mos enganar facilmente, se formos temerários e volúveis.
11. Se não vêm para junto de ti as coisas que te inquietas buscando ou evitando e, de certo
º5 Como na tragédia, Édipo Rei, de Sófoclês. — º* Fragmento de Eurípides. — º”? Idem. — *?º Idem.
MEDITAÇÕES 323
“modo, tu é que vais ao seu encontro, basta se aquiete o teu juízo a seu respeito e elas ficarão imó-
“veis e não serás visto a buscá-las ou a evitá-las.
12. A esfera da alma permanece inalterável quando, sem se projetar para fora nem encolher
para dentro, sem se dispersar nem concentrar, brilha duma luz que lhe revela a verdade universal
e a que nela mesma reside.
13. Alguém me desprezará? O problema é seu. O meu é não ser surpreendido em ação e
palavras merecedoras de desprezo. Odiar-me-á? O problema é seu. De minha parte, serei benevo-
lente e bondoso para com todos e estarei até pronto a mostrar a ele mesmo o seu engano, não
insultando nem dando demonstração de minha constância, mas com nobreza e sinceridade, como
o célebre Focião,ºº se é que não fingia.
Cumpre sejam esses os sentimentos íntimos e vejam os deuses um homem que contra nada
se rebele e proteste. Que de mal haverá para ti, se, de teu lado, estás agora fazendo o que é próprio
de tua natureza, se dás boa acolhida ao que no momento é oportuno à natureza universal, como
homem que se esforça por realizar, de qualquer modo, o bem da comunidade?
14. Desprezam-se mutuamente, mas mutuamente se bajulam; querem dominar uns aos
outros, mas submetem-se uns aos outros.
15. Quão rançoso e falso quem diz: “Resolvi ser sincero contigo !? — Que fazes, homem?
Esse preâmbulo não se usa. A sinceridade se revela de pronto; deve estar gravada na fronte, soar
de imediato na voz, surgir de imediato nos olhos, como o ente amado tudo compreende de ime-
diato no olhar dos amantes.
Em suma, a singeleza e a bondade devem ser como a morrinha, que o vizinho sente, queira
ou não queira, logo ao chegar. Sinceridade deliberada é cutelo. Nada mais ignóbil que amizade de
lobo; foge dela mais que de tudo. O bom, o sincero, o amigo, trazem essas marcas nos olhos e dão
na vista.
16. Viver a mais bela vida; o poder de vivê-la reside na alma; basta manter-se indiferente às
coisas indiferentes. Será indiferente quem considerar cada uma em separado e no conjunto,
lembrando-se de que nenhuma cria em nós opinião a seu respeito nem vem até nós, mas que elas
se quedam imóveis e nós é que formamos juízo sobre elas e de certo modo o gravamos em nós
mesmos, quando podemos não só deixar de gravar mas também, caso se esconda algures, apagá-
lo imediatamente; bem assim, que tal cuidado será por pouco tempo e depois a vida terá cessado.
Que há, porém, de penoso em serem as coisas assim? Se são conformes com a natureza, ale-
gra-te com elas e te serão mais cômodas; se são contra a natureza, procura saber qual o mister
conforme com a tua natureza, dedica-te a ele, ainda que apagado; com quem quer que procure o
próprio bem, somos indulgentes.
17. Donde cada coisa procede; que elementos a constituem; no que se transforma; como
será depois de transformada; como nenhum mal sofrerá..
18. E em primeiro lugar: que relação tenho com eles? Fomos feitos uns em vista dos outros
e, sob outro ângulo, eu fui criado para juntar-me a eles, como o carneiro ao rebanho, o touro à
manada. Volta a partir do princípio que diz: Ou os átomos, ou a natureza regendo tudo. Nesse
caso, OS seres inferiores existem em vista dos superiores e estes em vista uns dos outros.
Em segundo: como procedem eles à mesa, na alcova, etc.; principalmente, que consegiências
necessárias de seus princípios dão por estabelecidas e com que soberba praticam esses mesmos
atos.
Em terceiro: se o fazem a justo título, não te deves irritar; senão, fazem-no evidentemente
sem querer e sem saber. Com efeito, nenhuma alma se priva da verdade por querer; tampouco de
3º General e político ateniense, ao tempo do domínio macedônio. Condenado à morte pelo tribunal popular,
sob acusação de traição, em idade avançada, ia conduzido ao suplício quando a seu encontro veio um amigo,
lastimando a indignidade da sentença. “Não foi surpresa”, respondeu, “esse foi o fim de muitos atenienses
ilustres.” ;
324 MARCO AURÉLIO
tratar cada coisa pelo que vale. Pelo menos, todos se indignam de serem chamados injustos, ingra-
tos, cobiçosos, numa palavra, faltosos para com o próximo.
Em quarto: tu próprio cometes muitas faltas e és como eles; embora te abstenhas de algu-
mas, tens, todavia, tendência a elas e é por temor, ambição de glória ou vício análogo, que evitas
pecados iguais.
Em quinto: nem sabes ao certo se eles pecam, pois muitas coisas acontecem em virtude de
um plano. Em síntese, há muito que indagar antes de poder pronunciar-se sobre atos alheios com
conhecimento de causa.
Em sexto — quando no auge duma indignação: a vida humana é um breve instante e dentro
em pouco todos estaremos estendidos.
Em sêtimo: o que nos molesta não são as ações deles — elas estão em seus guias —, são as
nossas opiniões. Suspende, pois, rejeita de boa mente a opinião de que houve agravo, e teu furor
passa. Como a suspenderás? Raciocinando que não há desonra, pois, se o único mal não fosse a
desonra, cometerias necessariamente muitas faltas, serias um salteador, capaz de tudo.
Em oitavo: quanto, em tais casos, de nossas iras e mágoas sofremos mais do que mesmo das
ações que nos irritam e magoam.
Em nono: a bondade é invencível, quando sincera, não de semblante e fingida. Que te fará o
maior dos insolentes, se te mantiveres bondoso para com ele, se, dada oportunidade, o aconse-
lhares com brandura e o instruíres com calma na mesma ocasião em que intenta causar-te mal?
— Não, filho, fomos nascidos para outro fim; quem vai sofrer o dano não sou eu, mas tu, meu
filho. Mostra-lhe, delicadamente e num sentido geral, que assim é, que esse não é o procedimento
nem das abelhas, nem de qualquer animal social por natureza. Tal advertência deve ser feita sem
ironia, nem afronta, mas com simpatia e de coração não ferido; não, porém, em tom de mestre-es-
cola, nem a fim de suscitar admiração dos circunstantes, e sim para ele só, embora estejam algu-
mas outras pessoas em redor.
Lembra-te desses nove preceitos capitais como se fossem presentes das Musas e começa,
enfim, a ser um homem, enquanto vives. Cumpre te gúardes, com igual cuidado, de te irares com
eles tanto como de os bajulares; uma e outra atitude são anti-sociais e prejudiciais. Nas tuas iras,
não esqueças que virilidade não é arrebatamento; a brandura e a serenidade, por serem mais pró-
prias de homem, são também mais viris; força, nervos e bravura tem quem possui aquelas virtudes
e não o agastado e incontentável. Quanto mais essa atitude se aproxima da impassibilidade tanto
mais perto está do vigor. Como a dor é própria do fraco, assim também a cólera; em uma e outra
há ferimento e capitulação.
Se quiseres, aceita uma décima dávida do chefe das Musas: !ºº “Não admitir que os maus
pequem é de insensato; é desejar o impossível; permitir sejam maus para com outros, mas não
admitir que pequem contra ti, é de néscio e de tirano”.
19. Deves guardar-te sem cessar principalmente de quatro corrupções de teu guia e, quando
as surpreenderes, apagá-las, dizendo a respeito de cada uma: Essa idéia não é necessária — Isso
é coisa que rompe os laços da comunidade — Isso não vais dizer de teu cabedal próprio; consi-
dera um dos maiores absurdos dizeres o que não seja de teu próprio cabedal.
A quarta corrupção é aquela pela qual aviltares a ti mesmo, que isso é a derrota e submissão
de tua parte mais divina ante a parte mais desprezível e mortal, a do corpo, e ante os prazeres
grosseiros deste.
20. Teu alento e todo elemento ígneo de tua constituição, muito embora tendam por natu-
reza a subir, obedecem, contudo, ao plano geral do universo e mantêm-se no seu lugar na compo-
sição. Igualmente tudo que há de terreno e aquoso em ti, embora tenda a descer, se ergue e apru-
ma numa postura que não lhe é natural.
Assim, pois, os elementos mesmos, uma vez postados no lugar, obedecem ao conjunto,
violentando-se para ali ficar até vir de lá o sinal da dissolução. Não é estranho que só tua parte
inteligente desobedeça e proteste contra o lugar a ela atribuído? Sem embargo, nenhum constran-
gimento lhe é imposto, apenas o que está de acordo com a sua natureza; ela, porém, não se con-
forma e tende ao oposto.
O movimento em direção às injustiças, à licença, às paixões, às dores e aos temores não
passa duma deserção da natureza. Também quando o guia se desgosta com algum acontecimento
19º O deus Apolo.
MEDITAÇÕES 325
está desertando o seu posto; ele não estã menos constituído para a piedade e temor dos deuses do
que para a justiça.
Com efeito, aquelas virtudes pertencem ao gênero da comunhão social e têm mais valor que
os atos de justiça.
21. “Ninguém pode ser um e o mesmo durante a vida toda, se o escopo de sua vida não é
sempre um e o mesmo.” Não basta dizer isso, sem acrescentar qual deve ser o escopo. Assim
como, embora divirjam as opiniões sobre tudo quanto o vulgo, por isto ou por aquilo, considera
como bens, concordamos, todavia, quanto a certos dentre eles, isto é, os de interesse comum,
assim também cumpre escolher como escopo o bem comum e social. Quem para ele orientar
todos os seus impulsos dará igualdade a todas as suas ações e, dessa maneira, será sempre o
mesmo.
22. O rato do mato e o caseiro; a timidez e fugacidade deste.
23. À crença popular na Lâmia 'º! Sócrates chamava espantalho de crianças.
24. Os lacedemônios, nas suas festividades, instalavam os forasteiros em bancos à sombra
e sentavam eles próprios em qualquer lugar.
25. Escusando-se ao convite do filho de Perdicas'º? para que o visitasse, Sócrates disse:
“Não quero acabar da maneira mais triste”; queria com isso significar o não poder retribuir os
favores recebidos.
26. Nos escritos dos efésios 'º* figurava o conselho de lembrar-se amiúde de um dos antigos
que praticavam a virtude.
27. Os pitagóricos recomendam olhemos de manha para o céu, a fim de nos lembrarmos dos
seres que cumprem seu mister sempre obedientes aos mesmos princípios e da mesma maneira, de
sua disciplina, sua pureza, sua nudez. Porque os astros não usam véu nenhum.
28. O aspecto de Sócrates cingindo um pelego, quando Xantipa 'º* saiu levando a sua
roupa, € O que disse aos companheiros que se retiraram envergonhados de vê-lo assim vestido.
29. Não poderá ser mestre na escrita e leitura sem ter sido antes aluno. Quanto menos na
vida!
30. “Nasceste escravo; não tens direito à palavra.”
>
31. “Cá dentro, o coração se pôs a rir.” "º*
32. “Condenarão a virtude em termos contundentes.” 1º €
33. “Procurar figos no inverno é de louco; igualmente procurar o filho quando não é mais
possfvel 0?
34. Quem beija um filhinho deve. ao que dizia Epicteto. murmurar no íntimo: “Talvez mor-
ras amanhã”. — É mau agouro! — “Agouro nenhum”, respondia, “e sim o enunciado dum fato
natural; aliás, seria também agouro dizer que foram colhidas as espigas.”
35. “Uva verde, uva madura, uva-passa”; tudo são mudanças, não para Oo não-ser, mas para
E pa ; ?
o que ainda não é.'
36. “Ladrão do livre arbítrio não existe.” É de Epicteto.
101 era ad 5 é à E
Monstro feminino, espécie de vampiro, que devorava homens e crianças; um bicho-papão.
'92 Perdicas, rei da Macedônia. — !ºº Habitantes de Éfeso. — !º* Mulher de Sócrates, famosa por seu
mau temperamento.
ae Homero, Odisséia, IX, 413. — 'ºº Hesíodo, Trabalhos e Dias, 186. — !º7 De Epicteto. —
Idem. E
356 MARCO AURÉLIO
37. “E mister”, disse ele, “descobrir a arte de anuir” 'ºº e, no capítulo sobre as iniciativas:
“Vigiar a atenção, para que haja nelas reserva, interesse comum, relação com o valor; abster-se
completamente de desejos e não nutrir aversão a nada do que não depende de nós”.
38. “Não discutimos”, disse ele, “um tema qualquer, mas se estamos loucos ou não.” "'º
39. Sócrates dizia: “Que desejais? Ter almas de seres racionais ou de irracionais? — De
racionais. — De quais seres racionais? Dos sãos ou dos doentes? — Dos sãos. — Por que, pois,
não procurais tê-las? — Porque já as temos. — Então, por que brigais e disputais?”
Livro XII
I. Podes ter desde já tudo aquilo que anelas atingir, por um rodeio, se não . quiseres mal a
ti mesmo; quero dizer: se puseres de lado todo o passado, se entregares o futuro à Providência e
orientares o presente unicamente no sentido da piedade e da justiça; da piedade, para amares o teu
quinhão, pois a natureza o destinava para ti e te destinava para ele; de justiça, para dizeres a ver-
dade livremente, sem circunlóquios, e obrares segundo a lei e o mérito. Que não te empeçam a
maldade, a opinião e a palavra alheias, nem as sensações do bocado de carne crescido em tomo
de ti; se lhe dói, isso é com ele.
Se, pois, quando for o momento de partires, deres atenção apenas a teu guia e ao que há de
divino em ti, deixando para trás tudo mais; se o que temos não é cessar de viver um dia e sim não
começar nunca a viver segundo tua natureza, serás um homem digno do mundo que te gerou, dei-
xarás de ser um estrangeiro em tua pátria, de estranhar como inesperados os acontecimentos: de
cada dia e de depender disto e daquilo.
2. Deus vê todos os guias despidos do invólucro material, das cascas e impurezas; exclusiva-
mente com sua inteligência atinge apenas aquilo que dele emanou e se canalizou para aqueles
seres.
Se tu também te acostumares a fazer o mesmo, livrar-te-ás dos excessivos afãs. Quem não dá
atenção às carnes que o envolvem perderá o tempo em cuidar de roupas, moradia, fama e quejan-
dos indumentos e aparato?
3. Três são os elementos de que és constituído: o corpo, o alento, a mente. Os dois primeiros
são teus na medida em que te compete cuidar deles; só o terceiro é teu na acepção da palavra.
Se removeres de ti, isto é, de teu pensamento, tudo quanto fazem ou dizem os outros, ou
fizeste ou disseste tu mesmo, tudo quanto, como futuro, te perturba, tudo quanto trazes quer no
corpo que te envolve, quer no alento unido a ti por natureza, não dependente de teu arbítrio, bem
como tudo quanto revolve o turbilhão exterior em seu giro, para que, liberta das contingências de
sua sorte, a faculdade inteligente viva pura, desligada e recolhida em si, praticando a justiça, aco-
lhendo os acontecimentos e dizendo a verdade — se, digo, removeres daquele guia o que as pai-
xões lhe pegaram e, do tempo, o porvir e o passado; se fizeres de ti, no dizer de Empédocles,'""
uma esfera perfeita, ufana da estabilidade a girar, e cuidares de viver apenas o que estás vivendo,
ou seja, o presente, poderás passar o tempo que resta até a morte de maneira calma, benevolente
e favorável ao teu nume.
4. Admira-me muitas vezes como cada um, embora ame a si mesmo acima de todos, dá
menos valor à sua opinião a seu respeito que à dos outros.
Por certo, se, de um deus que aparecesse, ou de um sábio mestre, alguém recebesse a ordem
de nada refletir nem meditar de si para consigo sem, ao mesmo tempo, exprimi-lo em voz alta, não
suportaria a imposição sequer por um só dia, a tal ponto respeitamos mais o que pensará de nós
o próximo do que a nossa própria opinião.
5. Os deuses, que tudo dispuseram com sabedoria e bondade para com o homem, como
puderam negligenciar apenas o fato de que algumas pessoas absolutamente virtuosas, após inúme-
10º De Epiteto — 1º Idem. — !!1 Veja nota 82.
MEDITAÇÕES 327
ras alianças, por assim dizer, pactuadas com a divindade e dela por mui longo tempo se tornarem
familiares por meio de obras pias e sacrifícios, uma vez mortas já não voltam a existir e se extin-
guem completamente? Se assim se passam as coisas,.podes estar certo de que, se pudesse ser dife-
rente, eles o fariam. Se fora justo, seria também possível; se fora conforme com a natureza, esta
o acarretaria. O fato de assim não ser, se deveras assim não é, basta para convencer-te de que
assim não deve ser.
Vês tu mesmo que com essa especulação entras a contender com a divindade; ora, não
argumentaríamos assim com os deuses, não fossem eles sumamente bons e justos. Posto isso,
nenhuma negligência injusta houve de sua parte, nenhum descuido absurdo no arranjo do mundo.
6. Acostuma-te até com o que te custa. A mão esquerda, tão remissa no mais, por falta de
hábito, governa as rédeas com mais força que a direita, por estar acostumada.
7. Em que disposições, de corpo e de alma, devemos aguardar que a morte nos surpreenda;
a brevidade da vida, a imensidade do tempo antes de nós e depois de nós, a debilidade de toda
matéria.
8. Contemplar as causas formais limpas de escória; as relações finais dos atos; o que é a
dor; o que é o prazer; o que é a morte; o que é a glória; quem o causador de seus próprios afãs;
como ninguém é obstado por outrem; que tudo é opinião.
9. No uso dos princípios devemos ser como o pugilista e não como o gladiador; a este basta
largar a espada que maneja e está morto; aquele tem sempre a mão e não precisa mais do que
fechá-la. |
10. Ver o que são as coisas em si, distinguindo matéria, causa, fim.
11. Que admirável poder tem o homem de não fazer senão o que a divindade haja de apro-
var, e de aceitar todo quinhão que a divindade lhe destine!
12. Do que decorre da natureza não devemos culpar os deuses — pois não pecam por que-
rer nem sem querer — nem os homens — pois não pecam jamais por querer. Logo, não devemos
culpar ninguém.
13. Quão ridículo e estranho quem se admira seja do que for que acontece na vida!
14. Ou um destino ineludível e uma ordem inflexível, ou uma providência compassiva, ou
ainda caos sem regras, ao sabor do acaso. Se há um destino inflexível, para que opor-me? Se uma
providência acessível à compaixão, torna-te digno do socorro divino. Se um caos anarquizado,
dá-te por feliz por teres em ti mesmo, em meio a tal vagalhão, uma inteligência dirigente. Se o
vagalhão te arrebata, que arraste a tua carne, o teu alento e o mais; a mente ele não arrebatará.
15. Se a luz da candeia alumia e conserva o brilho até que a apaguem, hão de apagar-se
antes da hora a verdade, a justiça e a temperança em ti?
16. Quando tens a impressão de que alguém pecou: “Ele condenou a si mesmo e assim a
como se esgatanhasse o próprio rosto”.
Quem não admite que os maus pequem é comparável a quem não quer que a figueira produ-
za O suco nos figos, que recém-nascidos chorem, que o cavalo rinche e todos os outros fatos inevi-
táveis. Que será de ti se tens semelhante temperamento? Se és nervoso, cura-te.
17. Se não convém, não faças; se não é verdade, não digas. Que a iniciativa seja tua.
18. Em todos os casos, vê sempre o que é em si mesmo aquilo que produz em ti aquela idéia
e explica-o, distinguindo a matéria, o fim, o prazo dentro do qual terá de cessar.
19. Compreende, afinal, que há em ti algo mais forte e divino do que as causas das tuas pai-
xões e, numa palavra, do que os motivos que te titereiam. Que tenho agora no pensamento?
Medo? Suspeita? Cobiça? Algo semelhante?
328 MARCO AURÉLIO !
20. Primeiro: nada ao acaso, nem sem propósito. Segundo: não ter em mira outra coisa
senão a finalidade social.
21. Dentro em pouco não serás ninguém em parte alguma e bem assim tudo quanto vês e
todos quantos estão vivos hoje. Tudo é por natureza feito para transformar-se, mudar, perecer, a
fim de se produzirem em seguida outros seres.
22. Tudo ê opinião e esta de ti depende. Suprime, pois, a opinião quando queiras e, como se
tivesses dobrado um cabo, tudo será calma e quietude numa enseada mansa.
23. Uma atividade qualquer, que cessa no devido tempo, nenhum dano padece com a cessa-
ção; tampouco padece algum dano o autor daquela ação com o fato mesmo de ter ela cessado. De
igual maneira, o conjunto de todas as ações, que é a vida, se cessar no devido tempo, nenhum
dano padecerá do fato mesmo de cessar; tampouco sofre quem pôs termo a essa cadeia no tempo
certo.
Quem dita o tempo certo e o limite é a natureza; às vezes, a natureza particular, quando na
velhice, mas sempre a universal, pela transformação de cujas partes o mundo todo se mantém
perenemente novo e em pleno vigor da idade.
Tudo que convém ao todo é sempre belo e de vez. A cessação da vida, individualmente, não
é um mal, posto que não é vergonhosa, por não ser de livre escolha, nem oposta ao bem comum;
é um bem, porque oportuna ao todo, conveniente e trazida no movimento geral. Assim, é condu-
zido pela divindade quem, pela reflexão, se conduz pelas mesmas forças e aos mesmos fins que a
divindade.
24. Cumpre ter presentes estas três considerações: naquilo que fazes, não atuares ao acaso
ou de maneira diversa da que o teria realizado a justiça; nos acontecimentos vindos de fora, serem
obra ou do acaso ou da Providência, não se devendo acusar o acaso nem culpar a Providência;
segunda: o que é cada um desde a geração até ser animado e desde que é animado até devolver
a alma, bem como de quais elementos foi composto e em quais se dissolverá; terceira: se, elevado
de repente às alturas, observares a vida dos homens e sua diversidade, tu os desprezarás, ao veres,
ao mesmo tempo, em torno, a imensidade, mundo dos seres que habitam o ar e o éter; e, ainda,
quantas vezes te elevasses, verias as mesmas coisas, sua uniformidade, sua curta duração. E disso
se nutre o orgulho !
25. Alija a opinião e estás salvo. Quem impede que a alijes?
26. Se te custa suportar alguma coisa, é por esqueceres que tudo ocorre de acordo com a
natureza universal; que a falta não é tua; ademais, que tudo que ocorre sempre ocorreu assim,
sempre ocorrerá e está ocorrendo agora em toda parte; que um parentesco próximo liga o homem
a todo o gênero humano, não pelo sangue ou pela semente, mas pela comunhão da inteligência.
Esqueces também que a inteligência individual é uma divindade e emaúou de lá; que nada é
particular a ninguém, mas seu filho, seu corpo, seu alento mesmo provieram de /á; que tudo é opi-
nião; que cada um só vive o presente e só perde este.
27. Meditar assiduamente sobre aqueles que se exacerbaram ao extremo por alguma causa,
sobre aqueles que atingiram o fastígio das mais altas honras ou desditas, ou ódios, ou quaisquer
vicissitudes; depois, refletir: Que é feito de tudo isso? Fumo, cinza, lenda, ou sequer lenda.
Acudam à tua memória também todos os casos semelhantes, como o de Fábio Catulino no
campo, de Lúsio Lupo nos jardins, de Estertínio!"? em Baias,''? de Tibério em Capri,'!* de
Vélio Rufo, em suma, a excentricidade em qualquer sentido unida a uma presunção; quão ignó-
beis todos esses esforços e quão mais filosófico mostrar-nos, quando se nos depara matéria, jus-
112 Personagens desconhecidas, salvo Tibério, segundo imperador de Roma.
"º Baias, cidade da Campânia, fregientada por suas termas, onde muitos romanos tinham suas vilas.
!1* À ilha de Capri se retirou o imperador Tibério, na velhice, para cultivar ali mais comodamente os seus
horrendos vícios.
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MEDITAÇÕES 329
tos, temperantes, obedientes aos deuses simplesmente. Porque nada é mais insuportável que o
orgulho impando sob a capa da modéstia.
28. Aos que perguntam onde viste os deuses ou quando ente que existem, para os
adorares: primeiro, eles são visíveis a nossos olhos; depois, ora; “tampouco vi minha própria alma,
sem embargo, respeito-a. Assim também quanto aos deusés; das provas que tenho, em todo
momento, de seu poder, dE suao: que existem e venero-os:
29. A salvação da vida atá em ver a fundo o que é cada ser em si, qual sua matéria, qual
a causa formal. Praticar do fundo da alma a justiça e dizer a verdade. Que mais, senão aproveitar
a vida encadeando um bem a outro, de maneira que não fique o mais breve intervalo?
30. Uma é a luz do sol, embora a dividam muros, montanhas, milhares de outros obstáculos.
Uma é a substância comum, embora a dividam milhares de corpos individuais. Uma é a alma,
embora a dividam milhares de naturezas e contornos individuais. Uma é a alma inteligente, embo-
ra se afigure repartida.
As demais partes dos seres referidos, como o alento e as coisas perceptíveis, entre si são
desconhecidas e alheias; não obstante, liga-as o princípio unificador e a gravidade que sobre elas
pesa; a inteligência, porém, tem a prerrogativa de ser atraída pelo seu semelhante, de compor-se
com ele, e seu sentido de socialidade não encontra empecilhos.
31. Que mais procuras? O subsistir? Não, mas sentir, ter impulsos, crescer, morrer outra
vez, usar da palavra, pensar? Que achas aí de que valha a pena ter saudade? Mas se cada uma
dessas faculdades é assaz desprezível, aplica-te, afinal, a seguir a razão e a divindade. Bem, entre
a estima desses bens e a mágoa de perdê-los com a morte há um conflito.
32. Que fração do tempo infinito e imenso foi atribuída a cada um? Em breve, com efeito,
desaparecerá no nada. Que fração da substância universal? Que fração da alma universal? De
que tamanho é a pelota de terra em que rastejas?
Refletindo em tudo isso, a nada atribuas mais importância do que a agir segundo te induz a
tua natureza e a sentir conforme a natureza comum acarreta.
33. Como se comporta o teu guia? Nisso está tudo. O resto, quer de teu arbítrio, quer não,
é cadáver e fumo.
34. O maior estímulo ao desprezo da morte é a idéia de que mesmo aqueles que vêem no
prazer o bem e na dor o mal, não obstante, a desprezam.
35. Aquele que só vê o bem no que acontece no tempo devido a quem tanto faz executar
muitas ações conformes com a reta razão quanto poucas, a quem é indiferente contemplar o
mundo por mais ou por menos tempo, esse nada teme, nem a morte.
36. Homem, foste cidadão nesta grande cidade. Que te importa se foi por cinco anos? O que
é conforme as leis é igual para todos. Que há de estranho em seres despedido da cidade não por
um tirano, nem por um juiz iníquo, mas pela natureza que nela te fez entrar? É como se o pretor
despedisse do teatro o comediante por ele contratado.
— Porêm, não representei os cinco atos, mas apenas três!
— Disseste bem; na vida, os três atos completam o drama. Quem fixa o final é o mesmo que
foi, outrora, autor da composição e é, agora, o da dissolução; tu não és o autor desta nem daque-
la. Sê, pois, caroável ao partires, porque caroável também é quem te despede.
Este livro integra a coleção
OS PENSADORES — HISTÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL
Composto e impresso nas oficinas da
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